A história da moda costuma fixar o início da era dos supermodelos masculinos negros nos anos 1990, com a ascensão meteórica de Tyson Beckford como o rosto inesquecível da Ralph Lauren. A estrutura das agências modernas, os contratos milionários de publicidade e a superexposição na televisão transformaram Beckford em uma marca global protegida pelo sistema. Contudo, décadas antes de essa engrenagem existir, um homem cruzava os salões mais exclusivos da alta costura europeia e a efervescente vida noturna de Nova Iorque com uma presença tão magnética que desafiava as regras de seu próprio tempo. Seu nome era Sterling St. Jacques.
Dizer que Sterling foi o primeiro supermodelo negro do sexo masculino é fazer justiça a um pioneiro, mas também é exigir dos arquivos históricos uma precisão que a época se recusou a registrar. Na década de 1970, o termo “supermodelo” pertencia quase exclusivamente às mulheres que estampavam capas de revistas e assinavam contratos astronômicos com marcas de cosméticos. Para os homens, o mercado era restrito; para os homens negros, era praticamente inexistente. Sterling St. Jacques alcançou o topo sem uma rede de proteção, tornando-se uma lenda esculpida através de performances ao vivo, memórias pessoais e fotografias que capturaram uma elegância que o tempo não conseguiu apagar.
O Enigma de uma Identidade em Movimento
A biografia de Sterling resiste a cronologias fáceis. Dependendo do documento ou da base de dados consultada, o seu ano de nascimento flutua entre 1949, 1951 e 1957. Registros antigos sugerem que seu nome de batismo teria sido Sterling Coulter, uma identidade que ele voluntariamente deixou para trás em busca de reinvenção. Em 1971, o jovem já chamava a atenção da mídia local como um talentoso dançarino que retornava à sua cidade natal, Salt Lake City, após participar do famoso programa de televisão nacional Laugh-In.

Sua entrada nos círculos de poder de Hollywood aconteceu pelas mãos de Raymond St. Jacques, um dos mais importantes atores, diretores e ativistas negros dos Estados Unidos, conhecido por papéis em produções como Rawhide e Cotton Comes to Harlem. Raymond adotou a linguagem familiar pública e apresentou Sterling ao mundo como seu filho. Essa associação abriu portas douradas em uma Hollywood majoritariamente branca, conferindo ao jovem um sobrenome de prestígio, respeito e acesso imediato à alta sociedade.
No entanto, a transição entre a narrativa social e a realidade jurídica revelou-se dolorosa. Anos mais tarde, após o falecimento de Raymond em 1990, os registros de inventário divulgados pela revista Jet revelaram que o testamento do ator não listava filhos legítimos ou adotados. Sterling figurava no documento oficial apenas como “sobrinho”, recebendo a quantia simbólica de 1 dólar de uma herança avaliada em 750 mil dólares. O silêncio do tribunal nunca explicou as complexidades emocionais daquela relação, mas evidenciou como a proteção da imagem pública muitas vezes escondia fraturas invisíveis.
Passarelas como Teatro: O Fenômeno Givenchy e a Parceria com Pat Cleveland
Se o cinema e a televisão serviram de introdução, foi nas passarelas que Sterling St. Jacques transformou o ato de caminhar em uma forma de arte. Ele não entrava em um desfile como um manequim estático para exibir roupas; ele trazia sincronia, ritmo e uma estatura imponente que forçava todos os olhares em sua direção. Seus marcantes olhos cinzentos e sua fluidez corporal logo chamaram a atenção de gigantes da moda francesa, como Yves Saint Laurent e Hubert de Givenchy.

A parceria mais célebre de sua carreira deu-se com Pat Cleveland, uma das modelos negras mais revolucionárias da história. Juntos, Sterling e Pat não apenas posavam, mas performavam. Eles eram a personificação do movimento nas passarelas de prêt-à-porter de Paris no outono de 1974. Em abril de 1976, durante a apresentação da coleção masculina da Givenchy no renomado hotel Waldorf Astoria, o impacto de Sterling foi tão avassalador que o jornal New York Times o comparou diretamente ao lendário Fred Astaire, elogiando seu timing, leveza e controle absoluto do espaço.
Essa mesma atmosfera de genialidade corporal ligava Sterling ao universo do estilista Halston e às rodas sociais mais disputadas da época. Embora muitos tentem associar seu nome à histórica Batalha de Versalhes de 1973 — o desfile que redefiniu a moda americana com a força de modelos negras —, os registros documentais oficiais não incluem Sterling no elenco central. Ele pertencia àquela mesma corrente de energia e vanguarda, mas sua trajetória se consolidava de forma mais livre e flexível em salas privadas, clubes noturnos e ensaios fotográficos.
Os Códigos Queer do Studio 54 e o Mito da “Maior Dançarina”
No final da década de 1970, o Studio 54 tornou-se o epicentro onde a moda, o dinheiro, o desejo e a fama se misturavam sob o teto da cultura Disco. Sterling St. Jacques era uma figura carimbada daquele tribunal estético, fotografado frequentemente ao lado de ícones como Bianca Jagger e Liza Minnelli. Ali, saber dançar era sinônimo de status e poder. Os diários de Andy Warhol frequentemente mencionavam sua presença magnética na órbita da vida noturna nova-iorquina.
Nas memórias escritas por Pat Cleveland, com quem Sterling chegou a simular um noivado público, a sexualidade do modelo é abordada de forma mais aberta. O noivado teria terminado porque os desejos dele se direcionavam a outros homens. A alta costura dos anos 70 abrigava uma vasta comunidade queer, mas a linguagem pública permanecia estritamente codificada, refinada e sutil. Um homem podia ser rotulado como “protegido”, “musa”, “companheiro” ou “amigo da casa”, palavras que serviam tanto para incluir o indivíduo nos espaços de poder quanto para ocultar suas relações mais íntimas da hipocrisia social.
Essa aura de mistério alimentou um dos maiores mitos da era Disco. Reza a lenda urbana que os músicos Bernard Edwards e Nile Rodgers teriam observado Sterling dançar no Studio 54 e, inspirados por sua beleza inalcançável e elegância, escreveram o clássico He’s the Greatest Dancer, gravado pelo grupo Sister Sledge. Décadas depois, ao ser questionada, a cantora Kathy Sledge declarou que a letra não se referia a um homem real, mas a um alter ego de fantasia. O rumor, contudo, persistiu porque Sterling possuía exatamente a estética descrita pela canção: um homem impecavelmente vestido, observado com desejo do outro lado do salão e que desaparecia na névoa antes do amanhecer.

O Declínio da Disco e o Capítulo Final na Europa
Quando a década de 1980 começou, o império do Studio 54 ruiu sob escândalos financeiros e a cultura Disco sofreu uma violenta reação conservadora carregada de homofobia, racismo e preconceito de classe. Sem o apoio de agências robustas ou contratos de longo prazo que garantissem seu futuro financeiro nos Estados Unidos, Sterling migrou para a Europa, onde a dance pop ainda acolhia artistas com o seu perfil.
Nessa nova fase, ele se reinventou como cantor. Sob o nome de Sterling St. Jacques, lançou os compactos Again e I’m a Star. Em 1981, chegou a pisar no prestigiado palco do Festival de San Remo, na Itália, interpretando a canção Tudo é Blue. Seus registros de apresentações na Europa estenderam-se até o meio da década, com lançamentos como Mr. Moonlight e uma aparição documentada na Discoteca Shalom, em Gênova, em julho de 1985.
Esses rastros europeus desmentem as narrativas simplistas que decretam sua morte precoce em 1984. O desfecho de sua vida permanece envolto nas sombras que marcaram os anos mais devastadores da epidemia de HIV/AIDS, que dizimou a comunidade artística e queer da qual ele fazia parte, impondo silêncio, obituários ausentes e dores vividas em segredo. Uma entrevista de 1988 concedida por Raymond St. Jacques ao Chicago Tribune afirmava que Sterling ainda estava vivo e trabalhando em Düsseldorf, na Alemanha, enquanto outras bases de dados apontam o ano de 1992.
O que restou de Sterling St. Jacques não foi uma biografia linear e perfeitamente arquivada, mas um conjunto de fragmentos brilhantes. O racismo estrutural da época, o baixo status da modelagem masculina de então e o preconceito contra a comunidade LGBTQ+ falharam em apagar a sua relevância. Suas fotos e a memória de seus movimentos permanecem como provas vivas de um homem que desafiou as barreiras de seu tempo com beleza, ritmo e uma altivez inesquecível.