Tem uma imagem que todo o brasileiro guarda na cabeça. O jogador de futebol chegando de carro importado ao portão de um palacete em condomínio fechado. Piscina no interior, churrasqueira, o cachorrão a correr no relvado. A gente viu isso a vida inteira na capa de revista, no programa de domingo, nesse reportagem que entrava na mansão do craque e mostrava a garagem apinhada de automóvel do ano.
E o pensamento era sempre o mesmo. Este gajo aí tá feito para o resto da vida. Só que a bola deixa de rolar e quando ela para, a câmara vai-se embora, o patrocínio desaparece, o telefone deixa de tocar e aquele portão eletrónico do casarão muitas vezes já nem é dele. É aí que começa a dar história que ninguém filma, a parte que a revista nunca mostrou.
Neste vídeo, vamos fazer o caminho inverso. Em vez de entrar na mansão do auge, vamos bater à porta de onde esses jogadores vivem hoje. E prepara o coração, porque tem de tudo. Há craque que trocou o palacete do condomínio por uma cela no interior de São Paulo. Tem campeão do mundo. Do mundo? Isso mesmo que você ouviu, que comprou o imóvel a vida inteiro e hoje ergue um puxadinho no quintal da casa de um amigo porque não não sobrou nenhum no nome dele.
E tem lateral que já vestiu a amarelinha da seleção e foi parar ao passeio de uma cidade do outro lado do oceano, apanhando roupa velha no lixo para vender e não passar fome. Todos eles um dia tiveram tudo. São nomes que conhece, alguns viu jogar, gritou golo, guardou cromo, comprou a camisola com o número nas costas.
A gente vai contar como cada um subiu até ao topo e, principalmente, como cada um foi parar exatamente onde está hoje, da forma como a vida escreveu, sem tirar nem pôr. E a gente começa por um nome que já ganhou num só mês mais do que muita gente honesta, junta numa vida inteira de trabalho e que hoje acorda todos os dias à mesma hora, na mesma fila, da mesma refeição que qualquer outro recluso. Robson de Sousa.
Conhece-o como Robinho, o menino de São Vicente ali do litoral de São Paulo, que aprendeu a driblar jogando futsal no campo de cimento. Foi essa escola do salão que lhe deu aquelas pedaladas que faziam o defesa se enrolar sozinho e cair. No início dos anos 2000, explodiu no Santos junto com o Diego naquela geração que ficou conhecidos como os Meninos da Vila.
Bicampeão brasileiro pelo Santos. o O Brasil inteiro apaixonado e o Pelé, o próprio rei, apontava para ele como o herdeiro. Depois chegou o dinheiro grande. Em 2005, o Real Madrid pagou 24 milhões de euros para o tirar do Santos. Para se ter ideia, na cotação de hoje, que passa de R50 milhões de reais num único jogador naquela época.
Robinho chegou à Espanha e recebeu a camisola 10, a mesma camisola que tinha sido do Figo, uma das maiores estrelas do mundo, e não parou por aí. Depois veio o Manchester City na Inglaterra por um valor que na altura era recorde do futebol britânico. E lá na frente a jogar na China ele bateu o maior salário da carreira, mais de 35 milhões deais por mês.
Isso mesmo que ouviu, 35 milhões todos os meses caindo na conta. Guarda esse número porque ele vai voltar daqui a pouco de uma forma que não espera. Só que em 2013, quando jogava em Itália, aconteceu o episódio que mudou tudo. Uma noite numa discoteca de Milão, terminou num processo-crime. A justiça italiana julgou o caso e condenou o Robinho a 9 anos de prisão.

Recorreu, lutou nos tribunais por quase uma década e em 2022 a última ª instância de Itália confirmou a condenação. Não tinha mais para onde correr. Agora repara no tamanho da queda. O mesmo homem que ganhou 3 milhões por mês na China, em 2020 voltou a pro Santos a ganhar R$.500. R por mês. R, pouco mais do que um salário mínimo.
E mesmo assim, os patrocinadores do clube ameaçaram cair fora. E em seis dias o Santos desfez o contrato, mas o mais pesado ainda estava para vir. Como a lei brasileira não entrega cidadão nascido aqui para cumprir pena fora, a justiça do Brasil assumiu a conta. O caso subiu até ao Supremo Tribunal, a instância mais elevada do país, e o Supremo decidiu, por nove votos a dois, que o Robinho ia cumprir a pena aqui mesmo.
Em março de 2024, foi detido e é aqui que a gente chega, em onde ele vive hoje. Nada de mansão em condomínio, nada de garagem com carro importado. Robinho hoje está atrás das grades, num centro de ressocialização no interior de São Paulo, na cidade de Limeira. A rotina dele é a mesma de qualquer outro recluso.
Acorda à hora que lhe mandam, come na fila, no mesmo prato, na mesma comida que os outros. Todos são tratados da mesma forma. Não sou tratado de forma diferente porque fui jogador de futebol. Pelo contrário, acho que o tratamento aqui é igual para todos os reeducos aqui. Nunca teve qualquer tipo de briga.
Eu estou aqui há um ano e meio, nunca vi qualquer tipo de briga. Fez lá um curso de electrónica básica dentro. Entrou num clube de leitura da unidade. Ele próprio já disse que não tem tratamento diferente de ninguém. O horário em que dorme, a comida é toda igual pros demais. O homem que um dia vestiu a 10 do Real Madrid, hoje é mais um número numa unidade prisional do interior paulista.
E se a história do Robinho já aperta o peito, segura-o com força, porque o próximo nome que vamos visitar foi capitão de uma das maiores equipas do Brasil. E a sua história envolve uma mulher que até hoje nunca foi encontrada. Se acompanhava o futebol no final dos anos 2000, este nome você conhece bem. Bruno Fernandes, o goleirão, titular e capitão do Flamengo naquela equipa que faturou o Campeonato Brasileiro de 2009, a equipa do Adriano Imperador, da claque a encher o Maracanã, da festa rubro negra que parou o Rio de Janeiro. Bruno era considerado
um dos melhores guarda-redes do país. Gente séria, falava em seleção brasileira. Ele tinha um pouco mais de 25 anos no auge da sua carreira, capitão de um dos maiores clubes do mundo. O céu era o limite e depois a vida dele tornou-se uma história que o Brasil inteiro ia acompanhar. Mas não pelo futebol.
Bruno envolveu-se com uma rapariga chamada Elisa Samúdio. Desta relação nasceu um filho, o Bruninho, no início de 2010. Só que a relação entre os dois tornou-se uma disputa. E o que aconteceu depois é daquelas coisas que quando saiu no jornal parou o país. Em junho de 2010, A Elisa desapareceu. A investigação salientou que ela tinha sido levada para um sítio ligado ao Bruno, na cidade de Esmeraldas, em Minas Gerais.
E aqui entra o pormenor que até hoje, mais de 15 anos depois, ainda choca. O corpo dela nunca foi encontrado, nunca. A justiça reuniu as provas, montou o caso e a conclusão foi de que Elisa tinha sido morta. Bruno foi levado a Júri e condenado. A pena consolidada passou de 20 anos de prisão por um conjunto de crimes muito graves.
Da noite para o dia, o capitão do Flamengo perdeu tudo. Contrato, patrocínio, carreira, liberdade. O guarda-redes que ia para a seleção tornou-se um dos nomes mais comentados do noticiário policial do país. Mas essa história tem uma parte mais recente que muita gente não acompanhou. Ao longo dos anos, Bruno foi progredindo na pena, saindo gradualmente do regime fechado.
Tentou de tudo para voltar a jogar. Passou por clubes pequenos, equipas de cidade do interior, tentando sempre reencontrar aquele guarda-redes que um dia foi e chegou a conseguir a liberdade condicional, aquele benefício em que a pessoa cumpre o resto da pena em liberdade com regras. Só que quatro dias depois de sair, viajou para outro estado, sem autorização da justiça, para jogar por um clubinho lá longe.
Resultado, perdeu o benefício. Ficou fugido durante um tempo e acabou preso de novo. E onde é que ele vivia nesse meio tempo de liberdade? Nada de mansões, nada do brilho do auge. O Bruno vivia numa casa numa cidade litorânia do Rio de Janeiro, em Rio das Ostras, com a obrigação de se apresentar à justiça de três em três meses.
Uma vida vigiada, de liberdade curta, sempre com um pé na cadeia. E do outro lado desta história tem uma criança, o Bruninho, hoje já adolescente, que cresceu longe do pai, a viver com a avó materna, a mãe da Elisa, uma senhora que até hoje não conseguiu enterrar a própria filha, porque como se recorda, o corpo nunca apareceu.
Do capitão que levantava a taça no Maracanã para um homem que vive entre a liberdade condicional e a cela. E olhe que a próxima história é bem diferente desta, porque o próximo crack não caiu por crime nenhum. Ele fez a Alemanha inteira gritar o seu nome e mesmo assim foi parar atrás das grades por um motivo que não imagina. Agora deixa-me apresentar-te um cara que talvez não se lembre pelo nome de batismo, mas lembra-se logo do apelido.
Marcelinho Paraíba, natural de Campina Grande, lá no coração da Paraíba, um menino do Nordeste que começou por bater bola no Campinense. Desses talentos de abençoado pé esquerdo, que batia um livre como quem coloca a bola na mão do guarda-redes, só que do lado errado para ele. Marcelinho brilhou no São Paulo no final dos anos 90 e houve um dia que marcou a vida dele.
marcou um golo, tirou a camisola e por baixo tinha outra escrita a 100% Paraíba. Aquele nordestino com orgulho da terra a mostrar-se para o Brasil inteiro. Foi aí que o apelido colou de vez. Só que o auge dele não foi aqui no Brasil, foi do outro lado do mundo. O Marcelinho foi para a Alemanha, para a Erta Berlim e aí tornou-se ídolo de verdade.
Não ídolo de uma época, ídolo de placa, de história. Foram quase 80 golos com aquela camisa. E em 2004 para 2005, foi eleito o melhor jogador de toda a a Bundesliga, o campeonato alemão. Para se ter noção do tamanho disto, o melhor de um dos campeonatos mais fortes do planeta num país onde o futebol é levado a sério igual religião, era um menino de Campina Grande.
O Brasil mal acompanhava, mas na Alemanha era rei. Guarda esta imagem do rei de Berlim, porque o que vem agora é o oposto exato deste. O tempo passou, a carreira foi caindo de nível, os clubes foram ficando cada vez mais pequenos. E aí, quando já tinha 43 anos, ainda jogando por uma equipa pequena lá da Paraíba, o 13, aconteceu o que ninguém esperava para um ídolo daquele tamanho.
Marcelinho foi detido. E vejam o motivo, porque não é o que estás a imaginar. Não foi uma briga, não foi uma confusão, não foi nada disso. Foi preso por atraso no pagamento de pensão de alimentos. ficou 30 dias detido numa prisão na própria Campina Grande, a cidade onde tinha nascido e um dia tinha sido a maior estrela, o mesmo homem que a Alemanha inteira aplaudiu de pé, fechado numa cela na terra natal por causa de pensão atrasada.
E como se não bastasse, nesse mesmo período a saúde deu sinal. Sofreu uma isquemia, um problema grave de circulação e foi parar internado. Mas onde é que anda o Marcelinho hoje? Diferente dos outros que já vimos, este aqui não acabou nem preso nem na miséria. Marcelinho pendurou as chuteiras e virou treinador.
Só que a vida de treinador dele também é de luta. Comanda clubes pequenos, equipas de cidade do interior do Nordeste, sempre a correr atrás. Teve uma altura em que chegou a dirigir dois clubes quase ao mesmo tempo, de tão apertada que era a rotina. Ele vive na Paraíba, perto das raízes, e ainda alimenta um sonho, voltar um dia ao Erta Berlim, aquele clube que o amade.
Nas suas palavras, nem que seja para trabalhar lá em baixo na base. O rei de Berlim ainda sonha em voltar pro castelo. E do craque paraibano, a gente vai para o próximo nome e aqui prepara o coração de verdade, porque o próximo é aquele momento do vídeo que vai querer parar tudo para ouvir. é a história de um campeão do mundo que trocou e pedaço mais sagrado da história dele por um vício.
Agora, presta atenção nesta, porque esta é daquelas histórias que vai querer parar tudo para ouvir até ao fim. Paulo César Lima. O Brasil conheceu-o como Paulo César Caju. E para perceber o tamanho da queda, é preciso entender primeiro o tamanho da glória. Esse homem nasceu numa favela ali do Botafogo, no Rio, filho de um pai que nunca chegou a conhecer.
Criado pela família de um treinador que abriu a porta de casa para ele, um menino pobre da comunidade dos anos 50 que só tinha a bola nos pés e um talento que Deus não dá a qualquer um. E que talento! Com 20 anos de idade, o Caju era campeão do mundo. Isso mesmo. Fez parte da seleção brasileira de 1970, aquela equipa do México que muita gente até hoje considera o melhor de todos os tempos.
Pelé, Tostão, Gerson, Rivelino, O Jairzinho e o miúdo da favela ali no meio com a estrela na camisola. 4 anos depois, em 1974, foi titular da seleção na Taça da Alemanha, foi ídolo do Botafogo, do Flamengo e atravessou o oceano para brilhar em França, no Olimpique de Marsha, onde tornou-se o queridinho da torcida e chegou a receber a Legião de Honra, uma das maiores condecorações do país.
E teve um pormenor que fazia dele único. Ele pintava o cabelo de vermelho numa época em que ninguém o fazia. como forma de apoiar um movimento negro americano, um homem à frente do seu tempo. Guarda esta imagem, o campeão do mundo condecorado em França, cabelo ruivo, ídolo dos dois lados do Atlântico. Porque agora a história vira.
Quando a bola deixou de rolar, o caju caiu num buraco que durou 15 anos. Álcool e drogas. E não foi pouco. A gente tá falando de um homem que chegou a beber três garrafas de whisky numa só noite para conseguir dormir. Ele vendeu dois apartamentos e torrou tudo. Estima-se que colocou algo em torno dos 600.000 000 no vício.
Em valores de hoje, mais de R$ 3 milhões deais transformados em fumo. Mas há uma parte desta história que quando ouve aperta o coração de qualquer brasileiro. O Paulo César Caju vendeu a medalha do tricampeonato mundial, a medalha do Mundial de 1970, aquele pedaço de metal que representa o equipa mais sagrada da história do futebol brasileiro, o orgulho de um país inteiro.
Ele vendeu, e não só ela, vendeu também uma miniatura em ouro da taça Jules Rimet, o troféu que o Brasil conquistou de vez nesse mundial. Um homem que estava dentro daquele grupo abençoado precisou de se desfazer do símbolo maior da própria glória para sustentar o vício. Isso mesmo que você ouviu. O campeão do mundo vendeu a medalha do título para comprar droga.
Mas calma, porque esta história, diferente de tantas outras, tem luz no fim. Aí, pela viragem dos anos 2000, uma médica cardiologista olhou nos olhos dele e disse a verdade, sem rodeios. Se continuasse daquela maneira, ele ia morrer e ia ser rápido. Alguma coisa despertou. Um amigo, o também ex-jogador Cláudio Adão, abriu a porta de casa e abrigou o Caju durante quase um ano, ajudando-o a se reerguer.
E o homem conseguiu, parou, se recuperou, conheceu uma médica dentista, se casou, reconstruiu a vida do zero e é aí que chegamos em como ele vive hoje. Nada de cela, nada de miséria, nada de calçada. O Paulo César Caju, hoje com mais de 70 anos, é um homem sóbrio há mais de duas décadas, longe do luxo e da boémia que quase o mataram.
Vive uma vida simples e digna, dividido entre S. Paulo e a tranquilidade que faltou na juventude. Tornou-se comentador, virou orador e olha que bonito, ele roda escolas e até o Senado a dar uma palestra contra a droga, contando a própria história para que outro miúdo não caia no mesmo buraco. O campeão do mundo que vendeu a medalha do título hoje usa a maior derrota da sua vida para salvar os outros.
E se o Caju conseguiu se reerguer, o nome seguinte dessa lista é o Retrato do Talento, que se perdeu no caminho e nunca mais encontrou o regresso. Um menino que o Botafogo apresentou como a próxima grande estrela do Brasil e que hoje, aos poucos, tornou-se um nome que já quase ninguém se lembra. Vem comigo. Este aqui é o retrato de um talento que passou demasiado depressa, tão depressa que muita gente que assistiu a futebol nestes últimos anos mal teve tempo de fixar o nome dele.
Jobson, um rapaz nascido lá em Conceição do Araguaia, no interior do Pará, daquele Brasil profundo, longínquo dos grandes centros, onde o futebol é quase a única porta de saída que um miúdo pobre vê na frente. E o Jobson abriu essa porta com tudo. Ele apareceu no Botafogo lá para 2009 e a claque apaixonou-se na hora. Era forte, era rápido, tinha drible, tinha aquela alegria de quem joga como se ainda estivesse na vársia.
Era o tipo de jogador que se levantava da cadeira. O O Botafogo apresentou-o como a próxima grande jóia, o nome que ia representar o clube durante muitos anos. tinha até acertado os valores para ir jogar no Cruzeiro, um dos gigantes do país. O futuro batia à porta, mas depois tudo começou a desandar. Veio um exame de doping e não era daqueles casos de medicamento para a gripe. Deu cocaína.
Depois ele próprio admitiu que tinha ido mais longe, que tinha usado o craque. O talento que ia brilhar no Cruzeiro foi suspenso. Começou a rodar emprestado de um clube em clube e a estrela, que mal tinha acendido, já começava a apagar-se. E olha, o fundo do poço ainda estava longe. Em 2013, o Jobson recebeu uma proposta para jogar do outro lado do mundo, na Arábia Saudita.
Podia ter sido a reviravolta, o grande dinheiro, a redenção, só que tornou-se um pesadelo. Ele acabou abandonado por lá, sem receber, com relatos de que nem tinha dinheiro para pagar o hotel onde estava e com o passaporte retido pelo próprio clube, ou seja, preso num país estrangeiro, sem poder, nem regressar a casa. um miúdo do interior do Pará, sozinho, largado no meio do deserto.
E os anos seguintes trouxeram passagens pela polícia e até uma tragédia no trânsito, um acidente que tirou a vida a um homem. Mas e hoje? Onde é que anda este menino que era para ser craque? E aqui, olha, a história do Jobson tem um pormenorz importante, porque ao contrário de tantos rumores que circulam por aí, ele está vivo e continua a fazer a única coisa que sempre soube fazer, jogar à bola.
Só que bem longe dos olofotes. O Jobson corre o Brasil a jogar por clubes pequenos, equipas amadoras e regionais, daquelas de cidade que a maioria das pessoas nunca ouviu falar. Passou por equipas do Paraná do Mato Grosso de Santa Catarina, de canto em canto, sem património, sem fortuna, sem casa de craque, vivendo do futebol mais simples que existe, aquele que mal paga as contas.
Teve até uma época recente que ele engordou uns 20 kg por causa de uma lesão e, no entanto, continuou a insistir, continuou a querer jogar, porque no final de contas é só isto que lhe sobrou, a bola nos pés. Mesmo que numa vársia longe de tudo, do talento que se perdeu no caminho, vamos agora para o extremo oposto, porque o nome seguinte nunca chegou perto de uma droga, nunca se meteu em confusão nenhuma, foi um dos maiores ídolos que o São Paulo já teve, campeão de tudo o que dava para ser campeão. E, mesmo assim, hoje vive
num puxadinho no quintal da casa de um amigo. Como é que um campeão do mundo chega a esse ponto? sem nunca ter feito nada de errado. É o que vai ver agora. Agora presta atenção a este nome, porque a história dele é diferente da todas as outras que viu até aqui. Müller, Luís António Corrêa da Costa. E vejam o pormenor que muda tudo logo de cara.

Este homem nunca cheirou uma droga na vida, nunca deu uma passa num cigarro, nunca se meteu em confusão nenhuma e mesmo assim hoje perdeu tudo. Segura esta história até ao fim que vai entender. Miller nasceu lá no Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, numa família pobre e cheia de filhos, daquelas casas onde a comida tinha de ser dividida no talo.
E todo o mundo cedo aprendia que na vida nada vinha de graça. O apelido de Müller ele nem escolheu, herdou do irmão. E daquela origem simples do interior, o menino foi crescendo, driblando até bater à porta do São Paulo ainda adolescente. E o que fez no São Paulo, poucos o fizeram. Miller tornou-se um dos maiores ídolos da história do clube.
Fez parte daquele timaço são paulino do início dos anos 90, que ganhou tudo o que lhe pôs à frente. Bicampeão da Libertadores, a taça mais cobiçada da América do Sul e bicampeão do mundo em 92 e 93, batendo os europeus de igual para igual. E houve um golo dele que ficou marcado na memória de todo o são-paulino.
Na final contra o Milan, o equipa mais poderosa do planeta na época. Mandou uma de costas para a baliza, uma pintura, o golo de um título mundial. Foram mais de 150 golos com aquela camisa. E claro, vestiu a amarelinha em três Campeonatos do Mundo e faz parte daquele grupo que todo o Brasil celebrou em 1994 o tetra campeonato.
O tetra que acabou com 24 anos de espera. Ele é tetra campeão do mundo, guarda esse tamanho todo. Campeão do mundo pela seleção, campeão do mundo pelo clube, ídolo eterno do São Paulo. Agora vem a parte que ninguém imaginava. Quando o Müller mesmo foi contar a sua própria história, ele não escondeu de ninguém. Comprou vários imobiliário ao longo da vida, foi juntando, foi investindo e foi perdendo, perdendo, perdendo, perdendo.
Até que nas palavras dele próprio, hoje não sobrou nenhum. Nenhum. O tetracampeão do mundo assumiu com todas as letras que não tem carro, não tem sequer plano de saúde e que as escolhas financeiras que fez foram as piores possíveis. sem vício, sem escalo, sem crime, só decisão errada atrás de decisão errada com o dinheiro que ganhou em 20 anos de carreira.
E aí você pergunta: “Mas onde é que mora um campeão do mundo que perdeu todos os imóveis? Pois é aqui que a história aperta o peito. O Müller vive hoje na casa de um amigo, o pavão ali no Morumbi, em São Paulo. E não é figura de linguagem, não. Ele contou que estava até a levantar um puxadinho no quintal da casa do amigo para ter o cantinho dele.
Um homem que é tetra campeão do mundo, ídolo máximo de um dos maiores clubes do país, erguendo um puxadinho no fundo do quintal alheio. Enquanto isso, os três filhos dele vivem no apartamento próprio deles. O pai fez questão de garantir o teto dos filhos, mesmo tendo ficado sem o próprio. Mas presta atenção naquilo que ele disse, porque é isso que faz do Müller um homem diferente.
Ele não reclama, não chores o leite derramado não fica a lamentar o passado. Ele olhou para trás e falou com a maior tranquilidade do mundo que desfrutou de tudo o que tinha para desfrutar e que agora acabou e está tudo bem. Hoje trabalha como comentador de futebol na televisão, percorre o país dando uma palestra e ganha a vida com a única fortuna que ninguém consegue retirar dele, a história que ele construiu dentro do campo.
E se o Müller, mesmo perdendo tudo, ainda encontrou a paz, o último nome deste vídeo é o que mais te vai tocar, porque é a história de um homem que vestiu a camisola da seleção brasileira, foi um ídolo de multidão e mesmo assim foi parar à passeio de uma cidade do outro lado do oceano, apanhando roupa no lixo para sobreviver.
E a forma como ele foi encontrado por puro acaso é de arrepiar. Não saias daí. E agora para fechar a história que é talvez a mais forte de todas. Segura-te bem, Perivaldo Lúcio Dantas. Se é do tempo do futebol de verdade, do final dos anos 70 e início dos 80, este nome desperta ali alguma coisa dentro.
Perivaldo era lateral direito, um menino nascido em Itabuna, lá no sul da Baía. Começou por bater bola na terra, subiu ao Bahia, brilhou e foi parar ao Botafogo do Rio de Janeiro, onde viveu os melhores anos da carreira, entre 70 e 8 e 82. E olhem que coisa linda, a adeptos gostavam tanto dele, mas tanto, que inventou um cântico.
Cantava assim nas bancadas. Não tem Leandro nem Edevaldo. O lateral da seleção é Perivaldo. Ele era tão bom que os adeptos colocava-o na frente de craques consagrados na disputa por um lugar na seleção brasileira. E houve um lance que ficou para a história num jogo da seleção contra a Checoslováquia no Morumbi lotado.
A bola já a entrar, golo praticamente feito e o Perivaldo tira de bicicleta em cima da linha salvando o Brasil. O estádio inteiro veio abaixo. Era esse o tamanho do homem. Mas o Perivaldo tinha gosto pelas coisas boas da vida. Gostava de joia, de roupa cara, de carro bonito. Era vaidoso, gastava com estilo, aproveitava o dinheiro que o futebol dava.
E enquanto a bola rolava e o salário descia, estava tudo certo. O problema é que a bola para todos uma hora para de rolar. E foi aí que a história virou. No fim dos anos 80, o Perivaldo foi tentar a sorte em Portugal atrás de mais uma oportunidade no futebol, só que não resultou. As portas foram fechando, o dinheiro guardado foi minguando e o homem que já tinha sido ídolo no Morumbi foi ter de fazer tudo para sobreviver do outro lado do oceano.
Trabalhou de cozinheiro num hotel, vendeu sandes na rua, pegou forte na construção civil e mesmo assim o chão foi desaparecendo debaixo dos pés dele. Agora prepara o coração porque essa parte dói. O Perivaldo, o lateral que os adeptos do Botafogo idolatravam, que salvou o golo de bicicleta pela seleção brasileira no Morumbi, foi viver na rua. Isso mesmo que ouviu.
Ele foi parar aos passeios e aos albergues de Lisboa, dormindo onde dava, e apanhava roupa velha deitada no lixo para tentar vender numa feira da cidade e juntar uns trocados para comer. O milionário do o futebol virou mendigo numa terra estrangeira, a milhares de quilómetros de casa, sem ninguém por perto, que soubesse quem ele um dia tinha sido.
E ficou assim durante anos, esquecido, invisível. Apenas mais um homem na rua, no meio de tanta gente que passava sem olhar. Mas o destino guardava ainda uma última viragem. E é aqui que a história se transforma. Um belo dia, no meio do Rócio, uma praça movimentada mesmo no coração de Lisboa, um humorista português, muito conhecido por lá, o Newton, cruzou-se com o Perivaldo por pura casualidade e reconheceu.
Puxou conversa, percebeu quem estava à frente dele e aquilo tornou-se notícia. A história do ídolo brasileiro a viver na rua em Portugal atravessou o oceano e chegou até aqui. O Fantástico da Globo, aquele programa de domingo à noite que reunia a família toda no sofá, foi até Lisboa entrevistar o Perivaldo.
E depois o Brasil mexeu-se comovido com o que viu. O presidente do sindicato dos atletas do Rio de Janeiro, um homem chamado Alfredo Sampaio, não pensou duas vezes, pegou num avião, foi pessoalmente a Portugal e trouxe o Perivaldo de volta para casa no final de 2013, depois de nada menos de 24 anos longe do Brasil. 24 anos.
Quando ele saiu, o país era outro. Quando voltou, era um senhor de cabelo branco que a maioria já se tinha esquecido. E é aqui que a gente chega em como ele viveu o fim. Os últimos anos do Perivaldo, graças a esta corrente de solidariedade, foram de paz. Passou a trabalhar no próprio sindicato que o resgatou e ganhou um teto digno para viver.
uma casa ali no bairro da Tijuca, na zona norte do rio, suportado pela instituição, longe da calçada de Lisboa, longe do frio, longe do lixo, de volta à sua terra, entre gente que voltou a lembrar quem ele foi. Foi ali rodeado desse cuidado que o Perivaldo faleceu em Julho de 2017 aos 64 anos, vítima de uma pneumonia.
partiu em paz com dignidade em casa, da forma que um ídolo merecia partir e que por muito pouco quase não aconteceu. E depois, quando juntamos estas sete histórias sobra uma coisa na cabeça para pensar. Robinho, Bruno, Marcelinho, Caju, Jobson, Müller, Perivaldo. Sete caminhos completamente diferentes, sete quedas por motivos que não têm nada a ver um com o outro.
Uns tropeçaram na justiça, outros no vício, outros apenas nas contas que não fecharam. Mas todos eles um dia estiveram lá em cima, no lugar que todo o brasileiro que chuta uma bola descalço na infância sonha chegar. E todos, de uma forma ou de outro, descobriram da forma mais dura que o auge não avisa a hora a que vai embora, porque a bola deixa de rolar para todo mundo.
Não tem talento, não tem fama, não tem conta bancária que segure isso. Um dia o estádio esvazia-se, a adeptos vão para casa e sobra o homem. Só ele, com as escolhas que fez enquanto os holofotes ainda estavam ligados. E talvez seja essa a lição que fica para pessoas que assistem de casa. O que a vida cobra lá à frente não é o tamanho da fama que teve, é o tamanho do cuidado que teve enquanto teve tudo.
O dinheiro vai e volta, a fama acende e apaga. Mas a forma como a gente trata as pessoas, a família que nós constrói, o pé no chão que a gente nunca perde, é isso que sobra quando o jogo acaba. No fim, estes sete homens que tiveram o mundo aos pés só provaram uma verdade muito simples, daquelas que a gente ouve desde criança. Não importa quão alto chegaste, importa quem tá do teu lado quando precisa de descer.
E agora quero ouvir de ti, de todas estas histórias, qual foi a que mais te tocou? Foi a do Perivaldo a apanhar roupa no lixo em Lisboa depois de ter sido um ídolo da seleção? Foi a do Caju a vender a medalha do tricampeonato do mundo ou foi a do Müller, tetra campeão, hoje erguendo um puxadinho no quintal de um amigo? Escreve lá em baixo nos comentários, porque faço questão de ler cada um, ainda mais de quem, como eu viveu essa época e viu esses tipos jogarem.
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