PARTE 1
Riram-se quando Pelé virou goleiro, mas o que Pelé fez no jogo deixou todos os chocados. Estádio do Pacaembu, São Paulo, 1964. A meia-final da Taça Brasil entre o Santos e Grêmio estava a ser um espetáculo de puro futebol arte. Os dois times mais poderosos do Brasil se enfrentavam em uma batalha épica que valia a vaga na grande final do Campeonato Nacional.
O placar já mostrava a intensidade do confronto. Santos 4, Grêmio 3. A partida tinha tido tudo. Dribles impossíveis, defesas milagrosas, golos de todos os tipos, cartões, reclamações, tensão absoluta e no centro de tudo, como sempre, estava Pelé. O rei já tinha marcou três dos quatro golos santista, destruindo a defesa gaúcha com a sua genialidade habitual.
Cada toque seu era uma ameaça, cada movimento uma possibilidade de mais um golo. Mas o O Grêmio não era um adversário qualquer. O equipa gaúcha tinha orgulho, tinha qualidade e, principalmente, tinha determinação. Mesmo perdendo por um golo de diferença, continuavam a atacar, pressionando, procurando o empate que os manteria vivos na disputa.
O relógio do Pacaembu marcava 41 minutos do segundo tempo. Faltavam apenas alguns minutos para o apito final que colocaria o Santos na final. A torcida santista já começava a celebrar antecipadamente, enquanto os adeptos gremistas nas bancadas gritavam pelos seus jogadores para não desistirem. Foi quando aconteceu o impensável, um lance dividido na área do Santos.
A bola estava no ar, os jogadores de ambas as equipas saltando, empurrando, lutando pela posse. O guarda-redes Gilmar, o lendário arqueiro que defendia tanto o Santos como a seleção brasileira, saiu da baliza para socar a bola e afastar o perigo. Mas no meio da confusão de corpos, Gilmar acabou por atingir um adversário com o cotovelo.
Não foi intencional, foi apenas o movimento natural de alguém saltar para esmurrar uma bola alta. Mas o avançado gremista caiu dramaticamente, segurando o rosto. O árbitro apitou. Todos esperavam uma simples falta. Mas depois o juiz fez um gesto que gelou o sangue dos adeptos santista. Apontou para fora do campo. Expulsão: Gilmar não acreditou.
Seus companheiros de equipa cercaram o árbitro, argumentando, protestando que tinha sido lance normal, que não havia violência, que o atacante estava a simular, mas o árbitro era inflexível. A decisão estava tomada, Gilmar estava expulso. O guarda-redes teve de sair de campo, ainda protestando, ainda incrédulo.
E foi aí que a verdadeira crise começou. Em 1964, as regras do futebol eram muito diferentes das atuais. Não existiam substituições. Uma vez que os 11 Os jogadores iniciais entravam em campo, estes eram os 11 que iriam terminar o jogo. Se alguém se magoava ou era expulso, o equipa continuava com menos um jogador. Não havia forma de trazer um reserva do banco e isso incluía o guarda-redes.
Se o guarda-redes era expulso ou se lesionava gravemente, não havia guarda-redes reserva à espera para entrar. Um dos jogadores de linha tinha de assumir a posição, vestir as luvas e defender a baliza da melhor forma possível. O técnico do Santos, Lula, olhou para o seu banco de reservas inutilmente.
Ele não podia usar ninguém de lá. Olhou para os seus jogadores em campo. Quem deveria ir para a baliza? Quem tinha alguma experiência, mesmo que mínima, defendendo? Foi quando Pelé se aproximou. Eu vou, disse simplesmente. Lula hesitou. Pelé era o seu melhor jogador, o seu goleador, o homem que já tinha marcado três golos naquele jogo.
Colocá-lo à baliza significava tirar toda a a capacidade ofensiva da equipa nos minutos finais. Mas que escolha ele tinha? Gilmar entregou a sua camisola de guarda-redes, aquela camisola cinza característica da época para Pelé. O rei vestiu-a por cima da sua camisa branca do santo, calçou as luvas, caminhou até o golo, enquanto o Pacaembu observava em um misto de curiosidade e apreensão.
PARTE 2
Do lado do Grêmio, a reação foi completamente diferente. Quando os jogadores gaúchos viram Pelé posicionando-se por baixo das traves, muitos não conseguiram conter sorriso. Alguns riram abertamente. Pelé era baixo para os padrões de um guarda-redes. 1,73, talvez 1,74-me com as chuteiras. Os guarda-redes da época eram geralmente homens acima de 1,80 m, alguns atingindo 1 m 90.º A diferença de altura era gritante.
“É agora!”, gritavam os adeptos do Grêmio entre si. “Chuta onde quer que estejas! Este baixinho não apanha nada”. Até os jogadores do próprio Santos estavam preocupados. Como refere Pelé, um avançado, mesmo sendo Pelé, poderia defender um golo profissional? Ele nunca tinha jogado como guarda-redes em uma partida oficial.
Não tinha experiência, não tinha o posicionamento correto, não tinha os reflexos treinados de um arqueiro profissional, mas havia algo que ninguém naquele estádio sabia, algo que nem mesmo os seus companheiros de equipa conheciam completamente. Pelé adorava jogar à baliza. Desde criança, quando jogava à pelada nas ruas de Bauru, Pelé frequentemente pedia para ser o guarda-redes.
Tinha fascínio pela posição e até depois de se tornar o maior atacante do mundo, mantinha esse hábito. Quase todos os dias, após o treino oficial do Santos terminar, Pelé ficava mais 30 minutos a praticar como guarda-redes. Pedia para os companheiros o pontapearem. treinava mergulhos, socos, saídas do golo, posicionamento.
Era um passatempo, uma diversão, mas levava a sério. Os seus companheiros zombavam dele às vezes. Pelé, já és o melhor avançado do mundo. Porque quer ser guarda-redes? Ele apenas ria. Porque é divertido e porque nunca se sabe quando se vai precisar. E agora naquele pacaembu apinhado com a meia-final da Taça Brasil em jogo e apenas alguns minutos no relógio, ele precisava.
O Grêmio reiniciou o jogo com uma intensidade renovada. Eles sabiam que esta era a sua oportunidade. Com Pelé no golo e não no ataque, o Santos estava vulnerável. Era tempo de atacar com tudo. O primeiro ataque surgiu rápido. Um médio gremista recebeu a bola a cerca de 25 m da baliza. viu Pelé posicionado ou mal posicionado na sua visão e decidiu arriscar um remate forte de longa distância.
A bola voou rasteira, com força, procurando o canto direito da baliza. Era um pontapé perigoso, o tipo que muitos guarda-redes Os profissionais teriam dificuldade em defender. Pelé leu a trajetória instantaneamente. O seu cérebro, treinado para calcular velocidades e distâncias como avançado, processou onde a bola iria.
Ele atirou-se voando paralelamente ao relvado, as mãos estendidas e encaixou a bola no peito com uma técnica perfeita. O Pacaembu explodiu em festa, mas o que era ainda mais notável era a expressão dos jogadores do Grêmio. Os sorrisos tinham desaparecido. Aquilo não tinha sido sorte. Tinha sido uma defesa legítima, bem executada, de um guarda-redes que sabia o que estava a fazer.
“Vamos outra vez”, gritaram os adeptos gremistas, agora menos confiantes, mas ainda determinados. “Foi só sorte!” O Grêmio continuou a pressionar. O relógio corria. 43 minutos. 44 minutos. Mas para os santistas parecia uma eternidade. Cada ataque gremista era um perigo potencial. Depois veio o lance mais perigoso.
Um cruzamento foi levantado na área, alto, bem no coração da pequena área onde reinam os guarda-redes. Três Os atacantes gremistas estavam posicionados, prontos para cabecear. Era o tipo de lance em que a altura faz diferença, onde um guarda-redes baixo seria uma desvantagem fatal. Mas Pelé tinha algo que compensava a sua altura relativa, uma impulsão sobre-humana.
Ele saltou e continuou a subir. Subiu mais alto que os três atacantes, mais alto que parecia fisicamente possível para alguém da sua estatura. No ponto mais alto do seu salto, socou a bola com ambos os punhos cerrados, mandando-a para longe da área com uma força e autoridade que deixaram todos atónitos. Quando Pelé pousou, fez-se um silêncio momentâneo no Pacaembu.
Não era só o facto de ele ter defendido, era como ele tinha defendido, com a confiança de um guarda-redes experiente, com o timing perfeito, com a técnica correta. Os jogadores gremistas entreolharam-se. Isto não era o que esperavam. Este não era um avançado improvisado a fingir ser guarda-redes. Era Pelé sendo Pelé, dominando uma posição como se tivesse nascido para ela.
O treinador do Grêmio gritava da beira do campo: “Continuem! Ele não pode defender tudo. Chutem mais!” E os adeptos do Grêmio tentaram. Nos últimos minutos desse jogo, bombardearam a baliza do Santos com tudo o que tinham. Pontapés de fora da área, cruzamentos na área, tentativas de todos os ângulos e Pelé defendeu tudo.
Não era apenas que não sofresse golo, era a forma como não sofreu golo. Cada defesa era executada com uma competência que desafiava a lógica. Como um homem que nunca tinha jogado profissionalmente como guarda-redes, podia ter reflexos tão bons como ele sabia exatamente onde se posicionar, como os seus mergulhos eram tão tecnicamente corretos.
Finalmente, após o que pareceu uma eternidade para a adeptos do Santos, mas foram apenas alguns minutos, o árbitro levou o apito aos lábios e soprou três vezes. Fim de jogo. Santos 4ro, Grêmio 3. O Santos estava na final da Taça Brasil, o Pacaembu explodiu, mas a maior ovação não foi para os três golos que Pelé tinha marcado como avançado, foi para os minutos finais em que tinha sido um guarda-redes impenetrável.
Pelé saiu da baliza, tirou as luvas e foi imediatamente rodeado pelos seus companheiros de equipe. Alguns estavam a rir de pura alegria e incredulidade. Outros apenas balançavam a cabeça, ainda a processar o que tinham visto. Do lado gremista, não havia vergonha na derrota, apenas respeito relutante. Como fica zangado quando perde para alguém que não só marca três golos contra si, mas depois vai para a baliza e defende tudo o que atira.
Nos balneários após o jogo, os os jornalistas encheram o Santos querendo falar com Pelé. As perguntas vinham rápido. Como aprendeu a jogar no golo? Já havia praticado antes? Foi nervoso ir para uma posição completamente diferente? Pelé respondeu com a sua humildade característica. Eu sempre gostei de jogar no Gol Treinos. É divertido. É um desafio diferente.
Hoje apenas fiz o que a equipa precisava que eu fizesse. Mas um jornalista fez uma questão mais interessante. Pelé, se tivesse escolhido ser guarda-redes em vez de atacante, acha que teria sido bom? Pelé pensou por um momento sorrindo. Não sei. Nunca pensei n, mas gosto da posição. Tem uma visão diferente do jogo.
Vê tudo se desenvolver à sua frente. Os jornais do dia seguinte explodiram com a história. Pelé, o homem sem posição declarou um. Rei dos golos torna-se rei das defesas, anunciou outro. Pelé fecha a baliza do Santos e garante um lugar na final”, proclamava um terceiro, mas o mais fascinante é que aquele não foi um caso isolado.
Ao longo da sua carreira, Pelé jogou como guarda-redes em mais três ocasiões oficiais, contra o Comercial, contra o Botafogo da Paraíba e frente ao Vitória. E em todas as quatro vezes que Pelé foi para a baliza profissionalmente, ele não sofreu um único golo. Quatro jogos, zero golos sofridos, quatro vitórias do Santos.
Pep, o grande parceiro de ataque de Pelé no Santos, revelaria anos mais tarde: “Sempre brinquei com o Pelé, que se ele tivesse escolhido ser guarda-redes, teria sido titular da seleção brasileira. Da mesma forma, ele tinha reflexos que não eram normais. Era como se soubesse para onde ia a bola antes dela ir. E o Pep tinha razão. O que tornava Pelé excepcional não era apenas a sua habilidade técnica como avançado, era a sua compreensão total do jogo, uma visão que transcendia posições específicas.
Como atacante, entendia o que os guarda-redes pensavam, como se posicionavam, onde estavam vulneráveis. E quando virou o guarda-redes, usou esse conhecimento ao contrário. Sabia o que os atacantes tentariam, antecipava os seus movimentos, posicionava-se onde a ciência do jogo dizia que a bola provavelmente iria.
Médicos desportivos da época ficaram fascinados. Testaram os reflexos de Pelé e descobriram que eram 40% mais rápidos que a média humana. Sua capacidade de processar informação visuais e reagir era simplesmente sobre humana. Mas mais do que reflexos físicos, Pelé tinha algo que não pode ser medido em laboratórios. Instinto de jogo puro, uma compreensão inata de como funciona o futebol, que se aplicava a qualquer posição em campo.
A história de Pelé guarda-redes tornou-se lendária no futebol brasileiro. É contada como exemplo da sua versatilidade, do seu amor pelo jogo em todas as suas formas e da sua capacidade de exceder em qualquer coisa que tentasse. Para os jogadores do Grêmio que se riram quando viram Pelé vestindo as luvas de guarda-redes, foi uma lição de humildade.
Eles aprenderam da pior forma que não se subestima o rei. Não importa em que posição ele se jogando. E para Pelé, foi apenas mais uma demonstração de algo que ele sempre soube. O futebol não é sobre posições ou título, trata-se de compreender o jogo no seu nível mais profundo. E quando você compreende o jogo como Pelé o entendia, você pode jogar em qualquer lugar e ainda assim ser o melhor.
Ele entrou no jogo como o maior carrasco de guarda-redes que o futebol já viu e saiu dele provando que podia ter sido o maior pesadelo dos avançados também, porque no final Pelé não era apenas um atacante excepcional ou um guarda-redes surpreendentemente competente. Era um estudante completo do jogo, alguém que compreendia cada aspeto do futebol tão profundamente que poderia dominar qualquer posição se fosse necessário.
E nesse pacaembu em 1964, quando as circunstâncias o exigiram, ele provou exatamente isso. Os adversários riram e depois ficaram chocados porque descobriram que não importava onde se colocasse Pelé em campo, ele ainda seria o melhor jogador ali.