O Perturbador Segredo que Marcou a Morte de Daniella Perez
28 de dezembro de 1992. Uma jovem atriz de 22 anos saía dos estúdios da Globo, onde tinha acabado de gravar uma cena com o homem que, poucas horas depois ia matá-la num matagal da Barra da Tijuca. Naquela tarde de gravação, alguma coisa tinha acontecido nos bastidores. Uma coisa que ela viu naquele camarim, leu em silêncio e optou por não contar a ninguém.
4 horas depois, estava morta. Fica até ao fim, porque vais descobrir o que ela tinha visto naquele última tarde de gravações. E qual é o perturbador segredo que marcou a morte de Daniela Perez e que continua mais de 30 anos depois, sem resposta no Brasil. Antes de chegar ao Matagal da Barra, tem uma coisa que é preciso entender, porque o que aconteceu naquela noite de dezembro não começou aí, começou meses antes, dentro do mesmo estúdio onde Daniela e o seu assassino trabalhavam juntos todos os dias. Uma novela que era
a maior audiência da Globo desse ano, escrito pela mãe da vítima, em que assassino e vítima viviam na ficção um romance proibido e em que tudo começou a desfazer-se dia após dia, sem que ninguém da produção se apercebesse do tamanho do que estava a ser construído nos bastidores. Esse homem chamava-se Guilherme de Pádoa e o seu relacionamento com Daniela Perz naquela novela carregava um segredo que o Brasil só começou a entender por inteiro 30 anos depois.
Daniela Perez Gazola nasceu no Rio de Janeiro em 11 de agosto de 1970. Era filha de Glória Perez, uma das maiores autoras de telenovelas do Brasil. cresceu numa casa em que a televisão era assunto de mesa, em que a Globo era praticamente um membro da família e em que a profissão de atriz era apresentada à filha desde cedo como uma possibilidade real, não como sonho distante.
Aos 14 anos, começou a dançar profissionalmente na companhia de bailado de Carlota Portela, no Rio. Treinava como bailarina antes de pensar em televisão. Em 1989, com 19 anos, foi escalada para a primeira novela na Globo. Era a Cananga do Japão. E foi nas suas gravações que conheceu o homem que ia ser o grande amor da vida curta dela.
O seu nome era Raul Gazola, ator consagrado mais velho do que ela. Os dois apaixonaram-se nos estúdios. Em 1990 casaram. Daniela, aos 20 anos, vivia o início de tudo o que uma jovem da geração dela podia querer, com uma família tradicional da televisão por trás, um casamento de amor com um ator estabelecido e uma carreira que começava em ascensão.
Dois anos depois deste casamento, em meados de 1992, a mãe Glória escreveu uma nova novela das . E Daniela foi escalada para um dos papéis centrais. O papel era Yasmim. A novela era de corpo e alma. E foi nessa novela que entrou um ator estreante de Belo Horizonte que ninguém conhecia direito. O seu nome apareceu nos créditos como Bira.
O nome verdadeiro era Guilherme de Pádua. O Guilherme tinha 23 anos quando foi escalado para de corpo e alma. Era de uma família tradicional de Belo Horizonte. Antes da Globo, tinha trabalhou em São Paulo como bailarino e modelo. Era bonito, musculado, ambicioso. Foi escalado para fazer um triângulo amoroso com Daniela Perez e com o jovem ator Fábio Assunção.
Era a oportunidade da vida dele. E desde o primeiro mês de gravações, começou a aproximar-se de Daniela nos bastidores, de uma forma que toda a equipa da novela ia comentar depois nos depoimentos à polícia. Imagine por um momento que esta era a a sua filha, de 22 anos, casada feliz, estreia no horário nobre da TV brasileira, sob a proteção da mãe autora, indo trabalhar todos os dias num estúdio onde, num canto qualquer, um colega de elenco estava a montar contra ela em silêncio, um plano que ela nunca conseguiu imaginar. No dia 28 de Dezembro de 1992,
Daniela foi para os estúdios Tikon em Jacarpaguá gravar uma cena importante da novela. A cena marcava o fim do romance entre Yasm e Bira. Foi a última gravação da vida dela. E foi nessa tarde, segundo testemunhas dos bastidores, que tudo começou a mover-se em direção ao matagal da Barra da Tijuca.
A novela de corpo e alma estreou na Globo a 24 de agosto de 1992. Logo nas primeiras semanas tornou-se um fenómeno. A audiência subiu rapidamente. Os capítulos passaram a ser comentados nos jornais. Daniela Perez, na pele de Yasmirou uma das atrizes mais faladas desse segundo semestre. E Guilherme de Pádua, na pele de Bira ganhou pela primeira vez visibilidade nacional.
era o seu primeiro grande papel numa novela das A montra da Globo, a porta de entrada para a carreira que tinha sonhado a vida inteira. Mas havia uma diferença de tamanho entre a personagem de Bira e a personagem de Yasm na trama escrita por Glória Perz. A Yasmin era central na história, aparecia em quase todos os capítulos e conduzia o eixo emocional do triângulo amoroso com Caio, a personagem de Fábio Assunção e com Bira.
A personagem de Guilherme, em comparação, era secundário, com aparições esporádicas e funcionava na enredo apenas como o obstáculo do romance principal. E foi exatamente essa diferença de espaço que começou a corroer Guilherme de Pádua por dentro. Semana após semana, à medida que ele Percebia que a sua fama dependia inteiramente da disposição da autora em dar mais texto à sua personagem, aqui é onde tudo começa a ficar diferente, porque o Guilherme não tinha um caminho direto para falar com Glória Perz.
A autora dela vivia no Rio, escrevia em casa, evitava os bastidores, mas tinha alguém que circulava por estes bastidores todos os dias e que era filha dela, Daniela. A partir de outubro de 1992, segundo os depoimentos posteriores de colegas de elenco apurados pela revista Veja em Janeiro de 93, Guilherme começou a aproximar-se de Daniela de forma cada vez mais insistente.
Procurava ela nos intervalos das gravações, pedia conversas privadas no camarim e sugeria que ela mencionasse a personagem de Bira conversas com a mãe. Daniela, por todos os os relatos recolhidos depois pela polícia, manteve a postura profissional. Tratava o colega de cena com cordialidade. O que pedia, no entanto, ficava sem resposta.
Os recados para a mãe não eram levados. As decisões de guião continuavam a ser coisa exclusiva de glória, sem qualquer interferência da filha. E essa recusa silenciosa começou algures entre outubro e dezembro a transformar-se em obsessão. Mas Guilherme não vivia sozinho aquela frustração. Em casa, em Copacabana, esperava-o a esposa Paula Nogueira Tomás.
E o que ela ia somar à frustração do marido é a parte da história que ninguém viu chegar. Paula Nogueira Tomás tinha 20 anos em 1992. Era casada com Guilherme há pouco tempo e estava grávida de quatro meses na época das gravações de de corpo e alma. Pelos depoimentos posteriores ao processo, Paula tinha ciúmes intensos do marido.
Acompanhava as gravações da telenovela em casa, através da televisão, via as cenas em que Guilherme aparecia ao lado da Daniela e começou a desenvolver, segundo o que viria a ser apurado depois pela investigação policial e exposto no documentário Pacto Brutal da HBO Max em 2022, uma fixação progressiva pela atriz que o marido contracenava.
Tinha mais uma coisa estranha na vida do casal Páua Tomás. E essa coisa foi apurada por testemunhas dos próprios estúdios da Globo. O Guilherme e a Paula carregavam em viagens, em camarins, em apresentações, uma pequena imagem de gesso, a que os dois davam o nome de Chicão. Era uma figura que cultuavam como se fosse um amuleto, segundo o que os depoentes contaram à polícia.
A natureza exata desse culto nunca foi totalmente esclarecida, mas testemunhas de elenco afirmaram que o casal levava a imagem para perto das gravações e que a tratava com uma reverência que ia para além da superstição comum. Para alguns colegas de bastidor, era uma ligação a uma seita obscura. Para outros era apenas excentricidade do casal.
Paraa a investigação posterior, foi um sinal a mais de que algo dentro daquela relação operava fora dos limites do que parecia normal. Imagine por um momento que esta fosse a colega de trabalho da sua filha, um ator estreante, casado, com a mulher grávida em casa, transportando uma imagem de gesso pelos camarins e pedindo a todos os os dias para a sua filha levar recados para a sua mãe sobre quanto tempo ele aparece na novela.
Esse era o cenário em que Daniela Perz gravava todos os dias sem que ninguém da produção tivesse dimensionado o tamanho do que estava a ser construído ali dentro. Em dezembro de 1992, com a novela a dirigir-se para a reta final, Guilherme começou a aperceber-se nessa última semana antes do dia 28 que a sua personagem ia desaparecer da trama. Yasmim terminava com Caio.
Bira saía de cena e o ator estreante de Belo Horizonte, que tinha encontrado entre corpo e alma a hipótese da vida, ia ser cortado da novela. Em duas semanas, no máximo, o seu nome ia desaparecer dos créditos finais. Aquela última semana de gravação foi, segundo a investigação de Veja, o ponto em que tudo começou a precipitar.
No dia 28 de dezembro de 1992, uma segunda-feira soalheira de verão carioca, Daniela Perez saiu do apartamento dela na Barra da Tijuca, por regresso do meio-dia. Tinha gravação marcado para tarde nos estúdios taikun em Jacarpaguá. A cena prevista era importante, marcava o fim do romance entre Yasm e Bira na trama de de corpo e alma.
Era também, sem que ninguém ali soubesse, a última cena da carreira dela. Guilherme de Pádua chegou aos estúdios na mesma tarde. Os dois gravaram a cena por volta das 3 da tarde, segundo a reconstituição posterior da Globo. Era uma cena emocional em que Yasmin terminava com Bira. A Daniela interpretou conforme o texto. Guilherme contracenou.
A direção aprovou a cena e foi quando os atores se retiraram para os camarins depois de gravadas as últimas tomadas que algo começou a desfazer-se dentro de Guilherme de Pádua. As camareiras dos estúdios Tikun, que circulavam entre os camarins, arrumando figurinos e cuidando da equipa técnica, testemunharam diretamente o que aconteceu nos minutos seguintes.
Depois descreveriam isso em depoimento à polícia. O Guilherme entrou em crise de choro dentro do próprio camarim. Saiu várias vezes para o corredor, andou de um lado para o outro e procurou Daniela mais do que uma vez no camarim ao lado onde ela se preparava para sair. Num desses momentos, segundo as camareiras, Guilherme entregou em mão a Daniela dois bilhetes manuscritos escritos pelo próprio em papel comum.
A Daniela pegou nos bilhetes e leu cada um em silêncio. A expressão dela mudou, ficou nervosa e não disse para ninguém da equipa do que se tratava. O conteúdo exato destes dois bilhetes nunca foi tornado público pela justiça brasileira. Guilherme de Pádua, ao longo dos 5 anos de processo, deu várias versões diferentes do que tinha escrito.
Daniela não conseguiu explicar. Os bilhetes em si nunca apareceram nos autos do processo de forma completa, segundo o que os jornalistas que cobriram o caso documentaram nos anos seguintes. O que se sabe é o que as camareiras viram, que existiram dois bilhetes que foram entregues por Guilherme dentro do camarim, que a Daniela leu nervosa e que a a partir daquele momento da tarde alguma coisa tinha mudado entre os dois atores, que ia ser determinante para o que viria depois.
A versão que Guilherme tentaria sustentar em juízo, anos mais tarde foi a de que os bilhetes eram declarações amorosas à Daniela, que ele estava apaixonado pela colega de cena, que estava a perder o controlo emocional e que a Daniela o tinha rejeitado com palavras duras dentro do camarim.
Mas esta versão tinha problemas, porque os colegas de elenco depuseram na polícia e nos tribunais que nunca tinham visto sinal de relação amorosa entre os dois. Daniela era casada feliz com Raul Gazola. era profissional dentro do estúdio, não tinha demonstrado em momento algum qualquer reciprocidade aos avanços de Guilherme.
E a tese da paixão não correspondida defendida pela Defesa de Pádoa no Tribunal de Júri, foi rejeitada pelos jurados em janeiro de 1997. Mas se os bilhetes não eram declaração de amor, o que lá estava escrito e por A Daniela ficou assim tão nervosa ao ler? Essa é a parte da história que continua. mais de 30 anos depois, sem resposta no Brasil.
E é onde começa o segundo movimento do plano que Guilherme de Pádua e Paula Tomás tinham, possivelmente há semanas em construção dentro daquele apartamento de Copacabana. Por volta das 18 horas, depois daquela cena no camarim, Guilherme deixou os estúdios de taikon e conduziu sozinho até ao seu apartamento em Copacabana.
pegou Paula, que estava em casa. A Paula tinha 4 meses de gravidez. Os dois entraram no carro de Guilherme, um Santana Branco, e voltaram juntos para Jacarpaguá, para os mesmos estúdios em que Daniela ainda estava a gravar outras cenas finais daquele dia. Foi neste trajeto de volta para o estúdio que o Guilherme fez uma coisa que ia provar anos mais tarde a fria premeditação do crime que estava prestes a cometer.
parou o carro num ponto qualquer do caminho, pegou num rolo de fita isoladora preta e adulterou a matrícula do próprio veículo, cobrindo os algarismos originais com a fita, de modo a alterar a leitura visual da placa. Era um gesto preparado, executado com material levado de casa para impedir que testemunhas conseguissem identificar o carro caso vissem alguma coisa naquele noite.
A perícia da polícia ia descobrir esta adulteração nos dias seguintes e ela ia ser uma das provas mais devastadoras contra Guilherme no Tribunal de Júri. A fita isoladora, o Santana branco, a esposa grávida coberta por um lençol no banco de trás e uma jovem atriz de 22 anos ainda dentro dos estúdios, terminando as últimas cenas da vida sem suspeitar de absolutamente nada.
Era a engrenagem completa de um plano que estava em movimento havia horas e que naquela noite de 28 de dezembro ia descer sobre Daniela Perz como o pior dos pesadelos. Por volta das 9 da noite de 28 de Dezembro de 1992, Daniela Perez terminou as últimas cenas do dia nos estúdios taikun. saiu do camarim, atravessou o parque de estacionamento e entrou no seu próprio carro, um Ford Escort branco.
Não percebeu que algures entre a saída dos estúdios e a estrada que ia tomar em direcção à casa, alguém esperava por ela. Esse alguém estava parado dentro de um Santana branco com a matrícula adulterada por fita isolante preta, na berma da via que a Daniela ia precisar de passar para regressar à Barra. No banco de trás daquele Santana, coberta por um lençol, estava a Paula Nogueira Tomás, grávida de 4 meses.
No banco da frente, com as duas mãos no volante, estava Guilherme de Pádua. Quando Daniela passou pelo ponto onde Guilherme estava parado, ele ligou o motor e seguiu-a. Em algum momento do caminho, Daniela parou num posto de abastecimento de combustível para reabastecer. E foi neste posto que dois frentistas, Flávio de Almeida Bastos e Danielson da Silva Gomes, presenciaram a cena que ia ser anos mais tarde a peça central da acusação no Tribunal de Júri contra Guilherme de Pádua.
Os dois funcionários viram o Santana Branco parar atrás do escorte, viram Guilherme sair do seu próprio carro e aproximarem-se de Daniela e viram o ator agarrar a atriz pelo pescoço, dar- um soco na cara dela e colocá-la à força dentro do Santana, com Paula ainda escondida no banco de trás. A sequência foi confirmada pelos dois frentistas em depoimento ao segundo tribunal de júri do Rio e foi, juntamente com a fita isolante da placa uma das provas mais devastadoras contra a tese de crime passional que a defesa de Pádua tentaria
sustentar. Eis onde o pesadelo começa de verdade, porque o que aconteceu nos 20 minutos seguintes aquele murro no posto de gasolina é a parte da história que a A justiça brasileira conseguiu reconstruir só pelo relatório do corpo. A Daniela não saiu mais daquele Santana com vida. Guilherme dirigiu o Santana Branco com a Daniela já dentro do carro, ferida pelo murro no rosto, em direção a uma zona de mataga numa região afastada da Barra da Tijuca.
Era um terreno baldio, escuro, longe da iluminação urbana, conhecido na época como um local onde poucas pessoas circulavam à noite. parou o veículo, tirou Daniela do lugar do pendura à força e ali, naquele matagal, com a Paula Nogueira Tomás ainda dentro do Santana coberta pelo lençol, iniciou-se a sessão de violência que ia terminar com o corpo de Daniela, perfurado por 18 golpes de instrumento perfurocortante.
O instrumento exato do crime nunca foi totalmente esclarecido. Guilherme, em depoimento posterior afirmou que tinha sido uma tesoura. Paula Tomás, na versão dela, falou de um punhal. A autópsia indicou um instrumento de lâmina compatível com o punhal. O que ficou registado no relatório de necropsia, divulgado nos dias seguintes ao crime, foi o que contaram os peritos.
18 perfurações no corpo. Oito delas atingiram diretamente o coração. A causa imediato da morte foi choque hipovolémico, ou seja, perda massiva de sangue. Daniela Perez Gazola, aos 22 anos, morreu naquele matagau entre as 9:30 e as 10 horas da noite, segundo o estimativa do médico legista, sem hipótese de resistência perante um agressor armado.
Mas a parte que ninguém daquele matagau podia prever nessa noite é que Paula Nogueira Tomás não tinha ficado dentro do Santana coberta pelo lençol durante toda a agressão. Em depoimentos posteriores, contradições nas versões dela à polícia indicaram que Paula tinha saído do carro em algum momento e que tinha participado diretamente na execução do crime.
A acusação formal apresentada pelo Ministério Público do Rio em 1993 foi de co-autoria de homicídio qualificado contra Paula Tomás. Anos depois, em 1997, o Tribunal de Júri concordou com a tese da acusação. Paula foi condenada a 18 anos e 6 meses de prisão por participação direta no assassinato. Imagine por um momento que esta cena fosse no terreno baldio mais próximo da a sua casa.
Uma jovem atriz de 22 anos, um casal de elenco da Globo, uma esposa grávida de 4 meses e um instrumento perfurocortante, perfurando o corpo de uma colega de trabalho 18 vezes, oito delas diretamente no coração, sob a luz ténue dos faróis do carro, que tinha sido utilizado para trazê-la até ali. Era esse o cenário em que Daniela morreu, e é o cenário que vai voltar a perseguir o Brasil durante os 30 anos.
seguintes. Por volta das 10 da noite, com Daniela já morta no chão do Matagal, Guilherme e Paula entraram de novo no Santana Branco, saíram do terreno baldio e fizeram o que parecia naquela altura, uma decisão de quem ainda pensava que ia escapar ao crime. voltaram para o apartamento de Copacabana, como se nada tivesse acontecido em casa, Guilherme tomou banho, mudou de roupa e ficou esperando que ninguém ligasse os pontos.
Mais duas coisas nas horas seguintes, derrubaram a sua tentativa de fuga. A primeira foi o aviso de um condutor anónimo. Por volta das 23 horas, o condutor que passava pela via do Matagau viu o Ford Escort branco de Daniela abandonado na berma, sem ninguém perto, com as chaves ainda no contacto.
Estranhou a cena e ligou para o polícia imediatamente. Duas viaturas saíram para o local. Quando os primeiros polícias chegaram, encontraram apenas o escorte e os documentos do carro, que estavam em nome do ator Raul Gazola, marido de Daniela. Um dos polícias foi enviado para a casa do Raul para verificar se tinha alguma informação.
O outro ficou no local, junto ao escorte, em meio ao matagal escuro. E foi exatamente neste momento que o caso teve a primeira reviravolta brutal. O polícia que tinha ficado no acostamento, ao proteger-se da escuridão atrás de uma árvore à beira do matagal, tropeçou no solo em alguma coisa que ele não conseguiu ver de imediato.
Quando se baixou para ver o que era, encontrou o corpo de Daniela Perz. estava imóvel, coberto de sangue, com as 18 perfurações pelo tronco. Era a primeira testemunha policial do crime e o achado alteraria a investigação imediatamente, porque agora a polícia tinha não só um carro abandonado, mas também uma morte para investigar.
A segunda coisa que deitou por terra a tentativa de fuga de Guilherme foi a matrícula do Santana. Uma testemunha do local do crime, ouvida pela polícia nas horas seguintes, declarou ter visto um Santana Branco a sair da região do Matagal por volta das 10 da noite e ter anotado parcialmente a matrícula do veículo.
Os primeiros caracteres desta placa registados pela testemunha foram suficientes para a Polícia Civil do Rio iniciar uma busca por todos os Santanas brancos com placa próxima registados na cidade. Na manhã do dia 29 dezembro, a equipa de investigação foi aos estúdios Tikun em Jacaré Paguá para verificar carros ali estacionados e encontrou um Santana branco de matrícula LM 1115 registado em nome de Guilherme de Pádua, ator do elenco da novela em que A Daniela também trabalhava.
A polícia constatou ainda na fiscalização do veículo, que a matrícula do carro tinha sido adulterada com fita isoladora preta. A fita ainda estava parcialmente colada nos algarismos. Era a prova material que ia derrubar anos depois qualquer tese de crime passional. Uma fita isolante levada de casa, preparada para mudar a leitura da matrícula, era um indício direto de premeditação.
E Guilherme de Pádua, no momento em que a polícia se dirigiu à casa dele em Copacabana com o mandado de condução coerciva, ainda estava tentando manter a versão de que não nada sabia sobre a morte da colega de elenco. Antes da sua detenção, na manhã do dia 29 de dezembro, Guilherme de Pádua fez uma coisa que ficou registada como uma das imagens mais perturbadoras do caso.
Uma coisa que Glória Perz, mãe da vítima, ia carregar ao peito durante os 30 anos seguintes de luta pública pela justiça. Antes da detenção, nessa manhã de 29 de Dezembro, Guilherme de Pado apareceu no velório de Daniela Perez. velou em frente do caixão, cumprimentou colegas de elenco da Globo e falou em voz baixa com a equipa técnica da novela.
E em algum momento, segundo o que ficou registado em fotos de imprensa, Guilherme aproximou-se de Glória Perz, dela própria, da mãe da vítima, da autora da novela, que tinha cortaram o personagem dele duas semanas antes, e abraçou Glória. disse palavras de pesar, fingiu em frente do caixão da própria mulher que ele tinha apunhalado 18 vezes 14 horas antes, ser apenas mais um colega de elenco devastado pela perda.
Glória Perz declararia em entrevistas dadas anos mais tarde, em vários momentos da vida pública dela, que aquele abraço ficou na sua memória como o instante mais perturbador de toda a trajetória do caso. O assassino da filha a consolar a mãe da vítima com a temperatura ainda quente do crime num cemitério do Rio de Janeiro.
A frieza daquele gesto, segundo os termos que Glória Perz utilizou em entrevistas para a imprensa brasileira, é a marca permanente do tipo de pessoa que Guilherme de Pádoa era. Alguém que tinha apunhalado a colega de elenco na noite anterior e que 12 horas depois conseguia abraçar a mãe da vítima com palavras de pesar, sem que a sua voz tremesse.
Mas se pensa que ali terminou a perversidade da história, ainda não chegamos ao ponto mais arrepiante. Porque o que Paula Nogueira Tomás, esposa grávida do assassino, ia dizer anos depois dentro de uma cela feminina sobre o crime que ela própria tinha cometido com o marido, vai redefinir tudo o que o Brasil pensava sobre o caso Daniela Peres.
Na manhã do dia 29 de Dezembro de 1992, depois do velório, Guilherme de Pádoa foi levado para a esquadra. inicialmente negou tudo, sustentando ter ido ao estúdio normalmente nessa tarde e dizendo desconhecer qualquer pormenor sobre a morte da colega de elenco. Mas as provas materiais que a polícia já tinha em mãos eram demasiado pesadas para sustentar a versão.
A fita isoladora na matrícula do Santana, anotada pela testemunha do Matagau, somava-se aos depoimentos dos dois frentistas do posto de gasolina e aos indícios físicos recolhidos pela perícia no veículo e nos pertences pessoais dele. Diante das provas, ainda nesse dia, Guilherme confessou o crime à polícia, mas confessou negando a participação de uma segunda pessoa.
Tentou assumir tudo sozinho. Paula Nogueira Tomás em depoimento em separado nesse mesmo dia, admitiu a presença dela no carro no momento do crime, mas negou ter saído do Santana ou participado nas perfurações. Tentou colocar-se como esposa surpreendida, levada pelo marido a um lugar que ela não sabia onde era, vendo a cena sem poder reagir.
A versão dela tinha um problema, porque o delegado escutou ainda nesse dia uma chamada interceptada. em que Guilherme combinava com a esposa que ia assumir tudo sozinho. A ligação caiu como prova adicional contra os dois. E em 31 de Dezembro de 1992, três dias depois do crime, Guilherme e Paula foram detidos definitivamente juntos num mesmo dia.
Mas a parte mais perturbadora do que viria a seguir é que nenhum dos dois ia voltar a contar a mesma versão dos factos durante os 5 anos seguintes. Cada um, ao próprio modo, ia testar diferentes histórias na imprensa, no inquérito, nos depoimentos preliminares ao tribunal, e nenhuma versão sustentou face às provas materiais.
Guilherme de Pádua, ao longo dos 5 anos que separaram a prisão dele do julgamento final, deu pelo menos cinco versões diferentes do crime à imprensa brasileira. Em diferentes momentos, afirmou que tinha morto Daniela por ciúmes de um suposto caso amoroso, que ela tinha sido morta por engano numa briga banal, que Paula tinha agido sozinha sem o conhecimento dele, que se tratava de paixão não correspondida.
E em alguma das últimas versões tentou pintar Daniela como uma jovem manipuladora que o tinha seduzido e abandonado. Cada uma destas versões durou poucos meses e foi desmentida pela versão seguinte do próprio arguido num ciclo de contradições que minou a credibilidade da defesa perante os jurados.
Glória Perz, no mesmo período, fazia coisa muito diferente. Começou uma campanha pública nacional pela alteração da legislação penal brasileira. Antes do caso Daniela, o homicídio qualificado por motivo torpe não estava listado entre os crimes ediondos pela lei 8072 de 1990. Isto significava que os homicidas, mesmo nos casos mais brutais, podiam progredir de regime após cumprir apenas 1/6 do pena.
A condenação de Guilherme Paula, mesmo que viesse pesada do júri, ia permitir a liberdade, muito antes do que o senso comum considerava justo. E Glória Peres, juntamente com Raul Gazola e com organizações de mães de vítimas, encabeçou um abaixo assinado que atravessou todo o país. O resultado desta mobilização foi um episódio inédito na história do direito penal brasileiro.
Em 1994, ainda antes do julgamento de Guilherme Paula, o Congresso Nacional aprovou uma alteração à Lei 8072. O homicídio qualificado passou a ser oficialmente classificado como crime ediondo. Foi a primeira vez na história do Brasil em que uma lei penal nacional foi alterada por iniciativa popular, proveniente de uma única família de vítima.
O nome dela ficou ligado para sempre à modificação legislativa. Daniela Perez, mesmo morta, alterou a lei do próprio país. Mas a vitória legislativa, por mais simbólica que tivesse sido para Glória Perez, não ia trazer a justiça que a família esperava para o caso individual, porque a alteração da lei só ia valer plenamente para crimes cometidos depois da promulgação.
E o crime contra Daniela cometido em Dezembro de 92 ia ser julgado ao abrigo das regras anteriores, o que na prática significava uma só coisa. Mesmo condenados, Guilherme e Paula iam sair muito antes do previsto. O julgamento de Guilherme de Pádua aconteceu no dia 15 de janeiro de 1997, no segundo tribunal de júri do Rio de Janeiro.
A acusação foi conduzida pelo O procurador Maurício Asaiag com participação ativa do advogado Artur Lavini, que representava a família Peres. A tese da acusação foi de homicídio duplamente qualificado, com motivo torpe e impossibilidade de defesa da vítima. A defesa de Guilherme tentou sustentar o crime passional. Os sete jurados, depois de horas de deliberação, rejeitaram a tese da defesa por unanimidade.
Guilherme de Pádua foi condenado a 19 anos de prisão. Naquele momento, já tinha 4 anos cumpridos em prisão preventiva. Faltavam 15 anos, segundo a sentença, para a liberdade plena. O julgamento de Paula Nogueira Tomás aconteceu a 16 de maio de 1997. 4 meses depois do julgamento do marido. A pena base aplicada foi a mesma do marido, mas a Paula tinha uma atenuante.
No momento do crime, em Dezembro de 92, ela ainda não tinha completado 21 anos. A A legislação penal brasileira da época previa uma redução de pena para os jovens arguidos. Paula foi condenada a 18 anos e 6 meses de prisão. A votação do júri foi bem dividido, [canção] com quatro votos pela condenação e três pela absolvição.
Ao recorrer da decisão, a pena dela foi posteriormente reduzida para 15 anos. E em 1999, 7 anos depois do crime, Paula Nogueira Tomás saiu da prisão em regime de liberdade condicional. Guilherme de Pádoa saiu no mesmo período. Mas se você acha que o capítulo da prisão de Paula Tomás terminou com aquela saída em 1999, está enganado, porque alguma coisa que Paula disse em algum momento do cumprimento da pena dentro de uma cela feminina vai ressurgir 23 anos depois para redefinir tudo o que o Brasil ainda discutia sobre o caso Daniela Perez. Em
julho de 2022, a HBO Max lançou um documentário em três episódios denominado Pacto Brutal, o assassinato de Daniela Peres. A produção dirigida em parceria com a família Perz reabriu o caso para uma geração que não tinha vivido o crime ao vivo nos anos 90. E foi neste documentário que apareceu uma testemunha que ninguém esperava.
O seu nome era Ivana Crespalmer. Ivana tinha visitado, nos anos de cumprimento da pena de Paula Tomás, uma reclusa amiga que estava no mesmo estabelecimento prisional feminino que a coautora do homicídio da Daniela. E foi nestas visitas que Ivana ouviu, de boca da própria reclusa amiga, uma frase que Paula Nogueira Tomás tinha pronunciado em conversa de cela.
A frase que Paula tinha dito, segundo o relato da reclusa a Ivana Crespalmer, era esta: mataria mil vezes Daniela Peres. A única coisa que me arrependo é de não ter morto a Glória O Perz também. A frase foi reproduzida no documentário Pacto Brutal em 2022 com Ivana Crespalmer a aparecer em câmera para confirmar pessoalmente o que tinha ouvido.
A repercussão da revelação foi imediata, porque até esse momento o Brasil ainda discutia se Paula Tomás tinha sido apenas cúmplice manipulada pelo marido obsessivo. A frase de Cela, 23 anos depois do crime encerrou a discussão. Paula Tomás não era apenas cúmplice da história, era protagonista paralela dela. O ciúme doentil dela pela colega de elenco do marido, segundo os termos das próprias palavras dela ditas na cadeia, era genuíno e total.
E o lamento dela, anos depois do homicídio, era de que o crime tinha sido demasiado pequeno, porque tinha matado apenas a filha, sem alcançar a autora da novela. Glória Perz assistiu ao documentário em 2022. Em entrevistas dadas em seguida, ela declarou publicamente que aquela frase tinha sido o golpe emocional mais duro que ela tinha recebido em 30 anos de luta pela memória da filha.
Porque ali, na cela feminina da prisão de São Paulo, onde Paula tinha cumprido a sua pena, ficou registada a confissão crua de uma mulher que não tinha apenas executado um crime juntamente com o marido. tinha imaginado ao longo de meses de gestação, o que faria se pudesse repetir a história e que tinha lamentado, durante o cumprimento da pena, que não tinha alcançado também a autora da novela Glória Perz, que tinha passado três décadas a lutar por justiça, descobriu naquele momento que o ódio da assassina da filha não tinha morrido com a
condenação, tinha apenas mudado de endereço. E Guilherme de Pádoa, do lado dele, tinha feito uma trajetória pública que parecia tirada de um argumento mal escrito de novela. Porque o homem que tinha morto Daniela em 1992, depois de sair da prisão em 1999, decidiu transformar-se em outra pessoa. Literalmente, depois da liberdade condicional, Guilherme de Pádua mudou-se para Belo Horizonte, a sua cidade natal.
tentou voltar à TV sem sucesso, foi rejeitado por todas as estações consultadas e passou a trabalhar em pequenos negócios na capital mineira. Em algures entre 2000 e 2005, segundo o que ele próprio contaria depois em entrevistas, converteu-se ao cristianismo evangélico. Filiou-se na Igreja Batista da Lagoinha, uma das maiores igrejas evangélicas de Belo Horizonte, com sede no bairro do mesmo nome.
Frequentava cultos com regularidade, estudou teologia ao longo dos anos seguintes e em poucos anos foi ordenado pastor da igreja. O homem que tinha esfaqueado Daniela Perez 18 vezes em 1992, passou a subir aos púlpitos da Igreja da Lagoinha, em cultos transmitidos pela internet a falar sobre redenção, perdão e fé.
A sua vida pessoal teve três casamentos depois de Paula Nogueira Tomás. O segundo casamento com uma mulher chamada Paula Maia durou até 2014. O terceiro casamento em 2017 foi com a maquilhadora Juliana Lacerda. Em 2012, Guilherme deu uma entrevista ao programa Domingo Espetacular da Record, no quadro A Grande Reportagem, conduzido de Marcelo Rezende.
Na entrevista contou uma nova versão do crime contra Daniela, diferente das cinco anteriores. Disse que não lhe tinha batido depois de a abordar no posto. Os dois frentistas, ouvidos de novo, contestaram a versão. As entrevistas seguiram, as versões continuaram a mudar. A A imprensa brasileira nunca aceitou a transformação de Guilherme em pastor como sinal de verdadeiro arrependimento.
E foi em 2022, no mesmo ano do documentário Pacto Brutal da HBO Max, que a história de Guilherme de Pádua teve um desfecho que ninguém esperava. Faleceu no dia 6 de novembro de 2022. Um domingo, Guilherme de Pádua estava em casa, em Belo Horizonte. Nessa mesma manhã, segundo o que o pastor Márcio Valadão da Igreja Batista da Lagoinha declararia em transmissão pública na mesma noite, ele tinha estado no culto principal da igreja, sentado no primeiro banco ao lado da terceira mulher, a maquilhadora
Juliana Lacerda. Depois voltou a casa. Algumas horas depois, sofreu um enfarte fulminante. Aos 53 anos, no mesmo ano em que o documentário Pacto Brutal tinha reaberto o caso na opinião pública brasileira, Guilherme de Pádua morreu sem ter dado em vida uma explicação definitiva para o crime que cometera 30 anos antes.
A sua morte foi anunciado algumas horas depois pelo O próprio pastor Márcio Valadão em transmissão em direto pelas redes sociais da Igreja Batista da Lagoinha. As palavras do pastor gravadas naquele domingo à noite foram aproximadamente estas. Pouco antes das 22 horas, recebi o telefonema de uma irmã a falar de um dos nossos pastores que acabou de falecer.
Para mim foi um impacto muito grande, porque hoje de manhã dirigi o culto e estava com a esposa no primeiro banco. A notícia espalhou-se pelo Brasil em poucas horas. A imprensa que tinha acompanhado o caso durante 30 anos, dedicou capas e reportagens à morte do ator que tinha morto Daniela Peres. Os comentários nas redes sociais foram divididos.
Para muitos brasileiros era o desfecho que faltava à história. Para outros era apenas uma morte como qualquer outra, sem justiça emocional para a família Perz. Mas a parte mais perturbadora daquele desfecho é que Guilherme de Pádua, ainda no mesmo ano de 2022, tinha decidido regressar à media, tinha criado um canal de YouTube, tinha um perfil ativo no Instagram e estava a iniciar-se uma nova fase pública de exposição 30 anos depois do crime que tinha cometido, no preciso momento em que o documentário da HBO Max trouxe a história dele de volta ao centro da
conversação brasileira. O canal de YouTube, criado meses antes da morte tinha vídeos curtos em que Guilherme falava sobre a redenção, sobre a fé, sobre transformação pessoal. Nenhum dos vídeos publicados mencionava Daniela Perez pelo nome. Nenhum reconhecia diretamente a brutalidade do crime de 1992.
A estratégia comunicacional dele, segundo análise feita pelos jornalistas brasileiros nos dias seguintes à morte, era construir uma persona pública de pastor convertido que tinha superado um passado obscuro, sem nomear o passado. O O Brasil, na maioria das vezes, não comprou a narrativa e os comentários nos vídeos do canal eram em grande hostis, com as acusações públicas.
Voltando aos pormenores do caso, a presença digital de Guilherme naquele ano de 2022 parecia mais incomodar do que ajudar a imagem dele. E foi nesse contexto, em pleno calor da exposição mediática, que o enfarte chegou. Aqui é onde a história fecha o ciclo completo, porque tudo o que aconteceu entre 28 de Dezembro de 1992 e 6 de novembro de 2022, num arco de 30 anos exatos, junta peças que pareciam dispersas durante todo esse tempo.
Os dois bilhetes entregues por Guilherme a Daniela naquele camarim dos estúdios taikon e nunca totalmente decifrados pela justiça brasileira. A imagem de gesso conhecida por Chicão, que o casal carregava aos camarins e cuja função real nunca foi esclarecida. A fita isolante preta que o Guilherme usou para adulterar a matrícula do Santana prova material da premeditação, o lençol que cobria Paula Nogueira Tomás no banco de trás desse mesmo carro enquanto o marido conduzia em direção ao Matagau.
E o abraço que o Guilherme deu à Glória Perez na manhã do velório, 12 horas depois de lhe ter apunhalado a filha 18 vezes. Estes cinco objetos, estes cinco os gestos são as pegadas físicas do perturbador segredo que marcou a morte de Daniela Perz. E nenhum deles isoladamente contava a história toda. Juntos, desenham o retrato de um casal que tinha planeado o assassinato com semanas de antecedência, de um homem que tinha sido capaz de chorar no camarim para ganhar a confiança dos vítima e depois consolar a mãe desta no
caixão sem que a sua voz tremesse, de uma esposa grávida que entrou num carro com um lençol no banco de trás e saiu de aí 23 anos depois, dizendo que mataria 1000 vezes a mulher que tinha ajudado a matar e de uma família, a família Perez, que teve de enterrar uma filha de 22 anos para alterar a lei penal do próprio país.
Daniela Perz teria a 11 de agosto de 2025 55 anos. Não os teve. O que ela tinha visto, lido ou descoberto naquela tarde de gravação dentro do camarim dos estúdios Ton ficou enterrado com ela. E o perturbador segredo do caso, mais de 30 anos depois, continua sem resposta no Brasil. Paula Nogueira Tomás vive hoje sob outro apelido.
Adotou Peixoto depois de um novo casamento, anos depois da liberdade condicional. está fora do alcance imediato da imprensa há mais de duas décadas, não dá entrevistas, não aparece em público. A frase dela na cela feminino, registado em 2022 pelo documentário Pacto Brutal, foi a última manifestação pública conhecida do que ela ainda pensa na Daniela Perez mil vezes.
Era essa a quantidade de vezes que ela diz que mataria a mulher que ela já tinha matado uma vez. Glória Peres, do lado oposto da história, nunca parou. Continuou escrevendo novelas para a Globo nas décadas seguintes ao crime, com sucessos como Explode Coração em 1995, O Clone em 2001, Caminho das Índias em 2009 e Salve Jorge em 2012.
Em mais de uma entrevista pública dada ao longo dos anos, a autora declarou que transportou a memória da filha em cada novela que escreveu, mesmo quando o tema das tramas era completamente diferente do que tinha acontecido em 1992. O nome Daniela, dito por glória em público, regressava sempre com o mesmo peso emocional, três décadas depois do enterro.
Em paralelo, Glória Perz transformou a luta jurídica numa missão pública. Acompanhou todos os recursos do caso, esteve presente em cada julgamento, falou em todas as comemorações da lei dos crimes ediendos, defendeu durante décadas que a história da filha dela não fosse esquecida pelo Brasil. Em 2022, quando o documentário Pacto Brutal estreou na HBO Max, Glória participou ativamente na produção, deu entrevistas, mostrou arquivos pessoais, reabriu feridas que estavam encerradas há quase três décadas, porque acreditava que a geração mais
jovem precisava de saber o que tinha acontecido em 1992. Mas o que ninguém da família esperava quando o documentário foi para o ar em julho de 2022 é que ia destapar uma ferida específica que estava enterrada dentro de glória há 30 anos. A frase de Paula Tomás na cela. Em entrevistas dadas depois da estreia do documentário, Glória Perz falou abertamente sobre o impacto daquela frase na sua vida pessoal.
Descobrir que a assassina da filha tinha imaginado também matá-la era, segundo as palavras dela próprias, o tipo de revelação que reabria uma ferida que ela achava que tinha aprendido a viver com ela. O luto, como Glória definiu em mais de uma entrevista, nunca termina, apenas muda de forma. E em 2022, depois dessa frase, o luto dela tinha mudado outra vez, transformado em consciência permanente de que o ódio das pessoas que mataram Daniela ainda estava vivo em algures depois de 30 anos.
Raul Gazola, o marido viúvo de Daniela, fez caminho diferente. Continuou na carreira de ator ao longo das décadas seguintes, com aparições mais discretas em comparação com a projeção que tinha tido nos anos 90. Em algumas entrevistas raras dadas ao longo destes anos, falou sobre o luto e sobre a falta que Daniela fez.
manteve, na maioria das aparições públicas uma postura reservada em relação aos pormenores do crime, preferindo concentrar as suas falas na memória da própria esposa. O casamento entre Raul e Daniela, interrompido pela morte da atriz em dezembro de 1992, tinha apenas 2 anos e 5 meses de duração quando foi enterrada. Era um casamento ainda novo, ainda sem filhos, ainda em construção.
E foi esse pormenor que tornou o luto de Raul Gazola particularmente brutal aos olhos da imprensa brasileira, que cobriu o caso nos anos seguintes. Mais do que perder uma esposa, Raul foi privado de viver com ela todas as etapas que um casamento jovem costuma percorrer ao longo das décadas seguintes, desde a chegada dos filhos até à possibilidade de se tornar avô na velice.
Tudo isto lhe foi tirado de uma vez, numa noite, numa auto-estrada da Barra da Tijuca, pelas mãos de um colega de elenco da própria mulher. A novela de corpo e alma teve, depois do crime, dois desfechos diferentes. A personagem Yasmin, vivida por Daniela, foi retirada da trama com a justificação narrativa de uma viagem de estudo ao exterior.
As cenas já gravadas com Daniela foram exibidas até ao capítulo 146, no dia 19 de Janeiro de 1993. Nesse capítulo, atores e equipa técnica prestaram uma homenagem pública à colega assassinada. O personagem Bira, do lado de Guilherme de Pádua, simplesmente deixou de existir. Foi cortado dos capítulos seguintes, sem explicação narrativa nenhuma.
O nome dele não voltou a aparecer nos créditos. Toda a novela foi reeditada, capítulo por capítulo, para apagar a presença do assassino do ecrã gigante da Globo. Os colegas de elenco da novela de corpo e alma, segundo o que muitos deles declararam ao longo dos anos seguintes em entrevistas, nunca conseguiram digerir o que tinha acontecido nos bastidores.
Fábio Assunção, que tinha sido o terceiro vértice do triângulo amoroso Yasm Caiubira na ficção, falou em mais de uma ocasião sobre o impacto pessoal da morte da colega. A imprensa brasileira reportou ao longo dos anos seguintes que o crime tinha deixado uma marca profunda no elenco e na produção da estação.
O caso Daniela Perez, mesmo na esfera da indústria televisiva brasileira, tornou-se marco divisório entre um antes e um depois. A casa em que Daniela vivia com Raul Gazola foi vendida nos anos seguintes ao crime. Mas a memória pública da atriz, segundo o que Glória Perez declararia em diferentes momentos da sua vida pública, permaneceu viva durante décadas no núcleo familiar e na obra escrita da própria mãe.
Os capítulos da novela de corpo e alma em que Daniela ainda aparece foram preservados em ficheiro. As gravações de bailado da adolescência dela feitas na companhia de Carlota Portela, foram guardadas pela família. E toda a história, juntamente com tudo o que foi conquistado em termos de alteração da lei dos crimes ediondos, ficou disponível para a geração mais jovem brasileira no documentário Pacto Brutal de 2022.
A lei dos crimes ediondos, alterada em 1994 pela mobilização nacional, encabeçada por Glória Perz e Raul Gazola, continua em vigor no Brasil. Em três décadas seguintes, [a música] foi aplicada em milhares de casos de homicídio qualificado em todo o país. Cada vez que um tribunal brasileiro condena um arguido por homicídio qualificado nos termos do lei alterada, está a aplicar de forma indireta a memória de Daniela Perez ao caso em apreço.
Era exatamente esse o legado que Glória Perz tinha pedido em 1993, quando começou a campanha pública. Não era a vingança contra os assassinos da filha o que ela procurava. Era a garantia de que outras famílias brasileiras tivessem a proteção legal que ela não tinha tido antes de perder Daniela.
A iniciativa popular liderada pela autora, com abaixo assinado que circulou por todo o país durante meses, é até hoje citada como o exemplo mais conhecido na história brasileira de uma família de vítima que conseguiu alterar a legislação penal nacional a partir da própria dor pessoal. Algures no Brasil, esta noite, uma mãe está a ver o filho ou a filha sair de casa para o trabalho.
Outra mãe, noutro endereço, está à espera do telefonema de boa noite, que confirma que o filho ou a filha chegou bem. Outra ainda em algum apartamento está a dormir sem saber que o telefone vai tocar de madrugada, com a notícia de que tudo o que ela construiu de mais importante na vida acabou na berma de uma estrada qualquer.
Histórias como a de Daniela Perez existem para que estes mulheres entendam antes da hora que a vida das filhas é frágil de uma forma que nenhuma legislação penal consegue corrigir. A lei é importante. Lei é necessário, mas lei não devolve filha. E ninguém devia precisar de perder uma filha aos 22 anos num matagau escuro da Barra da Tijuca, para descobrir que a violência mais brutal cabe dentro do colega de trabalho que sorria todos os dias em frente das câmaras.
Daniela Perez teria 55 anos, não os tem. E a maior atriz da sua geração num verão carioca de 1992, foi sepultada num cemitério do Rio de Janeiro com 18 perfurações no corpo, oito delas no coração, com um casamento de 2 anos interrompido, com uma carreira em ascensão cortada a metade e com uma mãe que ia passar as três décadas seguintes da própria vida, tentando garantir que o Brasil não esquecesse o que tinha sido feito nessa noite.
Glória Perz conseguiu vencer a batalha da memória pública e da mudança legislativa, ainda que a batalha pela justiça plena, no caso individual da filha tenha terminado na prática em 1999, com a saída dos assassinos da prisão. Estes 2 anos e meio que Guilherme de Pádua cumpriu a mais do que Paula Tomás e os 7 anos que cada um cumpriu no total para um crime de homicídio duplamente qualificado ficam até hoje como ferida aberta no sentido de justiça da família e como referência permanente para o debate público brasileiro sobre o que deveria
custar em anos de prisão uma vida humana. Se esta história te fez pensar numa mãe que se conhece, numa filha que amas, ou em alguma jovem da tua família que sai de casa todos os dias para um trabalho onde convive com pessoas que ela pensa conhecer, manda este vídeo para essa pessoa hoje à noite, porque nenhuma família devia necessitar de 30 anos de luta para que a memória de uma filha não seja apagada pelo tempo.
E ninguém devia descobrir tarde demais que a colega de trabalho mais sorridente do estúdio era a esposa do assassino. Daniela Perz foi sepultada uma vez em 1992, mas não pode ser enterrada uma segunda vez no esquecimento.