Penta campeão do mundo, ídolo do Corinthians, médio do PSV juntamente com Ronaldo Nazário, o tipo que desceu a rampa do Palácio do Planalto com a Taça do Mundo. E esse mesmo homem expondo nas redes sociais a intimidade sexual da própria filha, desaparecendo da operação de transplante de coração da própria filha aos 16 anos e levado à justiça pela própria filha para ser preso.
Hoje vai saber a verdade sobre como ele destruiu a vida da própria família e porque nunca apareceu no hospital. Ainda mais obscuro, o que Vampeta disse da própria filha sobre a intimidade sexual dela no canal de YouTube. E o pior da sua vida, a resposta da filha que quebrou o Brasil inteiro. Mas antes, é preciso entender quem era Marcos André Batista Santos antes de ser o velho Vamp.
13 de março de 1974, Nazaré das Farinhas, um concelho pequeno do Recôncavo Baiano. 3 horas de autocarro a sul de Salvador, ruas de terra batida batida, casas de tijolo sem acabamento, uma igreja colonial na praça central e numa daquelas casas de bairro, uma família humilde recebe o filho varão, Marcos André Batista Santos.
O nome completo não ia durar muito tempo. 17 anos depois, num campo do Vitória da Bahia, um companheiro da equipa de base ia olhar para ele a correr pela lateral direita e falar uma frase que mudou a identidade dele para sempre. Mas esta frase chega depois: “Antes precisa de compreender o menino.
” O menino Marcos cresceu num local onde o futebol era a única saída real para miúdo pobre. Salvador e o recôncavo baiano são terra de jogador. Bebeto nasceu a 30 minutos dali. Mário Jardel um pouco mais a sul. Cláudio Adão. O Vampeta ia ser o próximo. O pai trabalhava no que aparecia, a mãe tratava da casa, cinco filhos. E entre os cinco, o Marcos era o mais calado, o mais grave, o que se sentava no portão da casa ao entardecer e olhava os miúdos do bairro chutarem uma bola de plástico na rua.
Tinha 4 anos quando segurou pela primeira vez uma bola. Cinco, quando começou a jogar com os miúdos de 10. Sete, quando já marcava golos contra rapazes do dobro do tamanho dele em peladas que duravam até ao sol apagar. Aos 14 anos, Marcos André Batista Santos entrou num autocarro com uma mochila. Partiu de Nazaré das Farinhas rumo a Salvador.
Iam testá-lo no Esportte Clube Vitória, o clube encarnado negro da Baía. o clube mais popular do estado. Aceitaram-no. Aos 16 anos já treinava com a base. E aos 18, na época de 1992, o treinador da equipa principal subiu-o para treinar com os profissionais. Era um volante de pernas compridas, técnica natural e uma capacidade de marcação agressiva que chamava a atenção dos qualquer pessoa que olhasse 2 minutos.
Mas ainda não era Vampeta, ainda era Marcos. Guarda isso na cabeça, porque o apelido que estava prestes a receber, o alcunha que durante 30 anos ia definir cada passo da sua vida, veio por uma razão que muito poucos brasileiros conhecem hoje. O apelido foi colocado num treino. Tinha 18 anos. Cabelo comprido, cara fina, dentes salientes e o costume de morder os companheiros quando alguém lhe ganhava num pique.
Mordia na brincadeira, mas mordia. Um colega de equipa rindo gritou-lhe uma tarde no campo do Barradão uma palavra que ficou colada a ele. Vampeta. Metade vampiro, metade pepa. Outro apelido brasileiro comum: Vampeta. O que morde, o que tem os dentes estranhos, o que persegue os companheiros rindo como personagem de filme de terror barato.
Para o Marcos, pareceu engraçado. Prós companheiros, pareceu engraçado. Prós Os jornalistas locais de Salvador, pareceu engraçado. E antes de fazer 20 anos, o nome Marcos André Batista Santos tinha desaparecido das reportagens desportivas brasileiras. No lugar dele, uma única palavra, Vampeta. Em janeiro de 1993, Vampeta tinha 19 anos e era titular do Vitória, que jogava a Taça São Paulo de Futebol Júnior.
O torneio das categorias de base mais importante do Brasil, a montra onde os olheiros dos clubes grandes vão comprar os jovens. Vampeta jogou como médio de marcação, chegou até às meias-finais e deixou uma impressão tão forte que nesse mesmo ano o Vitória confirmou-o como titular do time profissional. 19 anos, Baía, Vitória vice-campeão brasileiro de 1993, Vampeta titular e os olheiros europeus começando a ligar.
O que veio depois é a cara que o Brasil inteiro se lembra. Mas o que veio antes? O que se passou dentro da cabeça daquele rapaz de 19 anos quando soube que um clube holandês ia comprá-lo? Isso quase ninguém conhece. 1996, PSV Aindoven, Holanda. O clube holandês mais importante dos últimos 20 anos e o clube onde estava naquele momento o atacante mais caro e mais forte do futebol mundial, um miúdo de 19 anos que o Cruzeiro tinha vendido ao PSV apenas do anos antes.
Um fenómeno, um sismo, Ronaldo Nazário. Vampeta chegou a Aindoven com 22 anos, partilhou balneário com Ronaldo, partilhou hotéis, dividiu mesa e dividiu as saídas de balada que já nessa altura eram lendárias no ambiente do PSV. Ronaldo, Vampeta e um grupo de novos brasileiros com o bolso cheio e noites inteiras pela frente.
Aí começou uma amizade que durante os 30 anos seguintes ia sobreviver a traições, lutas, escândalos, divórcios, dívidas e um transplante de coração. Ronaldo e Vampeta. Ronaldo fenómeno. Vampeta, velho Vamp. Os dois iam reencontrar-se no lugar mais alto do futebol mundial 6 anos depois. Mas antes, Vampeta precisava de passar por outra etapa da carreira, uma etapa que ia transformar ele num dos ídolos mais venerados do Corinthians paulista e ao mesmo tempo uma etapa que ia plantar a semente de cada um dos problemas familiares que iam explodir décadas depois. Em 1998,
depois de duas épocas no PSV, Vampeta assinou pelo Sport Clube Corinthians Paulista de São Paulo, o equipa mais popular do Brasil, a claque alvinegra, o Pacaembu cheio a cada 15 dias. E ali, naquele balneário do Corinthians de 1998, Vampeta viveu os três anos mais gloriosos da sua carreira. Bicampeão brasileiro em 98 e 99, Mundial de Clubes FIFA em 2000.
bola de prata, a idolatria absoluta e um estilo de vida que muito poucos Os jogadores do futebol brasileiro se permitem contar depois em público. E isto que vem agora guarda bem na memória, porque dentro do mesmo ano em que Vampeta levantava o Mundial de Clubes com o Corinthians, conheceu a mulher que 30 anos depois o ia levar aos tribunais brasileiros.
Roberta Soares Galiza, paulista, nova, mulher da noite social de São Paulo do ano 2000. Conheceu-a numa festa do próprio Corinthians. Vampeta tinha 26 anos, A Roberta tinha menos. O que se passou entre os dois nos oito meses seguintes, nenhum dos dois nunca contou com pormenores para a imprensa brasileira. O que se sabe, o que está documentado, é que em 1999 nasceu a primeira filha do casal, uma menina, Gabriela.
E dois anos depois, em Agosto de 2003, nasceu a segunda outra menina, a mais nova, a que ia ser. 16 anos depois, o centro da história mais dolorosa de toda esta vida, Giovana, guarda esse nome, Giovana Santos. Porque quando a vira internada numa UCI de Miami com 16 anos, ligada a aparelhos artificiais, esperando um transplante de coração, vai-se lá entender porque Vampeta nunca mais voltou a ser o mesmo.
Mas entre o nascimento de Giovana em 2003 e aquela UCI de Miami em 2019, Vampeta viveu o pico absoluto da carreira desportiva dele. Ano 2002, seleção brasileira, Campeonato do Mundo da Coreia e Japão. Felipão de selecionador, Ronaldo de avançado, Rivaldo de camisola 10, Cafu de capitão, Roberto Carlos na esquerda e no meio do campo, juntamente com Gilberto Silva, o médio defensivo de marcação do Corinthians, o que se encarregava do trabalho sujo.
Vampeta, 30 de junho de 2002. Yokohama, Brasil 2, Alemanha 0. Penta, o quinto mundial. Vampeta entrou em campo, levantou a taça com os companheiros, cantou o hino com as lágrimas a cair pelo rosto e subiu no avião rumo a Brasília. 3 de julho de 2002, Palácio do Planalto, Brasília. O presidente Fernando Henrique Cardoso recebe a seleção penta campeã do mundo na rampa oficial do palácio.
A rampa que só presidentes, reis e chefes de Estado pisam. 30 milhões de brasileiros assistindo ao evento em direto pela Globo. Os jogadores vão descendo um a um, fatos escuros, sorrisos sérios, a taça nas mãos do Cafu e depois aparece Vampeta. Mas Vampeta não desce a rampa caminhando. Vampeta desce a rampa do Palácio do Planalto, dando cambalhotas, uma atrás da outra, com a camisola amarela e o sorriso de um miúdo da Nazaré das Farinhas que tivesse acabado de descobrir que a vida estava a regalar durante uns minutos tudo o que tinha
sonhado quando era criança. Os companheiros riram, o presidente riu, a Globo rio, o Brasil inteiro rio, cambalhotas no Planalto. Essa imagem, esta sequência de 3 segundos onde Vampeta gira sobre a rampa presidencial é a foto mais reproduzida do jogador em toda a carreira. A foto que cada brasileiro de 45 anos para cima recorda.
A foto que define quem era Vampeta em Julho de 2002, um miúdo do recôncavo baiano que tinha acabado de ganhar o mundial. Mas o que veio depois das cambalhotas no Planalto? O que ninguém imaginava ainda é que o auge daquela tarde de julho ia ser o último momento de pura glória da sua carreira. Aquele vampeta que girava sobre a rampa presidencial ia desaparecer em menos de se meses.
O que aconteceu depois do Mundial é o outro lado da história, o lado que poucos brasileiros se lembram, porque em agosto de 2002, semanas depois das cambalhotas no Planalto, o Inter de Milão de Itália comprou Vampeta ao PSG por uma cifra milionária, 30 mil milhões de liras italianas, o equivalente a mais de 15 milhões de dólares dessa época.
Uma fortuna para um médio-defensivo de marcação brasileiro. Vampeta chegou a Milão convencido de que ia triunfar como tinha triunfado no Corinthians. Mas Milão não era o Pacaembu e os companheiros italianos do Inter daquela época não queriam um brasileiro que descesse a rampa do planalto dando cambalhotas. Queriam um volante disciplinado, queriam um atleta sério, queriam profissional.
O que receberam, segundo os jornais italianos da época de 2002 a 2003 foi outra coisa. A Gazeta del Esporte, o diário desportivo mais importante da Itália, dedicou uma manchete específica para Vampeta nesses meses. A manchete em italiano dizia Vampeta, sesso, birra e futebol, sexo, cerveja e futebol. Por esta ordem.
E a imprensa italiana foi ainda mais dura. O Corrier Delo Sport publicou um artigo sob o título Vampeta. Bidone da 30 milard. Vampeta, má contratação de 30 mil milhões. Bidone, uma palavra italiana do futebol reservada pros jogadores estrangeiros que chegam com expectativas elevadas, recebem salários elevados e rendem abaixo do esperado.
Vampeta jogou apenas alguns meses no Inter. Em janeiro de 2003, o clube trocou-o pelo francês Stephanie Dalm do Paris Saint-Germain. Operação de troca confirmada oficialmente pela Inter. Vampeta voltou paraa França e dali, semanas depois regressou pro Brasil, para o Flamengo do Rio de Janeiro, a equipa mais popular do país depois do Corinthians.
A Itália tinha-o cuspido fora em 4 meses e o Flamengo esperava-o com salários em atraso, luzes que se apagavam no CT e uma claque que ia ouvir. Nesse mesmo ano, a frase mais famosa que Vampeta soltou em toda a vida. E aqui no Flamengo de 2003, Vampeta soltou uma frase que o futebol brasileiro nunca esqueceu. Uma frase que durante 20 anos continuou a ser citada em cada balneário do Brasil quando um clube deixa de pagar aos jogadores.
A situação financeira do Flamengo em 2003 era crítica. O clube devia salários atrasados. Os jogadores treinavam sem receber. As luzes do centro de treino do Rio se cortavam alguns dias por falta de pagamento à empresa elétrica. E neste contexto, Vampeta, recém-chegado de Itália com um contrato milionário que o Flamengo não conseguia honrar, fez o que muitos jogadores brasileiros dos anos 2000 faziam quando não recebiam em dia.
Baixou o rendimento, deixou de se esforçar nos treinos, chegou tarde às concentrações, saiu de noite pelas praias do Rio. Quando um jornalista da Sport TV enfrentou-o no final daquela temporada e perguntou por jogava tão abaixo do nível do Corinthians, Vampeta soltou verbatim a frase que ia definir a carreira dele a partir de então.
A frase exata, palavra por palavra, foi esta: “Faz de conta que paga e eu finjo que jogo.” Finge que paga, fingeo que jogo. Seis palavras. A verdade incómoda do futebol brasileiro daquela época, resumida numa frase de um médio baiano, a frase tornou-se viral, apareceu em cada jornal. As claques rivais gritaram, os comentadores citaram e ficou colada em Vampeta para sempre.
Estávamos em 2003, Vampeta tinha 29 anos, a primeira filha Gabriela tinha 4 anos. A segunda filha Giovana tinha acabado de nascer e o pai do ano, o pentacampeão do mundo, já tinha uma reputação pública de jogador problemático, conflituoso e com um estilo de vida que a imprensa brasileira começava a chamar-lhe boémia paulista. Guarda este ano na cabeça.
2003, o ano em que Giovana nasceu, o ano em que o penta campeão do mundo já começava a mostrar em campo e fora dele o homem que 16 anos depois ia desaparecer durante o transplante de coração da própria filha. Imagina por momentos que o telefone que tocou uma tarde de maio de 2019 fosse o de alguém da sua própria família e que do outro lado da linha estivesse a mãe das suas filhas falando que a sua filha mais nova de 16 anos não conseguia respirar.
Roberta Soares tinha-se mudado para Miami com as duas filhas no ano de 2014. Gabriela com 15, Giovana com 11. O relacionamento com Vampeta já não funcionava há anos. O divórcio tinha sido assinado um tempo antes. Roberta tinha refeito a vida com um novo marido, Cássio, padrasto das duas meninas, o que levava-as para a escola, o que acompanhava-as nas consultas médicas, o que pagava a alimentação do dia-a-dia em Miami.
Vampeta ficou em São Paulo, aceitou pagar uma pensão de alimentos mensal de R$ 17.500 pelas duas filhas. Acordo assinado, carimbo do juiz, compromisso legal. Mas houve um pormenor. Em 2013, antes de Roberta ir para Miami, Vampeta tinha pedido na justiça brasileira que reduzissem a sua pensão de R$ 17.500 mensais para 4.000.
A justiça atendeu parcialmente o pedido, mas o relação entre Vampeta e as duas filhas ficou marcado. A conversa sobre dinheiro estava aberta desde antes de Giovana completar 11 anos. 5 anos depois da mudança para Miami, Giovana começou a passar mal. Tinha 16 anos. Estudava numa escola secundária da Flórida, ia para o ginásio, saía com as amigas.
Até que um dia de maio de 2019 começou a sentir falta de ar. Era uma falta de ar diferente de um cansaço normal que não passava com o repouso. As pernas inchavam, os pés também. A Roberta levou ela no pediatra. O médico achou que era sinusite, deu antibiótico. A Giovana não melhorou.
Uma semana depois, levaram-na na emergência. Os médicos acharam então que era uma pneumonia. Fizeram radiografias. Algo não batia nas imagens. O coração de Giovana estava maior do que o normal, maior do que cabe no peito de um adolescente de 16 anos. encaminharam-na para um cardiologista pediátrico do hospital de Miami. Ecocardiograma, ressonância magnética, cateterismo, três dias de exames e um diagnóstico que o cardiologista entregou nas mãos de Roberta Soares numa tarde do final de maio de 2019. Cardiomiopatia.
O O músculo do coração de Giovana estava falhando. As câmaras cardíacas tinham-se dilatado. O coração tinha perdido grande parte da capacidade de bombear sangue pelo corpo. A causa mais provável, segundo o médico, era uma infecção viral, uma miocardite. Um vírus que provavelmente tinha entrado no corpo da adolescente meses antes, sem que ninguém notar, e que tinha atacado o músculo cardíaco até o deixar inservível.
O diagnóstico tinha chegado tarde, tarde demais. O coração de Giovana já não conseguia recuperar com medicação. Só tinha uma opção, uma operação, uma intervenção que no Brasil poucos hospitais fazem e que em Miami se faz num único centro especializado, transplante de coração. Roberta Soares saiu do consultório do cardiologista nessa tarde, sentou-se no carro do estacionamento do hospital e antes de colocar a chave no contacto, ligou para um número do Brasil no telemóvel, o número do pai das duas filhas, o número do
penta campeão do mundo. Vampeta estava em São Paulo quando recebeu a chamada. A conversa entre Roberta e Vampeta naquela tarde de final de maio de 2019 nunca foi tornada pública com detalhe. Só se sabe o que veio depois. Giovana foi internada no hospital de Miami para iniciar o protocolo de espera de um órgão compatível, uma adolescente de 16 anos na fila de espera por um coração novo.
E enquanto este órgão não chegava, os médicos ligaram-na a um dispositivo mecânico de assistência ventricular, um bomba externa que substituía parte do trabalho do coração natural dela, ligada por tubos ao peito, ligada 24 horas por dia, sem poder caminhar livremente, sem poder tomar banho normalmente, sem poder sair do hospital nenhum dia.
4 meses internada numa UCI cardíaca de Miami. 4 meses à espera que algures nos Estados Unidos outra família perdesse um ente querido e doasse um coração compatível com o tamanho e o tipo sanguíneo de Giovana Santos. Quatro meses com a mãe Roberta a dormir numa cadeira ao lado da cama. A irmã Gabriela visitando todos os dias, o padrasto Cásio a levar comida do restaurante de fora, as amigas da escola enviar vídeos pelo telemóvel, mas tem um nome que não aparece em nenhuma lista de Os visitantes daquele hospital de Miami durante esses 4 meses. Um nome que não
assinou em nenhum registo de entrada, um nome que não apareceu em nenhuma foto familiar tirada ao lado da cama de Giovana, o nome do pai. Vampeta não estava ali. Vampeta continuava em São Paulo. E os qu meses que a filha mais nova passou ligada a uma bomba mecânica esperando um órgão compatível, o pentacampeão mundial passou no Brasil com a disputa judicial pela pensão alimentar aberta, com um processo judicial ativo desde 2018, por ter deixou de pagar à Roberta R$ 61.
000 em mensalidades em atraso. E essa coincidência de datas, o internamento de Giovana em Miami e o processo de pensão em aberto em São Paulo no mesmo mês não é casual. As duas coisas estão ligadas e daqui a alguns minutos você vai perceber exatamente como. Em setembro de 2019, chegou finalmente o órgão.
Outra família dos Estados perdeu um ente querido e autorizou a doação. O coração chegou ao hospital de Miami compatível com o tamanho de Giovana, compatível com o tipo sanguíneo, compatível com o sistema imunológico da adolescente e os cirurgiões entraram na sala de operações. A operação de transplante de coração em Miami durou várias horas.
Roberta Soares à espera do lado de fora, Gabriela esperando do lado de fora, Cioando do lado de fora. As amigas da escola rezando nas suas casas e o Brasil inteiro, ainda sem o saber, alheio ao que estava a ser decidido naquela sala de cirurgia da Flórida sobre a vida da filha mais nova do pentacampeão mundial. A cirurgia foi um sucesso.
O novo coração começou a bater dentro do peito de Giovana Santos. Os médicos saíram da sala. A Roberta chorou, o Csio chorou, A Gabriela chorou. E num domingo de outubro de 2019, o fantástico programa da Rede Globo divulgou o caso pro Brasil inteiro pela primeira vez. médico consultado, o cardiologista José Aí, explicando palavra a palavra que Provavelmente o diagnóstico tinha chegado tarde e que, por isso, a adolescente tinha precisado do transplante.
E enquanto o Fantástico contava a história num domingo à noite perante milhões de brasileiros, enquanto Roberta Soares aparecia nas imagens do hospital de Miami com o cabelo apanhado e os olhos vermelhos de 4 meses sem dormir, enquanto Giovana se recuperava num quarto do andar de transplantados. Em São Paulo tinha alguém a ver o mesmo programa na sala dele, o pai Vampeta, o pentacampeão mundial.
E no dia seguinte, o pai que não tinha estado no hospital durante os 4 meses do internamento, o pai que não tinha assinado nenhum papel na UCI, o pai que não tinha dormido nem uma única noite na cadeira ao lado da cama do filha de 16 anos, fez uma coisa que o Brasil inteiro comentou durante semanas. Vampeta entrou numa sala de tatuagens em São Paulo, sentou-se, tirou a camisola, pediu para o tatuador desenhar um coração no antebraço esquerdo dele, um coração anatómico com veias, artérias, ventrículos, um coração que ia levar para sempre no braço, um coração em
homenagem à filha que tinha sobrevivido ao transplante, a filha que não tinha visto durante os 4 meses mais graves da vida dela. E aqui é onde a coisa torna-se difícil de entender, porque uma tatuagem demora minutos. Um voo São Paulo Miami demora 10 horas. E o que Vampeta escolheu fazer com cada uma destas opções é que vai definir todo o resto dessa história.
A tatuagem do coração. Essa é a prova. Esse é o primeiro caramelo que se vai lembrar no final desse vídeo. Porque esta tatuagem, este desenho anatómico de um coração no antebraço esquerdo do pentacampeão mundial ainda lá está. Ainda dá para ver em qualquer transmissão do canal de YouTube de Vampeta.
ainda aparece em cada foto recente do comentador desportivo brasileiro. E enquanto a tatuagem continua a tapar o antebraço esquerdo, a filha que este desenho homenageia não fala com ele há anos. Isso é o que custa a entender. É isso que o Brasil demorou a processar. Porque a resposta para a pergunta do por Vampeta não foi ao hospital de Miami para acompanhar A Geovana durante os 4 meses de espera não é uma resposta simples.
Tem uma combinação de três elementos que durante os próximos minutos vai compreender um por um. Mas antes de seguir, guarda essa imagem na cabeça. Um adolescente de 16 anos numa cama de UCI de Miami. Uma bomba mecânica ligada ao peito por tubos, uma mãe a dormir numa cadeira ao lado, 4 meses sem se mexer, e um pai a 8.
000 1000 km de distância numa mansão de São Paulo, vendo televisão brasileira como se nada estivesse a acontecer com a filha mais nova dele do outro lado do Atlântico. Esta imagem fica contigo porque daqui a uns minutos, dentro da segunda parte deste vídeo, vai descobrir que enquanto Giovana esperava o órgão que lhe ia salvar a vida, Vampeta tinha aberto na justiça brasileira uma disputa com a mãe das duas meninas por um valor que o Brasil inteiro lido pela primeira vez em abril de 2023 e que hoje ultrapassa os 600.000 R.
E daqui a mais alguns meses, quando Giovana já estava recuperada em Miami, quando o transplante tinha sido um sucesso, quando o Brasil inteiro tinha visto ela no Fantástico da Globo, as duas filhas e a mãe iam entrar na justiça brasileira com um pedido que nenhum brasileiro esperava escutar contra um pentacampeão mundial do ano de 2002. Mas a questão segue aí.
A pergunta que o Brasil inteiro se fez em silêncio durante 2019 e que nunca foi respondida com detalhe publicamente. Porque é que Vampeta não foi para Miami? Por esteve em São Paulo durante os 4 meses em que Giovana estava ligada à bomba mecânica na UCI? Porque se tatuou o coração depois, em vez de subir num avião em maio? A resposta tem três elementos e os três estavam entrelaçados desde antes do transplante.
O primeiro elemento é o mais simples de explicar. O relacionamento entre Vampeta e Roberta Soares Galiza estava rompido há anos antes de 2019. O divórcio tinha sido assinado. Roberta tinha-se mudado para Miami com as duas meninas em 2014 e a A comunicação entre os dois adultos era feita apenas por intermediários. Advogados, a mãe de Roberta, por vezes as próprias meninas a fazer de mensageiras involuntárias entre os progenitores, separados por 8.000 km.
Quando a Roberta ligou para o Vampeta naquela tarde de finais de maio de 2019 para contar o diagnóstico de Giovana, era a primeira ligação direta entre os dois há muitos meses. Vampeta escutou. Vampeta disse o que se fala quando recebemos uma notícia assim, mas Vampeta não subiu no primeiro avião para Miami. O segundo elemento é mais complicado, tem a ver com dinheiro.
E aqui começa a parte da história que o Brasil demorou 5 anos a juntar peça por peça. Imagina por momentos que esta peça financeira fosse de alguém da a sua própria família, que o pai tivesse pendente um processo superior a R$ 100.000 R$ 1000 com a mãe das filhas dele e que precisamente nesse momento a filha mais novo entrasse numa fila de transplante de coração.
Mas antes de falar de números, antes dos números que o jornal A Folha de São Paulo publicou em 2023, perante a advogada Eva Petrela e os documentos selados do Tribunal de Justiça de São Paulo, tem uma data mais antiga que precisa de conhecer, uma data de 2013, quando Giovana ainda tinha 9 anos e vivia no Brasil. Em 2013, Vampeta apresentou-se ao Tribunal de Justiça de São Paulo com os advogados dele e pediu-lhes formalmente que reduzissem a pensão de alimentos mensal que pagava pelas duas filhas.
A pensão fixada depois do divórcio era de 17.500 por mês. Vampeta pediu-lhes que reduzissem para R$ 4.000 mensais, algo mais de quatro salários mínimos brasileiros da época. O argumento jurídico foi o habitual nesses casos. Vampeta argumentou que tinha baixado os rendimentos, que já não jogava futebol profissional, que dependia apenas do trabalho como comentador desportivo, que R$ 17.
500 mensais era uma cifra desproporcional aos rendimentos reais do momento. A juíza atendeu parcialmente ao pedido. A pensão foi reduzida, mas não para R$ 4.000. ficou numa cifra intermédia. E a partir desse momento, segundo os documentos judiciais públicos, Vampeta devia pagar entre R$ 8.400 e 12.
000$ mensais pelas duas filhas, dependendo do ano e do cálculo do juiz. Gabriela tinha 14 anos quando foi assinada essa redução. A Geovana tinha 10. As duas meninas souberam do procedimento judicial, segundo versões posteriores, que a própria Roberta contou ao programa Domingo Espetacular da Globo em 2024, pela própria mãe.
As duas meninas souberam, desde antes de chegarem à adolescência que o pai tinha ido a um tribunal para pagar menos dinheiro para -los todos os meses. Essa imagem, esse conhecimento, essa cicatriz silenciosa ficou gravada nas duas irmãs durante os anos seguintes. E quando 2018 começou a fase seguinte do drama financeiro entre Vampeta e a família que vivia em Miami, Gabriela já tinha 19 anos e Giovana X, as duas eram suficientemente grandes para perceber exatamente o que estava acontecendo.
E o que estava a acontecer, o que as duas irmãs estavam a ver de perto, era o início do que ia virar a maior dívida pública de pensões alimentar nunca documentada contra um pentacampeão mundial brasileiro. 18.º Vampeta deixou de pagar a pensão completa. Começou a pagar de pouco em pouco. Alguns meses pagava o que correspondia, outros meses pagava metade, outros meses pagava nada.
A primeira dívida acumulada que chegou ao Tribunal de Justiça, segundo os documentos públicos do processo, foi de R$ 61.000. 61.000€ de mensalidades atrasadas em menos de 1 ano. Roberta Soares contratou uma advogada em São Paulo, uma mulher chamada Eva Petrela. Especialista em direito da família e Eva Petrela iniciou a primeira ação judicial contra a Vampeta por incumprimento de pensão alimentícia.
A ação foi apresentada nos juizados de São Paulo e somou-se ao processo que já estava aberto desde 2013. 61.000€ em 2018. A cifra parece controlável, mas Vampeta não pagou. A cifra começou a crescer de mês para mês, os os juros se acumularam, as coimas se somaram. E em maio de 2019, exatamente na mesma semana em que o cardiologista de Miami comunicava paraa Roberta o diagnóstico de cardiomiopatia de Giovana, a dívida acumulada de Vampeta com as duas filhas, já ultrapassava os R$ 100.000.
Isto explica o segundo elemento que já referi antes. Quando a Roberta ligou ao Vampeta no final de Maio de 2019 para contar que Giovana ia precisar de um transplante de coração, Vampeta tinha aberto na justiça brasileira um processo por mais de R$ 100.000 R$ 1.000 que devia às duas filhas. Qualquer viagem aos Estados Unidos, qualquer estadia num hotel de Miami, qualquer deslocação familiar, qualquer gesto público de aproximação, podia ser utilizado no processo judicial como prova de que o pai tinha dinheiro para gastar, mas não para pagar a pensão. Aqui é onde a
história fica mais escura, porque viajar para estar 4 meses ao lado da filha em Miami era também uma decisão jurídica que podia custar caro ao pai numa sala de tribunal de São Paulo. Mas o dinheiro não era a causa mais obscura. Tinha uma terceira razão. Uma razão que nem Vampeta nem Roberta nunca falaram em público.
Uma razão que só se conhece por uma frase que a própria Roberta Soares Galiza deixou cair no programa Domingo Espetacular da Globo em 2024. A frase de Roberta, palavra por palavra, transcrita pela equipa do Domingo Espetacular e publicado também pelo portal Gom e pelo jornal O Globo, em outubro de 2024, foi essa.
Vampeta bloqueia e xinga as raparigas quando cobram a pensão. Vampeta bloqueia e chama nomes às meninas quando estas cobram a pensão. Essa frase contém três informações específicas. Primeira informação, as meninas, já adolescentes, já jovens adultas, mandavam mensagens diretas ao pai pelo telemóvel, cobrando a pensão que precisavam para viver em Miami.
Segunda informação, Vampeta não respondia a estas mensagens com amabilidade. Vampeta xingava elas. Terceira informação, quando Vampeta cansava-se das cobranças, bloqueava as próprias filhas do telemóvel dele, deixava-a sem possibilidade de contactar o pai. Esta é a terceira causa do por Vampeta não foi ao hospital de Miami em 2019.
A relação entre o pai e as filhas não estava simplesmente distante pela geografia, estava ativamente rompido. Vampeta tinha bloqueado o contacto direto e Giovana, com 16 anos e com um coração que estava falhando, sabia perfeitamente que o pai tinha-a bloqueado do WhatsApp. três elementos: casal desfeito, uma dívida judicial pendente e um bloqueio digital ativo entre o pai e as filhas.
Estes são os três motivos que explicam porque Vampeta ficou em São Paulo durante os 4 meses de espera do órgão. E estes são também os três motivos que o Brasil inteiro juntou pela primeira vez em outubro de 2024, 5 anos depois do transplante, quando rebentou a fase seguinte do drama. E aqui é onde a história torna-se obscura, porque no ano de 2022, 3 anos depois do transplante de Giovana, Gabriela e Giovana Soares, juntamente com a mãe Roberta, entraram no escritório da advogada Eva Petrela, em São Paulo, com um pedido concreto, um
pedido que Eva Petrela traduziu num documento legal apresentado ao Tribunal de Justiça de São Paulo. As duas filhas e a ex-mulher pediram oficialmente a prisão de Vampeta. A figura jurídica brasileira, que permite pedir a prisão por incumprimento de pensão alimentícia se chama prisão civil por dívida alimentar.
Na maioria dos casos do direito brasileiro, é proibido encarcerar alguém por uma dívida. Mas a pensão de alimentos é a exceção que a Constituição Federal de 1988 reconhece. Se um pai acumula 3 meses de pensão sem pagar e a dívida está reconhecida judicialmente, a mãe pode requerer a prisão civil até 60 dias de encerramento em regime fechado numa cadeia comum.
Foi isso que pediram Gabriela, Giovana e Roberta em 2022, a prisão civil do pentacampeão mundial. O pai que três anos antes não tinha apareceu no hospital de Miami durante o transplante de coração da Giovana. O mesmo pai que tinha bloqueado as meninas do telemóvel quando elas pediam o dinheiro. O mesmo pai que tinha tatuado o coração no antebraço esquerdo.
A A advogada Eva Petrela entregou o documento ao tribunal. O processo ficou em curso e enquanto a justiça analisava o pedido, a dívida acumulada de Vampeta com as duas filhas seguia crescendo de mês para mês. R$ 100.000 R 200.000 300.000 500.000. Cada zero a mais nesta cifra era mais um mês sem pagamento.
Cada zero a mais era uma manhã em que Roberta Soares acordava em Miami, sabendo que o pai das duas filhas dela continuava sem responder ao telemóvel bloqueado. E aqui há um pormenor que poucos brasileiros ligaram no momento. Quando as duas filhas e a mãe Roberta apresentaram o pedido formal de prisão civil contra o pai, Geovana tinha acabado de completar 19 anos.
3 anos antes tinha saído da UCI de Miami depois do transplante de coração. Tr anos antes tinha olhado pela primeira vez para o peito dela com a cicatriz vertical que ia levar para o resto da vida. Tr anos antes, tinha aprendido a viver com um órgão alheio a bater dentro dela. E aos 19 anos, uma das primeiras decisões legais que tomou como adulta foi assinar o documento que pedia que prendessem o próprio pai.
O mesmo pai que não tinha estado na sua cama de hospital. O mesmo pai que tinha um coração tatuado no antebraço esquerdo em homenagem a um transplante que não tinha acompanhado. Esta assinatura de Giovana Soares no documento judicial de 2022 é o primeiro ato público de uma adulta que a filha mais nova do pentacampeão mundial deixou registado no próprio nome.
Foi um papel selado num tribunal de São Paulo. Não uma foto nas redes sociais, nem um selfie. E essa assinatura foi apenas o início, porque dois anos depois a justiça brasileira ia tomar uma decisão contra a Vampeta, que nenhum penta campeão do mundo tinha enfrentado antes na história do futebol brasileiro. O processo de prisão civil não se concretizou.
Vampeta não entrou na cadeia. Os advogados dele conseguiram negociar acordos parciais, pagamentos à conta, suspensões temporárias do trâmite, mas o documento ficou arquivado no processo do Tribunal de Justiça de São Paulo e a possibilidade legal de um novo pedido de prisão civil contra o pentacampeão mundial ficou aberta a a partir desse ano e em abril de 2023, a cifra exata documentada pela própria Eva Petrela num documento judicial chegou à quantia que o Brasil inteiro leu pela primeira vez nos jornais. R$ 547.000.
Esta foi a cifra que a advogada Eva Petrela escreveu no documento judicial datado de 25 de abril de 2023. A frase exata, palavra a palavra, transcrita no documento legal e publicada depois pelo jornal Folha de São Paulo foi esta. Cumpre informar que as pensões devidas às filhas ainda se encontram em aberto no processo de execução próprio, cuja dívida ultrapassa R$ 547.000 R$ 1.
000 em 25 de abril de 2023. 547.000 € acumulados. A dívida do penta campeão mundial com as duas filhas. E ao lado dessa dívida principal outra dívida paralela que o Brasil descobriu naquele mesmo ano. E o nome dessa segunda dívida ia surpreender o Brasil inteiro, porque não vinha de um banco, nem de uma empresa falida.
Vinha de uma instituição educativa onde as duas filhas tinham sido alunas durante o infância. A escola das Castanheiras, um colégio particular da região de Alfaville, em São Paulo. O colégio que A Gabriela e a Giovana tinham frequentado durante os anos que viveram no Brasil. Vampeta tinha assinado em algum momento dos anos 2010 os contratos de matrícula das duas filhas como representante legal e em algum ponto as mensalidades deixaram de ser pagas.
A escola acumulou durante anos uma dívida das duas irmãs. A cifra exacta documentada pelo jornal O Globo em 2024 foi de R$ 294.000. R$ 294.000 em mensalidades em atraso de um colégio particular de Alpavil. E a resposta da mãe Roberta quando o portal Gum pediu que comentasse a dívida da escola, foi uma frase que define toda a situação.
A frase exata, palavra a palavra, foi esta: “A dívida da escola só existe por culpa dos atrasos das pensões. Os atrasos fizeram com que essa dívida se tornasse uma bola de neve. Esta dívida é sim, minha e dele.” A dívida judicial subiu desde R$ 547.000 em abril de 2023 para um valor ainda mais elevada no ano seguinte.
Em outubro de 2024, os jornais brasileiros publicaram a cifra atualizada, 634.613$. A dívida acumulada de Vampeta, com as duas filhas, 18 meses depois do documento de Eva Petrela, tinha crescido quase R$ 100.000 R e a justiça brasileira agiu. Em junho de 2024, o Tribunal de Justiça de São Paulo ordenou o leilão de um apartamento que pertencia à Vampeta, um apartamento no condomínio Agulhas Negras, no bairro Jardim Anália Franco, na zona leste de São Paulo.

Um bairro nobre, um edifício de classe alta, um apartamento que o pentacampeão mundial tinha comprado nos anos de auge financeiro da sua carreira e que aparecia nos registos patrimoniais como propriedade livre de hipoteca. O apartamento estava avaliado em € 800.000. Esta foi a cifra de avaliação oficial entregue ao juiz que foi colocado em leilão público para pagar parte da dívida para com as duas filhas.
O leilão foi feito em junho de 2024. Teve interessados, teve ofertas e a propriedade foi finalmente vendida por um valor muito abaixo da avaliação, 553.000, R$ 247.000 R a menos que o preço de mercado. O pentacampeão mundial perdeu o apartamento do Jardim Anália Franco por quase metade do valor e a maior parte do dinheiro do leilão foi transferida diretamente para as contas de Gabriela, Giovana e Roberta Soares Galiza em Miami como pagamento parcial da dívida judicial acumulada desde 2018.
Vampeta perdeu a propriedade e a mãe Roberta deu uma entrevista ao programa Domingo Espetacular da Globo, pouco tempo depois, já com o leilão consumado. A frase que Roberta soltou em frente à câmara do domingo espetacular, a frase que o Brasil inteiro escutou naquela noite, palavra por palavra, foi esta: “Paga a pensão quando quer, como quer e o valor que deseja”.
Paga quando quer, como quer e o valor que deseja. Mas a frase de Roberta no Domingo Espetacular ainda não era o pior que ia acontecer. Faltavam quatro frases. Quatro frases que Vampeta ia soltar em câmara dois meses depois, sem compreender que do outro lado do Atlântico, em Miami, as duas filhas iam estar a assistir a cada palavra: três velocidades de incumprimento.
Uma descrição precisa, quase clínica, de como o pentacampeão mundial vinha conduzindo a obrigação legal com as duas filhas desde 2018. A frase de Roberta chegou como uma constatação calma, sem gritos. Uma mulher a falar de Miami com a voz tranquila de quem já passou por todas as fases da raiva e chegou ao cansaço. O apartamento leiloado, a dívida acumulada, a frase de Roberta, o pedido de prisão, a advogada Eva Petrela, os R$ 634.000.
Tudo isto somado, tudo isto em cima do transplante de coração de Geovana de 2019. Tudo isto pesando sobre as duas filhas que viviam a 8.000 km do pai não chegou a explodir nas redes sociais até uma data específica. Outubro de 2024, um mês que o Brasil inteiro recorda. Porque nesse mês, num dos muitos episódios de um canal de YouTube que Vampeta tinha aberto uns anos antes, o pentacampeão mundial falou pela primeira vez em câmara sobre a situação com as duas filhas.
Falou da sua casa em São Paulo, falou com a câmara apontando para o rosto dele, falou acreditando, ao que parece que estava a fazer humor. O canal de O YouTube chamava-se Campeões da Resenha. Vampeta tinha-o aberto juntamente com outros ex-jogadores brasileiros. Conversas de futebol, casos de balneário, brincadeiras entre amigos, um formato muito popular no Brasil depois da pandemia.
Mas o episódio de outubro de 2024 foi diferente. Foi o episódio em que Vampeta disse, com a câmara a gravar e os microfones abertos, quatro frases sobre as duas filhas adultas que este mesma semana chegaram a Miami pelo WhatsApp. E aqui é onde tudo muda, porque nenhum dos amigos de Vampeta no set desse dia, nenhum dos editores que cortaram o episódio, nenhum dos produtores do canal conseguiu detê-lo antes que estas quatro frases fossem ao ar.
O canal Campeões da Resenha tinha um formato simples, um sofá, três ou quatro ex-jogadores brasileiros sentados com cerveja na mão, uma câmara central, três ou 4 horas de gravação e depois um editor cortando os melhores momentos para subirem episódios semanais no YouTube. Vampeta era um dos apresentadores fixos, conversas de balneário, casos da seleção, lembranças do Corinthians, brincadeiras entre amigos.
O episódio de outubro de 2024 começou como qualquer outro. Vampeta chegou ao set em São Paulo, sentou-se no sofá, iniciou a gravação e em algum momento da primeira hora, a conversa derivou para o tema que o ex-jogador vinha carregando há meses. A pensão alimentos, as duas filhas, o processo judicial, a dívida, o apartamento leiloado, tudo o que o Brasil já conhecia pelos jornais.
Mas desta vez, em frente à câmara do canal de YouTube, sem guião, sem filtro, sem assessor de comunicação nas proximidades, Vampeta soltou quatro frases sobre as duas filhas adultas. Quatro frases que iam explodir nas redes sociais nessa mesma semana. Quatro frases que a família Soares em Miami ia ver em menos de 48 horas porque alguém enviou o clip pelo WhatsApp.
As quatro frases, palavra a palavra, transcritas pelo jornal Terra, pelo portal Jogada 10, pelo Correio Brasiliense, pela revista Contigo e pelo portal Mixveil. Quatro fontes brasileiras independentes, quatro transcrições idênticas, quatro confirmações que nenhuma equipa legal conseguiu desmentir depois.
E dentro destas quatro frases tem uma que cruza um limite que muito poucos pais do mundo atrevem-se a cruzar em câmara na frente de milhões de espectadores. Uma frase sobre a intimidade sexual da própria filha. A filha que 5 anos antes tinha saído viva de uma sala de operações de Miami com um coração alheio a bater dentro do peito.
A primeira frase de Vampeta naquele episódio do Campeões da O Review foi um protesto financeiro. Ver batim palavra por palavra. Tem que pagar escola e pensão. Nunca vi um rapaz ter de pagar escola e pensão. A segunda frase foi um protesto sobre a idade das filhas. Verbatim. Parece que é uma criancinha a quem nunca dei nada.
Até ali, as duas frases já eram fortes. Um pai adulto em câmara a queixar-se de ter que pagar a pensão de duas filhas que já tinham 21 e 23 anos. Um pai que dentro do contexto do direito brasileiro tinha sido condenado judicialmente a pagar precisamente essa pensão até que as filhas terminassem os estudos universitários.
Um pai que para além disso, devia mais de R$ 600.000 acumulados de mensalidades em atraso. Mas o verdadeiro problema chegou com a terceira frase e depois com a quarta. A terceira frase de Vampeta nesse episódio, palavra por palavra, transcrita pelas cinco fontes brasileiras independentes, foi esta: Jadão para caramba.
Antes de Cristo, toda a gente já dava. Pós Cristo, então piorou. A frase não foi dita em privado. Não foi uma conversa entre amigos num boteco de São Paulo. Foi dita em câmara, com microfone, com luzes de sete acesas, com o operador de câmara a gravar, com a peça editada posteriormente por um editor profissional.
com a miniatura do episódio subida no YouTube, com o algoritmo do YouTube empurrando o conteúdo para milhões de telemóveis brasileiros nessa mesma semana, com notificações a chegar às casas do Rio, de São Paulo, de Salvador, do Recife e também na casa de Miami, onde viviam as duas filhas dele. Jadão para caramba. O penta campeão do mundo em câmara aberta num canal de YouTube com milhões de visualizações falando da vida sexual das duas filhas adultas como argumento moral para reduzir a pensão de alimentos.
Como se o facto de duas jovens mulheres de 21 e 23 anos terem uma vida sexual ativa justificasse em algum sentido que o pai legalmente obrigado deixasse de pagar para elas o dinheiro que o juiz tinha ordenado. A frase correu pelo WhatsApp numa questão de horas. chegou a Miami essa mesma noite.
Roberta Soares escutou primeiro, sentada no sofá da sua casa na Florida, com o telemóvel na mão e o rosto congelado. Depois mostrou às duas filhas. Gabriela escutou de pé, A Giovana ouviu sentada. As duas guardaram silêncio quando terminou o clip e o Brasil inteiro repetiu a frase nas redes sociais durante esta semana de outubro de 2024, mas faltava a quarta.
A frase que terminou ativando a resposta pública de Giovana. A frase que nem os críticos mais duros de Vampeta esperavam naquele programa, a que ultrapassou o limite final. Esta quarta frase é a que vai aparecer agora, palavra por palavra, tal como foi transcrita pelas cinco fontes brasileiras, sem corte nem censura, sem maquilhagem alguma.
A quarta frase chegou quando Vampeta quis ilustrar, com um exemplo concreto, a queixa moral dele sobre a sexualidade das filhas. E para ilustrar, em frente da câmara do canal de YouTube, decidiu contar uma suposta confidência que uma das filhas teria feito para ele numa conversa privada. transcreveu em câmara e transmitiu para milhões de brasileiros como anedota de mesa.
A frase exata, palavra por palavra, transcrita pelas mesmas fontes brasileiras, foi essa. Uma delas ainda disse-me: “Pai, tu és o meu melhor amigo. Acabei de dar àquele miúdo ontem na cama da mamã. da cama da mãe, o pentaacampeão mundial em câmara num canal de YouTube público contando que uma das duas filhas já adultas teria confessado alegadamente que tinha tido relações sexuais com o parceiro na cama da própria mãe, a cama de Roberta Soares Galiza, a mulher que tinha dormido 4ro meses numa cadeira ao lado da cama de UCI de Giovana em Miami, a mulher que
tinha assinado o primeiro documento judicial contra a Vampeta em 2018. A frase explodiu em menos de 12 horas. chegou a Miami pelo WhatsApp aquela mesma noite. As duas filhas viram juntas. A Roberta viu sozinha. E no dia seguinte, na madrugada de quarta-feira, 30 de outubro de 2024, uma das duas filhas sentou-se em frente da câmara do próprio telemóvel no quarto dela em Miami e gravou um vídeo de resposta.
Subiu o vídeo nas suas redes sociais pessoais. O vídeo foi transcrito nessa mesma manhã pelo jornal Terra do Brasil e foi confirmado palavra por palavra por todos os os meios brasileiros que cobriram a polémica naquela semana. A filha que respondeu foi Giovana, a filha mais nova, a que tinha 21 anos nessa altura, a sobrevivente do transplante de coração de 2019. Guarda esse pormenor.
A jovem que respondeu o pai foi a mais nova, não a irmã mais velha, a que tinha estado 4 meses na UCI cardíaca. A que tinha um coração novo dentro do peito. Foi ela quem pegou no telemóvel e gravou a resposta. E a primeira frase do vídeo de Giovana, palavra a palavra, transcrita pelo jornal Terra, foi este: “Vi uma polémica do meu pai a falar sobre a pensão mais uma vez, porque pelos vistos é a única coisa que ele sabe falar.
Ele disse que vai ter de pagar essa dívida e que não sabe por paga pensão, sendo que eu e a minha irmã temos 21 e 23 anos” e utilizou um vocabulário sobre nós que prefiro não repetir tal como ele falou. Geovana continuou a falar na frente da câmara com a voz tranquila, sem gritos, com a maturidade de uma mulher que já tinha passado por uma UCI de Miami aos 16 anos e já não podia ser ferida pelas palavras do pai.
A segunda parte do vídeo de Giovana foi uma explicação financeira. A filha explicou pro Brasil inteiro que a dívida da escola das Castanheiras, a dívida dos R$ 294.000, existia apenas porque Vampeta não tinha pago a pensão que tinha obrigação de pagar. A frase de Giovana sobre a dívida escolar, palavra por palavra, foi esta: “Esta treta inteira que está a acontecer a culpa é dele, mas o fecho do vídeo foi o que quebrou o Brasil inteiro, a frase final, as frases finais, o que A Giovana disse ao pai, olhando diretamente
para a câmara, sabendo que ele ia ver este vídeo, sabendo que milhões de brasileiros também iam ver as frases finais de Giovana Soares, filha mais nova do pentacampeão mundial, sobrevivente do transplante de coração de 2019, palavra por palavra, transcritas pelo jornal Terra na edição de 30 de outubro de 2024, foram estes: “Pai, se estiver ouvindo isto, quero que saiba que eu amo-te.
Não desisti de ti, nem da nossa relação. Tenho fé que talvez em 20, 15 anos abra os olhos e não perder a sua oportunidade, porque Deus deu-me a hipótese de viver de novo e de me teres de novo. E está a perder essa chance. Deus deu-me a hipótese de viver de novo. Esta frase é o fecho de toda essa história. Esta frase é a resposta de uma filha de 21 anos para um pai que tinha-a bloqueado do telemóvel, que não tinha viajado para o hospital de Miami, que não tinha assinado o registo de visitas durante os 4 meses de espera do coração, que tinha tatuado um órgão anatómico no
antebraço esquerdo sem estar na sala de cirurgia, que tinha lutado na justiça brasileira para reduzir a pensão, que tinha acumulado R$ 634.000 R$ 1000 em dívida, que tinha permitido o leilão de um apartamento no bairro Jardim Anália Franco por metade do valor, que tinha falado em câmara na frente de milhões de brasileiros da suposta vida sexual da filha que tinha sobrevivido a um transplante de coração aos 16 anos.
E A Giovana, com tudo isto em cima, com o peso de 6 anos de distância e de palavras públicas e de bloqueios digitais, disse ao pai por vídeo: “Te amo, não desisti, espero por ti. 15 anos”. 20 anos, Deus deu-me a hipótese de viver de novo e está a perder a chance de me ter. Imagina por momentos que age fosse da sua própria família.
Imagina por momentos que uma jovem de 21 anos com um coração transplantado mandasse essa mesma mensagem para o pai dela. Imagina por momentos que este pai fosse você, a filha do recôncavo baiano, a neta dos avós baianos que Vampeta deixou para trás quando subiu para o primeiro autocarro para Salvador aos 14 anos.
a adolescente que esteve 4 meses ligado a uma bomba mecânica em Miami, a sobrevivente do transplante. Essa mesma filha falou com o pai com uma palavra que poucos brasileiros esperavam escutar. Misericórdia. Misericórdia. Esta foi a palavra que uma jovem de 21 anos, com o coração transplantado, conseguiu enviar para um pai que tinha bloqueado ela do telemóvel.
E essa palavra é o resumo de toda a vida de Marcos André Batista Santos. 13 de março de 1974, Nazaré das Farinhas, Baía. Nasce Marcos André Batista Santos, numa casa de tijolo, sem acabamento do recôncavo baiano, filho de uma família humilde, quinto de cinco irmãos, rapaz calado, menino que se sentava no portão ao entardecer para olhar os miúdos do bairro chutarem uma bola.
3 de julho de 2002, Brasília, Palácio do Planalto. O mesmo homem com 28 anos desce a rampa do palácio presidencial, dando cambalhotas perante 30 milhões de brasileiros a ver pela Globo. A imagem mais recordada da sua carreira, o penta campeão do mundo, o ídolo do Corinthians. 30 de outubro de 2024, São Paulo. O mesmo homem com 50 anos sentado na frente de uma câmara de um canal de YouTube na própria casa, a ouvir um vídeo que a filha mais nova enviou de Miami.
Uma filha que sobreviveu ao transplante de coração. Uma filha que fala-lhe pela tela: “Você está perdendo essa hipótese”. 50 anos entre o portão da Nazaré das Farinhas e a tela do telemóvel de São Paulo. 50 anos entre o menino calado e o pai a quem a filha pediu misericórdia por vídeo. 50 anos entre o miúdo que olhava os outros chutarem a bola e o penta campeão mundial, que agora olha para o vídeo da filha que sobreviveu pelo milagre de um órgão alheio.
E o que resta de tudo isto no fim foi uma única questão que o Brasil inteiro guardou em silêncio. Como é que um pentaacampeão do mundo chega aos 50 anos, precisando que a filha mais nova com um coração transplantado, lhe ensine o que significa amar? 50 anos. E entre os dois extremos, um campo do PSV com Ronaldo Nazário ao lado, um Mundial de Clubes com o Corinthians, um Penta com a seleção brasileira, uma rampa do Palácio do Planalto com cambalhotas, um Inter de Milão a que chamou bidone, um Flamengo onde disse finge que paga e eu finjo que jogo. Uma mulher baiana
chamava Roberta Soares Galiza, duas filhas, um divórcio, uma mudança para Miami. Uma chamada do final de maio de 2019. 4 meses de UCI cardíaca. Um transplante bem-sucedido em setembro. Uma tatuagem de um coração no antebraço esquerdo. Uma disputa judicial por R$ 61.000, depois por R$ 547.000, depois por R$ 634.000.
Um apartamento leiloado no Jardim Anália Franco, um canal de YouTube, quatro frases imperdoáveis e uma filha de 21 anos a responder: Deus deu-me a chance de viver de novo e está a perder a chance. A história de Vampeta não é uma história sobre um jogador de futebol, é uma história sobre um pai, sobre a distância que um homem adulto pode colocar entre ele e as próprias filhas quando deixa de olhar para dentro.
Sobre as palavras que um pai pode soltar numa câmara sem compreender que do outro lado do Atlântico tem uma filha de 21 anos que sobreviveu a um transplante de coração e que ainda espera. Sobre o silêncio impressão digital de um telefone bloqueado. Sobre uma tatuagem no antebraço esquerdo que não substitui uma visita ao hospital e sobre algo mais.
Sobre o milagre de uma filha que conseguiu dizer ao pai que a bloqueou do telemóvel uma única palavra. Misericórdia. 15 anos. 20 anos. Eu espero por ti. Você que está a assistir isto da sua sala, depois de um dia de trabalhar com a televisão ligada ou o telemóvel na mão, pensa por momentos em alguém da sua própria família.
Uma filha, um filho, um pai, uma mãe, alguém que esteja longe, alguém com quem faz meses não fala, alguém que talvez bloqueou ou que o bloqueou a si. Se esta história fez-te pensar em alguém da a sua própria família, envia uma mensagem hoje, não amanhã, hoje. E inscreve-se no canal se quer que continuemos contando as histórias que mais ninguém se atreve a contar.