Caio estava completamente concentrado, olhos fechados, dedos correndo pelo braço da guitarra, voz subindo e descendo com aqueles agudos difíceis que a música pedia e conseguindo, acertando, entregando tudo que tinha nessa performance para quatro pessoas num barzo, de terça-feira. Os dois homens do balcão reconheceram Tin ali sentado e começaram a coxixar entre si, picando um ao outro com o cotovelo, mas fizeram silêncio para não perturbar.
O Tin ficou ali sentado, de braços cruzados sobre a mesa, observando cada movimento do Caio, ouvindo cada nota com aquela atenção, de quem percebe de música a sério, de quem sabe reconhecer quando alguém está cantando com o coração e não só com a voz. Quando o Caio chegou no final da música, segurou a última nota, deixou ela morrer naturalmente e abriu os olhos lentamente, ainda respirando fundo da emoção que tinha colocado naquele interpretação.
Foi só então que Caio viu o homem sentado na mesa mesmo em frente dele e demorou uns 2 3 segundos a processar quem era Tim Maia. O próprio Tim Maia ali sentado a menos de 3 m de distância, olhando-o diretamente. O violão quase escorregou das mãos de Caio. O coração disparou e ele ficou completamente paralisado, sem saber o que fazer, se continuava a tocar, se dizia alguma coisa, se fingia que não tinha visto.
A mulher da mesa do canto apercebeu-se também e ficou de boca aberta. E o dono do bargou o copo que estava segurando, fazendo barulho no balcão de tão surpreendido. Tin levantou-se da cadeira calmamente, caminhou até ao palquinho onde O Caio estava congelado e falou com aquela voz grave e tranquila que Caio conhecia de tantos discos.
Você canta bem para caramba, rapaz. Essa interpretação aí foi diferente. Gostei. Caio tentou responder alguma coisa, mas a voz não saiu. Só conseguiu acenar com a cabeça, ainda a processar o facto de que Tim Maia, o Tim Maia estava ali à frente dele, elogiando a forma como tinha cantado. Tim puxou a cadeira onde tinha estado sentado, arrastou-a até ficar muito perto do palquinho, sentou-se de novo e disse: “Toca lá mais alguma coisa.
Deixa eu ouvir o que mais sabe fazer. E O Caio, ainda a tremer, começou a tocar. Caio tocou mais três músicas para Tim nessa noite, todas com a mesma entrega, a mesma emoção verdadeira que tinha colocado na primavera. E Tin ficou ali sentado, ouvindo tudo sem interromper, sem desviar a atenção, completamente concentrado em cada nota que saía daquele velho violão.
Quando Caio terminou a última música, Timou da cadeira, bateu palmas lentamente e os quatro presentes no bar acompanharam, criando um pequeno aplauso, mais sincero, que encheu aquele espaço de uma forma que Caio nunca tinha experimentado em 5 anos a tocar em botecos vazios. Tinha acenou a Caio para descer do palquinho e sentar-se com ele na mesa.
Pediu duas cervejas ao dono do bar e esperou que Caio se acomodasse na cadeira na frente dele. Caio estava visivelmente nervoso, as mãos a tremerem um pouco, sem saber bem onde olhar. Mas Tim tinha aquele jeito tranquilo de quem já tinha passado por tanta coisa na vida que nada mais o deixava ansioso.
Ele acendeu um cigarro, deu uma longa e perguntou diretamente: “Quanto tempo toca assim? O Caio começou a contar a história dele e uma vez que começou não conseguiu mais parar, como se tivesse guardado aquilo por demasiado tempo e finalmente tivesse encontrado alguém que estava realmente interessado em ouvir. Há 5 anos que toco em Bartin.
Deixei um emprego de escritório em Niterói para tentar viver disto e dos meus pais cortaram relação comigo. Eles falam que a música não é uma profissão, que eu estou deitar a minha vida fora, que vou morrer de fome a tocar guitarra em boteco. Já levei as minhas músicas em cerca de 20 diferentes gravadoras e todas dizem a mesma coisa. É bom, mas não é comercial.
Mal consigo pagar renda do quarto que partilho com dois rapazes no Botafogo. Dou aulas de guitarra a uma criança que não quer aprender. Toco em três, quatro bares por semana e às vezes fico a me perguntando se os meus pais não estavam certos, sabe? Tin ouvia tudo a balançar a cabeça de vez em quando, soltando fumo do cigarro.
E Caio percebia que ele não estava a fazer aquilo por educação. Estava genuinamente a prestar atenção, absorvendo cada palavra. Quando Caio acabou de falar, ficou ali esperando alguma reação, algum conselho, talvez até um. É assim mesmo. Tem que continuar a tentar. Daqueles genéricos que toda a gente dava. Mas Tin ficou quieto por uns segundos, apagou o cigarro no cinzeiro, deu um gole na cerveja e disse algo que Caio não esperava.
Tem talento de verdade, rapaz. Boa voz, boa interpretação, sentimento na música. O problema não é você, é que está a tocar nos lugares errados paraas pessoas erradas, esperando que alguém te descubra por acaso. Tin continuou a falar, explicando que a indústria musical não funcionava na base da sorte, que ninguém ia bater à porta do bar às 10 da noite de terça-feira para descobrir um talento, que Caio precisava de estar nos lugares onde as coisas aconteciam, conhecer pessoas, fazer ligações, mostrar o trabalho dele para quem realmente
percebia do assunto. ouvia tudo aquilo com um misto de esperança e frustração, porque tudo o que Tim falava fazia sentido, mas ao mesmo tempo parecia impossível. Ele não conhecia ninguém da indústria, não tinha acesso a esses locais, nem sabia por onde começar. Foi quando Tim se inclinou para frente, olhou diretamente para os olhos de Caio e disse: “Olha, eu tenho um estúdio, o Vitória Régia, onde gravo os meus discos e ensaio com a minha banda.
aparece lá amanhã à tarde por volta das 3 horas, vai ter ensaio, vai ter um monte de músicos bons, pessoas que trabalham comigo há anos. Você vai lá, conhece o pessoal, mostra o teu som, vê como funciona uma gravação de verdade. Quem sabe se não sai alguma coisa daí. Caio ficou paralisado a ouvir aquilo.
Não conseguia acreditar que o Tim Maia estava a convidá-lo, um completo desconhecido, para ir ao seu estúdio, conhecer os músicos da sua banda, ter acesso a um mundo que parecia completamente fora do alcance. Meia hora atrás, Tim pegou num guardanapo, pediu uma caneta emprestada ao dono do bar, anotou o endereço do estúdio e entregou para o Caio.
3 horas não se esquece e leva teu violão. No dia seguinte, Caio chegou no estúdio Vitória Régia, 15 minutos adiantado, com a guitarra às costas e o coração a bater tão forte que achava que toda a gente podia ouvir. O estúdio ficava num edifício comercial meio escondido e quando o Caio entrou pela porta viu um espaço maior do que imaginava, com equipamento que só tinha visto em revista, cabines de gravação com vidro grosso, enorme mesa de som, cheia de botões e comandos, e alguns músicos já chegando, cumprimentando-se, afinando instrumentos. Tinha ainda não
tinha chegado, mas Paulinho Guitarra, o guitarrista da banda, viu Caio parado ali à porta sem saber o que fazer e foi até ele. E aí deves ser o Caio, certo? O Tim disse que tu ias aparecer. Eu sou o Paulinho Guitarra, toco guitarra aqui na banda. Seja bem-vindo, pá. Caio apertou-lhe a mão ainda meio sem acreditar que aquilo estava a acontecer, que estava realmente ali dentro do estúdio do Tim Maia, sendo recebido pelos músicos da banda como se fosse normal, como se ele pertencesse àquele lugar. Paulinho Guitarra apresentou Caio
para os outros músicos que iam chegando. Paulinho Black na bateria, Micheline Cardoso nos vocais de apoio, o baixista, o teclista, todos rapazes experientes que tinham tocado em discos importantes que viviam da música a sério. E todos cumprimentaram Caio com naturalidade. Sem aquela pose de estrela, só gente trabalhando em conjunto.
O networking começou a acontecer de forma natural naquela tarde no estúdio Vitória Régia. sem Caio, nem se aperceber que estava a fazer aquilo que tinha parecido tão impossível antes. Paulinho Guitarra mostrou a lhe diferentes técnicas de dedilhado, explicou como criar arranjos que complementassem a voz sem competir com ela, deixou que Caio lhe pegasse na guitarra e experimentar uns acordes sob supervisão.
Enquanto conversavam sobre música, Paulinho Black aproximou-se e começou a perguntar sobre as influências musicais de Caio, que artistas ouvia, que tipo de som que ele queria fazer e foi fazendo ligações mentais, sugerindo outros nomes que Caio deveria conhecer. Micheline Cardoso, que tinha acabado de chegar, ouviu o Caio a cantar um trecho de uma música própria e disse na lata: “Tens boa voz, mas tás escondendo ela.
Deixa o Nand M ensinar-te umas coisas sobre a projecção vocal”. E ali mesmo, no meio do estúdio, ela começou a dar dicas de respiração, de como utilizar o diafragma, de como alcançar notas difíceis sem forçar a garganta. Quando Tin chegou finalmente, uma hora atrasado, como era seu costume, encontrou Caio sentado no sofá do estúdio, conversando animadamente com os músicos, como se fossem velhos conhecidos.
Tin sorriu satisfeito vendo aquilo, cumprimentou toda a gente e disse: “Bem, vamos ensaiar então Caio, fica aí e assiste, aprende como é que nós trabalha”. E o Caio ficou a observar o Tim e a banda Vitória Régio a ensaiarem por três horas seguidas, vendo como se comunicavam sem necessitar de muitas palavras, como construíam arranjos, como resolviam problemas, como transformavam uma ideia solta numa música completa.
Ao passar dos dias e semanas seguintes, Caio regressou ao estúdio Vitória Régia várias vezes, sempre que Tim mandava recado a avisar que ia haver ensaio ou gravação. Cada vez que lá aparecia, aprendia algo de novo. Paulinho Guitarra passou horas com ele a trabalhar técnica, ensinando pestanas difíceis, solos, aqueles pormenores que fazem diferença entre tocar bem e tocar profissionalmente.
Paulinho Black ensinou ele a importância do gruve, de ouvir a bateria e perceber o peso da cada tempo, de sentir quando acelerar e quando segurar o ritmo. Micheline trabalhou vocal com ele, mostrando exercícios de aquecimento, técnicas de interpretação, como utilizar o silêncio e a respiração como parte da performance. O baixista explicou a relação entre o baixo e bateria, como os dois instrumentos conversavam para criar a base sólida da música.
O teclista mostrou harmonia, como os acordes conversavam entre si e como podia enriquecer as próprias composições. Tin assistia a tudo aquilo de longe e de vez em quando dava um pitaco, corrigia alguma coisa, elogiava quando Caio acertava em algo difícil. Um dia, depois de um ensaio particularmente bom, O Tin chamou o Caio para conversar e disse: “Olha, estás a aprender rápido, tá absorvendo as paragens.
Quero que saiba que é sempre bem-vindo aqui. Não precisa de ficar à espera que eu chame. Se tiver ensaio e quiseres vir, aparece. Se tiver gravação e quiser assistir, aparece. Considera que aqui, a tua segunda casa. Caio agradeceu com a voz embargada, sabendo que aquilo era mais do que um convite casual. Era tinha abrindo as portas de verdade, dando acesso a um mundo que muito pouca gente tinha.
Algumas semanas depois de ter começado a frequentar o estúdio, Caio juntou coragem e foi visitar os pais a Niterói pela primeira vez em meses, necessitando contar-lhes o que estava a acontecer na vida dele. Sentou-se na mesa da cozinha com o pai e a mãe, serviu um café e começou a falar sobre o encontro com Tim Maia, sobre o estúdio Vitória Régia, sobre tudo o que estava a aprender com músicos profissionais a sério.
mãe ouviu tudo com aquela expressão cética, abanando a cabeça negativamente. E quando Caio terminou, ela soltou: “Caio, isso é ilusão. Tu tem quantos anos?” “4. E quantos anos vai ter quando perceber que música não dá futuro? 30. 35. Volta ao escritório enquanto ainda vai a tempo. Arranja um emprego a sério.
Constrói uma vida de verdade. O pai completou. O teu irmão já está casado, tem um filho, tem apartamento próprio e você a viver num quarto dividido, sem R no bolso, correr atrás de um sonho de criança. A gente já não te pode apoiar nisso, Caio. Ou volta à realidade, ou segue sozinho. Caio sentiu que como um murro no estômago.
Tinha ido ali esperando que talvez, só talvez, os pais vissem que as coisas estavam a mudar, que estava a encontrar um caminho de verdade. mas percebeu que não ia adiantar argumentar que a decisão já estava tomada muito antes de ele entrar naquela cozinha. Levantou-se da cadeira, olhou para os dois e disse com uma calma que surpreendeu até o próprio. Tudo bem.
Eu compreendo que não acreditem, mas eu acredito e isso vai ter de ser suficiente. O meu sonho é viver de música de verdade e vou fazer com que funcione, com ou sem apoio da vossa parte. Se precisar de sair de casa para seguir isto, vou sair. Saiu de casa dos pais nesse dia, sabendo que tinha feito uma escolha definitiva, que tinha queimado a última ponte de volta à vida antiga e que agora só restava seguir em frente.
Algumas semanas depois, Caio juntou as poucas coisas que tinha. despediu-se dos dois rapazes com quem partilhava o quarto em Botafogo e foi viver para um lugar ainda mais pequeno e mais barato, sozinho desta vez, mas livre para viver da forma que acreditava ser o certo. Anos se passaram desde essa noite no bar do Zeca e do Caio Cordel nunca se tornou uma estrela do mesmo nível de Tim Maia, nunca teve um disco de ouro, nunca encheu o Maracananzinho, mas ele conseguiu algo que parecia impossível naquela terça-feira
desanimada. Ele vivia de música de verdade, profissionalmente, com dignidade. Caio tinha-se mudado para Flórida, nos Estados Unidos, no início dos anos 90, onde conseguiu trabalho fixo a tocar em casas de show que pagavam bem, gravando backing vocals para outros artistas, dando aulas de canto em uma escola de música respeitada em Miami. Não era famoso.
A maioria das pessoas que o assistiam tocar não sabia o seu nome, mas ele acordava todo dia a fazer o que amava. Pagava as contas com música, dormia tranquilamente, sabendo que tinha escolhido certo. De vez em quando ligava para o Brasil, falava com Paulinho Guitarra ou com Micheline, perguntava notícias do Tim e sempre enviava um agradecimento eterno por aquela tarde que mudou tudo.
Os pais nunca pediram desculpa diretamente, mas com o tempo a relação foi-se reconstruindo devagar. E agora quando ligava à mãe, ela já perguntava sobre os espectáculos, sobre os alunos, com um orgulho meio escondido, mas que Caio percebia nas entrelinhas. Ele guardava o guardanapo com um endereço do estúdio Vitória Régia numa gaveta amarelado pelo tempo.
E de vez em quando olhava para aquilo, lembrando que a vida inteira pode mudar num segundo quando a pessoa certa ouve-te no momento certo. Essa história ensina-nos que o talento por si só não chega. Precisa de estar no lugar certo, conhecer as pessoas certas e, principalmente, precisa de alguém que acredite em si e abra portas que sozinho nunca conseguiria abrir.
Caio podia ter ficado a vida toda tocando em bares vazios, esperando ser descoberto. Mas a descoberta não acontece por magia, acontece porque alguém com poder de decisão escolhe parar e prestar atenção. Tim Maia podia ter entrado naquele bar, pedido uma cerveja e ido embora.
Mas ele escolheu sentar-se, ouvir, conversar e principalmente escolheu dar oportunidade real. Não só um toque nas costas e um continua a tentar ali. A diferença entre o sonho e a realidade quase é sempre uma pessoa que acredita em si quando já ninguém acredita, que abre uma porta quando todas as outras estão fechadas, que diz: “Vem comigo, eu te mostro o caminho”.
em vez de só dar conselho vago de longe. Mas tem outro lado desta história que é igualmente importante. Quando a oportunidade aparece, tem de estar pronto para agarrá-la. Tem que ter coragem para ir para o estúdio mesmo morrendo de medo, de fazer networking, mesmo sendo tímido, de aprender mesmo sentindo-se burro, perto de gente experiente.
E, principalmente, tem que ter coragem para escolher o seu sonho, mesmo quando as pessoas mais próximas dizem que estás errado. Caio fez escolhas difíceis. Abdicou de segurança, de aprovação da família, de vida confortável, tudo apostando numa coisa que parecia impossível, mas que sentia no fundo que era o caminho certo.
E no final, não virou aquilo que a sociedade chama de sucesso. Não ficou rico, não se tornou famoso, mas conseguiu algo muito mais valioso. Viveu a vida dele à sua maneira, fazendo o que amava, com dignidade e propósito. E isso é uma vitória que pouca gente conquista. Se gostou desta história, se inscreva no canal e ativa o sininho para não perder os próximos vídeos.
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