A sombria relação do BRASIL com o NAZISMO (Que poucos comentam)

Você  sabia que o Brasil tinha a maior concentração de filiados no Partido nazi fora da Alemanha? Infelizmente, isto é verdade. Durante os anos de 1930, o Partido nazi organizou núcleos formais em vários países, sobretudo onde havia comunidades de imigrantes alemães. No Brasil, estes núcleos cresceram, principalmente nas regiões do sul e sudeste, em estados como Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro.

Mas como seria isso possível num país tão missigenado e tão diversificado como o nosso? E mais, por que razão as ideias racistas, ultracionalistas e violentamente antissemitas encontraram espaço em solo brasileiro? Para compreender, é preciso olhar para o contexto político da época. O Brasil vivia um período de intensas disputas ideológicas.

Getúlio Vargas tinha chegado ao poder com discurso nacionalista e populista, mas enfrentava pressões tanto da esquerda liderada por nomes como Luís Carlos Prestes e o Movimento Comunista, como pela direita, representado pelo integralismo de Plênio Salgado. Neste cenário, o Partido Nazi atuava no Brasil com relativa liberdade, pelo menos até ao fim da década de 1930.

Os núcleos locais eram oficialmente subordinados à sessão internacional do regime, denominada Auslands Organization, que coordenava a atuação dos filiados fora da Alemanha. Ainda assim, o partido seguia uma directriz clara, não intervir diretamente na política nacional e não divulgar as suas ideias a estrangeiros, o que incluía os próprios brasileiros.

E mesmo com esta postura supostamente neutra, a presença nazi no Brasil foi significativa. Estima-se que cerca de 2900 pessoas estivessem oficialmente filiadas no partido no país, todas alemãs de nascimento, uma vez que o partido não aceitava descendentes nascidos no Brasil. Estes descendentes eram vistos com desprezo pelos nazis mais ortodoxos.

Na prática, o partido adotava uma lógica de exclusão mesmo dentro das colónias alemãs. E com o endurecimento do regime de Getúlio Vargas e a promulgação da nova lei de segurança nacional, o partido foi proibido de atuar no Brasil. Os seus membros passaram a ser monitorizados, alguns foram presos e muitos documentos e arquivos foram confiscados pelas autoridades brasileiras.

Eu sou o Brian e este é mais um episódio de Ruído Perpétuo. Desta vez explorando um mal indesejado que no passado chegou ao o nosso país com um plano de expansão ideológica, mas que hoje se esconde entre discursos disfarçados, símbolos camuflados e comunidades que ainda resistem ao peso da lei e da memória histórica. A presença do partido nazi no Brasil não começou com Hitler no poder.

Na verdade, tudo começou 5 anos antes de sua ascensão ao governo da Alemanha. Já existia no Brasil um núcleo ativo que serviria de base para a futura fundação formal do partido no país. Esse núcleo foi criado por imigrantes alemães alinhados com a ideologia nacional socialista e ligados às comunidades germânicas no Brasil, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste.

O primeiro O registo do Partido nazi no Brasil é de julho de 1928, com a criação de um núcleo na cidade de Timbó, Santa Catarina. Esse foi não só o primeiro grupo nazi em território brasileiro, mas também o primeiro núcleo oficialmente constituído fora da Alemanha, o que mostra a importância estratégico da diáspora alemã na América do Sul desde os primeiros passos do movimento.

Entretanto, na Alemanha, o partido crescia rapidamente. Já em 1929 surgiam entidades como a Liga dos Médicos Nazis, a Associação de Professores Nazis e outras organizações corporativas que reforçavam o controlo ideológico do partido sobre vários setores da sociedade. Essas instituições fortaleciam o movimento dentro da Alemanha e serviam também como modelos para as comunidades germânicas no exterior.

O partido nazi funcionava como um sistema totalitário de base paramilitar e disciplinada. Também possuía estruturas auxiliares que ampliavam o seu alcance e controlo social. A temida SS Shuttaffle, a SA Stumaplon, a Associação de Mulheres nazis e a juventude hitleriana. Algumas dessas organizações foram replicadas em maior ou menor grau nas comunidades alemãs fora da Alemanha, incluindo no Brasil, sempre com o objetivo de cultivar total lealdade à pátria mãe.

Em 1933, agora com Hitler no poder, documentos oficiais do regime passaram a destacar o papel dos alemães que viviam no exterior. Eram vistos como representantes do terceiro noutros países e se esperava deles não só fidelidade ideológica, mas também atitudes que refletissem os valores do nazismo.

Esta ideia alinhava-se a uma coisa chamada pangermanismo, um movimento anterior ao nazismo que defendia a preservação da pureza racial e cultural dos povos germânicos através da língua, dos costumes e da exclusão dos outros. A consolidação do partido nazi no O Brasil ocorreu paralelamente à ascensão de Hitler ao poder na Alemanha.

Ainda nesse ano de 1933, o partido deixou de ser apenas uma legenda política no cenário internacional e transformou-se num movimento nacionalista e totalitário com um forte apelo ideológico. Mesmo na sua forma mais teórica, o O antissemitismo era já parte central da ideologia nazi. Muitos dos membros do partido no Brasil reproduziam este discurso antissemita voltado principalmente contra os judeus alemães, vistos como traidores ou degenerados.

Na prática, porém, os ataques directos aqui muitas vezes se limitavam a boicotes económicos, a estabelecimentos judaicos e as tentativas de marginalização social, atitudes que, mesmo assim eram perigosas e violentas no seu simbolismo. Nesse mesmo período, o Brasil impunha duras barreiras à entrada de judeus, especialmente os vindos do Leste Europeu, vistos com desconfiança.

As autoridades temiam que estes imigrantes trouxessem ideias subversivas como o comunismo. Numa época em que o governo de Vargas e Aisevites conservadoras estavam profundamente preocupados com a influência da esquerda internacional. Este cenário dificultava a fuga de judeus perseguidos na Europa e colocava o Brasil entre os países que, mesmo perante as crescentes ameaças ao povo judeu, restringiram o acolhimento destas populações.

Mas o Brasil colocava desafios únicos face ao projeto nazista. Num país marcado pela diversidade racial e cultural, o ódio não se limitava aos judeus, era também dirigido a outros grupos. Os negros, por exemplo, eram frequentemente chamados de macacos por membros do partido, numa expressão do racismo biológico central a ideologia nazista.

A simples presença de negros indígenas e mestiços era vista como um obstáculo à imagem e aos objetivos do movimento. Documentos e relatos da época mostram que os próprios dirigentes do partido no Brasil reconheciam que esta realidade racial dificultava a consolidação do nazismo como força política e social duradoura no país. O O Brasil, com a sua missigenação e pluralidade, representava o oposto do ideal de pureza racial que os nazis pregavam.

Ainda assim, o partido se estruturou, cresceu e atuou durante quase uma década, discretamente em alguns momentos, de forma mais agressiva em outros. E a sua presença deixou marcas tanto nas comunidades germânicas como na história política do Brasil. Durante a década de 1930, o Brasil albergava uma expressiva comunidade de imigrantes alemães estimada em cerca de 87.

000 pessoas espalhadas pelo país. Embora a maioria estivesse nas regiões Sul e Sudeste, existiam também núcleos no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Estas comunidades tinham perfis variados, algumas compostas por recém-chegados, outras por descendentes diretos dos primeiros colonos do séc. XIX.

O estado de São Paulo, então, em rápido processo de industrialização, concentrava a maior parte destes imigrantes cerca de 33.000. Muitos chegaram ao Brasil após a Primeira Guerra Mundial, sendo aproveitados como mão-de-obra qualificada em indústrias e serviços técnicos. Não por acaso, o Estado registava também o maior número de filiados no Partido Nazi, 785 membros ativos.

O Rio Grande do Sul vinha a seguir com uma comunidade de 15.000 alemães e 439 filiados. O Paraná com 12.000 imigrantes tinha 185 filiados, enquanto Santa Catarina, com uma população alemã, cerca de 11.000, apresentava números surpreendentes, 528 membros do partido, revelando uma adesão mais intensa à ideologia do terceiro Rico.

O Rio de Janeiro, então capital federal, reunia também um número relevante de membros, 447 filiados. Isso refletia o papel estratégico da cidade como centro de articulação política e presença diplomática da Alemanha nazista. Outros estados, mesmo com As populações alemãs mais pequenas, também registavam núcleos ativos. Pará, Goiás, Espírito Santo, Mato Grosso, Minas Gerais, Ceará, Amazonas, Sergipe, Alagoas, Bahia, Paraíba e Pernambuco apresentaram números expressivos de filiados, mostrando a capacidade da atuação nazi fora dos principais centros de colonização. Por outro lado,

apenas quatro estados não registaram oficialmente filiados no partido: Rio Grande do Norte, Acre, Maranhão e Piauí. Esta distribuição revela que o nazismo no Brasil não se restringia às zonas tradicionalmente ligadas à imigração alemã. Ele espalhava-se por meios sociais, clubes, escolas e associações culturais, funcionando como uma extensão simbólica e ideológica do terceiro Rich, com coordenação direta do partido na Alemanha.

Os dados mostram que, embora nem todos os imigrantes alemães eram nazis e muitos opuseram-se ativamente à ideologia, existia uma base de apoio considerável entre os que se identificavam com o regime. Muitas das As comunidades alemãs no Brasil foram formadas ainda no século XIX, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste. Na década de 1930, muitos descendentes destes imigrantes já pertenciam à segunda ou terceira geração.

Com o tempo desenvolveram dialectos que misturavam o alemão com o português, refletindo o processo de adaptação linguística e cultural ao novo país. Quanto aos militantes do partido, estima-se que cerca de 92% eram alemães de nascimento. Isso mostra o carácter excludente da organização no Brasil, que dirigia as suas atividades quase exclusivamente aos alemães residentes, os chamados teutobras.

Esse termo será muito importante neste episódio. E para uma melhor explicação, convidamos o escritor deste guião, Xiru, que é professor de história local de Blumenau, uma das cidades que teve um envolvimento notável com o integralismo, o que também será explicado melhor mais à frente. Os teutobras eram precisamente aquelas pessoas que eram descendentes de alemães, porém nascidos no Brasil.

É, depois, às vezes o pai vivia na Alemanha e simplesmente migrou para aqui durante aquele processo das migrações ali na segunda metade do século XIX e acabou tendo um filho aqui na região e este filho nasceu no Brasil. Esse já não seria alemão, esse seria um teuto brasileiro. E estes teuto brasileiros eram vistos com desconfiança pelos dirigentes do partido e muitas vezes impedidos de se filiar.

Esta distinção reforçava uma hierarquia étnica entre imigrantes e os seus descendentes, sustentada pela ideologia de pureza racial e lealdade direta ao Rich. Essa preocupação se refletia-se, por exemplo, em experiências feitos para investigar se os indivíduos considerados arianos seriam capazes de adaptar-se ao clima tropical. Isso mostra o cuidado do regime em manter a sua conceção racial mesmo fora da Alemanha.

A ideia de um paraíso na América do Sul atraiu milhares de imigrantes alemães ao O Brasil ao longo do século XIX e início do século XX. Eles vinham em busca de melhores condições de vida, terras férteis e oportunidades económicas. Promessas reforçadas por propagandas que retratavam o Brasil como um e eludorado tropical.

No entanto, ao chegarem, estes Os colonos enfrentaram muitas dificuldades, clima hostil, doenças desconhecidas, barreiras culturais e, principalmente, o desafio de conviver numa sociedade missionada, algo que chocava parte dos ideais de pureza racial já presentes na elite europeia da época. E esse desconforto não era isolado. Desde o século XIX, as ideias racistas ganhavam força impulsionadas por autores como o O Conde Joseph Arthur de Gobinu, que visitou o Brasil em 1869.

Nos seus relatos, Joseph descreveu os brasileiros como uma população assustadoramente feia, um verdadeiro espetáculo horrendo de anarquia étnica. A sua visão carregada de preconceito refletia uma crença comum entre racialistas. A ideia é de que a missigenação levava à degeneração. Esta visão foi particularmente influente entre elites intelectuais e políticas, tanto na Europa como em setores da sociedade brasileira, e preparou o terreno para a posterior penetração de ideologias como o nazismo.

Nesse mesmo contexto de valorização da pureza racial, outras ideias também ganharam espaço nas primeiras décadas do séc. XX, como a eugenia, que defendia a melhoria da população através de critérios biológicos e raciais. No Brasil, esta ideia foi impulsionada por figuras como o médico Renato Kell, principal divulgador do movimento eugenista no país.

Essas ideias encontraram apoio em vários setores da sociedade, incluindo intelectuais de destaque, como o escritor Monteiro Lobato, que em alguns textos demonstrou simpatia pelos princípios eugenistas, refletindo o clima científico e político da época. É neste pano de fundo ideológico que misturava o racismo científico e as idealizações coloniais e nostalgia por um suposto passado europeu puro que o partido nazi encontrou espaço entre certos grupos das colónias alemãs no Brasil.

Apesar da rigidez ideológica do partido quanto à pureza racial, que restringia oficialmente a filiação a pessoas de ascendência alemã, o contexto brasileiro impôs adaptações práticas. Documentos e registos históricos mostram casos curiosos de filiados que pediam autorização para casar com brasileiras não alemãs, indicando que em algumas regiões havia uma certa tolerância local.

Esta flexibilidade não significava aceitação da missigenação nos moldes do Estado brasileiro, mas sim um ajustamento pragmático face à realidade social onde estes núcleos atuavam. Ou seja, embora o partido mantivesse formalmente critérios étnicos para filiação e atuação, na prática brasileira, houve brechas e acomodações. Isto mostra tensões entre a doutrina racial importada da Alemanha e a complexidade da sociedade brasileira, marcada precisamente pela diversidade e pelo encontro de diferentes grupos étnicos e culturais. Pode-se dizer que o

nazismo do Brasil operava sob dois modelos distintos adaptados à realidade local, um modelo urbano e outro rural. Esta distinção é essencial para compreender a extensão e a forma de atuação do partido no país. No final da década de 1930, o Brasil tinha cerca de 41 milhões de de habitantes, dos quais cerca de 80% viviam em zonas rurais.

um cenário muito diferente da realidade atual, marcada pela urbanização. Este dado ajuda a explicar por nas zonas rurais o Partido nazi encontrou espaço para influenciar as comunidades inteiras, principalmente entre colónias alemãs mais isoladas. Nessas regiões, com pouca comunicação, com os centros urbanos e fraca presença do estado, a penetração ideológica do nazismo era ampla e profunda.

Filiações em massa, escolas, celebrações de feriados do Rich, leitura de jornais importados ou locais, cultos protestantes com discursos alinhados com a ideologia e, sobretudo, o uso da rádio. Tudo contribuía para criar um ambiente cultural nazificado no interior do Brasil. Este isolamento permitia não só a disseminação das ideias nazis, mas também a criação de uma atmosfera comunitária em que os valores do terceiro R eram neutralizados e integrados no dia a dia.

O culto da Figura de Hitler, a saudação nazi em eventos locais e a rígida separação étnica, eram práticas comuns em certos núcleos rurais organizados em torno das colónias alemãs. Já nos centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Blumenau, o nazismo atuava de forma mais institucionalizada. Nestas cidades, o partido organizava-se através de estruturas formais, como escolas de língua alemã, clubes de caça e tiro, consulados, bancos e empresas ligadas à comunidade germânica.

Esses espaços funcionavam não só como locais de convivência, mas também como canais de difusão ideológica. Por eles, os valores e símbolos do nazismo circulavam entre a elite imigrante e os seus descendentes de forma estratégica e discreta. O partido foi oficialmente reconhecido no Brasil em 1931 com a formação da sua primeira direcção nacional sediada no Rio de Janeiro.

Inicialmente, a sua principal função era servir como uma extensão eleitoral do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, procurando votos entre os cidadãos alemães que viviam no estrangeiro em apoio da candidatura de Adolf Hitler. Em 1933, já com Hitler no poder, Herbert Gus foi nomeado chefe do partido nazi no Brasil.

Este momento marcou o início de uma fase mais articulada e disciplinada da organização do país, agora alinhada diretamente com as diretrizes do terceiro Rich. Mas pouco tempo depois de assumir o cargo, Herbert Gus deixou o cargo abrindo espaço para uma reorganização interna. A liderança foi então assumida por um sujeito chamado Willy K, que até então comandava as atividades do partido na América do Sul a partir do Chile.

Willy K mudou-se para o Rio de Janeiro para assumir oficialmente a direção da sessão brasileira, sinalizando a importância estratégica que o Brasil começava a ter dentro da estrutura nazi internacional. A mudança definitiva na liderança aconteceu em 1934, quando a sede do partido foi transferida do Rio de Janeiro para São Paulo.

Nesse mesmo ano, um outro sujeito chamado Hans Henin Von Ccel foi nomeado chefe do partido nazi no Brasil, cargo que manteria até à dissolução oficial da organização no país. Mas sob a sua liderança, o partido reforçou os laços com o terceiro R, consolidou a sua presença e alargou as suas atividades no Brasil até ao período de repressão durante aquilo a que chamamos Estado Novo.

No início da década de 1930, a população judaica no Brasil era de cerca de 200.000 pessoas, concentradas principalmente em áreas urbanas. Poucas viviam em zonas rurais. Por outro lado, a comunidade negra e mesti representavam uma parcela muito maior, cerca de metade da população do país. A convivência entre nazis e judeus no Brasil era extremamente rara, quase inexistente.

Já a relação dos nazis com os negros e mestiços era muito mais comum e fazia parte do quotidiano. Para os nazis, a A missigenação era vista como uma degeneração da raça. Já para muitos brasileiros, esta mistura era a base da identidade nacional. Para esses brasileiros, o alemão estrangeiro era um elemento estranho, uma ameaça à lógica de mistiçagem que definia o Brasil.

Muitos imigrantes alemães viam com desconfiança o chamado caldeirão racial brasileiro. Vários recusavam-se a aceitar qualquer associação com essa realidade social. Havia entre eles a crença de que ao trabalhar nas culturas seriam vistos como racialmente inferiores, degenerados, segundo a lógica nazi.

Da mesma forma, temiam que, ao dividir as fábricas com Os trabalhadores negros e mestiços, fossem igualados a estes na hierarquia social e racial. Relatórios de 1938 mostram que setores da comunidade germânica acreditavam que o Brasil deveria estar grato pela presença alemã. Para ele, os imigrantes alemães representavam uma hipótese de aperfeiçoar a composição racial do país, ideia alinhada com a ideologia eugénica nazista que valorizava a supremacia da chamada raça ariana.

Uma matéria da época publicado num jornal de Frankfurt relatava a experiência de um simpatizante nazi em viagem pelo Brasil. No relato, demonstrava surpresa e incómodo com a presença constante de pessoas negras por toda a parte. nas ruas, nas fábricas e nos comércios. Ele observava que os negros e os brancos trabalhavam juntos e muitas vezes eram tratados como iguais.

Essa A convivência racial contrariava completamente a ideologia nazi. Ainda assim, o viajante destacou aspetos que considerava positivos no país, como a forte oposição ao comunismo, algo que, na sua visão, aproximava o Brasil de determinados valores do regime de Hitler. Apesar da preocupação constante com negros e mistiços, jornais como o Deut Morgan publicavam com frequência artigos antissemitas, mesmo sem relação direta com a realidade brasileira.

É aí que está. Neste contexto, o antissemitismo era utilizado como ferramenta para culpar os judeus por dificuldades enfrentadas pelo movimento nazi no país. Por exemplo, se uma região não demonstrava apoio às ideias nazis, a culpa era atribuída aos judeus. Os nazis pensavam mais ou menos assim: “São os judeus que estão controlando o comércio e os meios de comunicação do Brasil, o que está dificultando a nossa expansão do movimento.

” O próprio chefe do partido nazi no Brasil, Hans Henning Von Cell, declarou que a ideia de um perigo alemão que começou a circular no final dos anos de 1930 era uma invenção dos judeus. Durante essa década, com a chegada de judeus refugiados que fugiam da perseguição nazi na Europa, a embaixada alemã no Brasil passou a dificultar a entrada destes imigrantes.

Além disso, intensificou a monitorização das comunidades judaicas já estabelecidas no país, considerando-as uma ameaça aos interesses do Rich e a expansão da ideologia nazi no Brasil. Mas e se eu te disser que no meio de tudo isto houve uma versão brasileira do fascismo europeu? O integralismo foi um movimento político de inspiração fascista fundado no Brasil em 1932 de Plínio Salgado.

Reunia elementos de nacionalismo extremo, autoritarismo e anticomunismo. Defendia a criação de um Estado forte, centralizado e hierárquico, baseado na ideia de uma identidade nacional unificada. Os seus membros usavam uniformes verdes, faziam saudações semelhantes às dos fascistas europeus e adotavam o lema Deus, pátria e família, que com certeza já ouviu em contextos mais recentes da história do Brasil, não é? Essas características atraíam muitos teutobrasileiros, aqueles impedidos de se filiar no Partido nazi por terem nascido no

Brasil, a procurar a representação política em movimentos ideologicamente semelhantes, como o integralismo. A adesão ao integralismo foi em parte uma resposta à exclusão imposta pelo terceiro Rich, que os considerava inferiores aos alemães de nascimento. Mesmo assim, os teutto brasileiros eram muito mais numerosos do que os imigrantes.

Somaavam cerca de 900.000 pessoas no Brasil na época. Com as suas marchas organizadas, fardas padronizadas, símbolos próprios e gestos inspirados no O fascismo europeu, o integralismo apresentava várias semelhanças com o partido nazi. E para além de Plíio Salgado, o movimento contava com outros nomes relevantes paraa época.

Um deles foi Gustavo Barroso, uma figura central na disseminação de ideias anti-semitas no Brasil. Gustavo Barroso, ele estava na escala de poder do integralismo, basicamente abaixo do plino salgado. Portanto, neste caso, não é, ele tinha, de certa forma um grande destaque dentro desse movimento.

Entre as obras que ele ajudou a disseminar aqui no Brasil, consta também os protocolos dos sábios de Sião, uma obra conspirativa que culpabilizava os judeus numa conspiração onde existiriam, de certa forma uma elite judaica na época, o que nós sabemos que hoje em dia é totalmente treta. Mas além disso, Gustavo Barroso, acabava por tentando também, de certa forma, se aproximar da Alemanha através do seu textos anti-semitas.

E obviamente que nesse processo ele acabou em alguns momentos conseguindo publicar em alguns periódicos da época e também, não é, ao longo do da década de 30 ele vai sendo ignorado por estas autoridades alemãs ali. Os elementos e as características do integralismo atraíam os teutobras, já que não podiam entrar oficialmente no movimento nazi.

O discurso ideológico do integralismo nacionalista, autoritário e anticomunista ressoava fortemente entre os descendentes de alemães, tornando-se uma alternativa politicamente viável ao nazismo no Brasil. O nazismo e O integralismo partilhavam várias ideias: críticas à democracia liberal, valorização da ordem e do trabalho e a combate ao chamado judaísmo internacional.

Com isto, criava-se muitas vezes um cenário contraditório. Por um lado, os integralistas rejeitavam a imposição do nacionalismo alemão no Brasil. De outro, os nazis não aceitavam a integração das minorias étnicas, algo comum na realidade brasileira. Apesar das diferenças, há registos de colaboração entre nazis e integralistas no Brasil.

Um exemplo é o Walter Honig, chefe do Partido nazi no Rio Grande do Sul, que mantinha relações próximas com grupos integralistas da região. Documentos indicam também que os integralistas procuravam um apoio financeiro junto do banco alemão transatlântico, reforçando laços económicos com o interesse do Rico.

Alguns jornais da época, como o Der Blumenau Zai Tang de Blumenau, atuavam como porta-vozes tanto do nazismo como do integralismo. Um exemplo marcante desta aproximação foi registado em Rio do Sul, Santa Catarina. Aí, a sede local dos dois movimentos estava no mesmo endereço e exibia na fachada, tanto a suástica nazi como o sigma integralista, uma evidência clara da tentativa de coexistência e cooperação entre as duas ideologias, pelo menos a nível local.

O O próprio líder da ação integralista brasileira, Plíio Salgado, chegou a prometer em certo momento que evitaria críticas ao nazismo nos seus discursos. No entanto, noutras ocasiões, voltava a dizer que o Brasil estava sob ameaça de doutrinas estrangeiras. Isto mostra a ambiguidade da sua postura perante o nazismo e as tensões entre o nacionalismo integralista e influências externas.

Já em 1945, Plío Salgado afirmou que os camisas verdes tinham protegido o Brasil do perigo avemão durante a década anterior. Alguns autores dizem que na prática, a relação entre integralistas e nazis foi marcada mais por conflitos do que por colaboração. Aproximações entre os dois movimentos ocorreram pontualmente, geralmente a nível individual, em regiões com forte presença germânica, como o sul do Brasil.

Os nazis no país não reconheciam os teutto brasileiros como parte do seu grupo. Para eles só existiam duas categorias: brasileiros e estrangeiros. Também temiam que o tradicional High Hitler fosse substituído pelo Anau dos integralistas. Para muitos, o o integralismo era visto como uma imitação tropicalizada do nazi-fascismo europeu.

Mesmo assim, dentro do Partido nazi, havia uma preocupação real de que alemães nascidos no Brasil aderissem ao integralismo e se afastassem do nacional socialismo. Esse temor relacionava-se à ideia de que ao integrar-se num movimento que aceitava a mestiçagem e a valorizava elementos da identidade brasileira, estes indivíduos acabariam por comprometendo em poucas gerações a pureza da chamada raça aliana.

Em 1936, o integralismo conquistou vitórias expressivas nas urnas, assumindo autarquias em várias cidades com forte presença germânica. No Rio Grande do Sul destacaram-se São Leopoldo, Santa Cruz do Sul e Novo Hamburgo. Em Santa Catarina, Blumenau, Joinville e Rio do Sul. Estes avanços só ocorreram graças ao apoio massivo dos Steutto brasileiros que viam no movimento uma forma possível de representação política dentro do panorama nacional.

Em setembro de 1937, o jornal U Globo publicou uma notícia apontando a existência de duas correntes dentro do integralismo, uma dirigida à defesa dos interesses nacionais e outra fortemente influenciada por ideias germânicas. Esta divisão interna refletia as tensões entre um projeto de nacionalismo autoritário à brasileira e a expressões da comunidade teutobrasileira alinhada com o nazismo.

Mas eventos importantes mudariam o cenário político do Brasil nos anos de 1930. Após a tentativa de revolta comunista em 1935, liderada pela Aliança Nacional Libertadora, ANL e com forte influência do Partido Comunista, o governo de Getúlio Vargas respondeu com repressão dura e abrangente. Sob a justificação de combater uma ameaça à ordem, o regime decretou o estado de guerra, prendeu milhares de pessoas, perseguiu opositores e censurou a imprensa.

Muitas das detenções ocorreram sem qualquer ligação direta com a revolta e houve uso sistemático de tortura e assassinatos. A prisão de Luís Carlos Prestes e a deportação da sua companheira Olga Benaro para a Alemanha nazi tornaram-se símbolos deste período de repressão. E a repressão não atingiu apenas os comunistas envolvidos na Intentona.

Ela também serviu para eliminar adversários políticos mais amplos e consolidar o poder de Vargas. O episódio fortaleceu o discurso anticomunista, que passou a ser utilizado como ferramenta para legitimar o autoritarismo. O plano Coren foi um documento forjado em 1937 que supostamente revelava um plano comunista para tomar o poder do Brasil.

Apresentado como uma ameaça iminente, o texto falava em invasões de igrejas, assassinatos de autoridades e destruição da propriedade privada. O documento foi lido em cadeia nacional por ordem do governo, alimentando o pânico anticomunista. Só mais tarde é que se descobriu que o plano era uma farça criada por Olímpio Mourão Filho, então membro da ação integralista brasileira.

A princípio, o texto seria apenas um exercício interno do movimento. No entanto, Vargas e os militares usaram o conteúdo como justificação para o golpe de 10 de novembro de 1937, que instaurou a ditadura do Estado Novo, dissolveu o Congresso Nacional e proibiu todos os partidos, incluindo o integralismo. E mesmo ajudando a criar o Estado Novo, os Os integralistas logo entraram em confronto com o regime.

Em maio de 1938, a cimeira integralista liderada por Plínio Salgado tentou um golpe contra as varcas, exigindo mais espaço no governo e o regresso do movimento. O Levante culminou no ataque ao Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro, com militantes armados frustrados com a exclusão política. O golpe falhou. Centenas de integralistas foram presos e Plíio Salgado acabou por ser exilado.

Mourão Filho, embora autor do plano Cen, não participou diretamente no golpe de 1938. Ainda assim, afastou-se da militância integralista e, décadas teve depois um papel central no golpe civil militar de 1964. O episódio de 1938 marcou a ruptura definitiva entre os integralistas e o regime Vargas, encerrando a sua influência política.

Imediatamente durante o conturbado processo de consolidação do Estado Novo instaurado em 1937, Alberto Stein, presidente da Câmara Municipal de Blumenau e destacado dirigente integralista, foi afastado do cargo e preso, acusado de ligação com o nazismo. Segundo o historiador Luís Felipe Falcão, Stein chegou a defender-se diretamente com o interventor federal, Nereu Ramos, dizendo que era brasileiro e não nazi, mas permaneceu preso.

O caso ocorreu em plena repressão do Estado às manifestações políticas e culturais de origem estrangeira, sobretudo em regiões como o Vale do Itajaí. O crescimento do nazismo na Europa e o clima de germanofilia geravam desconfiança no governo central. A relação entre integralismo e nazismo, embora nunca oficializada, gerava suspeitas constantes, principalmente em locais como Blumenau, onde ambas as ideologias encontravam apoio entre parte da população de origem alemã.

O O afastamento de Stein foi um exemplo da política de nacionalização do Estado Novo, que procurava reprimir qualquer organização vista como estrangeira ou contrária à ideologia oficial. A nomeação de José Ferreira da Silva, também ex-integralista, mais alinhado com o governo Vargas para o cargo de presidente da Câmara, mostra o pragmatismo do regime.

Mesmo reprimindo a A e B, ação integralista brasileira, o Estado incorporava quadros considerados úteis ao seu projeto autoritário. Assim, a queda de Stein mostra as ambiguidades do período, repressão ideológica combinada com a cootação seletiva de antigos opositores. Durante uma visita a Blumenau em março de 1940, Vargas culpou os governos anteriores pelo isolamento da população germânica em relação ao resto do país, mas reforçou o espírito nacionalista que marcava o Estado Novo.

Entre as décadas de 1930 e 1940, as relações diplomáticas e políticas entre o Brasil e a Alemanha nazi permaneceram relativamente amistosas, apesar das tensões no cenário internacional. Além dos interesses económicos, com o Brasil a exportar matériapmas estratégicas e a Alemanha procurando ampliar a sua influência na América do Sul, existia uma cooperação mais profunda em segurança interna.

Ambos os países partilhavam uma forte preocupação com o comunismo, visto na época como um inimigo comum. Para conter o avanço dos grupos comunistas nas suas territórios, o Brasil e a Alemanha criaram canais de comunicação entre os seus políticas secretas e agências de inteligência. Essa colaboração incluia troca de informações, monitorização de suspeitos, envio de relatórios sobre atividades subversivas e coordenação de estratégias para neutralizar os agentes e redes comunistas.

Esta aliança refletia não só um alinhamento ideológico entre os governos de Vargas e de Hitler, mas também um esforço conjunto para manter o controlo político e social face às ameaças internas e externas. O relacionamento entre as polícias secretas dos dois países foi um ponto central destas relações bilaterais, influenciando a política interna e a dominância internacional no auge dos regimes autoritários.

Um exemplo desta relação foi a expedição alemã Amazónia Jari, uma missão científica promovida pelo regime nazi entre 1935 e 1937, liderado pelo zoolólogo e oficial das SS Otto Campfekel. A expedição percorreu o rio Jari entre o Amapá e o Pará, com o objetivo de recolher dados sobre a fauna, flora e culturas indígenas da Amazónia.

A equipe era composta por quatro alemães e 21 colaboradores locais, entre eles Joseph Greiner, que morreu de malária durante o viagem. Foi enterrado em plena Amazónia com uma cruz marcada por uma suástica. Um registo fotográfico invulgar se visto atualmente. Além da recolha de espécis e registos etnográficos, a expedição produziu mais de 2700 m de filme e cerca de 2500 fotografias.

Este material foi exibido em cinemas na Alemanha e utilizado em publicações científicas. A missão serviu também como propaganda cultural, procurando fortalecer os laços entre o Brasil e a Alemanha nazista. Na época, era comum que As autoridades locais demonstrassem simpatia ou pelo menos mantivessem proximidade com o partido nazi no Brasil.

Um exemplo claro foi o governador do Rio Grande do Sul, Flores da Cunha, que em 1937 participava eventos organizados pelo partido e elogiava publicamente o regime nazi. Nesse ano, afirmou que a A comunidade alemã no Brasil tinha potencial para aperfeiçoar a raça brasileira, destacando-se a suposta influência positiva dos imigrantes alemães na formação social e cultural do país.

Flores da Cunha também teceu elogios abertos ao terceiro Rich, revelando a simpatia pelo projeto nacional socialista. Era comum que os membros e dirigentes do partido nazi no Brasil viajassem com frequência para a Alemanha, fortalecendo eslaços ideológicos e organizacionais com o Rich. Em novembro de 1937, poucos meses antes daquela proibição oficial do partido no Brasil, de que falámos anteriormente, correspondências entre Getúlio Vargas e Adolf Hitler mostravam uma relação ainda mais amigável entre os dois governos.

Estas comunicações mostravam o interesse mútuo em estreitar os laços diplomáticos e políticos, refletindo a complexidade das alianças internacionais naquele momento em que o Brasil tentava equilibrar a sua posição entre as grandes potências. Anos mais tarde, Lutero Vargas, filho do presidente, casou com a alemã Ingeborg Tenhef.

Para alguns, esta união simbolizou as relações cordiais entre o Brasil e a Alemanha. Já em 1941, com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, o Brasil passou a ser pressionado, a abandonar a sua neutralidade e a alinhar mais claramente com os aliados. Nesse cenário, a propaganda dos países aliados começou a denunciar com mais força a presença de núcleos nazis na América do Sul, incluindo o Brasil.

Esses materiais alertavam para o risco de infiltração ideológica e até militar do nazismo no continente, apontando a existência de uma rede coordenada de simpatizantes do terceiro rash, espalhada pela região. Essa narrativa passou a ser utilizada como ferramenta de convencimento, ajudando a pressionar o governo brasileiro a rever as suas relações com a Alemanha e caminhar para uma ruptura definitiva.

Depois, em 1942, com a entrada oficial do Brasil na guerra ao lado dos aliados, o governo tomou medidas duras contra alemães e simpatizantes do nazismo no país. As embaixadas e consulados foram fechados, diplomatas e pessoas em cargos de destaque nas instituições e empresas foram despedidos. Muitos alemães residentes no Brasil foram presos, sobretudo no Sul, onde também ocorreram saques e depredações em estabelecimentos da comunidade alemã.

Este momento marcou uma viragem decisiva na repressão do nazismo no Brasil e definiu claramente o posicionamento do governo no conflito mundial. E mesmo com a proibição oficial do partido nazi no país, através de decreto de lei número 383 de 18 de abril de 1938, os laços com o terceiro Rich não foram rompidos de forma imediata.

Segundo a investigadora Ana Maria Di Rich, havia ainda um fluxo de informações que escapavam pelos bastidores diplomáticos. A embaixada da Espanha, governada pelo ditador Franco, alinhado ao eixo, passou a funcionar como canal discreto entre os simpatizantes do nazismo no Brasil e o regime de Hitler.

Esta ponte diplomática permitia a troca de mensagens e o envio de relatórios, mesmo durante a guerra, revelando que algumas redes de apoio ao O nazismo conseguiram resistir ao cerco político e policial do Estado brasileiro. Mas com a repressão intensificado, os núcleos do Partido nazi foram fechados e os seus líderes presos.

Nesse período, surgiram denúncias de maus tratos contra detidos alemães que relataram ter sido colocados em celas com negros e mestiços e tratados com hostilidade e preconceito. Aqueles que antes eram tolerados passaram a ser fortemente estigmatizados, mostrando uma mudança profunda na forma como a sociedade via os simpatizantes do nazismo.

Muitos alemães foram repatriados e várias As empresas de origem alemã entraram na lista negra do governo brasileiro, tendo as suas atividades encerradas. Instituições como escolas, hospitais e bancos, entre eles o banco germânico da América do Sul e o banco alemão transatlântico também foram encerrados.

Até a Luftanza, uma companhia aérea alemã, foi obrigada a encerrar as suas operações no Brasil. Os alemães já não podiam utilizar o espaço aéreo brasileiro, o que provocou impactos económicos significativos. Foi neste momento que a repressão contra alemães e teutobras intensificou-se. Com o avanço do processo de nacionalização instituído por Getúlio Vargas, passou a ser proibido falar alemão, japonês ou italiano em locais públicos.

Também foi vetado o acesso a rádios estrangeiras, principalmente às emissoras alemãs, que eram um dos principais meios de difusão das ideias nazis no país. Várias redes clandestinas de transmissão foram desmanteladas. Além disso, muitos imigrantes e descendentes passaram a ter viagens restritas, especialmente para áreas consideradas sensíveis pelo governo.

A vigilância sobre os costumes do dia a dia aumentou tanto que uma lei proibiu a participação de alemães, japoneses e italianos em festas carnavalescas como forma de reforçar o afastamento destes grupos das expressões culturais brasileiras. O processo de A nacionalização era quase uma tentativa do governo de abrasileirar a força os estrangeiros.

E estas coisas, na prática eram bastante curiosas. O processo de nacionalização, ele acontece principalmente em algumas regiões com mais força a partir de 1938. Assim vai percebendo que muitas escolas que tinham, por exemplo, nomes alemães ou de origem japonesa ou até mesmo italiana, acabavam por ter de mudar para professores de língua de língua portuguesa e e obviamente tinham que obrigatoriamente aprender a falar português.

Além disso, não é, temos que lembrar que nomes que eram, por exemplo, eh, em alemão, como Freia, acabavam por ser trocados por nomes como Vera na altura. Então essa isso chegava até uma uma escala individual assim. Assim nem mesmo os nomes poderiam ser utilizados na época, não é? É interessante nós pensarmos esse processo de nacionalização, não é? Como de certa forma ele também foi repressivo em alguns momentos.

Obviamente que a meio da Segunda Guerra Mundial, quando realmente o O Brasil entra na guerra a partir de 1942, várias dessas pessoas que eram descendentes de de alemães, japoneses, italianos, ou seja, aqueles que eram considerados súbditos do eixo, acabam, de certa forma sendo colocados no mesmo balaio e tratados como prisioneiros de guerra, mesmo sendo civis, o que talvez, se formos pensar, não bate muito bem com os protocolos de Genebra ou coisas do tipo.

Assim, a partir do momento em que fazes essas prisões, onde todos se tornam suspeitos e acaba de certa maneira tratando todos os que falam uma língua estrangeira como inimigos, isto de certa forma vai gerar e vai deixar uma marca também nestas sociedades. E obviamente não foi diferente nestas comunidades germânicas, japonesas e italianas do período.

Além das proibições, a repressão também foi marcada por uma extrema violência. Prisões arbitrárias e torturas contra alemães e os seus descendentes tornaram-se comuns. Na cidade de Blumenau, por exemplo, ainda hoje, as pessoas mais velhas contam que muitos eram levados pelas autoridades com a justificação de que precisavam de aprender a falar português.

Estes detidos sofriam humilhações, maus tratos físicos e psicológicos. Em alguns casos eram obrigados a beber óleo de rícino ou gasóleo como forma de tortura, por não falar em português corretamente. Este tipo de violência mostra um nível de brutalidade que o processo de nacionalização atingiu em algumas regiões do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.

E como se todas as estas medidas não bastassem, o governo criou os chamados campos de internamento, onde imigrantes e Os descendentes de alemães eram mantidos sob vigilância constante. Mas calma, estes locais não eram como os campos de concentração nazis. Utilizámos o termo internamento, campos de internamento, precisamente para diferenciar dos campos de concentração, onde ficaram os judeus, ciganos, homossexuais, comunistas lá na Europa durante este período do regime nazi e o período da Segunda Guerra Mundial.

A grande questão e esta diferenciação é precisamente na forma não só como eram tratados estas pessoas que aqui viviam no Brasil nestes campos de internamento, que se assemelham, obviamente aos campos de concentração, no entanto tinham uma certa liberdade, como podiam escrever cartas, podiam de certa maneira, não é, se comunicar com o mundo externo, mesmo que houvesse uma censura.

E óbvio, não é, acabava por abrir essas cartas, lendo o conteúdo no seu interior, censurando as partes as quais achavam indesejáveis ​​e por aí adiante. É um período de guerra. Então havia também o risco de espionagem. E óbvio que durante este período da nacionalização ainda vamos ter precisamente uma questão muito importante que várias rádios piratas e rádios amadoras ainda transmitiam, não é, o que acontecia na Alemanha.

E o governo em conjunto com o DOPS, o Departamento de Emprensa e do Propaganda foi quem fez, não é, a apreensão desses materiais. E, óbvio que muito desse material foi sendo destruído ao longo destes primeiros anos da perseguição aos nazis e também, de certa forma, aos teutobasleiros e alemães que viviam aqui no na região sul. Muitos desses campos ficavam no interior de São Paulo, o estado com maior concentração de imigrantes alemães na época.

Cidades como Bauru, Ribeirão Preto, Piraçununga, Guaratinguetá e Pindamyangaba abriram centros de confinamento durante os anos de guerra. Mas o fenómeno não se limitou a S. Paulo. O Pará, Pernambuco e Bahia também mantiveram campos de internamento. Em alguns casos, os alemães eram alojados em hospitais, colégios ou instituições públicas adaptadas para funcionar como centros de detenção.

Outros eram mantidos em prisão domiciliária, com restrições severas de circulação e comunicação. Tudo isto fazia parte de um processo que, embora impulsionado pela guerra, deixou marcas profundas na vida de milhares de pessoas e que muitas vezes não tinham nada a ver com a situação. Em 1942, chegou a ponderar-se a criação de um campo de internamento na Amazónia, o que preocupou as autoridades alemães da época.

O receio era que a região era conhecida por doenças tropicais como a malária, o que representava um risco grave para a saúde dos internos de origem germânica. Curiosamente, mesmo sob custódia, os detidos nos campos de internamento podiam comunicar com parentes na Alemanha por cartas. Muitas dessas mensagens deixavam de lado o tom pessoal e afirmavam sempre que as condições de saúde eram boas, provavelmente para evitar punições ou por causa da censura imposta pelo governo brasileiro.

Ainda assim, há registo de cartas que conseguiram reportar maus tratos denunciando abusos, negligência e condições precárias de confinamento. Mesmo estas denúncias quando escapavam ao controlo estatal eram cercadas por restrições, uma vez que a censura vigiava tudo o que era enviado ou recebido. Muitos permaneceram nesses campos até ao fim da guerra.

Um dado revelador é que ao longo do período, o número de alemães presos em instituições penais comuns chegou a ser maior do que o de internados nos campos oficiais. Isso significa que a repressão ultrapassou o controlo político e ideológico, atingindo também pessoas apenas associadas à nacionalidade inimiga, mesmo sem ligação direta com o partido.

Durante este período, o diplomata alemão Carl Hitler, uma figura importante nas relações entre o Brasil e o terceiro chegou a implorar a Getúlio Vargas que interrompesse as perseguções contra alemães e seus descendentes. Peter demonstrava preocupação com a dureza das medições e com o impacto na a comunidade germânica no Brasil.

No entanto, Vargas foi categórico. Não haveria privilégios. Se o país estava em guerra, as regras deveriam ser iguais e rígidas. O que valia para um, valia para todos. Isto significava que os alemães, italianos e japoneses seriam igualmente afetados pelas políticas de nacionalização e pela repressão que se intensificava com o conflito.

A imprensa brasileira, cada vez mais alinhada com a narrativa dos media britânicos e americanas, começou a reforçar denúncias sobre a presença e as alegadas atividades suspeitas de alemães no país. Neste cenário, o ministro das relações exteriores, Osvaldo Aranha, ganhou fama entre os alemães como o aliado dos britânicos e norte-americanos.

Chegou a ser chamado de protetor da Inglaterra e dos Estados Unidos e inimigo da Alemanha. Ao fim da Segunda Guerra, vários oficiais e colaboradores do regime nazi fugiram da Europa em direcção para a América do Sul, utilizando rotas clandestinas conhecidas como Redlines, muitas vezes com apoio de redes simpatizantes ligadas à Igreja Católica e aos governos autoritários da época.

Países como a Argentina, o Chile e o Brasil tornaram-se destinos frequentes destes fugitivos que procuravam escapar aos julgamentos por crimes de guerra e da perseguição dos aliados. O Brasil, com o seu território extenso, fronteiras pouco vigiadas e comunidades germânicas já estabelecidas, oferecia condições ideais para que estes indivíduos assumissem novas identidades e se integrassem discretamente à sociedade local.

Mas se o passado ainda reflete no presente, o que estamos a fazer hoje para impedir que ele se repita? A história da presença nazi no Brasil, assim como a sua relação com o integralismo, mostra um capítulo complexo e perturbador da nossa memória coletiva. Ao contrário da ideia de que o país esteve imune a estas influências, os factos mostram que o O Brasil foi um terreno fértil para ideologias autoritárias, racialistas e ultranacionalistas, heranças que ainda hoje reverberam.

A descoberta de uma piscina com suástica em Pomerô de Santa Catarina em 2013 é apenas um dos episódios que expõe a persistência de símbolos e imaginários ligados ao nazismo em comunidades brasileiras. No mesmo estado, um relatório da Polícia Civil identificou 63 células neonazis ativas em Blumenau, um número alarmante, muitas delas articuladas em fóruns online e com ligações com grupos extremistas internacionais.

Em 2025, a Organização das Nações Unidas, ONU, divulgou um relatório alertando para o crescimento acelverado de grupos neonazis e de extrema-direita no Brasil, apontando o país como um dos focos emergentes deste tipo de radicalização fora da Europa. Segundo o documento, há indícios de que o negacionismo histórico, a apologia do O nazismo e o discurso de ódio contra judeus, negros, indígenas e LGBTs estão sendo utilizados como ferramentas de recrutamento político nas escolas, igrejas e redes sociais.

Assim, embora pensamos ter limpo o nazismo do Brasil, a verdade é que ele sempre esteve aqui a camuflar-se, se expressando uma vez ou outra e sem avisar.

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