A arena política brasileira é, historicamente, um palco de grandes tensões e discursos inflamados. No entanto, os acontecimentos recentes têm demonstrado que a blindagem retórica de figuras proeminentes do cenário nacional está cada vez mais frágil diante do escrutínio público e da pressão internacional. Quando a diplomacia e as políticas de segurança globais se cruzam com os interesses e as fragilidades da política interna, o resultado é um espetáculo de contradições que expõe o abismo profundo entre a classe dirigente e as necessidades reais da população. Nas últimas semanas, a escalada de decisões vindas dos Estados Unidos, focadas no combate incisivo a organizações criminosas transnacionais, provocou uma onda de choque em Brasília.
Defender certas posturas no atual cenário brasileiro tornou-se uma tarefa hercúlea, até mesmo para os veteranos da política. Figuras carimbadas, cujas trajetórias já foram marcadas por intensos desgastes, encontram-se agora em uma posição de notável vulnerabilidade. O deputado federal Lindbergh Farias é, indiscutivelmente, o retrato mais recente desse constrangimento público. Estando na Câmara dos Deputados amparado por manobras judiciais e liminares, sua legitimidade política já era alvo de constantes questionamentos. Contudo, o que se viu recentemente nos corredores do poder em Brasília foi além do debate ideológico; foi a materialização da fuga do debate.
Ao ser abordado por um repórter parlamentar incisivo, que buscava respostas claras sobre temas cruciais para a sociedade, como a redução da maioridade penal e as recentes movimentações envolvendo a soberania nacional, Lindbergh protagonizou uma cena que rapidamente viralizou pelo seu caráter cômico e, ao mesmo tempo, trágico. As imagens mostram o parlamentar, no momento exato em que a pergunta lhe é direcionada, levando abruptamente o celular ao ouvido, simulando uma ligação urgente. O repórter, percebendo a manobra, não recua e continua a indagar sobre improbidade administrativa e segurança pública. A recusa em responder, disfarçada por uma encenação mal executada, evidencia não apenas a falta de argumentos, mas o pavor de enfrentar o contraditório.
O desespero de Lindbergh Farias parece ter raízes profundas no contraste de atuações. Enquanto ele foge de microfones no Brasil, a atuação de figuras como Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, articulando ações internacionais contra o crime organizado, parece gerar um profundo incômodo na ala governista. A reação de Lindbergh foi acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) — instituição frequentemente criticada por concentrar poder nas mãos de figuras como o ministro Alexandre de Moraes — para tentar enquadrar as medidas do governo americano como um ataque que pudesse ser usado em um processo contra Eduardo Bolsonaro. A tentativa de judicializar a diplomacia internacional demonstra a escassez de recursos políticos e a dependência de instâncias superiores para calar a oposição.
Mas Lindbergh não está sozinho nessa cruzada retórica que beira o desespero. Gleisi Hoffmann, outra figura central do atual governo, elevou o tom para classificar como “traidores da pátria” aqueles que celebram a pressão internacional sobre as facções criminosas brasileiras. A justificativa utilizada é a clássica defesa da “soberania nacional”. No entanto, a memória da internet e dos arquivos políticos é implacável. A mesma Gleisi Hoffmann que hoje brada contra a “ingerência” dos Estados Unidos foi a protagonista de um episódio amplamente criticado no passado, quando recorreu à rede de televisão árabe Al Jazeera para denunciar a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva. Naquela ocasião, ela conclamou a comunidade internacional — incluindo nações do Oriente Médio com históricos complexos — a intervir nos assuntos internos do Brasil.
A hipocrisia salta aos olhos. Quando a intervenção estrangeira serve para libertar um aliado político condenado pela justiça brasileira, ela é bem-vinda e ativamente procurada. Porém, quando a intervenção estrangeira visa descapitalizar e combater o crime organizado, o tráfico internacional e as facções que aterrorizam o cidadão comum, ela passa a ser tratada como um atentado inaceitável à soberania. Essa ginástica moral levanta questionamentos inevitáveis sobre as verdadeiras prioridades dessa elite política. Afinal, a quem serve essa soberania seletiva? É impossível dissociar a imagem de Gleisi Hoffmann de seu passado político e pessoal, incluindo os escândalos envolvendo seu ex-marido, Paulo Bernardo, que chegou a ser preso sob acusações de desvio de dinheiro de aposentados. Quando o discurso de defesa dos mais pobres esbarra em ações que dilapidam os recursos públicos e protegem criminosos, a indignação popular se torna mais do que justificada; torna-se um imperativo moral.
A narrativa de complacência com o crime não é um acidente de percurso, mas parece ser uma filosofia enraizada em parte da liderança do país. Um vídeo resgatado recentemente, datado de anos atrás, e que voltou a ganhar forte repercussão ao ser compartilhado por Carlos Bolsonaro, lança luz sobre a forma como Luiz Inácio Lula da Silva enxerga criminosos de alta periculosidade. O material em questão trata de um dos crimes mais hediondos e chocantes da história recente do Brasil: o sequestro do empresário Abílio Diniz, ocorrido em 1989. Diniz, um gerador de milhares de empregos no país, foi mantido em cativeiro sob condições sub-humanas, sofrendo atrocidades físicas e psicológicas relatadas posteriormente por ele mesmo.
No vídeo, Lula relata com naturalidade assustadora as suas negociações com o então presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) para libertar os 10 sequestradores — um grupo que incluía argentinos e outros latino-americanos. Os criminosos haviam iniciado uma greve de fome na prisão, ameaçando entrar em “greve seca” (sem ingestão de líquidos). Em vez de defender o cumprimento da pena e a justiça para a vítima de cárcere privado, Lula assumiu o papel de porta-voz e negociador dos sequestradores. Ele relata ter apelado a FHC, sugerindo que o então presidente passasse para a história como um “democrata”, e não como alguém que deixou morrer “dez jovens que cometeram um erro”.
A escolha de palavras é estarrecedora. Chamar sequestradores internacionais altamente organizados de “jovens que cometeram um erro” é uma ofensa direta à memória das vítimas de crimes violentos e uma banalização inaceitável do código penal. O desfecho da história, relatado com orgulho pelo próprio Lula, foi a sua ida ao presídio no dia 31 de dezembro para selar um acordo: o fim da greve de fome em troca da liberdade. Como justificar, perante o cidadão trabalhador que tem sua casa invadida, seu carro roubado ou sua família ameaçada, que o líder máximo da nação possui um histórico de interceder pessoalmente pela libertação de sequestradores? É esse o senso de justiça que permeia as decisões do alto escalão do poder executivo? Esse tipo de postura ajuda a explicar a repulsa de grande parte da sociedade em relação às políticas de segurança pública – ou à falta delas – promovidas por esse grupo político.

A complacência com o crime não afeta as elites; ela é uma tragédia exclusiva das classes médias e baixas. É exatamente esse abismo de realidades que torna as declarações de Fernando Haddad tão desconectadas do sofrimento diário do brasileiro. Ao criticar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o senador Flávio Bolsonaro por apoiarem as ações rigorosas dos Estados Unidos contra o crime organizado e o narcotráfico, Haddad acusou-os de criar uma “relação de subserviência” do Brasil para com os americanos. Segundo Haddad, o combate ao crime deve ser tratado apenas como questão de segurança interna, e a pressão externa (como tarifas ou sanções direcionadas a enfraquecer facções) é um ataque ao Brasil.
Mas a pergunta que ecoa nas ruas é: o Brasil está realmente sendo atacado, ou quem está sob ataque são organizações como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho? Para a cúpula do governo, que transita em carros blindados, vive em bairros de alta segurança e conta com escolta armada 24 horas por dia, paga com o dinheiro dos impostos, o crime organizado pode parecer apenas um debate acadêmico sobre soberania e jurisprudência. No entanto, para o cidadão comum, o crime organizado é a bala perdida que encontra a criança no caminho da escola; é o toque de recolher imposto por traficantes em comunidades; é a extorsão do comércio local.
Quando Haddad e seus aliados criticam o aperto no cerco contra facções internacionais, o povo entende que eles estão, na prática, virando as costas para as vítimas diárias dessa violência. A indignação popular que transborda nas redes sociais reflete exatamente essa percepção: “Para eles, o Brasil está uma maravilha. O povo que se lasque ficando refém do crime organizado”, comentou um cidadão indignado, sintetizando o sentimento de milhões. A inversão de valores chega a um ponto tão absurdo que, para essa elite ideológica, o esforço de parlamentares como Eduardo Bolsonaro para combater bandidos no cenário internacional é tratado como um crime, enquanto o verdadeiro crime — o narcotráfico que destrói gerações — é protegido pelo manto intocável da “soberania”.
Essa dissonância cognitiva não está restrita apenas aos políticos com mandato. Ela contamina a esfera midiática e até mesmo setores do judiciário, criando uma bolha de proteção retórica que desafia o bom senso. Recentemente, comentários de figuras da justiça e de comentaristas televisivos escancararam essa realidade paralela. Em uma análise sobre o impacto da pressão norte-americana sobre o tráfico de drogas, uma desembargadora minimizou os esforços internacionais. Pior ainda foi a reação da mídia. Em um debate televisivo, uma apresentadora – que possui ligações com figuras da alta cúpula da economia, como Gabriel Galípolo do Banco Central – chegou a descrever as informações como “angustiantes”.
E qual era o motivo de tamanha angústia? O fato de que a operação e a troca de inteligência internacional encareceram o preço da cocaína (o “pó branco”). Em vez de celebrar a dificuldade imposta ao tráfico internacional, a preocupação demonstrada no ar era que a vida das elites urbanas que consomem drogas e das estruturas que as suportam seria dificultada. “A inteligência não para, já sabemos que o preço da cocaína subiu”, afirmou-se no debate, como se o encarecimento de um entorpecente letal fosse uma tragédia nacional a ser lamentada em horário nobre.
Esse conjunto de episódios – desde a fuga patética de Lindbergh Farias simulando uma ligação telefônica, passando pela hipocrisia de Gleisi Hoffmann e sua soberania de conveniência, até o chocante revisionismo histórico de Lula protegendo sequestradores e a insensibilidade de Fernando Haddad – compõe um mosaico sombrio da atual situação política brasileira. Mostra um país liderado por um grupo que enxerga o combate efetivo ao crime não como uma necessidade vital de sobrevivência e prosperidade da nação, mas como uma ofensa a princípios ideológicos distorcidos.
O cidadão que acorda de madrugada, enfrenta o transporte público lotado e volta para casa temendo pela própria vida não se importa com disputas semânticas sobre ingerência externa, se essa mesma “ingerência” for capaz de desarticular o narcotráfico que domina o seu bairro. A verdadeira traição à pátria não é buscar apoio de nações desenvolvidas para varrer máfias do mapa brasileiro; a verdadeira traição é romantizar criminosos, fechar os olhos para as vítimas e governar de costas para a realidade ensanguentada do país.
Enquanto a política for feita para proteger os interesses daqueles que nunca sentiram o peso de viver à mercê da criminalidade, cenas lamentáveis de fuga do debate continuarão a acontecer. O Brasil exige mais do que narrativas requentadas e discursos vazios sobre soberania; o Brasil clama por ordem, segurança e, acima de tudo, por líderes que tenham a coragem de enfrentar os verdadeiros inimigos da sociedade, sem se esconderem atrás de um aparelho de telefone.