O cruzamento entre o glamour das telas de cinema e os tapetes aveludados do poder político raramente resulta em uma história de calmaria. Na história contemporânea do México, nenhuma trajetória ilustra de forma tão crua, dramática e magnética essa colisão quanto a vida de Alexandra Achimovic Popovic. Conhecida e idolatrada pelo público sob o nome artístico de Sasha Montenegro, a atriz de origem ítalo-yugoslava alcançou o topo do estrelato cinematográfico para, anos mais tarde, submergir nas entranhas do poder presidencial. O que parecia ser a conquista definitiva de segurança, legitimidade e riqueza transformou-se em uma das maiores tragédias familiares e políticas do país, culminando em expulsões humilhantes, processos judiciais escandalosos e na demolição física do próprio império que ela ajudou a construir.
Nascida em Bari, na Itália, em uma Europa ainda em ruínas e traumatizada pelos deslocamentos da Segunda Guerra Mundial, Alexandra carregava no sangue o estigma da perda. Sua família, que ostentava raízes aristocráticas na antiga Iugoslávia, viu seu patrimônio, títulos e estabilidade desaparecerem sob as botas dos regimes militares. Esse trauma migratório, que a levou primeiro para a Argentina e depois para o México, plantou na jovem uma busca incessante por proteção e por um lugar de onde jamais pudesse ser arrancada. Ao desembarcar no território mexicano no final dos anos sessenta, sua beleza exótica, fria e distantemente europeia capturou imediatamente a atenção de uma indústria cinematográfica em transformação. Sob o pseudônimo de Sasha Montenegro, ela se tornou a figura central do chamado “cine de ficheras”, um gênero popular que desafiava a moral conservadora da época. Sasha dominava as telas, acumulava fortunas e capas de revistas, mas sofria com o desdém velado das altas classes sociais, que a enxergavam apenas como um símbolo fugaz de desejo, negando-lhe a legitimidade que tanto almejava.

A busca por essa aceitação definitiva e por um escudo contra a instabilidade da fama fez com que Sasha Montenegro direcionasse seus olhos para o topo da pirâmide social. Foi no final da década de setenta que sua vida se entrelaçou com a de José López Portillo, o homem que governava o México com poderes quase absolutistas. López Portillo liderava um país embriagado pela promessa da abundância petrolífera, enquanto os bastidores de sua residência oficial, Los Pinos, começavam a ruir. O romance entre a estrela de cinema e o presidente da República cresceu sob o manto do segredo e da infidelidade, uma vez que o mandatário ainda era casado com a primeira-dama Carmen Romano. Para Sasha, aquele “senhorão” representava a autoridade máxima, o refúgio perfeito e o sobrenome capaz de apagar qualquer preconceito. Contudo, a união com o poder absoluto revelou-se uma armadilha dourada.
A derrocada econômica do México no início dos anos oitenta, marcada pela célebre e desesperada promessa de López Portillo de “defender o peso como um cachorro” — uma promessa que ruiu dias depois com uma desvalorização avassaladora —, transformou o estilo de vida do casal em uma ofensa nacional. O símbolo máximo desse excesso foi a construção da “Colina do Cão”, uma monumental propriedade de doze hectares localizada em uma das áreas mais nobres da capital. Composta por quatro mansões independentes, uma biblioteca com mais de trinta mil livros, cocheiras e luxos astronômicos financiados sob suspeitas de desvio de dinheiro público, a residência tornou-se o alvo do ressentimento de um país empobrecido. Sasha Montenegro, antes aplaudida nos cinemas, passou a ser vista como o rosto da impunidade e do cinismo aristocrático, herdando não apenas os privilégios, mas também o ódio de uma nação e a fúria dos filhos do primeiro casamento do ex-presidente.
Após a morte de Carmen Romano, o relacionamento foi oficializado por meio de um casamento civil e, posteriormente, de uma cerimônia religiosa em meados dos anos noventa. Dessa união nasceram Nabila e Alexander, crianças que cresceram cercadas por muros gigantescos, mas submetidas ao frio isolamento de uma família profundamente dividida. Enquanto os herdeiros do primeiro casamento de López Portillo enxergavam Sasha como uma intrusa perigosa que ameaçava o patrimônio e a memória do pai, o próprio ex-presidente começava a definhar fisicamente. Envelhecido, doente e afastado do centro do poder, o homem que outrora controlava os rumos do país viu sua mansão transformar-se em um autêntico campo de batalha.
A virada do milênio trouxe consigo o período mais sombrio da saga familiar. Movidos por interesses financeiros que envolviam a disputa pelas terras da Colina do Cão e pelo controle da pensão vitalícia de viúva presidencial — estimada em valores astronômicos pagos pelos cofres públicos —, os filhos da primeira família iniciaram uma ofensiva implacável. Em seus últimos meses de vida, um debilitado López Portillo foi instigado a iniciar um processo de divórcio contra Sasha, recheado de acusações mútuas e dolorosas de maus-tratos físicos e psicológicos. A atmosfera dentro da mansão tornou-se tão insustentável e violenta que a própria atriz chegou a acionar o serviço de emergência do país de dentro da propriedade presidencial para conter os conflitos familiares.

O ápice da humilhação ocorreu quando, diante da escalada de agressões verbais e do sofrimento psicológico que testemunhavam, os próprios filhos de Sasha, Nabila e Alexander, imploraram para que a mãe deixasse a residência em busca de paz. Cedendo ao apelo dos jovens, Sasha afastou-se temporariamente da mansão. Foi o erro fatal na estratégia de sobrevivência dentro do jogo do poder. Aproveitando-se de sua ausência e do momento em que o ex-presidente era transferido às pressas para um hospital, a ala rival agiu com velocidade cirúrgica. As fechaduras de todas as mansões da Colina do Cão foram trocadas e o acesso de Sasha foi sumariamente bloqueado. A mulher que havia sacrificado sua reputação e dedicado décadas de sua vida àquele homem viu-se trancada do lado de fora, ironizando o próprio apelido da propriedade ao declarar à imprensa que “não podiam tratá-la como um cachorro” após tantos anos de dedicação.
López Portillo faleceu antes que o processo de divórcio fosse legalmente concluído. No papel, Sasha garantiu a vitória jurídica e o status de viúva oficial, mas a realidade prática foi de total isolamento. A herança material revelou-se maldita. Incapaz de sustentar o peso moral e financeiro daquela fortaleza vazia, a propriedade foi progressivamente abandonada e fatiada. O desfecho mais simbólico dessa ruína ocorreu quando tratores e escavadeiras entraram nos doze hectares da Colina do Cão, reduzindo as mansões, os salões de festa e as bibliotecas a uma imensa montanha de escombros e poeira para dar lugar a um novo empreendimento imobiliário privado.
Os anos finais de Sasha Montenegro foram vividos longe dos holofotes, na cidade de Cuernavaca. O corte definitivo das pensões presidenciais por parte das novas diretrizes de austeridade do governo mexicano retirou o último pilar financeiro que a ligava ao antigo regime. Enfrentando um severo câncer de pulmão, a ex-musa do cinema recolheu-se ao silêncio até sofrer um derrame cerebral fatal. Sasha faleceu em pleno dia de San Valentín, uma ironia poética para quem passou a existência buscando uma proteção que o amor não foi capaz de fornecer. Se há alguma fresta de luz nessa narrativa de ambição e decadência, ela reside na escolha de seus filhos, Nabila e Alexander, que optaram pelo anonimato absoluto e pelas artes visuais, negando-se a alimentar a engrenagem escandalosa que devorou seus pais. A história de Sasha Montenegro permanece como uma lição histórica sobre os perigos de se buscar salvação nos braços do poder, um território instável que costuma acolher com luxos e facilidades, mas que inevitavelmente fecha suas portas e altera as fechaduras quando decide expulsar seus inquilinos.