Em janeiro de 2017, na cidade de Pinhais, região metropolitana de Curitiba, no estado do Paraná, um crime chocou o Brasil pela sua crueldade e pelo comportamento frio do principal suspeito. A vítima era Claudete Sampietri, uma mulher de 59 anos, conhecida pelos familiares e amigos como uma pessoa gentil, dedicada à família e muito querida por todos. Depois de décadas de casamento, a sua vida terminou de forma trágica pelas mãos daquele que havia prometido protegê-la.
A história de Claudete começou muito antes do crime. Em meados da década de 1970, ainda adolescentes, ela e Cláudio Mauro Sampietri conheceram-se em Curitiba, apaixonaram-se e construíram uma família. Casaram-se em 1987 e instalaram-se numa casa em Pinhais, onde viveram durante cerca de trinta anos e criaram três filhos.
À primeira vista, pareciam um casal comum. Mauro era metalúrgico reformado, possuía uma pequena gráfica instalada na parte inferior da residência e também ajudava um dos filhos na frutaria da família. Claudete, igualmente reformada, dedicava-se às tarefas domésticas. Para quem observava de fora, nada indicava que aquele casamento escondia um ambiente de sofrimento.
Os familiares, porém, conheciam outra realidade. Claudete era descrita como uma mulher calma, carinhosa e extremamente dedicada aos filhos e aos netos. Já Mauro era frequentemente apontado como uma pessoa controladora, agressiva e excessivamente avarenta. Segundo os filhos, obrigava a esposa a realizar todos os serviços da casa, mesmo quando ela estava doente, apenas para evitar gastar dinheiro com uma empregada doméstica ou até mesmo com a lavagem do automóvel.
Com o passar dos anos, o relacionamento tornou-se cada vez mais abusivo. As discussões eram constantes e Claudete vivia sob medo permanente. Um dos filhos afirmou posteriormente que a mãe receava até comer em casa, acreditando que o marido poderia envenenar-lhe a comida.
Depois de suportar décadas de violência psicológica, Claudete decidiu pôr fim ao casamento. Em janeiro de 2017 entrou oficialmente com o pedido de divórcio. A separação implicaria a divisão dos bens do casal e o pagamento de uma pensão mensal à esposa. Para Mauro, que não aceitava perder parte do património, essa situação tornou-se inaceitável.
Na sexta-feira, 20 de janeiro de 2017, Claudete iniciou o dia como fazia habitualmente. Preparou a refeição que Mauro levaria ao filho que trabalhava na frutaria e continuou com as tarefas domésticas. Horas mais tarde, quando Mauro regressou a casa, ocorreu o crime.
Segundo a investigação, Mauro atacou Claudete de surpresa, provocando-lhe um forte golpe na cabeça junto ao frigorífico. Em seguida, levou o corpo para o piso superior da residência, onde funcionava a gráfica. Ali tentou eliminar todos os vestígios do homicídio.
Ainda durante aquela tarde, Mauro voltou à frutaria e pediu ao filho Gabriel que encerrasse o estabelecimento mais cedo. Como ainda era demasiado cedo, Gabriel recusou e o pai regressou sozinho para casa.
Foi então que Mauro decidiu ocultar completamente o crime. O corpo foi desmembrado. O tronco foi colocado numa mala e, no dia seguinte, abandonado numa área de mata localizada a poucos quilómetros da residência da família. Depois regressou a casa para limpar cuidadosamente todos os sinais de sangue.
Concluída a limpeza, Mauro dirigiu-se a uma esquadra e comunicou o desaparecimento da esposa. No entanto, não informou imediatamente os filhos. Apenas dois dias depois contou à família que Claudete tinha desaparecido.
As buscas começaram rapidamente. Cartazes foram espalhados por Curitiba e região, enquanto familiares e amigos procuravam qualquer informação sobre o paradeiro da mulher. Durante todo esse período, Mauro mantinha uma postura extremamente fria. Afirmava que a esposa tinha saído de casa voluntariamente, insinuando até que poderia ter fugido com outro homem.
Essa versão, porém, parecia cada vez menos credível. Claudete havia deixado todos os seus documentos, o telemóvel e os restantes pertences pessoais na residência. Além disso, apenas três dias após o alegado desaparecimento, Mauro já dizia aos filhos que pretendia vender a casa e mudar-se para bem longe.
Outras atitudes aumentaram ainda mais as suspeitas.
Pela primeira vez em muitos anos, levou o carro para ser lavado, embora fosse sempre Claudete quem costumava tratar da limpeza do veículo. Também contratou uma equipa de limpeza para higienizar a casa, algo que nunca fizera antes, nem sequer quando a esposa estava doente.
As funcionárias estranharam imediatamente a situação. A residência encontrava-se praticamente limpa, tornando desnecessário aquele serviço. Além disso, notaram um cheiro intenso vindo da churrasqueira no quintal.
Quando perguntaram a Mauro o que estava a ser queimado, ele respondeu que eram papéis antigos da gráfica misturados com restos de um churrasco. Mais tarde descobrir-se-ia que, na realidade, ali estavam a ser destruídos outros restos mortais de Claudete.
Os próprios filhos começaram a notar diversos indícios estranhos. A filha observou manchas avermelhadas no frigorífico, às quais o pai respondeu tratar-se apenas de molho de comida. O filho mais novo encontrou panos encharcados com manchas suspeitas dentro de um balde. Sempre que era questionado, Mauro reagia com irritação.
Desconfiada, a filha pediu ajuda a um conhecido da Polícia Civil. Após observar a residência, o agente recomendou que fosse realizada uma perícia.
Os peritos utilizaram luminol e encontraram vestígios de sangue junto ao frigorífico. Diante das evidências, Mauro foi preso.
Enquanto isso, um homem encontrou uma mala abandonada numa área de mata. No seu interior encontrava-se o tronco de uma mulher. O material foi recolhido para exames laboratoriais.
Cinquenta dias após o desaparecimento, o teste de ADN confirmou oficialmente que os restos mortais pertenciam a Claudete Sampietri.
Mesmo perante as provas, Mauro continuou a negar qualquer envolvimento.
Durante o processo judicial surgiu ainda outra revelação perturbadora. A filha do casal afirmou acreditar que o pai também poderia estar envolvido na morte dos próprios pais, assassinados em Campinas, São Paulo, em 1997. Na época, Mauro chegou a ser investigado, mas nunca foi formalmente condenado por falta de provas. Quando essas suspeitas voltaram a ser discutidas durante o julgamento de Claudete, os possíveis crimes já estavam prescritos.
Percebendo que a condenação era praticamente inevitável, Mauro tentou criar uma versão alternativa dos acontecimentos.
Mais de um ano após o homicídio, o filho Gabriel encontrou escondida numa parede da casa uma carta anónima, juntamente com o cartão bancário e uma fotografia de Claudete. O texto afirmava que Mauro faria parte de um suposto grupo satânico responsável por rituais envolvendo mulheres, sugerindo que Claudete teria sido morta por essa organização e não diretamente pelo marido.
A investigação concluiu que a carta não tinha sido escrita por Mauro, mas também nunca encontrou qualquer evidência da existência desse grupo. Para a polícia, tratava-se apenas de uma tentativa deliberada de desviar a investigação e prolongar o processo judicial.
Em dezembro de 2018 realizou-se o julgamento.
Após dois dias de audiência, o júri popular considerou Mauro Sampietri culpado por homicídio qualificado por motivo torpe e por ocultação de cadáver. A sentença fixou uma pena de 21 anos de prisão em regime fechado.
Contudo, o caso ainda teria novos capítulos.
Apesar da condenação, Mauro conseguiu permanecer temporariamente em prisão domiciliária graças a recursos apresentados pela defesa. Mais tarde, quando as autoridades decidiram transferi-lo definitivamente para um estabelecimento prisional, ocorreu uma falha administrativa.
Os agentes retiraram-lhe a pulseira eletrónica, cujo prazo de utilização tinha expirado, mas não efetuaram imediatamente a sua condução para a prisão.
Aproveitando essa negligência, Mauro fugiu.
Durante vários anos permaneceu foragido até que, em fevereiro de 2022, foi localizado na cidade de Corumbá, no estado do Mato Grosso do Sul.
Polícias militares reconheceram o automóvel que utilizava e confirmaram que a matrícula correspondia à de um fugitivo procurado pela Justiça. No momento da abordagem, Mauro apresentou um nome falso e afirmou ser um cidadão italiano chamado Domenico. A tentativa de enganar os agentes durou pouco tempo, pois estes já possuíam toda a informação sobre a sua verdadeira identidade.
Depois de ser conduzido para a esquadra, Mauro acabou por admitir a autoria do homicídio.
O caso de Claudete Sampietri tornou-se um dos exemplos mais marcantes de violência doméstica seguida de feminicídio no Brasil. A tragédia demonstrou como relações abusivas podem permanecer ocultas durante décadas e reforçou a importância de reconhecer os sinais de controlo, intimidação e violência antes que situações semelhantes terminem de forma irreversível.