Assim FOI a VIDA LUXUOSA de CAZUZA – O Brasil Viu Morrer
R milhões de reais. Essa era a fortuna que esperava Casusa, se tivesse sobrevivido. 80 milhões. O património do pai, João Araújo, presidente da Som Livre, a editora musical das organizações Globo, o homem que decidia o que o Brasil inteiro ia ouvir na rádio e na televisão. A casa onde Casusa cresceu em Ipanema era um dos endereços mais caros do Rio de Janeiro.
[música] O menino sentava-se à mesa com os maiores nomes da música brasileira [música] na própria casa dele todas as semanas como rotina. Não tinha de trabalhar um dia na vida, não precisava de palco, de fama, de público. 80 milhões iam chegar para ele. Era só viver, envelhecer e [música] esperar. Casuza não esperou.
Morreu aos 32 anos. E aqui começa o que ninguém te contou, [música] porque 35 anos depois de morto, Casusa ainda gera dinheiro todos os meses, mês após mês. [música] E 253 composições registadas no ECAD, cada uma gerando royalties cada vez que toca na rádio, na TV, em streaming, numa loja de shopping, num anúncio publicitário, num elevador.
3,8 milhões de reproduções mensais só no Spotify, o equivalente a artistas que estão vivos, que lançam disco, que fazem digressões, que sobem no palco. Cazusa morto compete com os vivos e este dinheiro que não pára de entrar há 35 anos que cai numa conta todos os meses. A pergunta que ninguém faz é: na conta de quem? Guarda essa pergunta, porque a resposta passa por um testamento que a mãe de Casusa, Lucinha Araújo, só abriu quando O marido morreu em 2013, 23 anos depois de ter enterrado o filho.
E o que encontrou Lucinha naquele documento mudou tudo o que ela pensava sobre o marido, sobre o dinheiro, é, e sobre as decisões que João Araújo tomou em silêncio durante duas décadas. Eu vou contar-te o que estava dentro daquele [música] testamento, mas não agora. Eu vou mostrar-te como o filho do homem mais poderoso da música brasileira largou 80 milhões de reais de herança garantida.
e trocou por nove anos de palco. E quanto cada um destes anos custou em dinheiro, em saúde e em pessoas que se foi embora. Eu vou dizer-te quanto Casusa gerou em cachets, contratos e direitos de autor em menos de uma década, e quanto saía pelo outro lado da conta, sem que ninguém à sua volta conseguisse travar. Eu vou contar-te o que aconteceu no dia em que uma foto dele apareceu na capa da maior revista do país.
E o que fez nas horas seguintes que a família nunca contou em público. Aí vou mostrar-lhe o que o O seu pai escondeu durante 23 anos dentro de um testamento. E porque é que a mãe de Casusa nunca mais falou do marido da mesma forma depois de o ter lido. Comenta aqui antes de continuar. Cazusa morreu em julho de 1990. Chuta quanto tempo antes da morte ele gravou a última canção.
A meio do vídeo eu conto-te e quando ouvires o que diz a letra vai entender que ele sabia exatamente o que estava a acontecer com ele. Agenor de Miranda. Araújo Neto nasceu a 4 de abril de 1958 no Rio de Janeiro. Filho único, pai. João Araújo, o homem que liderava a Som Livre e que tinha na agenda o telefone de praticamente todo o artista relevante [música] do Brasil.
Mãe, Lucinha Araújo, cantora, gravou dois álbuns do mesmo verão, em 1980. [música] e tal como eu sou. Em 82, Lucinha chegou a ter música na banda sonora da telenovela Água Viva da Globo em 1980. Quer dizer, a mãe da Casusa também era artista, também circulava naquele mundo, também conhecia aquele universo por dentro.
Os dois estiveram casados durante 56 anos. A casa de Ipanema era o centro gravitacional da música brasileira. Ali entravam e saíam Caetano, Gil, Gal, Rita. Todo o mundo. A própria Lucinha descreveu. Se respirava música por todos os os cantos. [música] E o menino que cresceu naquela casa absorveu tudo. Cada nota, cada conversa, cada acorde que ecoava nos corredores.
Tentou a faculdade de comunicação na UFRJ. [música] Deixou-se num mês, não tinha paciência paraa sala de aula. foi para São Francisco estudar fotografia. Regressou insatisfeito. O menino que tinha tudo ainda não sabia o que queria. Até que em 1981, com 23 anos, fez um curso de teatro com fortuna perfeita e com o grupo Asdrúbal trouxe o trombone no circo voador, aquele barracão improvisado na lapa, onde o teatro underground do Rio misturava-se com o rock.
com a poesia, com a contracultura. E ali, naquele palco sujo e mal iluminado, Cusa soltou a voz pela primeira vez, a voz que o Brasil ia ouvir durante 9 anos e depois durante 35 anos de silêncio, que nunca se calou. Agora, tem atenção à velocidade do que vem, porque toda a carreira de Cusa durou 9 anos. dos 81 aos 90.
Outros artistas demoram 9 anos entre um disgo e outro. Cazusa levou 9 anos para nascer, [a música] explodir, revolucionar e morrer. É como se a vida inteira tivesse sido comprimida numa explosão. 1981. Kasusa entrou nos Barão Vermelho por indicação de Léo Jaime e aqui tem um pormenor que muda tudo. Léo Jaime foi convidado em primeiro lugar e recusou a vaga.
Recusou. O tipo que podia ter sido o vocalista dos Barão Vermelho disse que não. E ao dizer não, abriu espaço para o gajo que mudou o rock brasileiro. As decisões que definem a história nem sempre são aquelas que alguém toma, por vezes são as que alguém recusa. Guarda esse pormenor. 1982, os Barão Vermelho lançaram o primeiro álbum que levava o nome da banda.
estrearam-se no circo voador. A crítica elogiou. Os Os jornalistas de música do Rio perceberam que havia ali algo de diferente, uma voz que não se parecia com nada do que existia no rock brasileiro. Mas a vendagem foi modesta. E naquela época, sem internet, sem streaming, sem redes sociais, um disco precisava de rádio para rebentar.
E o rádio ainda não tinha descoberto o barão. O Brasil ainda não sabia quem era Cusa. Mas em 83 tudo mudou e mudou por causa de um nome que precisa guardar. Nei, Mato Grosso. Nei gravou Pro Dia Nascer Feliz e a música [música] explodiu. Nei Mato Grosso era um dos maiores artistas do Brasil daquela época, com uma voz inconfundível e uma presença de palco que hipnotizava qualquer público.
Quando o Nei pegou numa [música] música do Barão Vermelho e gravou com aquela voz dele, todo o Brasil parou para ouvir e ouviu e quis saber quem tinha escrito aquilo. O segundo álbum dos Barão, Barão Vermelho 2, vendeu mais de 500.000 cópias. De repente, e todo o Brasil sabia quem era aquele tipo de [música] cabelo encaracolado que gritava no palco como se estivesse a lutar com o mundo.
Guarda o nome Nei Matrosso. Ele vai voltar nesta história de um forma que não espera. Em 84, surgiu o filme Bet Balanço. O Barão Vermelho [música] entrou na banda sonora e na trama do filme. maior abandonado virou HIT Nacional. A parceria entre a Casusa e a Frejá estava consolidada. Os dois juntos escreviam letras que ficavam na cabeça e não saíam mais.
A banda tinha [música] projeção nacional. Não era mais uma banda do Rio de Janeiro, era uma banda do Brasil. E depois veio janeiro de 1985, Rock em Rio, o maior festival de música que o Brasil já tinha visto até àquele momento. 10 dias de festival, 70.000 pessoas por dia, 15 milhões de espectadores no total. Rainha A C D. Iron Maiden, yes, George Banson e o Barão Vermelho.
O rock brasileiro partilhando o palco com as maiores bandas do planeta. E o Barão Vermelho subiu naquele palco no auge absoluto. Casusa tinha 26 anos perante centenas de milhares de pessoas. O menino de Ipanema, filho do presidente da Son livre, o mesmo pai que provavelmente ajudou a viabilizar a participação da banda no festival, porque João Araújo era João Araújo e nada na indústria musical brasileira acontecia sem ele saber, gritando as músicas que o Brasil cantava em conjunto, as câmaras da Globo a transmitir ao vivo para o país inteiro, o mundo a assistir.
E o que ninguém na plateia sabia, o que ninguém nas câmaras captou, é que nos bastidores a decisão já estava tomada. Casusa ia sair dos Barão Vermelho. No palco era o auge, nos bastidores era o fim. O génio que tinha criado o barão já não cabia dentro do barão, era demasiado grande. ou pensava que era.
E no caso de Cazusa, achava certo. As brigas vinham de longe. Casuza chegava bêbado nos ensaios, queria escolher todas as músicas, incumpria contratos, lutava com os outros membros por qualquer motivo. A cocaína e o álcool já tinham tomado conta da vida dele. Ele próprio admitia que não conseguia entrar em palco antes de consumir alguma droga.
As madrugadas na rua Dias Ferreira, no Leblom, eram intermináveis. Cocaína, álcool, sem medida, sem limite, sem freio. As noites começavam às 10 e terminavam com o sol a nascer. Se terminavam, o génio que escrevia as melhores letras do rock brasileiro era o mesmo que destruía tudo à volta, o mesmo que chegava aos concertos sem condição de cantar.
E é o mesmo que brigava com toda a gente que tentava ajudar. O mesmo que faziam os parceiros de banda perderem a paciência. Dois casusas, sempre dois, o poeta e o destruidor, o génio e o caos. Em 85 saiu do barão. E o que todos esperavam? que sem a banda ele ia desaparecer, que era só mais um vocalista que achava que era maior do que o grupo. Não aconteceu.
Aconteceu o contrário. Casusa lançou exagerado o álbum Solo de Estreia e foi como se ele tivesse tirado [música] uma camisa de força. O disco que dançaste nas festas. O disco que tocou em toda a rádio do Brasil durante meses sem parar. O disco que fez Casusa saltar do rock de nicho paraa cultura de massas. Exagerado. A música que se tornou sinónimo de paixão desmedida, de amor sem controlo, de entrega total.
Quem não cantou isto em 85, em 86, em 90? Ah, em 2000, até hoje? Aquela música atravessou décadas, [música] porque não é sobre uma pessoa, é sobre toda a gente que já amou demais. Codnome Beijaflor. A música que todos cantaram no duche, no carro, na varanda, no praia, no bar, no casamento, no karaquê. E aqui está um dado que mostra o tamanho do que aconteceu.
Casusa saiu de uma banda que vendia 500.000 exemplares para vender sozinho, muito mais do que isso. Sozinho, sem frejar, sem barão. Só ele, a voz e as letras. O filho do presidente da Som Livre não precisou do pai para rebentar, mas é impossível ignorar que crescer dentro daquela editora, dentro daquela casa, dentro daquela rede de contactos, deu a Casusa uma vantagem que nenhum outro roqueiro brasileiro tinha.
Conhecia o mercado por dentro, conhecia os produtores, conhecia os executivos. Eles conheciam o caminho entre o estúdio e a rádio. A génio era dele, mas o acesso era do pai. E os dois sabiam disso. O menino de Ipanema já não precisava de banda nenhuma. [música] O Brasil era dele e tinha 27 anos.
E aqui preciso de te contar sobre o namoro que pouca gente conhece em pormenor. Nei Mato Grosso. O mesmo Nei que gravou para o Dia Nascer Feliz e fez explodir o Barão em 83. Teve um caso com Cazusa. Duraram três meses. Três meses de paixão entre dois dos maiores artistas do Brasil naquela época. E em 2024, 34 anos depois da morte de Casusa, Nei deu uma entrevista em que disse com todas as letras: “Fui completamente apaixonado, mas era difícil conviver com os dois casusas que havia nele.
No lado público, mostrava-se agressivo, louco, embriagado e cheirava muito a pó”. É, já na intimidade era o oposto. Foi uma das pessoas mais encantadoras que conheci. Dois casusas, sempre dois. O que gritava no palco e o que sussurrava na intimidade, o que cheirava cocaína até de manhã e o que chorava no ombro de quem amava.
o que cuspiu na bandeira e o que escreveu os mais belos versos da língua portuguesa. Casusa vivia absexualidade abertamente numa época em que este era um tabu absoluto no Brasil. Teve relações com homens e mulheres sem esconder de ninguém. Nunca levantou bandeira ele GBT explicitamente. Nunca foi a manifestações. Nunca fez discursos sobre os direitos.
nunca se colocou como porta-voz de causa nenhuma, o que gerou fortes críticas por parte dos ativistas da época. Luis Mort, fundador do grupo [música] Gay da Bahia, disse: “Gosto de Cuza como compositor e cantor, mas discordo dele pelo seu mutismo sobre homossexualidade e o movimento gay. Casusa não levantava bandeiras de ninguém.
Casusa levantava as suas próprias e queimava todas. [música] E agora preciso de te contar sobre o cuspo na bandeira. Foi no Canecão, no Rio de Janeiro, durante um concerto lotado. A música era Brasil, aquela mesma que diz: “Brasil, mostra a tua cara”. No meio da apresentação, com o público enchendo a casa, com as câmaras ligadas, com a energia no teto, [música] Cazusa pegou numa bandeira brasileira.
e cuspiu-lhe duas vezes, não uma, duas, deliberadamente, olhando para o público, instantânea polémica nacional. Os jornais explodiram no dia seguinte, celebridades manifestaram-se contra, [música] colunistas pediram castigo, militares ficaram furiosos. O Brasil se dividiu ao meio. De um lado, quem achava que era uma afronta imperdoável ao símbolo da nação.
É do outro quem entendia como um gesto de protesto legítimo contra um país que não funcionava, que não cuidava do povo, que merecia ser confrontado. E o que quase ninguém sabe é que Casusa escreveu uma carta a explicar por tinha feito aquilo. Uma carta detalhada escrita à mão em que expunha as suas razões com clareza e sem pedir desculpa por nada.
Pediu ao pai João Araújo que entregasse à imprensa e o Pai não entregou. Guarda essa carta, ela vai voltar. E quando voltar, vai compreender porque é que o silêncio do pai diz mais sobre esta família do que qualquer música que Kazusa escreveu. 1987, Casusa lançou só se fora dois. E no ano seguinte, 1988, [música] veio a ideologia. E aqui preciso que pare tudo e entenda uma coisa.
com toda a clareza possível. E este disco, o melhor disco de Cazusa, o disco que o Brasil mais cantou, o disco que tem O Tempo não para, Ideologia, Brasil, Blues da Piedade, foi composto e gravado por um homem que já trazia o VIH no sangue, que sabia que ia morrer. Não sabia, no sentido abstrato, filosófico, de que toda a gente vai morrer um dia.
sabia no sentido concreto, clínico, médico, porque naquela época não existia cocktail antiretroviral e o H e V era sentença de morte sem recurso, sem recurso, sem esperança. A única droga disponível era o AZ, ASTIMidina, aprovada nos Estados Unidos em março de 87, pouco mais de um ano antes. O AZT era a única coisa entre o VIH e a morte e o preço era brutal.
Um tratamento que custava entre 8 e 10.000 por ano nos Estados Unidos. Uma fortuna na época. Ah, inacessível para 99% dos brasileiros com H e V. Cazusa podia pagar. filho de um homem de 80 milhões. Podia pagar o AZT, podia viajar para Boston, podia ter os melhores médicos. Este é um dado que precisa de ser dito. A maioria dos brasileiros com H [música] e V nessa altura simplesmente morria sem tratamento nenhum.
Casusa tinha o privilégio do dinheiro e mesmo com este privilégio, o AZT era devastador. Náusea constante que fazia com que Casusa vomitar durante horas sem parar. Fadiga extrema que mal permitia levantar da cama de manhã. Anemia grave que deixava a pele cinzenta e os olhos encovados. dores musculares que tornavam cada movimento um esforço.
O corpo destruía-se por dentro enquanto tentava defender-se de um vírus que não tinha cura. E o medicamento que supostamente ajudava destruía quase tanto como o próprio vírus. E foi [música] sob os efeitos do AZT, com o corpo em colapso, com as mãos a tremer, com o estômago revirado, entre uma ida à casa de banho para vomitar.
E outra, que Casusa escreveu: “O meu prazer é agora risco de vida”. Leia esta frase de novo. O meu prazer agora é risco de [música] vida. Isto não é metáfora, isto não é licença poética, isto é autobiografia pura. Isto é um homem olhando paraa própria sentença de morte e transformando-o em verso. Isso é génio criando sob pressão terminal.
Isto é um poeta que sabe que cada palavra pode ser a última e por isso cada palavra precisa de ser perfeita. O tempo não pára, tornou-se o hino de Casusa. E a ironia é tão cruel que até dói. O tempo não pára. Mas o tempo dele estava a parar. Cada segundo que passava era menos um segundo e ele sabia. e continuava a escrever, continuava a gravar, continuava a subir no palco.
E a música Ideologia abria com a frase que resumia tudo: “O meu partido é um coração partido.” Um homem com o corpo partido e o coração partido, escrevendo sobre um país partido. Brasil, mostra a tua cara. Entrou na banda sonora de Vale Tudo. A novela das 9 da Globo em 88 [música] e o Brasil inteiro cantou junto.
A frase de um homem moribundo virou o grito de um país inteiro. 60 milhões de brasileiros ouviam aquela voz toda a noite na abertura da novela, sem saber que o dono daquela voz estava a morrer nos intervalos entre uma gravação e outra. Blues da Piedade era um murro no estômago, a dor transformada em acorde, o desespero transformado em poesia.
E cada uma destas músicas nascia do mesmo lugar, um estúdio onde Kazusa entrava destruído pelo AZ e saía com versos que o Brasil ia cantar durante décadas. E o paradoxo da ideologia é o seguinte: O melhor álbum do rock brasileiro foi escrito pelo pior corpo do rock brasileiro. A genialidade máxima veio da destruição máxima.
Como se a proximidade da morte tivesse tirado todos os filtros, não havia mais tempo para versos medianos, para rimas seguras, para canções que não doessem. Cada música daquele disco era um capítulo de um testamento que estava sendo escrito em tempo real por um homem de 30 anos que sabia que não chegava aos 40. Guarda esse dado.
O disco que o Brasil mais cantou foi escrito por um homem que sabia que ia morrer. E 35 anos depois, este disco continua a tocar como se tivesse sido gravado ontem. A digressão ideologia foi dirigida por Nei Mato Grosso. Lembra-se dele? O homem que gravou para o Dia Nascer Feliz e fez o Barão explodir em 83. É o ex-namorado de 3 meses.
O tipo que disse que era difícil conviver com os dois casuzas. Esse homem dirigiu a última grande digressão de Kazusa. Pensa na complexidade desta relação. O Nei foi o tipo que fez a primeira música de Casusa a rebentar. Foi o namorado que não aguentou [música] a convivência. Foi o artista que se apaixonou-se e afastou-se.
E no final foi o encenador que colocou Cusa em palco pela última vez, sabendo que o corpo não ia aguentar muito mais. Do primeiro sucesso ao último palco, Nei esteve lá. O início e o [música] fim passaram pelo mesmo homem. O álbum ao vivo [música] O Tempo Não para gravado durante essa digressão, se tornou o maior sucesso comercial da carreira de Cusa.
O seu disco mais vendido foi um disco ao vivo. A energia crua do palco, a voz rasgada pela doença e pela emoção. [música] Este o público a cantar junto cada verso como se de uma oração coletiva se tratasse. Cada noite em palco era uma aposta contra a morte. Cada música cantada era uma vitória roubada ao relógio.
Cada aplauso era o Brasil a dizer: “Ainda estamos aqui”. Para um homem que sabia que não ia estar ali muito mais tempo. 253 obras próprias, 332 gravações registadas no ECAD. Números concretos, números que não mentem. E cada uma destas gravações gera direitos autorais. Cada vez que alguém tocou exagerado numa festa.
Cada vez que o tempo não pára, entrou numa novela. Cada vez que o Brasil foi utilizado numa campanha publicitário, cada vez que alguém cantou Codnome Beijafor num karaquê de shopping, cada vez que uma rádio FM do interior do Brasil pôs para o Dia Nascer feliz no ar de madrugada, pingou royalty.
E estes royalties tiveram um destino que diz mais sobre o legado da Cazusa do que qualquer biografia ou documentário. Os versos que escreveu financiaram uma ONG dedicada a crianças e adolescentes com VIH durante 30 anos. 30 anos. De 1990 a 2020. Pensa nisso. Uma criança seropositiva que recebeu um cabaz alimentar em 1995 recebeu por causa de uma música que Cazusa escreveu numa madrugada do Leblon em 85 entre uma linha de cocaína e uma garrafa de whisky.
10 anos antes, cada vez que alguém cantou exagerado no karaoquê, pingou um royalty que se tornou medicamento para uma criança comides. Cada verso que compôs continuou salvar vidas décadas depois da morte dele. A poesia tornou-se farmácia, a música tornou-se comida, o rock tornou-se remédio e o menino de Panema, que tinha tudo e morreu aos 32, continuou a alimentar crianças durante 30 anos depois de morto.
Mas eu preciso de te contar como chegou até essa morte, porque o Brasil assistiu em direto e você assistiu junto. Julho de 1985. Cazusa tinha 27 anos, acabava de sair do Barão Vermelho, estava no auge da carreira a solo. Exagerado, tocava em todas as rádios do Brasil. As portas de todos os estúdios estavam abertos. As as casas de espectáculos enchiam antes de abrir a bilheteira.
O menino de Panema era o rei do rock brasileiro e de repente febre incessante que não cedia com nada. Convulsões a meio da noite, [música] internamento de emergência. Os médicos fizeram exames, mediram, auscultaram, pediram novos exames e não confirmaram nada ou não quiseram confirmar. Porque em 85 eu falar a palavra a ides num hospital [música] era quase tão difícil como ter a doença.
A ides era um fantasma naquela época. Peste gay, cancro gay, uma doença que o Brasil mal compreendia e que tratava com medo e preconceito [música] puro. Em 85, ser diagnosticado com VIH era uma sentença que ia para além da morte biológica. Era uma sentença social que destruía tudo à volta. Os amigos desapareciam, contratos eram cancelados, as famílias fechavam-se.
[música] Kazusa saiu do hospital sem diagnóstico definitivo, talvez aliviado, [música] talvez sabendo no fundo o que era, mas preferindo não ouvir. E continuou vivendo como se nada tivesse acontecido. Continuou na noite do Leblon, continuou na cocaína, continuou em palco, porque Cazusa não sabia parar e talvez lá no fundo não quisesse parar.
Se o tempo que tinha era curto, ia viver cada minuto como se fosse o último, sem saber que literalmente o era. Abril de 1987. Desta vez não houve como fugir. O diagnóstico foi confirmado. H e V positivo. O vírus estava no sangue. Não era mais suspeita. Não era mais pode ser. Não era mais vamos esperar os próximos exames. Era uma certeza.
Em 87, o Brasil tinha pouco mais de 2000 casos registados de aides, mas o número real era infinitamente maior, porque as as pessoas morriam sem diagnóstico, morriam em silêncio, morriam [música] escondidas. Casusa chorou no ombro do amigo Ezequiel Neves, o produtor musical que esteve com ele desde o início, desde os primeiros dias no circo voador, desde os primeiros versos escritos num guardanapo de bar.
Chorou com o peso de quem sabe que a conta chegou. chorou, sabendo que o corpo que ele tinha maltratado com drogas, com álcool e com uma noite sem fim na rua Dias Ferreira, estava agora a cobrar. Tinha 29 anos. 29. A mesma idade em que a maioria dos pessoas está em plena construção da carreira, pensar no casamento, pensando nos filhos, pensando nos próximos 30 anos.
E Cusa já não tinha 30 anos pela frente, não tinha nem cinco, mas ele ainda não sabia disso. O que ele sabia é que o vírus estava ali, que o AZT era a única opção e que cada dia, a partir dali, era um dia emprestado. Guarda esse momento. Porque o que ele fez depois de chorar é o que define este homem. O que ele fez foi continuar.
Gravou só se fora dois. Depois entrou no estúdio e compôs Ideologia, o melhor disco dele, o disco que o Brasil mais cantou, sob os efeitos do mesmo azetê que destruía o corpo. O tempo dele não parava. Fevereiro de 1989, Kuza fez o que nenhuma celebridade brasileira tinha feito antes dele. Assumiu publicamente ser portador do VIH.
A primeira celebridade do Brasil a olhar para o país e dizer: “Eu tenho Aides”. Em 89, dizer: “Tenho Aides” era sentença social de morte. Quem falava perdia amigos que do dia paraa noite sumiam. Perdia contratos que eram cancelados por telefone sem explicação. Perdia familiares que não queriam ser vistos ao lado.
[música] A Aides, naquela época não era tratada como doença, era tratada como vergonha. E Cazusa decidiu assumir publicamente num momento em que ainda estava fazendo espetáculos, ainda estava a gravar, ainda estava a criar. A carreira podia ter terminado naquele [música] instante. Os patrocinadores podiam ter desaparecido.
As as salas de espetáculo podiam [música] ter fechou as portas. E o pai, João Araújo, era o presidente da Som Livre, o homem que controlava narrativas para viver. Imagina o que passou pela cabeça do João quando o filho decidiu contar [música] para o Brasil. O nome Araújo ia ser associado a Aides no país inteiro, na indústria que João comandava, nos corredores da Globo, nos jantares com executivos de editoras discográficas, nos almoços com artistas que João lançava, toda a gente ia saber que o filho do presidente da Som Livre tinha Aides.
E Cazusa fê-lo mesmo assim. Não perguntou ao pai, não pediu autorização, não consultou o assessor de imprensa, olhou para o Brasil e disse: “Porque Cazusa nunca não fez nada pela metade, nunca viveu pela metade e não ia morrer pela metade. Guarda o mês, Abril de 89. Porque o que a revista Veja fez nesse mês é o dado que vai mudar tudo o que pensa sobre aquela foto.
Moazusa, uma vítima da Aides, agoniza em praça pública. Aquela foto, o corpo magro, debilitado, a pele marcada pela doença, os olhos encovados, a pálida sombra do que tinha sido 4 [música] anos antes no palco do Rocking Rio. Todo o brasileiro com mais de 40 anos lembra-se daquela capa? Todo o mundo não tem como esquecer.
A Veja era a revista mais lida do Brasil nessa época. Mais de um milhão de exemplares por semana, mais de um milhão de cópias daquela foto circulando pelo país. Aquela imagem virou a representação visual da Aides no Brasil inteiro. Quando alguém pensava em Aides, nos anos 80 e 90, a imagem que vinha à cabeça era aquela: Casusa na capa da Veja, o rosto da doença, o corpo da doença, a prova de que a doença era real e estava ali na capa de uma revista, na cara de um rapaz que todo o mundo conhecia.
Aquela revista estava em toda a banca de jornais do país, na sala de espera de todo o consultório médico e dentista, na mesa de centro de toda a casa de classe média. E aquela foto dizia sem precisar de legenda. A aides tem rosto. A aides tem nome. A aides não é uma coisa abstracta que acontece com os outros, com desconhecidos, com gente de longe.
É o menino de Ipanema que viu no Rocking Rio há 4 anos a gritar as canções que cantava junto. E aqui entra o dado que quase ninguém sabe. dado que muda completamente a forma como compreende esse momento. Quando Cazusa recebeu a revista pelas mãos do pai João Araújo, ele abriu, olhou para a capa, olhou para o foto, viu o seu próprio corpo destruído, [música] estampado para todo o Brasil ver.
Começou a ler a reportagem, página por página e chorou. Mas presta muita atenção, não chorou pela foto e não chorou pelo corpo magro, não chorou pela pele marcada, não chorou pela imagem que dezenas de milhões de brasileiros iam ver nas bancas. Kazusa chorou porque a matéria terminava duvidando da sua genialidade. Depois de O tempo não pára, depois [música] de Ideologia, depois de Brasil, depois de Blues da Piedade, depois de 253 composições que o Brasil cantava de cor.
A Veja encerrava a reportagem questionando se Cusa era realmente genial. [música] O corpo destruído ele aguentava. a dor física constante ele aguentava [música] o tratamento com a ZT, o mesmo tratamento que destruía o corpo enquanto ele gravava ideologia, ele aguentava. O estigma de ser o rosto público da Aides no Brasil [música] inteiro.
Ele aguentava. O que Cazusa não aguentou foi alguém duvidar do que tinha criado. Teve uma queda súbita da pressão arterial e a teve de ser levado a uma clínica às pressas. A vaidade artística pesava mais que a doença terminal. O poeta aguentava morrer, mas não suportava que duvidassem da poesia.
Lembra-se desta cena? Porque ela define a casusa melhor do que qualquer música, qualquer biografia. qualquer documentário. E Cazusa não parou mesmo depois da capa da Veja, mesmo com o corpo em colapso progressivo, mesmo com todo o Brasil olhando para ele como se fosse uma conta regressiva em câmara lenta, ele não parou.
Viajou para Boston, para o Boston Medical Center, para fazer tratamento experimental. Era uma das poucas clínicas no mundo que pesquisavam alternativas ao AZ a AZT. E ir até lá custava uma fortuna que a maioria dos Os brasileiros com VIH não podiam nem sonhar. Casusa podia. O filho do homem de 80 milhões tinha [música] acesso a tratamentos que 99% dos seropositivos brasileiros jamais teriam.
E mesmo assim, mesmo com o melhor tratamento que o dinheiro podia comprar, a doença avançava. Intercalava internamentos nos Estados Unidos com concertos no Brasil. ia e voltava do hospital americano para o palco carioca, do palco para o hospital, do soro intravenoso para o microfone, do microfone pró soro. O corpo ia e voltava entre continentes, enquanto a doença só ia numa direção, e essa direção não tinha volta.
Os médicos de Boston faziam o que podiam. O dinheiro de João Araújo pagava o que fosse necessário e nada, nada era suficiente. Guarda essa cena. Cadeira de rodas, corpo magro, dois prémios nas mãos, porque é a última vez que o Brasil viu Cusa vivo. 1989 e Sharp Music Award, a última aparição pública de CAS. E aqui eu preciso que imagine como se estivesse a assistir ao vivo o palco montado, as câmaras posicionadas, o plateia de fato e vestido comprido, músicos, produtores, executivos da indústria, jornalistas.
E, de repente, Casusa entra numa cadeira de rodas, visivelmente magro, um fio do que tinha sido, uma sombra do homem que 4 anos antes gritava no rocking rio como se fosse imortal. A voz fraca, a mesma voz que dois anos antes rebentava amplificadores e fazia cantar estádios inteiros até perder a voz. Recebeu dois prémios. Melhor canção por Brasil.
e melhor álbum por ideologia. Dois prémios. O melhor disco do ano no Brasil foi feito por um homem moribundo. A melhor canção do ano no Brasil foi escrito por um homem que sabia que ia morrer. E o Brasil viu na televisão um homem de 31 anos sentado numa cadeira de rodas recebendo o reconhecimento máximo da indústria musical.
A mesma indústria que o pai ajudou a construir, a mesma indústria em que cresceu, a mesma indústria [música] que agora aplaudia de pé não só o artista, mas a coragem insana de um homem que se recusou-se a deixar de criar, mesmo quando o corpo implorava para parar. E a plateia aplaudiu de pé e chorou. E todo o mundo que estava a ver em casa chorou [música] também.
E os pais dele, o João e o Lucinha, ali sentados, a observar o filho receber um prémio, sabendo que era provavelmente a última vez que iam vê-lo de pé, mesmo que sentado. Seguraram a dor, como só um pai seguram. Aquela era a despedida. O rocken rio tinha sido o auge. Aqui era o epílogo. Guarda essa data. 7 de julho de 1990. E porque se lembra onde estava quando soube? Casusa morreu 32 anos.
Choque séptico em consequência da Aides, no Rio de Janeiro, rodeado pela família. A Lucinha e o João, os pais que viram o filho único a ir embora, a mãe que cantava, o pai que comandava a indústria, os dois ali juntos, observando o menino de Ipanema partir. O O Brasil parou. Os telejornais interromperam a programação regular.
As rádios tocaram O tempo não pára em Loop. A ironia brutal de tocar uma música que diz que o tempo não para anunciar que o tempo de quem a escreveu tinha parado definitivamente. Os jornais do dia seguinte estamparam a notícia nas primeiras páginas. O Jornal do Brasil, o Globo, a Folha de São Paulo, todos. O Brasil chorou um roqueiro como nunca tinha chorado antes, porque não era só um cantor moribundo, não era só mais uma vítima da Aides numa época em que o O Brasil perdia milhares por ano.
Era diferente, era pessoal, era casusa. E você chorou nesse dia, toda a gente chorou. Quem cantou exagerado nas festas de 85 chorou. Quem dançou com o Beijaflor nos bailes de finalistas, chorou. Quem tinha 25, 28, 32 anos em 1990 e lembrava-se de cada música, de cada concerto, de cada vez que ouviu a voz de Cuza no rádio do carro no regresso do trabalho.
Chorou porque Cazusa não morreu sozinho. Morreu com um pedaço da juventude de toda a gente que viveu os anos 80. morreu levando consigo a banda sonora de uma geração que, de repente, se viu mais velha, mais sozinha, e com o rádio tocando a música de um homem que nunca mais ia cantar outra. E semanas depois da morte, Rica João Araújo entregou finalmente ao jornal O Globo a carta que Kazusa tinha escrito sobre o cusp na bandeira.
Lembra-se? Lá no início desta história, pedi-te para guardar essa carta. Agora ela volta e com um peso que não tinha [música] antes, porque agora Kuza está morto. A carta que Kazusa tinha pedido para publicar quando ainda era vivo, quando ainda se podia defender, quando ainda podia olhar nos olhos do Brasil e dizer: “Fiz e faria de novo”.
Esta carta ficou trancada numa gaveta porque o pai achou que ia piorar a polémica, [música] que ia expor o filho ainda mais num momento em que precisava de proteção. O João sempre foi assim, controlava as narrativas, decidia o que o mundo podia ou não saber sobre a família dele. Protegia em demasia ou controlava [a música] demasiado, depende de como se olha.
E quando Casusa já não podia falar mais, e quando já não se podia defender mais, quando já não conseguia explicar mais nada, depois semanas depois do funeral, [música] a voz dele foi finalmente ouvida. Na carta, Casusa escreveu: “Eu realmente cuspi na bandeira e duas vezes. Não me arrependo.” A voz de Cusa sobre este episódio só ecoou quando já estava morto.
O pai que protegia em demasia, o filho que não não queria proteção nenhuma, o pai que controlava a narrativa, o filho que queria gritar e o grito que só foi ouvido quando já era tarde demais. Lembra-se deste padrão? O pai que guarda, o pai que controla, o pai que decide o que o mundo sabe, porque ele vai repetir uma última vez.
Lucinha Araújo não se desmoronou. Poderia ter desmoronado. Ninguém ia julgar. Perdeu o filho único aos 32 anos para uma doença que na época era sinónimo de morte, vergonha e estigma social. e uma doença que a sociedade tratava como castigo divino. A Lucinha podia ter-se fechado em casa, podia ter apagado a memória, como tantas mães fizeram naquela [música] época.
Mães que esconderam a causa da morte dos filhos para não dizer a palavra aides no velório. Mas Lucinha fez o contrário. No dia 17 de outubro de 1990, 3 meses e 10 dias depois da morte, ela fundou a Sociedade Viva Casusa. O nome da ONG tinha o nome do filho. A doença que matou Cusa era a mesma doença que a ON da Lucinha ia combater.
As crianças e adolescentes com VIH, os invisíveis da sociedade brasileira, passaram a ser atendidos com os royalties que as músicas de Cusa geravam. 250 doentes a receber cestas básicas todos os meses. 30 anos de funcionamento ininterrupto, mais tempo do que Casusa viveu em 2020 e a sociedade viva Casusa fechou as portas.
Lucinha doou a casa à câmara municipal do Rio, mas não abandonou as famílias. manteve a entrega de cabazes alimentares, 30 anos de missão. Tudo isto Lucinha fez ao lado de João Araújo, o marido de 56 anos, o companheiro que chorou com ela, que lhe segurou a mão no hospital, que esteve ao lado quando o filho morreu, até que o João morreu também. João Araújo, o pai, o fundador da Som Livre, o homem de 80 milhões, morreu em novembro de 2013, 78 anos, paragem cardíaca, [música] em casa no Rio de Janeiro, 56 anos, casado com Lucinha.
O homem que lançou Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Rita de Javan, Lulu Santos, Xuxa e dezenas de outros [música] artistas que definiram a faixa sonora do Brasil. É o homem mais poderoso da indústria musical brasileira durante décadas. O mesmo homem que guardou a carta do cuspo na bandeira.
O mesmo que segurou a revista Veja enquanto o filho chorava. O mesmo que decidia o que o mundo podia ou não saber sobre a música, sobre a indústria, sobre a família. E quando morreu, quando o coração parou e os advogados abriram [música] o testamento, A Lucinha descobriu que o João tinha guardado mais um segredo. [música] O último, o maior.
O que eu te vou contar agora é o dado que quase ninguém sabe, que não foi amplamente divulgado e que recontextualiza tudo, absolutamente [música] tudo o que pensava sobre aquela família de Ipanema. Quando o testamento foi aberto, a Lucinha descobriu que o marido de 56 anos, 56 anos de casamento, de parceria, de criar um filho em conjunto, de perderem esse filho em conjunto e de construir uma ONG juntos, de chorar juntos, tinha tido um filho com outra mulher.
O nome do filho? Carlos Augusto Filgueira Magioli. Profissão: Capitão de Fragata da Marinha do Brasil, um oficial da marinha, um homem de farda e disciplina. O oposto absoluto do universo do rock, da poesia, da droga, de madrugadas na rua Dias Ferreira, em que Casusa viveu e morreu. O João procurou o Carlos em 2009, 4 anos antes de morrer.
Fez teste de ADN, confirmou a paternidade, era seu filho e incluiu Carlos no testamento. Dos R 80 milhões de reais de património total. 80 milhões construídos ao longo de décadas na indústria musical, lançando Caetano, Gil, Gal, Ritali e Xuxa, dezenas de artistas que definiram o que o Brasil ouve.
Carlos recebeu 20 milhões, 20 milhões de reais, 1/4 de toda a fortuna. Há para ter uma dimensão. 20 milhões em 2013 compra 65 apartamentos de três quartos em Copacabana. É mais dinheiro do que a maioria dos brasileiros vai ver na vida inteira. E foi parar às mãos de um homem de quem o Brasil nunca ouviu falar. Um capitão de fragata da Marinha que só soube quem era o verdadeiro pai aos 50 e poucos anos.
Carlos e Casusa nunca se conheceram. Nunca. Nem por acaso, nem de passagem, nem por fotografia, nem por telefone. Cazusa faleceu em 1990, sem saber que tinha um irmão. Viveu 32 anos como filho único e para era filho único. Mas o pai guardava um segredo que carregou durante décadas sem contar a ninguém. E Carlos cresceu do outro lado dessa história, sem saber que era irmão do maior poeta do rock brasileiro.
Enquanto Cazusa vivia às madrugadas do Leblon, ah, enquanto cuspia na bandeira, enquanto gravou ideologia sob o efeito de AZ, enquanto apareceu na capa da Veja debilitado, enquanto morreu aos 32, rodeado pela família. Carlos vivia uma vida completamente diferente, uma vida de farda, de disciplina naval, de ordem e a hierarquia, o oposto absoluto do caos que era Casusa.
E os dois nunca souberam um do outro, dois filhos do mesmo pai. Um morreu como o maior rocker do Brasil, o outro viveu como oficial da Marinha e os dois eram portadores dos genes de João Araújo, o homem que controlava tudo, incluindo quem sabia o quê sobre quem. e Lucinha, a mulher que dedicou 30 anos da vida ao legado de Casusa, que fundou uma ONG três meses depois de enterrar o filho, que transformou a dor em missão, que nunca se desmoronou em 30 e tantos anos de luto.
Descobriu que [música] o marido de 56 anos tinha um filho secreto. descobriu da pior forma possível, lendo o testamento do marido morto num cartório, provavelmente rodeada de advogados e papéis, depois de perder o filho, depois de 30 anos de ONG, [música] depois de uma vida inteira dedicada à aquela família, uma família que, pelo visto, tinha mais membros do que ela sabia.
A Lucinha disse apenas, não quis mexer em feridas. Cinco palavras. Depois de 56 anos de casamento e um segredo deste tamanho, cinco palavras. Esta é Lucinha Araújo, a família perfeita de Ipanema, João, Lucinha, Cazusa, a casa cheia de músicos famosos, as festas com Caetano e Gil e Gal. Tinha uma fissura que ninguém via.
E o mesmo João que guardou a carta do cuspo na bandeira até depois da morte do filho, porque achou que sabia melhor do que Cusa o que era bom para Cuza. O mesmo João que guardou a existência de outro filho até depois da própria morte, porque achou que sabia melhor do que todos o que a família podia ou não aguentar saber.
João Araújo controlava as narrativas da indústria musical, da família, dos segredos. Na som livre, decidia que artista o [música] Brasil ia ouvir. Em casa, ele decidia que verdade a família ia conhecer. Controlou até depois de morto. A carta foi guardada até depois da morte do filho. O irmão foi guardado até depois da morte do pai.
Os dois segredos de João Araújo foram revelados exatamente da mesma forma, quando já não conseguia mais controlar a narrativa. A, a última narrativa que ele controlou foi a do próprio testamento e mesmo essa escapou ao controlo. Porque quando o papel chegou às mãos de Lucinha, o segredo que ele tinha guardado durante décadas tornou-se a última facada num coração que já tinha sido esfaqueado em demasia.
E Lucinha continuou depois de perder o filho, depois de descobrir o segredo do marido, depois de 30 anos de ONG, Lucinha continuou. Em 2021, tomou uma decisão que diz tudo sobre quem é esta mulher. Adotou a sobrinha Fabiana Araújo. O motivo nas palavras da própria Lucinha para continuar o legado de Casusa, a mulher que perdeu o filho único aos 32, que descobriu que o marido de 56 anos tinha outro filho, que manteve uma ONG durante 30 anos.
com os direitos de autor de músicas que o filho escreveu entre uma dose de cocaína e outra nas madrugadas do Leblon. Esta mulher ainda assim não parou. Decidiu criar uma filha para que o nome do filho nunca fosse esquecido. [música] A herança de Casusa não era apenas musical, era humana. E a Lucinha precisava de alguém para carregar isso paraa frente.
Porque a Lucinha Araújo [música] percebeu uma coisa que talvez nem Casusa tenha entendido em vida. O legado não é o disco, não é o prémio, não é a estátua no Leblon. O legado é o que se faz com a dor depois de ela chegar. E em 2004 tinha chegado a cinebiografia. Casusa, [música] o tempo não pára.
Daniel de Oliveira no papel de Casusa. E a semelhança era tão impressionante que nos bastidores da filmagem as pessoas tinham calafrios. Marieta Severo como Lucinha. E depois tem um pormenor que arrepia [música] e que mostra como a vida de Cusa tinha camadas que nem a ficção consegue inventar. [música] Casusa costumava dizer em vida que Marieta Severo era parecida com a mãe dele.
Dizia isso aos amigos, para entrevistadores, para [música] quem quisesse ouvir. Quando o filme foi feito, 14 anos depois da [música] morte, a atriz que ele próprio achava parecida com a mãe foi escolhida para interpretar Lucinha, como se Casusa de algum lugar tivesse feito o casting. Lucinha apareceu brevemente no filme atirando uma rosa para o palco durante uma cena de espetáculo.
A mãe real a jogar uma rosa para o filho que existia apenas na ficção. A fronteira entre a vida e o cinema dissolveu-se naquele gesto. Uma mãe atirando uma flor ao fantasma do filho num plateau de filmagens. A mesma mãe que depois ia descobrir o segredo do marido. A mesma mãe que depois ia adotar a sobrinha. A mesma mãe que nunca parou.
Em 2025, o Brasil mostra a tua cara. está a ser ouvida todos os dias por dezenas de milhões de brasileiros no remake de Vale Tudo na Globo. A frase que Kazusa escreveu em 1988 sob o efeito de AZ com o corpo destruído pelo VIH sabendo que ia morrer. Essa frase abre a novela das 9: “Da [música] noite. Toda a noite. A voz de um homem morto aos 32 anos entra na sala de cada brasileiro quando a televisão liga às 9 da noite, 35 anos depois de morto.
E a A Globo não escolheu esta música por nostalgia. escolheu porque ninguém, nenhum compositor vivo, nenhum poeta contemporâneo, nenhum letrista da nova geração escreveu nada que supere aquele verso como retrato do Brasil e é de 3,8 milhões de audições mensais no Spotify, equivalente a Marisa Monte, que está viva e continua a produzir, sem lançar nada de novo, sem dar entrevista.
sem aparecer num programa de TV, apenas com o que gravou em 9 anos de carreira. 9 anos que renderam 253 canções que o Brasil não consegue parar de cantar. A exposição Casusa Exagerado, em 2025, a maior alguma vez dedicada ao cantor, recebeu 17.000 pessoas nas primeiras duas semanas. 17.
000 mil pessoas a parar as suas vidas para entrar numa exposição e recordar um menino que viveu 32 anos. No Leblom, onde cresceu, existe uma estátua e uma praça com o seu nome desde 2016. O tempo não pára. O de Kazusa parou aos 32, mas a voz, a voz nunca [música] parou. E se esta história te fez lembrar de onde estava quando Casusa morreu, manda para alguém que também se lembra.
Manda para quem canta o tempo não pára, sem saber que foi escrita por um homem que sabia que o tempo dele tinha parado. Subscreve o canal, ativa o sininho e se quer ver a história de mais uma vida que o Brasil assistiu de perto, clica neste vídeo [música] que está aparecendo no ecrã agora. M.