Existe uma fotografia em preto e branco que desafia a compreensão comum sobre o que significa o sucesso absoluto e a fama em sua forma mais pura. Nela, dois homens seguram uma camisa de futebol. Um deles é, inquestionavelmente e de longe, o maior jogador que o esporte mais popular do planeta já produziu. O outro é, sem a menor sombra de dúvida, o maior e mais revolucionário artista pop que a história da música já viu. Os dois estão sorrindo para a câmera, eternizados em um instante de genuína simpatia e reconhecimento mútuo. A peça de tecido estendida entre eles não é uma camisa qualquer: é o uniforme branco do Santos Futebol Clube, ostentando o escudo histórico, o patrocínio da Unicorpore e o logotipo da Umbro, marcadores visuais precisos da temporada de 1997 e 1998.
Pelé e Michael Jackson. Dois homens que passaram a esmagadora maior parte de suas existências sendo a atração principal, a coisa mais famosa, reverenciada e dissecada em absolutamente qualquer ambiente em que ousassem pisar. Mas naquele exato milissegundo capturado pelas lentes, a dinâmica do universo pareceu entrar em um equilíbrio perfeito e incrivelmente raro: eles estavam no mesmo ambiente, respirando o mesmo ar. O Rei do Futebol e o Rei do Pop, lado a lado. Contudo, para entender a magnitude cósmica desse encontro que ocorreu em 1998, é estritamente necessário fazer uma viagem no tempo. Antes dessa foto marcante, existe uma outra história, uma teia de eventos e circunstâncias que começou a ser tecida na efervescente Nova York dos anos 1970, quando os primeiros encontros entre essas duas divindades modernas aconteceram em um mundo que, hoje, simplesmente não existe mais.

A Conquista da América e o Impacto Cósmico do Cosmos
Para compreender a fundo por que o encontro entre Pelé e Michael Jackson carrega um peso tão colossal na história da cultura pop, é absolutamente fundamental entender o que a figura de Pelé representava na grandiosa cidade de Nova York no ano de 1975. Naquela época decisiva, o New York Cosmos, time de futebol estadunidense, havia assinado um contrato histórico com o astro brasileiro. Mas não se tratava de uma mera transferência esportiva rotineira. O objetivo daquela contratação ia muito, mas muito além das quatro linhas do campo de futebol: a grande missão era fazer os americanos se importarem de verdade com um esporte que, até então, lhes era quase totalmente indiferente.
O nível de importância e gravidade daquele momento transcendeu as páginas de esportes dos jornais e invadiu as altas esferas da geopolítica mundial. A chegada de Pelé aos Estados Unidos foi tratada com a pompa e a seriedade de um verdadeiro evento diplomático internacional. Não à toa, Henry Kissinger, o então todo-poderoso Secretário de Estado dos Estados Unidos da América, fez questão de estar fisicamente presente no anúncio oficial da contratação. A lógica por trás daquela jogada colossal de marketing e esporte era ao mesmo tempo de uma simplicidade cristalina e de um absurdo megalomaníaco: se existisse, em toda a imensa extensão do planeta Terra, uma única pessoa capaz de transformar o futebol em um produto de massa e de consumo voraz nos Estados Unidos, essa pessoa era inegavelmente o homem que o mundo inteiro já havia se curvado para chamar de Rei.
Pelé foi para Nova York, e, em um fenômeno de magnetismo cultural sem precedentes, Nova York foi inteira para Pelé. A década de 1970 na metrópole norte-americana não era uma época qualquer ou esquecível. A cidade pulsava dia e noite, vivendo um momento histórico altamente específico e irrepetível. Era a verdadeira era dourada da vida noturna, o apogeu do lendário e exclusivo clube Studio 54, o ponto exato de ebulição onde ocorria o cruzamento inédito entre o esporte de alto rendimento, a música revolucionária e a cultura pop vibrante. Tudo isso acontecia em uma intensidade vulcânica que absolutamente nenhuma outra cidade no mundo conseguia produzir da mesma forma ou na mesma escala.
O Centro do Universo no Studio 54 e a Fotografia da Elite
Nesse cenário de intenso hedonismo, criatividade explosiva e badalação desenfreada, Pelé reinava de forma absoluta. Ele, o homem indiscutivelmente mais famoso de todos os continentes do globo, estava fisicamente e metaforicamente no centro exato de tudo isso. Anos depois daquela década louca, Brian Winter, o renomado jornalista americano que colaborou intimamente com Pelé na confecção do seu livro biográfico publicado às vésperas da Copa do Mundo de 2014, relatou em uma reportagem fascinante o que costumava acontecer nos bastidores quando ele tentava arrancar de Pelé histórias vívidas e memórias sobre essas épocas douradas novaiorquinas.
Winter relata um episódio muito revelador sobre uma fotografia específica de Pelé. Nela, o Rei do Futebol estava sentado a uma mesa cobiçada no mítico Studio 54, cercado por uma verdadeira constelação. Ao seu lado estavam ninguém menos que os gigantes Rod Stewart, Mick Jagger, Liza Minnelli e o visionário Andy Warhol. Uma reunião de ícones que faria qualquer jornalista ou fã de cultura pop salivar por detalhes escandalosos, anedotas geniais, fofocas de bastidores ou reflexões profundas sobre a arte e a fama. Quando Brian Winter trouxe essa foto até Pelé, esperando com expectativa uma torrente de memórias épicas e histórias mirabolantes, Pelé simplesmente olhou para a imagem, abriu aquele seu sorriso grande, vasto e inconfundivelmente icônico, e disse, com a maior e mais desarmante naturalidade do mundo: “Rod Stewart, grande cara… ele amava futebol, amava o Brasil, sempre rápido com uma piada muito divertida, ótimo rapaz. Isso foi tudo?”.
A reação imediata de Winter foi a de um pânico silencioso e desesperador. Ele era o biógrafo, ele precisava urgentemente de material de trabalho, precisava de histórias suculentas, de revelações de bastidores, de algo que capturasse e traduzisse em palavras a mágica daquela era. E ali estava, bem na sua frente, o maior atleta do século vinte, resumindo toda uma noite histórica e badalada no epicentro do mundo — bebendo no Studio 54 com o vocalista dos Rolling Stones e o papa da pop art — em uma única, curta e singela frase sobre o fato de o cantor Rod Stewart gostar muito de futebol e ser um cara divertido de se ter por perto.
Contudo, a conclusão genial a que o jornalista chegou após o choque e a frustração iniciais foi infinitamente mais reveladora, psicológica e profunda do que qualquer história detalhada, cheia de minúcias e extravagâncias, poderia ter sido. A verdade crua, nua e fascinante era que Pelé, pura e simplesmente, não se lembrava muito daquela noite no clube. E, se formos racionais, por que ele se lembraria de forma tão especial? Provavelmente, aquele encontro estratosférico que chocaria qualquer ser humano não havia lhe causado muita impressão. Afinal, Pelé já havia cruzado caminhos, jantado, conversado intimamente e sido fotografado com praticamente todas as grandes celebridades, chefes de estado majestosos, presidentes e membros da realeza da segunda metade do século vinte. O detalhe fundamental, a chave-mestra que explica todo esse comportamento blasé, é um só: nenhuma daquelas pessoas naquela foto brilhante, por mais lendárias e ricas que fossem em seus respectivos campos, era sequer remotamente mais famosa do que ele próprio. Pelé era o sol brilhante do sistema solar da fama, e todos os outros — astros do rock, atrizes vencedoras do Oscar, pintores geniais — eram apenas os planetas menores orbitando em torno de sua imensa luz e atração gravitacional inigualável.
A Gravidade da Mega-Fama e o Jovem Michael Jackson
É exatamente nesse mesmo e seleto ecossistema nova-iorquino que a figura inesquecível de Michael Jackson entra nesta narrativa. Em agosto de 1976, Michael era um jovem promissor e mundialmente conhecido de apenas 18 anos de idade. Pelé, por sua vez, ainda desfilava seu talento e sua majestade cósmica pelos gramados vestindo a camisa do icônico Cosmos. Os dois gênios, sem nenhuma surpresa para quem entende a dinâmica do poder e do estrelato, circulavam livremente pelo mesmo universo estelar.
Era um universo muito peculiar, onde a fama atinge um nível tão específico, tão absurdamente estratosférico e isolador, que acaba criando uma espécie de camada social completamente própria, fechada e murada do resto da humanidade comum. É um estrato onde as pessoas mais reconhecíveis do planeta inevitavelmente acabam se encontrando, não porque seus assessores marcaram em suas agendas lotadas, mas por uma força incontornável e invisível de gravidade social. A fama de proporções colossais sempre atrai a fama de proporções colossais. É uma lei da física das celebridades.
Quando o curioso jornalista Brian Winter perguntou a Pelé especificamente sobre a luxuosa festa de aniversário de Jackson naquela época vibrante de 1976, o Rei do Futebol respondeu prontamente com a mesma calidez, afeto e simpatia (“warmth”) que lhe eram característicos. Ele descreveu o jovem Michael como sendo alguém que amava profundamente o Brasil, e que era absolutamente fascinado pela dança, pela musicalidade e pelo ritmo frenético do nosso povo. Eram, naquele cenário deslumbrante, dois ícones mundiais em plena ascensão e já no topo da montanha, representando magistralmente dois mundos artísticos e esportivos distintos que encontravam, na efervescente Nova York dos anos 70, o seu ponto de convergência absoluto e inevitável.
Com o passar inexorável do tempo, as trajetórias desses dois titãs seguiram seus rumos vertiginosos e independentes. Jackson saiu da badalação de Nova York para ir dominar e conquistar o globo terrestre de forma musicalmente avassaladora, transformando-se gradativamente no maior, mais inovador e mais reverenciado artista pop de toda a longa história humana. Pelé, cumprindo seu ciclo, encerrou oficialmente sua mágica e lendária carreira nos gramados no ano de 1977, logo depois passou por uma cirurgia complexa para operar o rim direito em um hospital de Manhattan, e dedicou todas as décadas seguintes da sua notável vida a ser exatamente aquilo que o mundo interio esperava e exigia que ele fosse 24 horas por dia: o monumento vivo intocável e eterno chamado Pelé.
A Reunião Histórica de 1998 e o Profundo Simbolismo da Camisa Santista
E então, em seu ritmo irrefreável, a roda do tempo girou até estacionar no ano de 1998, o momento mágico quando os dois deuses modernos se reencontraram mais uma vez, sob os holofotes maduros de suas carreiras, gerando a incrivelmente icônica fotografia que dá origem a toda essa reflexão. A camisa de futebol segurada e esticada por eles na imagem é identificável não apenas superficialmente, mas com uma precisão visual cirúrgica para os amantes do esporte: o branco imaculado e clássico do Santos Futebol Clube, o inconfundível logo diamante da fornecedora esportiva Umbro, a marca do patrocínio da Unicorpore estampada no peito. É uma combinação estética e histórica de elementos visuais que corresponde de forma específica e inegável à temporada de 1997/1998 do tradicional clube paulista.
Naquele exato momento capturado pelo flash, as realidades e a envergadura de ambos haviam se transformado para dimensões ainda maiores e mais assustadoras do que nos anos 70. Pelé, com os cabelos grisalhos da sabedoria, já não era mais um jogador profissional de futebol ativo; ele havia se elevado definitivamente ao status insuperável de embaixador global oficial e extraoficial do esporte maravilhoso que ele próprio havia ajudado a moldar, definir, aprimorar e popularizar em escala planetária ao longo de gerações. Michael Jackson, do outro lado sorridente da foto, já não era de forma alguma mais o jovem talentoso, promissor e efervescente adolescente daquela iluminada festa de Nova York em 1976. Ele era agora, de forma globalmente incontestável e inquestionável, o artista mais famoso, mais rico, mais copiado, mais admirado e mais escrutinado de todo o planeta, carregando orgulhosamente em seu impressionante currículo obras-primas atemporais que redefiniram por completo as bases da cultura global moderna, como os aclamados e gigantescos álbuns discográficos “Thriller”, “Bad” e “Dangerous”.
O gesto simbólico e poderoso do ato de Pelé entregar nas mãos de Jackson a camisa sagrada do clube que havia sido sua casa incondicional, seu berço e seu santuário imaculado por 17 longos e vitoriosos anos, era carregado até a borda de um simbolismo avassalador e histórico. O Santos Futebol Clube foi o lugar, o manto e o chão onde toda a magia inacreditável daquele menino de Três Corações começou a assombrar o mundo. O esquadrão do Santos de Pelé era, de forma indiscutível na mágica e distante década de 1960, o produto mais brilhante, cobiçado, temido e amplamente exportado de todo o futebol mundial. Portanto, aquela camisa branca que o majestoso Rei do Futebol entregou orgulhosamente em mãos ao intocável maior artista pop do planeta Terra no longínquo ano de 1998 não era, sob nenhuma hipótese, apenas um belo pedaço de pano costurado para a prática de esportes; era, de certa forma muito literal e espiritual, a síntese perfeita e tátil de tudo o que aquele histórico clube, e aquele genial jogador revolucionário, haviam representado de forma tão bela para a pura alegria e o entretenimento da humanidade ao redor do globo.
Existe algo de contornos profundamente poéticos, incrivelmente dolorosos e suavemente melancólicos nesses dois homens de sorriso fácil que faz com que esse encontro de 1998 pareça não ser apenas uma mera coincidência do destino promovida por relações públicas, mas algo absolutamente inevitável quando visto em retrospecto analítico. Quando paramos as máquinas da rotina e analisamos suas vidas extraordinárias em um doloroso paralelo, percebemos que Pelé e Michael Jackson compartilhavam, em silêncio, uma condição existencial e psicológica raríssima. Uma sina, um fardo e uma bênção que pouquíssimas, quase invisíveis pessoas em toda a longa e documentada história da humanidade experimentaram em primeira mão: o fato imutável e inegável de terem sido catapultados e terem chegado de forma brutal ao pico absoluto, frio e solitário da fama mundial ainda durante a vulnerável fase da adolescência. E, mais terrível ainda, o fato de terem passado rigorosamente todas as décadas seguintes de suas vidas carregando de forma constante esse peso esmagador sem nunca, sob absolutamente nenhuma hipótese, terem a permissão da sociedade para poder deixá-lo para trás e respirar como homens comuns.
O Fardo Esmagador e Solitário de Ser um Deus Adolescente

Os contínuos paralelos entre suas linhas do tempo são de deixar qualquer um assombrado com as rimas da história. Pelé, o adolescente, carregou as ansiosas esperanças de uma nação sul-americana inteira e levou o glorioso Brasil ao seu suado e primeiro título mundial de futebol chorando copiosamente nos ombros largos de seus companheiros na fria Suécia, quando tinha os seus tenros e inacreditáveis 17 anos de idade. Jackson, por sua vez, dotado com seu talento vocal e corporal puramente sobrenatural, gravou seu primeiro disco de imenso e estrondoso sucesso global sendo ainda uma criança, com chocantes 11 anos de idade. Ambos foram brutalmente arrancados do seio protetor e catapultados para fora da infância normal, saltando os degraus do crescimento diretamente para o altar brilhante, porém implacável, da adoração mundial incondicional.
Para captar a magnitude desta tragédia coroada de ouro, é crucial e inegociável entender que a profunda diferença entre a fama que chamamos de “normal” – aquela fama proveitosa de um ator hollywoodiano de sucesso, de um político altamente influente ou de um talentoso cantor popular de rádio – e a fama esmagadora do nível alcançado por monumentos como Pelé e Jackson é de natureza estritamente qualitativa, e não meramente quantitativa. Não é de forma alguma apenas uma simples questão matemática de ser visto e reconhecido nas ruas por um número maior de pessoas; é, sim, uma transformação violenta e irreversível na própria essência de como o mundo, o ambiente e a sociedade em volta interagem com o indivíduo afetado. Eles não eram apenas famosos, eles eram deuses que respiravam na Terra.
Aprofundando essa percepção estarrecedora, o astuto jornalista Brian Winter descreveu vividamente, de uma forma até clinicamente assustadora, o que ele costumava testemunhar em primeira mão quando o mito Pelé entrava rotineiramente em qualquer ambiente público, fosse uma séria sala de reuniões executiva, um chique restaurante badalado ou um caótico saguão de aeroporto internacional. Winter relatou que via dezenas de homens adultos, homens formados e maduros, caírem num choro infantil e copioso. Ele via mãos calejadas tremendo de forma incontrolável, movidas por uma descarga brutal de adrenalina e emoção. Ele via rotineiramente a incapacidade total, neurológica e absoluta de pessoas comuns e normais conseguirem articular palavras coesas ou frases coerentes na presença daquele senhor elegante, apenas porque ele era o mesmo homem mágico que, muitas décadas antes, em um domingo de 1963, havia marcado um gol histórico que aquelas pessoas nunca, em toda a vida, conseguiram esquecer. Pelé, ao longo de sua monumental trajetória, havia experimentado, absorvido e se acostumado a lidar com esse tipo exato de reação visceral e extrema por incríveis 60 longos anos de sua vida. A pura, genuína, ruidosa e incontrolável histeria que a sua mera presença física, sua caminhada ou seu aceno provocavam instantaneamente em pessoas de comportamento aparentemente normal era um fenômeno social e antropológico estarrecedor de se assistir. O experiente jornalista Winter afirmou categoricamente e sem meias palavras que nunca, em momento algum, havia visto algo remotamente parecido com aquilo, nem mesmo estando no mesmo cômodo com os presidentes das repúblicas mais poderosas e mortais do mundo, ou com outras grandes figuras incrivelmente famosas que ele mesmo havia coberto exaustivamente ao longo de sua longa e rica carreira jornalística e literária.
E deste outro lado do espelho histórico, Michael Jackson era de forma irrefutável o equivalente exato, espelhado, simétrico e perfeito desse mesmíssimo fenômeno de profunda histeria e paralisia coletiva, transposto para o barulhento universo da música global. Onde quer que Pelé gerasse um mar de choro e devoção arrastando exércitos de multidões chorosas e embriagadas de paixão em gramados e gigantescos estádios de concreto, Michael causava exatamente o mesmo impacto sísmico, arrastando multidões infindáveis em palcos, grandes arenas iluminadas e imensas ruas urbanas fechadas. Jackson causava no público desmaios coletivos, rios de lágrimas de pânico extasiado, gritos ensurdecedores e uma devoção cega que, frequentemente e muito rapidamente, beirava perigosamente o verdadeiro fanatismo religioso. Estes dois excepcionais e únicos homens brilhantes, talvez como absolutamente ninguém mais no planeta Terra, conheciam intimamente de dentro, sentindo diretamente na própria pele, na própria espinha e em cada fibra da própria mente esgotada, o que significava na prática diária ser a encarnação viva de algo culturalmente tão colossal que nenhum corpo humano foi biologicamente projetado para suportar sem sequelas.
A Cruel Cisão da Alma Humana: A Pessoa e a Entidade
Quem trouxe a chave definitiva para decifrar a alma dessa condição extrema não foi um psicólogo premiado, mas sim Pepito, o homem leal que serviu fielmente como o assessor de máxima confiança, porto seguro e a sombra mais constante de Pelé por exatos e ininterruptos 57 anos. O experiente José Fornos Rodrigues, disse confidencialmente ao jornalista Winter, em determinado e tenso momento, algo que consegue de forma mágica resumir toda a aterradora complexidade atormentadora de ser Pelé de uma forma incrivelmente melhor, mais cortante e mais cirúrgica do que qualquer vasta análise externa e prolixa jamais conseguiria sequer arranhar ou tentar fazer. Em um raro e chocante lampejo de sinceridade nua e cortante, Pepito confidenciou que, naquela fase já bem madura da longa vida do ídolo cobiçado, o homem mortal cujo nome de batismo era Edson era, na grande verdade da engrenagem do show business, apenas “um ator fazendo o impecável papel de Pelé”.
Esta é, sem dúvida, uma frase que carrega silenciosamente em seu núcleo uma crueldade altamente melancólica e, ao mesmo mesmíssimo tempo, uma precisão descritiva e realista que soa completamente devastadora para quem ouve. O que Pepito expôs e revelou aos olhos do mundo é exatamente o núcleo radioativo do profundo trauma incurável causado pela hiperfama global contínua. Em algum ponto ou momento muito crítico, solitário e exato do passado, no desenrolar da vertiginosa trajetória de qualquer pessoa comum que, por dom ou por destino, atinge repentinamente aquele nível de fato impensável de um grande ícone inatingível, um fenômeno triste e irremediável ocorre: o personagem intocável altamente idolatrado de forma cega pelas grandes massas de todo o mundo, e o sofrido ser humano falho, finito e mortal feito de carne, sangue e osso, se fraturam e se dividem. Deixam de ser a mesma coisa. Eles se tornam, perante a psique humana, duas entidades separadas e opostas; entidades gigantes e conflitantes que são cruelmente forçadas pelas demandas comerciais a coexistir todos os dias da semana, de maneira muitas vezes exaustiva e conflituosa, trancadas dentro dos limites exatos do mesmíssimo corpo e da mesmíssima mente cansada.
Para o seu grande mérito e sobrevivência, Pelé não apenas aceitava, como dominava magistralmente a arte dessa complexa coexistência contínua. Como bem pontuaram aqueles que conviviam no círculo de amizades do monarca esportivo, ele sabia perfeitamente e intuitivamente como era preciso entrar de forma imponente num ambiente lotado de fãs ansiosos. Ele sabia calcular milimetricamente o ângulo brilhante e a abertura do seu vasto e mundialmente famoso sorriso. Ele sabia acessar na memória e falar exatamente as palavras exatas, humildes e acolhedoras que as pessoas chorosas e esperançosas ansiavam fanaticamente ouvir de seus lábios abençoados. Ele era capaz de dobrar e moldar ativamente a si próprio, a sua postura e o seu cansaço físico para ser perfeitamente o “Pelé” alegre, heroico e imaculado que, na verdade, já existia confortavelmente pré-fabricado, desenhado e cristalizado na imaginação ativa, na afetiva memória e no próprio coração sedento daquelas milhares de pessoas.
E a parte que mais impressionava a todos não era a técnica da encenação: ele fazia absolutamente tudo isso repetidas vezes com uma impressionante e inabalável competência, com um carisma sobrenatural contagiante e uma resiliência e paciência estóicas que, sem sombra de dúvida, iam muito, mas muito além da mera performance teatral robótica. Como os observadores privilegiados daquele círculo interno notavam frequentemente com imensa surpresa, havia algo de profundamente e misteriosamente genuíno, algo real naquela inexplicável generosidade de se doar física e emocionalmente aos seus fãs de forma tão intensa. Mesmo quando o exigente roteiro daquela corriqueira interação pública já era perfeitamente conhecido de cor e exaustivamente repetido há décadas e milhares de incontáveis vezes, a entidade abraçava seu imenso papel. Havia um pacto não escrito de afeto.
Bem do outro lado distante e barulhento desse mesmo espelho distorcido que reflete a fama infinita, a estrela Michael Jackson passou de forma muito crua por um processo psicologicamente e emocionalmente muito parecido no fundo da essência, mas a sua triste ruína e jornada particular aconteceu de uma forma que o globo inteiro testemunhou atônito ser tragicamente muito mais pública, explícita, rasgada e indescritivelmente mais cruel e dolorosa. A grande e abismal diferença colossal e sempre crescente que afastava o pequeno Michael, aquele menino doce, inocente e de sorriso radiante que cantava de forma genial e estonteante liderando o conjunto familiar Jackson 5, e a gigantesca marca “Michael Jackson”, a entidade global fria e impenetrável do show business dos palcos iluminados, foi se alargando implacavelmente e dolorosamente ao longo do implacável passar das muitas décadas que se seguiram. E, tristemente, toda essa violenta metamorfose forçada pelas engrenagens do entretenimento, toda essa imensa e dilacerante dor silenciosa gerada pela brutal perda contínua de sua identidade humana, íntima e original, desenrolou-se e foi transmitida abertamente de uma forma invasiva que todo o globo acompanhou passivamente em tempo e exibição real — e assistida por uma gigantesca audiência de consumidores vorazes que, tragicamente e infelizmente, nem sempre agiu com o mínimo senso de empatia e raramente com gentileza e consideração humanitária, explorando a dor da metamorfose para lucros de audiência midiática inescrupulosa.
A Perda Irreparável da Privacidade e da Humanidade Comum
O ponto central que realmente solidifica de forma inquebrável o fino elo de sofrimento invisível entre o grandioso Rei do Futebol brasileiro e o inesquecível Rei do Pop norte-americano, como a foto de 1998 sugere nas entrelinhas de seus sorrisos maduros e experientes, é o imensurável e duro sacrifício supremo que ambos os homens excepcionais foram terminantemente obrigados a fazer de forma compulsória e antecipada no impiedoso e frio altar público da grandiosidade cobiçada pelo mundo inteiro: a absoluta ausência de privacidade cotidiana.
Tanto o craque dos gramados mundiais quanto o gênio dançante dos estúdios modernos tiveram impiedosos e vorazes exércitos incansáveis de incisivos fotógrafos sem rosto, dia e noite ininterruptamente apontando os frios vidros de suas afiadas lentes invasivas para os seus exaustos rostos, esquadrinhando e capturando comercialmente cada pequena lágrima caída em momentos fúnebres, cada banal erro de pronúncia ou deslize mundano, cada e qualquer pequeno suspiro de cansaço ou de alegria incontida, tudo isso rigorosamente documentado desde que tinham apenas seus curtos e precoces 14 ou 15 anos de vida neste planeta observador.
Ambos os ídolos supremos da nossa era de ouro foram cruelmente despojados e perderam por completo, no caminho íngreme para os céus, a rica privacidade de um ser humano; e perderam não apenas e somente como um violado direito civil garantido em leis humanas e constitucionais descritas em papel de governos ocidentais, mas, muito mais tragicamente, eles simplesmente perderam a intimidade como um conceito mínimo de existência diária palpável e de uma sobrevivência emocional funcional. A fama destruidora confiscou de ambos a sua própria paz interior, e o mais desesperador da equação de todo esse sacrifício glorioso é que eles foram despojados dessa rica joia preciosa invisível chamada paz e vida pessoal muito, muito tempo antes, cronologicamente falando, de terem alcançado ou formado a necessária carga e maturidade emocional e o puro desenvolvimento psíquico suficiente do cérebro maduro para sequer conseguirem refletir, mensurar, ou de fato entender vagamente a gigantesca imensidão intangível daquilo tudo que estavam, por obrigação divina e da torcida, irremediavelmente e eternamente perdendo para todo e qualquer sempre enquanto trilhavam o tapete estendido para o olimpo da riqueza financeira e aclamação cega. Eles perderam a infância para ganhar o título de imortais da Terra, selando em definitivo um amargo e lucrativo contrato obscuro, velado, duradouro, sem retorno viável e assinado inconscientemente e às pressas em plena meninice.
Contudo, e eis o assombro absoluto que permeia ambas as lendas que pousaram na foto, é que mesmo em meio, apesar de — ou quem sabe de uma maneira deturpada até por fundamental e sombria causa de — absolutamente todo esse dantesco, indizível, implacável e duradouro fardo emocional, monumental em escala global pesando incansavelmente, esmagando suas articulações, destruindo noites de sono, arrebentando laços e testando toda a sanidade contida de seus espíritos atormentados, os dois reis da Terra surpreendentemente e atipicamente produziram sem tréguas maravilhas de incalculável e eterna grandiosidade de belezas que alegraram um século obscuro inteiro. Com grande mestria, genialidade inexplicável e incomparável pureza da mais autêntica expressão técnica humana existente, eles moldaram, inventaram, construíram e alegremente nos deram o melhor de si com um lindo e arrebatador suor glorioso, deixando cravadas para a prosperidade da humanidade estupendas e complexas e belíssimas obras, gestos mágicos em campo, danças sublimes, canções de cura imorredouras, gols indescritíveis e troféus cintilantes de imensa e indescritível excelência final quase, no mínimo, pura e genuinamente divina e impossível, absolutamente inatingível para nove em cada dez de todo ser vivo ou falecido das eras humanas atuais ou distantes desde que a poeira e o mar viram a formação social neste planeta abençoado que não os superou mais.
Esses garotos brilhantes definiram a cor, moldaram as expectativas modernas e, pasmem as gerações de agora e futuras sobre o que lerão depois nas velhas enciclopédias desgastadas e pesadas de grandes prateleiras antigas, sim, as belíssimas artes que cada um produziu foram o estandarte e pavilhão brilhante que reescreveram solitariamente por completo a física, o mercado de cultura, as inquebráveis e sagradas antigas regras conservadoras, as métricas em estatísticas impossíveis de seus respectivos complexos e bilionários e imensos campos profissionais da música, da bola de coro rústica ou sintética pesada sob os pés de magia rítmica veloz afro-latina sul americana, definindo no fim tudo brilhante de um modo que, por fim, não foi em meio a tantos anos batido nem suplantado ou simplesmente superado dignamente por gênio de nenhum canto oculto ou lugar algum, seja este rico ou extremamente humilde, que seja outro ser puramente apenas e grandiosamente ser outro mero grande notável mortal de grandes dotes.
E é por isso que lá estavam felizes, relaxados, calmos, leves, sorridentes, de peito nu diante do mistério do destino na belíssima conjunção perfeita temporal e inusitada na frieza calculada exata e brilhante confluência pontual geométrica astral exata da união magnética invisível exata de duas grandiosas gigantes estrelas, cada um de suas tão absurdamente ricas, grandiosas, trágicas, repletas de amor de multidão barulhenta e de dores pessoais sufocantes em silenciadas incríveis de duas únicas e separadas inesquecíveis vidas reais extraordinárias forjadas sob imensa e esmagadora pesada infinita brutal inquebrável, sufocante e impetuosa dura alta extrema insuportável e brutal pressões externas na existência social deles; cruzando caminhos num ambiente fechado para poucas lentes.
Pelé e Michael. Eles ali seguraram serenos na imagem capturada com muito, com imenso orgulho firme, orgulho eterno brasileiro vivo na foto que foi revelada o imenso pedaço esticado longo maravilhoso com tecido nobre especial mágico e branco puro alvo da clássica blusão leve esportiva famosa do clube campeão antigo que encantou da beira mar da famosa amada imensa da gloriosa popular adorada e da orgulhosa bela paulista e quente praia brasileira cidade do peixe e amada grande e velha formadora dos famosos moleques da sempre lembrada Vila imortalizada da cidade mística litorânea de Santos — Santos Futebol amado e respeitado Clube do velho de Três Corações! E assim os gigantes imortais eternos lindos pararam respiraram longo unidos no espaço e tempo curto suave, viraram e simplesmente deram no rosto um farto belo brilhante simples denteado terno pacífico e leve imenso belo natural lindo e calmo simples sorrir singelo natural humilde lindo grande sorriso em direção para que a silenciosa atenta fria pequena lente técnica plástica com vidro pudesse por fim estancar congelar para as gentes o inegável real improvável verdadeiro milagroso e lendário momento para a humanidade da união que para sempre marcou.
A Permanência Eterna dos Ícones Após a Queda Terrena e a Redenção da História
O mundo da racionalidade lógica moderna sempre buscou incessantemente construir caixas analíticas limitadas, criar descrições reducionistas prontas, forjar títulos rápidos para jornais baratos, formular diagnósticos cínicos em teorias longas rasas, amarrar rótulos definitivos frios pesados com amargura para encaixotar a inegável e incompreensível loucura genial majestosa transbordante viva em toda a plenitude dessas vidas ricas difíceis singulares geniais deles dois astros únicos em essência divina grandiosos. Mas o peso absoluto grandioso imenso esmagador sufocante infinito assustador da própria monumental insuportável história grandiosa deles forçada explodiu implacavelmente quebrou trucidou despedaçou facilmente rasgando todas barreiras amarras medíocres sociais culturais limitadoras mesquinhas em todos os cantos.
O curso da vida mortal sempre atinge um final irremediável de todos que aqui rastejam lutam respiram ou voam majestosamente plenos até ao topo das grandes e colossais gigantescas maiores estrelas. Na dor do inesperado o cantor do passo para trás genial e inatingível Michael de calças curtas luvas brilhantes platinadas foi o primeiro a dizer seu silencioso dramático exaustivo precoce infeliz último imenso suspiro vital partindo fisicamente com a dor global planetária triste sem igual dolorosa de corações esmagados pelo pranto fúnebre mundial inesquecível escuro frio negro da perda inestimável do rei de ritmos amado no duro doloroso amargo mês cinza claro melancólico de junho em pleno grande e produtivo e amado saudoso brilhante não tão antigo ano que era 2009. E Pelé, após uma corajosa brilhante extensa duradoura valente firme amada abençoada divina gloriosa longa idosa doce plena rica trajetória inteira abençoada coroada por louros pratas ouros beijos prantos, sorrisos de velhos, crianças reverenciando de mãos fechadas unidas e joelhos postos a agradecer chorando o herói imenso fechou enfim sem lutas de glória pesada cansativa dor do corpo ferido finalizou a sua brilhante caminhada humana no frio dia pálido quente chuvoso doloroso luto mês dolorido nacional verde amarelo triste saudoso chuvoso de dezembro cravado pelo ano que registrava seu giro em dois mil e gloriosos vinte saudoso também de final dois, 2022.
E de tudo o que os olhos humanos chorosos exaustos observam atentos nos dias após a escuridão dolorosa lúgubre que encerrou os capítulos mortais terrestres falhos dos inesquecíveis heróis da infância alheia, sobrou a gigantesca sombra mágica da herança de luz que ambos pintaram brilhantes deixaram espalhadas com doçura. E no coração firme congelado cristalino da memória popular imensa das civilizações e multidões gratas de fãs amados de todos eles nos rincões, brilha, resiste ilesa incólume bela suave nítida focada forte em meio à amarga cruel impiedosa ruidosa louca e veloz passagem pesada insensível desrespeitosa dos duros rudes difíceis curtos longos e perversos longos duros escuros esquecidos anos sem fim.
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