JOSÉ MAYER, MARCIUS MELHEM E DENNIS CARVALHO OS 3 ESCÂNDALOS DE ASSÉDIO QUE A GLOBO TENTOU ESCOND
que acusa o ator José Meer de assédio sexual deve prestar hoje depoimento em uma Um ator suspenso depois de centenas de funcionárias vestiram a mesma t-shirt em protesto. Um realizador de humor que caiu depois de ser apontado por mais de 40 pessoas e um realizador lendário, responsável por algumas das telenovelas mais icónicas da história da televisão brasileira, que faleceu há poucos meses sem nunca ter respondido de forma definitiva pelas acusações que o perseguiram durante mais de uma década.
três homens, três décadas diferentes de poder dentro da mesma estação e um padrão que repete-se quase palavra por palavra em cada um dos três casos: hierarquia, silêncio, promessas de papéis e mulheres e homens jovens a tentar sobreviver dentro de um sistema que durante anos protegeu mais os agressores do que as vítimas.
E isto não é impressão, não é exagero de quem gosta de mexericos de bastidor. Existe investigação séria sobre isso. Um inquérito do Instituto Gina Davis, organização internacional dedicava a estudar a representação de género no audiovisual, entrevistou brasileiros e chegou a um número que impressiona. 51% das pessoas ouvidas afirmaram acreditar que os próprios filmes e programas de televisão incentivam o desrespeito e o assédio contra as mulheres dentro do ambiente de trabalho.
E 73% disseram ver as mulheres retratadas no ecrã de forma exageradamente sexualizada, reduzidas, segundo a própria pesquisa, a estereótipos rasos com pouca inteligência atribuída às personagens femininos. Ou seja, o problema não estava só nos bastidores, estava também refletido sistematicamente naquilo que chegava até à sua própria televisão.
Como é possível que três vezes, em três momentos diferentes, ao longo de mais de 10 anos, o mesmo tipo de história se tenha repetido dentro da mesma estação, sem que nada mudasse de verdade entre um caso e outro. Por que demorou tantos anos para que estas denúncias ganhassem força? E o que a morte recente de um destes homens revela sobre como a justiça brasileira lida ou deixa de lidar com este tipo de acusação? Hoje vai conhecer na íntegra três histórias reais que agitaram os bastidores da televisão brasileira. O caso José Meer, o caso
Március Mellem e o caso Denis Carvalho. Três escândalos que juntos formam um retrato completo de décadas de silêncio dentro de uma das indústrias mais poderosas do país. Fica até ao final porque o terceiro caso desta lista tem um desfecho que aconteceu há poucas semanas e que muita gente ainda não sabe.
Antes de continuar, deixa o like, subscreve o canal e ativa o sininho, porque esta é uma história pesada, real e que precisa de ser contada com todos os pormenores, sem meias palavras. Vamos começar pelo caso mais antigo desta lista, aquele que de certa forma abriu a época de denúncias que sacudiria a televisão brasileira nos anos seguintes.
A 31 de março de 2017, a figurinista Suslen Tonani, então com 28 anos, tomou uma decisão que exigiria uma coragem enorme. Ela denunciou publicamente o ator José Meer, um dos nomes mais consagrados da dramaturgia brasileira por assédio sexual, alegando ter sido importunada por ele durante o trabalho. José Mayer Drumon, natural de Jaguaraçu, Minas Gerais, em 3 de outubro de 1949, não era um ator qualquer dentro da Globo.
Ele carregava até àquele momento mais de quatro décadas de carreira consagrado na dramaturgia brasileira. estreou-se na televisão em 1977, ainda a dobrar o burro falante no infantil Sítio do Pic-apau Amarelo, e conquistou o seu primeiro grande reconhecimento em 1983, com o prémio a PCA de melhor revelação masculina por bandidos da Falange.
Em 1988, viveu o Zé do Burro na minissérie O pagador de promessas de Dias Gomes, um dos papéis mais celebrados da sua trajetória. E no ano seguinte, o personagem Osnar em Tieta de Agnaldo Silva consagrou-o com o Troféu Imprensa. Ao longo das décadas seguintes, foi presença constante em telenovelas como Laços de Família, Mulheres Apaixonadas, Senhora do Destino, A Favorita, Fina Estampa e Império, tornando-se um dos atores preferidos de autores como Manuel Carlos e Agnaldo Silva.
Era, pois, um nome de peso, de décadas de bastidores que a jovem figurinista de 28 anos estava prestes a confrontar publicamente. A reação dentro da própria Globo foi imediata e visceral. Já na terça-feira seguinte à denúncia, As funcionárias da emissora chegaram aos estúdios usando t-shirts estampadas com a frase: “Mexeu com uma, mexeu com todas”, numa demonstração pública de solidariedade que colocou uma pressão gigantesca sobre a direção da empresa.
Pouco depois desta manifestação, a Globo emitiu uma nota oficial informando a suspensão de José Meer por tempo indeterminado. Mas aquilo era apenas o início de uma reviravolta e tanto, porque na semana anterior a denúncia se tornar pública, José Meer tinha chegado a sugerir, em a sua defesa inicial que Suslent Tonani estaria a confundir as ações reais dele com as de uma personagem misógena que ele interpretava na altura chamado Tião Bezerra.
Só que perante a repercussão avaçaladora e da pressão interna da própria estação, o ator recuou dessa versão e, dias depois do episódio Viratona, confessou publicamente o assédio, embora tenha feito questão de dizer que os factos não tinham acontecido exatamente da forma, como a figurinista havia relatado. Em carta pública, José Mayer chegou a admitir que se tinha enganado no que fez, no que falou e no que pensava, reconhecendo que as suas atitudes, que o próprio classificou como brincadeiras de cariz machista, haviam ultrapassado os limites do respeito
devido aos colegas de trabalho. Ele descreveu aquele momento como parte de uma dolorosa, porém necessária, mudança pessoal, e afirmou publicamente que o homem que surgia depois daquele episódio era, segundo as suas próprias palavras, definitivamente melhor do que ele tinha sido antes.
Só que o caso nunca chegaria a ser investigado criminalmente. E o motivo por detrás disso revela outra camada ainda mais dolorosa desta história. Tonani, ao tentar procurar ajuda formal junto da polícia, relatou ter-se deparado com atitudes machistas por parte de um delegado que, segundo a própria denunciou publicamente, chegou a intimá-la cinco vezes no seu próprio endereço residencial, acompanhado de dois polícias numa tentativa de obrigá-la a depor especificamente na esquadra sob o comando dele.
Diante dessa situação, ela teve de recorrer à Defensoria Pública, que orientou que qualquer ação formal deveria ser conduzida através de uma esquadra da mulher e não por aquele caminho que lhe estava a ser imposto. Você já parou para pensar no tamanho desta dupla barreira? Uma mulher que teve a coragem de denunciar um dos atores mais poderosos e mais consagrados da televisão brasileira e que ao tentar formalizar esta denúncia dentro do próprio sistema de justiça, encontrou mais um obstáculo, desta vez vindo de dentro da própria polícia. E no meio de
toda esta pressão, surgiu ainda mais uma camada de ruído. Dias depois da denúncia, o cronista Léo Dias chegou a publicar que existiria uma suposta reviravolta no caso, sugerindo que José Meer e Sutonani teriam mantido no passado um relacionamento amoroso quando o ator já era casado. Tonani negou publicamente qualquer envolvimento com o ator e classificou aquele tipo de narrativa como parte de uma cultura ainda maior que insiste em procurar formas de culpabilizar a vítima perante qualquer denúncia de assédio.
Como resultado direto de toda esta repercussão, a Globo decidiu não escalar José Meer para a novela das 9 seguinte, da autoria de Agnaldo Silva, previsto para estrear em 2018, numa decisão que a A própria estação classificou, em nota oficial como isenta e responsável, afirmando que aquela postura seria aplicada daí em diante a qualquer caso semelhante que viesse a surgir.
Mas o caso de José Meer escondia uma camada ainda mais antiga que só viria ao de cima depois da denúncia de Susl Tonani ganhar repercussão nacional. A atriz Camila Pitanga revelou publicamente que também tinha sido assediada pelo próprio José Meer ainda em 2003 durante as gravações da telenovela Mulheres Apaixonadas, na qual os dois formavam um par romântico em cena.
E foi precisamente Camila Pitanga, quem, segundo relatos da época, incentivou Sutonani a quebrar o silêncio e formalizar a sua denúncia anos mais tarde, ligando as duas histórias por um fio direto de solidariedade entre atrizes. Só que a reação do próprio meio artístico ao caso não foi unânime. Em outubro de 2019, a atriz Lília Cabral saiu publicamente em defesa do colega em entrevista a um programa de rádio, afirmando não acreditar que o José Meer Real fosse o homem descrito nas denúncias.
O autor Agnaldo Silva, a atriz Bet Faria e o apresentador Silvio Santos também se posicionaram a favor do ator, evidenciando o quanto aquele racha dividiu opiniões dentro da própria classe artística. Mesmo perante a gravidade dos relatos, José Meer nunca mais voltou às telenovelas depois daquele episódio.
Segundo pessoas próximas, a decisão de se afastar definitivamente da televisão foi pessoal e não apenas consequência direta do afastamento imposto pela emissora. Hoje, já com mais de 70 anos, o ator leva uma vida reservada num sítio no interior do Rio de Janeiro, dando prioridade à rotina simples e a convivência familiar, com aparições públicas cada vez mais raras.
A Globo, por sua vez, emitiu uma nota oficial de desculpas diretamente a Sutonani, ainda em abril de 2017, afirmando lamentar que ela tivesse vivido aquela situação inaceitável dentro de um ambiente que a empresa dizia esforçar-se para manter respeitoso e declarando solidariedade para com o movimento das próprias funcionárias que vestiram as t-shirts de protesto.
Foi um dos raros momentos entre os três casos desta lista, em que a estação assumiu publicamente e por escrito uma postura de apoio explícito à vítima, ao invés do silêncio institucional que marcaria os casos seguintes. Já Sutonani só voltaria a falar publicamente sobre o próprio caso mais de um ano depois, em agosto de 2018, durante o evento Mulheres no Trabalho, promovido pela OAB do Rio de Janeiro.
Na ocasião, ela revelou nunca ter sido procurada em momento algum, nem pelo próprio José Meer, nem pelos seus advogados, e salientou que aquele episódio parecia ter deixado um legado prático no seio da própria indústria. Setes de filmagem passaram a exibir placas a informar que aquele não era um lugar de assédio. e uma cartilha de conduta chegou a ser elaborada e distribuída às produtoras do setor audiovisual, orientando como o tema deveria ser tratado e a quem as vítimas deveriam recorrer.
Hoje, a figurinista continua a atuar profissionalmente no mundo da moda, tendo integrado mais recentemente a equipa do estilista Antônio Frajado, responsável pelos looks internacionais da atriz Fernanda Torres, incluindo a prémio em que a atriz brasileira levou para casa o Globo de Ouro. Mas o pior ainda estava para vir.
Porque segundo os especialistas que analisaram aquele episódio na altura, o caso de José Meer expôs uma prática muito mais vasta e muito mais enraizada dentro da indústria do entretenimento brasileiro, o chamado teste do sofá, a concessão sob coação ou não, de favores sexuais em troca de posições e papéis dentro de produções de televisão e cinema.
E foi exatamente este tipo de prática que apareceria anos mais tarde no centro de um dos casos mais antigos e mais duradouros desta lista inteira, o caso do diretor Denis Carvalho, que vamos contar em detalhes mais à frente nesse vídeo. Antes disso, porém, é necessário contar a história do escândalo, que, sem dúvida, tornou-se o mais conhecido e o mais documentado entre os três.
O caso Márcio Meliam. Diferente de José Meer, que era um ator consagrado, Március Milem tornara-se ao longo dos anos 2010 o homem mais poderoso do humor da Rede Globo. como diretor do núcleo de humor da estação. Ele comandava não apenas o Zorra, herdeiro direto do clássico Zorra total, que estreara em 1999 e tornara-se, ao longo de mais de uma década, um verdadeiro fenómeno de audiência aos sábados à noite, mas também outros êxitos como Tá no ar a TV na TV e Isso a Globo não mostra.
Mas esse poder não veio do nada. Március Vinícius de Assis Meliam nasceu em Nilópolis, no Rio de Janeiro, a 8 de fevereiro de 1972, e é licenciado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Começou como autor e ator ainda nos anos 1990, ganhando aos 20 anos o Troféu de ator revelação em teatro infantil.
Fez participações pontuais em telenovelas como Mulheres Apaixonadas em 2003. e da cor do pecado, em 2004, antes de encontrar o verdadeiro caminho que o projetaria nacionalmente. Em 2004, ingressou no elenco do Zorra Total e formou, ao lado do humorista Leandro Rassum, a dupla Pedrão e Jorginho, no quadro Os Caras de Pau, que se tornaria um dos maiores sucessos do humor dominical da Globo entre 2010 e 2013, com comparações diretas aos trapalhões.
Foi este talento para escrever e realizar humor que chamou a atenção da cúpula da emissora, projetando-o poucos anos depois ao posto de diretor de todo o núcleo de humor da Rede Globo. E existe uma ironia amarga neste pormenor da trajetória de Mellion. Sob o comando dele, o Núcleo de Humor da Globo produziu precisamente programas como Isso a Globo não mostra, uma atração inteira dedicava a satirizar com humor ácido os próprios bastidores hipócritas da televisão brasileira e está no ar.
Elogiado pela crítica especializada por trazer um humor mais inteligente e mais socialmente consciente do que a geração anterior de humorísticos. Enquanto o público aplaudia este tipo de crítica humorística aos vícios da própria indústria, nos bastidores reais desse mesmo núcleo de humor, segundo as denúncias, se repetia exatamente o tipo de abuso de poder que aquele humor mais moderno dizia querer superar.
Foi dentro deste império de humor que uma comediante carioca chamada Dani Calabresa construiu a partir de 2015 uma das fases mais brilhantes da sua carreira. Licenciada em comunicação social, ela já vinha de uma trajetória sólida, tendo brilhado entre 2008 e 2012 na era de ouro da MTV Brasil, com programas como Furo MTV e Comédia MTV, antes de migrar para a Band e finalmente chegar à Globo.
Dentro do Zorra, ela viveria o auge absoluto da sua carreira, interpretando a nova dona catifunda na escolinha do professor Raimundo. comandando o quadro CBB durante 2 anos e sendo eleita a melhor humorista do programa em 2016 e novamente em 2019. Só que por detrás desta ascensão meteórica que o público via na ecrã, uma realidade completamente diferente vinha sendo vivida nos bastidores.
Em dezembro de 2019, Dani Calabresa tomou a decisão de levar o caso à área de compliance da Rede Globo, tornando-se a primeira mulher a formalizar para a alta cúpula da emissora Denúncias contra Március Meliam. A acusação inicial passou primeiro pelas mãos de Mónica Albuquerque, responsável pela área de desenvolvimento e acompanhamento artístico, que recomendou apenas terapia ao arguido, sem qualquer punição formal.
Só depois de uma segunda etapa, já com o caso nas mãos de Carlos Henrique Schroder, diretor de entretenimento da estação, uma investigação interna mais séria foi de facto aberta, mas o pior ainda estava por vir. À medida que esta investigação avançava, mais mulheres passaram a procurar o compliance da estação, relatando situações semelhantes, chegando a um total de, pelo menos, seis denunciantes formais dentro daquele processo interno.
Enquanto isso, uma auxiliar de Meli mobilizou parte da equipa para assinar uma carta de apoio ao diretor. Reunindo 55 assinaturas e 30 profissionais do próprio departamento de humor enviaram um e-mail formal manifestando insatisfação com a condução do caso. Em março de 2020, a Globo anunciou o afastamento de Melen por 4 meses, oficialmente para acompanhar um tratamento médico da própria filha no exterior, sem qualquer menção pública às denúncias de assédio.
Só que, segundo um documento confidencial obtido posteriormente pela imprensa, a investigação interna já tinha colhido relatos extremamente graves. Mulheres descreveram um padrão de comportamento abusivo, incluindo assédio moral, retaliação profissional contra quem resistia às investidas e episódios de assédio sexual direto, tanto verbal quanto físico, ocorridos inclusive num apartamento alugado pela própria Globo para funcionar como redação do núcleo de humor.
Em 14 de agosto de 2020, o contrato de Mailham com a Globo foi oficialmente encerrado. Mas mesmo nesse comunicado, a estação evitou associar publicamente a sua saída e às denúncias que a motivaram. Este tipo de descrição extrema, aliás, não é exceção dentro da Globo, é praticamente a regra. Segundo explicou em entrevista ao portal Universa, Carolina, executiva responsável pela área de compliance da emissora, entre 60 e 70% dos relatos recebidos pelo canal interno são feitos de forma anónima e a empresa normalmente evita comentar publicamente decisões
envolvendo funcionários denunciados, mantendo os casos a correr em sigilo. Segundo ela, o código de ética interno seria o verdadeiro balizador destas decisões e não cederia a pressões públicas, ainda que o próprio compliance reconheça não ter os mesmos poderes de investigação da polícia ou da justiça, ficando a empresa no limite apenas a opção de desligar o profissional envolvido.
foi exatamente este modelo de inquérito interno sigiloso, seguido de um comunicado genérico de encerramento de parceria em comum acordo que se repetiria quase palavra por palavra, tanto no caso Melim como anos depois noutro episódio de grande repercussão dentro da estação. O afastamento do O diretor Vinícius Coimbra, desligado por assédio moral depois de ter sido acusado de racismo por parte do elenco de uma das as suas novelas.
mostrando que o padrão de silêncio institucional não se limita apenas aos casos de assédio sexual. E foram só dois meses depois, em outubro de 2020, que o caso ganhou uma dimensão pública de verdade, quando a advogada Maira Cota se apresentou como representante legal das alegadas vítimas. Em dezembro desse mesmo ano, a revista Piauí publicou a reportagem que transformaria definitivamente aquele caso num dos maiores escândalos de assédio já expostos na televisão brasileira, ouvindo 43 pessoas entre vítimas e testemunhas, e revelando, entre outros
pormenores perturbadores, um áudio no qual Mellam troçava abertamente da postura de Dani calabresa depois de ela já havia denunciado. A repercussão gerou uma onda avaçaladora de solidariedade para com Dani Calabresa com manifestações públicas de nomes como Bruna Linsmeer, Letícia Colin, Maria Bop, Camila Pitanga e Fábio Porchá.
Mas Meli em vez de recuar, decidiu judicializar a sua defesa, chegando a apresentar publicamente mensagens trocado com calabresa ao longo dos anos, na tentativa de sustentar a sua versão de que a relação entre os dois tinha sido, segundo ele, amigável e recíproca. Fábio Porchá, que partilhava com Milem o programa Que história é esta? Porchá, foi além de uma simples manifestação de apoio.
Em entrevista ao jornal O Globo, em outubro de 2020, ele relatou publicamente que chegou a ligar para o próprio Meliem quando as primeiras denúncias surgiram, mas que, face ao volume e à gravidade dos relatos de múltiplas mulheres, optou por acreditar nas vítimas, afirmando que as as empresas já não podiam ser coniventes com este tipo de comportamento.
Ainda mais simbólico foi o posicionamento de Marcelo Adinet, O parceiro de longa data de Meli em produções humorísticas e ao mesmo tempo ex-marido de Dani Calabresa. Mesmo com esta proximidade profissional antiga, Anet posicionou-se publicamente ao lado das vítimas depois da reportagem da revista Piauí.
Um gesto que teve peso simbólico precisamente por vir de alguém tão próximo do arguido. Este tipo de posicionamento público vindo de dentro do próprio círculo profissional do acusado, reacas um debate que acompanha praticamente todo o grande escândalo de assédio no entretenimento. Até que ponto os colegas de trabalho, amigos de longa data e parceiros Os criativos devem posicionar-se publicamente antes de qualquer decisão judicial.
Para alguns setores da crítica, este tipo de manifestação é vista como parte de uma cultura de julgamento popular apressado, capaz de terminar carreiras antes mesmo de qualquer investigação formal ser concluída. Para outros, incluindo uma boa parte dos próprias vítimas ouvidas nestes três casos, é exatamente este tipo de posicionamento coletivo que dá força e credibilidade a denúncias que historicamente sempre foram tratadas com desconfiança e desdémo.
Segundo relatos posteriores da própria Dani Calabresa, este tipo de retaliação profissional não era subtil. Ela descreveu ter sido sistematicamente excluída de convites e oportunidades dentro da própria estação depois de resistir às investidas do então chefe numa espécie de castigo silencioso que, segundo ela, tornou-se o seu maior receio diário, o de estar aos poucos a ser apagada de um mercado no qual havia investiu mais de uma década de carreira construída com esforço próprio.
Foi só em agosto de 2023 que o Ministério Público do Rio de Janeiro formalizou acusação criminal contra Meliam, tornando-o oficialmente arguido por assédio sexual num processo que envolve três vítimas. Mas, ao mesmo tempo, a investigação especificamente relacionada à Dani Calabresa foi arquivado pela chamada prescrição punitiva, não porque as acusações tenham sido consideradas falsas, mas porque o prazo legal para processar aqueles factos específicos já havia esgotado.
Vale a pena entender melhor o que significa esta prescrição na prática, porque é um conceito jurídico que aparece repetidamente nos três casos dessa lista. No direito penal brasileiro, cada crime tem um prazo máximo dentro do qual o Estado pode processar formalmente o arguido, prazo aquele calculado, com base na pena máxima prevista para aquele concreto ilícito.
Decorrido este prazo, sem que a ação penal avançar de forma definitiva, a pretensão punitiva do Estado extingue-se, independentemente de quão graves ou bem documentadas sejam as acusações. Ou seja, não é um mecanismo pensado para avaliar se algo aconteceu ou não, mas sim um limite temporal criado para dar segurança jurídica ao sistema como um todo.
E é exatamente este mecanismo pensado de forma genérica para todo o tipo de crime, que se tornou um dos maiores obstáculos enfrentados pelas vítimas de assédio, que demoram frequentemente anos ou décadas para reunir coragem suficiente para denunciar. Entre as três vítimas, cujos casos efetivamente sustentaram a queixa formal contra Melhem, esteve a atriz Carol Portes, que já tinha relatado publicamente ter sido por ele assediada durante o período em que atuava como idealizador, ator e redator final do programa Tanoar, para além de Georgiana Goes e de uma terceira
funcionária que preferiu ter a identidade preservada no processo. E a A própria tramitação desta denúncia já nasceu rodeada de disputa. A defesa dos Mieliam chegou a levar ao Supremo Tribunal Federal um questionamento sobre a legitimidade da promotora responsável pelo caso Isabela Jurdan, alegando que a sua atuação feriria o chamado princípio do promotor natural.
O Ministério Público, em resposta negou qualquer irregularidade no processo de designação. Esta reclamação chegou a ficar parada sem decisão nas mãos do ministro Gilmar Mendes do Supremo Tribunal Federal durante semanas a fio. Pormenor que para os apoiantes das vítimas ilustrava mais uma camada da lentidão que rodeava todo o processo e que, para defesa de Meliam, representava uma questão processual legítima e ainda pendente de resposta definitiva pela mais alta instância do judiciário brasileiro.
E mais recentemente, em outubro de 2025, o processo sofreu uma reviravolta significativa. A terceira câmara criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro anulou a decisão da juíza responsável pelo caso, que havia determinado o prosseguimento do julgamento, concedendo um abeias corpus à defesa de Milhom.
Com isto, o processo-crime contra ele segue até hoje, paralisado dentro dos tribunais, mais de 6 anos depois da denúncia original. Enquanto isso, Dani Calabresa reconstruiu a própria vida. Em janeiro de 2025, anunciou publicamente a gravidez do primeiro filho, fruto do seu relacionamento com Richard Newman. E em fevereiro de 2026 assinou uma parceria estratégica com a Mind, agência de talentos fundada por Fátima Pissarra, ao lado de Pretagil, celebrando 20 anos de carreira com uma nova fase profissional.
Ao anunciar a chegada de Dani Calabresa ao portfólio da agência, a própria A fundadora Fátima Pissarra destacou publicamente a versatilidade, a credibilidade e o elevado potencial de engajamento da humorista. Um reconhecimento de mercado que dentro do contexto de tudo o que ela tinha enfrentado anos antes, carrega um peso simbólico especial.
mostra que é possível reconstruir uma carreira inteira depois de confrontar publicamente um dos homens mais poderosos da televisão brasileira, mesmo que esta reconstrução demore anos a se consolidar. Mas se pensa que estas duas histórias já mostram o dimensão do problema, ainda falta conhecer o terceiro caso desta lista, aquele que atravessa mais décadas do que qualquer outro e que teve um desfecho chocante há apenas alguns meses.
O nome deste terceiro caso é Denis Carvalho, um dos realizadores mais lendários da história da televisão brasileira, responsável pela reinventar telenovelas como Vale Tudo, Dancing Days e Fera Ferida, a trabalhar ao longo de décadas ao lado de autores consagrados como Gilberto Braga. Ao todo, Denis realizou mais de 40 telenovelas, miniséries e especiais ao longo da sua carreira dentro da Globo, para além de ter atuou como ator em diversas produções, incluindo o papel de Conde Drácula na novela O beijo do vampiro. O talento de
Denis Carvalho atrás das câmaras era, segundo os colegas de profissão, quase incomparável. Estreou-se como diretor em 1977 na novela Sem lenço, sem documento e ao longo da sua carreira dirigiu marcos absolutos da teledramaturgia brasileira, incluindo a icónica cena da morte de Odet Heutman em Vale Tudo em 1988, gravada no mesmo dia em que foi para o ar, precisamente para evitar qualquer fuga sobre quem seria o assassino da vilã mais odiada da década.
Comandou também produções como o Cravo e a Rosa, Sangue Bom e Rock Story, além de décadas antes ter sido galã de telenovelas como ídolo de pano. na vida pessoal, recolheu relacionamentos com diversas atrizes ao longo dos anos, incluindo Cristiane Torloni, Monique Alves e Tácia Camargo, para além dos já referidos casamentos com Bet Mendes e a longa união com Débora Evely, ao todo, Denis Carvalho foi casado seis vezes ao longo da vida e a sua história pessoal transporta também uma tragédia pouco recordada. Com
a atriz Cristiane Torloni, com quem foi casou entre 1977 e 1980, teve os gémeos Leonardo, que seguiu carreira de ator, e Guilherme, que faleceu ainda aos 12 anos de idade, num acidente doméstico, quando a própria mãe perdeu o controlo de uma carrinha dentro da garagem de casa. Outra ex-mulher, Monique Alves, com quem teve a filha Tainá, viria a falecer anos depois vítima de leucemia.
Ao todo, o diretor deixou quatro filhos e três netos. Nos últimos meses de vida, enfrentando já complicações graves de saúde, Dinis Carvalho foi ainda celebrado publicamente pela própria Globo. Em 2 de outubro de 2025, o seu nome foi um dos 15 escolhidos para integrar a recém- inaugurada Calçada da Fama dos Estúdios Globo, celebrando os 30 anos do complexo, ao lado de nomes como Fernanda Montenegro, Bet Faria e Tony Ramos.
Ele não poôde comparecer pessoalmente à cerimónia, já debilitado, mas havia participado meses antes de um episódio empolgante da série documental Tributo, exibido no Globo Play, reencontrando colegas de décadas de carreira como Renata Sorrá, Camila Pitanga, Glória Pires e Lília Cabral. Na ocasião, a A atriz Maluader resumiu com carinho a personalidade do realizador, lembrando como chegava sempre aos estúdios, chamando todos pelo nome, fazendo questão de se fazer notar por onde passava. Só que por detrás desta carreira
brilhante, o nome de Dinis Carvalho esteve associado ao longo de mais de uma década a episódios recorrentes de acusações, envolvendo precisamente aquela prática conhecida como teste do sofá. O primeiro caso público veio a público em dezembro de 2010, quando o ator gaúcho Neil Gomes interpôs uma ação judicial contra Denis Carvalho, alegando que o diretor lhe tinha prometido um papel na telenovela Insensato Coração, condicionando esta promessa a manutenção de uma relação entre os dois, que, segundo o próprio Neil Gomes relatou,
durou cerca de 2 anos. O ator chegou a divulgar um vídeo de quase 12 minutos no YouTube, relatando publicamente a situação, e afirmou possuir e-mails e extratos bancários capazes de comprovar a relação e as promessas feitas por Denis Carvalho, incluindo mensagens em que o realizador, segundo Neil Gomes, enfatizava repetidamente que ele conseguiria o papel na novela caso mantivesse relações sexuais com ele.
A justiça, no entanto, arquivou a ação movida por Neil Gomes, por considerar que não existiam elementos suficientes para para provar as acusações, e o processo passou a correr por determinação judicial em segredo de justiça, o que impediu na altura que o ator sequer mencionasse publicamente o nome de Denis Carvalho ou da própria estação.
Mesmo proibido judicialmente de citar nomes, Neil Gomes insistiu em alertar publicamente outros atores e figurantes que tentavam a sua sorte nos corredores do ProJQ, o complexo de estúdios da Globo no Rio de Janeiro, para que não caíssem, segundo as suas próprias palavras, em promessas vãs feitas por diretores em posições de poder.
foi uma tentativa, mesmo limitada pela justiça, de transformar a própria derrota judicial num alerta coletivo para a categoria, mas aquele não seria o único caso envolvendo o diretor. Mais de 10 anos depois, em dezembro de 2021, o novelista Thiago Santiago, autor da trilogia Os Mutantes, exibida pela Record, decidiu revelar numa transmissão em directo do canal DCMTV no YouTube que também tinha sido vítima de assédio por parte de Denis Carvalho, décadas antes, quando tinha apenas 19 anos e trabalhava como ator na Globo. Segundo o relato de
Thiago Santiago, o realizador tê-lo-ia levado para um canto isolado dos corredores dos estúdios, numa zona conhecida como Herbert Richard, e tentado beijá-lo à força. Thago afirmou ter recusado a investida de imediato, questionando o próprio diretor sobre o que estava a acontecer, mas destacou um pormenor curioso.
Mesmo depois de recusar o assédio, afirmou ter permanecido com o papel para o qual estava a fazer teste na altura e que posteriormente ele e Denis Carvalho voltaram a encontrar-se e conversar normalmente como se aquele episódio específico nunca tivesse acontecido. Ninguém imaginava que estes dois casos, separados por mais de 10 anos um do outro, seriam apenas parte uma história que teria um capítulo final completamente inesperado.
poucos anos depois, porque em 28 de Fevereiro de 2026 veio a notícia que encerrou de forma definitiva e irreversível qualquer possibilidade de um veredicto completo sobre estas acusações. Denis Carvalho morreu aos 78 anos internado no hospital Copa Star, no Rio de Janeiro. A causa da morte não foi divulgada publicamente, atendendo a um pedido expresso da própria família do realizador, Dinis Carvalho.
Ao longo da sua vida pessoal, também recolheu uma trajetória amorosa intensa, tendo sido casado com nomes como a atriz Bet Mendes e mantendo um longo relacionamento de 24 anos com a atriz Débora Evely até à separação dos dois em 2012. Reportagens sobre a sua vida também referem que ele foi, ao longo de um determinado período, um fumador compulsivo e que viveu de perto a era do consumo de cocaína que marcou os bastidores da televisão brasileira em décadas passadas, chegando a falar publicamente em entrevistas ao longo dos anos sobre a sua própria superação em
relação ao consumo de drogas ilícitas, embora tenha admitido nunca ter conseguido o mesmo sucesso. na tentativa de abandonar o cigarro. E é exatamente este o ponto mais perturbador de todo o este terceiro caso. Dinis Carvalho morreu sem que as acusações feitas contra ele, tanto por Nil Gomes como por Thiago Santiago, nunca tivessem sido julgadas de forma definitiva e conclusiva pela justiça brasileira.
No caso de Neil Gomes, tinha sido formalmente ilibado pela falta de provas suficientes reconhecidas judicialmente. Já a acusação de Thiago Santiago nunca chegou publicamente a transformar-se numa ação judicial formal, mantendo-se até ao momento da morte do diretor apenas como um relato público, sem uma investigação criminal ou civil conduzida até uma conclusão oficial.
E vale perceber porquê, precisamente entre 2017 e 2020, tantos casos como estes passaram a vir ao de cima ao mesmo tempo, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Foi exatamente em outubro de 2017 que as queixas contra o produtor de Hollywood, Harvey Weinstein, explodiram na imprensa americana, dando origem ao movimento que ficaria mundialmente conhecido como MITU.
Segundo dados levantados pela organização feminista Women’s Media Center, a cobertura da imprensa sobre casos de abuso sexual e assédio cresceu 52%, apenas no ano seguinte ao início desse movimento. E este efeito cascata não ficou restrito aos Estados Unidos. Ele atravessou fronteiras, chegou a diferentes indústrias do entretenimento em todo o mundo e criou, pela primeira vez em muitos países, um ambiente onde vítimas de assédio sentiram que as suas denúncias poderiam finalmente ser levadas a sério. No plano institucional
internacional, este movimento também gerou avanços jurídicos concretos. Em 2019, a Organização Internacional do Trabalho aprovou a Convenção 190, o primeiro tratado internacional, a reconhecer formalmente o direito de todas as pessoas a um mundo do trabalho livre de violência e assédio, incluindo explicitamente a violência e o assédio baseados no género.
A convenção entrou em vigor internacionalmente em junho de 2021 e já foi ratificada por mais de 30 países, incluindo vizinhos sul-americanos do Brasil, como Argentina, Chile, Equador, Peru e Uruguai. O Brasil até ao momento segue sem ratificar formalmente essa convenção específica, o que ajuda a explicar porque o arcabolso legal brasileiro para lidar com este tipo de casos ainda depende maioritariamente de leis penais gerais e de decisões internas de compliance corporativo, em vez de um quadro regulatório laboral específico e unificado para a violência e o assédio.
Foi exatamente dentro deste contexto internacional que o caso de José Meer veio a público, ainda em 2017, o mesmo ano do rastilho do MITU Global. E foi dentro desse mesmo clima de maior coragem coletiva que dois anos depois Dani Calabresa encontrou forças para denunciar Március Melhem e que Thiago Santiago em 2021 encontrou espaço para relatar publicamente o que tinha vivido décadas antes com Denis Carvalho.
Só que, segundo os especialistas internacionais que avaliaram o impacto do ME2 ao longo dos anos seguintes, os resultados práticos deste movimento variaram enormemente, dependendo do país e do setor. Scott Berkovitz, presidente da organização americana Rain, dedicada ao combate à violência sexual, chegou a declarar que, embora a compreensão pública sobre o tema tenha melhorado, não havia clareza sobre se este aumento de consciência já se tinha traduzido, de facto, numa redução real dos casos de violência e assédio sexual. E é
exatamente este ceticismo que os três casos brasileiros que acabou de conhecer parecem confirmar. Mesmo depois de anos de exposição pública, de reportagens detalhadas e de pressão coletiva das próprias funcionárias das emissoras, nenhum dos três homens daquela lista chegou a cumprir até hoje uma condenação criminal definitiva e transitada em julgado.
Você consegue perceber o padrão que se repete de forma quase idêntica nos três casos que V. acabou de conhecer. Homens em posições de extremo poder dentro da mesma emissora. promessas de oportunidades profissionais ou o medo de as perder, utilizadas como instrumento de pressão. vítimas que têm de esperar anos, às vezes décadas, para conseguir romper o silêncio publicamente, e processos judiciais que, mesmo depois de anos de tramitação, terminam frequentemente sem uma condenação efetiva, seja por falta de provas reconhecidas pela justiça,
seja pela prescrição do próprio tempo, seja, como no caso mais recente, pela morte do próprio arguido, antes que qualquer veredicto final pudesse ser alcançado. E existe ainda uma tensão de fundo que atravessa os três casos e que vale a pena parar para refletir. A diferença entre o juízo da opinião pública e o julgamento formal da justiça.
Nos três casos, foi a pressão pública, a repercussão na imprensa e a mobilização nas redes sociais, que geraram consequências profissionais imediatas, suspensões, despedimentos, o fim de carreiras inteiras, muito antes de qualquer decisão judicial definitiva. Isto levanta uma questão desconfortável, mas necessária. Será que isto significa que a sociedade está julgando demasiado rápido sem o devido processo legal? Ou será que esta reação pública rápida é, na prática, a única forma de responsabilização que efetivamente funciona? Justamente porque
a justiça formal, por si só, tem-se mostrado lenta, prescritível e vulnerável a revira-voltas processuais, como ficou patente no próprio caso Melem. Três décadas diferentes, três hierarquias de poder diferentes dentro da mesma emissora. Um ator consagrado, um encenador de humor e um realizador de telenovelas lendário.
E, no entanto, o mesmo desfecho se repetindo. Silêncio institucional prolongado, investigações internas que raramente resultam em punições públicas e transparentes, e processos judiciais que se arrastam durante anos sem trazer a sensação de justiça que as vítimas procuravam ao quebrar o silêncio. que há um pormenor final que amarra os três casos de uma forma que talvez ainda não tinha percebido.
Em todos eles, foi a mobilização coletiva e não apenas a coragem individual de uma só pessoa que realmente moveu o ponteiro. O caso José Meer foram as próprias funcionárias da Globo, organizados primeiro num grupo de WhatsApp e depois nas redes sociais, que transformaram uma denúncia isolada na campanha Mexeu com Uma Mexeu Comunes como Bruna Marquezini, Débora Nascimento e Thís Araújo.
Marcius Melhem foi a soma de pelo menos seis denunciantes diferentes, mais 43 pessoas ouvidas pela revista Piauí, que transformou um caso individual num escândalo nacional impossível de ser ignorado. e no caso Denis Carvalho, foram dois os relatos separados por mais de 10 anos e por diferentes gerações de vítimas, que juntos formaram um padrão de comportamento que nenhum dos dois casos sozinho, seria capaz de comprovar com a mesma força.
Olhando para os três destinos lado a lado, o contraste é quase cinematográfico. José Meyer, aos 76 anos, vive isolado num sítio no interior do Rio, longe de qualquer plateau de filmagens, numa espécie de reforma forçada que ele próprio escolheu tornar definitiva. Márcio Meliam, aos 54 anos, continua como arguido formal perante a justiça, mas com o processo travado há meses, numa espécie de limbo jurídico que não o condena, mas também não o absolve.
E Denis Carvalho, o mais velho e o mais premiado dos três, já não está mais entre nós para responder por nada, tendo levado consigo para debaixo da terra qualquer possibilidade de um veredicto final sobre o próprio nome. E existe um número recolhido pelo Instituto Patrícia Galvão, em parceria com o Instituto Locomotiva, que ajuda a perceber porque quebrar o silêncio, mesmo coletivamente, nem sempre é suficiente.
76% das As mulheres brasileiras entrevistadas nesse inquérito afirmaram já ter sido vítimas de algum tipo de violência dentro do próprio ambiente de trabalho. E entre as que efetivamente denunciaram formalmente aos gestores da própria empresa, apenas 34% viram a empresa ouvir o relato e punir o agressor. Em 12% dos casos, a empresa nem sequer chegou a ouvir a vítima e tem um dado ainda mais revelador sobre o próprio sistema de justiça brasileiro.
Segundo dados do Tribunal Superior do Trabalho, depois que a reforma laboral entrou em vigor em novembro de 2017, por coincidência o mesmo ano da denúncia contra José Meer. O número de ações judiciais do trabalho, mencionando assédio sexual desceu 68%. Não porque o assédio tenha diminuído nesse mesmo ritmo, mas porque as as alterações nas regras processuais tornaram mais arriscado e mais caro para trabalhadoras e trabalhadores procuram a justiça formalmente.
Ou seja, bem no momento em que o Brasil vivia a sua onda mais forte de coragem coletiva contra o assédio, o próprio sistema jurídico tornava-se, na prática mais difícil de aceder. Perante tudo o que você acabou de conhecer, torna-se difícil não se perguntar: será que a indústria do O entretenimento brasileiro realmente mudou de forma estrutural? Depois de todos estes escândalos ou estes casos continuam a repetir-se hoje em dia, apenas ainda não expostos publicamente? Acredita que a morte de Denis Carvalho, sem qualquer condenação
definitiva, representa uma falha grave do sistema de justiça em lidar com este tipo de acusação dentro de prazos razoáveis? E pensando nos três casos juntos, acha que o teste do sofá e outras formas de assédio profissional continuam a ser até hoje uma prática mais comum do que a maioria das pessoas gostaria de admitir dentro do mercado de televisão e cinema brasileiro? Deixa a a sua resposta nos comentários, porque esta é uma daquelas histórias que provam que, por detrás de décadas de entretenimento e telenovelas que marcaram
gerações inteiras de brasileiros, existiu durante muito tempo um sistema de silêncio que protegeu mais os poderosos do que as vítimas. Se esse vídeo chocou-te ou fez-te refletir, deixa o teu like, subscreve o canal para mais histórias como esta e já deixa marcado para o próximo vídeo, porque tem muito mais coisa importante vindo por aí.
Um forte abraço e até ao próximo vídeo. Fontes Consultadas. Revista Piauí, Metrópoles, Colunas de Léo Dias e Guilherme Amado, Terra, O Povo, Folha de São Paulo, El País Brasil, Instituto Humanitas Unicinos. Portal Making Off. Isto é, gente. CNN Brasil, Diário do Centro do Mundo, RD1, SRZD, Público de Brasil, Wikipédia, Fashion Bubbles, Trumcast e Registos Públicos sobre os processos judiciais envolvendo José Meer, Március Mellem e Dinis Carvalho.
Jo.