Em 1973, Silvio Santos criou um programa de caloiros que deveria durar uma hora inteiro no primeiro episódio. Durou 4 minutos. Não porque alguém cortou a transmissão, não porque tenha havido um problema técnico, não porque faltasse o candidato. Durou quatro minutos porque o primeiro caloiro que subiu ao palco fez algo que deixou os cinco jurados sem conseguir abrir a boca, o auditório inteiro de pé e o próprio Silvio Santos, parado no meio do palco, segurando o microfone sem dizer uma palavra, pela primeira vez na carreira. E o que
aconteceu nos bastidores depois destes quatro minutos mudou completamente a forma como Silvio Santos pensava sobre televisão, sobre o talento e sobre o que significava dar uma oportunidade a alguém que o mundo inteiro já tinha descartado. Mas esta história não começa naquele domingo, começa três semanas antes e numa sala do segundo andar do edifício da TV paulista, onde Silvio Santos esteve sentado com quatro homens que achavam que a sua ideia era a pior que já tinham ouvido.
O programa chamar-se-ia Show de Calouros. A ideia era simples. As pessoas comuns, sem experiência, sem nome, sem contrato, subiam ao palco e apresentavam-se diante de um juva notas com placas. Quem tirasse a nota mais aguda, ganhava um prémio em dinheiro. Quem tirasse a nota mais baixa ouvia a buzina e saía.
Os quatro homens na sala eram diretores de programação, pessoas da televisão com décadas de experiência. E os quatro disseram a mesma coisa por palavras diferentes, que aquilo não era televisão, que era a humilhação pública, que nenhum patrocinador sério ia querer associar a sua marca a um programa onde as pessoas comuns passavam vergonha no horário nobre e que Silvio Santos estava arriscando tudo o que tinha construído até ali por causa de uma ideia que qualquer pessoa com bom senso descartaria em cinco minutos.
Sílvio ouviu tudo sem interromper. Quando os quatro terminaram, fez uma pergunta que nenhum deles esperava. Perguntou se algum deles já tinha vendido alguma coisa na rua. Os quatro ficaram em silêncio. Sílvio disse que quem já vendeu na rua sabe uma coisa que que nasceu dentro de um escritório nunca aprenderá, que o público não quer a perfeição, quer a verdade.
disse que a Globo podia ter os melhores artistas, os melhores cenários, os melhores guiões, mas que a SBT ia ter a única coisa que a Globo não podia comprar, que era gente a sério a fazer coisas de verdade perante outras pessoas de verdade. E disse que se nenhum deles acreditava nisso, podia sair da sala, porque o programa ia acontecer com ou sem a aprovação dos mesmos.
Ninguém saiu da sala. Mas o que vem agora é ainda mais forte, porque a resistência dos directores era o menor dos problemas de Silvio Santos nessa semana. O problema real era um homem chamado Edgard Ribeiro, que era o diretor musical do canal e que tinha um poder que poucas pessoas de fora da televisão compreendiam. Edgar decidia quem tocava e quem não tocava em qualquer programa que envolvesse música.
Se Edgard dissesse não, a banda não subia ao palco. Se Edgar dissesse que o arranjo estava errado, o arranjo era refeito. Se Edgar dissesse que um candidato não tinha nível, este candidato não entrava no ar. E Edgar de Ribeiro detestava a ideia do programa de talentos com cada célula do corpo. Não porque achasse que ia falhar, pelo contrário, Edgard achava que ia funcionar.
E era exatamente por isso que detestava, porque se funcionasse ia provar que o público brasileiro não precisava de músicos profissionais, não necessitava de produção sofisticada, não precisava de tudo aquilo que Edgar Ribeiro tinha passado 30 anos construindo e controlando. Se um caloiro da periferia de São Paulo subisse ao palco e conquistasse o público cantando desafinado, com o coração na mão, o castelo inteiro de Edgar Ribeiro desmoronava.
E Edgar não ia deixar que isso acontecesse sem lutar. O que Edgar fez nos bastidores durante as três semanas que antecederam a estreia do programa de talentos é algo que quase ninguém sabe, porque Edgard não atacou de frente. Edgar era inteligente demais para confrontar Silvio Santos diretamente. O que Edgar fez foi sabotar o programa por dentro, ai tão subtil que levava quase duas semanas para alguém perceber o que estava a acontecer.
E a pessoa que se apercebeu não foi o Sílvio, foi uma mulher chamada Cidinha Campos. Mas antes de chegar à Sidinha, é necessário perceber quem eram os jurados, porque a escolha dos jurados para a primeira edição do Show de Caloiros foi um processo que Silvio Santos levou mais a grave do que qualquer outra decisão desse ano.
Sílvio entendia que o todo o programa dependia dos jurados, não dos caloiros. Os caloiros eram a matériapra, os jurados eram o espectáculo. Se os jurados fossem demasiado duros, o programa tornava-se crueldade. Se fossem demasiado moles, tornava-se irrelevância. O Sílvio precisava de cinco pessoas que tivessem autoridade suficiente para julgar, humanidade suficiente para não destruir e personalidade suficiente para entreter.
O primeiro jurado que Sílvio convidou foi Pedro de Lara. O Pedro era um maestro de 62 anos, cabelo branco, bigode fino, voz grave e uma reputação no meio musical que impunha o respeito absoluto. Pedro tinha dirigido orquestras em São Paulo, no Rio, em Buenos Aires. Tinha trabalhado com os maiores cantores do Brasil e tinha uma característica que Sílvio considerava essencial.
O Pedro era incapaz de mentir. Se achava que alguém cantava mal, dizia que cantava mal. Se achava que alguém tinha talento, dizia que tinha talento. Não havia meio termo com Pedro de Lara. Era zero ou era 10. O segundo jurado era Elk Maravilha. Sílvio escolheu-a por um motivo preciso. El que era imprevisível. Ninguém sabia o que é o que ia dizer, nem o próprio Sílvio.
E essa imprevisibilidade era exatamente o que o programa precisava. E que podia dar nota 10 para um caloiro que desafinou do início ao fim se sentisse que aquela pessoa tinha algo de especial. Podia dar nota zero para alguém tecnicamente perfeito se achasse que lhe faltava alma. É o que não julgava música, julgava pessoas.
E isso para o Sílvio era mais importante do que qualquer critério técnico. O terceiro jurado era um homem chamado Décio Pitinini. Décio era um humorista popular na televisão de São Paulo, conhecido por comentários ácidos e piadas que faziam rir o auditório e o alvo da piada querer desaparecer. Sílvio escolheu-o como contraponto. Precisava de alguém que trouxesse leveza, que quebrasse a tensão quando a tensão se tornasse demasiado pesada.
Décio era o alívio. Mas Décio era também perigoso, porque quando passava do ponto, as piadas deixavam de ser engraçadas e tornavam-se humilhação. Sílvio sabia disso e tinha dito a Décio, no dia do convite uma frase que Décio nunca esqueceu, que podia fazer o auditório rir, mas que se fizesse um caloiro chorar, nunca mais pisava naquele palco.
A quarta jurada era uma mulher chamada Mara Lúcia, cantora de rádio, voz bonita, carreira discreta, personalidade doce. O Sílvio escolheu-a porque precisava de alguém que representasse a mãe, a tia, a vizinha, alguém com quem o caloiro nervoso pudesse fazer contacto visual e sentir-se acolhido. Mara Lúcia era o porto seguro do júri e o quinto jurado era o próprio Edgar Ribeiro.
Esta decisão de Silvio Santos confundiu toda a gente. Por que colocar no júri o homem que odiava o programa e que estava, segundo rumores que já circulavam nos bastidores, fazendo de tudo para o sabotar? A a resposta era tipicamente Sílvio: “Porque o inimigo que tem do lado de fora pode fazer o que quiser sem que você veja.
O inimigo que põe do seu lado, debaixo das luzes, diante das câmaras, só pode fazer o que lhe permite. Silvio Santos não pôs Edgar no júri, apesar da sabotagem. Pôs Edgar no júri por causa dela. Queria Edgar onde pudesse vê-lo, onde o pudesse controlar, onde o público pudesse ver a sua reação em tempo real, sem filtro, sem possibilidade de manipulação nos bastidores.
Era uma jogada que misturava estratégia, ousadia e um conhecimento profundo de como o poder funciona quando é exercido à luz do dia em vez de no escuro. Mas Sílvio não sabia de tudo o que Edgar tinha feito, e o que Edgar tinha feito era mais grave do que qualquer pessoa imaginava. A as inscrições para o programa de talentos tinham sido abertas quatro semanas antes da estreia.
Em 10 dias, mais de 800 pessoas se inscreveram. A produção do programa precisava de selecionar 12 para o primeiro episódio. O critério de seleção era simples, variedade. O Sílvio queria cantores, bailarinos, mágicos, comediantes, imitadores. Queria gente de todo o tipo, de toda a idade, de toda a classe social.
queria que o primeiro episódio mostrasse ao Brasil que aquele palco era de todo o mundo. A seleção ficou nas mãos de uma equipa de três produtores assistentes que trabalhavam sob a supervisão de Edgar Ribeiro. E foi aí que a sabotagem começou. Edgar instruiu os três produtores a eliminarem na triagem inicial qualquer candidato que tivesse talento real.
A instrução não foi explícita. E porque Edgar era demasiado inteligente para deixar impressões digitais. O que o Edgar disse, segundo um dos produtores, contou anos depois a um jornalista, foi que o programa precisava de candidatos que representassem o público real e que candidatos com formação musical ou experiência de palco não representavam o público real.
Por outras palavras, Edgard queria que os 12 caloiros do primeiro episódio fossem maus, não medianos, ruins. Porque se fossem maus, o programa seria um desastre. O público ia mudar de canal, os patrocinadores iam desistir e Silvio Santos ia cancelar o show de talentos antes do segundo episódio. Dois dos três produtores seguiram a instrução sem questionar.
O terceiro, uma mulher de 31 anos chamada Cidinha Campos, não seguiu. A Cidinha tinha entrado na televisão 4 anos antes como secretária na TV Tupi. Tinha subido rápido porque era organizada, trabalhadora e tinha uma intuição sobre pessoas que nenhum curso de comunicação poderia ensinar. Quando chegou à SBT, já era produtora assistente e tinha a confiança de Silvio Santos.
que a chamava pelo primeiro nome e pedia a sua opinião sobre decisões que normalmente estavam restritas aos diretores. Sidinha apercebeu-se do que Edgar estava a fazer na segunda semana de rastreio. Percebeu porque conhecia os candidatos, tinha ouvido as audições, tinha visto pessoas com talento extraordinário ser eliminada por motivos vagos e tinha visto pessoas, sem que nenhuma habilidade fosse aprovada com entusiasmo pelos outros dois produtores.
O padrão era demasiado claro para ser coincidência, mas a Sidinha tinha um problema. Não podia ir diretamente a Silvio Santos com uma acusação contra Edgar Ribeiro, sem provas concretas. Edgar era o diretor musical. Sidinha era produtora assistente. Se fosse palavra contra palavra, a Cidinha perdia.
Não porque Sílvio não confiasse nela, mas porque acusar um diretor de sabotagem sem provas era um tipo de confronto que podia destruir a carreira de quem acusava. independentemente de ter razão. Então, a Cidinha fez outra coisa, algo que mudou a história do programa de talentos e, de certa forma, a história da televisão brasileira.
Sidinha criou uma segunda lista, sem autorização, sem comunicar a ninguém, utilizando as audições que ela mesma tinha presenciado, selecionou seis candidatos que considerava excepcionais e manteve-os numa lista separada, guardada na gaveta da sua secretária. não os incluiu na lista oficial, não os apresentou à equipa, simplesmente os mantiveram reservados como uma carta na manga, aguardando o momento certo para usá-la.
O primeiro nome nessa lista secreta era Jerónimo da Silva. e Jerónimo da Silva era o motivo pelo qual os quatro minutos iniciais do concerto de os caloiros tornaram-se o momento mais inesperado da televisão brasileira nesse ano. Jerónimo tinha 57 anos. Era porteiro de um prédio de habitação na Moca, bairro operário na zona oriental de São Paulo.
Trabalhava no edifício havia 23 anos. Conhecia todos os moradores pelo nome, pelo andar, pelo horário a que saíam e voltavam. Era um homem magro, de mãos grandes, cabelo ralo, rosto marcado pelo sol e por uma vida que nunca tinha sido fácil. Usava óculos de aros grossos que arranjava com fita adesiva quando quebravam.
A, porque os óculos novos custavam mais do que ele podia pagar. Jerónimo inscreveu-se no show de caloiros por causa da filha. A filha, que tinha 24 anos e trabalhava como costureira, viu o anúncio das inscrições no jornal e disse ao pai que devia tentar. Jerónimo disse que não, que era disparate, que não era artista, que ia passar vergonha. A filha insistiu.
A esposa de Jerónimo insistiu. O neto de Jerónimo, que tinha 4 anos, disse que queria ver o avô na televisão. Jerónimo cedeu. Na audição, Jerónimo cantou uma canção que ninguém da equipa de produção conhecia. Não era samba, não era bossa nova, não era bolero. Era uma canção que a mãe cantava quando ele era criança.
Na lavoura, no interior de Minas Gerais. Uma canção sobre um homem que perdeu tudo numa cheia e reconstruiu a casa com as suas próprias mãos. A melodia era simples, a letra era direta, mas a voz de Jerónimo, quando cantava aquela música, fazia uma coisa que nenhuma técnica vocal poderia ensinar. Fazia quem ouvisse deixar de respirar. Cidinha esteve presente na audição de Jerónimo e quando terminou de cantar, ficou sentada na cadeira durante quase 30 segundos sem se mexer.
Depois anotou o nome dele no topo da sua lista secreta, sublinhado duas vezes. Jerónimo foi eliminado na triagem oficial. O motivo registado pela equipa de Edgar era um candidato sem presença em palco. A Cidinha leu o motivo e não disse nada. guardou. Ora, o que a Sidinha não sabia naquela altura era que a sabotagem dos Edgard ia além da seleção dos candidatos.
Edgard também estava a manipular os ensaios da banda que acompanharia os caloiros no programa. A minha banda era formada por cinco músicos profissionais que Edgar controlava diretamente. Edgar instruiu a banda para tocar num tom ligeiramente diferente do que os caloiros ensaiavam. Não muito diferente. O suficiente para desafinar quem não tivesse ouvido o absoluto.
Mas não o suficiente para ser óbvio que a sabotagem vinha da banda. Era diabólico na precisão. Um caloiro subiria ao palco, começaria a cantar e, sem compreender porê, sentiria que algo estava errado. A voz ia desafinar, o ritmo ia escapar e o público e os jurados iam pensar que o problema era o caloiro, não a banda.
Esta manipulação foi descoberta por acaso na sexta-feira anterior à estreia por um técnico de som chamado Valdir, que estava a calibrar os microfones no estúdio vazio, e ouviu o banda a ensaiar em tons que não correspondiam às partituras que ele tinha recebido. Valdir não era músico, mas trabalhava com som há 15 anos e sabia quando algo não batia certo.
comentou com a Cidinha, que era a única pessoa da produção que ainda estava em estúdio aquela hora. A Cidinha ouviu o Valdir, pediu que ele explicasse de novo, depois pediu que ele mostrasse. O Valdir mostrou, pegou a partitura, tocou no teclado a nota que estava escrita e depois tocou a nota que a banda estava a ensaiar.
A diferença era subtil, quase impercetível para quem não prestasse atenção, mas era real e era consistente em todas as músicas. A Sidinha tinha agora duas informações, a seleção manipulada e a banda sabotada, e tinha menos de 48 horas até à estreia. Na madrugada de sexta-feira para sábado, Cidinha tomou a decisão que definiu a a sua carreira e o futuro do espectáculo de caloiros.
Às 2as da manhã, do telefone da portaria do edifício da TV paulista, ligou para a casa de Silvio Santos. Quem atendeu foi Iris Abravanel, mulher de Silvio. A Sidinha disse que precisava de falar com Sílvio e que era urgente. A Iris conhecia Cidinha. Sabia que a Cidinha não era do tipo que ligava às 2as da manhã sem motivo. Acordou o Sílvio.
O Sílvio atendeu o telefone com a voz de quem tinha sido arrancado do sono, mas com a lucidez de quem acorda pronto para resolver problemas. A Sidinha contou tudo. Contou sobre a seleção manipulada, contou sobre a banda sabotada, contou sobre a lista secreta com os seis candidatos que ela tinha guardado e contou sobre Jerónimo da Silva. Sílvio ouviu sem interromper.
Quando a Cidinha terminou, ficou em silêncio durante quase um minuto. Cidinha disse que chegou a pensar que ele tinha voltado a dormir, mas Sílvio não tinha dormido. Estava a pensar, a primeira coisa que o Sílvio disse foi: “Como é que sabe que é sabotagem e não incompetência?” A Cidinha respondeu: “Porque a incompetência é aleatória e o que está a acontecer é sistemático? Todos os candidatos bons foram eliminados.
Todos os maus foram aprovados. A banda está ensaiando em tons errados de forma consistente. A incompetência não produz um padrão perfeito.” Sílvio ficou calado mais uns segundos. Depois disse: “O O Edgar sabe que sabes?” A Cidinha disse que não. Sílvio disse: “Bom, mantenha sim. Amanhã de manhã resolvo a banda. Resolve-se os candidatos, tira-se três da lista oficial e coloca três da sua lista no lugar. O Jerónimo é o primeiro.
” Sidinha disse que se fizesse isso, o Edgar ia perceber. Sílvio disse: “Eu quero que ele perceba, mas vai perceber quando for tarde demais.” A Cidinha perguntou: “E no domingo?” E com o Edgar no Júri, “O que é que nós fazemos?” O Sílvio disse uma frase que a Cidinha repetiu-se para o resto da vida em cada entrevista que deu sobre o concerto de caloiros.
“Eu deixo o Edgard ser o Edgard e quando o público vir quem o Edgar realmente é, não preciso de fazer mais nada”. A chamada durou 7 minutos. Cidinha desligou, ficou sentada na cadeira da portaria por mais 5 minutos, olhando para o telefone, e depois foi para casa dormir às 4 horas que restavam antes de regressar ao trabalho.
Na manhã de sábado, Sílvio chegou ao estúdio às 8 da manhã. Era cedo para Sílvio, que normalmente chegava às 10 nos dias de preparação. Os funcionários que estavam no edifício estranharam. Sílvio foi direto ao estúdio onde a banda ensaiava. Entrou sem bater. Os cinco músicos deixaram de tocar. O Sílvio não disse bom dia, não perguntou como estavam.
Chino olhou para o líder da banda, um guitarrista chamado Tavinho, que era o homem de confiança de Edgar, e disse: “Eu sei o que vocês estão a fazer. Vocês têm duas opções. A primeira, vocês tocam amanhã no tom certo, como está na partitura, e eu esqueço-me do que aconteceu. Segunda-feira, vocês continuam com isso e na segunda-feira eu Ligo para cada estúdio de gravação de São Paulo e explico por vocês estão disponíveis no mercado.
Tavinho abriu a boca para responder. Sílvio levantou a mão. Não precisa de responder agora. Responde amanhã em palco tocando no tom certo. Sílvio saiu do estúdio. A conversa durou menos de 2 minutos. O que Sílvio fez em seguida foi ir ao escritório de Edgar, mas Edgard não estava. A secretária disse que Edgar tinha saído para almoçar, embora fossem 8h30 da manhã.
Sílvio não deixou recado, voltou ao segundo andar, sentou-se na sua sala, pegou na caneta vermelha e começou a rever a agenda do programa de domingo, como fazia todos os fins de semana. Às 10 da manhã, a Cidinha chegou ao prédio com a lista secreta no bolso do casaco, subiu ao escritório de produção, sentou-se na sua secretária e começou a fazer as substituições.
Tirou três candidatos da lista oficial, os três piores, os mais obviamente incapazes, e colocou no lugar três da sua lista. Jerónimo da Silva, uma cantora de 17 anos chamada Rosell, que fazia arrepiar, e um mágico de 40 anos chamado Seu Antônio, que tinha um truque com cartas que ninguém conseguia explicar. Jerónimo foi colocado como primeiro candidato do programa.
A decisão foi de Sidinha, mas Sílvio confirmou-a quando soube. Queria que o primeiro caloiro que o Brasil visse no programa de talentos fosse Jerónimo. Não um dos maus, não um dos medianos, o melhor. Mas havia um problema que nem o Sílvio nem a Sidinha tinham previsto. Jerónimo não sabia que ia apresentar-se.
Jerónimo tinha sido eliminado na triagem duas semanas antes. Tinha voltado para a portaria do prédio na Muca, contou à filha que não tinha passado e seguido com a vida. A filha ficou triste. O neto não compreendeu. A esposa disse que pelo menos ele tentou. E Jerónimo guardou aquilo num lugar dentro dele que não era raiva nem frustração, era resignação.
A resignação de um homem de 57 anos que passou a vida inteira a ser dito que não era suficiente para as coisas que queria. No sábado à tarde, a Pulsidinha ligou para o telefone do prédio onde Jerónimo trabalhava. Quem atendeu foi um morador do terceiro andar que gritou pelo corredor até Jerónimo vir atender.
A Cidinha apresentou-se, disse que era da produção do programa de talentos e que Jerónimo tinha sido selecionado para se apresentar no programa no dia seguinte, domingo, em direto. Jerónimo ficou calado durante quase 10 segundos. Depois disse que devia haver um engano, que ele tinha sido eliminado. Sidinha disse que houve uma revisão e que foi reincluído.
Jerónimo perguntou se era verdade. Sidinha disse que era. O Jerónimo perguntou se precisava levar alguma coisa. A Cidinha disse que precisava de estar no estúdio às 2as da tarde e que podia vestir o que quisesse. Jerónimo desligou, ficou parado no corredor do edifício durante um minuto inteiro e depois subiu ao apartamento onde vivia com a esposa e contou.
A esposa sentou-se na cadeira da cozinha e chorou. Não de tristeza, de uma alegria misturado com medo, que é o tipo de emoção que só quem viveu muito tempo sem esperança, consegue sentir. Na manhã de domingo, o Jerónimo acordou às 5. Não precisava de acordar tão cedo, mas não conseguiu dormir. Tomou banho, vestiu a melhor roupa que tinha, uma camisa social branca que a esposa tinha passado na véspera e umas calças escuras que eram do casamento da filha.
e sentou-se na sala à espera de dar a hora de sair. A esposa fez café. O neto acordou, viu o avô vestido diferente e perguntou para onde ia. O Jerónimo disse que ia cantar na televisão. O neto disse simpático e voltou a brincar. Jerónimo saiu de casa ao meio-dia. Apanhou dois autocarros até o estúdio da TV de São Paulo.
Chegou à 1:20 da tarde, mais de uma hora antes do combinado. O porteiro do estúdio olhou para ele de cima a baixo. Um homem magro, de óculos com fita adesiva, camisa branca já um pouco amarrotada da viagem de autocarro, e perguntou o que queria. O Jerónimo disse que era caloiro. O porteiro verificou a lista. O nome estava lá, deixou-o entrar.
Cidinha recebeu Jerónimo à entrada dos bastidores, apertou-lhe a mão e notou que a mão tremia. Não tremendo de frio, tremendo do tipo de medo que vem de querer uma coisa muito e saber que talvez não consiga. A Cidinha levou Jerónimo ao camarim dos candidatos. Era uma sala ampla com cadeiras de plástico, um espelho comprido numa parede e outros 11 caloiros em diversos estados de nervosismo.
Alguns aqueciam a voz, um ensaiava passos de dança. O mágico o senhor António praticava o truque de cartas no canto. Jerónimo sentou-se numa cadeira perto da porta e ficou a olhar para as próprias mãos. Às 2:40, Edgar Ribeiro chegou ao estúdio, foi diretamente à mesa do júri para verificar se tudo estava em ordem. No caminho, passou pelo gabinete de produção e olhou para a lista final de candidatos. Viu os três nomes novos.
Viu o nome de Jerónimo da Silva no topo e parou. Edgard conhecia aquele nome. Conhecia porque tinha pessoalmente aprovado a eliminação do mesmo duas semanas antes. Candidato sem presença em palco. A nota era dele, a caligrafia era dele e agora o nome estava de volta à lista. No primeiro lugar. O Edgar foi ao escritório da Cidinha.
A mesa estava vazia. Cidinha estava nos bastidores com os candidatos. Edgard ligou a Newton Travesso, o produtor chefe, e perguntou quem tinha alterado a lista. Newton disse que não sabia. Edgard ligou para os outros dois produtores assistentes. Nenhum sabia. Edgar desceu aos bastidores e encontrou Cidinha no corredor.
O diálogo entre os dois, segundo contava Cidinha em entrevistas anos depois, durou menos de um minuto. Edgar disse: “Quem pôs o porteiro na lista?” A Cidinha disse: “Eu disse com autorização de quem?” Cidinha disse: “Do Sílvio.” Edgar ficou parado, olhando para ela durante uns 5 segundos. A Cidinha não desviou o olhar.
Edgar virou-se as costas e saiu pelo corredor sem dizer mais nada. Nesse momento, Edgard entendeu que tinha perdido. Não a batalha sobre a lista, a guerra inteira. Porque se o Sílvio estava envolvido, se o Sílvio sabia da lista secreta e a tinha aprovado, significava que o Sílvio sabia da sabotagem. E significava que o Sílvio sabia de tudo.
E significava que Sílvio tinha escolhido não confrontar Edgarde diretamente, não despedi-lo, não expulsá-lo. Tinha optado por colocá-lo no júri, debaixo das luzes, diante das câmaras, e deixar que o programa falasse por si. era mais devastador do que qualquer demissão. Era o Silvio Santos, dizendo: “Eu sei o que fizeste e a minha resposta é obrigar-te a assistir ao que tentou destruir dando certo na sua frente.” Às 3h30 o programa começou.
Os primeiros blocos foram os habituais: quadros de auditório, distribuição de prémios. Silvio Santos em palco, fazendo o que fazia melhor, que era conversar com o Brasil como se estivesse na sala de estar de cada casa. O auditório estava cheio, 350 pessoas. Não era o auditório gigante que a SBT teria anos depois.
Era um espaço modesto, ah, com cadeiras de plástico e iluminação que deixava a desejar, mas era o suficiente. O bloco do programa de calouros estava previsto começar às 5:15 da tarde. Às 5, nos bastidores, Cidinha reuniu os 12 candidatos no corredor e explicou a ordem. Jerónimo seria o primeiro. Quando ouviu, Jerónimo empalideceu.
Sidinha pôs a mão no ombro dele e disse: “Só precisa de cantar como cantou na audição. O resto acontece sozinho.” Jerónimo assentiu, mas não disse nada. As mãos continuavam tremendo. Às 5:14, Silvio Santos fez a introdução do quadro. Explicou o formato: Caloiros, júri, notas, buzina. O auditório aplaudiu. Sílvio apresentou os jurados um a um.
Pedro de Lara acenou com a cabeça. Sério? É o que maravilha. Mandou beijos para a câmara. Dio Pitnini fez uma piada. A Mara Lúcia sorriu e Edgard Ribeiro ajeitou os óculos e manteve a expressão neutra. E então Sílvio disse: “O nosso primeiro caloiro da história do programa de talentos é o Jerónimo da Silva, 57 anos, porteiro da Moca, São Paulo.
Jerónimo entrou no palco. O auditório fez um silêncio que não era de expectativa, era de dúvida. Olharam para aquele homem magro, de camisa branca, calças escuras, óculos com fita adesiva, mãos a tremer segurando um microfone que parecia demasiado grande para ele, e pensaram o que qualquer auditório pensaria. “O que é que este senhor está aqui a fazer?” Sílvio caminhou até Jerónimo, perguntou o que ia cantar.
Jerónimo disse o nome da música, mas a voz saiu tão baixa que nem o microfone captou. O Sílvio pediu que repetisse. Jerónimo repetiu um pouco mais alto uma música que a minha mãe cantava. Sílvio perguntou: “A sua mãe ainda é viva?” Jerónimo disse que não, que tinha morrido há 31 anos. Sílvio assentiu, olhou para a banda.
A banda olhou para o Sílvio e nesse momento Jerónimo disse algo que ninguém esperava. Disse que não precisava de banda, que ia cantar sozinho, que a música da mãe não precisava de acompanhamento. O Sílvio olhou para o Jerónimo por uns 3 segundos, depois disse: “O palco é teu?” Jerónimo fechou os olhos. O auditório ficou em silêncio.
O estúdio inteiro ficou em silêncio. Os cinco jurados ficaram em silêncio. As câmaras rodavam. Milhões de pessoas nas suas casas assistiam a um homem magro de óculos fixados com fita adesiva de pé no centro de um palco de televisão, segurando um microfone com as duas mãos e de olhos fechados. E então Jerónimo começou a cantar a voz.
saiu fraca nos primeiros 2 segundos, vacilou, quase quebrou, mas Jerónimo abriu os olhos por um instante, como se quisesse fugir, e depois voltou a fechar. E na terceira nota, alguma coisa aconteceu. A voz se abriu. Não se abriu como se abre uma voz treinada, com técnica e controlo. Se abriu como se abre um rio quando a barragem cede. Saiu tudo de uma vez.
57 anos de trabalho árduo, de portaria, de sim senhor e não senhora, de arranjar óculos com fita adesiva, porque os óculos novos custavam demasiado, de dizer à filha que não passou na triagem, de voltar para casa de autocarro sem reclamar, de cantar no duche a música que a mãe cantava quando era menino na lavoura de Minas, e o mundo parecia ainda um lugar onde as coisas boas podiam acontecer.
A música teve a duração de 3 minutos e 42 segundos. Ninguém no auditório se mexeu durante esse tempo. Ninguém. E 350 pessoas sentadas em cadeiras de plástico num modesto estúdio de televisão em São Paulo sustiveram a respiração durante 3 minutos e 42 segundos. As câmaras captaram rostos, mulheres a chorar, homens com os olhos húmidos, uma senhora na terceira fila com as mãos juntas como se estivesse a rezar.
Pedro de Lara, o maestro, o homem que tinha dirigiu orquestras em Buenos Aires e que dizia que no Brasil já não existia voz a sério, estava com os dois cotovelos sobre a mesa e as mãos a tapar a boca. Quando Jerónimo chegou ao refrão, um refrão simples, quatro palavras repetidas três vezes, Pedro de Lara fechou os olhos e baixou a cabeça.
Quem estava perto disse que ele estava chorando, mas Pedro de Lara nunca admitiu isso. Que maravilha! estava absolutamente imóvel, sem gestos, sem expressões exageradas e sem nada do comportamento que todos esperavam dela. Estava parada, com os olhos fixos em Jerónimo, como se estivesse a ver algo que transcendia um caloiro num programa de televisão.
Pitnini, o humorista, o homem cujo trabalho era fazer rir o auditório, estava sério, completamente sério. A caneta com que anotava piadas estava parada no ar, a mão gelada, a boca fechada. Mara Lúcia chorava abertamente, sem disfarçar, sem limpar as lágrimas, sem pedir desculpa. Chorava porque a voz de Jerónimo tocava exatamente no lugar onde ela guardava a memória da própria mãe, que também cantava canções que já ninguém se lembrava. E Edgar Ribeiro.
Edgarde Ribeiro, o homem que tinha eliminado Jerónimo da lista, que tinha chamado aquele homem de candidato sem presença em palco e que tinha feito de tudo para impedir que aquele momento acontecesse, estava sentado na cadeira de jurado com uma expressão que as câmaras captaram e que se tornaria a imagem mais reproduzida dessa estreia.
uma expressão de quem está a ver ao vivo em tempo real a prova irrefutável de que estava errado. Não sobre Jerónimo, sobre tudo. Quando Jerónimo terminou a última nota, abriu os olhos e olhou para o auditório. O auditório não aplaudiu imediatamente. Houve um silêncio de quase 2 segundos.
O tipo de silêncio que acontece quando muitas pessoas precisam do mesmo tempo para regressar de onde a música as levou. Depois veio o aplauso. E não foi um aplauso normal, foi o tipo de aplauso que começa devagar, como uma chuva que anuncia temporal e cresce até tornar-se algo físico, algo que se sente no peito e nos pés e algo que faz com que o chão do estúdio vibrar.
350 pessoas de pé, de pé, num programa de caloiros, para um porteiro da muca de 57 anos, que cantou uma música que a mãe dele cantava na lavoura e Silvio Santos. Silvio Santos estava parado no meio do palco, com o microfone na mão, sem dizer uma palavra. Quem conhecia o Sílvio sabia que aquilo era extraordinário.
Silvio Santos tinha sempre algo a dizer. Sempre. Em 30 anos de televisão, o homem nunca tinha ficado sem palavras. Naquele momento ficou, olhou para Jerónimo, olhou para o auditório, olhou para os jurados e ficou parado. O silêncio de Silvio Santos durou quase 15 segundos. 15 segundos que na televisão em direto equivalem a uma eternidade.
Nenhum produtor cortou, nenhuma câmara mudou de ângulo. Todos ficaram naquele momento, naquele silêncio e naquela suspensão do tempo que acontece quando o a televisão deixa de ser televisão e passa a ser vida. Sílvio aproximou o microfone da boca. A voz dele saiu diferente, mais baixa, mais grave, sem o brilho habitual, sem a energia do apresentador.
Saiu a voz do homem e disse: “Eu criei este programa pensando que ia descobrir talentos. Não sabia que ia descobrir verdades. O auditório aplaudiu de novo. Sílvio olhou para os jurados e disse: “Senhores jurados, as notas.” Pedro de Lara levantou a placa. 10.º El que maravilha levantou a placa. 10.
º Desce o Pitnini levantou a placa. 10.º Mara Lúcia levantou a placa com as mãos a tremer. 10.º E Edgard Ribeiro. O estúdio inteiro olhou para Edgar. O Sílvio olhou para Edgar. As câmaras focaram Edgar. Milhões de pessoas em casa olharam para Edgar e Edgard ficou sentado se com a placa virada para baixo na mesa sem levantar.
3 segundos, 5 segundos, 7 segundos. O tempo esticou. O auditório começou a murmurar. O Sílvio não interferiu. Ficou parado à espera, porque sabia que aquele momento era mais importante do que qualquer nota. Aquele momento era Edgar Ribeiro diante de si mesmo, perante a verdade que ele tinha tentado esconder, perante 600 olhos e milhões de telespectadores, tendo de escolher entre a honestidade e a o orgulho.
Aos 10 segundos, Edgard levantou a placa. 10. 510. Nota máxima de todos os jurados. Para o primeiro caloiro da história do programa de caloiros, para um porteiro da muca que cantou uma música que a mãe cantava na lavoura. O auditório explodiu. Sílvio Santos sorriu. Não o sorriso de televisão, o sorriso real. O sorriso de um homem que apostou contra todos e ganhou.
Jerónimo começou a chorar no palco, segurando o microfone contra o peito, como se fosse a única coisa que o mantinha de pé. Cidinha, nos bastidores, encostada à parede do corredor, chorava em silêncio com a lista secreta ainda no bolso do casaco. Sílvio caminhou até Jerónimo, pôs-lhe a mão no ombro e disse no microfone para o Brasil inteiro ouvir.
O senhor veio aqui cantar a canção da sua mãe. E o Senhor mostrou a todos que o talento não precisa de palco bonito, de roupa cara, de nome famoso. O o talento precisa de uma oportunidade e que programa existe para isso. Para dar hipóteses. Esta frase, para dar hipóteses se tornaria o lema não oficial do espectáculo de caloiros para os próximos 30 anos.
Mas a história daquele domingo ainda não tinha acabado. E depois do bloco do espectáculo de caloiros, que no final durou 47 minutos em vez dos 60 programados, porque os Os intervalos comerciais tiveram de ser encurtados para acomodar a reação do público. Silvio Santos foi aos bastidores, não foi ao camarim, foi ao escritório de Edgar Ribeiro.
Edgard estava sentado na cadeira com a porta aberta, olhando para a mesa. Sílvio entrou, encostou-se ao batente da porta e cruzou os braços. Não disse nada durante quase 30 segundos. Edgar não olhou para ele. Quando o Sílvio falou, a voz era calma, controlada, sem raiva. Disse: “Edgard, eu sei o que fizeste com a seleção e sei o que fez com a banda. Eu sei tudo.
Não te vou despedir hoje porque deu 10 para o Jerónimo e 10 era a única nota possível. Mas quero que perceba uma coisa. Eu não criei este programa para músicos, criei para pessoas. E se não compreende a diferença, não compreende televisão. E se não entende televisão, não tem lugar aqui. Edgar não respondeu. Sílvio continuou.
Na segunda-feira procura-me e a gente conversa sobre o seu futuro aqui. Mas hoje vai para casa e pensa no que o porteiro da Muca fez naquele palco. Pensa se a sua carreira inteira produziu alguma coisa que chegou perto do que aquele homem fez em 4 minutos. Sílvio saiu do escritório. A conversa durou menos de 2 minutos.
Na segunda-feira, Edgarde procurou Sílvio. A reunião aconteceu na sala pequena do segundo andar com a porta fechada. Ninguém sabe exatamente o que foi dito naquela reunião. O que se sabe é que durou 40 minutos e que quando o Edgar saiu, o estava com os olhos vermelhos e que na terça-feira Edgar Ribeiro não apareceu no estúdio e à quarta-feira também não.
E na quinta-feira, Newton Travesso recebeu uma carta de despedimento escrita à mão, assinado por Edgar, sem motivo declarou, sem pedido de indemnização, sem rancor explícito, apenas quatro linhas, dizendo que iria terminar as suas atividades no final do mês. Sílvio Santos recebeu a carta, leu-a, guardou-a na gaveta do escritório e não comentou com ninguém.
Quando alguém da produção perguntou o que tinha acontecido ao Edgard, Sílvio disse apenas: “O Edgard decidiu seguir outro caminho.” A frase era vaga o suficiente para encerrar qualquer conversa. Edgar Ribeiro nunca mais trabalhou em televisão. Passou os últimos anos da carreira a dar aulas de teoria musical num conservatório em Campinas.
Quando alguém mencionava o programa de talentos perto dele, Edgard mudava de assunto. Nunca falou publicamente sobre o sucedido. Levou consigo a verdade sobre a sabotagem, sobre a lista, sobre as notas da banda, sobre tudo. A única coisa que disse uma vez numa conversa informal com um ex-aluno que depois repetiu a amigos foi que Silvio Santos era o homem mais perigoso que conheceu na vida.
Não porque gritava, não porque ameaçava, mas porque compreendia as pessoas melhor do que entendiam-se a si próprias, e que isso, nas mãos de um homem com poder, era mais assustador do que qualquer grito. E Jerónimo da Silva? Jerónimo voltou na semana seguinte ao edifício da Muca. Os moradores que tinham assistido ao programa tratavam no diferente, não com distância, com respeito.
O tipo de respeito que se dá a alguém que revelou algo que estava escondido. O porteiro que todos cumprimentavam com um aceno de cabeça, apressado, agora recebia bom dia completo, paragens para conversa, perguntas sobre a família. Jerónimo voltou ao programa de calouros três vezes. Na segunda vez cantou outra música da mãe e ganhou novamente.
Na terceira vez cantou uma música própria que tinha escrito na portaria durante um turno da noite. Não ganhou, mas o auditório aplaudiu de pé. Mesmo assim. Silvio Santos nunca ofereceu a Jerónimo um contrato, uma carreira, uma oportunidade profissional na música. E Jerónimo nunca pediu, porque os dois entendiam a mesma coisa, que o que aconteceu nesse domingo não foi sobre carreira, era sobre dignidade.
Era sobre um homem de 57 anos que passou sendo a vida inteira invisível e que por 4 minutos foi visto, visto de verdade por 350 pessoas num auditório, por cinco jurados que não conseguiram abrir a boca, por um apresentador que ficou sem palavras e por milhões de brasileiros sentados nos sofás das suas casas num domingo à tarde, que por momentos deixaram de fazer o que estavam a fazer.
dizendo e escutaram. Jerónimo morreu em 1991, 18 anos depois dessa estreia. Morreu de causas naturais, no mesmo edifício onde tinha trabalhado como porteiro durante décadas. A filha encontrou numa caixa de sapatos debaixo da cama dele três coisas: uma fotografia recortada de jornal, mostrando-o no palco do espetáculo de caloiros, uma carta de Cidinha Campos agradecendo por ter cantado, e uma fita cassete com a gravação da música que o mãe dele cantava feita no estúdio da SBT depois do programa, porque Silvio Santos
tinha mandado um técnico gravar o Jerónimo cantando. a música inteira para que a família tivesse uma cópia. A fita estava numa caixa de sapatos debaixo da cama de um porteiro e dentro dela estava a voz que fez com que o programa de calouros existisse. Sidinha Campos continuou na produção do SBT por mais 11 anos.
Subiu de produtora assistente à coordenadora de produção. A lista secreta que ela criou tornou-se uma prática oficial. A partir da segunda edição do Show de Caloiros, havia sempre uma segunda lista de candidatos selecionados por critérios diferentes dos da triagem principal. Sidinha chamava a esta lista de lista Jerónimo. Ninguém fora da produção sabia que existia, mas durante anos, os melhores caloiros que subiram àquele palco vieram dessa lista.
Quando a Cidinha se reformado, Silvio Santos mandou entregar em casa dela um envelope. Dentro do envelope estava um cartão escrito à mão. O cartão dizia à Sidinha, que sabia que um porteiro da Muca valia mais do que todos os diretores musicais do Brasil. Sílvio A Cidinha guardou o cartão na mesma gaveta onde tinha guardado a lista secreta 20 anos antes.
Quando alguém perguntava qual era o momento mais importante da sua carreira, ela não falava dos anos de televisão, dos programas que produziu, dos prémios que os espetáculos ganharam. falava de uma chamada feita às 2as da manhã de um telefone na portaria de um edifício da TV paulista para a casa de Silvio Santos e da voz de Silvio do outro lado, dizendo: “O Jerónimo é o primeiro e o programa de talentos?” O programa de talentos que quatro diretores disseram que não iria funcionar, que Edgar Ribeiro tentou sabotar, que quase estreou-se com 12 maus candidatos
selecionados para falhar, durou mais de 30 anos, revelou centenas de artistas, deu hipóteses a milhares de pessoas que nunca teriam tido uma. E o primeiro nome que entrou naquele palco, o nome que abriu a história, o nome que calou jurados e apresentador e auditório e Brasil inteiro durante 4 minutos, foi o de um porteiro da Mouca que cantou a canção da mãe, porque era assim que o Sílvio Santos fazia televisão, não com os melhores, com os mais verdadeiros.
E a verdade quando aparecia não precisava de banda, não precisava de cenário, não precisava de um figurino, precisava de um microfone, de uma chance e de um homem que tivesse algo para dizer. Era domingo, era televisão. E e era o Sílvio Santos a fazer o que Silvio Santos fazia melhor.
Transformar pessoas invisíveis em pessoas inesquecíveis. Subscreve se és fã de Silvio Santos de verdade. E antes de sair, tem uma história que precisa de conhecer, porque tudo isto que acabou de ouvir, o programa de talentos, o porteiro da muca, o júri calado, a sabotagem nos bastidores, tudo isto só foi possível porque décadas antes, em 1962, Silvio Santos entrou pela primeira vez num estúdio da TV paulista, sem guião, sem ensaio, sem ninguém Ao lado dele.
A equipa técnica tinha ordens expressas de não ajudá-lo. O diretor do programa considerava aquele o maior erro da história da estação. O Sílvio teve 3 minutos. 3 minutos perante uma plateia frio e uma máquina fotográfica que não perdoava. E o que fez nesses três minutos transformou tudo. O diretor que queria tirá-lo do ar ficou paralisado.
O dono da estação ligou a meio da transmissão com uma instrução de uma frase: “Não tirem este homem do ar”. O que Sílvio disse, como se mexeu, o que fez com aquela plateia hostil em menos de 180 segundos, é algo que tem de ser ouvido para ser acreditado. A história completa está neste vídeo aqui.
E se já assistiu, há mais histórias como esta esperando por você aqui no canal. M.