“Vem comigo, filha”, Bernarda disse. E não era pedido, era ordem. Tamires seguiu cruzando o pátio interior, sentindo as outras noviços pararem o que estavam fazendo só para olhar. Irmã Cecília, mais velha, com olhos cansados e uma forma de se mover-se sem fazer barulho, encarou Tamires de um lado e fez um gesto mínimo com a cabeça, um aviso sem frase. Cuidado.
Tamires guardou aquilo e entrou. A sala de visitas tinha um móvel de madeira escura, uma mesa com marcas de uso e um crucifixo demasiado grande para o tamanho da divisão, como se a peça servisse para lembrar quem manda. Bernarda não mandou Tamire sentar-se, falou de pé para manter a sensação de julgamento.
O coronel Matias veio com proposta, começou e Tamires esperou o resto, porque naquele lugar proposta significava sempre dívida paga por alguém. O seu pai já não está neste mundo, a sua mãe também não. A madre continuou como se recitasse factos para diminuir a pessoa. A vida de uma órfã aqui depende da caridade e da disciplina.
Eu tenho a obrigação de garantir que sai desta casa para um destino honrado. Tamires não interrompeu, não implorou, não perguntou porquê, porque percebeu que a resposta já estava escrita. Bernarda abriu uma pequena caixa e mostrou sem entregar três barras de ouro, como se a luz do metal fosse argumento final.
“O coronel pagou por você”, disse sem rodeios. E a palavra pagou caiu no meio do ar com a sinceridade cruel que a madre evitava na capela. A cerimónia será amanhã. Você vai sair daqui como esposa, não como noviça. Tamires sentiu o estômago apertar, mas o rosto não desmoronou. A força dela estava nesta contenção, nesta capacidade de não oferecer espetáculo a quem queria dominar.
“Eu não aceito”, disse ela. E a frase saiu demasiado firme para uma jovem em convento, o que fez Bernarda semicerrar os olhos. “Aceitar não é parte no acordo.” A madre respondeu, aproximando o rosto com um pequeno sorriso. Você obedece. Se tentar fugir, os jagunços dele caçam-te com cães e os seus homens conhecem a mata melhor do que qualquer rapariga criada entre paredes.
Bernarda não levantou a voz, não precisou. Ela tinha a certeza da própria impunidade. Vai se vestir, vai sorrir para os convidados e vai agradecer a Deus pela oportunidade que recebeu. Tamires percebeu naquele instante que Bernarda não falava de Deus, falava de negócio. E isso foi o que acendeu algo frio lá dentro dela. Se era negócio, podia haver falha.
Se era negócio, podia haver prova. Se era negócio, podia haver saída. Na volta para o dormitório, as outras noviços fingiam rezar, mas os olhos seguiam Tamires por entre as contas do Rosário. A Irmã Cecília aproximou-se quando a madre afastou-se e falou sem teatralidade, quase sem mexer a boca, como se o próprio convento tivesse ouvidos.
Ela escolheu-o porque tem rosto de rapariga que passa por esposa. As outras ela já vendeu. Tamires engoliu em seco e perguntou ainda sem levantar a voz: “E ninguém faz nada? Cecília soltou um ar curto, sem riso. Quem tentou desapareceu. Quem ficou aprendeu a calar. Tamires olhou para o corredor, para a porta do pátio, para o céu aberto para além do muro, e entendeu que o convento era pedra por dentro e por fora.
Não era só trancar porta, era trancar futuro. Nessa noite, ela não dormiu direito, não por medo de um fantasma, mas porque a cabeça fazia contas, horários, caminhos, guardas, rotina da cozinha, rotina do sino, o momento em que o convento estava mais distraído. O calor do Centro-Oeste não dava tréguas nem quando o sol baixava.
O corpo cansava, mas a mente não. Ela lembrou-se do cesto, aquele intervalo em que a própria casa parecia suspender, em que os passos diminuíam, em que as guardas se encostavam à sombra e os olhos ficavam pesados. Se existia uma brecha, era ali. De manhã, A Bernarda mandou uma costureira da aldeia entrar para ajustar o vestido adequado para uma esposa.
A mulher entrou sem olhar para Tamires, com pressa de terminar e ir embora. E Tamires notou uma coisa simples e importante. A porta do fundo foi aberta para ventilar o quarto. A porta do fundo dava para uma passagem estreita que terminava perto do muro das traseiras. O muro não era suficientemente alto para impedir uma pessoa determinada, mas era suficientemente alto para desencorajar quem não tivesse plano.

Tamires ajudou a costureira, segurou o tecido, prendeu o alfinete e, enquanto as mãos obedeciam, os olhos memorizavam. Ao meio-dia, o convento ficou quieto do maneira que só fica quando todos os estão vencidos pelo calor. Até o sino parecia tocar mais preguiçoso. As noviços foram mandadas para os quartos para descansar e as guardas, habituadas à rotina de obediência também se soltaram, confiantes de que ninguém ousaria correr sob aquele sol.
Tamires voltou ao dormitório, pegou no pouco que tinha, não porque acreditava que seria fácil, mas porque não queria deixar qualquer rasto óbvio, um pedaço de pano para prender o cabelo, uma pequena imagem de madeira que uma irmã tinha dado anos antes e nada mais. Passou pela irmã Cecília, que estava sentada com as mãos no colo.
E a Cecília não perguntou, não segurou, não aconselhou, apenas colocou discretamente uma faixa de tecido na mão de Tamires, como quem oferece ferramenta sem se comprometer com a palavra, e sussurrou: “Amarra o hábito nas pernas para correr.” Tamires assentiu com um gesto mínimo. A decisão estava tomada e não havia espaço para o discurso.
Ela caminhou pelo corredor com a mesma calma que sempre caminhou, porque a pressa chama atenção. E a atenção era sentença. A porta do fundo ainda estava destrancada. Do lado de fora, o muro aguardava. Tamires respirou fundo, prendeu o hábito da forma que a Cecília sugeriu, subiu num pequeno apoio de pedra, segurou a borda do muro e puxou-se com força suficiente para raspar o antebraço.
E quando caiu do outro lado, os espinhos do cerrado agarraram o tecido e abriram um rasgão comprido, como se a própria terra tentasse segurá-la pela roupa. Ela não parou para olhar para o rasgão. Correu, sentindo o chão duro sobre os pés, atravessando a parte de trás do convento, entrando na estrada de terra batida vermelha que levava para longe e para lugar nenhum ao mesmo tempo.
Atrás dela ainda não havia grito, ainda não havia sino de alarme, mas ela sabia que este era uma questão de minutos, porque Bernarda não perderia três barras de ouro sem fazer barulho. E enquanto a tarde quente começava a puxar o silêncio do mundo, Tamires correu, sabendo que a qualquer momento o primeiro som que ela ouviria podia ser o dos cães ou o de um cavalo vindo da curva.
A estrada de Terra Vermelha parecia não acabar e Tamires aprendeu depressa que fugir não é só correr, é gerir o próprio corpo para não cair antes de ouvir o primeiro grito atrás. Ela abrandou o ritmo quando percebeu que a pressa fazia com que a respiração quebrar e, respirando erradamente, ela não iria longe.
Assim, passou a alternar passos curtos e rápidos, com momentos de caminhada firme, olhando para os lados sempre que a vegetação abria, procurando um tronco derrubado, uma moita mais alta, qualquer ponto onde pudesse desaparecer se alguém surgisse. O hábito rasgado batia nas pernas como se quisesse atrapalhar.
A faixa de tecido que a irmã Cecília lhe deu segurava parte do pano e, no entanto, os espinhos tinham deixado marcas suficientes para se lembrarem que o convento não soltava ninguém sem cobrar. Ela não levava nada que chamasse a atenção. Não tinha saco, não tinha jóia, só a roupa de noviça, que agora era prova de fuga.
E isso a deixava exposta, porque qualquer homem na estrada saberia de onde ela vinha e para onde tentaria voltar. No início, a mente dela tentou negociar com a esperança, imaginando uma carroça bondosa, um viajante que não perguntasse nada, uma sombra para esperar a noite, mas a esperança ali era curta, porque ela sabia o nome do homem que a tinha comprado e sabia o tipo de pessoas que ele mandava atrás do que era dele.
Tamires não era ingénua, ao ponto de achar que uma madre como Bernarda desistiria com um suspiro. A Bernarda ia mandar recado, ia mandar um homem, ia mandar rasto. E o rasto era a própria Tamires, uma jovem sozinha, vestida de convento, correndo na direcção errada do mundo. Ela escutou o trote antes de ver o cavalo e naquele momento, o corpo dela fez o que o corpo faz quando percebe que não há escolha boa. Endureceu.
Não houve tempo para entrar na mata, não houve tempo para se baixar, não deu tempo para fingir que era peregrina. Ela ficou no meio da estrada de lado, tentando parecer menos ameaçadora, mas a posição atraía, porque quem não tem para onde ir fica com o olhar à procura saída.
O cavalo apareceu na curva num passo seguro e o homem em cima dele transportava no corpo sinais de estrada, não de casa. Chapéu de couro gasto, barba por fazer, camisa amarrotada, pano enrolado no pescoço para proteger do sol e da poeira e um machete preso à cintura como ferramenta e aviso. Sebastião não parecia soldado da aldeia porque soldado andava fardado e gostava de impor a presença.
Ele também não parecia Jagunço do coronel Matias, porque o Jagunço vinha em grupo ou vinha com arrogância de quem se sente protegido. Aquele homem vinha sozinho e vinha atento, do tipo que repara primeiro e pergunta depois. Damire sentiu o coração bater mais forte, não por fantasia, mas por cálculo.
Se ele fosse inimigo, ela não tinha defesa. Se ele fosse oportunista, ela tornar-se-ia moeda. Se ele fosse apenas um viajante, poderia se assustar com a roupa dela e fazer perguntas a mais. Ela pensou em correr para o mato na mesma, mas o cavalo já tinha diminuído e o homem já tinha visto o rasgão no hábito. E esse rasgo, para quem conhece um convento, não é acidente de caminhada, é sinal de fuga.
Sebastião parou a montada a poucos metros, desceu sem pressa e sem avançar, mantendo uma distância que parecia escolhida para não ameaçar. E foi aí que a voz dele lhe saiu num tom que não era de dono, nem de caçador, era de gente prática. Menina, este horário não perdoa ninguém. Beba antes de falar.
Ele puxou um cantil de couro, segurou-o pela alça e estendeu sem atravessar o espaço de uma só vez, como se lhe desse a hipótese de recusar. Tamires hesitou porque recusar podia ser orgulho. E o orgulho não mata sede, mas aceitar podia ser uma armadilha. E ainda assim o corpo dela falou mais alto.
Ela avançou um passo e pegou no cantil com as duas mãos. Bebeu sem pressa para não se engasgar. devolveu rápido e ao devolver viu o que fez o medo mudar de lugar. No dedo de Sebastião havia um anel que não combinava com aquela figura de estrada, um anel com pedra roxa e detalhes dourados. Não daqueles que o homem compra na aldeia para impressionar, mas daqueles que transportam autoridade.
Tamires reconheceu na altura, não porque percebesse de jóias, mas porque tinha visto em missa solene, perto o suficiente para não se esquecer. Era o anel pastoral do bispo Dom Aurélio, o bispo que tinha desaparecido meses antes, o bispo que a vila citava em rumor e que o convento fingia lamentar apenas o suficiente.
A mão de Tamires recuou como se o metal ardesse e ela deu dois passos para trás, já à procura do mato de novo, com a voz mais alta do que queria. Esse anel, de onde tirou isso? Fez alguma coisa ao bispo? Sebastião não se ofendeu como o bandido que se sente acusado, nem se riu como o homem que gosta de assustar. Ele fechou a expressão e olhou para ela com um tipo de seriedade que não pedia aplauso.
“Sabe reconhecer o anel, por isso sabe que eu não devia estar com ele”, ele respondeu e ficou um segundo em silêncio, como se decidisse se valia a pena a pena explicar ali qualquer coisa. Tamires apertou as mãos, pronta para correr, e foi nesse instante que a estrada trouxe o som que ela mais temia ouvir.
os ao longe, primeiro espaçados, depois mais próximos, e um assubio comprido, que não era de gente a chamar amigo, era de gente a guiar cão. Tamires virou o rosto na direção do convento e viu muito longe, poeira a subir, sinais de movimento e compreendeu que o tempo de conversa tinha acabado. Sebastião também ouviu e compreendeu rápido, e a velocidade com que ele reagiu mostrou que não era um homem perdido na estrada.
Ele conhecia a perseguição. “Ess cães não estão atrás de uma cobra”, disse já puxando o cavalo pelo freio. “Estão atrás de si.” Tamires, trémula de cansaço e raiva, ainda tentou manter o controlo. “Se for um dos deles, entrega-me logo.” Sebastião aproximou-se um passo e falou baixo para não gastar tempo com discussão.
“Se eu fosse um dos deles, já estava amarrada. Eu dei-te água e fiquei longe, porque não vim aqui para colecionar desgraça alheia. Agora escolha. Ou sobe e vive o suficiente para me acusar mais tarde, ou fica-se e torna-se troféu do coronel. Ela ouviu coronel e o corpo respondeu antes da cabeça, porque aquela palavra tinha sido dita pela madre Bernarda como sentença.
E Tamires não fugiu para cair na mesma mão por orgulho. Ela subiu para a garupa com pressa, segurando na cela e no pano das costas dele. E Sebastião montou num movimento rápido, esporeou o cavalo e tirou a montada da estrada principal, entrando num caminho lateral, onde a terra era menos batida e a vegetação começava a fechar.
Os latidos aumentaram e Tamires olhou para trás uma última vez e viu distante pontos a mexer, homens e cães a virarem-se a curva. E isso bastou para ela compreender que Bernarda tinha cumprido a ameaça do forma mais eficiente. Ela tinha vendido Tamires e agora cobrava a mercadoria com caçada.
O cavalo avançou por trilho estreito e Sebastião não escolhia o caminho pela beleza. Escolhia pelo que confundia, pelo que exigia a atenção dos cães, pelo que quebrava a lógica do perseguidor. Ele não falava muito enquanto guiava, mas o seu corpo comunicava domínio. Inclinava o cavalo na hora certa, segurava as rédeas com firmeza, evitava passar por uma zona aberta, onde podiam ser vistos de longe.
Ramires na garupa, tentava manter o equilíbrio sem atrapalhar e a cada salto curto em raiz ou pedra, sentia que os pés feridos queixavam-se, mas não disse nada, porque sabia que o primeiro pedido de pausa podia ser o último. Ela olhava para o anel no dedo dele, sempre que o mão dele mudava de posição, e aquilo martelava na cabeça como pergunta que não queria calar.
Como um homem com cara de estrada transportava o autoridade do bispo desaparecido. Sebastião, apercebendo-se do olhar dela, falou sem virar o rosto: “Vai continuar a olhar para esse anel até eu te dar uma resposta.” Tamires respondeu sem Meuice, porque A Meigice não era ferramenta naquele dia. “Quero saber se o bispo está morto.
” Sebastião puxou o cavalo para a sombra de uma árvore mais alta, fez uma curva brusca e disse apenas: “Quero saber onde ele está”. A frase não explicava nada, mas abriu um espaço estranho, porque não era a resposta de quem matou, era a resposta de quem procurava. Antes que Tamires insistisse, os latidos ficaram mais próximos e Sebastião fez o cavalo a descer por um troço irregular, como se procurasse um lugar onde o som se espalhasse e confundisse.
“Segura firme”, ordenou sem dureza e Tamires segurou. E por um instante, ela percebeu que aquele homem, apesar do facão e da poeira, estava a fazer algo que ninguém tinha feito por ela desde que entrou no convento das dores. Estava tratando a vida dela como vida, e não como item negociável.
Isso não apagava o anel, nem a suspeita, mas mudava a urgência das perguntas. Eles avançaram durante mais tempo do que Tamires conseguiria medir. E quando Sebastião finalmente abrandou o passo, não foi porque tinham ganho, foi porque tinham chegado perto de um ponto onde ele queria esconder-se. A mata ali fechava mais e o caminho estreitava até se tornar passagem quase invisível para quem não conhece a região.
Sebastião puxou o cavalo por dentro da vegetação e parou num lugar protegido, onde o som do mundo de fora parecia mais distante. Ramires desceu com as pernas a tremer e o primeiro passo no chão firme doeu bastante para ela morder a própria língua e não fazer barulho. Sebastião amarrou o cavalo num ponto discreto, pegou no cantil e ofereceu-o de novo.
E desta vez ela aceitou sem teatro, porque tinha aprendido que a sobrevivência exige aceitar a ajuda certa no momento certo. Os latidos pareciam agora rodar ao longe, como se os cães procurassem a faixa principal e encontrando confusão. E isso deu a Sebastião uma pequena margem.
Ele olhou para os pés dela e disse de forma simples, sem pena e sem insulto: “Não vais longe assim.” Tamires ia responder com orgulho, mas não respondeu porque era verdade. Sebastião fez-lhe um gesto segui-lo por uma abertura entre pedras e Tamires percebeu que ele não estava levando-a para casa de ninguém. Estava levando para um abrigo improvisado, um tipo de lugar que só serve para esperar o perigo passar.
Ela entrou sentindo a temperatura a mudar e viu que o espaço era uma gruta baixa, escondido o suficiente para não ser notada de fora. E foi ali, com o som dos cães ainda rondando à distância e com o anel do bispo a brilhar de vez em quando Sebastião mexia a mão. que Tamires entendeu que a pergunta sobre Dom Aurélio não se ia embora com o vento e que ela teria de arrancar a verdade daquele homem de uma maneira ou de outro, porque se estava a mentir, estava presa com um criminoso.
E se ele estava a dizer a verdade, então o convento das dores escondia algo maior do que um casamento forçado. No interior da gruta, Tamires demorou alguns segundos a perceber que ali não era esconderijo de bandido, era abrigo de quem conhece perseguição e sabe que a melhor arma às vezes é ficar invisível durante algum tempo.
Sebastião não a mandou sentar, nem ficou a rondar como guarda. Ele se agachou-se perto da entrada, ouviu a mata com paciência e só depois virou o rosto para ela, avaliando o seu estado como alguém que já viu pessoas desmaiar por teimosia. Mostra o pé”, ele pediu num tom firme, sem carinho forçado e sem deboche.
E Tamires, que não tinha motivo para confiar, ainda assim obedeceu por um motivo simples. O corpo já não estava a aguentar fingir força. A planta do pé tinha cortes pequenos e as pedras no caminho tinham feito o resto. E quando ela tentou esconder a dor por orgulho, O Sebastião só respondeu com uma frase seca que não deixava espaço para teatro.
Se não andar direito, não te consigo tirar viva desse lugar. Ele rasgou um pedaço da própria camisola, não com pô de herói, mas com praticidade. Molhou o pano no cantil e limpou o que precisava limpar, trabalhando com cuidado suficiente para não piorar. Tamires reparou nas mãos dele enquanto ele fazia aquilo.
Calejadas, sim, mas precisas, como mãos de homem, que aprendeu a fazer coisas sem pedir ajuda. E reparou também no silêncio dele que era diferente do silêncio do convento. Não convento, o silêncio era imposição, ali era método. Só que o anel, brilhando de de vez em quando, quando mudava a posição dos dedos, não deixava a suspeita descansar.
Ela esperou que ele terminar a ligadura. puxou o pé para trás e falou sem rodeios. Esse anel não é seu. Sebastião não fingiu surpresa. Eu sei ele respondeu. Então roubaste, ela insistiu e a voz dela saiu mais firme do que as pernas. Respirou fundo, como quem já teve esta conversa noutras versões. E antes de dizer qualquer coisa, ele se aproximou-se da entrada da gruta de novo, porque os latidos tinham mudado de posição e isso significava que os cães estavam a percorrer a região, não seguindo a estrada. Tamires também ouviu e pela
primeira vez, desde que saltou o muro do convento, ela sentiu-se de facto encurralada, porque ali dentro não havia para onde fugir se os homens entrassem. Sebastião apontou para o fundo da gruta um corredor estreito que Tamires não tinha notado de início e falou baixo: “Se eu mandar, vais por ali sem discutir”.
Tamires não respondeu, mas segurou o rasgão do hábito no peito, como se aquilo fosse escudo, e depois ouviu um assubio curto do lado de fora, seguido de vozes. Não eram vozes da aldeia, eram vozes de quem vive da caça. Homens que não conversam para se entenderem, conversam para dividir função. Ela passou aqui, disse um.
O cavalo entrou na mata disse outro. Um terceiro mandou calar. E o silêncio deles foi mais ameaçador do que qualquer gritaria. Tamires sentiu a garganta apertar. O primeiro jagunço apareceu como sombra recortada pela luz da entrada e os cães vieram logo atrás, puxando a trela com vontade. Ele era alto. Tinha o corpo de quem trabalha armado e a cara de quem gosta de se sentir importante pelo medo que provoca.
Quando viu a gruta, sorriu com a certeza de que a caça tinha acabado. Achei ele falou. E Tamir sentiu o sangue gelar, porque a frase não era sobre ela como pessoa, era sobre ela como objeto recuperado. Mas o homem não entrou de uma vez. Ele hesitou um segundo, avaliando o espaço. E esse segundo foi o tempo que Sebastião precisava.
Sebastião saiu da sombra da lateral e apareceu calmamente, já de pé, machete na mão, mas sem levantar como ameaça vazia. “Procura o quê?”, ele perguntou. E a voz dele saiu limpa no volume certo para ser ouvida, sem ser chamada de provocação. O Jagunço mirou os olhos na roupa de Sebastião, nos sinais de estrada e tentou classificar rápido.
Você é o quê? Caçador, fugitivo? Sebastião não respondeu com título, respondeu com posição. Eu estou entre você e ela ele disse. E isso fez com que o Jagumoir, porque Jagun sorri quando acredita que o número vence. O coronel Matias paga bem por devolução”, o homem disse e puxou o cão pouco para a frente. Tamires reconheceu o nome do coronel como se fosse uma corrente a ser puxada.
Sebastião deu um passo lateral medindo distância e disse outra coisa que não combinava com bandido comum. Você está fazendo serviço sujo para gente grande e gente grande não aparece para dizer agradeço quando o serviço dá errado. O Jagunço semicerrou os olhos, ofendido por alguém falar como se compreendesse o jogo, e levantou a espingarda.
Não disparou, porque num espaço assim o tiro pode voltar e porque também não queria estragar a mercadoria. Foi neste cuidado egoísta que Sebastião atacou da forma certa. Não foi para magoar, foi para confundir. Puxou um punhado de terra solta e atirou-o para o focinho do cão mais próximo. E o animal recuou rosnando.
E no mesmo movimento, Sebastião bateu o machete no chão, produzindo um som seco que fez o outro cão hesitar. Não era coragem romântica, era conhecimento do comportamento. O jagunço perdeu meio segundo, tentando segurar os animais. E nesse meio segundo, Sebastião agarrou Tamires pelo braço e empurrou-a para o corredor de fundo.
Agora ele ordenou e Tamires foi coxeando, segurando as paredes com as mãos, sem compreender como aquele corredor levava para fora. Atrás, o Jagunço gritou um palavrão e tentou entrar, mas a passagem era estreita e o corpo dele não cabia com facilidade, e isso deu vantagem a quem estava habituado a movimentar-se na mata sem barulho.
Bastião entrou atrás de Tamires, fechou a passagem com uma pedra solta que ele já tinha deixado ali como se antecipasse aquele momento. E os dois avançaram pelo túnel baixo até emergirem do outro lado, atrás de uma moita fechada, alguns metros acima do nível da estrada. Tamires ouviu os cães a ladrar frustrados do lado de dentro e as vozes irritadas dos jagunços tentando encontrar outra entrada e reparou que Sebastião conhecia aquele lugar antes de chegar com ela, o que significava que já vinha investigando, já vinha se
preparando e isso tornava o anel ainda mais perigoso. Ele não estava perdido. Ele estava no centro de algo que ele procurava. Eles correram por um trecho curto, sem fazer barulho desnecessário. E Sebastião guiou Tamires por dentro do mato até uma zona onde o som da água quebrava o rastreio.
Ele fez o cavalo avançar por um caminho estreito, depois desceu e puxou o animal pela rédia com cuidado, porque cavalo assustado entrega a posição. Quando chegaram perto da cascata, ele fez Tamires sentar-se numa pedra mais firme e ordenou, com a mesma voz de antes, sem suavidade e sem grosseria, respira e fica quieta.
Tamires tentou rir-se de nervoso, mas não saiu. O corpo dela tremia, não por frio, mas pela descarga de ter escapado por pouco. Sebastião verificou em redor, depois voltou e ajoelhou-se perto dela, ajustando a ligadura de novo, apertando o pano da forma certa para ela conseguir andar. Tamires olhou para ele, o machete agora preso à cintura dele, e decidiu que não podia esperar pela próxima perseguição para tirar a verdade daquele homem.
Quando Sebastião se levantou-se para lavar o rosto na água, Tamires puxou o machete com cuidado, não para fazer cena, mas porque precisava de uma vantagem que equilibrasse a conversa. Ela apontou-lhe a lâmina com a mão firme e a coragem dela não veio de bata. Veio de urgência. Agora diz-me, ela falou, de onde veio o anel, onde está o bispo e por ti estava naquela estrada.
Sebastião virou-se lentamente, viu a lâmina e, em vez de avançar, levantou as mãos com calma, como quem respeita a inteligência de quem tem medo. Você tem todo o direito de desconfiar, ele disse. E não tinha ironia na voz. Tamires apertou o cabo do machete. Responde. Sebastião assentiu e começou pelo ponto mais perigoso, o ponto que não se inventa. Dom Aurélio é meu tio.
Tamires gelou um segundo tentando entender. Sebastião completou. O meu nome é Sebastião de Bragança. Eu não sou caçador de recompensas. Eu vim com ordem da coroa para descobrir porque é que as cartas do bispo deixaram de chegar e porque gente de dentro da igreja está a se comportando-se como comerciante.
Samir manteve a lâmina, mas a frase ordem da coroa mexeu com ela, porque não era coisa que o homem comum diz assim. E ele tirou do bolso interior um papel dobrado, protegido da humidade, e mostrou sem esticar demasiado para não parecer golpe. “Eu tenho documento”, disse. “Mas documento sozinho não adianta se eu regressar à aldeia sem prova e sem testemunha.
” Tamires não baixou o machete ainda e o anel? Sebastião olhou para o própria mão como se o objeto pesasse mais do que metal. “Eu encontrei este anel num capanga ligado ao convento das dores.” Ele respondeu: “Na estrada. dias atrás. Ele não quis falar no início, depois falou. Tamires deu um passo coxo para a frente.
Disse o quê? Sebastião segurou o olhar dela e disse o que ela não queria ouvir, mas precisava. que o bispo não está morto, está preso, mantido longe de Vila Bela, porque se ele voltar, acaba a festa de quem está a vender rapariga dentro de convento. Tamires sentiu a boca secar e desta vez não era sede, era entendimento.
Ela baixou a lâmina alguns centímetros, não por confiança total, mas porque a verdade começava a encaixar com o que ela já tinha visto. A Madre Bernarda, – sussurrou ela e Sebastião assentiu. A Bernarda não faz isto sozinha. Ele disse: “Há pessoas com dinheiro por trás. Há homens que compram, há homem que protege, há homem que ameaça.
Tamires pensou no coronel Matias, no ouro exposto na caixa, nas palavras frias da madre, e compreendeu que a venda dela não era exceção. Era parte de um esquema que se sustentava porque ninguém tinha coragem de apontar. Ela também percebeu outra coisa. Se Sebastião tinha razão, o anel no dedo dele não era um troféu de assassinato, era marca de autoridade roubada.
E ele estava a usar aquilo como chave para abrir portas que fechavam-se a qualquer viajante comum. Ela guardou o machete devagar, mas não devolveu como quem se rende, devolveu como quem decide negociar. “Se o bispo está preso, onde?”, ela perguntou. Sebastião apontou para o rumo da mata com um gesto curto. Mina abandonada, respondeu.
É o que o capanga confessou. Mina velha, fora da rota, usada para esconder quem não pode ser visto. Tamires ficou em silêncio por um instante, olhando para o chão. E quando voltou a falar , a voz já não era só de fuga, era de estratégia. “Precisa de prova de venda”, disse ela. Sebastião não negou. “E eu sou a prova”.
Tamires continuou e isso saiu como decisão. O O coronel Matias vai estar à espera no convento. Ele vai querer o que pagou. Se eu voltar contigo, ele abre a boca. Sebastião deu um passo na direção dela, negativo com a cabeça, porque pela primeira vez parecia realmente assustado, não por ele, mas por ela.
Voltar é colocar-se de novo na mão deles. Tamires não discutiu com emoção. Ela respondeu com lógica, porque era a lógica que fazia com que os homens ouvirem. Se não voltar, viro só uma fugitiva. Amanhã, a Bernarda inventa que enlouqueci, que fugi por pecado e pronto. Se voltar com alguém que impor respeito, ele não vai conseguir fingir.
Sebastião hesitou e a hesitação dele não era cobardia, era responsabilidade. Tamires fez então um pequeno gesto, sem romance exagerado, só um toque rápido na cara dele para puxar a atenção e falou baixo: “Tirou-me da estrada quando ia ser capturada. Agora deixa-me decidir o que faço com a minha vida. Sebastião respirou fundo, olhou para o anel, olhou para as ligaduras no pé dela e finalmente disse: “Então fazemos do jeito certo e rápido”.
Ao longe, os latidos voltaram a aparecem, mais distantes, mas persistentes, como se os jagunços não tivessem desistido. Sebastião puxou o cavalo, ajudou Tamires a montar com cuidado e, antes de subir, olhou para ela com a seriedade de quem está prestes a entrar num lugar onde a palavra errada transforma-se em morte.
Quando voltarmos, não é para implorar, é para os fazer falarem. Itires, segurando firmemente para não mostrar o medo, respondeu com uma frase curta que carregava o peso de tudo que ela engolira no convento. Eu sei exatamente o que a madre vende. Eu só precisava de alguém que ouvisse. O cavalo virou na direção do caminho de volta, o sol já a descer para o fim de tarde.
E Tamires percebeu que a parte mais perigosa não era a caçada no mato, era atravessar o portão do convento das dores outra vez com o coronel Matias à espera, a Madre Bernarda sorrindo e um anel de bispo a brilhar na mão do homem que podia ser a salvação ou o motivo de todos quererem sangue. O caminho de volta até ao convento das dores exigiu mais cabeça do que pressa.
E isso Tamires entendeu antes de Sebastião dizer qualquer coisa. Ela subiu de novo na garupa, com os pés amarrados da maneira que dava, segurando com força para não cair nas curvas. E a cada batida do casco no chão duro, ela repetia por dentro o que precisava de acontecer para que a verdade saísse dali viva.
Sebastião escolheu uma trilho que chegava ao convento pelo lado mais visível, não por coragem vazia, mas porque a cena precisava de olhos. E olhos naquele lugar valiam mais do que promessas. Quando a mata se abriu e o muro do convento apareceu, o sol já estava descendo para o fim de tarde e o calor ainda sustinha o ar como se ninguém tinha direito a alívio.
Eles reduziram o passo antes do portão, e Sebastião falou sem elevar o tom, com a firmeza de quem dá instrução de trabalho. Você fica perto de mim, não responde a provocações, não baixa a cabeça. Se ele disser que pagou, deixe-o falar. O Tamires sentiu-a e a parte difícil não era parecer forte, era não deixar o corpo trair o que ela carregava por dentro.
O receio de que Bernarda mandasse bater, o receio de que o Matias tentasse arrastar, o receio de que algum guarda preferisse obedecer à madre por hábito. Sebastião ajeitou o chapéu, limpou o suor da cara com a manga rasgada e, antes de entrar fechou os dedos à volta do anel no próprio dedo, como se se lembrasse do peso daquilo, não como jóia, mas como chave.
Ele não precisava de ameaça, precisava de hesitação do lado de lá. O portão principal estava meio aberto e dois homens armados guardavam com preguiça de rotina, do tipo que não espera confusão àquela hora. Quando viram a figura do cavaleiro chegando com uma noviça ao lado, a atenção acendeu de imediato e o primeiro guarda já abriu a boca para perguntar.
Mas Sebastião entrou antes da pergunta terminar, conduzindo o cavalo para o pátio, como se aquele chão fosse estrada pública. O pátio estava diferente do que Tamires se lembrava. Mais pessoas do que o normal, mais movimento de homens, menos silêncio de convento. E no centro do tumulto estava o coronel Matias, com a postura de quem não foi ali para rezar.
Ele andava de um lado para o outro com raiva contida, camisa aberta no pescoço, o rosto marcado duro de irritação. E a cada frase dele, os homens à volta fingiam concordar, porque coronel irritado é perigo para quem esteja perto. A Madre Bernarda mantinha o sorriso fixo, mas o sorriso dela não chegava aos olhos.
Ela estava a tentar acalmar Matias sem perder o domínio do próprio pátio. E isso explicava a pressa com que ela virou o rosto quando ouviu o cavalo entrando. Tamires desceu com cuidado, sentiu a ligadura apertar, mas manteve o corpo direito, porque aí qualquer sinal de fraqueza viraria argumento contra ela.
O Matias viu-a e a expressão dele passou de fúria para posse num segundo, como se a visão dela confirmasse um direito. Aí está. Disse alto, sem vergonha de se expor, e apontou para Tamires como se apontasse para um objeto recuperado. Bernarda deu dois passos rápidos, abriu os braços num gesto de acolhimento que não era acolhimento, e falou para os guardas com alívio ensaiado. Trouxeram a fugitiva.
Ela olhou para Sebastião com a avaliação de quem tenta medir se aquele homem servia como instrumento ou como problema. Sebastião, sem responder de imediato, puxou de uma bolsa um pequeno saco e pesado e atirou-o para o chão do pátio, com força suficiente para fazer barulho, um ruído que puxa a atenção e interrompe conversa.
Moedas de prata tirintaram e rolaram para fora. E Matias sorriu com o canto da boca, achando que aquilo era prova de que o mundo funcionava da forma que ele gostava. Bom, o coronel falou, dando um passo em frente. Agora, me devolvam o que é meu. Então disse a frase que Tamires precisava que ele dissesse sem que ninguém colocasse palavra na boca dele.
Eu paguei três barras de ouro por esta mulher. O pátio ficou num silêncio curto, não porque todos fossem virtuosos, mas porque até as pessoas habituadas a obedecer entende quando alguém falou demais. Tamires conteve a respiração, o coração batendo alto e Sebastião olhou para Matias. como quem finalmente tem o que veio buscar.
Repetir Sebastião disse num tom que parecia simples provocação, mas era armadilha. Matias, irritado com a calma do outro, repetiu com mais agressividade para deixar claro que não aceitava questionamento. Eu paguei, ela é minha noiva. Comprei a palavra da madre e comprei o direito.
Bernarda endureceu a mandíbula por um instante, apercebendo-se que o coronel tinha aberto a porta para algo que não era negociável, e tentou corrigir com falsa doçura: “Coronel, não usar termos tão brutos.” Sebastião não deu-lhe espaço para ajeitar o discurso. Desceu do cavalo, colocou a mão no bolso interior da camisa e tirou um documento dobrado, protegido, com selo de cera ainda visível.
Abriu devagar para que todos vissem que não era papel comum e levantou-se à altura do peito. “O senhor acabou de confessar tráfico de súbditos da coroa”, disse. E pela primeira vez o pátio ouviu o nome real do crime sem disfarce. O meu nome é Sebastião de Bragança, investigador a serviço da coroa. Por ordem, atuo como ouvidor-geral interino desta capitania até à chegada do titular.
Bernarda tentou rir, um riso curto daqueles que servem para diminuir o outro, e respondeu: “Um caçador de estrada, dizendo que é ouvidor”. Matias deu uma riso mais alto, já preparando o gesto de mandar os homens bater. Sebastião não levantou arma, não precisava. Ele levantou a mão que transportava o anel e o anel apanhou a luz do fim de tarde de um maneira que chamou o olhar até de quem estava distraído.
Tamires aproveitou o instante e falou alto o suficiente para atravessar o pátio sem tremer na voz: “Olhem paraa mão dele. Vejam o que ele usa. Um dos guardas fez o sinal da cruz por hábito. Outro recuou meio passo. E os mais supersticiosos travaram não por magia, mas por medo de desobedecer a algo que a vida inteira lhes ensinaram a respeitar.
Bernarda apercebeu-se do efeito e mudou de alvo. Ela não discutiu a legalidade, atacava a autoridade simbólica. “Este anel pode ser roubado”, ela gritou, virando-se para os homens armados do convento. “Prendam este impostor”. Só que a ordem dela bateu numa parede invisível. Ninguém queria ser o primeiro a tocar num homem que ostentava o sinal do bispo desaparecido.
O Matias, impaciente, tentou resolver com as próprias mãos, puxando o braço de Tamires para arrastá-la. E neste gesto, o verniz acabou. Tamires não gritou por socorro como noiva obediente. Ela arrancou o braço de volta e ficou ao lado de Sebastião, mostrando a todos de que lado estava. Você não me vai levar”, disse ela.
E a frase em 1762, dita por uma noviça no pátio de um convento diante de um coronel, era uma afronta maior do que qualquer bofetada. Matias levantou a mão para bater e o Sebastião entrou à frente no mesmo instante, sem tocar no coronel, apenas ficando no caminho com o documento aberto. “Mais um passo e o senhor agrava a sua confissão”, falou.
E o coronel olhou em redor, procurando apoio, e encontrou hesitação. A hesitação é o primeiro sinal de queda para um homem que vive de mandar. Bernarda, percebendo que perderia ali se não virasse o jogo, fez o que ela sempre fez. Tentou usar a fé como escudo, a dizer que ali era a casa religiosa, que aquele pátio não era lugar de autoridade civil, que um homem qualquer não entraria ali para acusar uma madre.
Sebastião escutou sem se abalar e respondeu com o que ela não podia controlar. Casa religiosa não vem de orfan e não prende bispo. O nome bispo cortou o ar e foi como se toda a gente se lembrasse do elefante escondido no quarto. Bernarda empalideceu pela primeira vez, mas tentou manter a postura. E antes que ela cuspisse uma nova ordem, um barulho vinha da mata do lado do portão, passos e vozes diferentes das vozes de Jagunço.
Dois indígenas apareceram conduzindo um homem fraco, com roupas amarrotadas e rosto cansado, mas com uma postura de quem ainda carrega dignidade, mesmo quando o corpo não colabora. Tamires reconheceu primeiro pela forma de olhar, pelo modo como ele sustentou o queixo ao atravessar o pátio. Dom Aurélio estava vivo. Sebastião não olhou surpreendido porque aquilo fazia parte do plano.
Ele apenas respirou fundo como quem encaixa finalmente a última peça diante de todo o mundo. Os indígenas que Sebastião tinha enviado adiante enquanto ele regressava ao convento, tinham feito o resgate na mina abandonada e chegavam no momento exato em que Bernarda ainda tentava negar. Dom Aurélio deu dois passos com dificuldade, apoiado, e falou com voz rouca, mas suficientemente claro para derrubar qualquer teatro.
A Madre Bernarda, ele não precisava de dizer mais nada, porque o nome dito por ele era sentença. Bernarda caiu de joelhos, não em penitência, mas em medo. Matias recuou como se o pátio tivesse mudado de dono repentinamente, e os guardas, que antes hesitavam por superstição, hesitavam agora por certeza. O bispo levantou a mão com esforço e Sebastião, num gesto seco, tirou o anel do próprio dedo e colocou na mão do tio, devolvendo a peça diante de todos, sem discurso, sem pose.
Aquilo fez entender ao pátio que o anel não era troféu de crime, era prova de humilhação. Matias tentou recuperar a voz com ameaça e dinheiro, dizendo que isso era a armação, que ele tinha amigos na aldeia, que aquele investigador ia sair dali pendurado numa árvore. E Sebastião respondeu sem levantar o tom.
O senhor já falou demais para voltar atrás. Dom Aurélio confirmou com um aceno e acrescentou o que Martias temia mais do que prisão. Ouvi nomes, ouvi valores, ouvi como trataram as meninas como mercadoria. Bernarda tentou negar com frases quebradas, acusou Tamires de ingrata, tentou dizer que era disciplina, tentou chamar caridade ao que fazia.
E Tamires, sem chorar e sem pedir perdão, disse o essencial: “A senhora vendeu-me? Ele acabou de confessar. Sebastião fez sinal aos guardas do juiz que estavam com ele e pela primeira vez, alguém prendeu um coronel naquele pátio sem ter de gritar. As correntes entraram como confirmação do que todos já tinham visto acontecer.
Matias reagiu com violência, cuspiu ameaças, tentou que os homens dele avançarem, mas os homens dele olharam o bispo, olharam o documento, olharam para a hipótese de virar cúmplice de um crime que agora tinha testemunha viva e ninguém se mexeu. A Bernarda foi contida também e a madre que mandava com uma palavra agora não conseguia sequer levantar-se do chão sem ser segurada.
O pátio do convento, que sempre funcionou como palco controlado por ela, tornou-se um lugar de prova. Quando o sol finalmente baixou mais um pouco e a sombra alongou-se no chão, o Sebastião reuniu tudo o que precisava: A confissão pública do coronel, a presença do bispo vivo, o anel devolvido e a própria Tamires como testemunha que ninguém poderia apagar com boato.
E só então olhou para ela com um respeito que não era paixão de romance, era reconhecimento de parceria. Você sabia que precisava de ser em público”, ele disse baixinho. Tamires respondeu do mesmo jeito. Sozinha eu tornava-me mentira, com gente a olhar eu viro fato. E quando os presos foram levados para o exterior e o convento ficou num silêncio estranho, não de paz, mas de rearranjo, Sebastião avisou que aquilo não terminava ali.
Havia papel, havia nomes, havia cúmplices na aldeia e Bernarda não teria montado aquele esquema sem protecção. Dom Aurélio, ainda fraco, pediu para seguir imediatamente para Vila Bela, porque a A autoridade de verdade precisava de ser informada antes que alguém queimasse ficheiro e apagasse rasto.
E Sebastião concordou. Tamires, sentindo o corpo cansado e a mente acordada, olhou para a estrada que tinha corrido horas antes e percebeu que agora a pisaria por outro motivo, não para fugir, mas para atravessar a capital com o bispo vivo e o investigador ao lado, sabendo que o coronel Matias tinha amigos, que a madre Bernarda tinha aliados e que a viagem de volta podia ser o último lugar onde tentariam resolver tudo à maneira antiga, no silêncio, longe de uma testemunha.
A noite caiu depois do tumulto e o convento das dores ficou com um tipo de quietude que não era paz, era cálculo. Os corredores continuavam ali, as portas continuavam no lugar, a capela continuava com as velas acesas, mas a autoridade tinha mudado de mãos e isso era visível até para quem preferia fingir.
Dom Aurélio foi colocado numa carruagem simples, escoltado por homens do juiz e pelos dois indígenas que o tinham tirado da mina. E Sebastião organizou a partida sem dar espaço para a conversa, porque sabia que o perigo maior vinha quando a notícia se espalhava e alguém tentava reparar o que foi exposto. Madre Bernarda e O Coronel Matias seguiram acorrentados, cada um sustentando o próprio orgulho de um modo diferente.
Matias a praguejar, prometendo vingança e falando nomes de gente importante. Bernarda em silêncio, com os olhos a percorrerem cada rosto, como se estivesse a escolher quem ainda podia comprar. Tamires, com o pé latejando sob a ligadura e o hábito ainda rasgado, subiu para a carruagem ao lado de Dom Aurélio, por ordem do próprio bispo, não como recompensa, mas como necessidade, porque uma verdade daquele tamanho necessitava de voz jovem para não tornar-se apenas disputa de homens em gabinete.
A estrada para a Vila Bela da Santíssima Trindade parecia a mesma de sempre. Pó vermelho, calor segurando o ar, céu aberto. Mas para Tamires era outra coisa, porque agora ela via como a distância entre uma porta trancada e uma praça cheia era a diferença entre desaparecer e ser ouvida. Dom Aurélio pouco falou durante o caminho, poupando forças, e quando falava não fazia sermões.
Ele perguntava nomes, datas, pormenores de rotas e Tamires percebeu que o bispo não tinha sido mantido vivo por compaixão. Tinha sido mantido vivo porque alguém precisava que ele desaparecesse sem morrer, preso o suficiente para não denunciar e vivo o suficiente para servir de moeda se a situação apertasse.
Sebastião, cavalgando ao lado, não se exibia com o anel, nem com o documento. Ele só vigiava o meio envolvente e administrava distância, porque sabia que as pessoas poderosa não gosta de ser exposta e quando perde em público, tenta ganhar no escuro. Em determinado trecho, uma cavalgada apareceu longe, dois homens apenas, e Sebastião mudou a posição da escolta sem alarido, puxou os guardas para os flancos e manteve o ritmo sem parar. E a cavalgada não se aproximou.
Naquele pormenor, Tamires compreendeu o que era viver em terra de fronteira. A ameaça não grita, testa. Em Vila Bela, a chegada do bispo vivo desmontou qualquer versão confortável mesmo antes de se tornar documento, porque a capital tinha o vício de acreditar na rumor quando o rumor era útil, mas não conseguia ignorar um homem reconhecido entrando pela rua principal, escoltado, fraco, porém inteiro, o suficiente para falar.
Ovidor titular não estava na cidade e foi por isso que o documento de Sebastião teve peso. Ele preencheu um vazio de autoridade numa altura em que o esquema dependia precisamente desse vazio. A cadeia recebeu Matias e Bernarda e pela primeira vez o coronel viu que o próprio nome não abria todas as portas.
Ele tentou subornar, tentou ameaçar, tentou chamar amigos, mas a presença do bispo transformou o caso num algo demasiado grande para ser abafado com coxicho. Dom Aurélio prestou depoimento e o que contou não foi mistério, foi método. A mina abandonada, os dias de isolamento, os recados que chegavam por mãos de terceiros, a retirada do anel como sinal de humilhação e como aviso de que sem aquele símbolo, a sua palavra valia menos na região.
O anel, que na estrada parecia prova de assassinato, tornou-se prova do rapto e a beleza do objeto perdeu importância face ao que ele representava. Alguém tinha tomado a autoridade da igreja para usá-la contra a própria igreja. Tamires, quando foi chamada a falar, não inventou drama, nem pediu pena. Ela descreveu claramente a caixa com as barras de ouro, a frase da madre, a ameaça dos cães, o nome do comprador dito no pátio e que a simplicidade foi o que feriu mais fundo, porque tirou o assunto do terreno da
boato e colocou no terreno do facto. A investigação espalhou-se e outros nomes surgiram, não só de compradores, mas de intermediários. Gente que se dizia respeitável e que utilizava o convento como mercado. Algumas noviços, antes caladas por medo, começaram a falar quando viram que havia autoridade real e proteção suficiente para não serem arrastadas de volta para o silêncio.
E isso abriu um efeito que Bernarda sempre evitou, testemunha a chamar testemunha. A madre tentou defender-se com vocabulário de disciplina e caridade, mas a cidade já tinha visto a confissão do coronel e o bispo vivo. E as palavras bonitas não seguram quando a engrenagem aparece.
O Matias insistiu até o fim que apenas queria a esposa e essa insistência por si só denunciava a cabeça dele. Ele não entendia que o problema não era o desejo dele, era o direito que ele julgava ter de comprar uma pessoa. No meio de tudo, Tamires passou a ser observada por todos os lados, não como santa, mas como incómodo.
Havia quem a chamasse de corajosa e havia quem a chamasse de perigosa. E ela aprendeu num curto espaço de tempo que a fama muda conforme a conveniência de quem comenta. Quando a poeira assentou e os papéis começaram a correr pelos caminhos oficiais, Sebastião voltou a encontrar Tamires à saída da sala de audiências, perto da varanda do prédio, onde os homens de lei se reuniam.
Ele não veio com declaração, veio com proposta prática, porque a sua vida não era feita de promessas fáceis. Ele precisava mapear cúmplices, cruzar nomes, compreender rotas, identificar os locais onde as raparigas eram guardadas antes de serem entregues e precisava de alguém que conhecesse o mundo por dentro sem ser cúmplice.
Amires, que fugiu para não ser esposa por obrigação, escutou a proposta e percebeu a diferença. Ao lado dele, ela não seria moeda, seria voz. Você conhece a verdade desta terra melhor do que qualquer homem que só lê relatórios?”, Sebastião disse. E pela primeira vez, desde que ela entrou no convento, alguém reconheceu nela capacidade, não fragilidade.
Tamires não respondeu com romantismo, respondeu com firmeza de quem sabe o preço do caminho. Perguntou se ele garantiria que nenhuma outra rapariga seria empurrada para dentro daquele tipo de casamento sem escolha. Perguntou se ele enfrentaria os nomes grandes quando aparecessem. E Sebastião não prometeu a vitória certa, prometeu trabalho feito da forma certa, com prova, com testemunha e com gente olhando. Foi o suficiente.
Ela aceitou seguir para o que viesse, não porque o mundo se tornou seguro, mas porque ela tinha escolhido de novo o próprio rumo. E o silêncio que se manteve depois do grito no pátio do convento não foi o silêncio de derrota, foi o silêncio de quem finalmente compreende que sobreviveu e que precisa agora de sustentar a sobrevivência com coragem diária, sem espetáculo, sem pedido de permissão.
Agora quero saber de si. Se estivesse no lugar da Tamires, subirias para a garupa daquele homem ao ver o anel do bispo? Ou acharia que era tarde demais para confiar em qualquer estranho? E na sua opinião, A Madre Bernarda era apenas uma peça isolada ou era o tipo de gente que só existe porque muita gente importante finge não ver? Diga-me nos comentários o que você faria e qual o momento da história em que percebeu que o perigo não estava na mata, estava nas paredes do convento.
E se gostou deste caso, deixa o like, subscreve o canal e ativa o sininho, porque a próxima história tem uma viragem que só faz sentido quando chega ao fim. E eu não quero que percas. Até ao próximo enigma do dossiê.