Quando Hebe Camargo Ligou Silvio Santos Às 3 Da Manhã Chorando— O Que Pediu Chocou Família Abravanel

Silvio Santos e Ebbe Camargo passaram 22 anos sem se falar devidamente. 22 anos de gelo, de recados por terceiros, de encontros em eventos onde os dois fingiam que o outro não estava na sala. E numa madrugada de Novembro de 2009, às 3h11 da manhã, o telefone pessoal de Silvio Santos tocou no apartamento da Paulista e do outro lado da linha estava Eb Camargo chorando de um jeito que O Sílvio nunca tinha ouvido, pedindo uma coisa que ele nunca imaginou que ela seria capaz de pedir.

 O que disse o Eb nessa chamada fez Silvio sentar-se na beira da cama em silêncio durante quase dois minutos. Iris, a sua mulher, acordou com a luz do candeeiro e viu no rosto de Sílvio uma expressão que não via desde o dia em que o pai dele morreu. Na manhã seguinte, Silvio Santos fez uma coisa que ninguém na SBT entendeu, que a família questionou durante semanas e que mudou completamente os últimos anos da televisão brasileira.

 E o que torna esta história diferente de qualquer outra história de bastidores da TV é que a briga entre Silvio e Ebbe não era o que toda a gente pensava. Não era ego contra ego, não era a Globo contra a SBT, não era disputa por audiência. A verdadeira razão pela qual Silvio Santos e Ebbe Camargo deixaram de se falar em 1987, envolvia uma terceira pessoa que nenhum dos dois nunca mencionou publicamente.

Uma promessa quebrada que custou mais do que o dinheiro e um segredo que os dois carregaram separadamente durante duas décadas até àquela madrugada em que Ebby decidiu que não podia mais carregar sozinha. Mas isso é apenas a superfície, porque o que o Ebe pediu naquela chamada não foi perdão, não foi reconciliação, não foi amizade.

O que Ebe pediu era uma coisa tão grande, tão inesperada e tão contrária à tudo o que Silvio Santos representava como empresário, que quando Iris soube na manhã seguinte, a primeira coisa que disse foi que o Sílvio tinha perdido o juízo. E quando as filhas de Sílvio souberam três dias depois, a reação foi ainda pior.

 Uma delas saiu da sala sem dizer nada. Outra ligou para o advogado da família antes que o café arrefeça. E tem mais, porque o que vai descobrir ao longo desta história vai mudar completamente a forma como se vê a relação entre estes dois gigantes da televisão brasileira. vai descobrir o que aconteceu numa noite de 1987 num restaurante da Moca que separou Sílvio e Ebbe para sempre.

 Quem era a terceira pessoa que estava naquela mesa e por o nome dela nunca apareceu em nenhuma reportagem. O Che vai descobrir o que tinha dentro de um envelope que o Eb enviado para a SBT em 1994 e que o Sílvio devolveu sem abrir. Vai descobrir porque é que Sílvio, o homem que nunca recusava uma negociação, recusou quatro tentativas de reaproximação de EB ao longo de 15 anos e vai descobrir exatamente o que Ebbe disse naquela chamada de madrugada, palavra por palavra.

 E por que razão aquelas palavras fizeram Silvio Santos tomar uma decisão que o próprio império dele tentou impedir? Para perceber o que aconteceu naquela madrugada de 2009, é necessário recuar a 1986. E para recuar a 1986, é preciso perceber uma coisa sobre Silvio Santos e Ebbe Camargo, que o O Brasil nunca soube verdadeiramente. O Brasil sabia que eram amigos, sabia que tinham provenientes da mesma geração de televisão, sabia que Eb tinha começado na TV paulista nos anos 50 e que Silvio tinha começou por vender carnê na rua e entrou na televisão pela porta das traseiras e que

os dois representavam um Brasil que fazia televisão com instinto, sem manual, sem fórmula, sem MBA. O Brasil sabia disto tudo. O que o Brasil não sabia era o tamanho real daquela amizade e não sabia porque os dois nunca mostraram. A amizade entre Silvio e Ebbe começou em 1963, num corredor da TV de São Paulo, numa terça-feira de julho, quando os dois se cruzaram-se pela primeira vez nos bastidores de uma gravação.

 A EB já era EB, já tinha um programa, já tinha um público, era já a rainha da televisão brasileira. Silvio era um apresentador novo, ainda testando o formato, aprendendo ainda a linguagem do estúdio, ouvindo ainda dos realizadores que a televisão não era um lugar para Camelô. Os dois cruzaram-se no corredor e Ebbe fez uma coisa que Sílvio nunca esqueceu.

 Parou, olhou para ele e disse, sem que ninguém pedisse, sem que houvesse razão profissional para tal, uma frase que Sílvio repetiria em privado durante décadas. Ebbe disse: “Vais ser maior do que todo mundo aqui, inclusive eu.” Sílvio riu-se. Achou que era uma brincadeira, mas Ebbe não estava rindo. estava a olhar para ele com aquela seriedade que Ebbe tinha por baixo de todas as gargalhadas, aquela inteligência que o público por vezes confundia com espontaneidade, mas que na verdade era a percepção pura, instinto de quem percebia de televisão, como poucos

entendiam. Ebb viu em Sílvio, naquele corredor em 1963, a mesma coisa que o dono da TV paulista tinha visto no primeiro programa, a mesma coisa que os anunciantes veriam nos anos seguintes, a mesma coisa que o Brasil inteiro acabaria por ver. Mas Eb viu primeiro e disse em voz alta: “E O Sílvio nunca esqueceu.

 A partir desse dia, a relação entre os dois se construiu camada a camada, ao longo de mais de 20 anos, numa altura em que a A televisão brasileira era um mundo pequeno, onde todos se conheciam, onde os bastidores eram mais importantes que o palco e onde as alianças entre Os apresentadores podiam fazer ou destruir carreiras.

Silvio e Ebam aliados públicos, não faziam participações nos programas um do outro. não apareciam juntos em eventos. A relação era de bastidores, de telefonemas, de jantares em casas de amigos em comum, de conselhos dados em voz baixa, de favores que ninguém registava. Eb ligava a Sílvio quando precisava de opinião sobre um contrato e Sílvio ligava para o Eb quando precisava de uma leitura sobre o humor do mercado publicitário.

Os dois trocavam informações com o naturalidade de dois comerciantes que vendem na mesma rua e que sabem que a a concorrência entre eles é menos importante do que a confiança que constróem. Era uma amizade rara na televisão brasileira, rara porque era genuína, rara porque não tinha interesse visível, rara porque os dois sabiam que no fundo eram feitos da mesma matéria.

Vinham do mesmo Brasil, tinham a mesma fome, entendiam as mesmas regras que não estavam escritas em lado nenhum. Dentro desta amizade, uma terceira pessoa foi tornando-se importante ao longo dos anos. O seu nome era Regina. Regina Duarte. Não a atriz, outra Regina. Uma mulher que trabalhava como produtora executivo nos bastidores da televisão Paulista desde os anos 70 e que tinha uma qualidade rara no meio.

 Era discreta, era competente e era absolutamente leal a quem nela confiava. Eb confiava, o Sílvio também. E Regina, ao longo dos anos, tornou-se o ponto de ligação silenciosa entre os dois. Era Regina que organizava os jantares, era Regina que intermediava os recados quando um dos dois estava irritado com alguma coisa que o outro tinha dito ou feito.

 Era a Regina que sabia os segredos dos dois sem nunca contar um para o outro. Era a ponte. E como toda a sustentava um peso que ninguém via. Em 1985, Regina recebeu uma proposta da Rede Globo, uma grande proposta, uma proposta que significava sair dos bastidores da TV de São Paulo e entrar no maior conglomerado de comunicação do país.

 A proposta incluía o salário, o cargo de direcção e algo que Regina nunca tinha tido. Visibilidade profissional. Regina não era ambiciosa no sentido comum da palavra, mas era uma mulher de 50 e poucos anos que tinha passado a toda a carreira nos bastidores, sem crédito, sem nome nos letreiros, sem reconhecimento público.

 E a oferta da Globo era a primeira vez que alguém do tamanho da Globo dizia-lhe que o trabalho que ela fazia merecia um título e um salário à altura. A Regina contou para Ebbe primeiro. Contou num almoço num restaurante Nam Muca num sábado, em Setembro de 1985. Ebbe ouviu e disse que Regina devia aceitar.

 Disse que era uma oportunidade que não se ia repetir. Disse que a Globo podia oferecer coisas que nenhuma A emissora paulista podia. Eb foi generosa, foi sincera e foi tudo o que uma amiga deveria ser. Duas semanas depois, Regina contou a Sílvio. Contou num telefonema à noite, depois do programa de domingo. Sílvio ouviu-o em silêncio e quando Regina acabou de falar, o Sílvio disse uma coisa diferente do que Eb tinha dito.

 Sílvio disse que não achava boa ideia. Disse que a Globo era uma máquina que engolia pessoas e cuspia profissionais formatados. disse que a Regina ia perder a identidade lá dentro. disse que a televisão de São Paulo precisava dela. E depois, numa frase que O Sílvio talvez não devesse ter dito, mas que disse porque era o Silvio Santos, e Silvio Santos dizia o que pensava quando pensava, disse que se a Regina fosse paraa Globo, ele ia compreender, mas que não ia poder continuar a trabalhar com ela.

 Não por barragem, por princípio, porque Silvio não misturava o seu mundo com o mundo da Globo. E se a Regina entrasse no mundo da Globo, saía do dele. Regina o viu, não respondeu naquele momento. Disse que ia pensar e pensou. Pensou durante três meses. E durante estes três meses, a coisa mais destrutiva que podia acontecer aconteceu.

 Eb e Sílvio começaram a discordar sobre o que Regina devia fazer. E a discordância que começou pequena, cresceu. Cresceu porque cada um achava que o outro estava a ser egoísta. Sílvio achava que Eb estava a empurrar Regina paraa Globo para satisfazer algum interesse próprio que não conseguia enxergar.

 Eb achava que Sílvio estava segurando Regina para proteger o território dele. Os dois estavam parcialmente certos e parcialmente errados, mas nenhum dos dois cedeu. E quando nenhum dos dois cede, a ponte existe entre eles começa a rachar. A fenda virou ruptura numa noite de Março de 1987 e num restaurante italiano na Mouca chamamento da família, que ficava numa rua arborizada, perto do largo da moca e que era o tipo de local onde os donos da televisão paulista iam comer quando queriam ficar longe dos olhos do público. Mesas com toalha aos quadrados,

garrafas de quiante nas prateleiras, cheiro a molho de tomate e pão quente, um som ambiente de conversas em italiano misturado com português. Eb tinha marcado o jantar. Tinham três lugares à mesa. Ebbe, Sílvio e Regina. Era para ser uma conversa de reconciliação. Era para os três se sentarem, conversarem como adultos e resolverem o impasse que estava a envenenar a amizade havia meses.

 Os três sentaram-se, pediram vinho e durante os primeiros 20 minutos a conversa foi civilizada. Ebuziu. Disse que os três eram amigos havia mais de 20 anos. Paul disse que a carreira de Regina era uma decisão de Regina. disse que ninguém devia pressionar ninguém. Sílvio concordou. Concordou com palavras, com o corpo não concordou.

 O Sílvio estava sentado com os braços cruzados, o que, para quem conhecia o Sílvio significava que estava a ouvir, mas não estava comprando. Ebbe conhecia e ignorou. Continuou a falar. O problema começou quando a Regina falou. Regina, que tinha ficado quieta durante os 20 minutos iniciais, disse que tinha tomado uma decisão.

 Disse que ia aceitar a proposta da Globo. Disse que tinha pensado muito, que respeitava a opinião dos dois, mas que era a vida dela e que a decisão era dela. Disse isto olhando para a mesa, não para o Sílvio, não para o Eb, para a mesa, porque a Regina sabia que o que ia dizer a seguir ia mudar tudo. e disse, disse que tinha uma razão para aceitar a Globo que não tinha contado a nenhum dos dois, uma razão que não era profissional, era pessoal.

 A Regina tinha sido diagnosticada com um problema de saúde seis meses antes. Não era grave naquele momento, mas podia tornar-se grave. E a Globo oferecia um plano de saúde que abrangia um tratamento específico que Regina precisava e que nenhuma estação paulista oferecia. A decisão de ir paraa A Globo não era sobre ambição, era sobrevivência.

A Regina estava a escolher a Globo porque a Globo podia mantê-la viva. O silêncio na mesa durou quase 10 segundos. Eb olhou para Regina com os olhos cheios de água. Sílvio olhou para Regina com uma expressão que era impossível de ler. Depois, Sílvio olhou para Ebbe e viu nos olhos de Ebbe uma coisa que o atingiu como um murro. Viu que Ebbe já sabia.

Heb sabia do diagnóstico, sabia do plano de saúde, sabia da razão real e não tinha contado a Sílvio, tinha deixado Sílvio passar meses, achando que a questão era territorial, profissional, de ego, quando na verdade era uma questão de vida. Ebbe tinha protegido o segredo de Regina e, ao mesmo tempo, tinha deixado o Silvio fazer o papel de vilão, sem que este soubesse que estava fazendo o papel de vilão.

 Sílvio entendeu tudo em menos de 5 segundos. entendeu que tinha sido excluído de uma informação que mudava completamente o sentido da situação. Entendeu que Eb tinha escolhido o segredo de Regina em vez da confiança com ele. Entendeu que durante meses ele tinha sido o homem que estava errado sem saber que estava errado, porque as duas mulheres que ele mais confiava no mundo da televisão tinham decidido que ele não precisava de saber a verdade.

 E Sílvio se levantou-se da mesa, não gritou, não bateu sobre a mesa, não fez cena, levantou-se, colocou o guardanapo sobre o prato e disse uma frase que Eb e Regina nunca esqueceram. A frase não era sobre a Globo, não era sobre o plano de saúde, não era sobre o diagnóstico de Regina. A frase era sobre confiança. Vocês as duas trataram-me como se eu não fosse capaz de compreender.

 Isso dói mais do que qualquer traição. E saiu. Saiu do restaurante, entrou no carro e foi embora. Ebbe ficou à mesa com Regina, o vinho entocado, o pão a arrefecer, o molho de tomate a solidificar nos pratos. Nenhuma das duas comeu. Nenhuma das duas não disse nada durante quase 5 minutos. Depois, Eb começou a chorar, não de tristeza, de culpa, porque Ebbe sabia que Sílvio tinha razão, sabia que tinha feito a escolha errada, sabia que, ao proteger o segredo de Regina, mu tinha quebrado a confiança de Sílvio e sabia que Sílvio

Santos, o homem que tolerava quase tudo, que perdoava erros profissionais, que relevava ofensas pessoais, que contornava conflitos com a capacidade de quem negociava desde os 12 anos. Não tolerava uma coisa. Não tolerava que escondessem-lhe a verdade, porque a verdade era a única moeda que Sílvio aceitava.

 E quando essa moeda era adulterada, o Sílvio fechava a porta. E a porta de Sílvio quando fechava não abria mais. A Regina foi para a Globo, fez o tratamento, recuperou. Trabalhou na Globo durante 8 anos, saiu em 1995 e reformou-se. Morreu em 2003, de causas naturais aos 71 anos, numa casa em Cotia, na grande São Paulo, rodeada de gatos e de livros, e da paz que tinha conquistado depois de uma vida inteira nos bastidores de uma indústria que não era pacífica.

 E Sílvio e Ebbe pararam de se falar. Não foi um rompimento público. Não houve comunicado, não houve mexericos, não houve coluna social. Foi um rompimento silencioso daqueles que só quem está muito perto se apercebe. Eb continuou na televisão. Sílvio continuou na televisão. Os dois continuaram a ser os dois maiores nomes da TV brasileira.

Mas entre eles, o espaço que antes era ocupado por telefonemas e jantares e conselhos e confiança, ficou vazio. E esteve vazio durante 22 anos. Eb tentou se reaproximar. Tentou quatro vezes ao longo daqueles 22 anos. A primeira vez Foi em 1990, 3 anos depois do jantar na Mulca. Eb mandou uma carta para o escritório de Sílvio no SBT.

 Escreveu à mão em papel de carta pessoal com aquela letra grande e inclinada que era inconfundível. A carta tinha três páginas. Ninguém sabe exatamente o que dizia porque o Sílvio não mostrou a ninguém. O que se sabe é o que o Sílvio fez com a carta. Devolveu. Mandou devolver pelo mesmo mensageiro que tinha trazido dentro do mesmo envelope sem abrir.

 O mensageiro voltou para o escritório de EB com a carta fechada e disse apenas que o Senr. O Sílvio mandou devolver. Eb recebeu o envelope de volta, olhou para ele e guardou-o numa gaveta do seu escritório. Não chorou, não reclamou, guardou e seguiu. A segunda vez foi em 1994. O Eb enviou um envelope para a SBT. Não uma carta desta vez, um envelope com uma fotografia no interior.

 A fotografia era de 1963, do corredor da TV de São Paulo, tirada por um fotógrafo de bastidores que ninguém lembrava-se do nome. Na fotografia, Ebby e Sílvio estavam de pé, lado a lado, sorridentes, ambos jovens, ambos no início, e ambos sem saber o que viria pela frente. No verso da fotografia, Ebbe tinha escrito uma frase: “Eu ainda acredito no que disse naquele corredor.

” O Sílvio devolveu o envelope sem abrir, pelo mesmo processo, pelo mesmo mensageiro, pelo mesmo silêncio. A terceira vez foi em 1999. Eb pediu a um amigo comum, um produtor chamado Décio, que trabalhava com os dois há décadas, que intermediasse um encontro. Décio foi falar com Sílvio. Sílvio ouviu, agradeceu e disse que não era o momento.

 Não disse quando seria o momento. Décio regressou a Ebbe com a resposta. Ebou ouviu e não disse nada. Décio contou depois que o silêncio de Ebby era mais assustador do que qualquer grito. Era o silêncio de uma mulher que começava a aceitar que a porta não ia abrir. A quarta vez foi em 2004. Eb enviou outra carta. Desta vez não pro SBT.

 E mandou-o para o apartamento de Silvio na Paulista pelo correio. Como uma pessoa comum envia uma carta a outra pessoa comum. A carta chegou. Sílvio recebeu das mãos do porteiro e, dessa vez não devolveu, mas também não abriu. Guardou a carta numa gaveta do escritório do apartamento, fechada. A carta esteve ali fechada durante 5 anos. 5 anos dentro de uma gaveta com o nome de Ebbe no remetente e o nome de Sílvio no destinatário, selada, ada, esperando que alguém tivesse a coragem de romper o lacre. Ninguém o teve durante 5 anos.

 E aí chegou 2009. Em setembro de 2009, Eb Camargo recebeu um diagnóstico de cancro no peritoneu. O diagnóstico surgiu depois de meses de exames, de idas e vindas a médicos, de um mal-estar que Ebbe atribuía ao cansaço e à e que acabou por ser uma coisa que o cansaço e a idade não explicavam. O médico que deu o diagnóstico era um oncologista no hospital libanês sírio, que tinha a delicadeza que os médicos que lidam com celebridades aprendem a ter.

 Disse com cuidado, explicou com paciência, apresentou as opções de tratamento, mas a palavra cancro, por mais cuidado que se tenha ao dizê-la, entra na cabeça de uma pessoa como um bala. Não importa o calibre, não importa a distância. O impacto é o mesmo. Eb ouviu o diagnóstico e fez o que sempre fazia quando recebia um golpe. Levantou o queixo, ajeitou o cabelo, agradeceu o médico e saiu do consultório com a postura de uma mulher que não se verga.

Dentro do carro, no banco de trás, com o condutor a conduzir em silêncio pelas ruas de São Paulo, Ebbe olhou pela janela e não chorou. Não chorou naquele dia, não chorou na semana seguinte, não chorou durante o primeiro ciclo de quimioterapia. Eb Camargo não chorava, não em público, não em privado, não em frente de ninguém.

 E era de uma geração de mulheres que aprendeu que chorar era perder e a Ebia. O tratamento iniciou-se em outubro, quimioterapia. Os efeitos secundários foram os que todo o mundo conhece e ninguém quer descrever. O cabelo, a náusea, a fraqueza, o corpo que foi feito para estar num palco, para brilhar, para rir, para encher um estúdio de energia, este corpo começou a diminuir.

 Eb perdeu peso, perdeu cor, perdeu a voz durante alguns dias depois de sessões mais fortes e continuou trabalhando. continuou a fazer programa, continuou a aparecer na televisão com peruca e maquilhagem e o sorriso que o Brasil conhecia, porque Ebbe Camargo não parava. Parar era morrer antes de morrer e Ebesse gosto.

 Mas à noite, quando as câmaras desligavam, quando o estúdio esvaziava, quando o motorista a deixava em casa e ela entrava no apartamento e o porta fechava-se e o silêncio começava, aí Eb era outra pessoa. Aí, Ebby era uma mulher de 80 anos com cancro, sozinha no apartamento, sentada na poltrona da sala, com as luzes apagadas, olhando para o nada, pensando nas coisas que ficaram por fazer, nas palavras que ficaram por dizer, nas portas que ficaram fechadas.

E entre todas as portas fechadas da vida de Ebbe Camargo, havia uma que doía mais do que as outras, uma que ela tentou abrir quatro vezes e que quatro vezes permaneceu fechada. Uma que representava não apenas uma amizade perdida, mas uma parte de si mesma que tinha ficado trancada do outro lado quando Sílvio Santos virou costas naquele restaurante da Moca em 1987 e nunca mais olhou para trás.

Na madrugada de 17 de Novembro de 2009, depois de uma sessão de quimioterapia que tinha sido particularmente difícil, depois de um dia inteiro de náuseas e fraqueza, depois de horas deitada no sofá sem se conseguir levantar, Eb acordou às 2h30 da manhã com uma clareza que a doença às vezes traz.

 Aquela clareza que surge quando o corpo está tão fraco que a mente, em vez de se apagar, acende-se com uma nitidez que não existe na saúde. A nitidez de quem está no limite e que, por estar no limite, vê as coisas como realmente são. viu? Viu que tinha 80 anos, viu que tinha cancro, viu que não sabia quanto tempo tinha e viu que entre todas as coisas que tinha feito na vida, entre todos os programas, todas as entrevistas, todas as gargalhadas, todos os os momentos de televisão que ficaram na memória do Brasil, a coisa que mais doía

era uma amizade que ela própria tinha ajudado a destruir e que nunca tinha conseguido reparar. Ebby levantou-se do sofá, foi até ao telefone. Era um telefone sem fios que estava na mesa da sala, junto a uma pilha de revistas e de um porta-retratos com uma foto dela e de Lélio, o marido que tinha morrido anos antes.

 Eb pegou no telefone e marcou o número de Sílvio Santos. Sabia o número de cor. Depois de 22 anos sem ligar, sabia de cor. Porque Ebbe tinha marcado aquele número milhares de vezes ao longo dos anos em que eram amigos. E a memória dos dedos não esquece. O corpo esquece. A mente esquece, os dedos não. O telefone tocou três vezes.

 O Sílvio atendeu-o no quarto toque. A voz de Sílvio era a voz de quem tinha sido acordado, mas que estava habituado a ser acordado. voz de quem viveu 60 anos no comando de um império que funcionava 24 horas e que tinha recebido chamadas de madrugada suficientes para não se assustar quando o telefone tocava no escuro. Sílvio disse olá com aquela voz rouca de sono, que era completamente diferente da voz de palco.

disse o nome dele. O Sílvio disse só o nome. E a forma como disse, a forma como as duas sílabas saíram da boca dela, carregando 22 anos de distância e uma vida inteira de memórias, foi o suficiente para Silvio reconhecer quem era. Sem precisar de mais nenhuma palavra. Sílvio ficou em silêncio, não desligou, não disse quem é.

 Ficou em silêncio porque reconheceu a voz. reconheceu a voz como reconhecia a voz de Eb desde 1963, desde o corredor da TV de São Paulo, desde aquela frase que ela disse sobre ele ser maior do que todos, incluindo ela. A voz era a mesma e, ao mesmo tempo, não era. Porque por baixo da voz de Ebe, por baixo da gargalhada e da força e da majestade, havia uma coisa que o Sílvio nunca tinha ouvido na voz dela.

 Havia fragilidade. E então Ebbe começou a chorar. Nem com aviso, nem com prelúdio. Começou a chorar da maneira que choram as pessoas que não choram, que passaram a vida inteira a segurar e que quando soltam, soltam tudo de uma vez, sem controlo, sem elegância, sem a compostura que carregaram como armadura durante décadas.

 Ebby chorou ao telefone de Silvio Santos às 13 da manhã, como nunca tinha chorado à frente de ninguém. E O Sílvio ouviu-o. Não interrompeu. Aí não disse que estava tudo bem, não tentou acalmar. Ficou ali no escuro do quarto, com o telefone no ouvido, e deixou Eb chorar. O choro durou quase 3 minutos. Quando Ebb conseguiu falar, as primeiras palavras não foram sobre o cancro.

 Não foram sobre a doença, não foram sobre morrer. As primeiras palavras de Ebbe, depois de 22 anos de silêncio e 3 minutos de choro, foram sobre o restaurante, sobre a noite na muca, sobre o jantar com a Regina. Eb disse que o Sílvio tinha razão. Disse que ela lhe devia ter contado. Disse que esconder o diagnóstico de Regina tinha sido o maior erro da sua vida.

 Disse que cada vez que se lembrava do rosto de Sílvio levantando-se daquela mesa, cada vez que se lembrava da frase sobre confiança que disse antes de sair, sentia uma dor que era pior do qualquer quimioterapia. O Sílvio ouviu tudo, não disse nada. E continuou. Falou durante quase 10 minutos sem pausa, sem Sílvio interromper uma vez.

 Falou sobre Regina, sobre a Globo, sobre as cartas que mandou e que foram devolvidas, sobre a fotografia de 1963, que voltou sem ser vista, sobre os 22 anos de gelo. Falou sobre tudo o que tinha engolido, tudo o que tinha segurado, tudo o que tinha carregado sozinha num silêncio que era mais pesado do que qualquer doença.

 e depois falou sobre o cancro. Disse que estava doente. Disse que não sabia quanto tempo tinha. Disse que não estava a ligar para pedir pena, porque Ebbe Camargo não pedia pena de ninguém, nunca tinha pedido e não ia começar aos 80 anos. disse que estava ligar porque tinha percebido uma coisa que a doença ensina e que a saúde esconde, que não temos tempo infinito para consertar as coisas, que as portas que ficam fechadas ficam fechadas para sempre, quando uma das duas pessoas que têm a chave vai embora.

E então Ebbe fez o pedido. O pedido que chocou até a família Abravael, o pedido que fez Sílvio sentar-se na beira da cama e permanecer em silêncio durante 2 minutos. Eb pediu perdão, não pediu reconciliação, não pediu amizade. E pediu que o Sílvio lhe desse um programa na SBT, não um programa qualquer, um programa na faixa noturno, um programa semanal, um programa que fosse dela, com o nome dela, com o formato dela, com a cara dela.

 um programa onde Ebby pudesse fazer televisão da forma que sabia fazer, durante o tempo que ainda tivesse. No canal do homem que ela não falava havia 22 anos. Eb pediu isso porque sabia uma coisa que nenhuma reportagem publicou e que nenhum colunista comentou. E sabia que o seu contrato com a Rede TV estava terminando em fevereiro de 2010 e que a A Rede TV não ia renovar, não por falta de audiência, por falta de dinheiro.

 A Rede A TV estava em crise financeira e a cortar custos, e o salário de EB era um dos maiores da estação. A Rede TV ia agradecer, ia fazer uma festa de despedida bonita, ia chorar à frente das câmaras e depois ia mandar embora a mulher que tinha dado os melhores índices de audiência da história daquela emissora. Eb sabia.

 Sabia porque conhecia a televisão como poucos. Sabia ler os sinais. Sabia que quando um diretor começa a evitar reuniões, é porque o despedimento já foi decidido e só falta a data. E Ebbe sabia outra coisa. Sabia que na situação em que estava doente, perdendo o contrato com 80 anos, nenhuma grande estação ia contratá-la.

A Globo não ia porque tinha os seus próprios programas de auditório. A O Record não ia porque estava a investir nas novelas e no jornalismo. A Banda não tinha dinheiro. Sobrava o SBT. E o SBT era de Silvio Santos. E Sílvio Santos não falava com ela há 22 anos. Pedir um programa para a SBT era pedir ao homem que ela mais tinha magoado na vida que lhe desse a última oportunidade de fazer televisão.

 Era pedir ao homem que tinha devolvido as suas cartas sem abrir que lhe abrisse a porta do canal. Era uma humilhação que Ebbe Camargo, a rainha da televisão brasileira, a mulher que nunca dobrou-se, nunca chorou, nunca pediu nada a ninguém, estava a submeter-se porque entendeu que o orgulho perante a a morte é a coisa mais inútil que existe.

Sílvio ficou em silêncio durante 2 minutos depois de Eb ter feito o pedido. minutos que para o EB se do outro lado da linha devem ter parecido 2 horas. 2 minutos em que Silvio Santos, o negociador mais hábil da televisão brasileira, o homem que tomava decisões em segundos, o homem que controlava tudo, ficou mudo, porque o que Ebbe estava a pedir não era uma decisão de negócio, era uma decisão de vida.

 E as decisões de vida não cabem no cálculo. A Iris acordou durante aqueles dois minutos de silêncio. Viu o Sílvio sentado à beira da cama com o telefone no ouvido e os olhos fixos na parede. Perguntou quem era. O Sílvio não respondeu. A Iris viu a expressão dele e entendeu que não era altura de perguntar de novo.

 Sílvio quebrou o silêncio com uma frase curta. disse quatro palavras que terminaram 22 anos de distância com a mesma simplicidade com que se abre uma torneira que estava fechada. Venha me ver amanhã. Não disse sim não disse não. Não disse que ia pensar. Disse: “Venha ver-me amanhã.” E desligou. Eb ficou com o telefone na mão durante quase um minuto depois de a linha ter caído, sentada na poltrona da sala, às escuras, com a peruca na mesa de centro, porque já era madrugada, eb.

Ficou ali com o telefone no colo e, pela segunda vez naquela madrugada chorou. Mas desta vez o choro era diferente. Não era o choro de desespero que tinha saído sem controlo quando Sílvio atendeu. Era um choro calado, o choro de uma pessoa que acabou de sentir uma porta a a mover-se depois de 22 anos trancada.

 Na manhã seguinte, Sílvio contou a Íris o que Ebbe tinha pedido. Contou durante o pequeno-almoço na mesa da cozinha, com a naturalidade estudada de quem sabe que a bomba que está a lançar é grande, mas finge que é pequena. A Íris ouviu. Largou a chávena de café no Pires com uma firmeza que não era casual.

 olhou para Sílvio e disse que tinha perdido o juízo. A Iris não era contra a EB, a Iris era contra o risco, era contra colocar no SBT uma apresentadora de 80 anos com cancro numa altura em que a emissora precisava de rejuvenecer a programação, atrair novos anunciantes e competir com a Globo em horário nobre.

 A Iris pensava como empresária porque era empresária. E como empresária, a contratação de Eb Camargo não fazia qualquer sentido. Era sentimentalismo, era nostalgia. Era Sílvio a deixar o coração mandar onde a cabeça devia mandar. Sílvio ouviu Íris e não respondeu. Tomou o café em silêncio, saiu da secretária, foi para o escritório e ligou para Lombarde.

 A conversa com o Lombarde durou 7 minutos. O Sílvio disse que queria abrir espaço na grelha da SBT para um programa semanal de entrevistas noturno e variedades. Lombarde perguntou quem ia apresentar. O Sílvio disse o nome. Lombarde ficou em silêncio durante 5 segundos. Depois disse que precisava de analisar a grade.

 O Sílvio disse que não era para analisar, era para abrir. Lombarde percebeu o tom. O tom de Silvio Santos, quando não estava a pedir opinião, estava a comunicar decisão. Três dias depois, as filhas souberam, não todas ao mesmo tempo. Souam em sequência, ao longo de um dia, à medida que cada uma ligava ou apareceu no escritório.

 A reação foi unânime, incompreensão. Uma delas, a mais envolvida na gestão do grupo, saiu da sala onde Sílvio contou a novidade sem dizer uma palavra. saiu, pegou no telefone e ligou para o advogado da família, não para impedir, para perceber, para saber se havia alguma implicação contratual, financeira, legal, tudo o que justificasse aquela decisão nos termos que ela conseguia compreender.

 Porque nos termos emocionais a decisão não fazia sentido. Silvio Santos tinha estado 22 anos sem falar com Eb Camargo. Tinha devolvido cartas, tinha recusado mediações, tinha construído um muro tão alto entre os dois que todos ao redor já tratavam aquele muro como permanente. E agora, depois de uma chamada de madrugada, depois de uma mulher a chorar no telefone, depois de quatro palavras, o muro tinha caído.

 E do outro lado do muro, Silvio Santos estava a convidar Eb Camargo para entrar no SBT. Eb foi ao apartamento de Sílvio na tarde seguinte. Chegou às 15h. O porteiro a anunciou pelo intercomunicador. Sílvio disse que podia subir. Eb subiu pelo elevador social, o que estava reservado para as visitas que Sílvio queria que fossem vistas pelos porteiros e pelos vizinhos.

 Não pelo elevador de serviço, pelo social. Sílvio fez questão porque é que Sílvio entendia de símbolos. E o símbolo de Ebbe Camargo, entrando no seu prédio pelo elevador social, de cabeça erguida, era o símbolo de uma reconciliação que não era escondida. Eb saiu do elevador e encontrou Sílvio de pé no hall.

 Os dois se olharam. 22 anos condensados ​​num olhar que durou talvez 3 segundos, mas que continha cada carta devolvida, cada telefonema não feito, cada evento onde fingiram que o outro não existia. Ebu um passo na direcção de Sílvio. Sílvio deu um passo na direção de Ebraçaram. O abraço durou quase 30 segundos.

 Nenhum dos dois falou durante o abraço. Íris assistiu do corredor, encostada à parede, com os braços cruzados e uma expressão que misturava a resignação com a alguma coisa que talvez fosse, apesar de tudo, respeito. Porque íris conhecia o Sílvio, conhecia Sílvio melhor do que qualquer pessoa no mundo e sabia que aquele abraço não era fraqueza, era a coisa mais forte que O Sílvio tinha-o feito em anos.

 Depois do abraço, foram os dois para o escritório. Sentaram-se em poltronas que ficavam de frente uma para a outra, com uma mesa de centro no meio, onde o Sílvio tinha colocado duas chávenas de café e um prato de biscoitos amanteigados que Ebbe adorava e que Silvio lembrava que Ebbe adorava mesmo depois de 22 anos. O pormenor dos biscoitos foi a coisa que quebrou a formalidade.

E olhou para os biscoitos, olhou para Sílvio e soltou uma meia gargalhada que era pura Camargo. A gargalhada de uma mulher que reconhece que o homem na frente dela, apesar de tudo, apesar do muro, apesar dos anos, tinha guardado um pormenor sobre os biscoitos que ela gostava. E este pormenor dizia mais do que qualquer carta, qualquer fotografia, qualquer pedido de desculpa.

 A conversa durou 2:40. Ninguém sabe tudo o que foi dito, porque os dois estavam sozinhos. O que se sabe provém de fragmentos que Silvio contou a Lombarde nos dias seguintes, que Ebbe contou a uma amiga íntima semanas depois e que Iris mencionou anos mais tarde numa conversa privada. O Sílvio perguntou sobre o cancro. O Eb contou tudo, o tipo, o estágio, o tratamento, o prognóstico.

Contou com a objetividade de quem já tinha contado aquilo a médicos e enfermeiros e técnicos de laboratório tantas vezes que as palavras tinham perdeu o peso emocional e tornou-se apenas informação. Sílvio ouviu sem interromper. Quando Eb terminou, Sílvio fez uma pergunta que o Eb. Perguntou se o médico era bom.

 E disse que era. O Sílvio perguntou o nome. E disse o nome. Sílvio anotou. Não explicou porquê. Mas Ebbe sabia que Silvio Santos, anotando o nome de um médico, significava que Silvio Santos ia ligar para esse médico e ia falar com ele e ia saber tudo o que o médico sabia. E se o médico não fosse bom o suficiente, o Silvio ia encontrar um que fosse.

 Depois falaram sobre o programa e aqui a conversa mudou de tom. Sílvio deixou de ser o amigo que recebe uma amiga doente e tornou-se o empresário que negoceia a contratação de uma apresentadora. A transição foi instantânea. Sílvio sentou-se mais direito na poltrona. A voz ficou mais baixa, os olhos ficaram mais focados. E Eb, que conhecia Sílvio desde 1963, reconheceu a transição e ajustou-se.

Sentou-se mais direita também. Parou de sorrir, entrou em modo profissional. O Sílvio disse que daria o programa. Disse que o programa seria semanal. Disse que seria na faixa noturna. Disse que teria total liberdade editorial. disse que o Eb podia convidar quem quisesse, falar sobre o que quisesse e fazer o programa que quisesse.

 Disse que a SBT ia fornecer a infraestrutura, estúdio, equipa técnica, produção. Disse que ia ser o melhor programa que o EB já fez, mas disse também uma condição, uma condição que EB não esperava e que mudou o significado da oferta inteira. Sílvio disse que Ebbe não ia receber salário. Não por mesquinhez, não por castigo. Sílvio explicou.

 Explicou com a frieza de um homem que sobrevive no mercado porque compreende as regras mesmo quando as regras são cruéis. Disse que se pagasse salário a EB, o contrato seria profissional. e um contrato profissional exigia a aprovação do conselho do grupo, que era formado pelas filhas e pelos executivos seniores, e que o conselho não ia aprovar.

 Disse que as filhas iam votar contra. Disse que os executivos iam argumentar que contratar uma apresentadora de 80 anos com cancro era um risco financeiro que nenhum departamento jurídico podia endossar. disse que se forçasse a aprovação por cima do conselho, estaria a quebrar o próprio sistema de governação que tinha construído.

 E que se quebrasse o sistema para EB, abria um precedente para quebrar para qualquer um. Mas sem salário a situação era diferente. Sem salário não era um contrato, era uma parceria, era colaboração, era um acordo entre dois amigos que nenhum conselho precisava de aprovar porque não envolvia dinheiro do grupo.

 Silvio cobriria os custos de produção que podia encaixar no orçamento de programação existente sem levantar bandeira. E EB teria o espaço, o estúdio, a equipa, a câmara, o público. Teria tudo menos o salário. Eby ouviu a condição e ficou em silêncio durante quase um minuto. Sílvio esperou-o. Sabia que aquela condição podia matar o acordo.

 Sabia que Ebbe Camargo, a mulher que nunca se dobrou, podia interpretar aquilo como humilhação, trabalhar de graça. No canal de um homem que tinha devolvido as suas cartas. Aos 80 anos com cancro, Ebbe olhou para Sílvio, olhou-o nos olhos dele com aquela intensidade que era só dela, que misturava inteligência e ternura e dureza e uma sensibilidade que a televisão ora mostrava ora escondia. E disse que aceitava.

 Disse que aceitava sem hesitações, sem negociar, sem pedir tempo para pensar. Aceitou porque entendeu o que o Sílvio estava fazendo. Sílvio estava a encontrar a fresta. A fenda no sistema, a fenda na governação, a brecha entre o que podia e o que não podia. O Sílvio estava a fazer o que sempre fez, desde os tempos do baú da felicidade, encontrando o caminho entre os obstáculos.

 E o caminho desta vez passava por uma parceria sem salário, que era ao mesmo tempo uma decisão empresarial defensável e um ato de amor indefensável. Eb aceitou porque entendeu que aquele era a forma de Silvio Santos dizer sim. Não era o sim que ela queria, era o sim que ele podia dar. E ela, aos 80 anos com cancro, depois de 22 anos de gelo, depois de quatro tentativas falhadas, depois de uma chamada de madrugada onde chorou pela primeira vez na vida na frente de alguém, ela compreendeu que o sim possível era infinitamente melhor do que

o silêncio. O programa de EB no SBT estreou em março de 2010. Chamava-se EB, só EB. Não precisava de mais nada. O estúdio era o mesmo estúdio onde o Sílvio gravava aos domingos, reconfigurado com uma decoração que Eby escolheu pessoalmente. Cores claras, sofás grandes, flores frescas. Eb entrou no estúdio na noite da estreia utilizando uma peruca loura que era quase idêntica à cabelo que tinha perdido na quimioterapia.

Uno um vestido azul que mandou fazer especialmente para ocasião e sapatos altos que os médicos tinham pedido que ela não usasse, mas que Ebbe usou, porque Ebbe Camargo não faz televisão de sapato baixo. O Sílvio não estava no estúdio na noite da estreia, não foi porque não quis, foi porque sabia que a noite era de Ebe.

 sabia que a presença dele ia transformar a estreia do programa de EB na estreia do programa de Ebbe e Sílvio. E o Sílvio não queria dividir a atenção. Queria que o holofote fosse todo dela. Mandou flores para o camarim, não um bouquet, uma sala inteira de flores, rosas, lírios, orquídeas, tudo o que dava para comprar numa florista de São Paulo numa tarde de março.

 Flores encheram o camarim ao ponto de quase não sobrar espaço para Ebbe se maquilhar. A maquilhadora teve que tirar três vasos do caminho para conseguir chegar ao espelho. Juntamente com as flores, um bilhete escrito à mão em papel branco, sem envelope. Duas frases. A primeira era a frase que Eb tinha dito para ele em 1963 no corredor da TV de São Paulo.

 Você vai ser maior do que todos aqui, inclusive eu. E a segunda frase era a resposta de Sílvio, 47 anos atrasada. Eu nunca fui maior do que você. Eu só tive a sorte de teres acreditado em mim primeiro. Eb leu o bilhete no camarim, chorou, refez a maquilhagem e entrou em palco. O programa foi para o ar durante dois anos.

 Eb fez televisão na SBT sem receber um cêntimo de salário, com cancro, com peruca, com 80 anos, com quimioterapia entre gravações, com sessões que a deixavam de cama durante três dias e com gravações que a faziam levantar da cama ao quarto dia, como se nada tivesse acontecido. Fez entrevistas que o Brasil inteiro assistiu.

 Recebeu convidados que fizeram história. Riu como Só Ebbe ria. Gargalhou como Só Ebbe gargalhava. Fez o estúdio da SBT vibrar com uma energia que muitos dos técnicos e câmaras e Os produtores disseram que nunca tinham sentido igual, nem nos melhores momentos de Sílvio. Sílvio assistia. assistia sempre, não do estúdio, de casa, no apartamento da Paulista, sentado na poltrona da sala com a televisão ligada no SBT, a ver E fazer televisão no canal dele, com a dedicação silenciosa de um homem que sabe que está a ver uma coisa que não vai durar para sempre.

A Íris às vezes sentava-se ao lado. Às vezes via Sílvio a sorrir sozinho enquanto Ebbe dizia qualquer coisa engraçada na tela. E, nessas vezes, Iris entendia que tinha estado errada sobre a contratação. Não estava errada como empresária, estava errada como pessoa, porque algumas decisões não são de negócio, são de humanidade.

 E o Sílvio tinha acertado. Carta de 2004, aquela que o Sílvio tinha guardado numa gaveta sem abrir durante 5 anos. Ele abriu no dia seguinte a estreia do programa de EB. Abriu sozinho no escritório com a porta fechada. Ninguém sabe o que dizia a carta. O Sílvio nunca contou, mas no dia seguinte ligou para Eb às 8 da manhã, hora a que Ebbe detestava porque nunca acordava antes das 10. e disse apenas uma frase.

 Li a carta. Tinha razão sobre tudo. Eb, do outro lado da linha, com a voz rouca de sono e de quimioterapia, disse que podia ter lido 5 anos antes. Sílvio disse que sabia e os dois ficaram em silêncio ao telefone durante quase 30 segundos. Não era o silêncio dos 22 anos, era outro silêncio. O silêncio de dois velhos amigos que finalmente não precisam mais de falar para se entenderem.

 Eb faleceu a 29 de setembro de 2012. Sílvio soube por uma chamada do hospital. Não chorou quando soube. Não chorou no velório, não chorou no funeral, não chorou à frente de ninguém. Mas naquela noite, no apartamento da Paulista, Iris encontrou Sílvio no escritório, sentado na poltrona onde Ebbe se sentara no dia da reconciliação com uma fotografia na mão.

 A fotografia de 1963, a mesma que Eb tinha enviado em 1994 e que o Sílvio tinha devolvido sem abrir. tinha mandado de novo em 2004 dentro da carta que Silvio guardou 5 anos sem abrir. E quando finalmente abriu, o fotografia estava no interior. Sílvio e lado a lado, jovens, sorridentes no corredor da TV de São Paulo.

 No início de tudo, Jo Sílvio estava a olhar paraa fotografia quando Iris entrou no escritório. Íris parou à porta. Sílvio não levantou os olhos. Passado quase um minuto, disse, sem tirar os olhos da fotografia, com a voz de quem fala mais para si próprio do que para outra pessoa. Perdi 22 anos. Ela deu-me três e eu achei que era suficiente. Não era.

Iris não respondeu, saiu do gabinete e fechou a porta. Sílvio ficou sozinho com a fotografia e com o peso de uma conta que não tinha como ser paga. O programa de EB foi retirado da grelha da SBT em outubro de 2012, um mês depois da morte dela. Sílvio ordenou pessoalmente que o cenário não fosse desmontado.

 Ficou ali no estúdio com os sofás, com as flores artificiais que tinham substituído as frescas, com a iluminação desligada durante quase se meses. Os técnicos tinham de se desviar do cenário de EB para montar os cenários de outros programas. Ninguém se queixou. Ninguém perguntou porque é que o cenário ainda estava ali. Todo o mundo sabia.

 E o cenário ficou ali. Como ficam as coisas que não estamos prontos para guardar. Até que um dia o Sílvio disse que podia desmontar. disse por telefone, sem ir ao estúdio, sem ver o cenário ser retirado, porque ver seria admitir que acabou. E Silvio Santos, o homem que nunca parava, o homem que seguia sempre em frente, o homem que ajeitava a gravata depois de chorar e caminhava pelo corredor, como se nada tivesse acontecido.

 Esse homem não queria ver o cenário de Ebbe a ser desmontado, porque não estava pronto para admitir que a última gargalhada já tinha sido dada. Nos arquivos da SBT existe uma fita que nunca foi para o ar e é a gravação do primeiro ensaio de EB no estúdio, duas semanas antes da estreia, quando o Eb foi à SBT para conhecer a equipa e testar o cenário.

 fita mostra Ebbe a entrar no estúdio pela primeira vez, olhando em redor, tocando no sofá, ajeitando uma almofada, verificando a iluminação com o olhar de quem faz televisão há 60 anos. E num determinado momento, quando Eb pensa que as câmaras não estão a gravar, mas estavam porque um técnico tinha-se esquecido de desligar, Eb olha diretamente para a câmara com uma expressão que não é de televisão.

 É uma expressão de gratidão, de alívio, de uma mulher que passou 22 anos ao lado de fora de uma porta e que finalmente entrou. Ela não diz nada, apenas olha e sorri. O sorriso mais sincero que Ebbe Camargo já deu em frente a uma câmara, porque não era para a câmara, era para ela própria. Era o sorriso de quem sabe que está exatamente onde deveria estar, fazendo exatamente o que deveria estar a fazer no canal do homem que ela quase perdeu para sempre.

A fotografia de 1963 ainda existe. Ninguém sabe exatamente onde está. provavelmente numa gaveta do escritório do apartamento da Paulista, provavelmente juntamente com a carta que Eb escreveu em 2004, provavelmente no mesmo local onde Sílvio guardava as coisas que importavam demasiado para serem guardadas em lugar óbvio, no silêncio, no escuro, na gaveta que não tem etiqueta.

 Eb Camargo disse em 1963 que o Sílvio seria maior do que todo o mundo. Silvio respondeu em 2010 que nunca foi maior do que ela. Os dois estavam certos e os dois estavam errados, porque a verdade é que nenhum dos dois foi maior do que o outro. Foram grandes da mesma forma, da mesma matéria e do mesmo Brasil que fazia televisão com instinto e com tripas.

 e com uma coragem que a geração seguinte não ia ter. E a única coisa maior do que os dois juntos era a amizade que quase destruíram e que quase repararam e que o tempo, como sempre, não deixou terminar direito. Inscreva-se se você é fã de Silvio Santos. E se essa história apanhou-te, há uma outra que precisas conhecer.

 Porque antes da SBT, antes do império, antes dos domingos, antes de tudo, houve um dia em 1962 em que Silvio Santos entrou pela primeira vez num estúdio de televisão em São Paulo. Não tinha guião, não tinha ensaio. A equipa técnica tinha ordens de não o ajudar em absolutamente nada. O diretor de programação tinha dito três horas antes numa sala com 10 testemunhas, que colocar um vendedor ambulante da rua na televisão era o maior erro da história daquela estação.

 O Sílvio ouviu cada palavra, não respondeu a nenhuma e entrou em palco. Mesmo assim, o que aconteceu nos primeiros três minutos deixou aquele diretor mudo. O dono da emissora, que assistia a partir de um monitor no segundo andar, pegou no telefone e ligou para a cabine com uma única instrução. Não tira este homem do ar.

 A história completa está neste vídeo aqui. E se já assistiu, tem mais histórias como esta à sua espera aqui no canal.

 

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