Eliz olhou para ele e disse: “Tim, sabes que é excepcional, não é?” “Não é só bom, é excepcional. Tem uma voz que não existe igual no Brasil.” Tin encolheu os ombros desconfortável com elogio. Eu sei cantar, mas isso não não adianta nada se ninguém lhe dá hipótese. Eis abanou a cabeça. A oportunidade já foi dada. Acabou de gravar comigo.
Agora as as pessoas vão ouvir-te, mas eu preciso que não estrague isso. Chega na hora. Não briga com o produtor, não desaparece, não faz as merdas que costumas fazer. Tin ficou surpreendido com a franqueza dela. Sabe do meu passado. Elis deu uma gargalhada curta. Toda a gente sabe, Tim. Você foi deportado, tem cadastro, é conhecido por ser temperamental.
Eu sei tudo isso e não me importo. O que importa é a música, mas a indústria preocupa-se, sim. Depois, precisa de provar que pode ser fiável. Aquela conversa marcou o Tim de forma profunda. Não era um sermão moralista nem julgamento. Era alguém que tinha poder, dizendo: “Vou usar este poder para te ajudar, mas precisas segurar a onda da sua parte”.
Era a primeira vez que alguém estabelecia um pacto honesto com ele, sem paternalismo, sem pena, apenas um acordo entre dois profissionais. O Tin saiu daquela snack-bar com uma clareza que não tinha antes. Eli tinha apostado nele, tinha colocado o nome dela em risco. Se ele estragasse aquilo, não estava só estragando a própria chance, estava estragando a credibilidade de quem tinha acreditado.
Aquilo criava uma responsabilidade que Tin nunca tinha sentido antes. Nos dias seguintes, ele começou a mudar pequenos hábitos, passou a anotar os compromissos num caderninho para não esquecer. Começou a chegar mais cedo nos lugares. Controlava o temperamento quando algum produtor falava algo que o irritava. Não era transformação completa.
Tim continuava ser Tim, mas estava a tentar ser uma versão mais fiável de si mesmo, porque não queria desiludir Eliz. Quando These Are the Songs foi lançado no disco de Eliz em setembro de 1970, O Tin ouviu a música a tocar na Rádio Nacional pela primeira vez e desabou a chorar sozinho no quarto que finalmente tinha conseguido alugar com o adiantamento que a Philips tinha dado.
Não era um choro de alegria, era um choro de alívio profundo, de tensão acumulada durante anos, finalmente soltando-se. Ele estava na rádio. A voz dele estava a ser ouvida por milhares de pessoas naquele momento. Depois de se anos a bater em portas, sendo rejeitado, sendo olhado com desprezo, finalmente algo estava acontecendo.
E a primeira pessoa que ele pensou em ligar foi a Elis para agradecer. Ela atendeu e, antes que Tim conseguisse dizer alguma coisa, disse: “Ouviu na rádio? Ficou lindo, certo? Agora prepara que vai tocar muito mais.” Tin tentou agradecer, mas ela cortou. Não precisa agradecer, Tim. Fizeste a tua parte, cantou da forma que tinha que cantar.
O resto é consequência. As semanas seguintes foram surreais para Tim. Ele começou a ser reconhecido na rua. As pessoas paravam-no perguntando: “Você é o Tim Maia que canta com eles?” Produtores de rádio que antes ignoravam as chamadas dele. Agora regressavam. Programas de TV que nunca davam espaço começaram a convidar para participações pequenas.
Não era estrelato, era apenas a porta a abrir um pouco. Mas para quem tinha ficado do lado de fora por tanto tempo, aquilo era gigantesco. Tin percebia que quando chegava a algum lugar e dizia o nome, as pessoas não franziam mais o sobrolho, tentando lembrar-se quem era. Elas sabiam: “Ah, tu és o Tim Maia, o tipo que canta com eles.” Aquele selo de aprovação mudava tudo.
É como se Eli tivesse escrito uma carta de recomendação que transportava invisível para todos os lugares. Mesmo sem ela estar presente, o nome dela abria portas porque a indústria confiava no julgamento dela. Em novembro de 1970, Tin estava a gravar o próprio disco. Era um momento que tinha sonhado por anos, mas que parecia impossível meses atrás.
Entrou em estúdio com 12 canções prontos, a maioria composições próprias, algumas que tinha feito ainda nos Estados Unidos, outras que tinha composto nos últimos meses vivendo no sofá do primo, azul da cor do mar, primavera, coroné António Bento. Ele sabia que aquelas músicas eram boas, mas tinha medo que ninguém, além dele achasse isso.
A gravação foi tensa porque Tin era perfeccionista e explosivo. Brigava com músicos quando achava que não estavam a tocar bem. Refazia takes 10 vezes seguidas até sair exatamente como queria. Tinha crises de fúria e saía do estúdio batendo à porta. Os produtores ficavam desesperados, pensando que ele ia estragar tudo, mas Tim sabia que aquele disco era a única hipótese real que teria.
Se falhasse, ninguém ia dar segunda oportunidade. Portanto, não podia ser bom, tinha de ser perfeito. Durante uma dessas crises, Tin saiu do estúdio furioso e sentou-se no meio-fio a fumar um cigarro. Estava a pensar em desistir da gravação, em mandar todo o mundo para o inferno. Quando viu Elise estacionando o carro em frente ao prédio, ela tinha uma sessão marcada em outro estúdio do mesmo complexo.
Viu o Tim sentado ali e foi direito a ele. Que cara é essa, Tim? Ele desabafou. Não está saindo como eu quero. Os músicos não entendem o que estou a pedir. Está tudo errado. Eli sentou-se do lado dele no passeio, acendeu um cigarro e ficou em silêncio durante algum tempo antes de falar. Tin quer fazer o disco mais perfeito do mundo ou quer fazer um disco que as pessoas vão ouvir? Porque se ficar perseguindo a perfeição, nunca vai terminar.
Em algum momento precisa soltar e confiar que é bom o suficiente. Aquilo atingiu Tin em cheio. Ele estava tão obsecado em provar que era bom, que estava a travar no próprio medo. Tin voltou para o estúdio nesse dia e alterou a postura. Parou de refazer toma infinitamente. Começou a aceitar pequenas imperfeições, a confiar mais no instinto dos músicos, a soltar a voz de forma mais natural, sem tentar controlar cada detalhe.
O disco foi finalizado em Dezembro de 1970 e quando tinviu o master completo pela primeira vez, sentiu que tinha feito algo verdadeiro. Não era perfeito tecnicamente, mas era honesto. Tinha alma, tinha ali a vida dele toda dentro. Todas as frustrações, toda a raiva, todo o amor que carregava tinha vazado para aquelas gravações. Na véspera do lançamento, Timou para Elis nervoso.
E se ninguém gostar? E se eu fiz tudo isso? E não vem de nada? Elis respondeu com a paciência de quem já tinha passado por aquilo. Tim, o disco é excelente. Eu ouvi. Nelson Mota ouviu. Toda a gente que ouviu sabe que é especial. Agora deixa de te preocupar e deixa a Barúsica fazer o seu trabalho. O disco de Tim Maia foi editado em dezembro de 1970 e nas primeiras semanas as vendas foram modestas.
Algumas centenas de exemplares. Nada de espetacular. Tin entrou em pânico, pensando que tinha falhou, que toda aquela hipótese que Elis tinha dado ia ser desperdiçada. Ele ligava para as lojas a perguntar quantas cópias tinham vendido. Ia pessoalmente nas lojas de discos no centro do rio verificar se o álbum estava em destaque ou escondido no fundo da prateleira.
Estava obsecado com números porque sabia que a indústria apenas respeitava as vendas. Mas em janeiro de 1971 algo começou a acontecer. Azul da cor do mar. Entrou em rotação pesada nas rádios. Tin ouvia a música a tocar três, quatro vezes por dia. As vendas começaram a subir, 500 exemplares por semana, depois 1000,
depois 3.000. De repente o disco estava em todo o lado. As as pessoas cantavam na rua, assobiavam a melodia, pediam encores nos concertos. O Tin tinha conseguido, não por empresário poderoso, não por um esquema de gravadora, mas porque a música era boa e as pessoas reconheceram isso. Nos meses seguintes, Tin começou a fazer espetáculos lotados, cachês começaram a subir, o dinheiro começou a entrar verdadeiramente pela primeira vez na vida.
Ele conseguiu alugar um apartamento próprio, comprou roupa nova, comprou um carro usado, pequenas conquistas que para a maioria das pessoas eram normais, mas para ele eram milagres depois de anos a dormir em sofá alheio, em cada espectáculo que fazia, em cada entrevista que dava, sempre mencionava Elis Regina.
Nada disso estaria a acontecer se não fosse a Elis. Ela salvou-me quando eu não tinha saída. Ela acreditou quando ninguém acreditava. Não era gratidão de marketing, era gratidão real de quem sabia exatamente onde estaria sem aquela ajuda. Provavelmente ainda na Tijuca, fazendo bico, amargo, frustrado, desperdiçando talento, porque ninguém tinha dado chance.
A amizade entre Tim e Elis tornou-se manteve ao longo dos anos seguintes. Não eram próximos no sentido de se verem toda a semana, mas houve um respeito profundo, uma clicidade de quem tinha vivido algo importante em conjunto. Quando se cruzavam em eventos da indústria, sempre conversavam longamente. Trocavam opiniões sobre música, sobre novos artistas, sobre o que estava a acontecer na cena brasileira.
Eis pedia conselhos a Tim sobre interpretação de Sou. O Tin pedia conselhos a Eli sobre disciplina e profissionalismo. Era troca real entre iguais. Tim nunca se sentiu devedor eterno. Elis nunca se colocou como salvadora. Tinham construído algo que ia além de favor. Era parceria baseada em respeito mútuo pelo talento de cada um. Quando Elicina morreu, a 19 de janeiro de 1982 de sobredosagem acidental de cocaína e álcool aos 36 anos, Tin estava em São Paulo a preparar show.
recebeu a notícia por telefone às 6 horas da manhã, ficou em choque absoluto. Elis, morrer aos 36 era algo que não cabia na cabeça. Nos dias seguintes, Tin deu entrevistas onde ele falou sobre a importância que ela teve na sua vida. Tin Maia carregou a memória de Elisa até ao fim da própria vida em 15 de Março de 1998. Em todas as entrevistas que deu nos 16 anos seguintes à morte desta, sempre que perguntavam quem tinha sido mais importante na sua carreira, a resposta era sempre a mesma.
Elis Regina, sem ela eu não estaria aqui. O que Elis fez por Tim em 1970 não foi só dar uma oportunidade, foi ensinar que o poder serve para abrir portas, que a influência não é para ser guardada com medo, é para ser utilizada para mudar o jogo. Para quem está a ser injustamente deixado de fora, ela podia ter ouvido cantar, pensado que voz incrível e seguiu a vida.
Isso não não lhe teria custado nada, mas teria custado tudo para ele. Ela escolheu agir, escolheu envolver-se, escolheu usar a credibilidade dela como ariete para partir uma porta que estava trancada. E ao fazê-lo, provou que a grandeza não está só em ser talentoso, está em reconhecer talento nos outros e fazer o que estiver ao alcance para que esse talento não seja desperdiçado.
A história de Tin e Elisa ensina que às vezes uma pessoa com poder que decide ajudar no momento certo pode mudar uma vida inteira, pode transformar alguém que estava a afogar-se em alguém que voa.