O vendedor chamava-se Ricardo. Era novato na área de vendas de instrumentos. Tinha começado a trabalhar naquela loja fazia apenas 3ês meses e tinha desenvolvido o mau hábito de julgar os clientes pela aparência física e tentar empurrar produtos mais baratos para quem ele achava que não tinha dinheiro para gastar em equipamento profissional.
Quando viu Lan entrar de t-shirt velha desbotada com algumas manchas e ténis gastos com o sola já a separar em alguns pontos, assumiu automaticamente que era alguém que estava a começar a tocar guitarra agora como hobby e que ia assustar-se com o preço das cordas profissionais importadas de qualidade. por isso, sugeriu as guitarras de principiante em promoção, pensando que estava a ser prestável e fazendo uma melhor venda pro cliente, sem imaginar nem por um segundo que estava a falar com um dos guitarristas mais respeitados e
tecnicamente preparados de todo o país. O Tin tinha ouvido a conversa toda lá do fundo da loja, sem perder uma palavra, porque o espaço era pequeno e estreito, e a acústica levava o som perfeitamente de um lado para o outro. E quando escutou aquela parte das guitarras para principiante, não conseguiu ficar quieto de jeito nenhum.
Tin largou o baixo que estava a testar de volta no suporte fixado à parede. Caminhou até à frente da loja onde Lan e Ricardo estavam parados no balcão principal e ficou do lado do Lan, com os braços cruzados, a olhar para o vendedor com aquela cara dele que não deixava qualquer dúvida, que estava irritado com o que tinha presenciado.
Ricardo reconheceu Tim na hora porque o seu rosto aparecia na TV e revista todas as semanas e a expressão mudou completamente em questão de segundos. passou de superior e confiante para nervosa e assustada, percebendo que tinha feito alguma asneira. Tin perguntou directamente, sem rodeios nem educação. Sabe quem é essa pessoa que acabou de chamar de principiante e oferecer guitarra barata de promoção? Ricardo abanou a cabeça que não com os olhos arregalados e Tin continuou.
Esse é o Lani Gordin. Ele tocou guitarra em mais discos importantes da MPB nos últimos 10 anos do que vai ouvir na vida inteira. Mesmo que viva até aos 100 anos de idade, quando gravo um disco e preciso de um guitarrista a sério que não vai errar nada e que percebe do assunto, chamo-o sem pensar duas vezes.
Agora explique-me uma coisa com sinceridade. Você julgou-o por causa da roupa velha e do ténis furado ou porque achou que toda a gente que entra aqui vestido simples é amador que não sabe nada de música? O Ricardo ficou vermelho até à raiz do cabelo, olhou para o chão sem conseguir manter o contacto visual e tentou explicar gaguejando.
Desculpa, Tim. Não sabia que ele era famoso. Eu só pensei que pela roupa. O Tim cortou-o a meio da frase sem deixar terminar. Achou o que exatamente? Que roupa velha significa automaticamente que a pessoa não sabe tocar? que todo o mundo que entra aqui sem relógio caro no pulso é amador que acabou de comprar a primeira guitarra.
O Ricardo balbuciou alguma coisa incompreensível sem sentido, tentando justificar-se. E Tim continuou com voz firme. Eu entro em loja todos os dias vestindo calções e chinelo. Pá, se me visses na rua sem me reconhecer pelo rosto, ia-me oferecer violãozinho de brinquedo também, achando que eu não sei diferenciar uma corda da outra.
Lan, que tinha ficado quieto a observar a situação se desenrolar, colocou a mão no ombro do Tim e disse calmamente, tentando amenizar: “Deixa lá isso, Tim. Tudo bem, acontece sempre, eu já estou habituado. Mas não estava com vontade nenhuma de deixar para lá, porque aquilo não era sobre o Lan, especificamente como pessoa, era sobre todo o músico bom e competente, que já tinha sido tratado como lixo por gente que julga pela embalagem em vez de ouvir o conteúdo.
O gerente da loja, um homem com cerca de 50 anos chamado Marcelo, que ali trabalhava há 20 anos, tinha ouvido o confusão vinda do balcão e veio a correr da sua sala, ao fundo, onde estava fazendo o inventário. Reconheceu Tim na hora porque já tinha vendido o equipamento para ele algumas vezes, cumprimentou respeitosamente e perguntou o que estava a acontecer com expressão preocupada.
Tin explicou toda a situação com calma, mas firmeza. Falou sobre como o Ricardo tinha julgado o Lan pela roupa sem sequer perguntar nada. Tinha oferecido guitarra de principiante para o gajo que gravou com praticamente toda a MPB brasileira nos últimos anos. Marcelo olhou para o Ricardo com uma expressão que misturava decepção profunda e raiva contida, tentando não explodir na frente dos clientes, e disse com voz controlada: “Ricardo, tu estás aqui há três meses apenas.
Eu expliquei-te no primeiro dia de trabalho que nós atende a todos com o mesmo respeito. Não importa como a pessoa está vestida ou que carro ela conduz. Ricardo tentou se defender com voz trémula, mas eu não sabia quem era. Nunca o vi na TV, nem em revista I. Marcelo cortou em seco. E isso interessa alguma coisa? Você só trata bem quem aparece na TV e em revista? E se fosse um músico anónimo que toca todos os fins de semana em bar? Merecia ser humilhado e menosprezado também.
Só porque não conhece o rosto dele? Lan falou finalmente com aquela sua voz calma que nunca subia o tom mesmo em situação tensa. Olha, eu percebo o lado do rapaz aqui. Eu realmente não sou famoso mesmo. Não apareço num programa de TV, não dou entrevista. A maioria das pessoas não sabe quem eu sou e está tudo bem com isso. Olhou diretamente para o Ricardo com expressão grave e continuou.
Mas o problema não é não me reconheces, isso é o de menos. O problema é que decidiu que não sabia tocar antes de me ouvir tocar uma única nota na vida. Julgou a minha habilidade musical pela minha roupa velha, pelo meu ténis furado consolado separando. Isto é preconceito puro e simples, pá. Você nem perguntou que tocava, quanto tempo tocava.
Que tipo de música fazia? Nada disso. Apenas olhou e concluiu que eu devia ser iniciante. O Ricardo estava com os olhos marejados neste ponto, percebendo a dimensão gigante da asneira que tinha feito com aquele julgamento superficial. E Tim aproveitou para reforçar a lição. E sabe o que é ainda pior? Enquanto estavas oferecendo guitarrinha barata de promoção para o Lani aqui, eu estava ali no fundo da loja testando baixo, sem ninguém me incomodar ou oferecer nada.
Sabe porquê? Porque eu estou vestido de preto. Tenho cara de roqueiro. Você me reconheceu pelo rosto que aparece na TV. Mas se eu tivesse entrado aqui do mesmo forma como o Lan entrou, de t-shirt velha e chinelo gasto, tinhas feito exatamente a mesma coisa comigo. Tinha me julgado e oferecido instrumento de brinquedo. O Tim pegou no jogo de cordas.
Ernball, calibre 10, que ainda se encontrava em cima do balcão à espera, olhou para o Marcelo e disse com autoridade: “Eu pago estas cordas para o Lan aqui e quero que que lhe dê um desconto de 20% em qualquer compra que ele faça nessa loja para os próximos 6 meses, como pedido de desculpas formal da loja toda pelo tratamento.
” Marcelo concordou imediatamente sem hesitar. Pediu desculpas formais pro Lani, em nome da loja inteira e de toda a equipa e prometeu que ia ter uma conversa muito séria com o Ricardo sobre o atendimento ao cliente e respeito profissional. Ricardo, ainda vermelho e envergonhado com a situação, olhou para o Lanidos e disse com voz trémula: “Senhor, peço- desculpas de verdade mesmo.
Foi muito idiota e imaturo da minha parte julgar assim. Tenho muito que aprender ainda sobre este trabalho e sobre respeitar as pessoas. Lan acenou com a cabeça que aceitava o pedido de desculpas sem guardar rancor, mas deixou claro com firmeza. Aprende rápido, miúdo. Por que a próxima pessoa que julgar errado pela aparência pode não ter o Tim Maia aqui ao lado para te ensinar a lição na hora e vai perder cliente bom e respeito da comunidade musical.
O Tim pegou no cabo novo que tinha ido buscar originalmente. Marcelo colocou num saco de papel junto com as cordas do Lani, que Timo como gesto de solidariedade, e os dois saíram da loja juntos, caminhando lado a lado. Quando chegaram à calçada da Galeria do Rock com o movimento habitual, Lancera e disse: “Meu, não precisavas de ter feito aquele showzinho todo lá dentro.
Eu estava de boa com a situação. Já passei por isso antes. O Tin parou de andar, olhou-o sério, sem sorrir. Lan, estavas de boa precisamente porque já tá demasiado habituado a ser tratado assim. E é esse o verdadeiro problema aqui. Ninguém devia habituar-se ao desrespeito só porque não é famoso da TV.
Você gravou disco importantíssimo com a Elis Regina. Porra, há gente séria no meio musical que te respeita mais do que me respeita a mim e com toda a razão do mundo. Só porque não aparece na TV todas as semanas não significa que vale menos como músico ou como pessoa. Lan ficou quieto durante uns segundos, processando aquilo com cuidado, e depois disse com voz emocionada: “Obrigada, Tim, de verdade mesmo.
Não é todos os dias que alguém bate o pé assim, defendendo-o à frente de todos, sem se preocupar com o que vão pensar.” Os dois apertaram a mão com força. Lan seguiu para o estacionamento onde tinha deixado o carro. E Tin ficou ali parado no passeio, fumando um cigarro e pensando em quantos músicos incrivelmente fodas existiam no Brasil inteiro, sendo tratados como lixo todo o dia, só porque o rosto deles não aparecia numa revista ou programa de TV.
Marcelo chamou Ricardo ao escritório dele nas traseiras da loja assim que Tin e Lan saíram. Fechou a porta e teve uma conversa de quase uma hora sobre respeito e sobre como julgar as pessoas pela aparência era a forma mais rápida de perder clientes valiosos. explicou que a loja sobrevivia não só das vendas grandes, mas da reputação entre os músicos profissionais e que um guitarrista como Lan Gordin, a falar mal da loja para os colegas, podia significar perder dezenas de bons clientes ao longo dos meses.
O Ricardo ouviu tudo cabis baixo, pediu desculpas novamente e prometeu que ia mudar completamente a abordagem. Nos meses seguintes, Ricardo realmente mudou. começou a tratar todo o cliente com o mesmo respeito, independentemente da roupa. Passou a perguntar sobre a experiência musical da pessoa antes de sugerir qualquer produto.
E sempre que via alguém vestido simples a entrar na loja, lembrava-me da cara do Tim Maia, olhando-o com decepção. Marcelo não despediu o rapaz porque acreditava que erro ensina quando a pessoa quer aprender. E o Ricardo provou que queria. Lan voltou àquela loja algumas vezes nos meses seguintes para comprar cordas, palhetas, cabos e era sempre atendido com o máximo respeito por todos, inclusive pelo Ricardo, que fazia questão de o cumprimentar pelo nome e perguntar como estavam os projetos musicais. O Tim também voltou lá
eventualmente e numa dessas vezes cruzou com o Lan por acaso. Os dois deram riso lembrando o episódio e Lan comentou que o Ricardo se tinha tornado outro vendedor completamente diferente. O Tin ficou satisfeito sabendo disso. Disse que todos merecem chance de arranjar as próprias merdas quando reconhece o erro.
A amizade entre Tim e Lan, que já existia antes desse dia, ficou mais forte depois daquilo, porque Lan nunca se esqueceu que Tin tinha parado o que estava a fazer para o defender publicamente, sem ganhar nada com isso, só por uma questão de princípio e de respeito entre músicos. Alguns anos depois, quando Lan estava a montar a banda para gravar um novo disco, chamou Tim para cantar numa faixa específica que precisava daquela voz sou característica.
Tin aceitou de imediato, sem nem perguntar quanto ia ganhar. Foi pro estúdio, gravou em dois takes porque já saiu perfeito. E quando Lan tentou pagar ele, Tin recusou, dizendo: “Considera isto como retribuição por todas as vezes que salvou os meus discos com aquela guitarra foda-se?” Nós os dois continuaram a trabalhar juntos esporadicamente ao longo dos anos, sempre com respeito mútuo profundo.
E sempre que algum músico jovem perguntava ao Lan sobre como era trabalhar com Tim Maia, contava aquela história da loja na galeria do rocha. Não para dizer mal do Ricardo, mas para mostrar que Tim era o tipo de pessoa que defendia os outros, mesmo quando não tinha obrigação nenhuma de fazer isso. Esta história ensina-nos que julga as pessoas o tempo todo pela aparência.
e pelo quanto parecem valer na sua cabeça e ignora completamente o que realmente são por dentro. Vê alguém de roupa simples e automaticamente assume que essa pessoa não tem conhecimento, não tem experiência, não tem valor. Olha pro colega de trampo que veste t-shirt velha e chinelo e decide que ele não pode ser bom naquilo que faz, enquanto trata diferente o rapaz de fato, que pode ser incompetente, mas veste-se bem e você faz ainda pior.
Usa essa primeira impressão superficial para decidir quanto respeito vai dar à pessoa, quanto atenção vai prestar, quanta paciência vai ter. Mas a verdade é que a roupa não diz absolutamente nada sobre habilidade, sobre o conhecimento, sobre caráter. O técnico que repara o seu computador pode ter estudado mais do que você.
O entregador que traz a sua comida pode ter três diplomas guardados em casa. O músico de roupa velha pode ter gravado com as maiores lendas do país. E quando julga pela embalagem, você perde a hipótese de conhecer conteúdo valioso. Afasta pessoas que podiam ensinar-te algo. Você constrói reputação de ser raso e preconceituoso. Então para de olhar apenas para a superfície das pessoas.
Trata toda a gente com respeito básico, não porque a pessoa pode ser famosa disfarçada, mas porque todo o ser humano merece ser tratado com dignidade, independentemente do que veste, do que dirige ou de onde vive. E se trabalha com público, com vendas, com atendimento, aprende logo que o seu trabalho é servir as pessoas, não as julgar, porque um dia vai julgar mal e pode não ter ali uma equipa Maia para te ensinar a lição.
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