MUITO PIOR QUE COLUMBINE: O MASSACRE DA VIRGINIA TECH

No dia 16 de abril de 2007, os Estados Unidos testemunharam um dos episódios mais trágicos da sua história. O massacre ocorrido na Virginia Tech, universidade localizada em Blacksburg, no estado da Virgínia, tornou-se o pior ataque armado já registado numa instituição de ensino superior norte-americana. Em apenas alguns minutos, 32 pessoas perderam a vida e dezenas ficaram feridas, antes de o próprio atirador colocar fim à sua vida.

Até hoje, o caso continua a levantar questões sobre saúde mental, acesso a armas de fogo, falhas institucionais e prevenção de tragédias semelhantes.

A infância e a personalidade de Cho Seung-hui

Cho Seung-hui nasceu em 18 de janeiro de 1984, em Seul, na Coreia do Sul. Em 1992, quando tinha cerca de oito anos, mudou-se com a família para os Estados Unidos. Os Cho estabeleceram-se em Centreville, Virgínia, onde administravam uma pequena lavandaria e levavam uma vida discreta.

Desde cedo, Cho apresentava extrema dificuldade em interagir socialmente. Durante a adolescência foi diagnosticado com ansiedade grave, depressão e mutismo seletivo, um transtorno caracterizado pela incapacidade persistente de falar em determinadas situações sociais, apesar de conseguir comunicar normalmente em ambientes considerados seguros.

Especialistas salientam que o mutismo seletivo, por si só, não está associado a comportamentos violentos. Ainda assim, Cho passou por acompanhamento psicológico durante vários anos. Segundo a irmã, tratava-se de um jovem reservado, tímido e extremamente calado, vivendo numa família considerada unida.

A entrada na Virginia Tech

Em 2003, Cho ingressou na Virginia Polytechnic Institute and State University (Virginia Tech) para estudar Literatura Inglesa.

A universidade possuía mais de 30 mil estudantes e um enorme campus universitário. Contudo, a adaptação de Cho nunca foi fácil.

Com o passar do tempo, começaram a surgir comportamentos cada vez mais preocupantes.

Colegas denunciaram que ele fotografava discretamente as pernas de estudantes sem autorização. Professores também demonstravam crescente preocupação com a sua conduta.

Uma docente chegou mesmo a expulsá-lo das aulas devido ao comportamento considerado intimidante e ao conteúdo perturbador dos textos que escrevia.

Outra professora, Lucinda Roy, ficou profundamente alarmada ao ler poemas e trabalhos académicos repletos de violência, ameaças e fantasias agressivas. Em 2005, comunicou oficialmente as suas preocupações à administração da universidade.

Os primeiros alertas ignorados

Ainda em 2005, duas estudantes denunciaram que estavam a ser assediadas por Cho.

Uma delas afirmou sentir-se perseguida. Outra relatou que recebia repetidas mensagens de texto enviadas por ele. Apesar das queixas, nenhuma quis formalizar o processo.

Pouco depois, o colega de quarto de Cho contactou a polícia, receando que ele pudesse atentar contra a própria vida.

As autoridades obtiveram uma ordem judicial para uma avaliação psiquiátrica. Cho foi internado durante dois dias num centro de saúde mental, sendo posteriormente libertado com determinação judicial para continuar tratamento psicológico.

Contudo, segundo as investigações posteriores, essa decisão judicial nunca foi devidamente acompanhada nem integrada em todos os sistemas responsáveis pelo controlo de compra de armas.

A aquisição das armas

No início de março de 2007, poucas semanas antes do massacre, Cho comprou legalmente uma pistola e cinquenta munições.

Pouco tempo depois adquiriu uma segunda arma.

Uma foi comprada através da internet e outra numa loja física da Virgínia.

Na época, a legislação federal norte-americana proibia pessoas consideradas judicialmente incapazes por problemas mentais de adquirirem armas de fogo. Porém, devido a falhas burocráticas entre o sistema judicial estadual e a base de dados federal, Cho conseguiu concluir ambas as compras sem qualquer impedimento.

O futuro não parece bom para o Brasil", diz estudioso de massacres nos EUA  - Revista Galileu | Sociedade

 

O início do massacre

Na manhã de 16 de abril de 2007, às 7h15, Cho dirigiu-se ao dormitório West Ambler Johnston Hall.

Ali assassinou duas pessoas:

  • Emily Jane Hilscher, de 19 anos;
  • Ryan Clark, de 22 anos.

A polícia chegou rapidamente ao local, mas acreditava tratar-se de um incidente isolado, possivelmente relacionado com um conflito pessoal. Como o atirador já tinha abandonado o edifício, não foi decretado o encerramento imediato do campus nem houve cancelamento das aulas.

Pouco depois, Cho dirigiu-se aos correios e enviou um pacote para a NBC News, em Nova Iorque.

Às 8h26, a universidade enviou apenas um e-mail informando que ocorrera um homicídio numa residência estudantil e pedindo vigilância. A mensagem não mencionava um atirador ativo nem recomendava que os estudantes abandonassem as aulas.

O segundo ataque

Vestindo um colete tático e fortemente armado, Cho regressou ao campus.

O alvo seguinte foi o edifício Norris Hall, onde funcionavam várias salas de aula.

Por volta das 9h40, iniciou o segundo ataque.

Antes de entrar, bloqueou diversas portas exteriores com correntes para atrasar a chegada da polícia e dificultar a fuga das vítimas.

Em seguida percorreu várias salas de aula, disparando indiscriminadamente contra professores e estudantes.

Algumas salas conseguiram bloquear as portas com mesas e cadeiras.

Em outras, professores tentaram impedir a entrada do atirador, sacrificando a própria vida para permitir que alunos escapassem pelas janelas.

Muitos sobreviventes relataram que Cho mantinha uma expressão completamente fria, movia-se em silêncio e regressava para disparar novamente sempre que percebia que alguém ainda estava vivo.

Todo o ataque dentro do Norris Hall durou cerca de nove minutos.

O desfecho

Quando as equipas policiais finalmente conseguiram entrar no edifício, encontraram um cenário devastador.

Cho Seung-hui já tinha tirado a própria vida com um disparo na cabeça.

No total:

  • 32 vítimas foram assassinadas;
  • dezenas de pessoas ficaram feridas;
  • entre os feridos estavam também estudantes que se lesionaram ao saltar pelas janelas para escapar.

As vítimas tinham entre 18 e 76 anos e eram provenientes de vários estados norte-americanos e de diferentes países.

O manifesto enviado à NBC

Dois dias após o massacre, a NBC recebeu o pacote enviado por Cho antes do segundo ataque.

O conteúdo foi entregue ao FBI.

Dentro da encomenda encontravam-se:

  • vídeos gravados pelo próprio;
  • centenas de fotografias;
  • um longo manifesto;
  • textos contendo mensagens de ódio, ressentimento e desejo de vingança.

Nos vídeos, Cho culpava outras pessoas pelo sofrimento que dizia ter vivido.

Afirmava ter sido humilhado, perseguido e injustiçado durante anos.

Comparava-se a uma figura de sacrifício e dizia acreditar que estava a agir em nome dos mais fracos.

Também fazia referências aos autores do massacre de Columbine, Eric Harris e Dylan Klebold, tratando-os como mártires.

A divulgação parcial dessas gravações chocou ainda mais a opinião pública, demonstrando que o ataque havia sido cuidadosamente planeado durante vários dias.

Vinte anos após massacre em Columbine, pais temem novas tragédias e confiam  pouco nas escolas - Jornal O Globo

As críticas à universidade

Após o massacre, a Virginia Tech foi alvo de fortes críticas.

Muitos familiares das vítimas acusaram a instituição de não ter bloqueado imediatamente o campus após os primeiros homicídios no dormitório.

Especialistas consideraram que, caso as aulas tivessem sido suspensas e um alerta de emergência tivesse sido emitido mais cedo, muitas vidas poderiam ter sido salvas.

Em 2009 vieram a público documentos revelando que Cho tinha sido avaliado diversas vezes pelos serviços psicológicos da universidade cerca de um ano antes do ataque.

Em todas essas consultas, negou possuir intenções homicidas.

Os investigadores concluíram ainda que muitos profissionais da universidade desconheciam a existência da ordem judicial que determinava o seu acompanhamento psiquiátrico.

Posteriormente, a universidade foi condenada ao pagamento de uma multa por falhas relacionadas com os procedimentos de alerta de emergência.

Consequências

O massacre da Virginia Tech provocou mudanças profundas nos Estados Unidos.

Universidades de todo o país reformularam os seus protocolos de resposta a emergências, investiram em sistemas de comunicação rápida e passaram a desenvolver programas destinados à identificação precoce de estudantes em situação de risco.

O caso também reacendeu o debate nacional sobre:

  • controlo de armas de fogo;
  • integração entre sistemas judiciais e bases de dados federais;
  • acompanhamento de pessoas com perturbações mentais;
  • responsabilidade das instituições de ensino perante sinais de alerta.

Conclusão

O massacre da Virginia Tech permanece como um dos capítulos mais dolorosos da história norte-americana.

A tragédia demonstrou como uma sucessão de falhas — envolvendo saúde mental, burocracia, comunicação institucional e acesso a armas — pode criar condições para um desastre de enormes proporções.

Mais de uma década depois, o memorial erguido no campus continua a recordar as 32 vítimas, simbolizando não apenas as vidas perdidas, mas também a necessidade permanente de aprender com esta tragédia para reduzir o risco de acontecimentos semelhantes no futuro.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *