O FILHO DELA ESTAVA NA BOATE KISS! COMO FORAM OS ÚLTIMOS MINUTOS DA BOATE KISS?
Eu eu digo sempre que a mãe não carrega 9 meses ao colo. A mãe carrega a vida inteira na barriga. Eh, a maternidade ela é eterna, ela não tu não, por mais que cresça, a madure, eu imagino como e como deve ser. Eu não consigo pensar da minha mãe ter de me enterrar. Imagine a senhora a ter que enterrar o seu filho. É, é devastador.
É, é, ainda mais ainda se é um se é uma doença, mas dentro de uma de um de um dia para o outro, de uma pizza para a outra, de um dormir e acordar ao rádio. Então, a senhora fica a saber inclusive pelo rádio. O Ariel era do tipo de pessoa que atende o telefone quando porque Sim, o Ariel porque ainda podia ter uma esperança.
Ah, ele nunca atende mesmo. Ele é assim, ele não atende. Então ali a senhora já sabia que o jeito dele não estava, eu já eu já sabia porque como eu te disse assim, ele era muito eh afectuoso, certo? A mãe as as colegas dele sempre diziam assim: “Ah, a tua mãe ligou, o Ariel deixa tudo, vai atender a mãe”. Sim.
Então, por isso é que eu já tinha quando fomos esse da essa distância assim, era um era um algo que que eu lá acho que assim o prescindimento de mãe, eu sabia que eu já não ia ter o Ariel, não é? Nós não íamos ter mais o Ariel. E quando a senhora chega nesse fatídico dia 27, que descobre esse catombe na sua vida, ali começa uma nova história de espera, de saber, de imaginar assim, ao mesmo tempo que precisa enterrar, é preciso procurar justiça.
Como é essa espera? Foram 300 km que foram 300.000 km, imagino. Mas a partir daí foram quase 10 anos de espera para ver alguma coisa acontecer. Como é essa espera? O que que como é que como é que isso muda o seu dia a dia, a sua vida inteira? Eh, é muito, como eu te disse assim, é muito triste para nós como mãe e como pai.
É muito triste, porque como lhe disse, certo? Eh, todos os dias, todos os momentos, lembras-te do Ariel. E só eu quero pôr assim, ó, que depois que a gente veio daí domingo à tarde, que daí foi velado aqui em São Pedro, nesta localidade, fiz, não sei se é um pacto, pode dizer-se que eu não me ia tornar uma pessoa vitimizar-me daquilo que tinha acontecido por tudo o que eu eh conheci, tudo aprendi do Ariel, não é, que eu teria que ter muita coragem muita fé para tocar em frente aquilo ali, porque ele era feliz,
era alegre, ajudava tantas pessoas. Então, onde quer que ele tenha, ele vai querer ver-me, eu, o meu, o pai dele e o Pietro, porque feliz, não é? E nós continuamos, depois de muito tempo, a gente continua a frequentar bailes, não é? Nós somos da comunidade aqui, nós faz isso, não é? É muito, porque eu tenho a certeza, eu tenho a certeza.
Onde eu estiver, o Ariel vai estar comigo. E é isso que eu quero mostrar-lhe, essa luta, não é? É muito generoso agora que foi, não é? É muito generoso do Ariel ter deixado este ensinamento para a senhora. é muito generosa da sua parte não se tornar uma pessoa amarga, porque seria justo. Inclusive, agora a senhora falou de felicidade, eh, eu ia perguntar isso lá à frente, mas já que a senhora falou disso, como catombe daquelas na sua vida e tudo o resto, é possível em algum momento depois você ser feliz plenamente ou sempre vai ficar falta alguma coisa? Eu
acho, acho, não, tenho a certeza que plenamente não vou ser mais feliz. Tu disseste-me assim, né? Aí é que os ve meses que carreguei do Ariel foi só na barriga fisicamente, mas estes 18 anos e seis meses que vivi com Ariel, vou carregar até morrer. Portanto, assim, eu quero deixar e mostrar pro Pietro essa essa aprendizagem que o Ariel deixou-nos, porque se eu me tornar uma pessoa amarga, pensei assim: “Ninguém vai querer ficar e vi conversar e sentir-se bem.
O Pietro com certeza vai ter filhos. Nós vamos ser avóz. Eles não vão querer conversar e ficar se ficasse só a chorar, só a reclamar, só, não é? Então, alguns momentos faz com que nos aprender e tornar, não digo assim, mas que a gente tente viver eh de uma maneira que a vida toque, que a vida vaiá em frente com essa aprendizagem, não é? O que a senhora disse ali que é muito importante mesmo e eu percebo a diferença que como contei à senhora entrevista familiares de vítimas há muito, h duas h uma década e pouco, acaba acho que esta energia que a
senhora tem é muito importante para a senhora, para o seu marido, para o seu filho Pietro, que é o seu outro filho. E pro Pietro, inclusive, a senhora conta que o o Ariel cozinhava para ele, ele era meio amigão dele. Como foi pro Pietro perder subitamente o irmão mais velho, perder o irmão, tornar-se filho único? Como, como como foi para ele? Eh, como eu te disse, não é, assim, o Pietro pela maneira, a personalidade assim mais seco, digamos, não é, foi muito difícil porque imagina, ele tinha 15 anos, não é, uma idade assim, não é, por
todas as coisas, tu não és tu não és adulto e tu não és criança, não é? Portanto, na cabeça dele, não é, e por ele também ser mais fechado assim. E os primeiros meses, uma coisa que eu sempre me lembro, trainha na minha memória, quando me dava aquelas crises assim de desespero, de saudade, o o Pietro trava, parava.
Por isso é que eu te disse que então eu fiz isso, não é? Ele não tinha o que me dizer, não é? Porque a partir daí ele vinha aqui, eu estava a chorar, ele saí, eu estava a chorar, ia para, não é? E e eu daí comecei a pensar assim: “Não, mas eu tenho que trazer de volta o Pietro, não é? Não posso, já perdi o Ariel, não posso perder o Pietro, não é?” Daí que eu comecei a ver que tinha que me lembrar e tenho a certeza que o Ariel todos estes momentos como este ele vai pelo menos ser comigo. Claro que tem.
tem dias, tem datas, eh que eu vou é mais pesado, mas por isso é que eu tento, sabe, eh viver de uma maneira melhor, eu, o meu esposo, não é, assim, a que que e que nós dê esse conforto, não é? conforto, não sei se seria a palavra, mas que e e este bem-estar de de de que consigamos, por mais que a gente vá sofrer até ao fim da vida, mas mostrar e dar ao Pietro que ele era um um irmão maravilhoso, mas o Pietro também é e mostrar aquilo que ele mostrou-nos, né? E graças a Deus está dando certo. O Pietro casou, certo? Já não
vive mais connosco. Nós ganhámos uma nora, que eu digo sempre que é uma filha do coração, não é? Tantas coisas que a gente vê às vezes de malestar, de família, é uma bênção, não é? Portanto, neste assim, eu sou muito feliz, não é, de ter essa bênção, de ter o Pietro, minha nora, o meu marido. Ah, voltando então a esse momento do no dia 27 de janeiro de 2013, a senhora tem a notícia de que o seu filho morreu de uma forma trágica, internacional, porque o seu luto que às vezes deixou de ser privativo e privado e passou a ser noticiado o tempo
inteiro. E aí começa uma nova fase que é em procura, como a senhora falou, da justiça. Uma justiça que demorou muitos anos, foram foi quase uma década de espera. Quando, como é o como foi eh eh as famílias se uniram? Existe hoje como como vocês inclusive porque vocês se tornam uma família única de de da tristeza junto e da procura da justiça, como foi essa espera e como se organizaram para procurar a justiça? Eh, assim, não é, dizer de assim, algo é uma perda de um filho, é algo indescritível. Tu tu vais, a gente vai
carregar o coração, a alma, o teu emocional. Eh, eh, não há como dizer, mas nestes durante nesses 10 anos, eh, às vezes as as pessoas dizem assim, eh, até mesmo uma entrevista, não é, ah, mas isso, eh, vai-te doer, vai magoar-te, vai, ele não vai vir, não vão vir de volta. Claro, não vão, não é? Mas eu e o meu marido, pensamos assim, é em memória deles que estamos a fazer isso, né? Porque às vezes as pessoas também dizem assim, eh, que nós queremos vingança.
Não, só diz isto quem não sabe o que é a perda de um filho. Isto, as pessoas de fora até podem pensar ou julgar que este é vingança. Isto não é vingança, certo? a perda de um filho da forma que foi, é justiça. Portanto, estes 10 anos assim que a gente viveu à espera eh eh a tentar e ver se eh aqui em Santa Maria, quer dizer, lá em Santa Maria tem uma um núcleo de associação, eh, que formam os pais e as vítimas, não é? Até agora o meu marido entrou nesta nesta direção, não é, para fazer para gente ir. E nós fomos também no no júri,
que é algo também muito terrível lá em Porto Alegre. Participámos os 10 dias lá em Alegre e vimos coisas assim que nunca pensei num júri de advogados, pessoas. Até um dos advogados do do dos arguidos um absurdo, ele deu eh até a palavra vulgar deu coice-se no julgamento, não é? no processo todos aqueles horrores de de folhas que havia, não é? Então, fora outra advogada que também do do do dos réusam algumas coisas, uma falta totalmente eh de de ética, eh leram eh livros eh espírita a dizer que era para os deixar descansar. Nós
não estava, nós apenas estávamos, não é? Portanto, tudo isto é algo assim que a gente eh é doloroso para nós, não é? Mas o que mantém é nós querermos esta justiça, porque uma coisa que talvez esta advogada, ela não não vou falar nem não sei quem é, mas o que ela diz sobre esta parte de descansar é vital para a família da vítima que o julgamento exista e que tenha justiça para o caixão ser fechado.
Porque para uma família muitas vezes, me corrige, a senhora que é a pessoa que pode dizer-me isso, mas pelo pela minha experiência com familiares de vítimas, o julgamento é o fechar do caixão mesmo. É o eh fiz consegui pela sua memória, pelo meu respeito, pelo meu amor, por conseguir fazer a sua justiça. Depois, o julgamento não é o o estar a levantar o nome da pessoa em vão, é de facto fechar o caixão e fechar o luto. E foi um luto muito tempo.
Foi um é um ainda vai ser porque foi anulado o julgamento. Portanto, assim, é um luto que não pára. Portanto, assim, a a o julgamento é algo fundamental pros familiares de uma vítima e assim fora a as coisas assim como apenas, não é, que nós temos que ouvir eh das pessoas de fora, não é, como eu disse, de dizerem que aqueles quatro eram trabalhadores.
Não, ninguém está a dizer que não eram trabalhadores, só que praticaram e fizeram coisas de alto risco. uma eh foi provado lá no no julgamento que a aquilo que ele acendeu não podia ser aceso num local fechado, era apenas num lugar externo. Então, qual é o cuidado que teve com aqueles 242, certo? Ã, o a mesma coisa, aquilo que evita de pegar fogo, o extintor foi retirado a mando do dono da discoteca também.
Outra coisa que podia, portanto foi uma vários erros que culminaram toda esta tragédia, certo? E concordo que não poderia ser só estes quatro, só que como as leis, infelizmente, de uma forma nossa aqui no Brasil, o o presidente da Câmara, os bombeiros, têm uma outra vão ser julgados de um outro grupo, de outra maneira, não é? Então, nós não queremos vingança, nós só queremos justiça.
E pela irresponsabilidade de todos estes erros que eu digo assim, eu fico a pensar o que que os nossos filhos e filhas fizeram de crime? Não fizeram crime nenhum para não foram nem eh foram mortos, não tiveram, nem foram condenados, não é? não tiveram direito a nada aquilo ali. E ainda depois com todo o que agora o júrio foi suspenso, nós vamos continuar neste sofrimento ainda, certo? quando a senhora a a uma das partes que tenho visto muito este caso e eu falo, eu compreendo os quatro estarem ali no Banco dos Réus,
mas realmente eu acho que um um absurdo. E depois vou usar uma palavra às vezes que é muito eh pessoal, mas é um caso que eu acho que mexeu com todo o mundo no Brasil de alguma forma. Todo mundo se sente um pouco ligado ao caso, porque assim, a câmara municipal tinha autorizado, o bombeiro tinha ido lá, todo o Ministério Público tinha ido lá de assim, como é que estas pessoas também não foram responsabilizadas, certo, ao assinar assinar um um a autorização de um lugar com uma porta com a com aquele guarda-corpo,
porque houve um incêndio, mas há coisas também dentro da discoteca que foram tomando que permitiram uma proporção ficar ainda maior. maior do do do caos que foram libertados por pelos órgãos competentes. Então não entendo também como estas pessoas, especificamente as pessoas não não sentaram-se também no banco dos réus.
Vocês pediram isso? Vocês tentaram colocar esta responsabilidade também destes pessoas? foi colocado. Só que, assim, os bombeiros já foram julgados, só que não são julgados dentro do juízo comum, não é, dentro das normas deles. Foram regras diferentes. E o presidente da Câmara, a autarquia tem o abraço, não é? Não, não, aquela outra, agora não me lembro do nome, que ele como político não não responde por aquilo.
É, portanto é é todas estas leis, não é, que infelizmente nós no Brasil eh que é absurdo que acontece, não é? É, a única lei é paraa vítima que ela morre, acabou. É, é. Ah, e é por isso que eu digo assim, ó, que agora quem era os, eh, eh, as 242 vítimas mortais que aconteceram, ã, e houve um assassino, alguém os assassinou e daí aí aparece que aparece não, o que nós sentimos é assim, nós como pais e sobreviventes, temos, somos arguidos e que quem aconteceu e quem fez tudo isto são as vítimas, não é? Hum. É.
Hoje a associação, a senhora chegou a e vê a discoteca, a senhora como é ver o lugar? Só só à frente. Nós a gente às vezes alguma data quando completou, não lembro-me 9 anos, fomos lá na a gente, mas lá dentro eu não não a gente vê imagens, coisas que aconteceram, mas lá dentro não fui. E quais quando a senhora quando veio a notícia de que tudo foi anulado? estes 10 dias de julgamento, as condenações, como foi para vocês receber receber esta informação? Olha, é assim, ó, a gente, não é, por todas as estas coisasisas que estavam
a acontecer, a gente eh a gente assim já podia podia ser anulado ou não, não é? Eh, só que eh mais uma vez nós somos a gente é desrespeitado, não é, como vítima, não é, porque a todos os aqueles 10 dias os jurados que fizeram, não é, que foram julgados tudo aquilo ali, eh, a gente fica mais uma vez desnorteado, mas ao mesmo tempo a que mais uma vez nos se reerge e continua a lutar, que a gente vai em memória, não é, deles, dos os nossos filhos e filhas, vamos continuar a lutar e buscando essa essa justiça, não é, que é algo assim
de tantas e tantas vítimas mortais. Vocês não vão desistir, não? Não vamos desistir. É a senhora agora vocês imaginavam que podia ter sido seria anulado, não é? Como lhe disse, a gente até a gente assim eh existia essa possibilidade, mas pensávamos que por ser uma coisa tão e eh tão o número tão grande de mortes, isto é a nível internacional que a justiça, o tribunal não ia acontecer, certo? Mais e agora tem de esperar tudo de novo.
Tem de esperar tudo de novo e não pode esmorecer, não é, dona Elizab? Não pode, não pode desistir, não. Não, não, não, não vamos, jamais. Não vamos. E é, não, com certeza. Dona Elizete, para últimas questões assim, eh, são um bocadinho mais emocionais. A senhora está à vontade de responder se a senhora se sentisse à vontade.
Mas quem é que a senhora acha que seria o Ariel hoje? O Ariel hoje ele seria um profissional muito feliz e realizado, não é? E a fazer aquilo que ele mais gostava, não é? Era cozinhar, transformar algo assim que desde pequeno ele sabia fazer e estava a fazer aquilo que ele gostava. Eu tenho a certeza, sim, que ele era ia ser um adulto profissional, familiar, eh um cidadão muito, muito feliz e eh daria muito orgulho, por mais que ele eh continue e nós assim a memória dele, nós temos muito orgulho no Ariel, porque isso que nos mantém a lutar.
A memória do Ariel. Ah, teria quase 30 anos, certo? Teria 28 anos. Teria 28 anos. Só