OSCAR SCHMIDT: A VERDADE QUE A FAMÍLIA ESCONDEU ATÉ A MORTE DELE l
O maior pontuador da história do basquete. Mais pontos que Karém Abdul Jabar, cinco olimpíadas, quatro raus da fama em quatro continentes. E esse mesmo homem, o que recusou a NBA morrendo com o cérebro destruído, com mais de três cirurgias cerebrais, sozinho, enquanto a família dele escondia a mentira mais dolorosa do desporto brasileiro.
Hoje saberá a verdade que esconderam sobre a morte do maior pontuador do mundo, ainda mais obscuro. Por que razão ele disse não à NBA e arrependeu-se até morrer? Ainda mais obscuro o que a A própria família dele escondeu um segredo que acabou com a sua vida. E o pior de tudo, o médico para quem o próprio Óscar O Daniel perguntou se o queria matar.
Mas antes, é preciso entender quem era Óscar Daniel Bezerra Schmitt antes de ser o Mão Santa. Para perceber porque é que um homem chega ao ponto de perguntar ao próprio médico se o quer matar, a as pessoas têm que voltar para o lugar onde tudo começou, para o lugar onde ninguém desconfiava do que vinha depois.
Natal, Rio Grande do Norte, 16 de fevereiro de 1958. Uma casa modesta no bairro da Cidade Alta. A Dona Marina Bezerra tinha acabado de dar a luz o segundo filho. O pai, o seu Raimundo Schmith, era um homem sério, descendente de alemães, dono de uma pequena farmácia na rua Princesa Isabel. Batizaram-no de Óscar Daniel Bezerra Schmith, um nome comprido, um nome que com os anos todo o Brasil ia aprender de cor.
Mas esta família não era de Natal, não, viu? Poucos meses depois do nascimento de Óscar, o senhor Raimundo recebeu uma proposta de trabalho na capital. A família inteira empacotou o que tinha e mudou-se para Brasília. Uma cidade que em 1958 ainda não existia oficialmente. Uma cidade que estavam a construir no meio do serrado. No meio do nada.
Óscar cresceu ali, entre obras, poeiras, calor seco e largas avenidas que iam parar a lugar nenhum. E foi ali, nesta cidade recém- inventada, que aconteceu uma coisa que ia mudar a história do basquetebol mundial. O Óscar tinha 13 anos. Um dia, o seu tio, o Alonso, viu o miúdo a brincar no quintal de casa, olhou direito, mediu-lhe as costas com a mão, tocou nos ombros e disse ao senhor Raimundo uma única frase.
Disse assim: “Este menino não é para futebol, irmão. Esse menino é para basquetebol.” O senhor Raimundo riu. No Brasil, nessa época, o basquetebol era desporto de menino rico de colégio caro. Não era para um filho de farmacêutico, era uma distração, uma coisa que se fazia até o miúdo crescer e escolher um trabalho sério.
Mas ócar, não é, não era um miúdo qualquer. Aos 14 anos já media 1,90 m. Aos 15 1,96 m. Aos 165 m. E havia uma coisa mais, uma coisa que no basquetebol vale mais do que a altura. tinha o pulso, aquele pulso direito que anos depois o Brasil inteiro ia baptizar de mão santa. E sabe o que acontece quando um miúdo de 2,5 m aparece num campo brasileira em 1974? Acontece o que aconteceu.
Viram ele os olheiros do Palmeiras, chamaram, testaram e ofereceram contrato profissional aos 16 anos. 16. recém-terminado o ensino secundário, o miúdo de Brasília, o filho do farmacêutico, foi para São Paulo com uma mala e os recados da mãe escritos à mão. E daí ali a vida pôs na à frente dele uma coisa mais importante que o basquetebol, uma coisa que o Óscar também não esperava.
Guarda esse pormenor, porque dentro deste vídeo você vai entender por essa decisão. A decisão que tomou em 1974 aos 16 anos, acabou por destruí-lo 52 anos depois numa cama de hospital. Guarda esse pormenor, a gente volta. Oscar assinou com o Palmeiras num sábado de março de 1974 e dois meses depois, num quarteirão do Clube Sírio, na rua Lago Comprido, conheceu uma rapariga de 17 anos chamada Maria Cristina Vitorino.
Chamavam-lhe Cris, estava ali com uma amiga, viu o Óscar treinar, achou o miúdo demasiado alto e sério demais. O Óscar olhou para ela e não conseguiu concentrar-se no resto do treino. Nessa mesma tarde pediu o telefone, nessa mesma noite ligou. Uma semana depois estavam a namorar. Cris não era uma rapariga qualquer, estás a ver? Era filha de uma família paulista tradicional.
Estudava, lia, falava pouco, sabe? E compreendeu sem Óscar ter que explicar, que aquele miúdo do Nordeste com sonhos de basquetebol ia precisar de alguém ao lado para sempre. Não, alguém que aplaudisse, alguém que aguentasse. O que nenhum dos dois sabia naquela tarde de 1974 era que aguentar ia ser durante 52 anos a palavra que definiria o casamento shimit.
Mas ainda falta muito para chegar lá, sacas? Porque Óscar no O Palmeiras explodiu. O primeiro ano como profissional, com apenas 17 anos recém- completos, foi convocado para a seleção brasileira juvenil. O segundo ano já estava a ser convocado para a seleção principal. O terceiro ano já era o melhor marcador do time.
Os números daquele ócar miúdo eram números que nunca tinham sido vistos no basquetebol brasileiro. 30 pontos por partida, 35 40. Era um fenómeno, não é? Uma coisa que não dava para marcar. Era um pulso direito que lançava de onde fosse, da distância que fosse, na posição que fosse e a bola entrava. Em 1979, com 21 anos, Óscar deixou o Palmeiras e foi para o Sírio.
O Sírio era a equipa mais forte do basquetebol sul-americano naquele momento. Lá esperavam ele Marquinhos Vieira, Adilson Nascimento, Marcel Souza, [a música] era uma equipa de lendas e Oscar, com 21 anos, chegou e tornou-se o capitão emocional da equipa. Nesse mesmo ano, o Sírio venceu o Campeonato do Mundo Interclubes da FIBA, todo o Brasil, Toda a América do Sul.
O centro do mundo do basquetebol, por um instante foi a um quarteirão de São Paulo. E o miúdo que liderava tudo isto tinha 21 anos e se chamava-se Oscar Schmith. Consegue imaginar isso? Consegue imaginar ter 21 anos e ser o maior pontuador do mundo no desporto que você pratica? Consegue imaginar o dinheiro, os holofotes, as capas de revista, as ligações? Isto era 1979.
[música] Imagina a festa, imagina como era fácil ir pelo mau caminho. Imagina o que fazia qualquer outro miúdo brasileiro nessa mesma situação. Óscar fez uma coisa diferente. Uma semana depois de vencer o Mundial Interclubes, pediu Maria Cristina em casamento. O casamento foi em 1981, igreja de Nossa Senhora do Brasil, nos jardins.
A Cris tinha 24 anos, O Óscar tinha 23. Estavam juntos há 7 anos. E a partir deste casamento, durante os 45 anos seguintes, não se separaram um único dia. Aguentaram juntos quando o o basquetebol levou-os para a Europa, quando os filhos chegaram, quando o cancro entrou pela porta, quando o cancro voltou, quando o cancro ganhou.
[música] Guarda esta frase, viste? Quando o cancro ganhou, porque dentro deste vídeo vai saber quando e como este cancro ganhou. E porquê Maria Cristina, durante os últimos 4 anos de vida do marido, carregou sozinha um segredo que ia ter de chorar para o resto da vida dela? Mas ainda falta muito, já viu? Em 1982, um ano depois do casamento, chegou uma proposta que ia mudar a geografia do basquetebol brasileiro para sempre.
Um time da liga italiana, o Caserta, foi atrás dele. A Itália naquela época era o melhor basquetebol do mundo fora dos Estados Unidos. A liga italiana pagava em lira e pagava bem. Melhor que qualquer salário brasileiro, melhor do que qualquer salário da seleção, melhor até que alguns salários da NBA nesses anos.
O Ócar e o Cris empacotaram a casa toda e foram viver para Caserta, uma cidade pequena a norte de Nápolis. Ócar jogou ali nove anos seguidos. Nove. Virou o ídolo absoluto da cidade. Botaram uma placa à entrada do ginásio, colocaram uma rua com o nome dele. As velhinhas italianas paravam-no no supermercado para lhe tocar na cabeça, para dar sorte.
Falavam que a cabeça do shmit trazia bênção. Chamavam-lhe o brasiliano de mano santa, o brasileiro da mão santa. E foi ali em italiano, numa cidade que ele não tinha escolhido, que ganhou a alcunha que ia acompanhá-lo o resto da vida. Mão santa. Sabe quantos pontos fez o Óscar naqueles 9 anos em Caserta? Mais de 12.000.
E isto somando só a liga italiana. Somando a seleção brasileira, as taças europeias, os campeonatos mundiais, os jogos pan-americanos, o total ia para as nuvens. Mas o dado que importa é esse. Durante os anos 80, Oscar Schmitth, brasileiro, filho de farmacêutico de Natal, era considerado pelos jornalistas italianos um dos três melhores pontuadores do mundo, juntamente com Larry Bird.
junto com Magic Johnson. Só que Bird e Magic jogavam na NBA. Óscar Schimit jogava em Caserta. E Caserta não é coincidência nenhuma. Caserta é a pista. Caserta é a resposta para a primeira pergunta que fiz. Se ele era o terceiro melhor marcador do mundo, porque nunca jogou na NBA? A gente volta a isso. A gente volta.
Em 1986, em meados dos anos italianos, chegou uma coisa que nem o Óscar nem a Cris esperavam. O primeiro filho puseram o nome de Filipe. Puseram o Felipe porque a avó italiana da Cris chamava-se Felipa e era uma forma de honrar a família que tinha recebido-os em Caserta. O Filipe nasceu num hospital italiano.
Falou italiano antes que português. Deu os primeiros passos numa sala com chão de mármore num apartamento da Via Roma em Caserta. Trs anos depois, em 1989, chegou Stephanie, a menina, a mais nova e a família Schimit ficou completa. Pai, mãe, filho, filha, um postal perfeito do sucesso brasileiro na Europa.
E durante todos estes anos tinha mais alguém a ver tudo isto do Brasil. Alguém que naquele momento era apenas um miúdo, o irmão mais novo de Oscar, de 14 anos mais novo, chamavam-lhe Tadeu. Tadeu Schimit. Anota este nome, porque este miúdo, essa sombra de ócar que crescia numa cidade de Brasília, ia chorar 37 anos depois em rede nacional no dia mais escuro da vida dele.
Mas a gente está a chegar lá. Em 1991, passados 9 anos, Oscar deixou Caserta, foi para outra equipa italiana menor, o Forlie, depois para o Pavia, depois paraa Espanha, Madrid, Valadolid. Cada equipa recebia-o como ídolo. Cada equipa pagava ele como o melhor marcador do mundo. E O Óscar, com 35, 37, 39 anos, continuava fazendo 40 pontos por jogo.
40 nessa idade, não é? Quando os outros jogadores já pensavam em reformar-se, Oscar ainda lançava como um miúdo de 20. Até que em 1997, com 39 anos, regressou ao Brasil, voltou para o Flamengo e ali no Maracananzinho, jogou com o próprio filho. Felipe Schmith, com 11 anos, entrou um dia no banco do Flamengo como mascote.
[música] Puseram-lhe uniforme, botaram-lhe camisola e num jogo amigável, pai e filho dividiram quadra. O miúdo ficou 5 minutos, fez dois pontos e sentou-se para chorar do lado da mãe. Não de tristeza, de emoção, de compreender que o pai dele, aquele gigante de 2,5 m, era uma coisa que o resto do mundo via de forma diferente.
O Felipe cresceu com o sonho de ser jogador de basquetebol. Tentou, treinou, entrou nas categorias formativas do Flamengo, do São Paulo. Mas o miúdo, por mais que se esforçasse, não tinha o que o pai tinha. Faltava-lhe aquele pulso direito, aquele instinto frio de quadra que não se aprende em treino nenhum.
Descobriu isso aos 16 anos e deixou o basquetebol. Maria Cristina, que era a que mais esperava que Felipe seguisse os passos do pai, chorou durante dias. Óscar, ao contrário, abraçou o miúdo. Disse uma única frase, disse: “O teu caminho é outro, vais encontrar”. O Filipe foi para o mundo audiovisual. Hoje é produtor de videoclips de artistas brasileiros.
[música] Usa um nome artístico, não usa o apelido do pai. Chama-se Shima nos Créditos. Contamos isso depois. A gente liga no final. Enquanto isso, o outro irmão, o Tadeu, fazia o caminho dele. Tadeu foi para a televisão, começou no desporto, comentador de futebol, depois apresentador do Fantástico e em 2022 ofereceram-lhe a maior coisa que um apresentador pode receber no Brasil.
Apresentar o Big Brother Brasil, o programa mais visto do país. O rosto do Brasil inteiro durante 3 meses por ano. E Tadeu aceitou. E em abril de 2026, enquanto os Óscares morriam, Tadeu estava a gravar a temporada 26 do BBB. essa temporada. Anota essa data, BBB26, porque dentro deste vídeo vai ver Tadeu Schmit a chorar em rede nacional e vai perceber porque é que um irmão se obrigou a ir para a câmara, maquilhar-se, sorrir para o público 8 horas depois da pior notícia da vida dele.
Mas vamos por partes, sem saltar. Falta o mais obscuro. 17 de abril de 2026. Sexta-feira, 15h15. Casa Schimit, condomínio Alfa Ville 10, Santana de Parnaíba, estado de São Paulo. Maria Cristina entra no quarto do marido, encontra-o mal, encontra-o com os olhos fechados e a respiração curta. Grita abana, toca-lhe no rosto, não reage, liga para o Samu. 3:22.
Chega a ambulância. Os paramédicos sobem, fazem massagem cardíaca, aplicam o desfibrilhador uma vez, duas vezes, três vezes, colocam-no na maca e saem disparados para o hospital municipal Santa Ana, que fica a 11 km da casa. Cris sobe atrás, segura as mãos do marido, fala no ouvido dele o caminho inteiro.
As palavras que ela disse nesta ambulância nunca contou, nunca contou ao Felipe, nunca contou a Stephanie, nunca contou a ninguém. levou com ela. 3:49 chegam ao hospital, a equipa médica recebe Oscar Schmitt. Tentam reanimar -lo durante 22 minutos. 22.º Às 4:11 da tarde, o médico de serviço olha para o relógio, olha para Maria Cristina e baixa a cabeça.
Não foi preciso dizer mais nada. Oscar Daniel Bezerra Schmitth, o maior pontuador da história do basquetebol mundial, tinha morrido. Mas é aqui, não é, que a história se torna obscura, porque quando os jornalistas ligaram para família nessa mesma tarde pedindo uma nota oficial, o que receberam foi uma declaração estudada, uma nota fria, uma despedida sem velório público, sem enterro aberto, sem cerimónia, só cremação imediata.
Naquela mesma sexta-feira, antes do Sol se pôr, o maior pontuador do basquetebol mundial, o herói de cinco olimpíadas, o ídolo de todo o Brasil, cremado em particular no mesmo dia em que morreu. Por quê? Porquê tanta pressa? Porquê tanto silêncio? Por ninguém do público poôde despedir-se dele? A nota oficial falou de um pedido da família, falou de respeito pela intimidade, falou de um momento de recolhimento, mas a verdade, não é, a verdade real era outra coisa.
A verdade era uma coisa que só Maria Cristina, Felipe, Stephanie e Tadeu sabiam. A verdade era que o Brasil inteiro durante 4 anos tinha sido enganado. E esse engano tem um nome. Regressa a 2022, 4 anos antes da morte de Óscar. Redação do jornal Estado de São Paulo. O jornalista desportivo Roberto Faria liga para casa do Schimit, quer uma entrevista, quer perguntar ao O Óscar como ele está, quer atualizar o público sobre a saúde do ídolo, porque havia 11 anos que se sabia que tinha um tumor cerebral.
O Óscar atendeu a chamada, aceitou e duas semanas depois deu uma entrevista que correu o Brasil inteiro. A frase que se reproduziu em todos os noticiários dessa semana foi uma só. Óscar olhando para a câmera, sorrindo com o cabelo grisalho e os olhos claros, dizendo cinco palavras: “Eu venci esta batalha. Estou curado. Estou curado.
O Brasil inteiro respirou aliviado. As manchetes celebraram-se. As revistas puseram a foto dele na capa com frases de superação. Saíram documentários curtos sobre a sua luta. Os programas de domingo convidaram-no para contar a história. Oscar Schmitth, o herói que venceu o cancro, o exemplo de força, o brasileiro que regressou.
Mas essa frase, estas cinco palavras pronunciadas em 2022 eram mentira. Era uma mentira que a família inteira ia sustentar durante os 4 anos seguintes da vida do Óscar. E quando souber o que estava a acontecer de verdade naquela casa de Alpaville, enquanto o Brasil celebrava a cura do ídolo, não vai acreditar. Em maio de 2025, um ano e meio antes de morrer, o Óscar voltou a fazer uma ressonância magnética de rotina.
Era uma ressonância que fazia de 6 em 6 meses, desde 2011, quando encontraram o primeiro tumor. Desta vez foi diferente. Desta vez, quando Cris e Óscar entraram no consultório para ver os resultados, o oncologista, o Dr. Olavo Ferrer, demorou mais do que o normal. Olhou para os dois, fechou a porta e disse uma frase de 12 palavras que mudou tudo.
A gente tem uma massa nova, pequena, mas é um tumor de grau quatro. Grau 4, o mais agressivo, o que não perdoa, o que no mundo médico se chama glioblastoma multiforme, a sentença mais obscura que um oncologista pode pronunciar. O Óscar ficou calado. Maria Cristina levou a mão à boca. O Dr. Ferrer começou a explicar opções.
Cirurgia, a terceira cirurgia cerebral da vida de Óscar, desta vez do lado oposto do cérebro, do lado que ainda estava saudável, do lado que ia se danificar para tentar salvar a vida dele. O Óscar aceitou. Naquela mesma semana decidiu operar e operou. A cirurgia durou 8 horas. E quando acordou, Oscar Daniel Bezerra Schmith, o homem que durante cinco décadas tinha falado nas quadras do mundo inteiro com aquele pulso santo, não conseguia falar com normalidade.
Custava juntar as palavras, custava lembrar nomes, custava terminar uma frase. O lado esquerdo do cérebro, o que controla a fala, tinha ficado sensibilizado pela operação. E aqui vem o que o Brasil inteiro ignorava. Toda a família, Maria Cristina, Filipe, Stephanie, Tadeu, tomou uma decisão. Não dizer nada a ninguém, nem para a imprensa, nem para os amigos distantes, nem para os companheiros velhos do basquetebol.
Ninguém podia saber que o Mão Santa tinha perdido a fala. Ninguém podia saber que o herói que dois anos antes tinha declarado estar curado, na verdade estava a morrer lentamente com um tumor de grau 4 e sem conseguir pronunciar o próprio nome completo. Esconderam durante um ano inteiro, durante todo o ano de 2025, durante todo o 2026, até à morte deste.
O Brasil via fotos velhas. Ninguém de fora podia saber o que se passava dentro daquela casa. nem a imprensa, nem os amigos distantes, nem os velhos companheiros do basquetebol. E dentro desta operação de silêncio, houve um momento, um só, que ia ficar para sempre na memória de Filipe Schmitt.
Fevereiro de 2026, aniversário de Filipe, de 39 anos. Oscar recebeu-o no quarto. Estava na cama, quase não conseguia sentar-se. A voz saía quebrada, sabe? Mas quando Felipe entrou com o bolo, Ócar levantou o olhar, sorriu e com a voz entrecortada, com a voz que sobrava, cantou, cantou os parabéns. Cantou a canção de aniversário toda, palavra a palavra.
O Filipe chorou, a Cris chorou, Stephanie, que estava parada na porta do quarto, chorou também. Essa foi a última conversa que Felipe Schmitt teve com o pai. Dois meses depois, no no dia 7 de abril de 2026, o Dr. Olavo Ferrer ligou a Maria Cristina, disse que os novos exames tinham chegado, pediu-lhe para passar na clínica.
A Cris foi sozinha. O Óscar já quase não levantava-se da cama. E nessa consulta, o O Dr. Ferrer proferiu a frase que a família Schimit nunca repetiu em público. O tumor espalhou-se. A situação está mais grave. Não restam muitos dias. 10 dias. 10 dias exatos depois dessa frase, no dia 17 de abril, o Óscar morria na sua casa do Alphaville.
E na manhã seguinte, 18 de abril, sábado, 8 horas depois da morte, Tadeu Schmit foi para câmara aberta na estreia do programa Big Brother Brasil 26, maquilhado de fato. Com o sorriso colocado, Tadeu Schmit, irmão menor de Ócar, apresentador do programa mais visto do Brasil, olhou para a câmara e tentou falar.
A voz tremeu, partiu-se, teve de parar. E à frente de milhões de brasileiros a assistir das casas, Tadeu Schmit disse duas frases com os olhos cheios de lágrimas. Meu maior ídolo, a minha maior referência. O Todo o Brasil entendeu naquele momento que uma coisa maior tinha acontecido, mas a verdade completa, a verdade da mentira de 4 anos, a verdade do tumor grau 4, a verdade dos parabéns na cama, esta verdade estava apenas a começar a vir à tona.
48 horas depois da morte, Felipe Schmitt quebrou o silêncio, aceitou dar uma única entrevista para um único jornalista e nessa entrevista contou pela primeira vez o que durante um ano e meio a família tinha escondido. A massa Nova, o grau quatro, a terceira cirurgia do outro lado do cérebro, as sequelas na fala, o parabéns final, a frase do oncologista.
Os 10 dias, Filipe contou mais uma coisa. contou que o último ano tinha [a música] sido brutal à Maria Cristina, que a mãe dele tinha envelhecido anos meses, que a decisão de não fazer velório público não tinha sido por capricho, tinha sido para a proteger, porque O Cris não ia aguentar ficar rodeada de câmaras e jornalistas enquanto enterrava o homem com quem vivia desde os 17 anos.
45 anos de casamento, 52 anos desde a primeira vez que se viram naquele quarteirão do Sírio. E enquanto Felipe contava tudo isto, enquanto todo o Brasil compreendia a magnitude do que a família Schimit tinha carregado em silêncio, começou a aparecer uma pergunta nas redes sociais. Uma questão que durante semanas ia correr nos fóruns, nos comentários, nos grupos de WhatsApp.
Uma questão que até hoje ninguém respondeu por completo. Por que O Oscar nunca jogou na NBA? se era o terceiro melhor marcador do mundo, se tinha a mão santa, se os Estados Unidos tinham tentado contratá-lo, por ficou em Itália, por ficou em Caserta, por ficou numa liga europeia quando podia ter ganho 10 vezes mais na liga mais importante do planeta? O que vai saber agora não está nos documentários, não está escrito pelos jornalistas.
A razão real pela qual o Óscar Schmitt nunca jogou na NBA é uma história obscura, uma história de poder, uma história de dirigentes brasileiros que tomaram uma decisão por ele sem consultar em 1984 e de uma equipa da NBA, os New Jersey Nets, que no draft desse ano fizeram uma coisa que nenhuma equipa tinha feito antes com um brasileiro.
Para compreender porque é que Oscar Schmitt nunca jogou na NBA, nós temos que regressar a um quarto de hotel em New Jersey, Estados Unidos. 19 de junho de 1984. Madison Square Garden Theatre. O draft da NBA. A cerimónia anual em que as equipas da melhor liga do mundo escolhem os miúdos que vão definir o basquetebol da década seguinte.
Nessa noite aconteceu uma coisa histórica. Nessa noite Rquen Olajuon foi escolhido em primeiro lugar. Naquela noite, Michael Jordan, o miúdo da Carolina do Norte, que depois se transformaria no melhor jogador de todos os os tempos, foi escolhido em terceiro pelo Chicago Touros.
Nessa noite, Charles Barkley foi escolhido em quinto. Naquela noite, entrou para a NBA a geração mais lendária que o basquetebol teve nos últimos 40 anos. E a meio dessa noite, na sexta jornada, com a escolha número 131, os New Jersey Nets levantaram-se e leram um nome que ninguém esperava, um nome que nenhum equipa da NBA tinha lido antes.
O primeiro brasileiro escolhido num draft da NBA, Oscar Daniel Bezerra Schmitt. Sexta ronda, escolha número 131. Prós que não percebem de NBA, deixa-me explicar rápido o que isto significa. A sexta ronda era o final do draft. Era a ronda em que os equipas faziam apostas, em que arriscavam em jogadores estranhos, jogadores distantes, jogadores pouco conhecidos. Era a lotaria do basquetebol.
E os New Jersey Nets naquela noite de Junho, apostaram num brasileiro de 26 anos que nem estava em New Jersey, nem sequer estava nos Estados Unidos. Estava em Caserta, Itália, a dormir, não é, porque eram 6 horas mais tarde e no dia seguinte tinha treino. O Óscar ficou sabendo por uma chamada.
3 da manhã em Caserta. O telefone do apartamento tocou. Maria Cristina levantou primeiro, atendeu. Era um jornalista brasileiro ligando de São Paulo. Disse à Cris: “Acorda, teu marido, há uma notícia que ele não vai acreditar”. Cris acordou o Óscar. Óscar pegou no telefone e no jornalista disse-lhe quatro palavras que iam mudar o resto da vida dele. A NB escolheu.
Ócar desligou o telefone, sentou-se na cama, olhou paraa Cris e os dois ficaram em silêncio durante vários minutos. Não era um silêncio de tristeza, era um silêncio de processar, de compreender, porque até àquela noite de Junho de 1984, nenhum jogador brasileiro tinha sido escolhido num draft da NBA.
O Óscar era o primeiro, Oscar foi o pioneiro e os New Jersey Nets, uma equipa que naquele momento tinha Bucky Williams e Otis Birdsong, abriam a porta da melhor liga do planeta para ele. Poucas horas depois o telefone voltou a tocar. Desta vez era o director geral dos nets em pessoa. Um homem chamado Luis Schauffel falou com Ócar em inglês, disse que queriam assinar contrato, que estavam dispostos a pagar bem, que sabiam que o caserta italiano tinha-o sob contrato, mas que dava para negociar, que o Óscar/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_e84042ef78cb4708aeebdf1c68c6cbd6/internal_photos/bs/2026/E/B/nOliX2SIKGVUFPXS61Ng/whatsapp-image-2026-04-17-at-16.35.40-1400x1400.jpeg)
Schmith, na opinião dos Nets, podia ser o primeiro brasileiro a jogar na NBA e que este seria um marco histórico. Óscar respondeu no inglês macarrónico, que tinha aprendido nos filmes americanos. disse que ia pensar, pediu tempo, pediu para falar com a mulher dele, com a família, com a federação brasileira.
Lewis Sheffel disse-lhe: “Pega no tempo que precisar, Óscar, mas tem uma coisa a ter em conta. Se você disser que sim, vai fazer parte da NBA. Se disser não, este comboio não passa outra vez. E o Óscar durante as seis semanas seguintes pensou: “O que aconteceu nestas seis semanas é o centro da história que vai entender agora, porque nestas seis semanas Oscar Schmitt falou com três pessoas, com a mulher dele, Maria Cristina, com o técnico da seleção brasileira, um homem chamado Hélio Rubens Garcia, conhecido por
Hélio Rubens, e com um dirigente da Confederação Brasileira de Basquetebol, cujo nome a família Schimit preferiu nunca dizer em público. Mas este homem, este dirigente sem nome, foi o que deu para o Óscar uma informação que acabou mudando tudo. Que informação era essa? Guarda essa pergunta, viu? A gente volta.
A gente volta com tudo o que este dirigente disse ao Óscar numa sala fechado do centro do Rio de Janeiro, em agosto de 1984. Mas antes, estou a precisar que você perceber o que tava em jogo. Não só para O Óscar, para o Brasil inteiro, volta pros anos 80. Brasil, seleção de basquetebol, uma geração de ouro que estava aparecendo aos poucos, miúdo por miúdo, e que em poucos anos ia dar ao Brasil o momento mais glorioso do basquetebol da história dele.
Essa geração chamava-se A turma do barulho. Eram Óscar Schmith, Marcel Souza, Marquinhos Vieira, Adilson Nascimento, Israel Machado, Paula da Silva, liderados do banco por Hélio Rubens. eram jogadores extraordinários, mas também, não é, eram jogadores difíceis, tinham personalidade forte, discutiam com os árbitros, discutiam entre eles, discutiam com os dirigentes e treinavam com uma intensidade que naqueles anos não era comum no desporto brasileiro.
Queriam ganhar aos Estados Unidos, queriam ganhar à União Soviética, queriam pendurar uma medalha de ouro olímpica. E para isso, em 1984, já tinham começado a planear o que para eles era o jogo mais importante da vida deles, os jogos pan-americanos de Indianápolis, 1987. Faltavam 3 anos. 3 anos de preparação, 3 anos de torneios sul-americanos, de jogos amigáveis, de concentrações em Brasília, de parques de campismo no Rio.
E no meio de toda esta preparação, no verão de 1984, chega a notícia de que os Nets tinham escolhido o Óscar. Hélio Rubens, o treinador da seleção brasileira, ficou sabendo pela imprensa e rapidamente procurou falar com o Óscar. A mensagem foi clara. Se Oscar assinasse pela NBA, a seleção brasileira perdia o pan de Indianápolis, perdia as Olimpíadas de 88, perdia tudo o que estava a construir.
A seleção sem Óscar não chegava a lugar nenhum e o Óscar sabia disso. Por quê? Por causa de uma regra. Uma regra que naquele momento era lei no mundo do basquetebol internacional. Uma regra que ia ficar esquecida pela história, mas que em 1984 era o centro de tudo. A regra do amadorismo da FIBA.
Deixa-me explicar simples, estás a ver? Em 1984, a FIBA, que era a Federação Internacional que organizava os Jogos Olímpicos e os Mundiais de Basquetebol, tinha uma regra rígida. Os jogadores os profissionais da NBA não podiam jogar Jogos Olímpicos, não podiam jogar mundiais, não podiam jogar pan-americanos. A razão era simples.
A FIBA considerava que os Jogos Olímpicos eram um evento amador e a NBA era uma liga profissional paga. Misturar amador com profissional, na lógica daqueles anos, quebrava o espírito olímpico. Por que, nos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, os Estados Unidos não levaram Magic Johnson, nem Larry Bird, nem Karim Abdul Jabar.
Levaram estudantes universitários. A seleção dos Estados Unidos de 1984 foi formada por rapazes de Indiana, da Carolina do Norte, de Georgetown. Michael Jordan nesse verão de 1984 ainda era amador, pelo que pôde jogar as Olimpíadas. Mas no dia em que assinou com o Chicago Bulls, perdeu a possibilidade de disputar o Mundial seguinte.
Essa era a regra. E por causa desta regra, o que Hélio Rubens disse a Óscar era uma verdade cruel. Secar assinasse com os nets, deixava de ser amador aos olhos da FIBA. Se deixasse de ser amador, não podia jogar o PAN de Indianápolis de 87, não podia jogar os Jogos Olímpicos de Seú de 88, não podia representar o Brasil.
A camisola 14, a camisola que durante 10 anos tinha levado na seleção, tinha de tirar para sempre. O Óscar ouviu o Hélio, ficou pensando e duas semanas depois, numa ligação com Lewis Shaffel, disse o que ia marcar o resto da vida dele. Disse: “Não, mas houve mais uma coisa naquele decisão de Óscar, uma coisa que durante anos ele próprio guardou para os mais próximos.
Uma conversa que aconteceu nesse mês de agosto de 1984 no Rio de Janeiro e que ia marcar o resto da sua vida. Uma frase, uma única frase pronunciada por um dirigente do basquetebol brasileiro que acabou por decidir o destino de Oscar Schmitt. Mas antes é preciso compreender o que aconteceu quando o Óscar disse não a NBA.
É preciso perceber o que ele fez com essa decisão. Três anos depois de recusar os Nets, Oscar Schmitt chegou em Indianápolis com a seleção brasileira. 20 de agosto de 1987, jogos pan-americanos, o Brasil tinha chegado à final do torneio e na frente, à espera, tava a selecção dos Estados Unidos, equipa comandada por Danny Cr, equipa formada por estudantes universitários.
Sim, mas pelos melhores estudantes universitários do país. David Robinson, Danny Manning, Mitch Richmond. Três tocadores que em poucos anos iam ser estrelas da NBA. Mas naquele agosto de 1987 eram estudantes universitários e eram os melhores do mundo na categoria deles. O jogo foi disputado no Market Square Arena de Indianápolis. Ginásio lotado, 17.
000 pessoas. A grande maioria, evidentemente, não é, era americana, apoiando os seus, troçando dos brasileiros, à espera de uma surra histórica, porque os Estados Unidos, em 1987, não perdiam em casa, não perdiam no continente, não perdiam num torneio pan-americano. Nunca tinha acontecido, era uma invencibilidade de três décadas.
Para o Oscar coube começar o jogo. Maria A Cristina estava nas bancadas. Filipe, com apenas um ano, via através da televisão de Caserta com a avó. O primeiro arremesso de Óscar entrou, o segundo entrou, o terceiro entrou. No final do primeiro tempo, o Óscar tinha marcado 22 pontos. 22.º Em 20 minutos.
Os americanos não sabiam como o marcar. Tentaram com David Robinson, que media 2,16 m. tentaram com dois jogadores ao mesmo tempo, tentaram tirá-lo da zona e O Óscar continuava a fazer pontos de todas as posições imagináveis. No final do jogo, marcador no relógio, Brasil 120, Estados Unidos 115. O Brasil tinha vencido em Indianápolis.
O Brasil tinha quebrou a invencibilidade americana de 30 anos e Oscar Schmid tinha anotado 46 pontos. 46.º A marca individual mais elevado desse jogo em toda a história pan-americana. O ginásio veio abaixo, mas não de aplausos, de silêncio. 17.000 americanos vendo como um brasileiro de 29 anos acabava de fazer história no quintal deles. Hélio Rubens chorou no banco.
Marcel Souza abraçou o Ócar e Oscar ali no meio do Market Square Arena levantou os braços para o tecto e gritou uma coisa em português que as câmaras de televisão gravaram sem compreender. O que ele gritou foi uma frase de quatro palavras: “Valeu a pena. Valeu a pena!” E naquele momento, [a música] em agosto de 1987, parecia que sim.
Parecia que a decisão de 1984 tinha sido acertada. Parecia que recusar os nets, perder o dinheiro da NBA tinha fazia sentido, porque o Brasil acabava de vencer em Indianápolis e que nesse instante valia mais do que qualquer contrato, mas ainda falta o mais obscuro. O que aquele dirigente sem nome disse ao Óscar em Agosto de 84? E a verdadeira razão pela qual Óscar Schmitth, nos últimos 20 anos da sua vida, arrependia-se de ter dito não para a NBA.
Esta verdade você vai saber agora. Agosto de 1984, Rio de Janeiro, centro da cidade, edifício antigo da Avenida Rio Branco, sede da Confederação Brasileira de Basquetebol, quarto andar, uma sala com cortinas pesadas, uma mesa de mogno, oito cadeiras e uma janela fechada com vista para a Sinelândia. Óscar Schmitt entrou nesta sala com 26 anos completos, acabado de decidir do avião que tinha trazido ele de caserta.
Esperava ele um único homem. Um dirigente que naquele momento era dos mais poderosos do basquetebol sul-americano. Um homem que controlava orçamentos, contratos, convocatórias e patrocínios. Um cara que durante toda a entrevista chamou o Óscar pelo apelido: “Shmite, isto, Schmit aquilo, sem sorrir, sem servir um café, como se estivesse a falar com um empregado.
” Falou com ele durante uma hora. explicou a regra da FIBA com todos os pormenores. Explicou que se assinasse com os nets ia ficar fora da seleção. Explicou que sem a seleção a imagem pública de Óscar no Brasil ia desaparecer. Explicou que os patrocínios brasileiros iam evaporar. explicou que a imprensa brasileira ia esquecê-lo em se meses.
[música] Explicou sentado naquela cadeira de Mogno que a NBA tinha menos dinheiro do que se contava nos jornais. Explicou que a liga italiana pagava mais e daí, com o olhar fixo, deixou cair uma ideia de fundo, uma ideia sem meios termos. Se o Óscar escolhesse a NBA, a dirigência do basquetebol brasileiro não ia defender o lugar dele.
Se o Óscar escolhesse a NBA, a camisola 14, os patrocínios, o reconhecimento do país inteiro, tudo isto podia evaporar-se rápido e Óscar, em poucas palavras, podia deixar de existir para o Brasil. Deixar de existir para o Brasil. Esse foi o aviso, essa foi a pressão, essa foi a condição.
Oscar Schmith, em agosto de 1984, recebeu da dirigência do basquetebol brasileiro uma mensagem direta. Se assinasse com os New Jersey Nets, ia ficar marcado como traidor. Ia perder os patrocínios, ia perder a seleção, ia perder a camisola 14, ia perder a possibilidade de jogar Olimpíadas, ia perder, em poucas palavras, o lugar que tinha construído no coração do país.
Ócar saiu daquela sala andando devagar, saiu para o calor da Avenida Rio Branco. Aí, nessa mesma noite ligou à Maria Cristina, que estava em Caserta a cuidar de Felipe de 6 meses. Contou-lhe a pressão que tinha sentido naquela reunião. Contou o aviso que tinha recebido. A Cris não respondeu logo, ficou calada do outro lado do telefone e poucos segundos depois disse-lhe a única coisa que podia dizer, que ele decidisse o que sentisse, que ela ia ficar com ele em qualquer caminho.
Mas Óscar já tinha tomado a decisão. uma semana depois ligou a Lewis Schauffel e disse: “Não”. Mas a história não acaba aí, porque anos mais tarde, em 1992, a FIBA alterou a regra, permitiu que os profissionais da NBA jogassem Olimpíadas. Apareceu o famoso Dream Team americano com Magic Johnson, Larry Bird, Michael Jordan, Charles Barkley e tudo o que o dirigente brasileiro tinha dito para Óscar em 1984, todas as ameaças, todos os avisos deixaram de ter sentido.
A regra tinha caído, mas Oscar já tinha 34 anos. Já não era mais opção para a NBA, já era tarde. E esse arrependimento, esse veneno silencioso acompanhou-o durante o resto da vida. Anos mais tarde, já com a doença em cima, o Ócar falou em várias ocasiões sobre aquela decisão e em mais de uma entrevista deixou cair a mesma ideia, que se tivesse de decidir de novo com a cabeça de um homem maduro, hoje teria ido para a NBA.
Falava com a voz tranquila do homem, que já fez as pazes com os próprios erros. Mas atrás desta frase tinha 32 anos de arrependimento calado, 32 anos de se imaginar num quarteirão de Boston, de Los Angeles de Chicago. 32 anos de pensar que Magic Johnson e Larry Bird conheciam-no pelo nome, sabiam quem ele era, respeitavam-no como pontuador, mas nunca o enfrentaram em quadra.
[música] 32 anos de leitura em revistas americanas, que ele poderia ter sido um dos grandes scorers da NBA nos anos 80, juntamente com Bird, Johnson e Dominique Wilkins. 32 anos de carregar a voz daquele dirigente sem nome, avisando que se assinasse com a NBA podia deixar de existir para o Brasil.
Maria Cristina, pá, nunca falou daquela tarde de Agosto de 1984, nunca contou a conversa por telefone, nunca repetiu a ameaça. E o dirigente sem nome, o homem da sala de Mógno do quarto andar da Avenida Rio Branco, faleceu em 2008, sem que ninguém fizesse a pergunta que o Brasil inteiro hoje se faz.
Por que razão ameaçou um dos melhores marcadores do mundo? Por que tirou-lhe, no meio do melhor momento dele, a possibilidade de jogar na maior liga do planeta? Por que razão pôs um travão na única oportunidade histórica que o O basquetebol brasileiro tinha de ter um representante de elite nos Estados Unidos? A resposta a estas questões, levou consigo e Oscar, durante o resto da vida, carregou com a decisão que tomou nessa noite de 1984.
Mas falta ainda o mais obscuro, porque tem um momento na vida de Oscar Schimit, um momento entre 2011 e 2026 que o Brasil não conhece, um momento que aconteceu numa consulta médica. Um momento entre o Óscar e o oncologista dele. Um momento em que Oscar Daniel Bezerra Schmith, o mão santa, o herói do pan de Indianápolis, o ídolo de cinco olimpíadas, o primeiro brasileiro escolhido num draft da NBA, olhou nos olhos o médico que tinha salvou-lhe a vida duas vezes e fez uma pergunta de cinco palavras.
Uma pergunta que só se faz a um médico quando já não resta nada. Uma pergunta que vai saber agora. Para compreender este momento, nós tem de voltar para uma manhã de Novembro de 2011. Óscar tinha 53 anos, tinha-se retirado do basquete havia 8 anos, vivia em Santana de Parnaíba com Maria Cristina.
Filipe tinha 25 anos e vivia sozinho em São Paulo. Stephanie tinha 22 e estava a terminar a faculdade. A vida depois do basquetebol estava tranquila. Tranquila demais, sabe? Dizia o Óscar aos amigos. Demasiado tranquila para um homem que durante 30 anos tinha vivido entre quadras. voos e vestiários. Uma manhã qualquer, Ócar acordou com uma dor de cabeça diferente.
Não era a dor de cabeça de quem dormiu mal. Não era a enxaqueca que ele tinha às vezes depois dos jogos. Era uma dor surda, profunda, que descia pela nuca. A Cris reparou no café da manhã, insistiu para ele ir no médico. O Óscar disse que não era nada, que já passava. A Cris insistiu e na semana seguinte o Óscar foi no consultório.
Fizeram uma ressonância magnética. pediram-lhe para voltar no dia seguinte para os resultados. Naquela manhã, numa clínica da Bela Vista, no centro de São Paulo, um médico chamado Olavo Ferrer sentou-se em frente a Oscar e Maria Cristina, abriu a pasta com as imagens e disse uma palavra que os dois não entenderam bem naquele primeiro momento.
O glioma, um tumor no cérebro, lado esquerdo, lobo frontal, grau dois. O Dr. Ferrer explicou com paciência o que aquilo significava. Era um tumor que crescia devagar, sabe? Era um tumor que dava para operar. Era um tumor que com acompanhamento, com quimioterapia, com disciplina podia ser controlado durante anos, mas era um tumor e era cerebral e era dos Óscares.
A primeira cirurgia foi feita duas semanas depois. Hospital Albert Einstein, São Paulo. O Dr. Ferrer operou durante 6 horas. Abriram o crânio dele, retiraram a maior parte da massa, deixaram uma cicatriz que ia da orelha esquerda até ao centro da cabeça. Óscar acordou num quarto com vista para o Morumbi.
Maria Cristina estava do lado da cama, estava a segurar-lhe a mão. E a primeira coisa que o Óscar disse para ela com a boca seca e a voz cortada foram três palavras. Saí bem, Cris? Cris abanou a cabeça que sim, não conseguiu falar, apenas lhe beijou a testa e ali iniciaram os 15 anos. 15 anos de quimioterapia, 15 anos de ressonâncias magnéticas a cada 6 meses, 15 anos de medicamentos ao pequeno-almoço, medicamentos ao almoço, medicamentos ao jantar, 15 anos de não poder beber um copo de vinho num casamento, 15 anos de não poder apanhar sol numa praia, 15 anos de
cuidados que ninguém via, porque o Óscar para fora continuava a ser o mesmo. Continuava a dar palestras, né? continuava a falar com a imprensa, continuava a ir a homenagens e a inaugurações de ginásios de basquetebol. Mas dentro daquela casa de Alfaville, Maria Cristina contava medicamentos todas as segundas e todas as quintas.
Em 2013, 2 anos depois da primeira cirurgia, os exames mostraram que o tumor tinha voltado. Grau três, mais agressivo, mais perigoso. O Dr. Ferrer chamou a família e disse o que tinha de fazer. Segunda cirurgia, Albert Einstein outra vez. Dessa vez a operação durou 8 horas. Dessa vez O Óscar demorou três dias para acordar bem.
Desta vez a recuperação demorou 4 meses. E no meio desta recuperação, numa tarde fria de julho de 2013, o Óscar teve a primeira conversa obscura com o Dr. Feier. A conversa que o Brasil inteiro ignorou durante anos. A conversa que vai saber agora. 28 de julho de 2013. Consultório do Dr. Olavo Ferrer na clínica do Hospital Albert Einstein.
5 da tarde, o Óscar entrou sozinho. Tinha pedido paraa Maria Cristina ficar na sala de espera. Era uma consulta de revisão, era mais uma consulta. E o Dr. Ferrer tinha uma coisa para dizer. mostrou os resultados, explicou que o tumor estava controlado, mas que o tratamento estava a ser agressivo. Explicou que a quimioterapia continuada, depois de duas cirurgias, estava afetando outras zonas do corpo, o fígado, os rins, a medula óssea, explicou que, na sua opinião, tinha chegado o momento de pensar numa coisa diferente. Disse-lhe, com a mão
apoiada na mesa, frase que Óscar nunca esqueceu. Óscar, já fizemos o que dava. Acho que está na hora de parar a quimioterapia, de viver o que sobra com qualidade, de aproveitar os rapazes, a Cris, de viajar, de estar bem, parar. Esta palavra caiu sobre Ócar como uma pedra. O Dr. Ferrer estava a dizer para ele com todo o cuidado do mundo para abandonar o tratamento, para viver o tempo que sobrava sem medicamentos, sem químo, sem agulha, para aproveitar, para se render com dignidade.
O Óscar olhou para ele durante vários segundos e fez uma pergunta de cinco palavras. Uma pergunta que Oscar ia repetir em diferentes ocasiões nos anos seguintes, contando para os jornalistas que o entrevistaram sobre a doença. Cinco palavras pronunciadas num tom tranquilo, quase sorrindo. Cinco palavras que mudaram o resto do tratamento de Oscar Schmitt.
Doutor, quer matar-me? O Dr. Firer ficou calado. Anos depois, ia contar-se que não esperava esta resposta, que pensava que o Óscar ia agradecer-lhe, que pensava que ia aceitar a proposta. Mas Óscar repetiu a pergunta: “Quer matar-me, doutor? Porque se nós pararmos a químio eu morro e ainda não quero morrer.” O Dr.
Feier compreendeu e continuou com o tratamento. E durante os 12 anos seguintes até ao dia da sua morte, Óscar Schmitt não abandonou a quimioterapia um único dia sem saltar um medicamento, sem faltar a uma sessão. Porque o Óscar não era dos que se rendem. Óscar era dos que lançavam da linha dos três sem olhar, com a mão direita levantada no meio do campo, sabendo que aquela bola ia entrar.
Só que desta vez a bola era a própria vida dele e o cesto foi ficando cada vez menor. Em 2022, depois de 11 anos de quimioterapia ininterrupta, O Óscar deu aquela entrevista ao Estadão em que disse: “Eu venci esta batalha”. Foi uma declaração estratégica, sabe? Foi uma declaração pensada por Maria Cristina e Filipe.
Queriam que o Brasil deixasse de olhar para Óscar como um doente. Queriam que o Óscar pudesse sair à rua sem que as pessoas tocassem-lhe no ombro com cara triste. Queriam devolver ao ídolo um pouco da dignidade pública que a doença tinha retirado dele aos poucos. Essa mesma entrevista de 2022 deixou para o Brasil outra frase que ficou célebre.
Frase que Oscar pronunciou calmamente, olhando para o jornalista em sua casa de Alpha Viw. Eu morria de medo de morrer. Fechar o olho e não acordar mais era um terror. E graças ao tumor, perdi esse medo. Graças ao tumor. Oscar Schmith, depois de 11 anos a viver com um cancro cerebral, dizia que o tumor tinha feito um favor para ele, tinha-lhe ensinado a não ter medo, tinha-lhe ensinado a viver o presente, tinha-lhe ensinado a abraçar os filhos sem cálculo, sem reserva, sem estratégia.
Era uma frase de homem, certo? Era uma frase de mão santa, mas também era uma frase com um truque, estás a ver? Porque enquanto Oscar falava de paz e de superação, no andar de cima dessa mesma casa, na gaveta da mesa de cabeceira, tinha uma caixa de medicamentos nova, quimioterapia nova, tratamento novo, porque a batalha, por mais que Óscar dissesse o contrário, não estava vencida, tinha sido colocada em pausa para que o Brasil pudesse respirar.
Em maio de 2025, 3 anos depois daquela entrevista, chegou o exame que mudou tudo. O Dr. Fer fechou a porta do consultório, mostrou as imagens a eles. Um ponto novo, pequeno, brilhante, no lado direito do cérebro, o lado que durante 14 anos tinha-se salvo. O lado saudável. Tumor de grau 4, glioblastoma multiforme, a frase mais obscura que um oncologista pode pronunciar.
E dessa vez, quando o fez a pergunta de 14 anos antes, o Dr. Ferrer não pôde responder igual. Desta vez disse a verdade. Desta vez é diferente. Dessa vez não tem muita margem, desta vez tem que operar rápido. A terceira cirurgia cerebral de Óscar Daniel Bezerra Schmitt foi feita no dia 18 de maio de 2025.
O O Dr. Ferrer operou durante 9 horas. abriram-lhe o crânio do lado direito, tiraram o que deu da massa, mas no fechar os danos colaterais foram maiores do que o esperado. A área da linguagem, que na maioria das pessoas fica do lado esquerdo, nos Óscares estava ligeiramente deslocada por causa das cirurgias anteriores.
E a nova intervenção tocou ela. Tocou sem querer, tocou sem retorno. Quando o Óscar acordou, a voz não saía como antes. As palavras misturavam-se. Dizia o Filipe e saía o Eduardo. Dizia a Cris e saía o Marcel. Estava consciente, sabe? Reconhecia as pessoas, compreendia tudo o que lhe diziam. Mas a máquina que durante 67 anos tinha processado a linguagem, esta máquina, depois de três cirurgias, tinha ficado danificada para sempre.
E desde esse 19 de Maio de 2025 até ao dia 17 de abril de 2026, todo o Brasil ignorou que o Mão Santa estava a perder a voz. 11 meses passaram assim: 11 meses de Maria Cristina a falar por Óscar ao telefone. 11 meses de Filipe a responder a mensagens no telemóvel do pai como se fosse o pai. 11 meses de Stephanie a cancelar entrevistas pendentes, devolvendo convites, pedindo desculpa em nome de Óscar para jornalistas, para federações, para clubes de velhos companheiros que queriam visitá-lo.
11 meses de mentir, com carinho, com dor, com o peso de uma família inteira que carrega um segredo. E, entretanto, nas redes sociais, no perfil oficial de Óscar Schmitth, os posts continuavam aparecendo. Felicitações de aniversário para amigos velhos, comentários sobre jogos da NBA. Recordações da seleção. Cada um destes posts era escrito por Felipe e assinava com o nome do pai, porque o Brasil precisava de continuar acreditando que o Mão Santa estava bem e a família precisava de aguentar.
Maria Cristina envelheceu nestes 11 meses, como não tinha envelhecido nos 44 anos anteriores de casamento. O Filipe disse isso depois da morte, não é? Nessa primeira entrevista. A minha mãe passou o último ano a dormir 3 horas por noite. A minha mãe levantava-se às 4 da manhã para ver se o meu pai estava respirando.
A minha mãe deixou de sair de casa. A minha mãe deixou de comer normal. A minha mãe ficou do lado da cama durante meses à espera. E enquanto isso, Ócar olhava para ela. Olhava com aqueles olhos claros que já quase não piscavam. Olhava para ela como se dissesse obrigado sem conseguir pronunciar a palavra. Porque às vezes o cérebro pegava na palavra e às vezes não.
Às vezes conseguia dizer Cris e às vezes saía a Marina ou a Maria ou um som que nem Maria Cristina compreendia. Mas em fevereiro de 2026, dois meses antes de morrer, aconteceu uma coisa. O Filipe completou 39 anos. Passou a noite do dia 9 de fevereiro com os pais em casa de Alfa Ville. A Cris fez o jantar. A Stephanie também estava lá.
O Óscar passou a noite inteira na cama acordado à espera. E quando o Filipe entrou no quarto com o bolo, o Óscar respirou fundo, ordenou as palavras como pôde e cantou. Cantou os parabéns para você nesta data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida. cantou a música inteiro sem errar uma palavra, sem saltar uma sílaba, como se tudo o que o cérebro tinha-lhe tirado durante meses naquela noite, durante um minuto, tivesse devolvido o discurso a uma única missão. O Filipe chorou, a Stephanie chorou,
A Cris chorou e o Ócar, quando acabou de cantar sorriu. Aquele sorriso foi o último que o Felipe viu na cara dele, porque a a partir dessa noite Óscar começou a piorar. As palavras foram embora aos poucos. A consciência foi se apagando aos minutos. Os olhos ficavam encerrados horas e horas.
E dois meses depois, no dia 7 de abril, o Dr. Firou à Maria Cristina e disse aquelas seis palavras: O tumor se espalhou. Não restam muitos dias. 10 dias. 8 de abril de 2026, Rio de Janeiro, Comité Olímpico Brasileiro. Cerimónia anual do Hall da Fama do COB. Salão com candelabros, bancadas cheias.
Apresentadores de vestido comprido, transmissão em direto por canais nacionais. Naquela noite entregavam a Oscar Schmitt o quinto reconhecimento internacional no hall da fama do basquetebol. Depois do FIBA em 2010, depois do Nmith de Springfield em 2013, depois do italiano em 2017, depois do espanhol em 2022, chegava o do próprio país, o elenco da fama do Comité Olímpico Brasileiro.
O Óscar não foi, não pôde ir. O corpo já não dava mais, a cabeça também não. E a fala havia meses que tinha partido. Mas a família decidiu que a entrega tinha de ser feita da mesma forma, que Oscar merecia esta homenagem, que o Brasil tinha direito de o aplaudir mais uma vez, mesmo que não tivesse ali para escutar.
Felipe Schmitt subiu em palco em nome do pai. Quem entregou a placa para ele foi Hortênsia Marcari. Hortênsia, a maior jogadora brasileira da história. Hortênsia que conheceu o Óscar desde os anos 70. Hortên que tocou no ombro de Felipe antes de subir ao palco, num gesto que o público entendeu sem que necessitasse de palavras.
Hortênsia falou durante vários minutos, contou histórias, contou jogos, contou o pan de Indianápolis de 1987 e no final, olhando para a câmara, mandou a mensagem que a família Schimit precisava naquele momento. Uma mensagem de todo o Brasil acompanhando o ídolo no momento mais negro da vida dele. O que o Brasil viu, não soube naquela noite foi que o Óscar estava a ver a transmissão ao vivo da cama dele de Alpaville.
Maria Cristina tinha pôs a televisão ligada no quarto, tinha arrumado as almofadas, tinha-lhe pegado na mão e Oscar olhou e viu e compreendeu. E quando a Hortênsia terminou de falar, o Óscar sorriu e os olhos encheram-se de lágrimas e apertou a mão da Cris com a pouca força que sobrava nele. Nove dias depois daquela cerimónia, no dia 17 de abril, Oscar Daniel Bezerra Schmitt morreu na cama dele de Alfaville.
16h11 da tarde, 72 anos de existência, 49.737 737 pontos, cinco olimpíadas, 45 anos de casamento com Maria Cristina Vitorino, dois filhos, um irmão, um sobrinho, um país inteiro. A cremação foi feita nessa mesma tarde, antes do sol se pôr, sem velório público, sem cerimónia aberta, sem discurso. Só Maria Cristina, Filipe, Stephanie, Tadeu, Bruno e o resto do círculo mais próximo.
No sábado seguinte, dia 18 de abril, Tadeu Schmit tinha a estreia do Big Brother Brasil 26. 8 horas depois de cremar o irmão, Tadeu vestiu-se de fato, maquilhou-se, subiu ao palco do Estúdio Globo e olhou para a câmara e disse que pôde. A voz tremeu desde a primeira palavra. Custou pronunciar o nome do irmão e no final, com os olhos cheios de lágrimas, disse uma frase que o Brasil inteiro ainda repete.
O meu maior ídolo, a minha maior referência. Amo-te, irmão. Bruno Schmitth, o sobrino, o medalhado olímpico de voleibol de praia, também publicou nessa mesma tarde nas suas redes sociais uma homenagem ao tio que durante toda a vida dele tinha sido referência do desporto brasileiro. E Felipe Schmitt, o primogénito, o miúdo que um dia sonhou em ser jogador de basquetebol e acabou tornando-se produtor de videoclipes com o nome artístico Shima, publicou três dias depois uma foto antiga, pai e filho abraçados numa quadra do Flamengo em
- O Felipe tinha 11 anos, o Óscar tinha 39. A bola de basquetebol no meio dos dois. Felipe escreveu por baixo da foto cinco palavras. Pai, vou sentir a tua falta. O que a história de Oscar Schmith deixa para nós, para além dos pontos e das medalhas, é a questão sobre o que um homem está disposto a calar-se para proteger quem ele ama.
Durante 15 anos, Óscar Schmitt era portador de um tumor na cabeça sem deixar de sorrir em público. Durante quatro anos, mentiu sobre estar curado para que a sua mulher não chorasse na câmara. Durante 11 meses finais, perdeu a fala e deixou o filho escrever por ele para que o Brasil continuasse acreditando que o Mão Santa estava bem.
E durante uma noite de fevereiro, com a cabeça partida, com o cérebro desfeito, com a voz quase apagada, juntou as poucas palavras que tinha para cantar parabéns ao filho. Esta é a história que a família escondeu. Essa é a mentira que carregaram em silêncio. E essa é a verdade que hoje resta.
Porque o Óscar Schmith não recusou a NBA por medo, não mentiu sobre a cura por orgulho, não esteve calado durante 15 anos por dignidade. Fez tudo isto pela mesma razão, pela Maria Cristina, pelo Felipe, pela Stephanie, pelo Tadeu, pelo Brasil que o amava sem saber de nada. Quando um homem transporta um segredo durante 15 anos, este homem não é um cobarde.
Esse homem é um pai, é um marido, é um irmão, é um mão santa que arremessou o último tiro da vida, sabendo que a bola não ia entrar, mas lançando do mesmo modo, com o pulso direito levantado, sem olhar para a cesta. E se esta história o fez pensar em alguém da sua própria família que carregou sozinho uma dor, alguém que mentiu para te proteger, alguém que ficou calado para que dormisse tranquilo, esta noite liga para essa pessoa.
Procura, diz alguma coisa, porque histórias como a de Oscar Schmitt não se contam só para comover, se contam para lembrar-nos que cada pessoa que a gente ama em algum momento está a carregar alguma coisa que não conta. Se essa história tocou-te, subscreve o canal e partilha o vídeo com alguém que também viu o Ócar jogar.
Porque tem outras histórias semelhantes que ninguém ainda teve coragem de contar. E aqui a gente vai contar todas.