O Rei do Romantismo em alma e osso: A trajetória de sucessos estrondosos, amores intensos e a despedida comovente de Waldick Soriano

Waldick Soriano consolidou seu nome na história da música brasileira como a voz definitiva dos corações partidos, dos rejeitados e dos eternamente apaixonados. Conhecido popularmente como o Rei do Brega ou o Supremo Rei do Bolero, ele transformou sentimentos considerados excessivos em hinos nacionais que ecoavam de cabarés a salões aristocráticos. Usando um visual inconfundível marcado por roupas pretas, óculos escuros e um chapéu que remetia aos caubóis do cinema norte-americano, o artista construiu uma persona magnética que contrastava o sofrimento de suas letras com uma postura altiva e orgulhosa. Por trás dos holofotes e de uma vasta lista de conquistas amorosas, a trajetória de Waldick foi moldada por uma infância de privações, perseguições políticas e uma resistência comovente diante da finitude da vida.

As origens do cantor ajudam a explicar a melancolia e a resiliência presentes em sua obra. Nascido Eurípedes Waldick Soriano no distrito de Breginho das Ametistas, em Caetité, no interior da Bahia, ele enfrentou cedo a dor do abandono quando sua mãe, a quem era extremamente apegado, deixou o lar. Criado em condições de extrema pobreza, alimentando-se muitas vezes apenas de mingau de farinha e rapadura, o jovem encontrou no cinema de faroeste e nas canções de seus ídolos, como Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Lupicínio Rodrigues, um refúgio para as dificuldades cotidianas. Antes de alcançar a fama na cidade grande, Waldick trabalhou como lavrador, peão de obra, motorista de caminhão, engraxate e garimpeiro. Essa vivência humilde no garimpo e nas estradas gerou a casca grossa de um homem que se orgulhava de ser bom de briga e conhecedor profundo da alma popular.

Decidido a perseguir o sonho de cantar e atuar, Waldick juntou suas economias e partiu para o sudeste do país, enfrentando os desafios iniciais da sobrevivência em São Paulo por meio de bicos na construção civil. A grande oportunidade surgiu no início dos anos sessenta com a gravação do bolero “Quem és tu”, que estourou nas rádios e o projetou nacionalmente. Incentivado a se mudar para o Rio de Janeiro, ele adotou a Ilha do Governador como seu lar por muitos anos. Sabendo que não possuía os atributos físicos dos galãs tradicionais da época, o cantor apostou na criação de uma estética visual única e misteriosa. Seus álbuns de boleros preencheram uma lacuna no mercado fonográfico, consolidando uma sequência de sucessos nos anos seguintes, como “Paixão de um homem” e “Carta de amor”.

Apesar do imenso apelo popular, a trajetória de Waldick Soriano não foi isenta de períodos sombrios. Durante o regime militar, o teor passional e dramático de suas canções despertou a desconfiança dos censores. A música “Tortura de Amor” foi proibida de tocar nas rádios devido à presença da palavra “tortura” no título, considerada inconveniente pelas autoridades. O cantor frequentemente enfrentava abordagens rudes nas estradas, com militares revistando seu veículo e atrasando seus compromissos profissionais. Paralelamente, a consagração definitiva veio com o estrondoso sucesso de “Eu não sou cachorro não”, canção que se transformou em um verdadeiro ditado popular e capturou perfeitamente o sentimento de humilhação decorrente do abandono afetivo.

A relação de Waldick com a mídia e com a elite cultural sempre foi ambivalente. Enquanto os jornais e críticos o rotulavam pejorativamente de cafona, jeca ou “Frank Sinatra dos Pobres”, o cantor rebatia os comentários com altivez em suas memórias, afirmando que seu público legítimo era o povo real, aquele que chorava em público sem medo de demonstrar sentimentos e que consumia sua arte de forma genuína. No auge do sucesso, ele também realizou o sonho de infância de atuar no cinema, estrelando produções baseadas em sua própria mística e fazendo participações especiais na televisão, embora mantivesse uma visão crítica e reservada sobre os conteúdos veiculados nas programações nacionais.

A vida pessoal do Rei do Romantismo foi tão agitada quanto suas melodias. Conhecido por seu charme, Waldick envolveu-se em romances de grande repercussão midiática, transitando entre mundos opostos. Seu namoro com a socialite milionária Beck Klabin foi apelidado pela imprensa como o envolvimento entre “a diva e o jeca”. Ele também viveu um relacionamento intensamente coberto pelos jornais com a cantora Cláudia Barroso e, em momentos distintos, nutriu paixões platônicas e casos com ícones de beleza nacional, como a primeira Miss Brasil, Marta Rocha, e a modelo Roberta Close. Contudo, em meio a tantas paixões e turbulências, a figura central de sua vida afetiva foi sua esposa, Valda Soriano, companheira de quase quatro décadas e o porto seguro para onde ele sempre retornava.

Os anos finais de sua jornada trouxeram o declínio da saúde e o teste definitivo de sua personalidade obstinada. Diagnosticado tardiamente com câncer de próstata, o que resultou em um quadro de metástase, Waldick demonstrou uma postura rebelde em relação aos tratamentos médicos. Avesso a hospitais, ele frequentemente brincava com a gravidade da situação, afirmando que não morreria daquela doença. Mesmo debilitado, viu sua obra ser resgatada e celebrada por uma nova geração através de livros, documentários e a gravação de um projeto ao vivo idealizado pela atriz e fã Patrícia Pillar. Seus amigos de longa data do meio artístico, como Agnaldo Timóteo, destacavam sua elegância e lamentavam a gradual extinção dos grandes intérpretes do gênero romântico.

O desfecho de sua trajetória ocorreu em uma madrugada fria em um hospital no Rio de Janeiro, aos setenta e cinco anos de idade. Em seus momentos derradeiros, com as forças físicas severamente limitadas, Waldick Soriano reuniu energia para um último abraço apertado em sua esposa Valda, proferindo uma declaração característica de seu estilo direto e bem-humorado antes de fechar os olhos definitivamente. Sua partida gerou uma onda de comoção popular, atraindo centenas de fãs ao seu velório na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, onde sua viúva depositou seus tradicionais óculos e chapéu sobre o caixão. Valda lamentou profundamente não ter conseguido realizar o último desejo do casal, que era oficializar o casamento religioso após trinta e oito anos de união. Inicialmente sepultado na capital fluminense, o cantor teve seus restos mortais trasladados anos mais tarde para sua terra natal na Bahia, encontrando o descanso final ao lado de suas origens, consagrado como um mito indestrutível da cultura popular brasileira.

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