O domingo de futebol e confraternização familiar parecia correr como qualquer outro na cidade de Ouricuri, no interior de Pernambuco. Na manhã de 5 de julho de 2026, parentes e amigos se reuniam na propriedade do empresário Edivaldo Souza Salviano, carinhosamente conhecido na região como “Valdo”. Dono de um frigorífico local, Valdo organizava um churrasco para assistir ao jogo da seleção brasileira. Ao seu lado, como de costume, estava seu irmão, Edmilson Salviano, apelidado de “Bill”, gerente de uma empresa de ciclopeças. No entanto, o clima de festa foi abruptamente interrompido por um desaparecimento silencioso que antecedeu um dos crimes mais chocantes e dramáticos da crônica policial recente do Nordeste.
Sem que os convidados notassem, os dois irmãos se retiraram do evento. Dada a rotina movimentada da fazenda e dos negócios com gado, a ausência temporária não gerou alarme imediato. Contudo, por volta das 11h50 daquela manhã, a calmaria desmoronou. Valdo conseguiu usar o próprio telefone celular para enviar mensagens de áudio desesperadoras para sua esposa e para um amigo próximo. As gravações revelaram um cenário de puro terror: os dois irmãos haviam sido rendidos e trancados no compartimento de bagagens do próprio veículo.
O Último Pedido de Socorro

De dentro do espaço confinado e escuro do porta-bagagens, Valdo manteve a lucidez necessária para sussurrar instruções e enviar a localização em tempo real. A voz do empresário, carregada de pavor, denunciava a gravidade da situação. Em uma das mensagens enviadas ao amigo, ele implorou por agilidade e alertou sobre o estado do sequestrador.
“Meu bem, estou a ser sequestrado por Novinho. Novinho está armado. Eu vou mandar localização. Não me ligues. Corre lá, corre lá em mãe. Teu filho está lá ou liga ao Edgar e eu vou mandar a localização. Urgente. Minha irmã, diga urgente. Urgente. Jo, corre lá. Vai lá a casa, ajuda, ajuda. Ele está muito alterado, está armado. Eu estou dentro do porta-bagagens do carro. Cuidar ele ligeiro, velho. Ele está alterado. Eu estou muito nervoso.”
De acordo com os registros de tela obtidos posteriormente, a mensagem para a esposa foi visualizada por volta do meio-dia. Seguindo o apelo do marido para não ligar — o que poderia alertar o criminoso armado —, a mulher aguardou até as 13h40 para tentar o contato. Ela efetuou quatro chamadas consecutivas, mas o telefone de Valdo já não chamava mais.
A Quebra de um Vínculo de 15 Anos
O elemento mais perturbador do caso reside na identidade do captor mencionada por Valdo no áudio. “Novinho” é o apelido de Lázaro José da Silva Filho, de 49 anos. Lázaro não era um criminoso desconhecido ou um assaltante de estradas; ele era um amigo íntimo da família Salviano há cerca de 15 anos, frequentando regularmente as propriedades dos irmãos.
De Parceiro Comercial a Suspeito Principal
Além dos laços de amizade construídos ao longo de uma década e meia, Lázaro mantinha uma relação profissional estreita com as vítimas. Ele atuava como marchante — profissional responsável por negociar gado e abastecer açougues da região —, sendo Valdo um de seus clientes mais importantes. A proximidade era tamanha que Lázaro frequentava o local onde Bill criava seus animais de competição.
Diante do sumiço e dos áudios de socorro, a polícia militar e civil montou uma operação de busca imediata utilizando as coordenadas enviadas pelo empresário. A perseguição cruzou limites geográficos e terminou de forma trágica na divisa entre os estados de Pernambuco e Ceará. Os agentes localizaram o automóvel de Valdo capotado em uma ribanceira à beira da estrada.
Ao abrirem o veículo, os policiais encontraram os corpos dos dois irmãos. A perícia inicial constatou um detalhe que chamou a atenção das autoridades: Valdo apresentava marcas visíveis de disparos de arma de fogo pelo corpo. Já Bill não tinha nenhum ferimento físico, corte ou perfuração. A principal linha de investigação médica e policial aponta que Bill sofreu um enfarte fulminante causado pelo estresse psicológico extremo e pelo pânico de estar confinado no porta-bagagens durante o sequestro. Ao perceber que Bill já estava morto, o assassino teria concentrado os disparos contra Valdo antes de tentar se livrar do carro.

Captura no Mato e Comoção Comunitária
Após abandonar o veículo na ribanceira com as vítimas em seu interior, Lázaro tentou fugir a pé embrenhando-se em uma área de vegetação nativa densa (mato). A fuga, porém, durou pouco. Equipes táticas que cercavam a região conseguiram localizá-lo e detê-lo em flagrante delito. Com ele, foram colhidos indícios que o vinculam diretamente à execução do sequestro.
A morte dos irmãos causou uma onda de consternação e revolta na cidade de Ouricuri. Ambos eram membros ativos e muito queridos na comunidade local. Valdo era conhecido por promover ações sociais e campanhas comerciais sazonais em seu frigorífico, usando as redes sociais para engajar os moradores. Pouco antes do crime, ele havia publicado um vídeo convidando a população para um evento junino regional.
O amor dos irmãos pelo universo das vaquejadas e pela criação de cavalos marcou a despedida final. Durante o sepultamento de Bill, familiares levaram seu cavalo de competição para caminhar ao lado do caixão. O animal, segundo os presentes, exibiu reações de agitação e tristeza ao se aproximar do corpo do tutor, gerando forte comoção entre as centenas de pessoas que acompanhavam o cortejo.
Investigação e Prisão Preventiva
A motivação por trás do sequestro seguido de morte permanece sob mistério. A esposa de Valdo afirmou em depoimento que não tinha conhecimento de qualquer desentendimento financeiro ou comercial recente entre o marido e Lázaro. Ela mencionou, contudo, que há sete anos Lázaro havia sofrido uma tentativa de homicídio e que, desde aquele episódio, desenvolvera um comportamento instável, tornando-se um homem recluso e de temperamento difícil.
A Polícia Civil de Pernambuco apura se Lázaro agiu inteiramente sozinho ou se contou com a colaboração de terceiros no planejamento da abordagem ou na contenção das vítimas. O suspeito passou por uma audiência de custódia na qual o Poder Judiciário determinou a conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva, negando o direito de responder ao processo em liberdade.
Lázaro foi transferido para o Estabelecimento Prisional de Salgueiro, também em Pernambuco, onde aguardará o encerramento do inquérito. Na decisão que manteve a prisão, o magistrado destacou o alto grau de reprovabilidade social e a frieza do crime, apontando que o modo de execução, precedido por um sequestro planejado e agravado pela quebra drástica de um vínculo de amizade de longa data, demonstra uma periculosidade concreta e um total desprezo pela vida humana.