Como um PARAPLÉGICO Virou o Melhor Jogador do Mundo

2 de Dezembro de 2007. Paris, sete da revista France Football, cerimónia da bola de ouro. Ricardo Ixon dos Santos Leate, conhecido em todo o planeta como Kaká, recebe 444 votos mais do que Cristiano Ronaldo, mais que Messi, mais que qualquer outro jogador do mundo nesse ano, aos 25 anos.

e ele é oficialmente o melhor jogador de futebol do mundo. Naquele mesmo ano, ganhou também o prémio FIFA World Player. Foi campeão da Liga dos Campeões, mundial de clubes, melhor marcador da Champions, eleito melhor médio da Europa e ele é o último brasileiro a fazê-lo. 19 anos depois, em 2026, nenhum outro brasileiro conseguiu repetir o feito.

Nem Neymar, nem Vini Júnior, nem Rodrigo. Kaká é o último bola de ouro do Brasil. Mas o número absurdo mesmo não é nenhum desses. O número absurdo é que este tipo 7 anos antes daquela noite em Paris estava deitado numa maca de hospital com a sexta vértebra cervical fraturada, ouvindo do médico uma frase que destruiria a vida de qualquer pessoa.

Tinha 18 anos, fraturou a coluna descendo um escorrega aquático em Caldas Novas, no interior de Goiás. bateu com a cabeça no fundo da piscina, o pescoço virou e o que estava em causa naquele momento não era carreira de jogadores de futebol, era a possibilidade de continuar andando.

Para perceber como um miúdo que praticamente ficou paraplégico aos 18 anos, tornou-se o melhor jogador do mundo aos 25 e como é hoje o último brasileiro a tocar numa bola de ouro, a gente precisa de voltar para outubro de 2000 para um fim de semana de descanso para 1 mm entre andar e ficar de cama para sempre.

22 de Abril de 82, Gama, Distrito Federal. Nasce Ricardo dos Santos Leite, filho de Boscoon Pereira Leite, engenheiro civil, e de Simone dos Santos, professora primária. Casa estruturada, casa com livros, casa com salário fixo no final do mês, diferente do tudo o que este canal já contou aqui. Enquanto Garrincha cresceu em Pau Grande com 16 irmãos numa casa pobre, Ricardo cresceu em Brasília, sendo levado para escola por carro.

Era classe média brasileira, família estável, pais juntos e uma característica que ia marcar a vida dele inteira. A família era evangélica praticante, frequentavam a igreja Renascer em Cristo, em São Paulo. Desde os 12 anos que Ricardo era ungido naquela igreja. A fé fazia parte da casa. Quando tinha 7 anos, a família tornou-se mudou-se para São Paulo.

O pai foi trabalhar noutro projeto de engenharia e foi numa escola comum de São Paulo a jogar futebol da escola que cachamou a atenção de um olheiro do São Paulo Futebol Clube. Aos 8 anos, entrou na base de São Paulo e aí permaneceu durante 10 anos quase a tornar-se jogador profissional, [música] quase a chegar lá.

Faltavam meses para realizar o sonho. E depois, num qualquer fim de semana, em outubro de 2000, um fim de semana que era para ter sido apenas descanso. Tudo desabou numa fracção de segundos numa decisão besta de miúdo, numa descida do toboago que poderia ter encerrado para sempre a história deste rapaz antes dela começar.

Outubro de 2002, Caldas Novas, interior de Goiás, cidade conhecida pelas águas termais. Os avós paternos de Kaká moravam ali. Aquele fim de semana ia ser de descanso. Kaká já estava na equipa sub-20 do São Paulo, a última categoria antes do profissional. Era titular, estava prestes a ser promovido.

Faltavam poucos meses, mas naquele final de semana tinha tomado o terceiro cartão amarelo num jogo e estava suspenso. A família decidiu visitar os avós em Caldas Novas, apanhou-o, o irmão e levou-o para o parque aquático da cidade. Kaká tinha 18 anos. O irmão era mais novo. Começaram a brincar no Toboágua, um daqueles toboáguas comuns de parque aquático.

Kaká desceu várias vezes, subiu, desceu, subiu, desceu, normal. Até que numa daquelas descidas resolveu descer de frente, de cabeça. A piscina não tinha profundidade suficiente. Bateu com a cabeça no fundo. O pescoço virou-se para trás de um maneira que não devia. Sentiu uma pontada absurda. saiu da piscina, não conseguia mexer direito, foram a correr para o hospital e depois veio o diagnóstico, fratura da sexta vértebra cervical.

Para quem não conhece a anatomia, é o seguinte: a coluna cervical tem sete vértebras, desde a base do crânio até ao pescoço. A sexta vértebra fica mesmo no meio. É exatamente a região onde quando a vértebra fratura, a medula geralmente é comprimida e a pessoa fica tetraplégica ou paraplégica. E aí o médico no hospital disse a frase que ia mudar a vida do Kaká para sempre.

Quando perguntou quando poderia voltar a jogar, o médico respondeu: “Ricardo, há calma. Não é dia para fazer esta pergunta, é dia para agradecer, porque na maioria destes casos as pessoas não voltam a andar”. Nesse momento, Kaká não estava mais perto de se tornar jogador profissional, estava mais próximo de tornar-se paciente de cadeira de rodas pro resto da sua vida.

Os dois meses seguintes, com Kaká deitado de colete cervical, sem poder treinar, sem poder jogar, sem poder fazer praticamente nada, foram o teste mais difícil da vida deste gajo. Não foi só a fisioterapia, foi a reconstrução total. E a única coisa que o sustentou naquele período foi a coisa que tinha sido plantada na sua vida desde criança.

Durante dois meses, Kaká usou o colete cervical. Não podia mexer o pescoço, tinha de estar mobilizado. A medula tinha sido comprimida, mas não rompida. E esse era o pormenor técnico que o separava de uma cadeira de rodas. Por sorte ou por algo mais, dependendo do que acredita. E ele tinha de esperar. Esperar para saber se a carreira que parecia certa com 18 anos ainda existia.

E é aqui que a igreja Renascer em Cristo, onde frequentava desde os 12 anos, entrou como estreito emocional dele. A família inteira rezava. Os pastores da igreja iam visitar o hospital, os irmãos, os primos, os amigos, todos passaram a tratar Kaká com o projeto de fé. Se ele voltasse a andar, ia ser o milagre. Se voltasse a jogar, dois milagres.

E ele voltou a andar lentamente, com fisioterapia, com paciência. Em dois meses, conseguiu tirar o colete, voltou a treinar ligeiro, voltou a correr e depois, no momento em que talvez nem ele próprio esperasse, voltou a pontapear bola. Em Janeiro de 2001, três meses depois do acidente, Kaká voltou a treinar no CT do São Paulo, sem sequelas, sem dor permanente, sem limitação, andar como antes, correr como antes, jogando como antes.

Os Os médicos, segundo o próprio Kaká, não tinham explicação científica para aquilo. Era uma fratura do cesto cervical. Em condições normais, a maioria dos doentes ficariam com défic motor permanente. Ele não ficou com absolutamente nada. E depois, três meses depois de quase ter virado o tetraplégico, Kaká foi promovido à equipa profissional de São Paulo. Tinha 18 anos.

E aquela estreia e o que aconteceu nas semanas seguintes com aquele miúdo de 18 anos a vestir a camisola do time profissional do São Paulo é o tipo de história que parece inventada. Primeiro de fevereiro de 2001, Kaká com 18 anos faz a sua estreia no profissional do São Paulo. Mas não foi uma estreia épica. Foi pela terceira ª jornada da fase de grupos do torneio Rio São Paulo contra o Botafogo.

No Morumbi quase vazio, apenas 2020 pagantes. Empate a uma bola, jogo morno. Kaká entrou no segundo tempo no lugar do médio Fabiano. Não marcou, não se destacou particularmente. Os jornalistas Os brasileiros mal repararam no nome do miúdo. Era apenas mais um menino da base entrando para ganhar minutos. Mas seis dias depois, num clássico frente ao Santos, para a primeira fase do mesmo torneio, marcou o primeiro golo da carreira profissional, vitória do São Paulo por 4-2.

O nome Kaká começou a aparecer nos cadernos desportivos e o São Paulo com aquela seleção de miúdos da base foi avançando no torneio. 7 de Março de 2001, mais de 70.000 adeptos no Morumbi. Final do torneio Rio São Paulo, jogo da 2ª mão. O São Paulo já tinha ganho o jogo da primeira mão no Maracanã por 4-1, pelo que só precisava de não perder por mais de três golos para ser campeão.

Mas logo aos 5 minutos do primeiro tempo, o Botafogo inaugurou o marcador. Donizet Pantera marcou Botafogo 1, São Paulo 0 e todo o Morumbi silenciou. No segundo tempo, o técnico Vadão fez a substituição que mudaria tudo. Tirou o médio Fabiano, colocou o Kaká com a camisola 30 e depois em 2 minutos o miúdo fez história.

Aos 34 minutos da segunda tempo, recebeu o passe à entrada da área, dominou e bateu. Golo! Empate! 1 a 1. Aos 36 minutos da segunda parte, 2 minutos depois recebeu de França, encarou o defesa, soltou a perna, golo de viragem, golo do São Paulo. Três meses antes, estava no hospital a ouvir do médico que talvez nunca mais andasse direito.

Naquela noite tinha sido coroado como um menino prodígio do futebol brasileiro. A partir dessa final, tudo mudou rapidamente. Em 2002, apenas um ano depois, Kaká foi convocado para a seleção brasileira do Campeonato do Mundo. aos 20 anos e o que aconteceu nesse Mundial deu a Kaká uma medalha que muita gente esquece que ele tem.

2002, Campeonato do Mundo do Japão e Coreia do Sul. Kaká, aos 20 anos de idade, jogou apenas 25 minutos do torneio inteiro contra a Costa Rica na vitória por 5-2. Era reserva de Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Fenómeno, o trio R que faria história daquele Mundial. Mas quando o Brasil venceu a Alemanha na final por 2-0, o Cacaus 20 anos chegou ao topo do mundo, penta campeão do mundo.

Em 2002, dominou o futebol brasileiro. Bola de ouro do Brasileirão pela revista Placar. O São Paulo terminou em primeiro lugar na primeira fase, mas nos quartos foi eliminado pelo Santos. E aí surgiram os primeiros atritos do miúdo com a torcida. Alguns adeptos passaram a culpar Kaká pelos resultados.

Apesar dos títulos, apesar do Campeonato do Mundo, apesar do prémio individual, era altura de sair. Os olhos da Europa começaram a apontar para ele, mas o clube que apanhou o Kaká não foi dos grandes que todos esperava. Maio de 2003, o Milan acabava de vencer a Liga dos Campeões sobre a Juventus em Old Trafford, na final que foi decidida nos penáltis.

Era a melhor equipa do mundo. Tinha o Maldini, o Pirlo, o Sidorf, Tevichenko, Cafu, Diden, Izague, Rui Costa, Rivaldo e o treinador Carlo Ancelotti. O Milan queria reforçar o meio e aí foi que o brasileiro Leonardo, ex-jogador que ocupava um cargo na direcção do clube italiano e que tinha sido companheiro de Kaká no São Paulo, fez a ponte.

Ah, mas a negociação foi rodeada de drama. Ancelot no início foi contra. A equipa já tinha ganho a Liga dos Campeões, para quê mexer? Mas Leonardo insistiu e o Milan fechou. 8,5 milhões de euros. Foi esse o valor que o O Milan pagou pelo Kaká. Em 2023, 20 anos depois, a ESPN classificou esta contratação como uma das maiores barganhas da história do Milan, porque o Milan ia revender o Kaká 6 anos depois, por 67 milhões de euros ao Real Madrid.

E quando o Kaká chegou a Milão com 21 anos, estava à espera de ser reserva. Era o que toda a gente dizia, vai entrar no banco, vai aprender, num ou dois anos ganha espaço. Só que o que aconteceu era o exato oposto. Logo no primeiro jogo da época, estava em campo e os dois tipos que ele tinha tirados da equipa eram dois ídolos do futebol mundial.

Kaká chegou ao Milan em Agosto de 2003, recebeu a camisola 22 e foi escalado pela primeira vez já no início da temporada. Anchelotte queria testar o miúdo, mas o que aconteceu na estreia chocou toda a gente. Primeira ª jornada da Série A 20032004. Milan contra Ancona, fora de casa. Ancelote olhou para o elenco e escalou o Kaká titular.

Deixou Rui Costa e Rivaldo no banco. Rui Costa era o português, capitão da seleção portuguesa e ídolo da adeptos do Milan. Rivaldo era brasileiro, ex-Bcelona, ​​ex-bola de ouros de 99. Os dois suplentes, o miúdo de 21 anos titular. Resultado, Milan 2-0 Ancona. Golos de Chevchenko e Kaká fez um jogo que ficou marcado. O Capuchinho no meio-campo, dribles e assistência indireta.

A partir dali, ele simplesmente não mais saiu da equipa titular. Na sua primeira temporada, em 200324, foi a titular absoluta, 10 golos na Série A, conquistou o campeonato italiano, o escudeto, conquistou a Super Coperop de 2003. A claque do Saniro adorou. Ele era o Rick, o brasileiro humilde, evangélico, casado virgem, que não fazia escândalo, não festejava demais, não dava polémica.

Diferente dos brasileiros que tinham passado pelo Milan antes, era o antiadriano, era o antiobinho, era o antionaldinho gaúcho, era um tipo que ia à igreja antes dos jogos, que rezava antes de bater penálti, que escrevia Deus é fiel na chuteira e que jogava a bola de uma forma que ninguém em Itália jogava. E depois veio a época que marcaria para sempre a história de Kaká, a época em que ele tornou-se simplesmente o melhor jogador do mundo.

E o ponto alto desta temporada não foi nenhum dos títulos. Foi uma série de noites em Glasgow, Manchester e Atenas, todas numa única competição, a Liga dos Campeões. A época de 200627 foi a época definidora da carreira do Kaká. Tinha 24 anos. O Milan tinha acabado de perder a final da Champions em 2005 para o Liverpool. Nessa final, o O Milan abriu 3-0 no primeiro tempo e o O Liverpool empatou a três bolas nos últimos 15 minutos.

Acabou por perder nos penaltis. Foi o trauma da carreira do Kaká. Tinha sido o melhor assistente da Liga dos Campeões e ainda assim viu a taça escapar. Já em 200627, o Milan voltou a chegar à final da Champions. Adivinha contra quem? Liverpool outra vez. Final em Atenas, na Grécia, em 23 de Maio de 2007. Mas para chegar lá, o Kaká marcou golos que entrariam para a história.

Nos oitavos contra o Celtic da Escócia, o Milan empatou a zero a 0 fora. Na volta em San Ciro, jogo travado até aos 90 minutos, 0-0. Estava indo para prorrogação. Aos 93 minutos, três golos nos descontos. Kaká foi acionado no contra-ataque, dominou na entrada da área e bateu. Golo! 1 a 0, classificação. Nas meias-finais, o adversário foi o Manchester United, clube de Cristiano Ronaldo, que nessa ª temporada era estrela emergente do futebol mundial.

Jogo de ido em Old Trafford, Manchester 3, Milan 2. Os dois golos do Milan foram do Kaká. Jogo de volta em Saniro, Milan 3, United 0. Golos de Kaká, Sedorf e Guilardino, agregado 5 a 3 para o Milan. Cristiano Ronaldo, futuro bola de ouro, regressou a Manchester carregando uma derrota que ele próprio, anos mais tarde descreveria como uma das mais dolorosas da carreira.

E na final, em Atenas, Milan 2-1 Liverpool. Gols de Felipe Inzag e Dirk descontou aos 89. Kaká não marcou na final, mas foi eleito o melhor jogador da decisão e mais importante, foi o goleador da Liga dos Campeões com 10 golos na campanha. E o resto de 2007 foi domínio absoluto. Supertaça Europeia, Mundial de Clubes, eleito melhor jogador da Liga dos Campeões pela UEFA, melhor jogador do mundo pela FIFA em 2007 e bola de ouro em 2007.

444 votos à frente de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. E depois, naquela noite de Paris, em dezembro de 2007, com 25 anos, Kaká levantou a bola de ouro, o último brasileiro a fazê-lo. 19 anos depois, ainda nenhum outro brasileiro repetiu esse feito. E toda a gente sabe a história do que fez depois.

Mas para quem cresceu a ver o Kaká jogar e para quem viu de perto a curva absurda dele entre o acidente e o topo do mundo, havia um detalhe simbólico ainda mais forte. Naquele momento de Glória Máxima. O jogador que quase tinha ficado paraplégico 7 anos antes, pegou no seu troféu de melhor jogador do mundo, levou para São Paulo e expôs-no dentro da sede da Igreja Renascer em Cristo com o agradecimento, como cumprimento de promessa.

Não tinha dúvidas do que ele atribuía aquele troféu, mas infelizmente o auge não dura para sempre. E nos dois anos seguintes, aquela noite da bola de ouro, uma combinação de fatores que ninguém previu começou a fazer com que Kaká ia lentamente perdendo a explosividade que ele tinha. E o destino dele depois de 2009 já não seria a glória, seria uma sequência de problemas físicos que se ligariam simbolicamente com aquela cirurgia da coluna lá nos anos 2000.

Em Janeiro de 2009, o Manchester City fez uma oferta absurda pelo Kaká, noticiada pela BBC como mais de 100 milhões de libras. O Milan aceitou, Kaká recusou. A torcida do Milan fez vigília em frente à casa dele em Milão, para o convencer a ficar e ele ficou, mas apenas durante 6 meses. Em Junho de 2009, o Real Madrid veio com proposta de 67 milhões de euros.

O Milan, em crise financeira, aceitou. Kaká aceitou, foi para Madrid para ser o galático número um do projeto de Florentino Peres. Era a segunda contratação mais cara da história do futebol naquele momento, apenas atrás de Cristiano Ronaldo, que seria contratado pelo mesmo Real Madrid dias depois por 94 milhões de euros.

E aí começou o problema. Pouco depois de chegar ao real, Kaká começou a sentir o joelho. Foi diagnosticado com tendinite rotuliana, uma inflamação crónica no tendão do joelho. Daí veio a lesão do anutor. Daí veio o problema no menisco. Cirurgia em 2010, cirurgia em 2011, cirurgia em 2012. Em quatro épocas no Real Madrid, Kaká realizou apenas 120 jogos oficiais, uma média baixa para o padrão dele no Milan, onde jogava cerca de 50 partidas por época. marcou 29 golos.

A explosividade tinha assumido o controlo. Aquela arrancada que fazia do meio campo até à área, com a bola no pé a passar pelos adversários, como se fossem cones, aquilo já não existia. O corpo dele tinha perdido a primeira aceleração e os dois terminaram a passagem com o pior clima possível. Olha, ninguém afirma definitivamente que houve ligação entre a cirurgia da coluna de 2000 e as lesões pós 2009, mas a coincidência é difícil de ignorar.

Em 2013, Kaká decidiu fazer uma coisa que poucos jogadores fazem quando estão em queda. Regressar ao clube que o coroou o rei, voltar ao Milan sem ego, sem grande contrato, para fechar o ciclo onde ele tinha começado. Setembro de 2013, Kaká regressou ao Milan a custo zero. O Real O Madrid libertou-o sem cobrar nada e aceitou reduzir o salário para menos de metade.

De 10 milhões de euros por ano no real, passou para 4 milhões no Milan. A claque fez festa. Saniro encheu na apresentação, cantaram o seu nome, mas o Kaká que regressou em 2013 não era o de 2007. As lesões tinham alterado o corpo dele. Jogou apenas uma época, marcando nove golos em 37 jogos no total. Em 2014, regressou a São Paulo por 6 meses.

Aos 32 anos, jogou no clube que o revelou 24 jogos, três golos, vice-campeão do Brasileirão e semifinalista da Taça Sul-Americana. E em 2015 decidiu terminar a carreira no Orlando City, na MLS, nos Estados Unidos. Três temporadas em Orlando, 77 jogos, 25 golos. Um fecho tranquilo, poôde levar a família, poôde viver uma vida calma, poôde encerrar como queria, sem polémica, sem escândalo, sem traição desportiva.

Em 17 de dezembro de 2017, aos 35 anos, anunciou a reforma. Mas o pormenor final desta história é: enquanto o Brasil em 2026 procura desesperadamente quem vai vestir a O número 10 da seleção e levar o Brasil de volta ao topo do mundo, o último brasileiro que esteve de facto no topo do mundo, o último que ganhou uma bola de ouro, é um tipo que praticamente ficou paraplégico aos 18 anos numa piscina do interior de Goiás.

Mas a questão que sobra é, será que vai voltar? Talvez em 2026, talvez em 2027, mas talvez nunca mais. E até lá, o último rei do futebol brasileiro é o gajo que andou de tobo água errado no fim de semana. E quando você assistir ao próximo golo da seleção brasileira em junho, vale a pena lembrar o que sustentou o Kaká naqueles dois meses de cama, à espera de saber se ia andar de novo. Não foi talento.

O talento veio depois, foi a fé. E sinceramente é a única coisa que ainda explica como o menino com a coluna fraturada virou 7 anos depois o melhor jogador de futebol do planeta. Se gostou deste vídeo, deixe o seu like e assiste a este outro. เ

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