Em 1956, um dos homens mais ricos do O Brasil mandou apagar o rosto da própria mulher de uma capa de disco. Apagaram o rosto dela como se nem sequer existissem. 21 anos depois, em janeiro de 1977, encontraram o corpo dela esmagado dentro de um carro destruído [música] na ponte Rio Niterói.
No banco do passageiro, um caderno. E o que mostrava este caderno sobre os últimos dias dela é [música] mais perturbador do que o próprio acidente. Fica até ao fim, porque quando descobrir o nojento segredo do casamento Matarazo, vai-se entender porque aquela ponte era o único final possível para Maísa e vai ouvir a voz dela de uma forma diferente para o resto da vida.
Antes de chegar àquela ponte, há uma coisa que é preciso entender, porque o que aconteceu na ponte Rio Niterói naquele dia 22 de janeiro não começou ali. Começou 13 anos antes numa cobertura no Botafogo, numa noite em que uma menina olhou para o amigo do pai e apaixonou-se em silêncio. Os pais dela estavam na mesma sala e não viram nada.
Mais a Figueira Mom Jardim nasceu a 6 de junho de 1936, no Rio de Janeiro. Família tradicional do Espírito Santo. Neta do Barão de Mon Jardim, cinco vezes presidente da província. Cobertura em Botafogo. Estudos no Sacrequer de Maria em São Paulo. Piano. Francês fluente desde os oito, inglês desde os 10.
Era uma menina de família como qualquer outra, mas tinha uma coisas dentro dela que nenhuma outra menina de família tinha naquela época. Aos 12 anos, sentou-se ao piano da casa dos pais e compôs sozinha uma música, letra inteira, melodia inteira, chamou de adeus. A primeira linha dizia que aquele adeus tinha um sabor que só causava desgosto.
Uma criança de 12 anos não se escreve sobre a Deus que causa desgosto, a não ser que alguma coisa dentro dela já saiba o que vai acontecer com ela. Guarda essa música na cabeça, porque ela vai voltar no final deste vídeo. E quando voltar vai compreender que Maísa escreveu o seu próprio enterro aos 12 anos de idade.
Aos 15 foi internada no Sacrequer. Durou pouco. Implorava aos pais que a tirassem [música] dali. Dizia que aquelas freiras a iam deixar louca. Fumava escondida na casa de banho do internato. Usava cabelo curto, calças comprida, bebia whisky nas festas dos pais. Cantava Frank Sinatra em inglês para a alta sociedade são-brasense.
Era 1951. É preciso entender o que isso significava no Brasil de 1951. Uma rapariga de 15 anos de família tradicional vivia presa a um guião rígido, missa, piano, costura, silêncio, mas quebrava-a todas estas regras antes mesmo de tomar café e não pedia desculpa por nada. Isso ia ser a coisa mais bonita da vida [música] dela e também o motivo exato pelo qual a escolheu.
Os pais dela eram boémios. Acebia de Smon Jardim, conhecido por Monja, era deputado estadual pelo Espírito Santo, mas vivia a vida de artista frustrado. Se na figueira a mãe era socialite. A cobertura dos Monjardin em São Paulo era ponto de encontro da elite cultural da cidade. Música até de madrugada, whisky escorrendo, gargalhadas até ao sonacer.

Foi neste ambiente que um homem entrou na vida deles. O seu nome era André Matarazo. Tinha 30 anos quando começou a frequentar a casa. Era amigo do pai dela há quase uma década. pertencia à família mais rica do Brasil naquele momento. Os Matarazo eram proprietários das indústrias reuniram fábricas Matarazo, o maior grupo empresarial da América Latina, com 350 empresas em ramos diferentes.
Têxtil, químico, bancário, alimentar. Quando alguém dizia matarazo no Brasil dos anos 50, toda a gente baixava a voz. O André sentava-se na mesa de jantar dos M jardim, bebia o whisky do pai dela e começou a aparecer cada vez mais nas festas da cobertura. Mais tinha 13 anos. Repete isso na cabeça.
Ela tinha 13 anos e tinha [música] 30 e era amigo do pai dela há quase uma década. A menina olhou para ele, olhou daquela maneira que toda a menina de 13 anos olha para o homem mais elegante da sala. Os olhos verdes dela travavam-lhe quando ele entrava. As mãos dela tremiam quando ele falava com ela. E ele percebeu.
Percebeu tudo e esperou. Esperou um ano, esperou dois, esperou três. Foi à sua formatura do colégio. Estava nas festas dos pais. Mandava livros pelo aniversário dela. Sempre por perto, sempre paciente, sempre a olhar. Os pais dela achavam que aquilo era afeto de amigo da família. Era outra coisa. muito mais antiga e muito pior.
Quando Maísa completou 17 anos em 1953, André Matarazo pediu-lhe a mão. Os pais aceitaram na hora. Foi um casamento sonhado pela alta sociedade paulista, mas depois a entrar numa das famílias mais ricas do continente e a viver numa mansão, e a ter criadas, motoristas, viagens, joias e a ser tratada como princesa.
Ninguém lhe perguntou se ela queria. A cerimónia aconteceu na igreja da Sé em São Paulo. Vestido branco, véu longo, todos os jornais cobriram. A pequena Mon Jardim virava uma matarazo. Para todo mundo que assistiu, era um conto de fadas. Menina dos olhos verdes casando com o melhor partido do Brasil. Sete dias depois daquele casamento, dentro daquela mansão, começou uma coisa que nenhum jornal cobriu, uma coisa que ninguém da família dela soube por anos, uma coisa que só os móveis daquela casa viram.
A família dele nunca aceitou ela. Para os Matarazo, Maisa era uma intrusa. Os Monjardim eram tradicionais, sim, mas comparados à máquina industrial dos Matarazo, eram quase nada. A sogra olhava para Maisa com uma frieza que congelava o ar da sala. Os cunhados coxixavam quando ela passava e havia uma regra que pairava em cada jantar daquela família.
Uma regra que ninguém precisava dizer em voz alta. Uma matarazo se comporta. Uma matarazo não chama atenção. Uma matarazo não tem profissão. Uma matarazo, acima de tudo, não canta. Mais cantava. Maisa compunha desde os 12. Maisa tinha uma voz rouca que parava conversas em qualquer sala. Aquilo dentro da mansão Matarazo era um problema que precisava ser resolvido.
E André resolveu do jeito mais lento e cruel possível. Nada de gritos, nada de mãos no rosto. O que ele fez foi pior e levou três anos para conseguir. Começou pequeno. Pediu que ela cantasse menos nas reuniões de família. Depois pediu que parasse de tocar piano quando havia visitas.
Depois decidiu que roupa ela azasava. Depois com quem ela falava, depois aonde ela ia. Aos 19 anos, mais a Matarazo já não saía de casa sem ele saber. Aos 20 já não tinha amigas próprias. Aos 21 já não se reconhecia no espelho. Em 19 de maio de 1956, com 20 anos, Maisa deu à luz Jamie, o único filho que ela teria. E foi durante a gravidez que aconteceu uma coisa que André Matarazo não conseguiu controlar, uma coisa que furou a parede da prisão dele pela primeira vez.
Era uma noite de setembro de 1956. Numa festa na cobertura dos pais dela na Avenida Ridienópolis, em São Paulo, estava um produtor musical chamado Roberto Corte Real. Tinha 37 anos. Acabava de transformar a RGE. Antes só uma gravadora de jingles publicitários numa das maiores casas de discos do país.
Estava ali por causa do whisky do anfitrião, não por causa da música. Mas a grávida de 8 meses estava sentada no canto da sala num vestido azul marinho que já não fechava direito na cintura. [música] Os convidados pediram que ela cantasse. Ela hesitou, olhou para André, que estava do outro lado da sala, conversando com um banqueiro.
Ele fingiu não ver. Ela sentou no piano, cantou uma música que tinha composto sozinha na semana anterior. Até quando terminou, a sala inteira tinha parado. Corte real atravessou a sala, sentou ao lado dela no banco [música] do piano e disse na hora que precisava gravar aquela voz, que ela precisava lançar um disco, que aquela voz não podia ficar dentro de uma sala de jantar, mas olhou para ele com os olhos verdes molhados e disse uma única frase: “Preciso falar com meu marido.
” A resposta de André a esse pedido é a primeira coisa nojenta deste vídeo. que ela aceitou. Achou que aquilo era amor. O primeiro disco de Maia existe. Você pode procurar agora na internet e ver com seus próprios olhos. Foi lançado em 20 de novembro de 1956 pela gravadora RGE. Mas tem uma coisa estranha nele, [música] uma coisa que ninguém explica direito.
O rosto da cantora não está na capa. No lugar onde deveria estar o rosto da mulher mais bonita de São Paulo, com a voz mais rouca do Brasil, com os olhos verdes mais inesquecíveis da música brasileira, tem outra coisa, uma coisa absurda. Uma coisa que quando você descobre por está ali, dá vontade de fechar o vídeo de tanto nojo.
Mas não feche, porque o que está naquela capa é só aviso. O verdadeiro segredo nojento do casamento Matarazo é o que ele fez com o dinheiro dela, o que ele fez com o nome dela e o que ele fez com o corpo dela na noite em que o disco saiu. Vamos voltar a isso em alguns minutos, mas antes você precisa entender uma coisa sobre essa mansão, sobre o que acontecia dentro dela quando as luzes apagavam.
Naquela noite de setembro de 1956, quando os convidados foram embora, Maisa esperou André subir para o quarto. Ele tirou o paletó, pendurou no cabide, acendeu um cigarro e ela contou para ele o que Corte Real tinha dito. A voz dela tremia. Ele ouviu sem interromper. Ficou em silêncio por um minuto inteiro, olhou para a barriga dela, tragou o cigarro e começou a falar.
A resposta de André foi sim, mas o sim dele veio com três condições. Três condições que ela aceitou achando que era amor e que anos depois ela ia entender que tinham [música] sido o começo do fim. Maisa, naquele momento achou que tinha ganhado. Os olhos verdes encheram de lágrimas, agradeceu. Saiu do quarto para ligar para a corte real.
Não percebeu naquela hora que tinha acabado de assinar a parte mais cruel da própria vida. As condições vieram dele em voz baixa, sentado na poltrona do quarto, com mais a de joelhos no tapete em frente a ele. Cada condição mais nojenta que a anterior. A primeira era para humilhar, a segunda para silenciar, a terceira para apagar. Primeira condição.
Mais se bena oferecer na capa do disco. Nada de foto, nada de sobrenome. No lugar do rosto dela, qualquer outra coisa servia. Flores, paisagens, símbolos. André não queria que nenhum vizinho da família, nenhum sócio do banco, nenhum amigo do clube abrisse uma revista e visse a cara da esposa dele estampada num disco de sambação.
Para os matarazo, cantora era profissão de mulher pobre. Cantora era mulher de noite, cantora era exposição e uma matarazo, segundo a regra não escrita daquela família, não se expõe. E aqui é onde tudo muda, porque a segunda condição é a que provava que o problema dele nunca tinha sido a música. O problema dele era ela.
Segunda condição, todo o dinheiro arrecadado com o disco precisava ser doado cada centavo. André escolheu pessoalmente o destino, o hospital do câncer de dona Carmen Anes Dias Prudente em São Paulo. Causa nobre, causa publicável, causa que protegia a imagem da família enquanto silenciava a possibilidade dela ter qualquer autonomia financeira.
para o mundo de fora. Era um gesto de caridade da família mais rica do Brasil. Para Maisa era uma corrente disfarçada de filantropia, porque o dia em que ela quisesse fugir ia descobrir uma verdade dura, que nada do que ela cantava era dela, nem o dinheiro, nem o nome, nem o rosto. Terceira condição, mas não podia fazer shows, não podia cantar ao vivo.
A voz dela podia tocar no rádio, o corpo dela tinha que ficar dentro de casa. Repete isso na cabeça. A voz dela podia tocar. O corpo dela tinha que [música] ficar dentro de casa. Você ainda acha que era casamento? Mas aceitou. Achou que era amor. Achou que André estava protegendo ela das maldades do meio artístico.
Achou que aquelas regras seriam temporárias, que com o tempo, com paciência, com filho no colo, ele ia ceder. Em outubro de 1956, ela entrou no estúdio da RG. Cantou oito sambas canção, todos compostos por ela mesma. Adeus. Resposta: Tarde triste, felicidade infeliz. Em uma única sessão de gravação, ela registrou o que [música] viria se tornar um dos discos mais importantes da música brasileira do século XX.
O disco foi lançado em 20 de novembro de 1956 pela gravadora RGE. Título: Convite para ouvir mais. Capa: Um arranjo de orquídeas amarelas e brancas sobre fundo escuro. No canto, apenas o primeiro nome, [música] Maisa. sem sobrenome, sem foto, apagaram o rosto dela como se ela nem existisse. As tiragens venderam tão rápido que a RGE não conseguia [música] repor.
As rádios paulistas e cariocas começaram a tocar as músicas em rotação pesada. Em janeiro de 1957, a cantora sem rosto era o maior fenômeno da cidade. As pessoas paravam em frente às vitrines das lojas de disco para ver aquela capa estranha sem ninguém na frente e ninguém sabia quem era a mulher daquela voz.
Você sabe quem sabia? Os jornalistas. E foi quando o nome Maisa começou a sair na imprensa, que o nojento segredo do casamento Matarazo começou a ficar visível para ela pela primeira vez. No início de 1957, alguém vazou a identidade da cantora. Os jornais começaram a publicar a herdeira Matarazo, que canta nas rádios, a esposa do empresário paulista que assina apenas pelo primeiro nome, o mistério da capa sem rosto resolvido.
Em pouquíssimo tempo, todo São Paulo sabia. E foi quando André chegou em casa numa noite qualquer de janeiro com a notícia do dia debaixo do braço. Subiu para o quarto onde Maisa amamentava Jamie, que tinha 8 meses. Sentou na cadeira em frente à cama, olhou para ela em silêncio e começou a falar. disse que estava recebendo telefonemas, que sócios dele estavam fazendo perguntas, que o nome dela estava colado ao sobrenome Matarazo em manchete de jornal, que isso não podia continuar, que era humilhante paraa família, que ele tinha tentado
proteger ela, mas ela não soube ser discreta. Maisa olhou para ele, os olhos verdes encheram, perguntou o que ele queria. Ele queria que ela parasse tudo, que cancelasse o segundo disco, que sumisse do rádio, que voltasse a ser apenas a esposa dele. Mas com Jamie no peito, disse a única coisa que conseguiu falar.
Não foi a primeira vez em três anos de casamento que ela disse não para ele. E o que veio depois na vida dela foi a coisa mais brutal que a alta sociedade paulistana já tinha feito com uma mulher rica. Nas semanas seguintes, aquele não, Maisa fez algo que nenhuma mulher de família tradicional do Brasil tinha feito antes.
pediu o desquit em 1957, no Brasil de 1957, onde o divórcio nem sequer existia legalmente, onde mulher casada pertencia ao marido como propriedade documentada em cartório, onde uma mulher que largava o lar era considerada vagabunda pela elevada sociedade, mas apegou Jamie, que tinha 8 meses e foi-se embora da mansão Matarazo.
regressou a casa dos pais, contratou um advogado e apresentou o pedido oficial de disquitos do Brasil. A reação de André não foi gritar, não foi implorar, foi muito pior e começou na semana seguinte ao pedido de desquite. A família Matarazo tinha amigos em todos os jornais de São Paulo, em todos os clubes, em todos os tribunais, em todas as redacções de rádio.
E essas amizades começaram a funcionar de uma forma muito específica. O nojento segredo do casamento Matarazo não terminou quando mais a fugiu. O segredo entrou na fase mais cruel, exatamente quando ela tentou se libertar. Porque a partir do momento em que ela disse que não, a família Matarazo iniciou uma operação coordenada para destruir a sua reputação, mas virou-a da noite para o dia a vilã pública de São Paulo.
Os colunistas sociais começaram a chamar-lhe mãe desnaturada, de mulher desequilibrada, de alcoólica, de adúltera, sem provas, sem fotos, sem testemunhas, apenas com a força de uma única chamada telefónica feita do escritório certo para o jornalista certo. Em 1957, o desquite de O Maisatarazo tornou-se um dos maiores escândalos sociais que o Brasil tinha visto desde o início do século.
Capas dos jornais não falavam de outra coisa. Nas festas da elite paulista, ninguém mais convidava Maísa. Os clubes onde ela frequentava desde criança começaram a perder o registo dela. Os restaurantes onde os pais dela jantavam há 20 anos passaram a dar mesa só aos Matarazo. Maísa tinha 21 anos, tinha um filho de 8 meses ao colo e acabava de descobrir o preço de dizer não a um matarazo.
Mas a coisa mais nojenta que aconteceu durante o desquit não foi nos jornais, foi dentro da família dela própria. da família que devia protegê-la. E isso vai-te deixar mal. Maisa esperava que os pais a defendessem em público, que dessem entrevistas, que confirmassem para a imprensa que o casamento matarazo era insustentável, que a filha não estava louca, que ela tinha motivos reais para sair. Nada disso aconteceu.
Os Monjardim ficaram em silêncio. A mãe dela, Iná, deixou de aparecer em público. O pai Alcebiíades, deputado estadual com carreira política a proteger, evitou a assunto em todas as entrevistas que deu. A família, que tinha entregue a filha aos Matarazo aos 17 anos, agora não tinha coragem para a defender [música] em público aos 21, mas a estava sozinha pela primeira vez na vida, com um filho ao colo e o nome destruído na cidade onde tinha nascido.
Foi nessa altura que ela tomou a decisão mais importante da própria vida e a decisão mais arrepiante, uma vez que a alta sociedade A paulistana já não a queria, ela ia embora, saiu de São Paulo, se mudou para o Rio de Janeiro e foi aí, no Rio, que ela conheceu a turma que ia mudar a história da música brasileira e que ia destruí-la pela segunda vez, porque o que aconteceu com Maísa no Rio de Janeiro, entre 1958 e 1961, é a parte da vida dela que ninguém conta direito.
Foi o auge da carreira, foi a invenção da boossa nova e foi também a humilhação pública mais brutal que ela ia sofrer na vida inteira. Uma humilhação que partiu de um homem que ela adorou e que durou três anos seguidos [música] em palco perante o público. Esse homem chamava-se Ronaldo Bôcoli. Foi jornalista, compositor, um dos inventores da bossa nova.
Estava noivo de outra mulher quando conheceu Maisa, Nara Leão, a musa do movimento. Mais e Bôcol envolveram-se numa turnê pela Argentina em 1961. O caso tornou-se público. A Nara descobriu. Rompeu com Buscoli e rompeu com Maça. O movimento da Bossa Nova fraturou-se e Maisa tornou-se persona não grata entre os bossa [música] novistas, entre os músicos empenhados, entre toda a turma do Rio.
Mas o pior não foi a perseguição, o pior foi o que Bôcoli, o homem que ela amava, começou a fazer com ela em público. em meados de 1961 [a música] tinha começado a engordar. O álcool, os calmantes para dormir, a ansiedade dos estar longe do filho, tudo somava. E Bcoli, em vez de a proteger, começou a humilhá-la em palco. Em pleno concerto, na frente do público, chamava mais a de gorda.
Fazia piadas com o corpo dela, apontava, ria. Em digressões na Argentina, no Chile, no Uruguai, em São Paulo, o homem que ela tinha trocado por André Matarazo passou a ser o segundo a humilhar Maísa em público e o segundo a quem ela tinha entregue coração. Você está a compreender o padrão? Porque Maísa não estava.
E é isso que vai acontecer com ela para o resto da vida. Em todos os relacionamentos, em todos os palcos, em todas as cidades, vamos chegar a cada um. Mas antes, há um pormenor sobre os anos no Rio que ninguém conta. Sobre o que ela fez com Jane e sobre por o próprio filho passou anos sem falar com ela.
[música] Entre 1958 e 1962, Maísa tornou-se a maior cantora romântica do Brasil. Em 4 anos, lançou 12 álbuns. 12. A média era de um disco a cada 3 meses. Partiu em digressões pela Argentina, Chile, Uruguai, [música] Itália, Espanha, Portugal e França. Cantou no Olímpia, em Paris, duas vezes lotado. Cantou no Canecão, no Rio, numa das primeiras épocas históricas da casa.
era a cantora brasileira mais bem paga da época e era, ao mesmo tempo, uma mulher que estava a começar a desfazer-se. Foi neste período que aconteceu a primeira coisa que Mais Maisa nunca conseguiu reparar na vida dela, uma coisa que ela mesma, anos de depois ia descrever como o maior arrependimento da própria existência, mas deixou-a de criar o próprio filho.
E o pormenor de como ela fez isso é a parte mais difícil de contar deste vídeo. Jamie tinha um ano e meio quando os pais se separaram em 1957. Ficou inicialmente com a mãe em casa dos avós Monardim em São Paulo. Mas com a explosão da cacarreira de Maça, com as digressões internacionais, com os meses fora do Brasil, o menino passou a ser criado pela avó materna.
Mais aparecia durante dias soltos, desaparecia durante semanas, voltava da Europa para uma festa de aniversário e desaparecia outra vez. Em 1964, quando Jamie tinha 8 anos, aconteceu algo que mudou tudo. André Matarazo, o pai do menino, [música] morreu. Maísa, mesmo divorciada há 7 anos, sentiu uma coisa que ela nunca tinha compreendido até aquela ligação.
Sentiu que era viúva, mesmo sem o ser, mesmo depois de tudo o que lhe tinha feito. E essa sensação ia perseguir Maisa durante o resto da vida. Naquele momento, Maísa morava em Espanha. tinha casado pela segunda vez em 1963 com um advogado espanhol chamado Miguel Azanza. Era um casamento turbulento desde o primeiro dia.
E foi nesse casamento turbulento que Maísa a tomou a decisão, que destruiu a sua relação com o filho para sempre. Ela mandou buscar J no Brasil. O menino chegou a Madrid pensando que ia viver com a mãe. Não foi o que aconteceu. E o que descobriu naqueles primeiros dias em Madrid ainda assombra a vida dele hoje. Mais a colocou o filho num colégio interno em Madrid.
Um menino de 8 anos, este recém-órfão de pai, que tinha acabado de ser retirado de casa da avó no Brasil, foi internado num colégio onde a mãe raramente aparecia. Mais e Miguel viajavam o tempo todo em trabalho. Segundo a própria Maísa diria anos depois, não tinham nem o tempo, nem a estrutura emocional para criar uma criança.
E o argumento que ela utilizou foi um argumento típico de uma matarazo. Era melhor para o futuro do menino. Era era melhor que ele tivesse educação europeia. Era melhor que ele crescesse longe do Brasil desarrumado. A mesma frase que André usou para lhe apagar o rosto da capa do disco. É melhor assim. Maísa, sem se aperceber, começou a transformar-se exatamente naquilo que a tinha destruído.
Estava a transformar-se numa matarazo. Jie passou os anos seguintes nesse internato [música] em Madrid. Os pais maternos, Alcebiíades e Iná lutaram com Maísa pelo Neto. Queriam que regressasse ao Brasil, queriam criá-lo. Mais não cedeu. E essa decisão, de acordo [música] com depoimentos do próprio Jamie em entrevista de 2009, foi a raiz do ressentimento que carregava pela mãe há mais de uma década.
O menino se sentiu-se rejeitado, achou que a mãe não o queria e aos 15 anos, depois de anos no internato, tomou a decisão mais radical que um adolescente pode tomar contra a mãe. Jamie emancipou-se, voltou para o Brasil sozinho aos 15 anos, cortou o contacto com Maisa recusou-se a falar com ela durante anos.
A criança que tinha sido entregue a um colégio em Madrid voltou para casa de adultos e tinha tomado a decisão consciente de apagar a mãe da própria vida. Mais em depoimento gravado para a TV Brasil em 1974, falou sobre esta fase. Disse que não dormia direito. Disse que escrevia cartas ao filho que ela nunca enviava.
disse que sentia todos os dias o peso de uma decisão que ela tinha tomado, pensando que estava a proteger o menino e que tinha sido, no final a maior cobardia da vida dela. Mas o nojento segredo do casamento Matarazo ainda estava a operar dentro de Maisa nesses anos, porque enquanto o filho a apagava da vida dele, ela estava apanhando em silêncio do segundo marido.
E aqui é onde a história fica ainda pior, porque o que aconteceu dentro do O casamento de Maísa com Miguel Azanza é uma coisa que ela própria documentou ano após ano em cartas e em diários. E é uma coisa que prova que a Maísa tinha um padrão, um padrão repugnante, um padrão que a estava matando aos poucos.
O casamento de Maisa com Miguel Azanza entre 1963 e 1968 envolveu agressões, humilhações públicas, traições mútuas, brigas em hotéis, em restaurantes, em camarins. Os dois se machucavam, se separavam, voltavam e o ciclo se repetia. Durou 5 anos assim. E quando ela finalmente conseguiu sair definitivamente do casamento, em 1968, voltou sozinha para o Brasil.
Comprou um apartamento em Copacabana, engordou 38 kg. Começou a depender de calmantes para dormir e de anfetaminas para emagrecer e começou a se isolar do mundo de uma forma que ninguém naquela época sabia ainda o que significava. Mas o que poucos sabem é que o pior estava ainda por vir. Porque quando Maisa voltou ao Brasil em 1969, o corpo dela já carregava marcas que não tinham mais volta.
E o que ela fez na década seguinte sozinha numa casa de praia é a parte mais arrepiante deste vídeo. Em 1969, Maisa voltou ao Brasil em definitivo. Tinha 33 anos, 20 de carreira. E uma vida que já estava começando a desabar de todos os lados ao mesmo tempo, tentou recomeçar. Gravou novos discos, voltou aos palcos, participou de novelas.
Em 1971, atuou em Ucafona da TV Tupi, em 1972, em Belame. Em 1975, fez participação em Bravo, protagonizada pelo ator Carlos Alberto. Foi nessa participação que Mais a conheceu Carlos Alberto e começou um relacionamento que durou anos e que repetiu, ponto por ponto, o padrão dos casamentos anteriores.
brigas violentas, crises de ciúmes, reconciliações por carta, telefonemas no meio da madrugada, mas entregava cada relacionamento da própria vida, como se estivesse repetindo, de propósito, a mesma humilhação que André tinha começado em 1956. Em 1972, Maisa fez uma escolha que ninguém da família entendeu. Comprou uma casa em Maricá, no litoral fluminense, e mudou-se para lá sozinha, para longe do rio, da imprensa, da família, de tudo o que tinha sido a vida dela nos 20 anos anteriores.
E começou a viver uma vida que os biógrafos descrevem sem exagero, como reclusão. A casa de Maricá ficava de frente para o mar, mas a passava o dia escrevendo, bebendo, tomando calmantes, engordando, brigando por telefone com Carlos Alberto, que ainda morava no Rio. As brigas eram tão constantes que ela mal saía de casa. E os amigos que ainda restavam quando visitavam encontravam uma mulher que já não parecia a mesma cantora de 15 anos antes.
A depressão de Maisa se aprofundou em 1974. foi o pior ano da vida dela. E o motivo central, segundo as próprias anotações dela em diários, foi um único elemento, a relação com Jame. O filho que ela tinha pagado do internato em Madrid agora tinha 18 anos. Estava começando a vida própria no Brasil e recusava, ano após ano, ligar paraa mãe, mandar carta, aparecer em festa de família.
Para Jamie, a mãe estava morta há muito tempo, mas entrou num ciclo desesperado de tentativas de reaproximação. Ligava para o filho e ele não atendia. Mandava bilhetes pela avó e ele devolvia sem abrir. Tentava aparecer em festas onde sabia que ele estaria e ele saía pela porta dos fundos antes que ela chegasse na sala.
E o motivo da raiva dele, segundo o próprio J contou anos depois, em entrevista à revista Veja, em 2009, foi resumido numa ideia simples. Ele tinha se sentido rejeitado pela mãe e, por isso, tinha passado anos sem falar com ela, mas a entendeu tarde demais, mas entendeu. Em 1975, ela tomou a decisão ia salvar a relação dela com o filho e que, ao mesmo tempo, ia ser o último ato bom da vida dela.
Em algum momento de 1975, Jitou se encontrar com a mãe. Os detalhes desse encontro nunca foram tornados públicos, mas as consequências foram. A partir daquele dia, Maisa e J retomaram contato. Começaram a se ver, a se falar, a reconstruir no pouco tempo que restava 20 anos de ausência. Maisa, segundo os depoimentos do próprio Jamie, mudou nos últimos dois anos de vida.
ficou mais quieta, mais reflexiva. Começou a escrever um diário com frequência maior. Falava sobre o tempo perdido, falava sobre o que tinha feito com o filho, falava sobre o que André tinha feito com ela em 1956. estava pela primeira vez em duas décadas tentando entender o próprio padrão, mas era tarde demais porque o corpo de Maisa já [música] estava destruído.
E em novembro de 1976, ela escreveu num caderno uma frase que parece resumir os últimos meses da vida dela. Uma frase que para quem leu [música] é a chave para entender o que veio depois. A frase escrita por ela em novembro de 1976 era esta: “Hoje é novembro de 1976, sou viúva, tenho 40 anos, 20 de carreira e sou uma mulher só.” Mais não era viúva.
André tinha morrido 12 anos antes. Miguel Azanza estava vivo, mas no caderno dela, escrito de próprio punho, dois meses antes de morrer, ela se descrevia como viúva. E essa palavra viúva é o que conecta o início e o fim da história. Porque a mulher que tinha tentado fugir do casamento Matarazo em 1957, 20 anos depois ainda se considerava esposa do homem que a tinha destruído.
Mas nunca tinha conseguido escapar daquela mansão. Mesmo morando sozinha em Maricá, mesmo casada com outros homens, mesmo lotando teatros em Paris. Por dentro, ela ainda era a esposa apagada de André Matarazo e ia morrer assim. Faltavam dois meses. O acidente na Ponte Rio Niterói estava marcado. Ela ainda não sabia a data, mas o corpo dela já estava se preparando.
E o que aconteceu nos últimos cco dias antes do acidente é a parte mais arrepiante deste vídeo inteiro. Em meados de 1976, Maisa estava no auge da deterioração física. Tinha 40 anos. Pesava muito acima do que conseguia carregar. A pressão alta era constante. O fígado, depois de 20 anos de álcool, mandava sinais que ela ignorava.
E foi nesse ano, com a saúde já comprometida, que ela fez algo que vinha tentando há meses. Tentou voltar aos palcos. A última temporada da carreira de Maisa aconteceu na boate igrejinha em São Paulo em 1975. A imprensa, anos depois chamou aquela temporada de Aturnedo adeus. Mais a cantava sentada, esquecia letras das próprias músicas, fazia pausas longas demais entre as canções.
Os músicos do conjunto sabiam que algo estava errado. Os amigos que iam aos shows saíam dos camarins assustados. Mas o pior dos últimos meses não aconteceu no palco. Aconteceu na casa de Maricá, em silêncio, sozinha, onde ninguém viu. A vaidade de Maa, mas mesmo no fundo da depressão, nunca tinha desaparecido. Ela queria emagrecer, queria voltar a caber nos vestidos dos anos 60, queria, segundo relatos de amigos próximos daquele período, recuperar pelo menos uma parte do corpo que tinha sido dela.
E para conseguir isso, ela passou a depender de uma coisa que ia no final ser uma das causas diretas da morte dela. Anfetaminas, remédios para emagrecer, comprimidos que cortavam a fome e ao mesmo tempo cortavam o sono. Maisa começou a tomar essas pílulas em doses cada vez maiores ao longo de 1976. Os médicos da família receitavam, as farmácias entregavam.
Ninguém calculava o impacto que aquilo estava fazendo no corpo de uma mulher que já dependia de calmantes para dormir e de doses de whisky para funcionar pela manhã. A mistura era uma bomba. Fetaminas para emagrecer, calmantes para dormir, álcool para aguentar o dia e os três juntos no mesmo corpo durante meses seguidos. Vamos ver o que isso fez com ela.
Mas antes tem um documento real escrito de próprio punho. Em novembro de 1976. Naquele mês, dois meses antes de morrer, Maisa pegou um caderno na casa de Maricá e começou a escrever. Não era uma carta, não era um diário, era uma anotação solta, reflexões, lembranças, comentários sobre a própria vida. E foi nesse caderno que apareceu em letras dela mesma das frases mais arrepiantes que uma artista brasileira já escreveu sobre a própria existência.
A frase registrada nas anotações pessoais dela e mais tarde citada pelo biógrafo Lira Neto no livro Mais. Só numa multidão de amores era esta. Eu estava com medo. Olhava o mundo com grande terror. Maisa não estava reclamando do passado. Estava descrevendo o presente. O presente dela em novembro de 1976, aos 40 anos, sozinha numa casa de praia em Maricá, engordada, drogada, isolada, com o filho que ela tinha acabado de reencontrar há um ano depois de quase duas décadas de silêncio.
e olhava o mundo com terror, não como quem está triste ou nostálgico, como quem está prestes a desabar. E esse terror tem um ponto de partida específico, veio de 1953, do dia em que ela atravessou o portão da mansão Matarazo pela primeira vez. O nojento segredo do casamento Matarazzo, 23 anos depois de ela ter saído de lá, ainda estava vivo dentro do corpo dela, ainda dando ordens, ainda mandando.

Os pais de Maisa, naqueles últimos meses de 1976, começaram a notar mudanças na filha. Alcebíades e Namon Jerdim ficavam atentos pelo [música] telefone. As conversas eram curtas, Maisa estava sempre cansada, sempre com sono, mas sem conseguir dormir, sempre prometendo visitar e nunca aparecendo. Foi nas duas últimas semanas de janeiro de 1977 que tudo começou a desabar.
Maisa tomou uma decisão que parecia simples, uma decisão que ela tinha tomado dezenas de vezes nos anos anteriores, mas dessa vez a mãe dela percebeu que algo estava diferente e implorou. Mais decidiu em janeiro de 1977 fazer uma viagem rápida ao Rio, visitar os pais, resolver pendências bancárias e voltar para Maricá no fim de semana para passar o domingo na casa da praia.
Era uma rotina que ela cumpria há anos. Ir ao rio durante a semana, voltar para Maricá nos fins de semana, atravessar a ponte Rio Niterói nos dois sentidos. Algo banal, algo que ela tinha feito centenas [música] de vezes. Mas nas duas semanas que antecederam o acidente, Maisa entrou num estado que os familiares descreveram anos depois, como os Ausência.
Os depoimentos de Alcebiíades e Iná registrados [música] após o acidente contam o que aconteceu nos cinco últimos dias da vida da cantora e é a parte mais difícil deste vídeo. Maisa passou os cinco dias anteriores ao acidente sem dormir. Não foram cinco noites, foram cinco dias contínuos e ninguém consegu explicar porquê.
Os depoimentos posteriores dos pais de Maçá registrados na imprensa nos dias seguintes ao acidente contam algo que ainda hoje arrepia quem lê. A mãe Iná tinha pedido para a filha não pegar a estrada naquele fim de semana. Pediu para Maisa ficar em Maricá. Pediu para a filha descansar primeiro, dormir, recompor o corpo antes de qualquer viagem.
Maisa, do outro lado garantiu que estava bem, que ia dirigir devagar, que precisava cumprir aquela ida. O pai Alcebiíades teve algo mais inquietante naqueles dias. Falou para pessoas próximas que tinham pressentimento. Não conseguia explicar de onde vinha, mas estava certo de que algo ruim ia acontecer com a filha. Tentou desencorajar a viagem, não conseguiu.
Foi a última conversa que Iná teve com a filha. E o que aconteceu na manhã seguinte, no dia 22 de janeiro de 1977, é o que conecta tudo que você acabou de ouvir neste vídeo. Tudo que André fez com Mais em 1956, tudo que aconteceu no disquit de 1957, tudo o que veio depois. Na tarde de 22 de janeiro de 1977, um sábado, Maisa pegou o carro e entrou na estrada que levava para sua casa de praia em Maricá.
ia passar o fim de semana sozinha. Era uma rotina que ela cumpria há anos, mas dessa vez, com cinco dias acumulados sem dormir, com anfetaminas circulando no corpo, com cansaço somado, acalmantes, ela atravessava a ponte Rio Niterói em condições que nenhum motorista deveria ter. A ponte Rio Niterói tinha sido inaugurada havia menos de 3 anos.
Era a obra mais imponente do Rio de Janeiro daquela década. Quase 14 km sobre a baía de Guanabara. Mais atravessava aquela ponte semana sim, semana não, há anos. Sabia onde estavam os pontos mais altos, sabia onde o vento batia mais forte. Sabia que no meio da ponte o motorista fica suspenso entre dois pedaços de chão, muito distantes um do outro.
Em algum ponto daquela manhã, no meio da ponte, alguma coisa aconteceu dentro do carro. Os peritos depois reconstituíram. Mas o que aconteceu na cabeça de Maisa naqueles segundos finais? Nunca ninguém vai saber. A versão oficial dos peritos apurada nas semanas seguintes ao acidente conta o seguinte: o carro de Maisa perdeu o controle no meio da ponte Rio Niterói.
Atingiu um dos cabos de aço que sustentavam a estrutura. O impacto fez o veículo bater na quina de concreto armado que dava início à mureta. O carro rodopeou na pista, bateu novamente dos dois lados no muro de proteção e parou. Quando os primeiros socorristas chegaram, encontraram mais a presa nos destroços. O impacto tinha sido tão forte que o volante do carro tinha sido empurrado para trás.
Ficou na altura do banco traseiro. Imagine o que precisa acontecer com um corpo humano sentado no banco do motorista para que o volante chegue ao banco de trás. Imagine, Maisa foi colocada numa ambulância, levada para o Hospital Antônio Pedro em Niterói. Os ferimentos eram graves demais para sobreviver à viagem. Maisa morreu antes de chegar ao hospital.
Tinha [música] 40 anos. Os relatos da família e da imprensa nos dias seguintes apontaram para uma única causa principal. E essa causa explica muito do que aconteceu, mas a estava, segundo o que os próprios pais contaram à imprensa, sob efeito de remédios para emagrecer, combinados com calmantes, cinco dias sem dormir, meses de uso acumulado, pressão alta crônica que ela ignorava.
O estado físico em que ela entrou no carro naquela tarde era incompatível com dirigir um veículo numa das pontes mais altas da América Latina. Não houve premeditação. Houve um corpo que depois de 23 anos pedindo socorro finalmente desligou no pior momento possível. E aqui é onde tudo se conecta. Aqui é onde o nojento segredo do casamento Matarazo, que começou em 1953, mostra finalmente a cara verdadeira.
Você precisa parar e prestar atenção, porque é aqui que esse vídeo termina de fazer sentido. Mais não morreu naquela ponte por causa de um acidente de carro. Maisa morreu porque 23 anos antes, aos 17 anos, um homem da família mais rica do Brasil entendeu que a única maneira de manter uma cantora dentro de uma mansão era ensinar essa cantora a se odiar.
André Matarazo não apenas apagou o rosto de Maia daquela capa de disco em 1956. Ele apagou o rosto dela de dentro dela mesma. Ele convenceu uma menina de 17 anos, com talento, beleza, voz e família, de que ela não merecia existir publicamente, de que o corpo dela era vergonha, de que a voz dela era exposição, de que o dinheiro dela não era dela.
Quando Mais fugiu, em 1957, ela escapou da mansão, mas a mansão não tinha-lhe escapado. Aisa passou os 20 anos seguintes apagando o próprio filho, apagando o próprio corpo alimento e remédio, apagando o próprio talento com bebida e isolamento, apagando-se em todo o lugar onde ia a própria identidade. Naquela ponte, a 22 de janeiro de 1977, ela não bateu com o carro.
Ela terminou um trabalho que Andrés tinha começado em 1953, mas apagou-se a si própria. Foi a Matarazo final que ela se transformou para conseguir terminar a obra que iniciaram nela aos 17 anos. Era esse o segredo. O segredo nojento do casamento Matarazo nunca foi sobre o André. foi sobre o que A Andrea conseguiu plantar dentro dela e que continuou a crescer ano após ano, mesmo depois de ele estar morto e enterrado.
A morte de Maísa, a 22 de Janeiro de 1977 foi notícia em todo o Brasil. Os jornais cobriram o acidente nos dias seguintes. As rádios voltaram a tocar as canções que ela tinha gravado 20 anos antes. E o nome Mais Maia Matarazo, que durante a década final tinha começados a desaparecer das primeiras páginas, voltou ao centro da conversa cultural brasileira no exato momento em que ela já não estava ali para ouvir.
Mas o que aconteceu nas três décadas seguintes à morte é o que realmente mudou a história. E o filho que ela tinha abandonado no internato em Madrid teve ele próprio um papel decisivo nisso. Ja Monardim tinha 20 anos quando a mãe morreu. Tinha reconquistado o contacto com Maisa há cerca de 2 anos depois de quase uma década de silêncio absoluto.
estava a começar a vida de adulto e perdeu a mãe exatamente quando os dois começavam a aprender pela primeira vez a serem mãe e filho de verdade. Jalou publicamente sobre Maísa durante anos. recusou entrevistas profundas sobre a relação com a mãe. Construiu uma carreira própria como diretor, primeiro na rede Manchete e depois na Globo, com êxitos como Pantanal e o Clone.
E só em 2009, mais de 30 anos depois da morte da mãe, ele encontrou coragem para fazer uma coisa que mudou tudo. Jamie decidiu conduzir ele próprio uma minissete sobre a vida da própria mãe. E o que ele disse em entrevista à revista, veja-se, nesse ano, explica tudo o que vinha sufocado dentro dele desde 1977, em entrevista à Veja em 2009, no lançamento da minissérie Maisa, quando fala o coração, Jamie contou que precisou primeiro de espiar tudo o que tinha guardado por dentro antes de conseguir dirigir aquela história com distanciamento profissional. disse que
tinha 52 anos quando filmou a vida da mãe, que era um profissional maduro e que tinha sofrido tudo o que tinhas para sofrer em silêncio durante três décadas. A minissérie foi escrita por Manuel Carlos e estreou em janeiro de 2009 na Rede Globo. Em nove capítulos, contou para todo o Brasil a história [música] de uma cantora que tinha sido apagada da capa do próprio disco aos 20 anos.
atingiu 29 pontos de média de audiência, um número que comprovou algo simples e profundo. O Brasil queria saber a verdade sobre Massa Matarazo. O nojento segredo do casamento Matarazo, que André tinha plantado dentro de Maísa em 1956 sobreviveu 23 anos no corpo dela e mais 32 anos no silêncio do filho. Foi necessário um homem de 52 [música] anos com a câmara na mão e o guião de Manuel Carlos para finalmente arrastar aquele segredo da mansão Matarazo para a sala de jantar de milhões de famílias brasileiras numa noite de quinta-feira em 2009. A voz de Maísa venceu o tempo.
E o filho que ela tinha entregue a um internato em Madrid, em vez de continuar a vingança, devolveu à mãe a coisa mais importante que ela [música] tinha perdido aos 17 anos. O rosto em rede nacional, em horário nobre, pela primeira vez sem orquídeas no lugar. Aquela cantora sem rosto na capa em 1956 tornou-se em 2009 o rosto de uma das minicês mais importantes da TV brasileira.
E o homem que tentou apagá-la já não é lembrado por nada, mas a virou o nome principal, André, uma nota de rodapé no fim do verbete. Hoje, quase cinco décadas depois daquela tarde de Janeiro de 1977, Maisa Matarazo é considerada uma das vozes mais importantes da música popular brasileira do século XX.
está ao lado de Elis Regina, de Maria Betânia de Gal Costa no panteão das grandes intérpretes femininos que o país produziu, mas com uma diferença que ainda hoje magoa quem entende. Mais nunca chegou aos 45 anos, nunca teve tempo para envelhecer em palco, nunca cantou para o filho já adulto, nem para o neto, nem para a bisneta.
Nunca soube em vida que ia ser lembrada por gerações inteiras que ainda nem tinham nascido quando ela morreu. A música Adeus, aquela que ela compôs aos 12 anos com a frase sobre o adeus que causa desgosto, é ainda gravada por intérpretes brasileiros até aos dias de hoje. A música Meu Mundo Caiu, tornou-se um clássico atemporal.
A canção Ouus tornou-se trilha de telenovelas, anúncios publicitários, filmes. Maísa, em forma de catálogo musical está mais viva agora do que esteve em qualquer momento dos últimos 20 anos da própria existência. E a única coisa que o André Matarazo conseguiu impedir, com toda a fortuna da família mais rica do Brasil, foi que ela visse este momento com os próprios olhos.
Há uma coisa que precisa de ser dita sobre Maisa antes de sair deste vídeo. Uma coisa que tem a ver consigo. Mesmo que nunca tenha cantado num palco, mesmo que nunca tenha casado com um milionário, mesmo que nunca tenha morado numa mansão paulista, nem morrido em qualquer ponte, tem a ver com você.
Porque o que a vida demais a mostra com uma clareza assustadora [música] é que há casamentos, famílias e relações inteiras que apagam pessoas por dentro sem deixar marca visível, sem grito que vizinho ouça, sem hematoma que apareça em foto, apenas com regras repetidas dia após dia e com aquela frase brasileira que atravessa gerações inteiras nas casas da elite e nas casas pobres. É melhor assim.
Pensa no que vão dizer. Mais ouviu esta frase a vida inteira. Veio da sogra Matarazo no primeiro mês de casamento. Veio do marido quando esta tentou gravar o primeiro disco. Veio dos colunistas da imprensa quando ela pediu disquit e veio no fim do próprio pai dela que devolveu a filha para a mansão quando tentou fugir com o bebé ao colo.
Ouvindo a mesma ordem em todas as bocas. Ano após ano, Masa foi aprendendo a dobrar-se até tornar-se uma versão diminuída da menina que entrou na igreja da Sé aos 17. Pediu desculpa pelo seu próprio talento, escondeu o rosto, doou o dinheiro, abandonou o filho, engordou para desaparecer, drogou-se para se serer e morreu aos 40 anos sem nunca ter compreendido completamente que a única pessoa que ela precisava de ter desobedecido era ela própria.
E talvez seja por isso que esta história ainda mexe com qualquer pessoa que ouve, porque há alguma coisa de Maísa em todo o mundo que já foi obrigado a calar-se dentro da própria casa. A história da Maisa não é uma história de cantora dos anos 60, é uma história de família, de trauma, [música] que passa de pai para filha, de mãe para filho, de geração para geração e que continua a passar hoje, neste preciso momento, em casas onde alguém está a pedir ao outro se apagar um pouco, para chamar menos os atenção, para pensar mais no que vão
dizer, para ser em silêncio uma versão menor de si mesmo. Aisa morreu na ponte Rio Niterói em 22 de janeiro de 1977, mas o trauma que matou Maisa não morreu naquela ponte. Continua vivo em qualquer filho que ainda carrega o peso de uma mãe ausente, em qualquer mulher que ainda ouve a voz do marido a pedir para ela se calar.
Em qualquer família que vive de fachada enquanto se desfaz [música] por dentro. O nojento segredo do casamento Matarazo era, no fundo, um segredo brasileiro, um segredo da alta sociedade e também das casas comuns, dos famílias modestas, dos bairros de classe média, onde as mesmas regras de silêncio se aplicam, só que sem mansão para mascarar a violência.
Em entrevista em 2009, Jamie Monjardim disse algo que talvez seja a frase mais importante deste vídeo inteiro. Disse que durante muito tempo sentiu raiva da mãe, que demorou anos para conseguir olhar para uma foto dela sem dor, que tinha jurado na adolescência que nunca ia perdoar e que, no final, perdoou, não porque ela merecesse, porque precisava.
Essa é a frase que talvez fique consigo depois deste vídeo. Quem precisa do perdão não é quem feriu, é quem foi ferido. Porque sem perdoar continuamos a ser a próxima mais aa da história. Continua atravessando em silêncio a própria ponte, sem que ninguém veja. E talvez que seja a parte mais nojenta de toda essa história.
André Matarazo sozinho, não destruiu a Maísa por dentro. Quem destruiu Maísa foi todo um sistema de clicidade. Uma família que aceitou o casamento sabendo das regras, uma cidade que aplaudiu na igreja da Sé, uma imprensa que difamou o desquite em troca de telefonema dos donos do jornal. Uma cultura que ainda hoje ensina as raparigas desde cedo a pensar que o silêncio é elegância e obediência é amor.
O André foi o homem que assinou a sentença. O verdadeiro carrasco foi a sociedade que olhou para o outro lado. Pensa nas maisas da sua vida. Em quantas você ajudou a calar sem se aperceber? Em quantas devolveu para casa quando elas tentaram fugir? Em quantas olhou de longe enquanto elas atravessavam sozinhas? a própria ponte.
Porque enquanto fingirmos não ver, a história continua a repetir-se. Em outras famílias, noutros bairros, em outras maisas que ninguém escreve livro depois. Se esta história te fez pensar em alguém, numa mulher da sua família que sente que está a calar-se devagar, numa mãe que ainda não perdoaste, num filho que ainda não te perdoou, numa amiga que deixou de cantar dentro da própria vida.
Faz uma única coisa esta noite. Envia este vídeo a essa pessoa sem dizer mais nada. Só manda. Deixa a história dar mais que falar por si. Porque histórias como esta só deixam de se repetir quando alguém em algum lado decide hoje que vai deixar de se repetir.