A TRAGÉDIA que MATOU ELKE MARAVILHA aos 71 ANOS — Tudo Era Mentira

A TRAGÉDIA que MATOU ELKE MARAVILHA aos 71 ANOS — Tudo Era Mentira

Este rosto conhece? O cabelo colorido, o riso escancarado, a russa extravagante do Chacrinha, a mulher que entrou em sua casa todos os domingos por mais de 40 anos. Achou a vida inteira que sabia quem ela era. Não sabia. Ninguém neste país sabia porque por mais de 40 anos esta mulher enganou o Brasil inteiro.

 Tem enganado? Enganou a sua mãe, o seu pai? Enganou o país de uma ponta à outra ponta. E ninguém, nunca ninguém desconfiou de nada. O nome dela era mentira. Inventado por um jornalista. A nacionalidade mentira russa, ela nunca foi. E a história que contavam dela do início ao fim era também invenção. Tudo o que o O Brasil achava que conhecia naquela mulher era uma fantasia montada peça a peça, por cima da verdade.

 A maior farça que a televisão brasileira já viveu. E o país inteiro caiu. domingo após domingo há mais de 40 anos. Mas prepara-se, porque o que está por baixo desta mentira toda é a parte que vai apertar o seu coração. Tem um motivo. E quando você souber qual é, já não vai conseguir ver esta mulher do mesmo jeito. Fica aqui comigo.

 Não desliga, porque esta verdade a televisão nunca te mostrou. E talvez esteja aí agora sozinha, com o aparelho na mão, encontrando que já viu de tudo nesta vida. Que história de artista é tudo igual. Essa não é. Esta tem coisa que te vai lembrar de gente sua, de perdas suas, de coisa que também carregou calada, sem contar a ninguém.

 Eu prometo-te três coisas e cumpro todas. A primeira, vai descobrir porque o nome dela era mentira e quem era a menina de verdade que se escondia atrás daquele cabelo colorido. A segunda, vai saber o dia exato em que o Brasil que ela amava virou-lhe as costas e disse que ela não era de lado nenhum. E a terceira? Lá no fim, vou-te contar a última frase que ela deixou ao mundo.

Cinco palavras. Quando ouvir, você não se esquece mais. Guarda isso comigo. A última frase. E e preciso de te avisar de uma coisa antes de nós começarmos. Tem um momento nesta história lá para o meio que é pesado. Dá aqueles que a gente vê e fica algum tempo sem conseguir falar. Quando chegar, seguro-lhe a mão, mas não desliga antes dele, porque é precisamente ali que vai entender quem ela foi de verdade.

 O nome de batismo dela era Elk Grunup. Nasceu em fevereiro de 1945, do outro lado do mundo, numa pequena cidade da Alemanha, no fim de uma guerra que tinha acabado de partir o mundo em pedaços. E quando ela pisou aquele país, que tu és e eu chamamos nosso, era apenas uma menina pequena de mão dada com uns pais que fugiam.

 Ninguém ali imaginava que aquela criança ia virar a mulher mais colorida que a televisão brasileira já teve. Imagina uma menina de uns 5 anos a chegar num porto quente ruidoso, num país que não se parecia nada com o frio de onde ela veio. Os pais dela fugiam, fugiam da Alemanha em ruínas, do que tinha restado da Segunda Guerra, o pai Letão, a mãe alemã e o Brasil foi o local que aceitou recomeçar com eles.

 Ninguém atravessa um oceano com os filhos pequenos por passeio. Vieram porque já não tinham mais para onde ir. foram parar ao interior Minas primeiro, depois o interior de São Paulo, Atibaia, Bragança. Lugar de roça, de céu grande, de gente simples. Imagina o que era naquele tempo, naquele fim do mundo. Aparecera uma família estrangeira de sotaque esquisito falando uma língua que ninguém entendia.

 Aquela menina chegou sem saber dizer nem bom dia em português. E sabe o que ela fez? Aprendeu. Aprendeu rápido, rápido demais, porque tinha uma cabeça que não parava, uma fome de compreender o mundo que era maior do que ela. E depois vem uma coisa que preciso que guarde, porque ela diz tudo sobre quem esta mulher era por dentro.

 com 14 anos de idade, uma idade em que as outras raparigas estavam brincando, estavam a pensar em namorado em festa. A El que já estava a dar aulas. Aula de línguas, 14 anos, e já era professora. já estava a ganhar o próprio dinheiro da forma mais digna que existe, ensinando. E pensa na coragem, que é isso? Naquele tempo, naquele lugar, uma família estrangeira a recomeçar do zero num país desconhecido, sem parente por perto, sem rede de segurança, sem nada para além da própria força.

 O pai dela, com o tempo e com muito suor, foi conseguindo o seu lugar ao sol. Chegou a ser nomeado diretor de uma grande empresa, a Alic Gás, e foi transferido para Porto Alegre. Lá no sul do país, a família foi subindo de vida devagar, no esforço da forma que a gente sobe. Mas a pequena Elk, essa desde cedo já não cabia em casa nenhuma, já não cabia numa cidade pequena, em vida pequena.

 Ela tinha o mundo inteiro dentro da cabeça, oito línguas na ponta da língua e uma vontade de viver que era demasiado grande para o interior. E todo o mundo que é assim, que nasce demasiado grande para local onde nasceu, sabe que um dia irá ter de ir embora. Doa a quem doer. E ela foi. É, para um segundo para pensar na coisa estranha que é tudo isto.

 A as pessoas passam a vida achando que conhecem uma pessoa famosa. A gente sabe o nome dela, sabe de onde ela é, sabe a história dela de cor, pensa que sabe e depois descobre que o nome era invenção de um jornalista numa tarde qualquer, que origem era outra. que a história contada era só uma casca por cima de outra história, mais funda e mais verdadeira, que nunca ninguém quis contar.

 Quantas pessoas achamos que conhecemos e no fundo não conhece verdadeiramente. Quantas histórias verdadeiras estão escondidas por baixo das histórias fofinhas que a a televisão conta-nos. A da Elk é uma delas. E hoje aqui baixinho comigo vai conhecer a De verdade. E aqui paro porque chegou a hora da primeira coisa que te prometi.

 Aquela mulher que viu a vida toda na televisão, a El maravilha, a russa extravagante de roupa colore. Essa mulher nunca existiu. E não estou a falar por falar, estou falando de documento. O nome El Maravilha foi inventado, inventado por um jornalista, um cronista social do Rio chamado Daniel Mas foi ele que apanhou aquela rapariga e colou-lhe o Maravilha, como quem batiza uma personagem de novela.

 O nome verdadeiro era Elk Grunup. Grunup, um apelido difícil, estrangeiro, daqueles que ninguém ali sabia escrever. E de russa ela não tinha nada. E isso foi rótulo que a imprensa lhe colou depois. Porque achava bonito? Porque dava um ar de mistério à rapariga exótica. Ela tinha nascido na Alemanha, mas vai convencer o brasileiro disso.

 Pra gente, ela tornou-se a russa e russa ficou. Mas o mais impressionante vem agora. Por trás daquela palhaça genial que se ria alto na domingo à tarde tinha uma das mulheres mais cultas que já passaram pela televisão daquele país. Ela falava oito idiomas. oito. Pára e pensa nisso. A gente com sorte arranha o inglês.

 Ela falava fluentemente oito línguas e usou esse dom toda a vida. Foi bancária, sentada atrás de um guiché de um banco, foi secretária, foi bibliotecária no meio dos livros, foi tradutora, foi professora. O Brasil inteiro pensava que estava a rir de uma doida de cabelo colorido e estava, na verdade, diante de uma mulher que sabia mais línguas do que a maioria dos médicos formados deste país.

 Guarda esse pormenor, o nome inventado, a vida inventada, porque lá à frente ele vai explicar uma dor que ninguém via. E como é que uma professora de língua do interior virou a mulher mais famosa da televisão? Foi devagar, degrau a degrau, da forma que as coisas grandes acontecem. Primeiro veio o olho dos outros. Com 20 anos, ela larga tudo e vai sozinha para o Rio de Janeiro.

 Sozinha? Pensa no que é naquela época. Uma rapariga nos anos 60 pegando nas malas e indo virar-se na grande cidade, sem marido, sem ninguém mandando nela. Era quase um escândalo. Mas ela foi e lá no Rio trabalhou de secretária bilingue. Deu uma aula de francês, de inglês, fez o que precisava fazer e havia uma coisa que não se aprende em escola nenhuma. presença.

Onde ela entrava, as cabeças viravam-se, não dava para não olhar. Depois veio o primeiro sim. Lá em Belo Horizonte deram para ela um título, Glamor Girl. E foi aí que o mundo da moda pôs o olho naquela figura diferente de tudo. Aos 24 anos, ela torna-se modelo tarde para o padrão da época.

 Mas ela nunca fez nada na altura que os outros mandavam. E depois veio a explosão. Porque modelo bonita, o Brasil havia de sobra em cada esquina. Mas o má que falava oito línguas, que respondia o que bem entendia, que olhava para o poderoso de igual para igual e não baixava a cabeça para ninguém. Essa só havia uma no país inteiro. Eu país inteiro ia descobrir e o destino dela tinha hora marcada com o homem mais ruidoso da televisão brasileira.

 Em 1972, ela senta-se na bancada de jurados do programa do Chacrinha, o velho guerreiro, aquele furacão de buzina, de chanchada, de mulher a rebolar, de caloiro sendo aprovado ou levando a buzinada da reprovação. E ali naquela cadeira, no meio daquele caos colorido, a Elk Grunop vira finalmente para o Brasil inteiro a El Maravilha.

 A mulher que dava nota, que ria, que brigava, que dizia o que pensava a meio da tarde de domingo, à hora em que a sua família toda estava reunida em frente da televisão, o almoço ainda na mesa. E tu, que és da minha idade lembras-te bem como era aquilo. O programa do Chacrinha era uma loucura, uma zorra, um carnaval fora de época, com a buzina a apitar, com as chacretes a dançar, com o velho atirando farinha e bacalhau para a plateia, com caloiro a cantar desafinado e levando a buzinada da reprovação da cara. Uma confusão gloriosa. E no meio

daquele furacão todo, sentada firme na bancada, estava a Elk. E quem ali mandava era ela. Dava a nota que queria dar, defendia o calor que ela achava bom, esculhamba com elegância o que ela achava mal. Brigava com o próprio chacrinha à frente do Brasil inteiro. Raia da própria nota, mandava recado para quem precisava de ouvir.

 Os dois juntos, ela e o velho, eram fogo puro. E a casa da gente ria junto do sofá, da cozinha, da varanda. Era assim todo o Santo Domingo que ela entrava na sua vida sem sequer pedir licença, pela porta da frente da sua sala, através do ecrã da televisão, com aquela gargalhada que ficou gravado na cabeça de uma geração inteira de brasileiros e que talvez esteja a tocar na sua memória agora mesmo enquanto falo.

 Mas preciso voltar um bocadinho no tempo, porque pouco antes de toda esta fama, aconteceu uma coisa no aeroporto do Rio de Janeiro, que o Brasil que se ria dela nas tardes de domingo não fazia a mínima ideia. Foi no Final de 1961 e aquilo ali ia marcar a vida dela para sempre e mudar tudo. Mas isso é a segunda coisa que te prometi e a gente ainda não chegou lá.

 Por enquanto, segura apenas essa data. 1971. Guarda esse número que ele volta. Os anos 70 entraram e nas tardes de domingo o Brasil inteiro já tinha encontro marcado. Não com a novela, com ela, a Elk, durante mais de 14 anos, ela ficou ali do lado do Chacrinha, naquela cadeira de jurada, dando nota, rindo, lutando, dizendo na cara o que os outros só pensavam em casa. 14 anos.

 Tem casamento que não dura isso. Há gente que não fica 14 anos em emprego nenhum. Ela ficou, passou a fazer parte da mobília do domingo brasileiro, tão certo como o arroz com feijão. Mas o luxo da Elke era de um tipo que dinheiro nenhum compra. Esquece mansão, esquece jóias, esquece helicóptero. O que ela tinha de mais valioso era a liberdade.

 Uma época em que mulher tinha de ser bem comportada, fala baixo, pedir licença, baixar os olhos, ela entrava com o cabelo de uma cor que não existia na natureza, de roupa que parecia um fato de carnaval em meados de julho e dizia o que dava na telha. palava de coisa que mulher nenhuma falava na televisão. E o Brasil, que era careta, cheio de regra, cheio de isso não se faz, em vez de se cancelar aquela mulher, amou.

 Amou justamente porque ela fazia o que mais ninguém tinha coragem para o fazer. Ela dizia: “Na cara dura aquilo que a vizinha só comentava baixinho na cozinha”. E ela foi mais longe do que qualquer um dos época, muito mais longe. Levou para televisão, na boca dela assunto que ninguém ousava tocar. Andou de braço dado com o artista marginalizado, com a gente do teatro de vanguarda, com quem a sociedade fingia que não existia, com gente que a moral da época empurrava para debaixo do tapete e mandava ficar quieta. Ah, é o que apanhava esta gente

pela mão e punha na luz. Ela não tinha medo de ninguém. Deixa-me dar-te a dimensão dessa coragem para que entender que não era pose, não era marketing, que estas palavras nem existiam ainda numa época em que certos assuntos eram proibidos até de pronunciar dentro de casa, em que tinha gente que era tratada como se fosse doença, como se de vergonha se tratasse.

 A El ficou do lado precisamente de quem a sociedade rejeitava e empurrava paraa escuridão. Defendeu na cara dura, sem medo do que iam dizer dela, a dignidade de gente que ninguém defendia. Andou de igual para igual com os artistas mais ousados, os mais perigosos pro pensamento certinho da época. Chegou perto da gente da noite, da gente da margem.

 das mulheres que a sociedade condenava de dia e procurava de noite. Paraa Elk era tudo gente, tão simples quanto isso. Não existia gente de primeira e gente de segunda classe. E isto naquele Brasil, careta, era quase um ato de rebeldia. era estar décadas à frente do próprio tempo. O país só foi perceber o que ela dizia muito, muito depois, quando o mundo finalmente alcançou o lugar onde já estava sozinha, lá à frente.

 E não foi só na televisão que ela brilhou, não. Foi no cinema também, no cinema grande, no cinema que fica, que não passa, que entra para a história e vira estudo. Ela esteve em Chica da Silva, Steve em Pixote, aquele filme duro, cru, sobre os meninos abandonados nas ruas, que sacudiu o Brasil inteiro pelos ombros.

 Esteve em tantos outros ao longo de mais de 40 anos de carreira, sempre como aquela presença que prende o olhar, que não conseguimos ignorar. No teatro, a mesma coisa. onde tinha arte de verdade a acontecer. Tinha boa hipótese de a Elk estar ali no meio a colorir a cena com aquela figura inconfundível. E talvez, talvez porque uma mulher que já tinha perdido o que tinha perdido não tem mesmo muito mais a temer.

Mas ainda vamos chegar nisso. Para se ter ideia do tamanho do que esta mulher virou, não foi só o Chacrinha. Anos mais tarde, ela teve um programa com o nome dela na televisão, comandado por ela na década de 90. O seu nome na chamada, no horário, no ecrã. foi jurada do espectáculo de caloros, aquele que descobria artista que punha gente simples para cantar e mudava a vida de quem tinha talento.

 E décadas depois, já mulher madura com mais de 60, sentou-se na bancada do Big Brother, do reality show, que os jovens assistiam, e uma geração inteira, que mal sabia quem ela era, foi conhecer aquela senhora de cabelo colorido que dizia o que bem entendia e não tinha papas na língua. E no cinema, o cinema grande, o cinema sério que o O Brasil estuda e respeita, ela também estava lá. Chica da Silva, Pixot.

 Filmes que entraram para a história deste país. Foram mais de 40 anos no olho do furacão. 40 anos. Uma vida inteira de gente. Era a mulher mais livre da televisão brasileira. segura esta frase comigo, porque vai ver daqui a pouco o que o Brasil fez com a liberdade dela. Porque por baixo de toda esta cor, de toda esta gargalhada, de toda esta festa, tinha uma fissura que ninguém via.

Lembras-te daquela data que te pedi para segurar lá atrás? 1991. Pois é. Enquanto o Brasil se ria com ela nas tardes de domingo, enquanto aplaudia aquela figura alegre, aquela mulher carregava calada uma coisa que tinha acontecido pouco antes de toda a fama, uma coisa que lhe tinha tirado no papel, precisamente aquilo que ela achava que nunca ninguém podia tirar a uma pessoa.

Por fora, a mulher mais livre do país. por dentro e no documento, uma mulher sem chão. E para que perceba como é que isso aconteceu, vou ter que te levar de volta àele aeroporto. Segura na a minha mão, porque vamos descer agora para a parte mais difícil desta história. É aqui que eu te avisei lá no começo. Respira e vem comigo.

 Para te contar o que aconteceu naquele aeroporto, preciso primeiro de te apresentar uma amiga da Elk, uma estilista chamada Zuzuangel. A Zazu era costureira de luxo, das melhores do país. Vestia as madames do Rio, as artistas, toda a alta sociedade. As roupas dela atravessaram o oceano, foram parar no estrangeiro, vestiram gente famosa lá fora.

 E Azuzo tinha um filho, um rapaz chamado Stuart. Stuart Angel. A gente está nos anos de chumbo, a ditadura militar. Para quem é mais novo e está a assistir. Foi um tempo em que o O Brasil não era livre, um tempo em que quem pensava de forma diferente do governo, quem queixava-se, quem lutava, simplesmente desaparecia, desaparecia e ninguém podia perguntar para onde.

 E o filho da Zuzo, o Stuart foi um dos que desapareceram. foi preso pelos agentes do regime, foi torturado e foi morto. Uma mãe atrás do corpo do filho, batendo de porta em porta, de quartel em quartel, sem resposta, sem nada, apenas o silêncio. Imagina a dor disto. Imagina ser essa mãe. Aster, se esta história já está a meter-se contigo, faz uma coisa por mim agora, sem sequer pausar, carrega no joinha lá em baixo e subscreve o canal.

 Não é pedido à toa, não é que o YouTube só leva estas histórias a mais gente da a sua idade. Gente que cresceu a ver estas pessoas na televisão. Se gente como você der esse sinalzinho, faz isso por ela e pronto, continuamos. Azuzo não se calou. As mães não se calão. Ela pegou na dor dela, a maior dor que existe, e transformou em denúncia.

 levou a história do filho morto para o mundo inteiro, costurou aquilo nas roupas dela, num desfile, numa entrevista lá fora, gritando para quem quisesse ouvir e para quem não queria também que tinham matado o Stuart dela. E a El, a amiga, estava ao lado, não de longe, mandando pêsames, do lado junto.

 Naquele tempo em que estar do lado de quem o governo perseguia era perigoso, era arriscar a própria pele. E agora preciso de te contar a segunda coisa que te prometi, a mais difícil de todas. Final de 1971. No areto Santos Dumon, no Rio, tinha cartazes. Cartazes de procurado com o rosto do Stuart, o filho do Azuzo, o rapaz que já tinha sido morto pelo próprio regime que o procurava.

 Os cartazes ainda lá estavam pendurados, como se ainda estivesse foragido vivo, fugindo. E a Elque viu aquilo, viu o rosto do filho da amiga morto, pendurado num cartaz de procurado, num lugar público, à frente de toda a gente. E ela não aguentou. Não teve como aguentar. Aquela mulher sozinha no meio do aeroporto começou a arrancar os cartazes com as próprias mãos à frente de todos, na frente dos militares armados, uma mulher desarmada, de mãos limpas, rasgando papel contra a ditadura inteira. foi detida na hora, presa sob a

lei de segurança nacional, a lei que a ditadura usava contra quem ela chamava de inimigo do Estado. Inimigo do Estado, aquela mulher que fazia rir o Brasil no domingo. E depois vem a parte que muda tudo que admirava nela. O Brasil, esse país que ela tinha escolhido com 5 anos de idade, que amava, que tinha feito rir durante tantos anos, este país caçou-lhe a cidadania brasileira.

Tiraram um documento, riscaram o nome dela do livro dos brasileiros. De um dia para o outro, a Elque Maravilha, o símbolo mais brasileiro da nossa televisão, tornou-se uma mulher sem país. Apátrida. Essa é a palavra apátrida. No papel, ela não era de lado nenhum do mundo. Tudo que achava que sabia sobre esta mulher muda agora.

 a roupa extravagante, o cabelo impossível, o riso solto. Tudo aquilo que parecia só doidice de artista era, na verdade, a armadura de alguém que já tinha perdido o chão debaixo dos pés. Era a cor de quem? por dentro vivia sem cor nenhuma no documento. E é a partir daqui que nasce a Elk, que viveu o resto da sua vida. A Elque de verdade.

 Ela ficou presa alguns dias. saiu por causa dos amigos dos outros artistas que fizeram barulho, que apelaram, que mexeram os cordelinhos, que não a deixaram ficar ali esquecida e desaparecer como tanto desapareceram. Saiu, mas quando saiu já não era a mesma pessoa que entrou. Porque me responde uma coisa, você que está aí a ouvir-me, como é que se volta para o palco para dar uma gargalhada em frente das câmaras? para fazer graça no domingo, sabendo que o seu próprio país pegou numa caneta e escreveu que você não lhe pertence. Como é que se

faz isso todos os Santo Domingo, ano após ano? Eu vou contar-te como ela fez, mas primeiro segura esta pergunta, porque há uma coisa que a gente precisa entender aqui o direito e é o que torna tudo ainda mais pesado. Ela não fez aquilo no aeroporto para aparecer. Não havia ali uma câmara, não havia plateia, não não tinha nada a ganhar com aquele gesto.

O que ela fez fez do fundo da alma, daquela maneira que a gente reage sem sequer pensar, quando vê uma grande injustiça demais para engolir em silêncio. Ela viu o rosto do filho morto da amiga pendurado ali como se de um troféu de caçada se tratasse. E o corpo dela reagiu antes do pensamento. As mãos foram lá e rasgaram. Ela sabia.

Ela sabia muito bem o que podia acontecer a quem fazia uma coisa daquelas naquela época. Sabia que podia ser presa, que podia ser torturada, que podia simplesmente desaparecer como tanto desapareceram, sem deixar rasto. E mesmo sabendo de tudo isto, ela fez. Tem gente que chama a isto loucura. Eu chamo-lhe coragem.

 A coragem mais limpa que existe neste mundo a de quem prefere pagar o preço a fingir que não viu nada. E para você que talvez fosse muito nova naquele tempo ou ainda nem tinha nascido, deixa eu situar-te no que era esse Brasil. Era um tempo de medo, de pessoas que falavam baixo até dentro da própria casa, com receio de quem podia estar a ouvir do outro lado da parede, de pai e mãe que pediam ao filho para não se meter, não falar de política, não chamar a atenção, porque chamar a atenção naquele tempo podia custar a liberdade ou a própria vida.

Era este o Brasil em que Azuzo perdeu o filho. E era esse, exactamente esse, o Brasil em que a Elk optou por gritar a verdade na face do poder armado. E Azuzo, a amiga, a mãe do Stuart. Foi por ela que a Elk arriscou tudo. Repara numa coisa. Ela não fez aquilo por política, nem para aparecer.

 fez por uma amiga que tinha perdido um filho. Foi pela dor de uma mãe a coisa mais simples e mais humana que existe no mundo inteiro. A El olhou para aquela dor e não conseguiu ficar parada, não conseguiu virar o rosto e pagou caríssimo por isso. Pagou com a própria liberdade e depois com a própria pátria. E deve estar achando que o pior já passou, que depois da prisão, depois de perder o país no papel, a vida dela só podia melhorar dali para a frente.

 Não foi bem assim, porque o mais pesado desta história não é o que lhe tiraram naquele dia, é o que ela teve de fazer todos os outros dias para continuar viva por dentro, carregando esse vazio, esse silêncio ano após ano, sozinha, sem poder contar para ninguém. E é para dentro desse silêncio que vamos entrar agora. O Brasil nunca soube.

 Essa é a parte mais difícil de engolir. A Elque voltou ao palco, voltou a dar gargalhadas, voltou a ser a mulher mais colorida da televisão e ninguém, ninguém ali na pateia em casa. No domingo fazia a ideia de que aquela mulher tinha sido presa, tinha sido tratada como inimiga do Estado, tinha perdido a sua própria cidadania.

 Ela engoliu tudo sozinha e sorriu. Sorriu por cima de tudo. E a cor das suas roupas foi ficando mais forte e o riso mais alto, mais escancarada, como se o barulho de fora pudesse abafar o silêncio que ela levava para dentro de casa todo o fim de tarde. E os anos foram passando, um atrás do outro. A ditadura foi-se embora.

 O O Brasil mudou, veio a democracia, veio a abertura, veio tudo. As pessoas festejaram nas ruas, mas o documento dela continuou da mesma maneira. Passava ano, passava governo, passava década inteiro e no papel a El que continuava sem país. mulher que era o retrato vivo da brasilidade. A que mais parecia o Brasil de tão livre, de tão colorida, de tão sem medo, continuava a ser, oficialmente no papel estrangeira sem pátria, anos, décadas, sem resolver.

Imagina carregar isso. E foi nesse tempo todo que ela foi inventando uma forma de carregar esse peso, um jeito muito dela, que não era de mais ninguém. A El tinha uma maneira de falar das coisas pesadas até da morte, como se fossem brincadeira, como se fossem leves. Ela dizia que quando chegasse a sua vez de ir embora desta vida, ela não ia morrer.

Não, que isto de morrer era coisa pesada demais para ela. Ela ia só brincar de outra coisa. guarda essa frase comigo com carinho no fundo do peito, brincar de outra coisa, porque ela vai lá voltar no fim desta história. E quando regressar, vai entender esta mulher inteira de uma só vez num estalo.

 Imagina o que é isto para um segundo e imagina, imagina viver a vida inteira dividida em duas. Em frente das câmaras, sob a luz, a mulher mais livre do Brasil, a mais alegre, a dona do domingo, e em casa, à noite, a um canto, uma gaveta com um documento que dizia em letra fria de máquina que não era daqui, que se não era de lado nenhum, que não se tinha pátria.

 todos os dias durante anos, por décadas, a festa de fora e o vazio de dentro, vivendo na mesma mulher. E tinha os dias comuns, que no fim são os que mais nos pesam, porque não é o dia da grande tragédia que quebra uma pessoa. Sabe, este a gente até aguenta no susto, na adrenalina. O que vai desgastando-se lentamente, gota a gota é o dia comum, é a qualquer terça-feira em que ela tinha de preencher um formulário, um papel tonto de cartório, de banco, de hospital, e chegava à linha da nacionalidade e parava, parava a caneta no ar em cima do papel, porque o que ela

ia escrever ali, brasileira, ela não podia escrever, era mentira No documento, alemã, ela não conseguia sentir. Era mentira no peito. Então, naquela linha tola de um papel qualquer, todo o drama da vida inteira regressava de uma só vez, sem aviso. todas as santas vezes e ela respirava fundo e engolia o nó e seguia em frente porque tinha gravação marcada, tinha a plateia à espera, havia o Brasil a querer ela rir e ela ia lá e ria. Sempre ria.

 E não pense que foi fácil conseguir nem sequer o documento alemão. Lá nos anos 90 foi ano em cima de ano de papelada. de burocracia, de carimbo, de fila, de espera. Anos de uma mulher famosa, reconhecida de todo o Brasil na rua, tendo que provar a um notário, para um consulado, num balcão qualquer, quem ela era, de onde tinha vindo, a que mundo ela pertencia.

 A mulher que milhões de brasileiros reconheciam de longe, só pelo cabelo, tendo de provar no papel que existia como cidadã de algum canto do planeta. tem maior ironia que essa. Todos sabiam quem era a El Maravilha, mas oficialmente no frio do documento, ninguém sabia de que país era Elk Grunup e sabe o que é mais impressionante, o que mais aperta o coração, que mesmo assim ela escolheu ficar. Ela tinha como ir embora.

Conseguiu lá pelos anos 90 a cidadania alemã, o passaporte da terra onde tinha nascido. Tinha um país para chamar seu do outro lado do mundo. Pode ter dado as costas a este Brasil que a tratou tão mal no papel que a humilhou no documento. Ninguém a ia culpar, mas não virou costas. ficou, escolheu todo o santo dia ao acordar este país que um dia disse que ela não era dele e continuou aqui a trabalhar, sorrindo, colorindo a vida da gente até ao fim.

 Que tamanho de coração precisa de ter para fazer isso? Este queres saber o momento exato em que aquela palhaça genial das tardes de domingo transformou-se num segundo só a mulher mais corajosa deste país? Eu respondo-te. Foi nesse aeroporto de mãos a arrancar os cartazes do filho morto da amiga. Na frente dos militares armados, na cara da ditadura inteira, ela gritou: “Gritou alto para toda a gente ouvir: “Covardes, como se atrevem! Vocês já o assassinaram?” Foi ali naquele grito, uma mulher sozinha, desarmada, atirando a verdade para a

cara do poder armado e a pagar por isso com a própria pátria. Não tem coragem maior do que aquela. Não tem. Então é isso que nunca ninguém te contou nas tardes de domingo, que por detrás de cada gargalhada daquela mulher na televisão havia uma brasileira que o Brasil tinha expulsou o papel e que mesmo assim escolheu amar este país até ao último dos os seus dias.

 Esse era o fundo do poço dela. E repara bem, porque não tem a ver com o que costumamos imaginar nessas horas. Não era dinheiro que faltava, nem saúde. Era uma solidão muito mais funda, muito mais calada. A solidão de pertencer com a alma a um local que não te reconhece no documento. Ah, de ser de um sítio que diz que se não é dele.

 E é exatamente desta dor, desse abismo que nasce a viragem dessa história. E aqui acontece a viragem de tudo. Não houve festa nem aplauso nenhum. Foi uma decisão silenciosa tomada ali dentro sozinha daquelas que mudam o resto de uma vida. Lá pelos anos 90, depois de décadas sem documento de país nenhum, a Elk conseguiu finalmente uma cidadania.

Mas vejam a ironia cruel do destino. Foi a cidadania alemã, o passaporte da terra de onde ela tinha fugido ainda beber no colo dos pais. escapando a uma guerra que tinha destruído tudo, a mulher mais brasileira da televisão do Brasil passou a ter no bolso o documento de um país que ela mal conhecia, de uma língua que ela falava, mas onde não tinha vivido.

 E aqui no Brasil, na terra que ela amava, o registo dela continuou dizendo a mesma palavra fria de sempre, a pátrida. E foi perante isso, dessa ironia toda, que ela tomou a decisão da vida dela. Podia terse amargurado, tinha todo o direito, podia ter passado o resto dos dias zangado, cobrando, queixando-se, com ódio do país que a tratou daquela maneira.

 E ninguém ia culpá-la. Mas ela escolheu outra coisa. apanhou aquela ferida, o facto de não pertencer a lado nenhum e transformou-o em liberdade. Pensa comigo, devagar. Quem não é de lado nenhum não deve satisfação a ninguém. Quem não tem pátria não tem de pedir licença para pátria nenhuma. Quem perdeu o chão pode flutuar.

 E foi exatamente assim que ela escolheu viver a partir daquele dia, dona absoluta de si mesma, do início ao fim, aquela extravagância toda, o cabelo colorido, as roupas impossíveis, tinha pessoas que pensavam que era só para chamar atenção. Era muito mais do que isso. Era a bandeira de uma mulher que, uma vez que não deixaram-na pertencer a um país, decidiu inventar um país só seu, do tamanho dela, e reinou até ao último dia.

Pára um bocadinho comigo aqui, respira, porque é muita coisa de uma vez. Pensa nesta mulher na casa dela à noite sozinha, depois de mais um dia a fazer o Brasil rir. Depois dos holofotes apagarem. Pensa nela a tirar a maquilhagem em frente ao espelho, aquela cor toda saindo aos poucos, escorrendo no algodão e por baixo de tudo surgindo no espelho o rosto cansado de uma mulher comum, de uma mulher que carregou toda a vida um segredo que ninguém imaginava.

 A casa em silêncio, o barulho todo do palco lá longe, já desligado. Só ela e aquilo que sabia de si mesma e que não partilhava com ninguém. Eu fico a pensar, o que será que passava na cabeça dela naqueles momentos de silêncio, sem público, sem câmara? Será que doía? Será que ela tinha mesmo encontrado a tal da paz ou só tinha aprendido a fingir tão bem por tantos anos que até ela própria já acreditava? A gente nunca vai saber tudo.

 Esse é o tipo de coisas que a pessoa leva para dentro do caixão. Mas há uma coisa que sabemos com certeza que ela escolheu todo o santo dia, ao acordar, levantar daquela cama e continuar a amar o lugar que não a quis. É isso, meu amigo, a minha amiga que está aí comigo. Isto é uma coragem que muito pouca gente tem neste mundo.

 Ei, o Brasil devagar, com o passar do tempo, foi compreendendo quem ela era de verdade. Não de uma vez, não com fanfarra, aos bocadinhos. As novas gerações foram descobrindo aquela senhora de cabelo colorido e começaram a perceber que ali não havia doidice nenhuma, nunca teve. Tinha uma das mulheres mais inteligentes e mais livres que este país já produziu, a palhaça das tardes de domingo.

 Era, no fundo, uma das pessoas mais sérias e mais corajosas sobre a liberdade que o Brasil já teve. A gente só demorou a ver. Áster, eu, olhe, se chegou comigo até esta altura da história, já sei que estás deste tipo de pessoas que valoriza uma coisa contada com verdade, sem pressa, do jeito certo. Então, deixa-me pedir-te de novo, rapidamente, subscreve o canal e deixa o teu joinha aí em baixo.

 É de graça para si, não lhe custa nada. E para mim é o que mantém esta história viva e chegando a mais gente como nós. Combinado? Então vem comigo que a parte final é a que mais te quero contar, é a mais bonita. Porque há uma coisa que a Elk gostava de fazer nos últimos anos da sua vida, quando estava sozinha.

 Ela gostava de olhar para trás, de recordar de tudo, da menina que chegou de navio sem falar português, da professora de 14 anos, da rapariga que foi sozinha para o Rio, do nome que um jornalista inventou para ela numa tarde qualquer, de tudo o que ela tinha sido, de todas as mulheres que ela tinha sido dentro de uma só vida.

 E é para estes últimos anos que vamos agora, porque a Elk nunca parou. Esta é a verdade pura e simples. Tem gente que envelhece e se recolhe, desaparece, fecha a porta, fica em casa à espera do tempo passar e a vida acabar. Ela não, nem pensar, trabalhou até ao último fôlego que tinha no corpo. Já com mais de 60, com mais de 70 anos, estava ali na televisão, no cinema, no teatro, em todo o lugar que a chamavam.

 A idade chegou no corpo dela, como chega ao corpo da gente toda, sem pedir licença. Mas não chegou na vontade. A vontade dela continuou daquele tamanho, colorida, alta, escancarada, do mesmo modo da menina que dava aulas aos 14. Ei, acontecia uma coisa bonita de se ver. Quando ela aparecia, agora já senhora de cabelo branco por baixo da tinta colorida, a plateia mais nova ria à maneira dela, daquela figura inesperada.

 Mas os mais velhos, os da sua idade, os que tinham crescido com ela, estes olhavam diferente. Olhavam com um carinho calado, com os olhos um pouco marejados. Como quem reconhece uma velha amiga que entra de repente na sala depois de muito tempo, porque ela tinha estado na casa deles toda a vida, nas tardes de domingo, no bom tempo em que a família toda ainda se juntava à frente da televisão, em que a casa estava cheia, em que ainda estavam todos vivos.

 E foi mais ou menos por esta altura que o Brasil começou a fazer as contas. começou a aperceber-se atrasado do que tinha tido naquela mulher o tempo todo. Debaixo do nariz, que aquilo que parecia palhaçada era, na verdade pioneirismo. Uma mulher que falou de um assunto proibido décadas antes de se tornar moda, antes de ser bonito dizer que defendeu os excluídos quando isso só trazia problema, que enfrentou uma ditadura inteira sozinha de mãos vazias no meio de um aeroporto.

 O reconhecimento veio, veio tarde, como quase sempre vem neste país. quando a pessoa já está cansada ou já está de partida. Mas veio e começaram a contar a história dela direito por inteiro. Anos depois um jornalista, o Chico Felite, foi atrás de tudo, conversou com quem conviveu com ela, ouviu os amigos, juntou os pedaços espalhados, garimpou os documentos e escreveu um livro inteiro sobre a vida da Elk, um livro chamado Elk, Mulher Maravilha.

 E foi por estas páginas que muita coisa que o Brasil não sabia finalmente veio ao de cima, a luz do dia, a fuga à guerra, as oito línguas, a a prisão, a cidadania caçada, a apatídia, tudo aquilo que ela tinha engolido calada durante décadas, sozinha. Finalmente estava escrito preto no branco, pro Brasil inteiro poder saber quem ela tinha sido a sério.

 Mas há uma coisa que livro nenhum resolveu, que reconhecimento nenhum apagou. Uma coisa que ficou sem solução até ao último dia da vida dela. E eu preciso de te contar, porque faz parte do tamanho desta mulher. A El que morreu sendo as duas coisas ao mesmo tempo e nunca conseguiu juntar as duas numa só.

 Brasileira de alma, do tipo que só este país produz, mais brasileira que muita gente que nasceu aqui e nunca fez nada por ninguém. E ao mesmo tempo no papel, uma estrangeira, uma mulher sem pátria nenhuma no documento. Ela amou este país a vida inteira, deu-lhe tudo o que tinha, fê-lo rir durante mais de 40 anos, defendeu os seus filhos e o Brasil nunca em vida devolveu-lhe no documento aquilo que ela mais desejava, no fundo, ser reconhecida como filha.

 desta terra como uma de nós. Esse foi o nó que ela carregava apertado no peito e que nunca se desfez. E quando o assunto chegava perto, quando alguém tocava na ferida, ela fazia o que sempre fez. Dava gargalhadas, tornava-se uma brincadeira, mudava de assunto com aquela elegância dela, com aquele jogo de cintura, mas o nó estava lá, sempre esteve.

 por baixo da gargalhada e sabe o que é de cortar o coração, de doer mesmo, que ela morreu a trabalhar, trabalhando. Havia filme dela que ainda nem tinha estrado quando ela partiu desse mundo. Trabalho dela que o Brasil só foi ver depois que ela já não estava mais aqui para ver a reação da gente. Ela estava a criar, a atuar, a inventar, dando a cara. até ao finalzinho mesmo.

 Me diz uma coisa com sinceridade. Conhece muita gente assim que não para nunca, que dá tudo de si até ao última hora, sem reclamar. Eu não conheço muitos, quase ninguém. Ela era um deles e sabe, eu acho que era isso que a segurava de pé todos estes anos, o trabalho, a arte, a hipótese de todos os dias tornar-se outra pessoa, vestir outra roupa, ser outra coisa, encarnar outra alma, porque para quem não tinha um chão fixo debaixo dos pés, para quem não tinha uma pátria de papel, o palco era o único lugar do mundo onde Ela pertencia de

verdade. O palco era a pátria dela, a plateia era o seu povo. E o aplauso, este era o único documento que ela precisava, o único carimbo que valia alguma coisa ali na luz à frente da câmara. Ninguém perguntava de que país ela era, ninguém pedia passaporte. Ali ela era de toda a gente e toda a gente era dela.

 E talvez seja por isso, exatamente por isso, que ela trabalhou até ao último dia de vida, porque deixar de trabalhar seria para ela perder o único país que ela tinha de verdade. E a história dela ficou tão grande, tão impressionante de se contar, que se tornou cinema e televisão outra vez. Mas agora com ela própria como personagem, as atrizes foram chamadas a dar vida a Elk no ecrã.

 Numa série sobre os bastidores da televisão brasileira, uma atriz recriou-a inteira. O cabelo, a voz, a forma de andar, o riso e no cinema na história da amiga Zuzu Angel que deu origem ao filme. Lá estava a figura da Elk de novo, recontada, lembrada, eternizada para as novas gerações. Quer dizer, a mulher que um dia foi riscada de um documento apagada da lista oficial dos brasileiros tornou-se personagem que o O Brasil faz questão de contar e recontar geração após geração.

 O país que tirou o nome dela de um papel não conseguiu, no fim de contas, tirar o nome dela da memória. E a memória é mais forte que documento. Memória, meu amigo, minha amiga, ninguém caça. E é aqui nesta mulher que nunca parou, que nunca se entregou, que chegamos à parte mais difícil e mais bonita de toda esta história. O fim e a frase.

 Aquela que eu pedi-te para guardar lá no início, lá nos primeiros minutos, chegou a hora dela. Vem comigo devagar. Vamos para junho de 2016. A El já era uma senhora de 71 anos, ainda ativa, ainda trabalhando, ainda colorida, ainda ela mesma da cabeça aos pés. Mas o corpo, esse traidor silencioso que vem para todos nós mais cedo ou mais tarde, começou a dar sinal.

 Ela estava com um problema de saúde, uma úlcera, destas que parecem uma coisa parva, que a gente acha que toma um remedinho e passa, mas que nem sempre passam. E ela foi internada no final desse mês de Junho num hospital do Rio de Janeiro. Para tratar disso, uma coisa que no início ninguém imaginou que ia virar o que virou.

 E e enquanto ela está ali deitada naquela cama de hospital, quero que te lembra-te de uma coisa que eu te contei lá no início desta história. Lembra que foi inventado o nome El Maravilha? Que aquilo tudo era uma personagem criada por um jornalista numa tarde qualquer? Pois é, aquela mulher deitada naquela cama de hospital com 71 anos de estrada tinha começou a vida como Elk Grunop, uma menina alemã fugindo de uma guerra de mão dada com os pais e ia acabar como Elque Maravilha, a mulher mais amada e mais livre que a televisão brasileira já

teve. Uma vida inteira vivida entre dois nomes, entre duas mulheres que eram no fundo a mesma. Guarda isso porque já já tudo se encaixa, tudo faz sentido. Os médicos decidiram operar. Era preciso, não havia outro jeito. E a cirurgia em si foi feita. correu, mas o corpo dela, passados ​​tantos anos, de tanta luta, de tanta estrada, de tanta cor, não respondeu como devia responder.

 Vieram complicações, umas atrás das outras, e aquilo que parecia no início um tratamento simples, foi virando dia após dia, hora após hora, uma coisa muito mais grave do que qualquer um esperava. E aqui acontece uma coisa que eu acho que vale muito a pena você saber. Quando espalhou-se pelo Brasil que a Elk tava internada, grave, o país reagiu e reagiu com amor, com um amor que talvez nem ela soubesse que tinha.

 Aquela mulher de quem muita gente um dia só se riu, agora tinha o país inteiro a torcer por ela, enviando mensagem. Rezando, acendendo vela, pedindo notícias, enchendo a internet de carinho às gerações que cresceram com ela e até as mais novas que mal a conheciam, todos de de repente percebeu, com um aperto no peito, o tamanho do que estava prestes a perder.

 Foi como se o Brasil, nesse momento, tarde, da forma atrapalhada que o Brasil faz sempre as coisas, finalmente lhe tivesse dito: “A gente ama-te. A gente sempre te amou desde o início. A gente só demorou a falar. Mas ainda não é o momento da frase. Calma, segura comigo mais um bocadinho. Fica aqui porque tem um último pormenor e é precisamente ele que muda tudo, que dá sentido a tudo. Ela entrou em coma.

 Coma induzido, provocado pelos médicos para tentar segurar o corpo, para tentar dar tempo ao tempo, para tentar uma última chance. E ali naquele quarto de hospital, num bairro do Rio de Janeiro chamava Laranjeiras, a mulher mais colorida do Brasil ficou quieta, sem cor, sem maquilhagem, sem aquela gargalhada alto, apenas o silêncio dela e o barulho baixinho e ritmado das máquinas, marcando tempo a Elque, que tinha feito tanto barulho a vida inteira que tinha enchido e do domingo do Brasil de som e de cor durante 40 anos. No final, ficou em

silêncio. O silêncio dela era ensurdecedor e foi assim, lentamente, ao longo de algumas semanas que a vida foi despedindo-se dela sem pressa. Foi como uma tarde de verão que vai escurecendo tão devagar que nem nos apercebemos da hora exata em que o dia terminou. E a noite chegou. As complicações daquela cirurgia foram aos poucos, vencendo o corpo dela, um sistema de cada vez, um órgão de cada vez, até que não teve mais que os médicos pudessem fazer.

 Toda a medicina do mundo tem um limite. 71 anos de uma vida que não cabia em vida nenhuma, que daria para encher três ou quatro vidas comuns, foram-se apagando ali em silêncio, longe de toda aquela cor que ela transportou. E eu fico a pensar naquele documento, naquele papel que dizia a pátrida.

 Naquela palavra fria que a perseguiu a vida inteira, que viveu na gaveta dela durante décadas, pois é, naquele quarto de hospital. No fim de tudo, nada daquilo importava mais. nem o nome inventado por um jornalista, nem a nacionalidade caçada por uma ditadura, nem o rótulo de russa, que nunca foi verdade, nem o passaporte alemão, nem nada.

 No fundo, ela era apenas uma pessoa, uma alma, como tu, como eu, como todo o mundo vai ser um dia, quando toda a fantasia for tirada, quando a maquilhagem toda sair e ficar só a gente, nua, do maneira como somos por dentro, sem documento nenhum. Foi na madrugada do no dia 16 de agosto de 2016 que a Elk partiu na calada da noite no escuro, como quem sai de mansinho para não acordar ninguém.

 Palência de múltiplos órgãos, disseram os médicos por causa das complicações daquela cirurgia da úlcera. 71 anos. A mulher que tinha enfrentado uma guerra mundial, ainda menina, que tinha enfrentado uma ditadura inteira sozinha, que tinha sobrevivido à perda do próprio país, foi vencida, no fim pela coisa mais humana e mais simples de todas, pelo corpo.

 Esse corpo que um dia cansa e que cansa para todos nós, sem exceção, por mais cor que a gente tenha tido. E depois cober a família dela, estávamos ao lado da cama, segurando a mão dela fazer uma coisa quase impossível, avisar o Brasil de que a Elk tinha ido embora. Como é que se faz isso? Como é que se encontra palavra para uma hora destas? E olha como eles fizeram.

 reparar na delicadeza, no amor, na elegância que tem nele. Eles escreveram para todo o Brasil ler. Avisamos que a nossa Elk já não está por aqui connosco e não se ficaram por aí, completaram um as palavras dela própria com aquela frase que ela sempre disse: “Toda a vida para quem quisesse ouvir.” Ei, essa é a última coisa que te prometi. A terceira, aqui muda tudo.

Lembram-se que lá atrás, lá no início, eu pedi-te para guardar uma frase de cinco palavras que eu disse que quando ela voltasse, ia entender esta mulher inteiro de uma só vez, num estalido. Pois então, chegou a hora. Pega na frase que guardou. A família da El se despediu-se dela, dizendo ao Brasil inteiro que ela não tinha morrido, que tinha apenas, como ela própria sempre dizia, ido brincar a outra coisa.

 Foi brincar de outra coisa para tudo agora. E pensa comigo no tamanho disto, no tamanho desta mulher. Aquela mulher inventou o seu próprio nome quando um jornalista deu-lhe um personagem. inventou a sua própria pátria lá dentro do peito. Quando lhe tiraram a pátria de papel, inventou uma forma de ser livre num país careta, numa época dura em que ser livre era proibido.

vida inteira, do princípio ao fim, ela apanhou as coisas mais sérias e mais pesadas do mundo, a identidade, a nacionalidade, a perseguição, a tragédia e no fim até à própria morte. E tratou cada uma delas como uma brincadeira séria, com aquela leveza que só os muito, muito corajosos, conseguem ter. E quando chegou a vez da própria morte bater à porta, ela tratou exatamente do mesmo jeito.

 Para ela morrer era só isso, ir brincar a outra coisa. É aí, exatamente aí que percebe tudo. De outrora, tudo nela era invenção. O nome, a imagem, a cor, a personagem, a pátria de dentro. Tudo inventado, tudo criado do zero pelas próprias mãos. E precisamente por isso, precisamente porque teve de inventar tudo sozinha, sem nada pronto, ela acabou por ser a coisa mais verdadeira do que a televisão brasileira já teve, a mais autêntica de todas.

 Porque o mais verdadeiro de todos nem sempre é quem nasce com tudo pronto, com nome, com pátria, com chão firme debaixo dos pés. Por vezes o mais verdadeiro é precisamente quem perde o chão, perde tudo e mesmo assim decide construir uma vida bonita, alta, colorida, em cima do vazio. E qualquer pessoa que já perdeu alguma coisa que pensava que era para sempre, um lugar, uma pessoa querida, uma certeza, uma casa, uma juventude.

 Entendi isso sem precisar de explicação nenhuma. entende no osso. Talvez esteja a entender agora. Eh, eu queria que levasse uma coisa desta história para dentro de casa para guardar para si para estas noites em que estamos sozinhos, deitado, a pensar na vida que passou. Ah, é o que passou toda a existência, parecendo a pessoa mais diferente do mundo, a mais excêntrica, a mais louca.

a mais fora do comum, a que menos parecia connosco. E no fim de tudo, quando conhecemos a verdade, a história dela é a mais comum de todas. É a história de uma pessoa que perdeu coisas que amava, que carregava dores caladas que ninguém via, que envelheceu, que viu o mundo inteiro mudar à volta, que teve de se reinventar mais do que uma vez do zero e que no meio de tudo isto, escolheu continuar a amar a vida e adorando o seu lugar, tirando a maquilhagem da fama, tirando o cabelo colorido, ela era você. Ela era eu, ela era a gente. E

talvez seja exatamente por isso que a história dela mexe tanto com quem fica até ao fim como ficou. Porque no fundo a gente não está a ouvir a história de uma estrela distante e inalcançável. A gente está ouvindo como num espelho um pedacinho da nossa própria vida. E é assim, com este carinho que eu queria que guardasses a Elk para sempre.

 Esquece a doida do cabelo colorido. Esquece a russa do chacrinha. Que russa ela nunca foi. Recorda-a como uma das mulheres mais corajosas e mais livres que este país já teve a sorte de ter, mesmo sem merecer tanto. Uma mulher que recebeu do destino as piores cartas que se podem receber. a guerra, o exílio, a perda da pátria, a solidão e que jogou cada uma delas com um sorriso na cara, com cor, com graça, com a cabeça erguida.

 Pouca gente faz isso, muito pouca. Perante tanta perda, quase toda a gente escolhe a amargura. Ela escolheu a leveza todo santo dia até ao último. Hoje, quando passa uma imagem dela na televisão, daquele cabelo colorido, daquela gargalhada escancarada, sabemos de uma coisa que antigamente ninguém sabia. A fama é uma luz que aquece de longe e queima de perto.

 A El viveu nas duas extremidades dessa luz, sentiu o calor e sentiu a queimadura. E no fim descobriu que todo o mundo descobre. Um dia que o que importa de verdade não cabe num palco nem num documento. Ela entrou na casa dos milhões e milhões de brasileiros há mais de 40 anos como a mulher mais livre da televisão e deixou deste mundo da mesma forma exata que viveu nele, inventando, brincando, sem pedir licença a ninguém à maneira dela.

Uma alemã que se tornou a coisa mais brasileira que já existiu. Uma mulher sem país, riscada de um documento que acabou por pertencer ao coração de um país inteiro para sempre. Se chegou até aqui comigo até ao fim e se esta história mexeu consigo, faz uma última coisa por mim.

 Não guarda essa história só para você. Envia para alguém que também cresceu a ver a Elk na televisão, paraa sua irmã, paraa sua amiga, paraa sua comadre, para o seu marido, porque tem gente que merece ser lembrada pelo que viveu verdadeiramente, pelo que carregou calada e não só pelo que aparecia na pequeno ecrã de domingo. Se inscreve no canal, ativa lá o sininho para não perder nenhuma e fica comigo que amanhã, nesse mesmo horário, tenho outra história destas para te contar baixinho, só para si. Até lá, durma com Deus. M.

 

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