Luiz Gonzaga entrou no show de Raul Seixas sem ter sido convidado — Raul parou a música e disse…

O salão inteiro virou o rosto para a porta ao mesmo tempo e Luís Gonzaga ficou parado perto da entrada com aquela expressão serena de sempre. O chapéu direito, os braços ao longo do corpo, sem qualquer gesto de chegada triunfal, apenas a presença que sempre teve  e que não necessitava de qualquer movimento extra para preencher um espaço.

Raul largou a guitarra no suporte ao lado, desceu do palco improvisado com passos rápidos e foi em direção a Luís com aquela energia direta que era a sua marca, sem cerimónia, sem o protocolo de dois artistas se cumprimentando num evento, com a naturalidade de quem vai ao encontro de alguém que representa algo muito maior do que um colega de profissão.

Os 40 convidados ficaram parados a observar aquele encontro no meio do salão, como se soubessem que estavam a ver algo que não tinha ensaio e não se repetiria. Raul chegou junto de Luís, abriu os braços e os dois abraçaram-se no meio do salão com aquela qualidade de abraço que não é de apresentação, é de reconhecimento.

O encontro de dois corpos que transportam histórias que se tocam em algum ponto, mesmo sem se ter cruzado antes. Raul disse baixinho, quase ao ouvido de Luí, que tinha crescido a ouvir a sua voz e que não sabia o que dizer agora que estava de frente. O Luiz respondeu com  aquela calma direta que era a marca dele. Depois não diz nada, toca.

O salão ouviu aquilo e reagiu com aquele murmúrio que as pessoas fazem quando algo simples chega a um lugar fundo  sem pedir licença. Raul recuou um passo, olhou para o Luiz com uma expressão que misturava a alegria, com uma seriedade que nem sempre aparecia no rosto dele em público, e depois  virou-se para o salão e perguntou em voz alta o que já todos estavam esperando que ele perguntasse.

Havia no rosto de Raul naquele momento algo que os convidados mais próximos reconheceram como raro, a expressão de alguém que construiu uma carreira inteira com autoconfiança  e que de repente se encontra na presença de algo maior do que essa autoconfiança. Sem saber exatamente o que fazer com isso, o Raul perguntou se O Luís ia tocar.

O salão respondeu antes que o Luís pudesse responder,  não com um grito, nem com aplauso, mas com aquele silêncio expectante que é mais alto do que qualquer ruído, porque diz exatamente o  que toda a gente está a sentir sem que ninguém precise abrir a boca. O Luiz olhou para o conjunto de músicos que ainda estava em palco improvisado, olhou para o espaço do salão e disse que sim, mas que ia precisar de uma concertina.

O anfitrião António, que estava parado a um canto do salão, com uma expressão de quem estava a viver o momento que tinha planeado durante meses e que estava a ser melhor do que tinha imaginado, deu um sinal a um dos funcionários do clube,  que saiu pela porta lateral e voltou em menos de 2 minutos com uma concertina que tinha sido deixada em guarda  naquela noite, especificamente para aquele momento, porque o António tinha pensado em cada detalhe, com o cuidado de quem não admite que uma surpresa bem Bem, planeada fale por falta de preparação.

O salão inteiro ficou a olhar para Acordeão ser entregue nas mãos de Luís Gonzaga, como se estivesse a ver um objeto encontrar o lugar onde sempre deveria ter estado. Luiz pegou na acordeão, encaixou os braços com aquela naturalidade de quem está a colocar algo de volta ao lugar certo, sentiu o peso do Fle, premiu algumas teclas e ficou um momento em silêncio no centro do salão, com os olhos baixados.

Raul ficou ao lado, a guitarra de volta nas mãos, olhando para Luís com uma atenção que os convidados mais próximos descreveram depois como a de um aluno que está prestes a ver alguma coisa que estudou a  vida inteira, mas nunca tinha visto de perto. Os músicos do conjunto ficaram nos seus lugares, no palco improvisado, sem saber exatamente o que ia acontecer a seguir, porque não havia combinação, não havia setlist, não existia qualquer planeamento para além do facto de Luís Gonzaga e Raul Seixas  estavam de pé no mesmo

salão com instrumentos nas mãos e 40 pessoas que esperam em silêncio. Havia uma qualidade naquele momento que todos os sentiam, mas que ninguém conseguiria descrever com precisão depois a qualidade de algo que está prestes a acontecer pela primeira  e única vez e que todos os presentes sabiam instintivamente que não voltaria.

Luís olhou para o Raul, o Raul olhou para o Luiz e sem que qualquer palavra fosse trocada, Luiz iniciou os primeiros acordes de asa branca.  O salão respondeu de imediato, não com aplauso, mas com aquele silêncio absoluto que é a maior resposta que um música pode receber. O silêncio de 40 pessoas que deixaram de respirar ao mesmo tempo sem combinar.

O Raul ficou parado por um segundo, ouvindo aqueles primeiros acordes com os olhos fechados e depois entrou com a guitarra de um forma que ninguém no salão esperava, não sobrepondo-se, não concorrendo, mas encontrando dentro daquela melodia um espaço que parecia ter sido ali deixado especificamente para ele, como se Asa Branca sempre tivesse tido aquela parte e só estivesse à espera daquela  noite para a mostrar.

Os músicos do conjunto foram entrando um a um. O O salão do Clube Mário Filho ficou completamente quieto e havia em cada rosto presente uma expressão que não era de público a assistir a um concerto, era de testemunha perante algo que sabia que não se repetiria e que, por isso mesmo, precisava de ser guardado com cuidado dentro de si antes que a noite terminasse.

Nessa noite, os 40 convidados saíram do Clube Mário Filho, sabendo que tinham visto  algo que não se repetiria, e a forma como saíram dizia tudo sobre o que tinham vivido. devagar  em grupos pequenos, a falar baixo, como pessoas que acabaram de sair de um local sagrado e ainda estão a carregar o peso do que ficou lá dentro.

Nos dias seguintes, a história correu o Rio de Janeiro, com aquela velocidade que só os acontecimentos únicos têm. E o que chamava a atenção em todos os relatos era o mesmo pormenor, um momento em que Raul tinha parado metamorfose ambulante no meio e dito o nome e o momento em que os dois tinham tocado asa branca juntos, sem qualquer ensaio, sem qualquer combinação prévia, como se a música conhecesse o caminho sozinha e necessitasse apenas dos dois para andar.

Músicos que ouviram a história de segunda mão diziam que dariam tudo para ter estado naquele salão nessa noite. Não pelo espetáculo, mas pela raridade daquele tipo de encontro que acontece uma vez e deixa uma marca que não tem como ser apagada pelo tempo. O anfitrião António Melo nunca falou sobre aquela noite em nenhuma entrevista, não porque quisesse guardar para si, mas porque havia coisas que perdem algo quando são contadas por quem as organizou. e ele sabia disso.

Raul Seixas falou sobre essa noite algumas vezes ao longo dos anos seguintes, sempre com uma economia de palavras que não era característica dele quando o assunto era música. Dizia que tinha tocado em muitos lugares e com muitas pessoas, mas que naquela noite  no clube tinha sido diferente de tudo, porque não havia palco separando ninguém de ninguém, não havia distância entre quem tocava e quem ouvia, e que tocar asa branca ao lado de Luís Gonzaga num salão de 40 pessoas tinha sido a experiência mais próxima

que tinha tido na vida do motivo pelo qual tinha começado a fazer música. Luiz Gonzaga, quando questionado sobre aquela noite em entrevistas, respondia com aquela simplicidade direta que era a marca dele. Dizia que tinha ido porque queria, que tinha tocado porque a música pediu e que o Raul tinha entrado em asa branca com a guitarra de uma forma que não tinha previsto, mas que tinha sido exatamente certo.

Como quando alguém completa uma frase que lhe começou sem saber que estava a ser completada. Os dois morreram no mesmo mês de agosto de 1989, com 20 dias de diferença. E quem conhecia a história daquela noite no clube sentiu aquela coincidência de um maneira que não tinha explicação fácil, mas que também não precisava de nenhuma.

O que aquela noite revelou foi algo  que António Melo tinha intuído quando decidiu juntar os dois num mesmo salão, que os artistas que chegam à verdade por caminhos diferentes têm muito mais a dizer um ao outro do que os artistas que chegam pelo mesmo caminho. Raul e Luiz eram de gerações diferentes, de universos musicais que a maioria dos pessoas não colocaria na mesma frase.

E foi exatamente por isso que quando tocaram juntos, o que saiu foi algo que nenhum dos dois teria conseguido fazer sozinho. Asa branca com guitarra eléctrica num salão de um clube no Rio de Janeiro, em 1982, não estava no guião de ninguém. E foi a coisa mais verdadeira que aconteceu nessa noite, exatamente por isso, porque a verdade raramente está no guião.

É no momento em que duas  as pessoas param o que estão fazendo e decidem encontrar o que têm em comum antes de defender o que a separa. E o que ficou dessa noite não foi gravado em nenhum disco e não existe em nenhum ficheiro. Existe apenas na memória de 40 pessoas que estiveram num salão de clube no Rio de Janeiro e viram acontecer algo que não tinha nome, mas que todos reconheceram como verdadeiro.

Esta história ensina-nos  que as ligações mais inesperadas são muitas vezes as mais verdadeiras. Raul Seixas e Luís Gonzaga vinham de mundos musicais que o senso comum colocaria em lados opostos. E, no entanto, quando estiveram no mesmo salão, o que aconteceu foi uma harmonia que ninguém tinha planeado e que todos reconheceram imediatamente como real.

Há pessoas na sua vida neste momento que parecem distantes de tudo o que lhe é, que chegaram à vida por caminhos completamente diferentes dos seus, que ouvem música que nunca ouviria e vem o mundo por ângulos que parecem não ter nada a ver com o seu. E é exatamente nestas  pessoas que muitas vezes é o encontro mais importante que lhe ainda não teve.

Porque quando dois mundos diferentes se tocam verdadeiramente, o que nasce entre eles não é de nenhum dos dois. É algo novo que só existe porque os dois estiveram no mesmo lugar ao mesmo tempo e decidiram tocar juntos sem ensaio. Os dois morreram no mesmo mês de Agosto de 1989, com 20 dias de diferença. E quem conhecia a história daquela noite no clube sentiu aquela coincidência de um maneira que não tinha explicação fácil, mas que também não precisava de nenhuma, porque havia entre os dois uma ligação que o tempo não tinha como desfazer. Se

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