Todos eram grandes, todos eram perigosos e todos podiam ser contidos por um marcador inteligente que fizesse o trabalho. Pelé era diferente. Burgnit sabia que era diferente. Não por arrogância brasileira, não pela fama, não pelas mil artigos de jornal. sabia porque tinha assistido aos filmes. A Federação Italiana tinha conseguido rolos de 16 mm dos jogos do Brasil no torneio.
A goleada sobre a Checoslováquia, a vitória sobre a Inglaterra, a meia-final contra o Uruguai. E Borgh assistiu a todos três vezes na sala de projeção do hotel. viu coisas que o incomodaram, viu Pelé receber a bola em posições impossíveis e transformá-las em posições de golo em menos de 2 segundos. Viu Pelé fazer movimentos que não tinham lógica defensiva, que não podiam ser antecipados porque não seguiam qualquer padrão que Borgnit reconhecesse.
Viu Pelé criar espaço onde não existia espaço, como se o campo se expandisse ao à sua volta quando tocava na bola. Mas Burgnit era a Rósia e a Rótia não se impressionava com os filmes. Filmes mostravam jogadas contra defensores tecos, contra defensores ingleses, contra os defensores uruguaios, não contra Tarcísio Burgnit.
Nenhum destes Os defensores tinham a velocidade de raciocínio de Burgnich. Nenhum tinha o posicionamento, nenhum tinha os 78 kg distribuídos num 1,78 m de puro instinto de marcação. Burgish deitou-se na cama do hotel Camino Real, na véspera da final, e se convenceu de que era diferente, que ia ser diferente, que o brasileiro ia encontrar em campo algo que não tinha encontrado nos jogos anteriores.
O recorte de jornal estava em cima da mesa de cabeceira. Burgnit olhou para ele antes de apagar a luz e dormiu com a certeza de que na tarde seguinte ia provar que Pelé estava enganado, que Burgnit não era paisagem, que Burgnit era o muro que o brasileiro não ia conseguir ultrapassar. O balneário italiano no subsolo do O Estádio Azteca cheirava a eucalipto, suor velho e algo metálico que podia ser a tubagem exposta no teto, ou podia ser o medo, não o medo que se admite a o outro, o que se esconde debaixo da
concentração, debaixo do silêncio, debaixo da rotina de atar chuteiras e bater nas coxas e olhar para o chão como se o chão tivesse respostas. Borgnit sentou-se no banco de madeira no canto esquerdo do balneário, o mesmo lugar que ocupava desde o primeiro jogo da Itália no torneio e tirou as chuteiras da bolsa com a metigulosidade de sempre.
Primeiro à direita, depois à esquerda. Sempre por esta ordem. O balneário era mais quente do que devia. A ventilação do asteca no subsolo era precária. Dois ventiladores de teto que giravam com a velocidade de algo que estava a morrer e que mexiam o ar sem arrefecê-lo. O chão era de betão cinzento, as paredes eram de tijolo pintado de branco, que já amarelecia em vários pontos.
E a luz provinha de lâmpadas fluorescentes que zumbiam com uma frequência baixa que entrava no ouvido e ficava. As bolsas dos jogadores estavam alinhadas nos bancos de madeira. As camisolas azuis de Itália, o azurro, estavam penduradas nos ganchos de metal, cada uma com o número correspondente. Borgnich pegou no seu, o número três, e passou a mão no tecido.
Era poliéster, não algodão. A federação tinha alterado o material para o torneio no México, esperando que o tecido sintético fosse mais leve no calor. Era mais leve, mas não respirava. E no calor de 36º do asteca, não respirar significava transportar uma camada extra de desconforto sobre a pele durante 90 minutos. Faquete estava do outro lado do balneário, calado.
Deatinto Faquete era o capitão, o líder, o homem que a Itália inteira olhava nos momentos de dúvida, mas tinha 32 anos, média 1,88 m, uma altura em comum para um lateral naquela época e jogava com uma elegância que contrastava com a brutalidade do catenáxio italiano. Nessa tarde, Fatchete não estava elegante, estava tenso.
Os maxilares cerrados, os olhos fixos num ponto do chão que não existia, as mãos abrindo e fechando sem ritmo. Burgish notou atenção, mas não comentou. Entre Os defensores italianos dessa geração, a atenção não se comentava, absorvia-se. Alberto, o guarda-redes, estava deitado no banco com uma toalha sobre os olhos. tinha um hábito que os companheiros já conheciam.
Deitava-se no escuro nos 30 minutos antes do jogo e não falava com ninguém. Dizia que era para relaxar os olhos. Os companheiros achavam que era para não ver o nervosismo dos outros. Valcared entrou no balneário 15 minutos antes do apito. Estava de camisa branca, sem gravata, com as mangas arregaçadas até ao cotovelo.
O único sinal exterior de que o calor o incomodava. falou durante 4 minutos, repetiu o plano tático. Marcação em zona na defesa. Bertini e Burgnit responsáveis por Pelé, Mazola e Desisti no meio controlando o Gerson e Rivelino. Bonnie insegnia isolado na frente à espera de contra-ataques. Ninguém fez perguntas, ninguém levantou dúvidas.
O plano estava feito, as funções estavam distribuídas e agora restava apenas entrar no campo e executar. Valcaredade terminou com uma frase que pretendia ser motivacional, mas que soava mais como um pedido. Disse que a Itália inteira estava a assistir e que esperava que jogassem como italianos. Depois saiu. Burgnitou de atar as chuteiras.
Lan levantou-se do banco, bateu nos tornozelos duas vezes, outro ritual, e caminhou até à porta do balneário. O barulho do estádio já entrava pelo concreto, não como som, como vibração. Uma vibração que vinha do chão, subia pelas pernas e instalava-se no peito. 107.000 pessoas a respirar, a gritar, batendo palmas, criando uma massa sonora que era quase física.
Burgnich sentiu a vibração e não reagiu. Tinha sentido vibrações destas antes, no San Ciro, no Olímpico de Roma, no Bernabé. Mas esta era diferente, esta era mais pesada, como se todo o estádio soubesse algo que os jogadores ainda não sabiam. O túnel do estádio Azteca tinha 30 m de comprimento, paredes de betão pintadas de cinzento e uma inclinação ascendente que desembocava na luz do campo como a boca de um vulcão.
As duas equipas alinharam lado a lado, Brasil à direita, Itália à esquerda e começaram a caminhar em direção à luz. Burgnit estava na quarta posição da fila italiana, atrás de Faquete, atrás de Bertini, atrás de Albertos. Olhou para e Lubau para a direita e viu Pelé pela primeira vez de perto. Não na televisão, não nos filmes de 16 mm, não nas fotografias dos jornais.
De perto, a menos de 2 m. Pelé estava na terceira posição da fila brasileira, caminhando com um passo que Borgich registou imediatamente como diferente do passo de qualquer jogador que tinha visto. Não era um passo nervoso, não era um passo tenso, não era o passo de um homem que carregava o peso de 600 milhões de telespectadores, de uma nação inteira, de um Campeonato do Mundo que o Brasil precisava de ganhar para se tornar tricampeão.
Era um passo leve, natural, como se Pelé estivesse a caminhar até um campo de vársia para bater uma pelada com os amigos num domingo de manhã e o rosto. Burgish olhou para o rosto de Pelé e viu algo que o perturbou mais do que qualquer declaração de jornal. Viu calma. Não há calma fabricada dos jogadores que fingem não estar nervosos.
A verdadeira calma. a calma de alguém que está exatamente onde quer estar, a fazer exatamente o que nasceu para fazer, sem uma gota de dúvida. Os olhos de Pelé estavam abertos, tranquilos, percorrendo o túnel como se estivesse a observar uma paisagem agradável. A boca estava relaxada, os ombros estavam baixos, as mãos balançavam ao lado do corpo com a naturalidade de quem não necessita de nada, nem de concentração, nem de ritual, nem de raiva.
A Burginish sentiu a raiva que tinha cultivado durante dois dias vacilar por um instante. Não desaparecer. Vacilar como uma chama que alguém sopra e que oscila, mas não se apaga. Porque a raiva dos Burgnish baseava-se numa premissa, a premissa de que Pelé o tinha desrespeitado. E olhando para o rosto de Pelé no túnel do Asteca, Burgnis apercebeu-se de algo que não queria perceber.
percebeu que Pelé não o tinha desrespeitado. Pelé simplesmente não pensava nele. Não porque era arrogante, porque o jogo que Pelé jogava não incluía a preocupação com quem estava à sua frente, incluía apenas a bola e a baliza. Tudo o resto era de facto paisagem. Burgish desviou os olhos, olhou em frente.
A luz do campo estava cada vez mais perto, o barulho aumentava. E pela primeira vez, em 30 anos de vida e 15 anos de futebol, Tarcísio Burgnit sentiu algo que não tinha nome no seu vocabulário. Não era medo, era a percepção incómoda de que talvez, talvez tivesse aceite um trabalho que nenhum homem podia fazer. O apito do árbitro Rud Glockner soou às 12h50 da tarde, hora local.
O sol estava no ponto mais alto do céu mexicano e não havia sombra em nenhum lugar do campo. A temperatura em campo era de 36º. A altitude tornava cada sprint uma negociação com os pulmões. E Borgnit, posicionado como segundo defesa central, com a responsabilidade de acompanhar os movimentos de Pelé, deu os primeiros passos no mesmo campo que o brasileiro e sentiu imediatamente algo que não estava nos relatórios, não estava nos filmes e não estava no recorte de jornal guardado no bolso do Blazer, que estava agora pendurado no vestiário. A presença física de Pelé em
campo era diferente da presença de qualquer jogador que Borgit já tinha marcado. Não era o tamanho. Pelé media 1,73, Menos 5 cm que Burgnick. Não era a velocidade. Nos primeiros minutos, Pelé não fez nenhum sprint que Burgnit não pudesse acompanhar. Era outra coisa. Era a forma como os outros jogadores se organizavam à volta de Pelé.
Era a forma como a bola circulava na equipa brasileiro, sempre com a consciência de onde estava o Pelé, como se a bola tivesse uma gravidade própria que a puxava na direção do brasileiro. Gerson, Rivelino, Jairzinho, Tostão, Clodoaldo, todos jogavam com um olho no jogo e outro em Pelé, prontos para dar o passe no momento exato em que Pelé pedisse.
E Pelé pedia sem pedir. Não levantava a mão, não gritava, não fazia gestos ostensivos, amovia-se, simplesmente movia-se. dois passos paraas para a esquerda, uma pausa, um olhar e de repente a bola estava ali no espaço exato que tinha criado com os dois passos e a pausa, como se o campo lhe respondesse, como se a geometria do jogo se reorganizasse redor de Pelé a cada segundo.
Burgish acompanhou cada movimento nos primeiros 5 minutos. Não perdeu Pelé de vista. Estava perto, estava posicionado, estava a fazer tudo bem, mas sentiu algo que incomodou-o profundamente. A sensação de que estar perto não era suficiente, que estar posicionado não adiantava, que tudo o que sabia sobre marcação, os ângulos, as distâncias, a leitura do corpo, funcionava num jogo e que Pelé estava a jogar outro.
Um jogo que incluía Burgnish como obstáculo menor. Paisagem. A palavra voltou e desta vez doeu. Aos 18 minutos da primeira parte, Roberto Rivelino bateu um canto da esquerda. A bola viajou com a curva fechada que era a assinatura de Rivelino. Não um cruzamento comum, mas uma parábola que parecia desafiar a física, entrando na grande área com velocidade e depois abrandando no ponto exato onde precisava de ser encontrada.
Burgich viu Pelé a movimentar. viu o brasileiro descolar-se da marcação com um passo curto para trás, um único passo, quase imperceptível que criou meio metro de espaço onde antes não existia nenhum. Burgish tentou acompanhar. Saltou, saltou com tudo o que tinha, com os 78 kg de músculo e osso que a Itália inteira confiava para vencer disputas aéreas.
Pelé saltou mais alto, não um pouco mais elevado, significativamente mais alto. O corpo de Pelé subiu no ar como se a gravidade fosse uma sugestão e não uma lei. E a cabeça encontrou a bola no ponto mais alto do salto com uma precisão que transformava a geometria em arte. A bola desceu, desceu com velocidade e direção e embateu no chão antes de entrar na baliza de Albertos que saltou para o lado certo, mas chegou tarde, porque ninguém chegava a tempo quando Pelé decidia que a bola ia entrar. 1-0, Brasil.
Burgnis aterrou no chão do Estádio Azteca com o som de 107.000 pessoas nos ouvidos e a certeza pela primeira vez na carreira de que tinha feito tudo bem e que tudo bem não era suficiente. tinha saltado no momento certo, tinha saltado na posição certa, tinha saltado com a força certa e Pelé tinha saltado mais alto, mais rápido, mais preciso, como se o certo de Burgnis fosse uma versão inferior do certo de Pelé, como se existissem dois patamares de correto e Burgnit atirasse para o debaixo.
O estádio explodiu. O ruído era físico, entrava pelo corpo, vibrava nos ossos, tornava impossível pensar com clareza durante três ou 4 segundos. Burgish ficou parado meio da grande área, não gritou com ninguém, não reclamou com o árbitro, não olhou para Faquete em busca de orientação, ficou parado com as mãos na cintura, olhando para a bola dentro da rede de Albertose e sentiu pela primeira vez na vida, algo que não era raiva nem frustração, era reconhecimento.
reconhecimento involuntário, doloroso, inadmissível de que o homem que tinha acabado de marcar aquele golo jogava num nível que Burgnich não atingia. Não porque Burgnich fosse mal, a porque Pelé era outra coisa. Burgnik enterrou o reconhecimento no mesmo instante em que o sentiu. Empurrou para baixo, cobriu com raiva, cobriu com profissionalismo, cobriu com os 78 kg de orgulho italiano que não admitiam a possibilidade de inferioridade.
voltou à posição, bateu nas coxas, olhou para Pelé, que regressava ao meio de campo sem festejar, sem festejar, como se marcar de cabeça numa final da Taça do Mundo fosse rotina, e disse a si mesmo que não ia voltar a acontecer, que aquele golo tinha sido um lance, uma bola, um momento, que o jogo tinha 72 minutos pela frente e que 72 minutos era tempo suficiente para provar que a Rótia não se desmorou. Com um golo.
O técnico Ferrutio Valcaredi tinha 51 anos e a expressão de um homem que está a assistir ao seu próprio funeral. Sentado no banco de Itália durante o primeiro tempo, com as pernas cruzadas e um caderno no colo que não abriu qualquer vez, Valcaredu tudo o que Burgnich estava a viver e não teve uma única solução para oferecer.
Não porque fosse incompetente. Valcareid era um técnico experiente, respeitado, que tinha levado a Itália ao Campeonato da Europa de 1968 e que tinha conduzido a seleção até à final dessa Taça com uma combinação de catenáctil disciplinado e contraataques cirúrgicos. Mas porque o problema que estava a acontecer em campo não era tático, era existencial.
Valcaredi tinha visto os filmes, tinha preparado o plano, tinha distribuído as funções, tinha dito a Borgnit e a Bertini exactamente o que fazer. Marcar em zona, não dar espaço, forçar Pelé para as laterais. O plano era sólido. O plano funcionaria contra qualquer outro jogador do mundo. O plano não funcionava contra Pelé, porque Pelé não jogava dentro do sistema que o plano previa.
Pelé deitava fora de todos os sistemas, jogava num espaço que as pranchetas táticas não alcançavam e que os cadernos de apontamentos não conseguiam mapear. No banco, Valcared olhava para o campo e via o que Burgnich estava a sentir sem que Burgnit precisasse de o dizer. via na postura do seu defensor, nos ombros que começavam a subir meio centímetro a mais do que o normal, nos passos que ficavam uma fracção de segundo mais lentos na reação, na cabeça que virava para Pelé, com uma frequência que não era tática, mas obsessiva, que algo estava a mudar, a que a Rótia estava a
perceber que não era suficiente e que esta percepção, se não fosse contida, ia contaminar o resto da equipa. como uma infecção silenciosa que começa num ponto e espalha-se por todo o corpo. Valkarcareg não podia substituir Borgnick, não podia substituir a Ria numa final de um Campeonato do Mundo aos 18 minutos de jogo por um suplente que não tinha um démo da experiência de Burgnit.
Não podia alterar o plano tático porque não tinha plano alternativo. O catenácio era o único sistema que a Itália conhecia e o único que funcionava com aqueles jogadores e não podia dar instruções porque as instruções que tinha dado eram corretas. Marcar em zona, não dar espaço. Forçar para a lateral, tudo certo, tudo inútil.
Aos 37 minutos da primeira parte, algo inesperado aconteceu. Roberto Boninner, é o avançado-centro do Inter de Milão, que tinha sido convocado como reserva e que Valcared colocou na equipa titular numa decisão de última hora, recebeu a bola à esquerda da grande área brasileira depois de um erro de Clodoaldo no meio de campo.
Clodoaldo tentou um passe para Gerson que saiu curto. Um erro simples, o tipo de erro que acontece no futebol e que normalmente não tem consequências. Mas Bonin Segna estava ali, interceptou a bola, controlou com a coxa, deixou cair sobre o pé direito. O passe foi impreciso, a recepção foi imperfeita e o remate saiu torto, mas entrou.
A bola passou entre as pernas de Félix, que abriu as pernas no momento errado, e ficou parado a ver a bola entrar e morreu no fundo da rede. 1 a 1. O estádio Azteca esteve em silêncio durante 2 segundos. Há 2 segundos de 107.000 pessoas a tentar processar o que tinha acabado de acontecer. E depois o setor italiano, pequeno, concentrado num canto do estádio.
Talvez três ou 4000 pessoas entre turistas italianos, funcionários da embaixada e mexicanos que tinham decidido torcer contra o Brasil. explodiu num barulho que era desproporcional ao tamanho do grupo. Bonna correu para a lateral do campo com os braços abertos e o rosto transformado por uma alegria que era quase histérica.
Os companheiros italianos correram atrás dele. Burgish não correu. Burgnish ficou no meio do campo, olhou para o placar que agora mostrava um a um e sentiu algo que se parecia com esperança. A esperança durou 10 minutos. 10 minutos em que a Itália jogou como a Itália sabia jogar. fechada, disciplinada, sufocando o espaço, acortando os passes, transformando o jogo numa guerra de atrito que era o território natural do catenáxio.
10 minutos em que Borgnik voltou a sentir que podia controlar Pelé, que o golo de cabeça tinha sido um acidente, que a Rósse estava intacta. 10 minutos de ilusão. Porque durante estes 10 minutos, Pelé não desapareceu, não recuou, não ficou frustrado com o golo de empate, fez algo pior do que qualquer uma dessas coisas.
Continuou a jogar exatamente como antes, com a mesma calma, com a mesma naturalidade, com a mesma certeza tranquila de que o golo ia voltar. A expressão de Pelé não se alterou 1 mm depois do golo de Bonegna. Não ficou irritado, não ficou tenso, não ficou urgente. Regressou ao meio-campo, recebeu a bola de Gerson, tocou para Rivelino, pediu o regresso, agiu sobre Bertini com um movimento curto que deixou o italiano sentado e rematou de fora da área.
A bola passou 2 m acima da trave, não importou. O que importou foi a mensagem, a mensagem de que o Gold de Bonegnia não tinha alterado nada universo interno de Pelé, que Pelé continuava a jogar o mesmo jogo no mesmo ritmo, com a mesma certeza e que o empate era temporário. O primeiro tempo terminou 1-1. No intervalo, Valcared entrou no balneário e tentou organizar o que não podia ser organizado. repetiu as instruções.
Marcação em zona, não dar espaço, obrigar para a lateral, as mesmas palavras, o mesmo plano. A diferença era que agora as palavras soavam ocas, como se Valcarede estivesse a recitar uma receita para um prato que já tinha queimado. Burgish ouviu sem ouvir. estava sentado no mesmo canto do balneário, mas com o suor a escorrer pelo rosto e pelo pescoço, a camisa azul colado ao corpo pelo poliéster que não respirava e a certeza crescente de que o segundo tempo ia ser diferente.
Não diferente para melhor, diferente para pior. O segundo tempo da final da Campeonato do Mundo de 1970 é frequentemente descrito como o maior segundo tempo da história do futebol. Mas para Tarcísio Burgnish foi outra coisa, foi uma sentença. Uma sentença em quatro atos que teve início aos 66 minutos, quando Gerson recebeu a bola a 25 m do golo de Albertos e rematou com a perna esquerda, a perna que a imprensa europeia dizia não existir.
um tiro seco, baixo, que atravessou a grande área como um projéctil e entrou no canto direito do guarda-redes, sem que ninguém tocasse na bola entre o pé de Gerson e o rede. 2-1, Brasil. E Burginish não estava no lance do golo de Gerson, estava na sua posição 20 m atrás, acompanhando Pelé, mas sentiu o golo como se tivesse levado um soco.
Não pelo marcador, pelo que significava. Significava que a Itália não ia conseguir segurar, que o empate tinha sido uma ilusão, que os 10 minutos de esperança depois do golo de Bonegna tinham sido o último suspiro de uma equipa que estava a ser ultrapassada em todos os aspetos do jogo, técnico, tático, físico, mental.
O segundo ato surgiu aos 71 minutos. Gerson cobrou uma falta na intermediária, a bola cruzou a grande área e Jairzinho apareceu na segunda trave para cabecear contra o chão e marcar o 3-1. O golo foi uma extensão do mesmo futebol, o futebol coletivo, fluido, irresistível que o Brasil jogava e que a Itália não conseguia conter.
Burgish viu Jairzinho celebrar, viu os brasileiros se abraçarem, viu Pelé correr para Jairzinho com a alegria de quem sabia que o golo ia chegar, não estava à espera, sabia e sentiu dentro de si algo a arrefecer. Não há raiva. A raiva já tinha ido embora haja tempo. O que arrefeceu foi algo mais fundamental, a crença de que podia fazer alguma coisa.
A crença de que Burgnish, a A Rósia, o melhor marcador de Itália, importava naquele campo. E depois veio o terceiro ato, o golo que ficou dentro de Burgnik para sempre e que nenhum jornalista conseguiu arrancar-lhe nas décadas seguintes sem que a voz se alterasse. Aos 79 minutos, Pelé recebeu a bola no meio de campo. O jogo já estava 3-1.
Afinal, já estava decidida para qualquer observador racional. Mas Pelé não jogava para observadores racionais. A Pelé jogava para algo que estava para além do resultado. Jogava para o jogo em si, para a bola, para a baliza que sempre existia na sua cabeça, independentemente do placar. Recebeu a bola de tostão, rodou sobre Burgnich.
E desta vez Burgnit sentiu o giro não apenas no corpo, mas na alma, como se a rotação de Pelé tivesse arrastado consigo qualquer resquício de controlo que Borgish ainda pensava ter. Avançou dois passos e levantou a bola. Não pontapeou, levantou-se com o peito do pé suave, como quem coloca uma criança no berço.
A bola subiu, passou por cima de Albertose, que tinha saído da baliza, e desceu do outro lado. Desceu lenta, inevitável, em direção à rede e não entrou. Passou ao lado da trave por centímetros. centímetros que separaram aquele lance de ser o golo mais bonito da história de um Campeonato do Mundo. Mas o golo não importava.
O que importava era o que Burgnish tinha visto. A ousadia de um homem que numa final de Mundial, com o marcador já definido, tentava um lance que nenhum jogador do mundo tentaria. Não por imprudência, por natureza, porque Pelé não escolhia o que fazia com a bola. A Bola e Pelé tinham uma relação que excluía o cálculo, o medo e a prudência.
O que sobrava era puro instinto criativo e esse instinto era aterrador para quem estava do outro lado. Aos 86 minutos, com o marcador em 3-1, aconteceu o lance que a Itália nunca esqueceu e que Burgish carregaria consigo para o resto da vida. Não foi o lance mais decisivo do jogo. O jogo já estava decidido.
Não foi o lance mais difícil tecnicamente. Houve lances mais complexos nos 85 minutos anteriores, mas foi o lance que captou num único momento tudo o que Pelé era e tudo o que a Itália não conseguia ser. O lance que transformou um resultado num algo maior do que um resultado. O lance que transformou uma final da Taça do Mundo numa obra de arte involuntária.
A bola começou nos pés de Clodoaldo. O mesmo Clodoaldo que tinha falhado o passe que gerou o golo de Boninegna. Clodoaldo recebeu na zona intermédia defensiva, levantou a cabeça e viu quatro italianos à sua frente. Quatro. E driblou os quatro. Um a um. Com toques curtos, mudanças de direção e uma coragem que roçava na inconsciência, Clodoaldo passou por quatro jogadores italianos, como se eles fossem cones de treino.
Burgnit era um dos quatro. E quando Clodoaldo passou por ele, com um toque de sola que lhe tirou a bola do alcance da perna de Burgnis por 2 cm, algo dentro de Burgnis aceitou que o jogo tinha terminado. Não o jogo no marcador, o jogo dentro dele. A batalha interna entre acreditar que podia e aceitar que não podia acabou.
E o que veio depois foi apenas o epílogo. Clodoaldo passou a Rivelino. Rivelino tocou para Jairzinho. Jairzinho avançou pela direita e levantou a cabeça. E a bola viajou. Viajou da direita para o centro da área numa trajetória rasteira, rápida, precisa. E o Pelé estava ali. Estava ali como sempre estava, no lugar certo, no momento certo, com o corpo na posição certa.
Mas Pelé não rematou. Pelé deixou a bola passar. deixou passar entre as pernas, abriu o corpo e a bola continuou a sua viagem até encontrar o pé direito de Carlos Alberto Torres, que vinha em velocidade máxima pela direita, e rematou de primeira com toda a força do corpo. Há um remate que atravessou a grande área e entrou no canto esquerdo de Albertos com a violência de uma sentença definitiva.
4-1, O quarto golo. O golo mais bonito da história dos Mundiais. O gol que não era de um jogador, era de uma seleção inteira. O golo que envolvia nove toques, cinco jogadores e uma compreensão coletiva do futebol que a A Itália não tinha visto em nenhum jogo, em nenhum campeonato, em nenhuma competição. Burgnit 6 m de Carlos Alberto quando a bola entrou.
Viu tudo, viu a bola entrar na rede. Viu Alberto no chão, esticado, batido. Viu Carlos Alberto correr para a lateral com o punho erguido. Viu o Pelé correr atrás dele com a alegria de uma criança que acabou de descobrir que o mundo é bom e ficou parado, parado no meio da grande área do estádio Azteca, já com 107.
000 pessoas a gritar em redor dele, com 600 milhões de pessoas a assistir pela televisão, e sentiu o silêncio. Não o silêncio exterior, o silêncio interior. O silêncio que acontece quando uma certeza que te sustentou durante uma carreira inteira desmorona e não sobra nada para colocar no lugar. O apito final soou 4 minutos depois. 4-1. Brasil tricampeão.
O estádio Azteca tornou-se um oceano de amarelo e verde. Os jogadores brasileiros abraçaram-se, choraram, caíram no chão, levantaram-se, caíram de novo. A taça Jules Rim, a taça que o Brasil ganharia para sempre. A terceira conquista que lhe dava o direito de ficar com o troféu, foi trazida para o campo e entregue a Carlos Alberto, que a levantou-se com as duas mãos enquanto o estádio inteiro tremia.
Burgnit não viu nada disso. O caminhou para o túnel sozinho. Não esperou pelos companheiros, não apertou a mão a ninguém. não procurou Pelé para o cumprimentar. Caminhou com a cabeça baixa, os olhos postos no chão de betão do túnel e sentiu nas pernas o peso de 90 minutos que não tinham sido um jogo, tinham sido uma demolição.
A demolição silenciosa, metódica e total de tudo o que Tarcísio Burgnit acreditava ser. No balneário, a Itália estava em silêncio. Não o silêncio irritado de quem perdeu por azar. O silêncio atordo de quem foi ultrapassado de uma forma que não esperava e que não consegue processar. Os jogadores tiravam as chuteiras em câmara lenta.
Fatiete estava sentado com a cabeça entre as mãos. Albertose estava de pé debaixo do chuveiro, com a água a correr e os olhos fechados. Valcared estava à porta do balneário, de costas para os jogadores, olhando para o corredor vazio com a expressão de quem não tem nada para dizer e sabe que nada é exatamente o que deveria dizer. Burgnit sentou-se no mesmo canto que tinha ocupado antes do jogo.
Tirou as chuteiras, primeiro à esquerda, depois à direita. A ordem invertida do ritual de antes do jogo, sem que este se apercebesse, despiu a camisa azul encharcada de suor e atirou-a para o banco ao lado. Ficou sentado de t-shirt interior, com os cotovelos sobre os joelhos e as mãos cruzadas, olhando para o chão de betão que tinha manchas de lama e de linimento.
E ficou ali durante quase 20 minutos, sem se mexer, sem falar, sem levantar os olhos. Ninguém o incomodou, ninguém se aproximou. Os companheiros entenderam sem que fosse necessário explicar. Entenderam que Burgnish não estava triste por ter perdido uma final. Aí estava a viver algo mais profundo e mais privado do que uma derrota.
estava a processar o colapso de uma identidade. A Ria tinha enfrentado o homem que não podia ser travado e a Rótia não tinha sido suficiente. Tarcísio Burgnit acordou no quarto do Hotel Camino Real às 6:40 da manhã de 22 de junho de 1970, com o recorte de jornal do Ainda em cima da mesa de cabeceira.
Não tinha dormido mais do que 3 horas. Não porque o corpo doesse, doía. A altitude e o calor tinham cobrado um preço físico brutal, mas porque cada vez que fechava os olhos via o mesmo lance, o quarto golo. A bola chegando da esquerda, Pelé aparecendo no meio da área como se tivesse sido ali colocado por uma mão invisível. A desmarcação, que não era uma desmarcação, mas uma presença inevitável.
a Carlos Alberto chegando à direita com a velocidade de um comboio e chutando com uma certeza que era quase insultuosa. O recorte do esto na mesa de cabeceira, dobrado em quatro, exatamente onde Borgich tinha-o deixado na noite anterior, final. Burgnich pegou no recorte, leu de novo. Pelé diz que não pensava nos defesas antes dos jogos, que pensava no golo.
Duas noites antes, esta frase tinha sido uma ofensa. Agora era a verdade mais simples e mais devastadora que Burgnit já tinha lido. Pelé não pensava nos defesas, não pensava em Burgnit, não pensava na Roquia, pensava no golo. E o O Gol vinha, vinha sempre, porque o Pelé e o A Gol tinham um acordo que nenhum defensor, por melhor que fosse, podia anular.
Burgish largou o recorte na mesa, não o guardou-o no bolso, não o levou de volta para Itália, deixou-o aí, mas no quarto 412 do hotel Camino Real, na cidade do México, como se fosse uma pele velha que já não servia. Na manhã seguinte, um jornalista italiano conseguiu encontrar Burgnit no lobby do hotel. O jornalista chamava-se Dian Brera, um dos maiores cronistas desportivos da história de Itália, colunista da Gazeta del Sport, um homem que escrevia sobre futebol com a autoridade de quem considerava o desporto uma extensão da
cultura e não apenas um jogo. Brera conhecia Burgnik há anos. Sabia que era um homem de poucas palavras. Sabia que depois de uma derrota era um homem de nenhuma palavra, mas tentou. perguntou a Burgnit o que tinha sentido em campo. Burgnit olhou para Brera com os olhos cansados de quem dormiu três horas e viveu 90 minutos que pareceram 90 anos.
A esteve em silêncio durante quase 10 segundos. Um silêncio que Brera respeitou sem interromper porque era Brera. E Brera sabia que os silêncios de Borgnich diziam mais do que as palavras da maioria dos jogadores. E depois disse a frase: “Dise que antes do jogo estava convencido de que Pelé era de carne e osso como qualquer outro, que depois do jogo tinha a certeza de que não era.
” Brera anotou a frase, publicou-a na Gazeta de Desporto. Dois dias depois, a frase atravessou décadas, tornou-se uma das citações mais repetidas na história do futebol. Foi traduzida em dezenas de línguas. Foi utilizada em documentários, em livros, em artigos académicos sobre a mitologia do desporto.
Tornou-se a definição involuntária do que significava defrontar Pelé. e perder não para um jogador e mas para uma categoria de ser humano que o futebol não tinha produzido antes e não produziria depois. Burgnik nunca se queixou da frase, nunca pediu retratação, nunca disse que tinha sido retirada do contexto ou mal interpretada, porque não o tinha sido.
Era exatamente o que sentia. Era a verdade mais dolorosa e mais honesta que um defensor podia dizer sobre um avançado que tinha feito tudo bem e que tudo bem não era suficiente, que a diferença entre ele e Pelé não era de qualidade, era de natureza. Como a diferença entre um muro e um rio, o muro faz o que pode, mas o rio sempre encontra caminho.
Tarcísio Burgish continuou a jogar futebol durante mais se anos depois dessa final. regressou ao Inter de Milão, voltou à seleção italiana, voltou a marcar grandes jogadores com a eficiência e a disciplina de sempre. Continuou a ser a Roxia, continuou a ser o homem que não sorria em campo, que não falava com adversários, que não sentia medo.
Mas quem o conhecia de perto? Faquete, Mazola, os companheiros que tinham estado ali no Asteca, dizia que algo tinha mudado depois do México. Não na técnica, não no compromisso, na certeza. A certeza absoluta que Burgnich carregava antes de junho de 1970, a certeza de que era o melhor e de que ser o melhor significava ser suficiente, nunca mais voltou.
Não porque Burgish tivesse piorado, porque Burgish tinha visto algo que lhe mostrou que existia um nível acima do melhor e que este nível tinha nome. Passaram-se os anos e o estádio Azteca continua lá. As paredes de betão do túnel continuam pintadas de cinzento. O subsolo, onde se encontravam os vestiários foi reformado várias vezes, mas a estrutura é a mesma.
os mesmos corredores, as mesmas proporções, a mesma inclinação ascendente que desemboca na luz do campo. Se um homem caminhasse hoje por aquele túnel, sentiria a mesma vibração que Burgnit sentiu naquela tarde de junho. A vibração do betão absorvendo o som de milhares de pessoas. A vibração que sobe pelas pernas instala-se no peito.
Pelé continuou a jogar até 1977. Marcou mais golos, ganhou mais títulos. Viveu com o peso de ser o maior numa época em que ser o maior não vinha com proteções, com assessorias, com contratos de imagem. viveu com o peso de ser chamado de sobrehumano por homens que tinham tentado pará-lo e não tinham conseguido. E nunca soube ou nunca demonstrou saber O que a frase de Burgnit significava para Burgnit.
Para Pelé, talvez fosse apenas mais um elogio. Para Burgnish, era a lápide de uma certeza. Hoje, quando ligamos a televisão e vemos o futebol em alta definição, com 10 câmaras e replay imediato, com análises táticas em direto e comentadores que decompõem cada lance em ângulos e percentagens, é fácil esquecer o que era estar ali.
Estar no campo do asteca a 2.240 240 m de altitude, com 36º de calor, com a camisola de poliéster colado ao corpo, com 107.000 pessoas a gritar e a ver um homem fazer coisas com a bola que não obedeciam a nenhuma lei que se conhecesse. Sem replay, sem câmara lenta, sem segunda oportunidade de ver. acontecia uma vez no momento em que acontecia e ficava guardado na memória de quem ali estava.
Distorcido pelo tempo, aumentado pela emoção, mas fundamentalmente verdadeiro. A história não termina com justiça nem com alívio. Termina com um recorte de jornal abandonado numa mesa de cabeceira de um hotel na cidade do México. Com um defensor que descobriu os seus limites na tarde mais importante da sua vida. e com uma frase que um italiano disse sobre um brasileiro e que disse tudo o que havia a dizer.
Pelé não era de carne e osso. Pelé era outra coisa. E quem esteve perto o suficiente para ver, nunca mais conseguiu explicar exatamente o quê. Porque algumas coisas que acontecem num campo de futebol pertencem a um lugar que as palavras não alcançam. M.