Houve um tempo em que um único homem era capaz de controlar o pulso de trinta mil pessoas com um simples aceno de mão. No final da década de sessenta, o Maracanãzinho testemunhou um fenômeno inédito: um cantor negro, elegante, transbordando carisma e autoconfiança, regendo uma plateia inteira em uníssono, transformando milhares de vozes em uma extensão de seu próprio instrumento. Esse homem era Wilson Simonal. No auge de sua trajetória, ele rivalizava em popularidade com Roberto Carlos, viajava com a seleção brasileira de Pelé, comandava programas próprios de televisão e assinava o maior contrato publicitário que o mercado fonográfico do país já havia visto. Simonal não era apenas um sucesso; ele era o primeiro popstar negro da música popular brasileira. No entanto, com a mesma velocidade de uma manchete de jornal, esse império ruiu, dando lugar a um dos episódios mais cruéis e permanentes de apagamento cultural da história do Brasil.
Nascido no Rio de Janeiro no Carnaval de trinta e oito, em uma família sem recursos ou conexões, Simonal parecia destinado à invisibilidade que a sociedade da época impunha aos jovens de sua origem. Contudo, seu talento excepcional pavimentou um caminho diferente. Após descobrir sua potência vocal em um internato e aprimorar sua disciplina cantando hinos no exército, ele decidiu arriscar tudo nas noites cariocas. A virada definitiva veio ao lado do produtor Carlos Imperial, com quem criou a “Pilantragem”, um movimento musical revolucionário que fundia o samba com o soul americano, o funk e os ritmos internacionais. Era uma música essencialmente física, cheia de swing, jinga e uma alegria contagiante que dominou as rádios e as telas de televisão.

Mas a personalidade de Simonal incomodava. Em uma época marcada por tensões sociais e pelo racismo estrutural, um homem negro que ostentava carros de luxo, vestia roupas de alta costura e exibia sua riqueza sem pedir licença não era visto apenas como um artista bem-sucedido. Nos bastidores, sua autoconfiança era frequentemente rotulada como arrogância. Ele havia chegado a um topo que muitos consideravam exclusivo, e a classe artística observava aquela ascensão meteórica com uma mistura de fascínio e ressalva. Esse pano de fundo tornou-se fundamental para o que aconteceria em agosto de setenta e um, quando um erro administrativo pessoal acendeu o pavio de sua destruição.
O estopim da crise envolveu Rafael Viviani, o contador da empresa que gerenciava a carreira do cantor. Suspeitando de desfalques financeiros e desvios no caixa, Simonal demitiu o funcionário, que reagiu acionando a justiça trabalhista. Furioso e agindo por um misto de ingenuidade e arrogância alimentada pelo sucesso, o cantor cometeu o erro mais grave de sua vida: recorreu a conhecidos que integravam o DOPS, o Departamento de Ordem Política e Social, o temido órgão de repressão da ditadura militar. Simonal solicitou que agentes dessem uma lição no ex-contador para obter uma confissão. O funcionário foi levado no carro do próprio artista e submetido a horas de tortura e agressões físicas até assinar um documento falso de culpa.
O caso rapidamente chegou à polícia convencional e à imprensa, resultando em um processo judicial no qual Simonal foi condenado por extorsão mediante sequestro. O erro era real, grave e indefensável. Entretanto, o que eliminou Simonal do cenário cultural não foi a sentença dos tribunais, mas sim uma acusação paralela que ganhou força avassaladora nos bastidores políticos e intelectuais. Um agente do regime declarou publicamente que o cantor era, na verdade, um informante ativo da polícia política, responsável por delatar colegas de profissão e artistas engajados na resistência contra a ditadura.
Sem investigações aprofundadas, o jornal alternativo O Pasquim, um dos maiores símbolos da resistência de esquerda da época, publicou a acusação como uma verdade absoluta. Em poucos dias, os grandes veículos de comunicação reproduziram as manchetes devastadoras. Quase imediatamente, a classe artística inteira virou as costas para Simonal. Colegas de palco, amigos de longa data e gravadoras sumiram sem exigir provas ou dar ao cantor o direito de resposta. Ele foi submetido ao primeiro grande cancelamento da história do país, décadas antes da internet existir.

O banimento foi total e sistemático. Simonal desapareceu das programações de rádio, teve seus contratos publicitários cancelados e foi proibido de pisar nos principais palcos do país. Em menos de dois anos, o homem que arrastava multidões tornou-se um nome proibido. A derrocada financeira veio acompanhada do isolamento e do desenvolvimento de um alcoolismo severo, que passou a consumir sua saúde e sua capacidade de reação. O declínio artístico foi doloroso: o mestre do swing passou a se apresentar em pequenos bares de província e, nos momentos mais dramáticos, chegou a cantar na carroceria de caminhões e a gravar anúncios de supermercados locais para conseguir pagar as contas básicas de subsistência.
Nas décadas seguintes, Simonal iniciou uma batalha solitária e desesperada para limpar seu nome. Sem o apoio de advogados influentes ou espaço na mídia, enviou sucessivas cartas aos órgãos governamentais exigindo certidões oficiais que comprovassem que ele nunca havia feito parte dos registros de informantes da ditadura. Quando os documentos que atestavam sua inocência em relação à espionagem finalmente foram emitidos, a estrutura de sua vida já estava severamente comprometida. A verdade histórica havia chegado, mas tarde demais para salvar o homem.
Em junho de dois mil, aos sessenta e dois anos, Wilson Simonal faleceu em decorrência de complicações hepáticas agravadas pelo alcoolismo. Ele partiu na pobreza, carregando o estigma de traidor e sem receber um pedido de desculpas público daqueles que haviam impulsionado sua queda. Somente anos após sua morte, o Brasil começou a processar o tamanho da injustiça cometida. Documentários premiados, espetáculos teatrais e cinebiografias trouxeram à tona a complexidade dos fatos, demonstrando que o cantor cometeu um crime comum em um momento de fúria, mas foi punido com um banimento perpétuo e desproporcional, impulsionado pelo preconceito estrutural da sociedade. Hoje, o legado da “Pilantragem” e o swing inconfundível de sua voz são preservados por seus filhos, garantindo que o nome de Wilson Simonal ocupe, definitivamente, o posto de genialidade que a história tentou apagar.