Ele não foi apenas um apresentador; foi uma instituição, um pilar da cultura popular brasileira e um intelectual que, com o mesmo sorriso, conversava sobre política complexa e contava piadas ingênuas. Três anos após a partida de José Eugênio Soares, o eterno Jô Soares, o Brasil ainda processa a ausência daquele que, durante décadas, foi a companhia imprescindível do final das noites televisivas. Recentemente, novas luzes foram lançadas sobre seus momentos derradeiros, sua vida privada e a complexa organização de um legado que, como tudo em sua vida, foi pensado com inteligência, discrição e uma generosidade que ele sempre fez questão de esconder.
A trajetória de Jô Soares é um épico de erudição. Nascido no Rio de Janeiro, em uma família abastada e de linhagem política, Jô tinha tudo para seguir a diplomacia. No entanto, o palco falou mais alto. Após uma educação refinada, inclusive com estudos na Suíça, ele retornou ao Brasil decidido a ser artista. E que artista! Desde os anos 50, sua presença foi onipresente. Da Record à Globo, passando pela marca indelével que deixou no SBT com o “Jô Soares Onze e Meia”, o apresentador redefiniu o conceito de Talk Show no Brasil. Ele não apenas entretia; ele educava o espectador com seu vasto conhecimento, curiosidade insaciável e um humor que transitava entre o refinado e o escrachado.

Contudo, por trás da persona pública e do célebre “beijo do gordo”, Jô era um homem profundamente reservado. A reclusão, que se acentuou com o passar dos anos e se tornou quase total durante a crise sanitária de 2020, foi a forma que encontrou para preservar sua dignidade e seu espaço. Ele vivia em seu icônico apartamento na Avenida Higienópolis, em São Paulo, cercado por sua imensa biblioteca de mais de 5.000 exemplares. Ali, o grande mestre da comunicação encontrava o seu refúgio, longe das luzes dos holofotes que o acompanharam por mais de sessenta anos.
O maior golpe da vida de Jô, entretanto, veio em 2014, com a morte de seu único filho, Rafael Soares, vitimado por um câncer no cérebro aos 50 anos. Rafael, portador do transtorno do espectro autista, era o grande amor de sua vida. A dor da perda foi um marco indissociável de sua trajetória. Na época, Jô mostrou uma vulnerabilidade que raramente exibia, dedicando sua abertura de programa ao filho e à sua ex-companheira, Terezinha Milos Gésilo, mãe de Rafael. Aquela dor silenciosa acelerou, de certa forma, o encerramento de sua carreira na televisão, culminando em sua aposentadoria em 2016.
Nos seus últimos dias, a lucidez de Jô Soares foi, talvez, sua característica mais notável. Conforme relatado pelo seu amigo e médico particular, o doutor Drauzio Varela, Jô encarou a finitude com a mesma elegância que encarou a vida. Ao perceber que o tratamento hospitalar já não traria a qualidade de vida que desejava, ele reuniu os próximos e expressou seu desejo de ser levado para casa, de evitar medidas extraordinárias que apenas prolongariam o sofrimento. No leito do Hospital Sírio-Libanês, em agosto de 2022, cercado de cuidados e preferindo assistir a filmes antigos com a luz baixa, Jô partiu. Não houve luta inglória, houve uma entrega serena.
A questão do patrimônio de Jô Soares, avaliado em cerca de 50 milhões de reais, tornou-se objeto de curiosidade pública logo após sua morte. Em um cenário onde as especulações sobre sua sexualidade e vida íntima sempre existiram — e às quais ele respondia com a sagacidade de quem não precisava provar nada a ninguém —, o testamento revelou uma pessoa que priorizava a lealdade e o afeto acima de tudo. Sem herdeiros diretos, o apresentador destinou 80% de seus bens, incluindo o luxuoso apartamento em Higienópolis, à sua ex-esposa, a designer gráfica Flávia Pedras.
Flávia, com quem Jô foi casado de 1987 a 1998, foi sua companheira de alma até o último suspiro. A relação entre os dois transcendeu o casamento formal, transformando-se em uma parceria de apoio incondicional. Os 20% restantes do patrimônio foram divididos entre sua amiga próxima, Cláudia Colosse, e os funcionários que o serviram por anos, como seu motorista e empregadas domésticas. Além disso, Jô já havia realizado vultosas doações em vida para instituições de caridade dedicadas a pessoas autistas, um gesto que espelhava sua preocupação constante com a causa, inspirada pela vida de seu filho.

Há, contudo, um outro lado de Jô Soares que só agora, com o passar dos anos, começa a ser revelado por aqueles que foram beneficiados por sua bondade. Jô era um filantropo secreto. Histórias de funcionários que foram mantidos com salários integrais durante períodos de doenças graves, sem que ele nunca mencionasse o gesto a terceiros, emergem agora como prova de um caráter extraordinário. Ele não queria crédito, não buscava aplausos por seus atos de caridade; ele simplesmente cumpria o que considerava ser sua obrigação humana.
Seu legado, contudo, vai muito além de bens materiais ou cifras milionárias. Ele reside na forma como ele moldou o imaginário brasileiro, na elegância de sua entrevista, na diversidade de seus convidados e na sua capacidade inesgotável de se reinventar. Seja atuando em musicais nas décadas passadas, escrevendo roteiros inesquecíveis, ou dirigindo peças de teatro, Jô foi um artista completo. O diamante feito a partir de suas cinzas, uma decisão de Flávia Pedras, simboliza bem o que ele foi para muitos: uma gema rara, lapidada pelo tempo, pela cultura e pelo afeto.
Relembrar Jô Soares é exercitar a memória de um Brasil que, talvez, fosse um pouco mais intelectual e muito mais divertido. Ele nos ensinou que ser um ícone não significa ser intocável, mas sim ser profundamente humano. Ao deixar claro que preferia a tranquilidade de seus últimos momentos à exibição da fama, ele nos deu uma última lição sobre o que realmente importa: a paz de espírito, a preservação do que amamos e o legado de bondade que deixamos nas pessoas que cruzaram o nosso caminho. Jô Soares se foi, mas o “beijo do gordo” ecoa, eterno, como um lembrete de que a vida, apesar de finita, pode ser vivida com uma magnitude que o tempo jamais conseguirá apagar.