OS LUXOS ABSURDOS DEIXADOS POR LEANDRO APÓS SUA MORTE | DOCUMENTÁRIO COMPLETO DO REI DO SERTANEJO d
Ah, o Leandro, pá, esse nome não vem sozinho, não é? Vem, pensa em mim a rebentar no rádio do carro numa viagem de fim de semana, toda a família cantando naquele berreiro, ninguém a acertar a nota e ninguém a ligar também. Chora por mim, liga-me, não liga para ele. Vem entre tapas e beijos a tocar no bar da esquina lá para as 11 da noite de sábado.
Casal brigado a olhar-se de novo do outro lado da mesa. Entre tapas e beijos é onde é sejo, é sonho, é ternura. E vem Não aprendi a dizer adeus. Saindo no volume máximo do especial de fim de ano da Globo, aquele que toda a família parava para ver. Não aprendi a dizer a Deus, mas tenho de aceitar que os amores vêm vão são Leandro na segunda voz.
Seguro, firme, o Leonardo a soltar o agudo por cima. Foi esta dupla que pegou no sertanejo, tirou da poeira da estrada e meteu-o dentro da sala da sua casa, na TV aberta no domingo de manhã, no volume que o vizinho reclamava. Eles não pediram licença para entrar. Entraram e viraram trilho de casamento, de choro de saudade, de churrasco de domingo do Brasil inteiro há mais de 10 anos.
E aí pensa que sabe o resto? Menino pobre da lavoura cantou, ficou famoso, morreu cedo de cancro. Pronto, é a versão que passou na televisão, é a que toda a gente mais ou menos guardou-o na cabeça. Só que há uma parte desta história que quase ninguém te disse, porque o Leandro faleceu com 36
anos. 36.º E em menos de 10 anos de carreira, este mesmo menino que engrachava sapatos no mercado de Goiânia em época de Natal juntou uma coisa que quando vê a lista não acredita. Fazenda gado aos milhares. Prédio inteiro na cidade até motel. Uma fortuna que os jornais da época chutaram cerca de 20 milhões deais e isto em dinheiro de 1998 quando 20 milhões era outra coisa.
Hoje eu vou contar-te isso tudo. De onde ele veio, lá do tomateiro de Goianápolis. como construiu este império em tão pouco tempo e principalmente o que exatamente ele deixou para trás e para onde foi parar cada pedaço. Então, pega um café, baixa o volume do mundo lá fora e fica aqui comigo, que esta história é demasiado boa para ouvir com pressa.
E ela começa numa pequena cidade de Goiás, no meio de uma plantação de tomate com um menino tão tímido que ninguém da família apostava um tstão furado no seu sonho. Goiaápolis, interior de Goiás, início dos anos 60. Se nunca ouviu falar desta cidade, não há problema. Quase ninguém ouviu.
É uma cidadezinha pequena que ficou conhecida por uma só coisa. Tomate, muito tomate. Era a lavoura que punha comida na mesa de quase todo o mundo por ali. E foi mesmo no meio deste pé de tomate que nasceu a 15 de agosto de 1961. Um menino registado como Luís José Costa. Luís José guarda este nome porque o Brasil inteiro ia conhecê-lo por outro.
A casa dos Costa era simples, do jeito que casa, de gente do campo. Era simples naquela época. oito filhos. O pai, o senhor Avelino, plantava tomate e giló em regime de meiação. Quer dizer, a terra não era sequer dele. Ele plantava e partilhava o que colhia com o dono. Quem é filho ou neto de agricultor sabe o peso que tem essa palavra.
Meação é trabalhar o ano inteiro ao sol para ficar com metade. E o Luís era o mais tímido de todos. Aquele menino calado que falava pouco, que ficava mais no canto observando. Ninguém olhava para ele e pensava: “Este vai encher estádio um dia, pelo contrário.” Mas o menino tinha uma coisa dentro dele. O pai, o seu Avelino, tocava viola.
E cada vez que a viola saía do prego na parede, os olhos do Luís mudavam. Ele colava, ficava ali olhando o pai a dedilhar, guardando aquilo. Em casa, o som que rolava era Chitãozinho e Chororó, a dupla que era o sonho de consumo musical de qualquer família de roça naquele tempo. O amor é feito de paixões e quando perde a razão não sabe quem vai magoar.
Só que a vida não deu tréguas para sonhar de barriga cheia. A família teve de se mudar mais do que uma vez atrás de trabalho. Goianápolis, Carmo do Rio Verde, Goiânia e de volta, rodando todo o estado, procurando onde ganhar o pão. E foi em Goiânia, na grande cidade, que o Luís arranjou os primeiros bicos de menino pobre que precisa de ajudar em casa.
Sabe qual foi? Época de Natal. Ele ia pro Mercado Central vender sapatos e quando não estava a vender, engrachava. Engrachat, o menino de 7, 8 anos ajoelhado no chão do mercado, pano na mão a dar brilho no sapato dos outros para levar uns trocos para dentro de casa. Segura essa imagem na cabeça, porque daqui a uns anos este mesmo menino ia ter quinta que não atravessa de carro num dia, mas o sonho não largava dele.
Perguntavam se ele ia ser o qucer e ele respondia na lata: “Cantor, cantor famoso”. E não é que cantava mesmo? A miudagem ria. O povo achava graça daquele menino tímido a dizer que ia sair na televisão. Mas ele não estava brincando não. Ainda miúdo, virou vocalista de uma banda no interior de Goiás. Os Dominantes, o nome, e o que a banda tocava? Cover, Roberto Carlos e Beatles. Imagina a cena.
Um menino da roça de Goiás, filho de Meieiro, subindo num palquinho de festa de cidade pequena para cantar. Beatles em inglês, à maneira que dava para o pessoal dançar. E olha que ninguém, mais ninguém mesmo, imaginava onde aquilo ia parar. Porque faltava uma peça nesta história, faltava o irmão. E a dupla mais famosa do sertanejo brasileiro só nasceu verdadeiramente por causa de uma farmácia, de um patrão e de um par de gémeos que nem sequer eram da família. 500 exemplares.
Foi o que sobrou do primeiro disco dos dois irmãos. 500. Guarda esse número porque daqui a pouco ele vai ficar quase engraçado de tão pequeno. Mas calma, deixa-me voltar um pouco, porque a dupla nem sequer existia direito ainda. Antes do Leandro chamar o irmão, tinha tentado montar outras duas duplas que não deram em nada, simplesmente não pegou.
E depois ele olhou para o lado, para o Emval, o irmão mais novo, que hoje o Brasil conhece como Leonardo, e decidiu apostar nele. Só tinha um problema. O Emival era afinado, cantava bonito, mas não sabia marcar o tempo da música, se perdia. E foi o Luís, o irmão mais velho, que se sentou com ele e ensinou: “Só entras quando eu der o sinal.
” Pacientemente, um ensinando o outro até engrenar. Agora, o nome. Como é que dois irmãos chamados Luiz e Emival passaram a ser Leandro e Leonardo? Pois é aí que a história fica boa. O Emival trabalhava numa farmácia em Goiânia e um belo dia um colega de trabalho saiu mais cedo todo entusiasmado, dizendo que a mulher ia ter um filho.
Gémeos, dois meninos. E os nomes escolhidos pros gémeos eram o Leandro e o Leonardo. O Emival ouviu aquilo e ficou com os nomes na cabeça. Achou bonito, levou para casa. E foi assim do nada que a dupla ganhou o nome que ia entrar paraa história. Dois nomes que nem sequer eram deles, emprestados de dois bebés que nunca conheceram.
Aí em 1983, veio a primeira luz ao fundo do túnel. Ganharam um concurso de calouros numa TV local, primeiro lugar, e com o dinheirinho do prémio, foram gravar o tal primeiro disco, o das 500 cópias, que vendiam à unha, de bar em bar, mão em mão, para o pessoal que os ia ver cantar.
Não rebentou, não caiu na boca do povo, ficou por ali mesmo. Em 86, 87, gravaram mais dois discos por uma gravador um pouco maior. Venderam melhor, deu para respirar, mas ainda não era aquilo. Ainda não era o rebentamento que o Leandro sonhava ali desde menino, engrachar sapato no mercado. E aí chega a 1989, o ano que virou a chave.
Eles lançam disco novo e nele tem uma música chamada Entre Tapas e Beijos. Já deve estar ouvindo-a na cabeça agora. Entre tapas e beijos é homem, é Deus sejo, é sonho, é ternura. O casal que se ama tem mesmo na cama, provoca loucuras. Aquela música caiu no Brasil como fósforo em palha seca. Pegou fogo, tocava no rádio de táxi em som de padaria.
Numa festa de casamento no Bar da Esquina, no sábado à noite, o disco vendeu 1,8 milhões de cópias, quase 2 milhões de pessoas com aquele vinil ou aquela cassete dentro de casa. Para se ter ideia do tamanho, era mais pessoas a comprar um disco só do que a população inteira de uma capital como Campo Grande na época. Do dia para a noite, os dois rapazes da roça de Goiás estavam na televisão, naqueles programas de auditório de domingo que toda a família assistia junto, um ao lado do outro no sofá.
O Leandro mais calado, na segunda voz, o Leonardo à frente soltando o sentimento. E o Brasil apaixonou-se pelos dois. Mas, pá, se entre tapas e beijinhos já foi esse tamanho todo, imagina quando veio a música que ia bater um recorde histórico de todo o Brasil. Porque o disco seguinte não foi só sucesso, foi um dos maiores fenómenos de venda que este país já viu.
E o número é de assustar. Agora presta atenção a este número, porque ele é de fazer cair o queixo. O disco seguinte da dupla, editado em 1990, tinha uma canção chamada Pensa em Mim e este disco vendeu 3.145.814 cópiasões 145.814. Isto não é um pontapé, não é um número redondo de propaganda, é a contagem certinha, unidade a unidade.
Para que sinta o tamanho disso, era como se toda a gente, mas todos mesmo, de uma cidade do tamanho de toda Brasília, tivesse ido na loja e comprado o mesmo disco, cada casa com o seu. E olhe que naquela época não havia internet, não havia streaming, ninguém baixava nada. Para ter a música, tinha que pegar no carro, ir à loja e comprar a fita ou o vinil com o dinheiro do bolso.
E aí surge o dado que passa a ser mensagem de WhatsApp na hora. Esse disco, Pensa em mim, foi o terceiro disco mais vendido da história do Brasil. De todos, de todos os artistas, de todos os estilos, de todos os tempos. À frente dele só dois, o padre Marcelo Ross e o Show da Xuxa 3. Só estes dois, dois meninos que plantavam tomate e engrachavam sapatos no interior de Goiás, ficaram atrás apenas da Xuxa e do padre mais famoso do país.
Envia essa para alguém e vê se a pessoa acredita à primeira. E não parou. Depois foi Hit atrás de Hit. Pense em mim. Desculpe, mas vou chorar. Talismã. Não aprendi a dizer adeus temporal de amor. Cada disco novo que saía já vinha com três, quatro canções que se colavam à cabeça e não saíam mais. A dupla lançava praticamente um disco por ano e todos os anos era a mesma coisa, rebentava.
E a televisão? A televisão abraçou os dois de vez. Eles ganharam um especial de fim de ano na Globo em 1991. daqueles que a família parava tudo para assistir. Deu tão certo que virou série semanal contando as aventuras da dupla, os dois a fazer graça, cantando, atuando. E em 1995 veio um dos mais bonitos projetos dessa década, os Amigos.
Leandro e Leonardo juntaram-se com Chitãozinho e Chororó e com Zezé de Camargo e Luciano, os três maiores nomes do sertanejo do Brasil, no mesmo palco, no mesmo especial de fim de ano, três anos seguidos. Se fechava o ano a ver aquilo na Globo com a família reunida, estava a ver o sertanejo no ponto mais alto que ele já tinha chegado na vida. E o dinheiro, claro, entrou junto.
O cachet da dupla nos concertos, no auge, era coisa de gente grande. E o Leandro, que era o mais calado, o mais tímido, se revelou um homem de negócios agressivo, por detrás daquela cara mansa. O dinheiro que entrava do palco, não torrava, ele plantava, comprava terra, comprava gado, ia montando, tijolo a tijolo, um império que ninguém imaginava que aquele menino da ameação fosse construir.
Tudo corria mil maravilhas. A dupla no topo, o dinheiro a entrar, a família estruturada, o Brasil inteiro a cantar junto. parecia que ia durar para sempre. Só que numa pescaria, em Abril de 1998, o Leandro sentiu uma dor nas costas. E aquela dor parva de quem passou o dia sentado à beira do rio era o início do fim. Uma dor nas costas.
Foi só isso no começo. O Leandro estava numa pescaria lá numa das suas quintas, quando começou a sentir uma fisgada nas costas que não passava. No início, ninguém deu muita bola. Dor nas costas toda a gente tem, ainda mais quem passou o dia na beira do rio. Mas a dor não ia embora e depois foi parar ao hospital. Fizeram uma radiografia e apareceu uma mancha no pulmão direito do tamanho de uma laranja.
O diagnóstico veio pesado, um cancro raro, muito raro, chamado tumor de Eskin. Uma coisa tão invulgar brasileiros enviaram o caso para referência de um dos hospitais mais respeitados do mundo, lá nos Estados Unidos, para ter a certeza do que era. E era um tumor agressivo num local difícil, já num estádio bastante avançado. Os médicos foram diretos com a família.
Ele tinha mais ou menos 60 dias. E aí, a família tomou uma decisão que até hoje divide quem ouve esta história. Eles decidiram não contar ao Leandro que ele estava a morrer. Pensa na situação. Tem quem diga que foi um gesto de amor deixar o gajo viver os últimos dias com esperança, sem o peso da sentença em cima, acreditando que ia melhorar.
E tem quem diga o contrário, que todo o homem tem o direito de saber que vai partir, de se despedir à maneira dele, de resolver o que tinha para resolver. Não tem resposta fácil. Se fosse com a sua família, o que faria? Fica aí a pergunta. O facto é que o Leandro não sabia da gravidade e por isso, nas entrevistas desse período, ele aparecia tranquilo, sorridente, dizendo que era um pequeno problema que ia ser resolvido logo.
Dizia que estava confiante, que estava bem. fez até uma cirurgia e disse que era uma coisa parva de rosto. O Brasil inteiro a assistir aquilo sem saber que estava a ver um homem despedir-se, sem saber que se despedia. Fez quimioterapia, perdeu o cabelo e, como já não podia subir ao palco, gravou um recado para o público pedindo para que cuidassem do Leonardo, que o O Leonardo ia precisar do carinho de todo o mundo dali paraa frente.
Ele falando para cuidarem do irmão sem dizer porquê. A última vez que o Brasil viu o Leandro de pé foi no dia 8 de Junho de 1998. Apareceu na varanda do apartamento dele em São Paulo sem cabelo por causa da quimioterapia enrolado na bandeira do Brasil para torcer no Mundial. Magro, abraçado à bandeira, acenando ali de cima.
Foi a despedida, só que ninguém sabia que era. No dia 15 de junho, ele teve uma paragem cardiorrespiratória e voltou paraa UCI. E no dia 23 de junho de 1998, 10 minutos depois da meia-noite, o corpo não aguentou mais. Falência de múltiplos órgãos. O Leandro morreu com 36 anos. Do dia em que os médicos deram 60 dias até ao dia em que ele partiu, foram 62.
Dois dias a mais do que a conta mais dura já tinha previsto. Nessa altura, o Leonardo estava a fazer um concerto na Baia. Ele subiu ao palco sem saber que o irmão não ia resistir aquela noite. Cantou e só soube da morte quando o show acabou. Imagina descer de um palco e receber essa notícia. O que veio depois foi uma das maiores como que este país já viu por um artista.
O corpo foi velado em São Paulo, na Assembleia Legislativa. Cerca de 25.000 1 pessoas passaram por lá para se despedirem. Depois, o corpo foi paraa Goiânia e o cortejo pelas ruas juntou uma multidão que as estimativas colocam em 150.000 pessoas. Gente por todo o lado, mais do que enche muito estádio de futebol neste país, chorando por um homem que tinha começado engraxando o sapato.
E há um pormenor que mostra o tamanho daquilo tudo. Era a época de Campeonato do Mundo. Ia haver jogo França contra a Dinamarca e as emissoras de televisão brasileiras deixaram o primeiro tempo do jogo da Taça de lado para cobrir o velório do Leandro. Num país onde o futebol é religião, largar a Taça para transmitir o funeral de um cantor sertanejo diz tudo sobre o que aquele homem representava.
O Brasil parou para chorar o Leandro. E foi bem ali, no meio de toda esta dor que começou a aparecer a pergunta que dá nome a este vídeo. Porque um homem que morre com 36 anos no auge, com a quinta, o gado e uma fortuna no nome, este homem deixa muita coisa para trás. E o que é que ele exatamente deixou é de impressionar.
Então vamos fazer a conta. Um menino que engrachava sapatos no mercado de Goiânia em época de Natal, filho de Meieiro, daqueles que plantam a terra dos outros e ficam com metade, que começou por vender disco de bar em bar, 500 cópias na unha. Este menino morreu com 36 anos. E em menos de 10 anos de verdadeiro sucesso, porque o rebentamento só veio em 89, olha o que tinha juntado.
Começa pela Terra. O Leandro era proprietário de duas explorações no Tocantins, mais uma exploração e uma quinta em Goiás. Junta tudo e dá cerca de 4.000 alqueires de terra. Para que tenha uma ideia do que é, Alir é medida que assusta e 4000 deles é uma extensão de terra que não atravessa de carro num dia de viagem. É quinta que desaparece no horizonte e terra sem bicho não rende.
Depois havia o gado, cerca de 6.000 cabeças de gado espalhadas naquelas terras. 6.000. Um boiadão que só ele já era fortuna de grande lavrador do interior. Mas não parou no campo, não. Na cidade também tinha coisa. Ele tinha um edifício de três andares em Goiânia, um edifício que chegou a albergar um shopping e um terreno de 15 alqueires ali perto do aeroporto de Goiânia, que é daquele tipo de terreno que só valoriza com o tempo porque está no caminho do crescimento da cidade.
O menino tinha faro para isso. E aí vem o item que faz sempre com que todos levantem a sobrancelha quando ouve. O Leandro também tinha um motel. Isso mesmo. No meio das quintas, do gado, dos edifícios, tinha um motel no hall dos negócios dele. Aquele rapaz tímido, quetão, da segunda voz, era um homem de negócios de faro afiado, que punha o dinheiro do palco para trabalhar em tudo quanto é canto.
Junta tudo isto, as quintas, o gado, o edifício, o terreno, o motel. Quanto dá? A imprensa da época, o jornal Extra, chutou o seu património em torno de R milhões de reais. E aqui é importante ser honesto consigo. Esse número é uma estimativa de jornal, não é valor de notário com carimbo. Mas mesmo sendo estimativa, ó o tamanho. 20 milhões em dinheiro de 1998.
Corrige isso para hoje. E você tá falando de muitas e muitas dezenas de milhões de reais. Tudo construído por um filho de Miro em menos de 10 anos. Só que o dinheiro e a terra, quando o proprietário se vai cedo assim, viram outra história. Viram herança. E a herança, sabe, é assunto que mexe com as pessoas.
O Leandro deixou quatro filhos. O Thago do primeiro casamento, a Leandra e o Leandrinho com a Andreia, a companheira dele até ao fim. O Leandrinho, aliás, era um bebé de 4 meses de vida. quando perdeu o pai 4 meses. Nunca vai ter uma recordação de verdade do próprio pai. Na hora de dividir, ficou metade para a viúva, aí Andreia, e metade repartida entre os filhos.
Parecia resolvido, só que faltava um pedaço desta história vir à tona. Em 2009, mais de 10 anos depois da morte do Leandro, apareceu um quarto filho, um rapaz chamado Leandro Borges, fruto de um relacionamento antigo do cantor. Fez o teste de ADN e deu positivo. Era filho do Leandro, mesmo. E com isto, a partilha, que já estava fechada, teve de ser refeita para incluir este filho que ninguém tinha contado na conta.
Ele herdou a sua parte também. Quintas, gado e o tal do motel entraram no quinhão dele. Hoje, estes quatro filhos tocam a vida, cada um do seu jeito. Boa parte deles a cuidar do que o pai deixou. Um património que nasceu de um tomateiro em Goianápolis e de um menino que dava brilho ao sapato dos outros para ajudar em casa.
E é aí que a história inteira aperta o peito da gente. E depois a gente chega ao fim e fica pensando, um homem que veio do nada, do pé de tomate, da ameação, do sapato engrachado no mercado em época de Natal, que sonhou alto quando todos achavam graça, construiu um império que a maioria não constrói numa vida inteira e foi-se embora com 36 anos no melhor momento com o Brasil inteiro a cantar as músicas dele.
Deixou quinta, gado, prédio, dinheiro, deixou quatro filhos, deixou uma coleção de músicas que ainda hoje toca na rádio no churrasco de domingo, no fim de semana e faz parar um monte de gente o que está a fazer e cantar junto. Mas talvez o que o Leandro deixou de mais valioso não caiba em cartório nenhum, porque terra a gente vende, gado a gente vende, prédio vendemos.
Agora aquela voz a sair do rádio numa estrada de fim de tarde, esta ninguém tira da gente, esta fica. O menino tímido de Goianápolis tornou-se eterno do jeito que mais queria, cantando. E depois quero saber de si, na sua opinião, o que impressiona mais nesta história? É o tamanho do que construiu em tão pouco tempo, saindo do zero? Ou é a forma como partiu no auge, sem sequer saber que se estava a despedir? Escreve lá em baixo que eu leio os comentários.
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