Quem nunca perder um tempão a lutar nas redes sociais por causa de um político, que atire a primeira pedra. Sabe como é. Começa num comentário, torna-se discussão, torna-se um insulto e no fundo, lá no fundo mesmo, passa aquele pensamento que nunca vai falar em voz alta. Tomara que este gajo desaparecesse.
Pois olha que coisa, isto já aconteceu aqui no Brasil. Numa manhã comum de agosto de 1954, o país acordou, fez café, ligou o rádio e a notícia que saiu nesse rádio parou tudo. O presidente tinha sido encontrado no quarto do palácio do catete, na cama de pijama, com um tiro no peito e o revólver ainda apertado na mão.
Getúlio Vargas, o homem que mandou no Brasil durante quase 20 anos, morto. E aí veio a pergunta que até hoje tira o sono de quem estuda esta história. Ele matou-se ou alguém finalmente fez o que muita gente só teve a coragem de desejar? É o que vamos investigar agora. Então não tire os olhos do ecrã que vamos te contar cada pormenor desta morte brutal.
O início. >> Para perceber como é que um presidente do Brasil chegou ao ponto de morrer com um tiro dentro do próprio palácio presidencial, precisamos de voltar um pouco no tempo. Getúlio Dorneles Vargas nasceu em 19 de abril de 1882 numa cidade chamada São Borja, lá no extremo sul do Rio Grande do Sul, perto da fronteira com a Argentina.
Filho de família de lavradores, cresceu numa região de campo aberto, onde os homens andavam a cavalo e a política era resolvida com firmeza. Essa formação vai marcar muito a forma como ele vai governar. Com inteligência fora do comum e uma habilidade política que poucos tinham, Vargas foi subindo de carreira a uma velocidade impressionante.
Aos 48 anos, em 1930, liderou uma revolução armada e derrubou o governo de Washington Luiz, encerrando a chamada República Velha, aquele sistema onde São Paulo e Minas Gerais revesavam-se no poder como se o Brasil fosse propriedade particular dos dois estados. E aí iniciou o que os historiadores chamam de era Vargas.
Ele governou o Brasil de 1930 até 1945, primeiro como chefe do governo provisório, depois como ditador, sob o que ele próprio chamou de Estado Novo. A a partir de 1937, 15 anos. Fechou o Congresso, perseguiu adversários, mas também fez reformas que mudaram a vida dos trabalhadores brasileiros. regulamentou a jornada de trabalho, criou a carteira de trabalho, construiu as bases da segurança social social.
Para uns, Vargas era o pai dos pobres, para outros era um tirano. Em 1945, os militares depuseram-no. Parecia o fim de Vargas. Só que em 1950, numa viragem que até hoje espanta, ele regressou, concorreu às eleições presidenciais, ganhou com 48% dos votos e regressou ao palácio do Catete, desta vez, como presidente eleito democraticamente pelo povo, era o maior comeback da história política brasileira.

Mas o Brasil de 1950 não era mais o mesmo. E os inimigos de Vargas eram agora muito mais organizados, muito mais furiosos e muito mais dispostos a acabar com ele de qualquer maneira. >> Os acontecimentos que levaram à morte. >> Quando Vargas regressou ao poder, em 1951, chegou com uma agenda fortemente nacionalista.
Uma das suas maiores apostas foi a criação da Petrobras em 1953, a empresa estatal que ia controlar o petróleo brasileiro. O slogan era simples e poderoso. O petróleo é nosso. Consegue imaginar quanto dinheiro estava em causa? Interesses americanos e ingleses no Brasil estiveram em alerta máximo. A Guerra Fria estava no auge, o macartismo varrendo os Estados Unidos.
E um presidente sul-americano que falava em soberania nacional e em controlar os recursos do próprio país, era visto com desconfiança crescente em Washington. Internamente, o principal inimigo da Vargas era um jornalista chamado Carlos Lacerda. Filho de uma família intelectual, fundador do jornal Tribuna da Imprensa, Lacerda era uma metralhadora.
Escrevia artigos devastadores contra Vargas, quase diariamente. O chamava de ditador disfarçado, de corrupto, de traidor. Vargas dizia de Lacerda em conversas privadas que ele era uma serpente que tinha alimentado no próprio colo. A tensão entre os dois ia aumentando sem parar. Depois veio o episódio que mudou tudo, >> a noite da rua dos Toneleiros.
>> Na noite de 5 de agosto de 1954, Carlos Lacerda regressava a casa no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. Era tarde. Ele estava a ser escoltado por um oficial da aeronáutica chamado Major Rubens Florentino Vas. Na rua Toneleiros, um homem aproximou-se e abriu fogo. Lacerda foi atingido num pé, conseguiu entrar num edifício e se esconder, mas o major Rubens, que tentou protegê-lo, levou um tiro no peito.
Ele morreu. Um oficial da aeronáutica assassinado na rua. Isto não era só um crime político, era uma declaração de guerra. A aeronáutica ficou em fúria e as As investigações começaram imediatamente com um único objetivo, descobrir quem tinha mandado matar Lacerda. Os investigadores não demoraram muito tempo. Em poucos dias chegaram ao nome de um homem chamado Gregório Fortunato.
O apelido dele era Anjo Negro. Gregório Fortunato era o chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, um homem de absoluta confiança do presidente que o servia há décadas, desde os tempos de São Borja. E agora o seu nome aparecia no meio de um assassinato político. O escândalo foi devastador. Vargas jurou que não sabia de nada, que Gregório tinha ag conta própria, mas poucos acreditaram.
E aqui é a parte mais perturbadora. As investigações revelaram que o esquema de Gregório não envolvia apenas o atentado à Laacerda. Ele estava no meio de um negócio de câmbio ilegal, de tráfico de influência, de todo o tipo de negócio sujo. Tudo a funcionar nos bastidores do próprio palácio do Catete.
O governo de Vargas estava envenenado por dentro. Ultimato militar. >> A partir do atentado da rua dos Toneleiros, o cerco em torno de Vargas fechou com uma velocidade assustadora. Os jornais de oposição, especialmente a tribuna da imprensa de Lacerda, publicavam manchetes explosivas todos os dias. O O Correio da Manhã, outro jornal importante, publicou um editorial intitulado Simplesmente Basta exigindo a demissão do presidente.
Generais começaram a reunir-se, almirantes, brigadeiros. E, então, em 22 de agosto de 1954, apenas dois dias antes da morte de Vargas, um manifesto militar foi assinado por quase todos os ministros militares e pelos mais altos oficiais das três Forças Armadas. O documento dizia uma coisa muito simples: Vargas devia demitir-se.
Não era um pedido, era um ultimato. Nessa mesma noite, Vargas convocou uma reunião de ministros. O encontro durou horas. Alguns ministros defendiam a resistência, outros diziam que era melhor negociar uma saída honrosa, outros simplesmente ficaram em silêncio. Vargas ouviu tudo e, no final, disse uma frase que os presentes nunca esqueceram. Só morto sairei daqui.
A última noite. >> Na noite de 23 de agosto de 1954, Vargas jantou com alguns membros da família e assessores próximos no Palácio do Catete. Quem lá estava conta que ele estava calmo, sereno. Até. Conversou sobre política, sobre o Brasil, sobre o futuro. Não demonstrou qualquer sinal de desespero.
Depois do jantar, pediu para ficar sozinho. E foi nessa madrugada que sentou-se à secretária e começou a escrever. O que ele escreveu ficaria conhecido para sempre como a carta testamento de Getúlio Vargas, um documento de 22 linhas, que é ao mesmo tempo, uma despedida pessoal, uma acusação política e um grito de dor. Ele escreveu com a sua própria letra, sem rasuras, sem hesitações.
Nas primeiras horas da manhã de 24 de agosto, Vargas deitou-se. As testemunhas que se encontravam no corredor disseram que tudo estava silencioso. Às 8:30, o disparo, um único disparo, direito no coração. Quando os seguranças arrombaram a porta, encontraram Getúlio Vargas deitado na cama com o pijama às riscas ensanguentado no lado esquerdo do peito.
O revólver, um treinador de calibre 32, estava na mão direita, na mesa de cabeceira, a carta testamento dobrada. O médico da presidência foi chamado de imediato. Declarou o óbito às 8:50 da manhã. O Brasil em chamas. Quando a notícia da morte de Vargas vazou para a rua, o Brasil explodiu. No Rio de Janeiro, multidões saíram à rua, não para protestar pela demissão, mas para chorar, para gritar, para exprimir uma raiva que não encontrava palavras.
Em várias cidades, as pessoas atacaram e incendiaram as instalações dos jornais que tinham feito oposição a Vargas. A sede da tribuna de imprensa de Carlos Lacerda foi atacada. Laerda precisou de se refugiar na embaixada de Cuba para escapar à fúria popular. Representações das empresas americanas foram alvo de pedras e protestos.
A percepção popular era clara. As forças estrangeiras tinham participado na derrubada de Vargas. O cordejo fúnebre que levou o caixão de Vargas do Rio de Janeiro até São Borja, no Rio Grande do Sul, atraiu multidões em cada cidade onde parava. Em Porto Alegre, estima-se que mais de 200.000 pessoas saíram à rua para se despedir.
O pai dos pobres tinha morrido e o O Brasil nunca seria o mesmo. A carta testamento, o documento que abalou o Brasil. >> Antes de entrarmos nas teorias, eu preciso que conheça a carta testamento, porque sem ela nada do que vem depois faz sentido. Vargas começou o texto assim e vou parafrasear para si compreender o espírito das palavras.
Ele disse que escolhia sair da vida para entrar na história, que era a serenidade que o tornava eterno. Mas o que veio depois foi um ataque político frontal. Escreveu que havia lutado contra a expoliação do Brasil, que grupos internacionais aliados a grupos nacionais se haviam unido contra ele, que a Petrobras, criada para dar lucro ao Brasil, se tornara alvo de uma campanha de difamação violentíssima, que cada vez que os trabalhadores ganhavam alguma coisa, forças poderosas tentavam destruir isso. E terminou com uma
frase que ficou gravada para sempre na história brasileira. Algo como >> saio da vida para entrar na história, deixo a vida para entrar no povo? >> O historiador Boris Fausto, um dos maiores especialistas em Vargas, disse que a carta testamento é talvez o documento político mais eficaz da história do Brasil.
Num único texto, Vargas transformou a própria morte numa arma política. Mas aqui está a questão que persiste até aos dias de hoje. Essa carta foi mesmo escrita na madrugada antes da morte ou foi preparada com antecedência? >> Teoria um, o suicídio como ato político calculado. >> A versão oficial e a mais aceite pelos historiadores é que Vargas se suicidou por opção própria, consciente e deliberada.
O argumento central é simples. Vargas sabia que estava perdendo. Os militares estavam unidos contra ele. Não tinha apoio dentro do próprio gabinete. A demissão era questão de horas. Mas Vargas tinha 71 anos e era um homem que tinha dedicado toda a sua vida adulta ao poder. Para alguém com esse perfil, ser humilhado, ser forçado a sair pela porta das traseiras seria pior do que morrer.
Depois fez o cálculo que só um político da sua magnitude poderia fazer. Se eu morrer, me transformo-o em mártir. Se eu renunciar, transformo-me em lixo histórico. E funcionou. funcionou de uma forma que talvez até o próprio Vargas não esperasse. A sua morte travou o golpe militar durante quase 10 anos. Os generais que queriam tombar o governo ficaram sem apoio popular imediato.
O Brasil continuou democrático até 1964. Muitos historiadores acreditam que este foi o maior golpe político da vida de Vargas e este deu-o morrendo. >> Teoria dois. A conspiração. Vargas foi assassinado. >> Mas nem todos aceitam a versão de suicídio voluntário. Desde o primeiro dia circularam teorias de que Vargas foi assassinado, ou menos empurrado para a morte por forças que controlavam o que acontecia dentro do próprio palácio.
Os Os defensores desta teoria levantam alguns pontos perturbadores. Primeiro, o comportamento de Vargas nas horas anteriores à morte. Todos os que estavam com ele ao jantar descrevem um homem calmo, até bem humorado. Não corresponde ao perfil de alguém que já tomou a decisão de se matar. Segundo, havia membros do alto escalão militar que se tinham infiltrado no palácio.
A segurança de Vargas estava comprometida desde o escândalo do anjo negro, quem garantia que alguém dentro do catete não havia agido. Terceiro, e aqui a coisa fica realmente interessante, o relatório necroscópico original gerou controvérsias entre os médicos legistas ao longo dos anos.
A trajetória do projéctil e a posição da ferida foram questões que alguns especialistas consideraram dignas de aprofundamento. Nenhuma destas suspeitas jamais foi comprovada, mas também nunca foram completamente fechadas. >> A teoria três, a CIA e os interesses americanos. >> Sabe que com qualquer morte política significativa do século XX, logo aparecem os americanos na conversa.
Mas no caso de Vargas, os argumentos são mais sólidos do que parece. A relação de Vargas com os Estados Unidos tinha-se deteriorado bastante desde que criou a Petrobras. O governo americano queria livre acesso ao petróleo brasileiro. Vargas disse que não. Documentos desclassificados da CIA que vieram à tona décadas depois mostram que a agência acompanhava de perto a situação política brasileira em 1954.
O embaixador americano no Brasil, James Camper, tinha contactos próximos com dirigentes militares oposicionistas. Alguns historiadores, como o americano Gerard Colby, que escreveu extensamente sobre a influência americana na América Latina no século XX, defendem que o golpe contra Vargas foi facilitado por O apoio norte-americano aos militares brasileiros.

Claro que isto não significa que os americanos apertaram o gatilho, mas a questão de quanto a pressão externa contribui para criar as condições que tornaram a morte de Vargas inevitável, seja ela suicídio ou outra coisa. É uma questão que os historiadores ainda debatem. >> O que revelou a história décadas depois? Ora, com o passar do tempo, algumas peças do puzzle foram se encaixando.
Em 2004, por ocasião dos 50 anos da morte de Vargas, o governo brasileiro abriu uma série de arquivos históricos que estavam guardados. Os investigadores tiveram acesso a documentos militares, relatórios de inteligência e correspondências diplomáticas da época. O que eles encontraram confirmou e ao mesmo tempo complicou a versão oficial.
Os documentos militares mostraram que na noite de 23 para 24 de agosto, as tropas do exército já estavam em movimento no Rio de Janeiro. Os generais já tinham data e hora para executar o golpe caso Vargas não se demitisse nas próximas horas. A tomada do poder pelo exército estava praticamente consumada quando o soou tiro. Isso altera algo na equação.
Vargas não estava apenas sob pressão política abstrata. Ele sabia com alta probabilidade que os militares iriam invadir o palácio nesse mesmo dia. Neste contexto, a decisão de se matar adquire outro significado. Não era desespero, era estratégia de saída. Mais recentemente, o historiador Lira Neto, que escreveu uma das mais completas biografias de Vargas em três volumes, apresentou evidências de que Vargas tinha confessado a sua intenção a pelo menos uma pessoa próxima nos dias anteriores, não como uma ameaça
dramática, mas como uma decisão fria tomada em privado. >> Ele já tinha escolhido como queria terminar, >> escreveu Lira Neto. E há outro pormenor que muito pouca gente conhece. O revólver que Vargas usou para se matar não era qualquer arma, era um revólver que tinha pertencido ao seu pai. Ele havia guardado essa arma específica por décadas.
Isto sugere premeditação, sim, mas também algo mais pessoal, mais íntimo do que simplesmente um ato político calculado. No final, a conclusão que a maioria dos historiadores chegou é esta: Vargas se matou. Foi uma decisão voluntária, mas ela foi tomada num contexto onde ele tinha sido encurralado, onde tinha sido traído por pessoas próximas, onde as suas políticas mais importantes eram destruídas uma a uma e onde a alternativa era a humilhação total.
Ele escolheu a morte como a única forma de vencer. >> O legado que continua vivo. >> 70 anos depois, o nome de Getúlio Vargas ainda divide opiniões no Brasil. de um maneira que pouquíssimos personagens históricos conseguem. Ele foi responsável pela consolidação das leis laborais que milhões de brasileiros usam até hoje.
Criou a Petrobras, industrializou o país, deu ao Brasil uma identidade nacional que antes era fragmentada, mas também perseguiu opositores, prendeu comunistas, usou o poder do Estado para sufocar a liberdade de imprensa e governou durante 15 anos como ditador antes de ser eleito democraticamente. Getúlio Vargas foi tudo isto ao mesmo tempo e talvez seja por isso que a morte dele ainda incomoda tanto, porque ele morreu no preciso momento em que o Brasil teria de decidir o que fazer com esse legado contraditório.
E ao morrer do forma como morreu, ele tirou essa decisão das mãos de todos. E depois, o que é que acha? Getúlio Vargas foi um herói que se sacrificou pelo Brasil ou um político astuto que usou a própria morte como última cartada? Talvez as duas coisas ao mesmo tempo. Um homem que dedicou a sua vida inteira ao poder, encurralado na última noite, sentou-se sozinho e escreveu uma carta.
Não ligou a ninguém, não fugiu, não negociou. Escreveu e cumpriu. Só morto sairei daqui. >> Nenhum outro político brasileiro morreu assim e nenhum outro deixou este tipo de rasto. A morte de Vargas foi suicídio ou conspiração? Conta-me nos comentários. Se este vídeo te fez pensar, partilha com alguém que gosta história.
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