No vibrante e sempre imprevisível cenário do Campeonato do Mundo de 2026, uma figura continua a desafiar as leis do tempo, da biologia e da própria lógica desportiva. Lionel Messi, aos 39 anos de idade, não é apenas um jogador que participa no torneio; ele é uma força da natureza que redefine incessantemente os limites da excelência humana. Antes do apito inicial para o decisivo jogo da fase de grupos contra a Jordânia, o astro argentino já havia garantido que o seu nome fosse esculpido nas páginas mais douradas da história do futebol de forma incontestável. Com uma carreira lendária que se estende por mais de duas décadas de pura magia, o génio nascido em Rosario transformou-se no maior artilheiro de todos os tempos em fases finais de Mundiais. O seu recente “bis” magistral contra a seleção da Áustria não foi apenas mais uma exibição de gala no seu extenso currículo; foi o momento exato em que ele atingiu a marca estratosférica de 18 golos em Campeonatos do Mundo, destronando de forma gloriosa o icónico avançado alemão Miroslav Klose, que detinha o recorde de longa data com 16 tentos. Ao alcançar este patamar, Messi provou de forma inequívoca que a genialidade pura não tem prazo de validade. Este não é apenas um feito estatístico frio e distante; é a consagração definitiva de um atleta que, apesar da idade avançada para a prática desportiva de extrema exigência física, continua a ser o epicentro criativo e finalizador de uma das seleções mais temidas do planeta. O mundo assiste, maravilhado e atónito, à dança de um homem que transformou o desporto-rei na sua própria tela em branco.

Para compreender a verdadeira magnitude desta obra-prima que totaliza uns astronómicos 916 golos ao longo de toda a sua trajetória profissional, é absolutamente imperativo recuarmos no tempo. Mais precisamente até ao inesquecível dia 1 de maio de 2005. Foi nessa tarde luminosa de primavera europeia que o universo do futebol testemunhou a primeira centelha de uma fogueira ardente que jamais se apagaria. Vestindo a mítica camisola do FC Barcelona, um jovem e franzino argentino de cabelo comprido marcou o seu primeiro golo oficial contra o Albacete, através de um “chapéu” subtil e sublime que servia de sumptuoso cartão de visita para o mundo inteiro. Para colocar este marco temporal numa perspetiva verdadeiramente assombrosa, basta referir que este golo inaugural aconteceu muito antes do nascimento de prodígios atuais da bola como Lamine Yamal (nascido em 2007) e até mesmo antes do visionário Steve Jobs ter apresentado ao mundo o revolucionário primeiro modelo do iPhone (também lançado apenas em 2007). Exatamente 7.717 dias após esse momento mágico e seminal na Catalunha, “El Pulga” continua a faturar e a encantar dezenas de milhares de pessoas nos maiores palcos desportivos globais. A evolução constante do seu estilo de jogo ao longo destas duas décadas é um autêntico caso de estudo que deveria figurar nos currículos académicos de desporto. O extremo supersónico e irrequieto dos primeiros anos transformou-se graciosamente num mestre estratega, num pensador profundo do jogo que compensa o inevitável declínio físico imposto pelo tempo com uma leitura espacial e tática absolutamente inigualável. A bola continua a procurar o seu pé esquerdo abençoado como se de um íman cósmico se tratasse, e as balizas adversárias parecem estranhamente indefesas quando ele assume o controlo incontestado das operações em campo.
O apelido honorário de “O Arquiteto dos 916” não é atribuído ao acaso pelos especialistas. Trata-se da soma matemática e poética de uma vida inteira dedicada à arte milenar de colocar a bola no fundo das redes adversárias. A sua impressionante contabilidade pessoal reparte-se da seguinte forma demolidora: 672 golos pela equipa da sua vida, o FC Barcelona, onde conquistou tudo o que havia para conquistar; 122 golos ao serviço da sua amada e idolatrada seleção da Argentina, onde passou de figura inicialmente incompreendida a verdadeiro messias nacional; 90 golos pela sua nova casa, o Inter Miami, o clube que o acolheu de braços abertos na sua recente aventura norte-americana; e 32 golos durante a sua passagem transitória, mas memorável, pelo Paris Saint-Germain em França. Para colocar este número assustador numa perspetiva justa, 916 golos marcados é um valor consideravelmente superior ao número total de jogos oficiais que uma esmagadora maioria dos futebolistas veteranos de topo consegue disputar durante toda a sua carreira profissional de quinze ou vinte anos. Mas as barreiras e fronteiras geográficas também nunca foram um obstáculo real para a ambição do camisola 10. Ele já faturou de forma consistente na Europa, na Ásia, na América do Sul e, mais recentemente, de forma explosiva e imparável, na América do Norte. Quando, no verão escaldante de 2023, após a conquista épica e emocional do Mundial do Qatar e o fecho lógico do seu glorioso ciclo europeu, Messi decidiu mudar-se para a liga dos Estados Unidos, muitos críticos de bancada apontaram com desdém que seria apenas o início de uma reforma dourada e relaxada. No entanto, o seu inquebrável espírito competitivo, a sua disciplina física férrea e o seu amor visceral e incondicional pelo jogo provaram de imediato precisamente o contrário do que se esperava. Em menos de três anos ao serviço do emblema cor-de-rosa da Florida, “Leo” marcou cerca de 100 golos brilhantes em todas as competições, convertendo o tão famoso “Sunshine State” numa autêntica fortaleza desportiva pessoal, onde mais de meia centena dos seus golos foram já celebrados em absoluto delírio pelos recém-convertidos adeptos locais. No atual Mundial de 2026, a decorrer ativamente em solo norte-americano, ele é, com absoluta naturalidade, o jogador com mais golos apontados nos Estados Unidos entre todos os superastros e galáticos presentes nesta monumental competição de seleções.

O Campeonato do Mundo da FIFA sempre foi o barómetro supremo da verdadeira grandeza futebolística, o palco onde os bons se separam das lendas, e Messi, neste preciso momento, é o próprio instrumento de medida de excelência. Ao longo da sua extenuante e belíssima carreira, ele já desfilou toda a sua classe incomparável em cinco edições distintas da competição (2006, 2010, 2014, 2022 e no atual e deslumbrante torneio de 2026). Com a óbvia e dolorosa exceção da anomalia que foi a conturbada edição de 2010, sob o comando apaixonado mas taticamente falho de Diego Maradona, na qual surpreendentemente não conseguiu inscrever sequer uma vez o seu nome na lista de marcadores oficiais, o avançado argentino tem operado como uma máquina ofensiva implacável. Ele detém hoje, para espanto de muitos, o cobiçado recorde absoluto de faturar em seis jogos consecutivos na prova magna da FIFA, período dourado durante o qual acumulou 10 golos essenciais para as aspirações argentinas. Além disso, cimentou o seu lugar num restrito e elitista clube de jogadores, ombreando novamente e de forma direta com o lendário Klose, ao tornar-se num dos raríssimos atletas capazes de apontar quatro ou mais golos em três Campeonatos do Mundo totalmente diferentes (2014, 2022 e 2026). Mas o seu vastíssimo arsenal bélico vai muito além de tentos solitários e isolados. No seu impressionante currículo individual constam nada menos que 61 “hat-tricks” (três golos marcados num só jogo) ao longo da carreira. Alguns deles ficaram perpetamente eternizados na memória coletiva dos amantes do desporto, como a heroica e dramática exibição sob forte altitude contra o Equador na fase de qualificação crucial em 2017, ou o muito mais recente espetáculo visual e tático avassalador que resultou numa vitória contundente e indiscutível de 3-0 diante da frágil Argélia, já na tensa fase de grupos deste Mundial de 2026, perante o público completamente extasiado e barulhento da cidade de Kansas City.
No entanto, mesmo as histórias mais meticulosamente perfeitas abrigam no seu íntimo as suas curiosidades, anomalias e fantasmas inexplorados. A lista infindável de “vítimas” ilustres do craque argentino é tão vasta quanto incrivelmente eclética, incluindo colossos europeus temidos como a França (na final de 2022) e a poderosa Espanha, bem como os seus históricos e acérrimos arqui-rivais sul-americanos, como o talentoso Brasil e a resistente Bolívia. Contudo, bem no meio desta vasta e gloriosa miríade de nações que sucumbiram invariavelmente ao seu talento sobrenatural, ergue-se misteriosamente uma barreira até agora intransponível: a seleção de Portugal. De forma verdadeiramente surpreendente, e até estatisticamente improvável, a equipa das quinas lusa continua a ser uma das raríssimas equipas de elite a nível mundial contra a qual Lionel Messi nunca, em toda a sua vasta e assombrosamente prolífica carreira profissional, conseguiu marcar um único golo oficial. É, sem margem para dúvida, uma daquelas peculiaridades estatísticas estranhas que alimentam fervorosamente os debates sem fim nos cafés, nas redações desportivas e nas redes sociais. A juntar a este persistente e irritante mistério português, existe um outro enigma cronológico que fascina diariamente os mais obcecados analistas táticos de todo o mundo. Num universo formidável de 916 golos marcados, que abrangeu matematicamente quase todos os segundos e minutos possíveis e imaginários de um jogo de futebol de alto nível, desde o precoce minuto 2 até ao derradeiro e agonizante minuto 90, e passando pelas horas fisicamente angustiantes dos prolongamentos, há um enorme e gritante vazio na folha de cálculo: Messi nunca marcou no primeiro minuto de jogo (ou seja, nos primeiros 60 segundos exatos de qualquer partida). Mas desengane-se quem pensa que isto é mero fruto do acaso ou da preguiça. Longe de ser um acidente cósmico, este é um reflexo direto e profundo da sua complexa mente analítica superior. O mundialmente famoso e altamente debatido estilo de “jogo a caminhar” de Messi não é, de forma alguma, um sinal perigoso de letargia, cansaço ou desinteresse pelas dinâmicas do jogo. Os primeiros momentos tensos de qualquer partida são propositadamente aproveitados por ele como um autêntico e silencioso varrimento de radar militar. Ele estuda pacientemente as movimentações adversárias, compreende detalhadamente a estrutura posicional montada pelo treinador inimigo e descobre, com a precisão de um cirurgião, as falhas estruturais invisíveis no sistema defensivo. Tentar marcar logo no soar rápido do apito inicial nunca fez parte dos planos calculistas de um jogador genial que joga uma complexa partida de xadrez mental enquanto todos os outros vinte e um jogadores jogam simples damas. Em contrapartida, de forma a provar que os deuses também sangram, há também sombras visíveis nesta caminhada gloriosa, como o facto indiscutível de ser atualmente o jogador que mais grandes penalidades falhou na rica e longa história dos Mundiais, um lembrete crucial e irónico da sua intrínseca condição humana perante a pressão máxima.
Ao atingir os respeitáveis 39 anos de idade, os prestigiados prémios de reconhecimento individual parecem ter perdido, de forma bastante natural, algum do seu feitiço e brilho apelativo. A conquista frenética, egoísta e quase obsessiva de Bolas de Ouro já não é, de forma alguma, o combustível primário que o faz acordar determinado todas as manhãs com a pura vontade de treinar arduamente e superar as dores físicas no corpo castigado. O olhar gélido e concentrado do génio argentino aponta agora fixamente para um novo horizonte histórico, um marco que antes parecia pertencer ao reino do puro mito ou da ficção científica estatística: a mítica, e quase impossível, marca dos 1.000 golos contabilizados na sua carreira desportiva profissional. Neste denso contexto de superação contínua, é simplesmente inevitável e obrigatório não mencionar de passagem a sombra sempre eterna, inspiradora e majestosa do seu grande e implacável rival histórico ibérico. A competição mediática, não declarada abertamente mas totalmente visceral e palpável, travada com o igualmente lendário Cristiano Ronaldo, que se estende por mais de vinte entusiasmantes anos de duelos e comparações, continua a ser a labareda oculta que mantém ativamente o ímpeto e a fome competitiva de “El Pulga” no seu auge técnico absoluto. Esta rivalidade desportiva, transcendente e inesgotável, é exatamente o antídoto que impede permanentemente que o conformismo preguiçoso se instale na mente do craque de Rosario. À medida que o mundo desportivo sustém a respiração e aguarda com extrema ansiedade o próximo encontro oficial da seleção da Argentina, os fãs sabem intimamente que estão na primeira fila para assistir perante o lento fecho da pesada cortina vermelha da maior e mais bela representação teatral que o desporto alguma vez teve o enorme privilégio de ver acontecer ao vivo. Messi não precisa, de facto, de provar ativamente mais nada a rigorosamente ninguém deste planeta ou além dele, uma vez que a sua imortalidade desportiva já está firmemente assegurada nos altares dos maiores da história. Mas a verdade é que cada novo toque na bola redonda, cada drible desconcertante capaz de destruir rins aos defensores e cada golo anotado em estádios cheios são agora vistos como presentes inestimáveis e preciosos que são entregues generosamente a um público mundial que, de forma carinhosa e quase reverente, recusa categoricamente a difícil e inevitável ideia de que um dia trágico e escuro este mesmo homem terá irremediavelmente de pendurar as suas chuteiras gastas num cacifo. A lenda escreve-se a si mesma, orgulhosamente e magistralmente, golo após golo, rumo à imortalidade.