O Brasil se encontra no epicentro de uma discussão acalorada que transcende as fronteiras da segurança pública para invadir perigosamente o terreno da soberania nacional, da estabilidade econômica e, de forma surpreendente, do bolso de cada cidadão brasileiro. O que parecia ser apenas mais um capítulo no longo e doloroso combate ao crime organizado no país ganhou contornos de thriller político internacional com a recente decisão do Departamento de Estado dos Estados Unidos de classificar facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas. Contudo, longe de ser a bala de prata que muitos esperavam, essa medida esconde armadilhas estruturais e riscos incalculáveis que a maioria da população desconhece.
Para desvendar os bastidores dessa trama complexa e lançar luz sobre as verdadeiras consequências dessa medida, não há voz mais autorizada no país do que a do promotor de justiça Lincoln Gakiya. Membro proeminente do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, Gakiya dedica sua vida há mais de vinte anos à linha de frente no embate contra as facções mais cruéis do Brasil. Com o peso da experiência de quem conhece as engrenagens do crime como poucos, o promotor quebrou o silêncio para fazer um alerta urgente e contundente: a medida norte-americana não apenas falha em proteger o cidadão, mas pode instaurar um colapso financeiro capaz de afetar desde grandes bancos até o revolucionário sistema Pix.

Nos bastidores dessa articulação que culminou com o aval norte-americano, há um denso nevoeiro de manobras políticas. Observadores e analistas apontam que a movimentação em Washington foi, em grande parte, alimentada e celebrada por figuras políticas brasileiras que buscam capitalizar a pauta da segurança pública, incluindo influências diretas ligadas ao senador Flávio Bolsonaro e suas incursões na política externa durante o alinhamento de seu grupo político com o governo de Donald Trump. O que se tentou vender à nação como uma grande vitória diplomática e uma resposta definitiva à criminalidade, segundo Gakiya, revela-se uma estratégia míope que ignora a natureza fundamental dessas organizações criminosas e submete o país a sanções econômicas draconianas.
A primeira grande falácia desmontada pelo especialista reside na própria natureza da classificação imposta pelos Estados Unidos. O terrorismo, por definição clássica e legal internacional, é caracterizado pelo uso de violência e intimidação com o propósito manifesto de alcançar objetivos políticos, ideológicos ou religiosos. O objetivo central de um grupo terrorista é subverter o Estado, impor uma doutrina e disseminar o pânico como ferramenta de negociação política. O promotor Gakiya é incisivo ao esclarecer que, por mais bárbaros, violentos e destrutivos que sejam o PCC e o Comando Vermelho, a essência dessas facções não guarda qualquer semelhança com grupos como a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico.
“Nós não estamos tratando de organizações terroristas, nós estamos tratando de organizações criminosas cujo objetivo é apenas e exclusivamente econômico,” assevera Gakiya. Ele vai além, classificando-as adequadamente como organizações criminosas de caráter mafioso. O PCC e o Comando Vermelho não buscam derrubar o governo brasileiro para instaurar uma teocracia ou uma nova ordem ideológica; eles buscam dominar territórios e rotas de tráfico para maximizar seus lucros exorbitantes advindos do tráfico internacional de drogas, armas e outras atividades ilícitas lucrativas. Ao alterar essa tipificação no cenário internacional, o Departamento de Estado americano não está mudando a realidade do crime; está, sim, alterando as regras do jogo e inserindo a geopolítica e a segurança nacional americana em um problema estrutural do Brasil.
O alerta se torna ainda mais grave quando se analisam os impactos operacionais no combate à criminalidade. Durante anos, as forças policiais brasileiras e o Ministério Público construíram canais ágeis e diretos de colaboração com agências estrangeiras, incluindo a polícia americana. Essa troca de informações em tempo real é vital para rastrear rotas, desmantelar redes de lavagem de dinheiro e prender líderes que operam de forma transnacional. No entanto, com a classificação das facções como entidades terroristas, o tabuleiro sofre uma mudança abrupta e perigosa.
Gakiya explica que, a partir desse momento, o combate a esses grupos deixa de ser tratado pelos Estados Unidos como um assunto estritamente de cooperação policial e passa a ser enquadrado como uma questão sensível de defesa nacional americana. O que antes era jurisdição de órgãos de segurança passa a sofrer intervenções severas e burocráticas de agências de inteligência do mais alto escalão, como a Central Intelligence Agency (CIA), e até mesmo das forças armadas daquele país. A consequência direta é o sigilo impenetrável. “Normalmente nesses casos, as informações passam a ser classificadas como confidenciais ou secretas,” lamenta o promotor. Isso significa que o fluxo vital de inteligência, outrora fluido entre as polícias, sofrerá um forte estrangulamento. O Brasil perderá o acesso rápido a dados cruciais de investigações, dificultando o combate e fortalecendo as próprias estruturas criminosas que a medida finge atacar.
A ineficácia dessa classificação na ponta da linha, ou seja, na vida do cidadão que sofre diariamente, é outra realidade escancarada pelo promotor. Atualmente, estima-se de forma alarmante que cerca de trinta por cento da população brasileira viva sob o jugo direto, a opressão e as regras impostas pelo Primeiro Comando da Capital ou pelo Comando Vermelho, especialmente em áreas de vulnerabilidade social e comunidades periféricas. Essas pessoas enfrentam tiroteios, extorsões, toques de recolher e a total ausência do Estado. Para essa população refém e desesperada, a notícia de que os Estados Unidos agora chamam os seus algozes de “terroristas” não muda absolutamente nada.
“A vida dessa população não muda absolutamente nada,” declara Gakiya. Não haverá mais policiais nas ruas, não haverá melhores escolas ou oportunidades, não haverá o enfraquecimento do fuzil que aponta para a janela do morador de uma comunidade. O problema da segurança pública no Brasil exige soluções domésticas, como inteligência financeira aprimorada, controle de fronteiras rigoroso, reestruturação do sistema prisional e políticas sociais de base. A politização do tema e a terceirização do problema para o Departamento de Estado norte-americano funcionam apenas como um artifício ilusório, uma resposta pirotécnica que atende aos anseios de manchetes apelativas, mas que falha miseravelmente em entregar segurança real.
Se a vida do cidadão oprimido pela violência nas comunidades não muda com essa decisão, a ironia trágica é que a sua vida financeira – e a de todo o país – pode ser arruinada. E é exatamente aqui que a denúncia de Lincoln Gakiya se torna assustadora e exige a máxima atenção de todos os setores da sociedade. A classificação de um grupo como terrorista pelo governo dos Estados Unidos aciona uma série de mecanismos automáticos e implacáveis no Departamento do Tesouro americano. Sem a necessidade de qualquer ordem judicial ou devido processo legal internacional, os EUA adquirem o poder de aplicar sanções econômicas pesadíssimas e unilaterais contra qualquer indivíduo, empresa, corporação ou instituição financeira suspeita de transacionar, de qualquer forma, com entidades ligadas aos grupos recém-classificados.
A infiltração do crime organizado na economia formal é um fato comprovado e assustador. O dinheiro proveniente do tráfico de drogas e outros crimes não fica escondido em colchões; ele é lavado de forma sofisticada e injetado no sistema financeiro legal. Gakiya é categórico ao afirmar: “Hoje é melhor você me perguntar em que setores o PCC não está, porque ele está infiltrado hoje na economia formal.” Isso engloba desde pequenos comércios e postos de gasolina até o mercado imobiliário e gigantescos fundos de investimento.
O promotor relembra o caso emblemático da Operação Carbono Oculto, conduzida pelo Ministério Público em parceria com a Receita Federal, que descortinou a complexa teia financeira das facções e chegou ao coração do centro financeiro do país: a Avenida Faria Lima, em São Paulo. A investigação demonstrou como gestores de fundos de investimento e diversas instituições bancárias de renome receberam recursos gigantescos oriundos do crime organizado, muitas vezes de forma camuflada por empresas de fachada. O dinheiro criminoso circulou de forma avassaladora, permeando o Banco Master e transacionando com os maiores conglomerados financeiros do Brasil, que, por sua vez, estão irrevogavelmente conectados aos bancos americanos e ao sistema global de pagamentos.
Com a nova classificação terrorista imposta por Washington, o risco de contágio sistêmico é brutal. Se o Departamento do Tesouro americano identificar que um banco brasileiro realizou operações com fundos ligados direta ou indiretamente ao Comando Vermelho ou ao PCC, essa instituição poderá sofrer o congelamento total de seus bens, ativos e reservas nos Estados Unidos. Pior ainda: o banco poderá ser sumariamente banido do sistema de comunicação interbancária internacional (SWIFT), o que na prática significa o seu estrangulamento e exclusão do mercado global.
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As consequências de sanções a um ou mais grandes bancos brasileiros seriam catastróficas para a economia nacional. “Qualquer sanção que é aplicada ao sistema financeiro e à economia, ela vai refletir na vida do cidadão,” alerta o especialista. Uma crise de liquidez, provocada pela exclusão de bancos do sistema em dólar, resultaria em um aumento imediato do custo de crédito, inflação descontrolada, restrição drástica de linhas de financiamento, falência em cascata de empresas que dependem de transações internacionais e desemprego em massa. A economia inteira do país seria punida por uma contaminação sistêmica invisível gerada pela lavagem de dinheiro, resultando no empobrecimento generalizado da população que já padece com as crises constantes.
Nesse cenário de catástrofe econômica e asfixia do sistema financeiro provocado pelas sanções, um dos orgulhos da tecnologia e da democratização financeira do Brasil está sob grave e real ameaça: o Pix. O sistema de pagamento instantâneo do Banco Central, que revolucionou a forma como os brasileiros compram, vendem e interagem financeiramente, depende intrinsecamente da saúde e da conectividade de toda a rede bancária nacional. O alerta emitido pelo governo e corroborado pelas análises mais profundas sobre os impactos sistêmicos aponta que um ataque às grandes instituições financeiras brasileiras pelo Tesouro Americano pode paralisar a estrutura tecnológica e o fluxo contínuo de recursos que mantêm o Pix funcionando com eficiência.
Se empresas que sequer imaginam ter recebido dinheiro contaminado – desde concessionárias até construtoras – sofrerem bloqueios de suas contas e ativos internacionais por retaliações da lei antiterrorismo, o pânico e a retirada em massa de fundos causarão um colapso que esvaziará a liquidez necessária para as operações diárias, afetando as transferências instantâneas, o pagamento de salários e o comércio de milhões de autônomos. A ironia e a crueldade da situação são palpáveis: o cidadão que trabalha honestamente o mês inteiro, que foge das balas perdidas na comunidade e que depende do Pix para pagar o pão de cada dia, será o mesmo cidadão que terá a sua vida paralisada e as suas contas encarecidas por uma decisão de política externa tomada em Washington com o apoio inconsequente de figuras políticas em Brasília.
O promotor de justiça também faz um adendo revelador sobre como os representantes americanos lidam com a soberania nacional do Brasil na tomada dessas decisões. Em conversas ocorridas ainda no ano passado com assessores de senadores americanos engajados nessa causa, Gakiya relatou detalhadamente a natureza estritamente comercial e mafiosa das facções. Ele explicou com dados e fatos por que a taxação de “terrorismo” era cientificamente incorreta e operacionalmente desastrosa. A resposta que recebeu dos enviados de Washington expõe o desinteresse pelas nuances da realidade brasileira: “Nós não estamos aqui para ouvir a opinião do governo brasileiro. Nós estamos aqui para colher informações, levar ao secretário, ao presidente, que tomará a decisão dele.”
A postura ilustra com clareza cristalina que a classificação não é um ato de solidariedade ou um esforço coordenado para erradicar a criminalidade no Brasil. É, ao contrário, um ato de imposição unilateral, motivado por pautas internas da política estadunidense e impulsionado pelo lobby irresponsável de atores políticos brasileiros que parecem desconhecer, ou ignorar propositalmente, os danos irreparáveis que estão prestes a causar à pátria que juraram defender. A soberania brasileira é assim relegada a um segundo plano, e o nosso sistema judiciário, as nossas forças policiais e o nosso complexo e interconectado mercado financeiro ficam à mercê das canetadas de um Departamento de Estado alheio aos dramas diários das ruas do país.
Diante do quadro assustador desenhado pelas revelações de Lincoln Gakiya, o Brasil encontra-se em uma encruzilhada histórica que demanda maturidade, coesão institucional e uma firme defesa de seus interesses primários. A cortina de fumaça da demagogia punitiva, que busca aplausos fáceis ao classificar facções como grupos terroristas para agradar aliados externos, deve ser dissipada e confrontada com o choque da realidade exposta pelo promotor. A verdade indesejada é que a espetacularização do combate ao crime organizado pela via internacional não vai colocar um único líder de facção a mais atrás das grades, não vai pacificar as comunidades dominadas e não vai devolver a segurança ao trabalhador. Pelo contrário, as evidências apontam para o obscurecimento do fluxo de informações cruciais de inteligência e para o acionamento de um gatilho econômico de destruição em massa.
É urgente que a sociedade civil, o setor empresarial, o poder legislativo e as instâncias superiores do judiciário compreendam a gravidade dessa medida antes que os efeitos deletérios comecem a corroer o tecido econômico da nação. Se permitirmos que a infiltração do dinheiro do narcotráfico, um problema que o Brasil já luta diariamente para enfrentar e punir, seja usada como pretexto para que o Tesouro Americano aplique sanções unilaterais, estaremos entregando a chave da nossa economia a mãos estrangeiras. Estaremos permitindo que bancos congelem, que empresas fechem as portas, que os juros disparem e que as inovações que facilitam a vida dos mais pobres, como o amado sistema Pix, retrocedam devido a restrições internacionais impositivas e injustas.
A voz corajosa e dissonante de Lincoln Gakiya serve como um farol no meio de uma tempestade populista perigosa. Ele nos lembra de que o crime organizado mafioso brasileiro é um monstro nascido das nossas profundas desigualdades, da ausência crônica do Estado e da nossa falha histórica em construir presídios seguros e fronteiras blindadas. É um problema eminentemente nacional e continental que requer soluções baseadas em inteligência financeira severa, recuperação de ativos pelas nossas próprias leis, reestruturação da malha social e o aprimoramento ininterrupto de instituições sérias como o Gaeco. Transferir essa responsabilidade para as leis de contraterrorismo de uma superpotência estrangeira não é um ato de força e inteligência estratégica; é uma terrível e imperdoável declaração de incompetência, um verdadeiro crime de lesa-pátria que custará muito caro a toda a população brasileira.