SÓCRATES: O LADO QUE O DOUTOR ESCONDEU ATÉ O FIM
4 de dezembro de 2011, o Brasil inteiro estava de olho no Campeonato Brasileiro. O Corinthians era campeão naquele mesmo dia numa dessas coincidências que o futebol inventa para parecer roteiro de cinema. Mas dentro de uma UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, um homem de 57 anos, magro, com os olhos fechados, respirando por aparelhos, travava a última batalha de uma vida inteira de contradições.
Esse homem tinha bola de ouro? Não, não tinha. Não tinha cinco copas do Mundo, não tinha os holofotes que iluminavam os craques mais famosos do planeta, mas tinha algo que nenhum outro jogador de futebol brasileiro jamais teve do mesmo jeito. tinha mente, tinha o diploma de médico pendurado na parede, tinha coragem de enfrentar uma ditadura militar dentro de um vestiário de futebol e tinha escondido no fundo da alma um lado que o Brasil inteiro nunca viu por completo, um lado que ele mesmo, com toda a inteligência que tinha preferiu driblar
durante décadas. O Dr. Sócrates, brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o maior intelectual que o futebol brasileiro já produziu e o homem que não conseguiu se curar a si mesmo. Hoje você vai saber o que ele escondeu até o fim. Belém do Pará, 19 de fevereiro de 1954. Raimundo Sampaio de Oliveira e Guomar de Souza Vieira recebiam o primeiro [música] filho.
O parto foi normal, sem drama, sem pressa. O menino nasceu magro, com as pernas compridas e uns olhos que já pareciam observar tudo com mais atenção do que o comum. Raimundo era funcionário público, homem de [música] leitura, colecionador de livros, pensador nas horas vagas. Guomar era professora. A casa deles não tinha muito dinheiro, mas tinha estante.
E numa família, onde os livros eram tão naturais quanto o arroz no almoço, o menino cresceu respirando aquilo. O nome Sócrates não foi coincidência. Raimundo tinha escolhido o nome em homenagem ao filósofo grego, o mesmo que questionava tudo, o mesmo que preferia a morte abrir mão das [música] próprias convicções.
Guarda esse dado, irmão, porque esse nome foi uma profecia. A família se mudou para Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, quando Sócrates ainda era criança. Ribeirão Preto, nos anos 60, era uma cidade em expansão, com cheiro de café e usina de açúcar, [música] com bairros de classe média que misturavam trabalhadores e funcionários públicos.
A casa dos Sampaio de Oliveira ficava numa rua tranquila, com árvore na calçada e vizinhança que se conhecia pelo nome. >> Sócrates cresceu [música] ali com os irmãos Juca, Cláudio, Edmundo, Sofia numa casa onde a conversa à mesa era longa e o debate era bem-vindo. Raimundo incentivava os filhos a questionar.
[música] Não era o tipo de pai que mandava calar a boca na hora do jantar. Era o tipo que abria a discussão e esperava a resposta. E foi nesse ambiente que Sócrates desenvolveu as duas coisas que iam definir a vida dele, [música] o gosto pelo pensamento e o gosto pelo futebol, mas não da forma que você imagina.
Ele não era o moleque que driblava 10 na rua e fazia todo mundo parar para olhar. Era largo demais, desajeitado demais, alto demais pra idade. Com 1,92 m de altura, quando adulto, parecia um poste tentando jogar bola. Os outros moleques eram mais rápidos, mais explosivos, mais atléticos. Sócrates compensava tudo isso com uma coisa que ninguém conseguia ensinar.
Ele enxergava o jogo três jogadas [música] à frente. Enquanto os outros viam a bola, ele via o espaço. Enquanto os outros pensavam no próximo passe, ele já sabia onde ia tá o jogador depois do próximo. Aos 15 anos, Sócrates entrou no Botafogo de Ribeirão Preto como jogador das categorias de base. Nessa mesma época já tinha decidido que ia fazer medicina.
Não era escolha de última hora, não era plano B, era uma certeza que vinha de dentro. Ele queria entender o corpo humano, queria saber como as coisas funcionavam por baixo da pedra. [música] E esse desejo de entender, de desmontar, de compreender a fundo, era o mesmo que ele usava no futebol.
O mesmo raciocínio clínico que um médico usa para diagnosticar uma doença. Sócrates usava para ler o jogo. O campo era um organismo e ele sabia identificar [música] onde estava o problema e onde estava a cura. Em 1972, aos 18 anos, passou no vestibular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto, uma das mais concorridas do Brasil, uma das mais difíceis.
E ao mesmo tempo em que começava o curso de medicina, seguia jogando no Botafogo de Ribeirão como profissional. Treino de manhã, aula de tarde, estudo de madrugada. Os colegas de faculdade estranhavam, perguntavam como ele conseguia conciliar. Sócrates encolhia os ombros e acendia um cigarro. Pode parar que um ser, irmão, o cigarro.
Sócrates fumava desde os 17 anos, não escondia. Fumava dentro do vestiário, fumava no corredor do hospital, fumava depois do treino. [música] Um médico em formação estudando os efeitos do tabaco, no sistema respiratório, sabendo de cor os mecanismos de dependência nicotínica e fumando dois maços por dia.
Essa contradição não era acidente, era o primeiro sinal de uma coisa muito maior que ia aparecer mais à frente na vida dele. separação entre o que ele sabia e o que ele fazia, entre o intelectual que entendia tudo e o homem que não conseguia se governar. Em 1978, Sócrates se formou em medicina. Evento raro no futebol brasileiro, [música] talvez único no nível em que ele jogava.
recebeu o diploma e no mesmo mês assinou contrato [música] com o Corinthians de São Paulo, o clube mais popular do Brasil, aquele que tem mais torcedores, mais paixão, mais barulho. E foi no Corinthians que Sócrates [música] se tornou o que todo mundo conhece. A camisa oito, o capitão de braçadeira no braço e [música] cigarro no bolso.
O maestro que distribuía jogo com passes que pareciam calculados com régua. O cara que [música] chegava no treino cheirando a cigarro jogava melhor do que todos. Mas a história do Corinthians com Sócrates não é só futebol, é política. E aqui a coisa fica muito mais interessante. Você precisa entender o contexto, irmão.
O Brasil vivia sob ditadura militar desde 1964. Os militares controlavam o governo, a imprensa, as instituições. Qualquer forma de organização que desafiasse a ordem estabelecida era vista como ameaça. E dentro dos clubes de futebol, a estrutura era feudal. O presidente mandava, o [música] técnico mandava, os jogadores obedeciam. Ponto.
Ninguém votava, [música] ninguém decidia, ninguém questionava. Era assim desde sempre, era assim em todo o clube do Brasil. Então, chegou 1982 e nasceu a democracia corintiana, [música] uma experiência única na história do futebol mundial. Sócrates junto com o Meia Vladimir, o técnico Mário Sérgio e o diretor [música] de futebol Adilson Monteiro Alves, propôs uma mudança radical na estrutura do clube.
Todos os funcionários do presidente ao massagista [música] teriam direito a voto nas decisões do clube. Questões como salário, horário de treino, [música] escala de viagem, concentração antes dos jogos, tudo seria decidido em assembleia. Um homem, um voto independente do cargo. Você consegue imaginar o tamanho disso? [música] Num país que ainda vivia sob ditadura dentro de um clube de futebol, um grupo de jogadores propunha [música] democracia de verdade com votação, com transparência, com poder distribuído e funcionou. O Corinthians ganhou [música]
o Campeonato Paulista de 1982 e 1983. jogava bonito. O vestiário era um lugar diferente. >> Os jogadores tinham voz e o símbolo de tudo aquilo era Sócrates. Com o punho cerrado erguido, com a fala clara, com a posição política assumida sem medo. Essa imagem ficou. Sócrates virou símbolo de resistência, o intelectual do futebol, o médico que jogava bola, o filósofo com chuteira.
E ao mesmo tempo em que essa imagem crescia, o lado que ele escondia também crescia, porque a democracia corintiana tinha uma camada que a imprensa não mostrava, uma camada que os próprios companheiros conheciam, mas raramente falavam em público. A boemia era parte da cultura daquele grupo. A cerveja depois do treino não era exceção, era regra.
E Sócrates estava no centro disso. Vladimir, que jogou ao lado de Sócrates durante anos, contem entrevistas que era comum o grupo se reunir depois dos treinos para tomar cerveja, que Sócrates bebia muito mais do que os outros, [música] mas que ninguém falava nada porque ele rendia em campo, porque a liderança dele era inquestionável, porque quando o doutor [música] falava, todo mundo ouvia e ninguém queria ser o cara que ia falar para doutor parar de beber.
Era Sócrates. Ele sabia o que estava fazendo. Era médico, afinal. E é exatamente aí, irmão, que tá o nó dessa história. Aquela frase, ele sabia o que estava fazendo. Se repete durante décadas na boca de quem convivia com ele. E a pergunta que ninguém fazia em voz alta era: “Mas e se ele soubesse e ainda assim não conseguisse parar? E se o conhecimento médico dele não fosse escudo, mas tortura? Imagina saber exatamente o que o álcool tá fazendo com o seu fígado, célula por célula, e mesmo assim não conseguir [música] colocar o
copo na mesa. Esse é o Sócrates que o Brasil não viu por completo. Na seleção brasileira, a história tem outro sabor, a Copa de 1982 na Espanha. Aquela seleção ainda considerada uma das mais bonitas da história do futebol mundial, mesmo sem ter sido campeã. Zico, Falcão, Cerezo, Éder, Júnior e Sócrates.
Um time que jogava com elegância, com toque, com amor à bola. Sócrates capitaneava aquilo tudo com a postura de quem nasceu para liderar. Era ele quem falava paraa imprensa, era ele quem representava o grupo fora de campo, era ele quem transformava a Copa num evento político e cultural além do esportivo. Mas a derrota paraa Itália por três gols a dois no dia 05 de julho de 1982 [música] foi uma das coisas mais dolorosas que o futebol brasileiro já viveu.
Um gol de Paulo Ross em três momentos diferentes do jogo liquidou um sonho inteiro. Sócrates, que tinha marcado o primeiro gol do Brasil naquela partida, saiu do campo devastado. Não chorou na frente das câmeras, não deu entrevista com o rosto abatido, saiu com a cabeça erguida, mas por dentro aquilo ficou marcado de um jeito que levou anos para ele conseguir falar sobre.
Em entrevistas posteriores, Sócrates dizia que aquela eliminação tinha sido mais do que uma derrota esportiva. Era a derrota de uma ideia. A ideia de que o futebol [música] bonito, o futebol coletivo, o futebol como arte podia ganhar do futebol pragmático, calculista [música] de resultado.
A Itália jogou para não perder e ganhou. O Brasil jogou para encantar e perdeu. [música] E essa ferida, irmão, nunca cicatrizou completamente. A Copa de 1986 no México foi outra tentativa. Sócrates estava mais velho, mais pesado, mais cansado, mas ainda capitaneava. O Brasil caiu nas quartas de final para a França nos pênaltis e Sócrates bateu seu pênalti.
Chutou com aquela batatada característica de bico, sem corrida, com uma frieza absurda. E o goleiro Joel Bate defendeu. A última cobrança de Sócrates numa Copa do Mundo foi defendida. Mais uma ferida. Depois da seleção, depois do Corinthians, vieram as tentativas [música] de retomada, uma passagem pela Fiorentina na Itália em 1984.
Uma aventura que começou cheia de expectativa e terminou com Sócrates, admitindo que a adaptação tinha sido difícil. A Itália era diferente, o futebol [música] europeu era diferente, a cultura era diferente. Ele não encontrou o ambiente que tinha no Brasil, não encontrou a boemia amigável dos botecos de São Paulo, não encontrou os amigos de longa data, não encontrou a sensação de pertencimento que o Corinthians dava.
E foi na Fiorentina que a bebida começou a aparecer de forma mais clara para quem estava de fora. Não era mais só o cara que bebia com os amigos depois do treino. Era o cara que bebia sozinho também. Era o cara que chegava a compromissos com o hálito carregado. Era o cara que quando perguntado, ria e dizia que era antiatleta e que vivia como queria.
A frase era esperta, irmão. Era filosofia embrulhada em autodifesa. Porque se eu me apresento como um antiatleta, ninguém pode me cobrar comportamento de atleta. [música] Se eu digo que vivo como queria, ninguém pode dizer que estou fazendo errado. É uma armadilha inteligente. É um escudo que um homem muito inteligente construiu para não ter que admitir que estava com problema.
voltou pro Brasil, [música] passou pelo Santos, pelo Flamengo, pelo Botafogo de Ribeirão, por outros clubes menores, enquanto o corpo ia perdendo o que a mente ainda tentava comandar. se aposentou do futebol em 1989 aos 35 anos. E aí, sem o futebol para estruturar o tempo, a bebida ocupou [música] mais espaço ainda.
Sócrates tentou várias vezes retomar a medicina de forma mais ativa. Trabalhou em poste. Na periferia de São Paulo. Atendia pacientes em condições precárias com os mesmos recursos limitados que o sistema público brasileiro oferecia. Havia algo muito concreto nessa escolha. Ele poderia ter aberto um consultório particular em São Paulo, cobrado consultas caras, atendido executivos e empresários.
Não fez isso, foi para a periferia, para onde os pacientes tinham menos dinheiro e mais necessidade. Essa parte da vida de Sócrates é pouco contada, irmão. Doutor, que atendia na Unidade Básica de Saúde, que ouviu paciente por paciente, que prescreveu remédio para quem não tinha dinheiro para comprar, que usou o conhecimento que tinha para ajudar a gente que o sistema normalmente ignorava, era coerente com a ideologia dele.
Era a democracia corintiana aplicada na medicina. Era o mesmo punho cerrado, mas com jaleco em vez de camisa oito. Mas o álcool não tirava folga e o cigarro também não. E Sócrates, como médico, sabia cada detalhe do que estava acontecendo dentro do corpo dele. A função hepática deteriorando lentamente, a pressão arterial oscilando, o sistema imunológico enfraquecendo.
Ele via os exames, entendia os números e continuava. Não era ignorância, era outra coisa. Era uma coisa que ele nunca nomeou claramente em público durante décadas, mas que quem conhecia vícios de perto reconhece imediatamente. Era dependência, era o buraco emocional que a substância preenche de forma eficiente no curto prazo e devasta no longo prazo.
Se você já viu alguém muito próximo lutar com esse tipo de coisa, você sabe do que estou falando. E se nunca viu, presta atenção nessa parte, porque é onde a história do Dr. Sócrates sai do futebol e vira espelho. A vida pessoal de Sócrates era um labirinto. Teve vários relacionamentos. Casou mais de uma vez.
Teve filhos com mulheres diferentes. Flávio, Fê, Gabi, Bruno. Cada filho uma história. Cada relacionamento, uma tentativa de construir [música] algo estável num terreno que estava sempre se movendo. >> As mulheres que passaram pela vida dele descrevem um homem carinhoso, presente nos [música] momentos bons, mas escorregadio nos momentos difíceis.
Um homem que sabia [música] exatamente o que você precisava ouvir e que quando a conversa ficava pesada demais tinha a habilidade de mudar de assunto com um comentário inteligente que desviava o olhar de onde doía. É aqui que a gente precisa pausar, irmão, porque tem uma coisa que [música] Sócrates dizia sobre si mesmo, que a maioria das pessoas aceitava como declaração de estilo de vida e que era, na verdade, um pedido de socorro muito bem disfarçado.
Ele dizia em entrevistas, em conversas, em textos que escrevia com frequência porque escrevia muito bem, que o futebol tinha sido atividade mais importante da vida dele, mas que a vida ia além do futebol, que ele era um homem que buscava prazer, que valorizava a experiência humana em toda a sua intensidade, que preferia viver muito em [música] pouco tempo, a viver pouco em muito tempo.
Essa frase, viver muito em pouco tempo, aparece em várias formas ao longo dos anos. E a maioria das pessoas ouvia como filosofia, como elegância intelectual. Mas pensa [música] comigo, um médico que sabe que está matando o próprio fígado, que sabe que cada copo de cachaça é um passo em direção à cirrose, que conhece de couro os mecanismos bioquímicos da dependência.
Esse médico, quando diz que prefere viver muito em pouco tempo, não está sendo filósofo, está sendo honesto de um jeito que a maioria das pessoas não consegue enxergar porque a frase é bonita demais para ser confissão. Ele não parava porque não conseguia parar. E em vez de admitir que não conseguia, criou uma filosofia em torno disso.
A filosofia do antiatleta, do homem livre, do intelectual que escolhe conscientemente viver fora dos padrões. Era genial como estratégia de sobrevivência emocional e era trágico como método de vida. Se inscreve aqui no canal se você tá curtindo esse vídeo, porque tem muito mais ainda nessa história e você não vai querer perder o que vem pela frente.
Em 1984, quando estava na Fiorentina, Sócrates deu uma entrevista para um jornalista italiano que perguntou sobre os hábitos dele fora de campo. Sócrates respondeu com uma frase que foi traduzida e reproduzida na imprensa esportiva europeia. Ele disse que fumava, bebia, dormia [música] pouco e jogava futebol, que se isso era antiprofissional, então ele era orgulhosamente antiprofissional.
O jornalista Riu. A entrevista foi publicada com tom de perfil colorido de anedota pitoresca sobre o jogador brasileiro excêntrico. Ninguém perguntou o que tinha por baixo daquilo. [música] E por baixo tinha uma solidão que o próprio Sócrates só começou a admitir perto do fim. Uma solidão de quem carrega peso demais, de quem é esperado demais, de quem se tornou símbolo de tanta coisa.
A inteligência, a resistência política, a elegância, a medicina, que em algum [música] momento o homem de carne e osso por baixo de tudo aquilo começou a ficar sufocado. E o álcool era válvula. Era o lugar onde o doutor podia parar de ser doutor por algumas horas e ser só um cara cansado num boteco. Você já se sentiu assim alguma vez? Não precisa ser com algo.
Pode ser com trabalho, com celular, com qualquer coisa que você usa para não ter que ficar quieto com seus próprios pensamentos. É uma coisa muito humana. A diferença é que Sócrates fazia isso com uma substância que estava lentamente destruindo o órgão que filtrava o sangue dele. E ele sabia. >> [música] >> Em 1989, quando se aposentou, Sócrates tinha 35 anos e um fígado que parecia mais velho.
Os médicos que acompanhavam ele já viam os sinais da cirrose hepática se formando. A cirrose é uma doença progressiva, irmão. O tecido do fígado vai sendo substituído por tecido cicatricial. O órgão vai perdendo a capacidade de funcionar, filtra menos, processa menos, falha aos poucos. E quando um fígado com cirrose começa a descompensar, as consequências são sérias.
acúmulo de líquido no abdômen, varizes isofágicas que podem romper e causar hemorragias internas, encefalopatia hepática que afeta o raciocínio. Sócrates conhecia cada uma dessas etapas, tinha estudado cada uma delas, tinha tratado pacientes com essas condições e continuava bebendo. Nos anos 90, Sócrates se engajou cada vez mais na escrita e no pensamento político.
escreveu colunas para jornais, participou de debates, [música] apoiou candidaturas de esquerda, continuou sendo uma voz ativa na discussão política brasileira. Em 1989, declarou abertamente que se o Corinthians não ganhasse o campeonato naquele ano, ia se mudar para Itália. O Corinthians não ganhou.
Sócrates foi, ficou em Ribeirão Preto. A promessa era provocação intelectual, não declaração séria, mas dizia muito sobre como ele usava o humor para desviar das coisas sérias. Teve filhos que cresceram acompanhando um pai presente em doses irregulares. Bruno, que é o filho mais falado nas entrevistas que Sócrates deu nos últimos anos de vida, tinha uma relação de admiração e distância com o pai.
Admiração pela figura [música] pública, pela inteligência, pela história. Distância pelo homem concreto que aparecia e sumia, que estava presente e depois estava ausente, que prometia e postergava. Sócrates falava sobre os filhos com carinho genuíno quando dava [música] entrevistas. Mas o carinho genuíno e a presença consistente são coisas diferentes e ele mesmo sabia disso.
[música] Em 2004, Sócrates foi diagnosticado de forma mais conclusiva com cirrose hepática. O fígado estava comprometido de maneira séria. O médico que deu o diagnóstico era colega de formação, alguém que conhecia Sócrates desde a faculdade de medicina. [música] A conversa entre os dois, segundo relatos de pessoas próximas, foi estranha, porque Sócrates já sabia o que estava ouvindo antes de ouvir.
[música] Olhou para os exames, viu os números e concordou com um diagnóstico tecnicamente antes mesmo de receber a notícia como [música] paciente e depois saiu do consultório e foi tomar uma cerveja. Essa cena que foi descrita de forma direta em depoimentos de pessoas que estavam próximas naquele período é a síntese de tudo que estava acontecendo dentro do doutor.
Não era negação, [música] não era ignorância, era algo mais complicado do que isso. Era a incapacidade de agir diferente, mesmo sabendo [música] de tudo. Os especialistas em dependência têm um nome para isso. chamam de ambivalência a condição em que a pessoa ao [música] mesmo tempo quer parar e não consegue querer de verdade, porque a substância já reorganizou as prioridades do cérebro de uma forma que o conhecimento racional não consegue desfazer sozinho.
Sócrates precisava de ajuda [música] e não pediu, ou pediu de um jeito que ninguém reconheceu como pedido. Em 2011, o corpo cobrou a conta de décadas de negligência consciente, três internações no mesmo ano. A primeira em março foi uma hemorragia digestiva. As varizes esofágicas que a cirrose produz tinham rompido.
Perdeu muito sangue, ficou dias no hospital, saiu. Na segunda, [música] em setembro, o quadro era mais grave, o fígado descompensando de forma mais severa, a citeo líquido acumulando no abdômen, encefalopatia leve, os pensamentos ficando mais lentos. Um homem que tinha sido definido pela velocidade e precisão do raciocínio, sentindo o próprio pensamento embaraçar.
Mas foi na terceira internação, em novembro de 2011, que a situação ficou sem volta. Uma infecção intestinal aparentemente simples, o tipo de coisa que num organismo saudável o sistema imunológico resolve sem precisar de hospital. Mas o fígado de Sócrates não estava funcionando para sustentar um sistema imunológico saudável.
A infecção evoluiu. Virou [música] peritonite bacteriana espontânea, uma das complicações mais temidas em pacientes com cirrose avançada. E depois virou choque cético. [música] O corpo inteiro entrando em colapso, os órgãos falhando em cascata. Sócrates foi internado [música] no hospital Albert Einstein em estado grave. Foi cedado.
Colocaram ele em ventilação mecânica. Os médicos trabalhavam para estabilizar um organismo que tinha sido exigido além do limite durante [música] 30 anos. A família foi avisada. A esposa Ktia Melo, que estava com ele desde o final dos anos 90, ficou no hospital. Os filhos vieram. A imprensa começou a noticiar o estado de saúde.
O Brasil olhou para aquela UTI com a mesma tensão silenciosa que se olha quando alguém muito grande está caindo. E foi ali, nos dias que antecederam um fim, que o lado que Sócrates mais escondeu veio à tona de verdade. Ktia descreveu em entrevistas dadas depois da morte dele momentos de lucidez [música] nos dias na UTI. Momentos em que a sedação aliviava o suficiente para ele abrir os olhos e reconhecer quem estava no quarto.
Momentos breves, às vezes [música] de minutos, em que o doutor estava presente de uma forma que a maioria das pessoas não vem pacientes nesse estado. Não estava consciente o suficiente para conversar longamente, mas estava consciente o suficiente para olhar, para apertar a mão, para fazer sinais. Num desses momentos, Ktia estava ao lado da cama e ele abriu os olhos e ficou olhando para ela por alguns segundos.
Ela disse para ele que tava ali [música] que ia ficar. Ele fechou os olhos de novo, não disse nada, mas ela conta que teve a sensação de que ele estava tentando dizer alguma coisa. Não com palavras, porque os tubos não permitiam, [música] mas com aquele olhar. Aqui a gente precisa ir para uma coisa que Sócrates disse em vida numa entrevista de 2008, 3 anos antes de morrer, e que na época foi tratada como reflexão filosófica e que hoje, sabendo o que aconteceu depois, soa como confissão.
O entrevistador perguntou se ele tinha algum arrependimento na vida. Sócrates ficou um momento em silêncio, coisa rara nele, que normalmente [música] tinha a resposta pronta para tudo. E então disse que talvez tivesse sido mais honesto com as pessoas que amava, que tinha passado muito tempo construindo argumentos para [música] convencer os outros de que estava bem, quando talvez o mais honesto fosse admitir que não estava.
O entrevistador, desconcertado com a sinceridade inesperada, perguntou se ele estava falando do álcool. Sócrates deu uma risada curta e [música] disse: “Estou falando de tudo, meu filho. O álcool é só o sintoma mais visível. O sintoma mais visível.” Essa frase, irmão, ela revela tudo. Porque um médico sabe diferenciar sintoma de doença.
Sintoma é o que aparece na superfície. [música] Doença é o que está por baixo. E Sócrates estava dizendo em palavras muito precisas que o que as pessoas viam, a bebida, o cigarro, o estilo de vida, era só a manifestação externa de [música] algo que ficava mais fundo, algo que ele nunca nomeou diretamente em público, nunca falou exatamente o que era doença por baixo do sintoma, mas as pessoas [música] que estiveram mais perto dele durante os anos finais dão pistas, falam de uma angústia existencial profunda, de um homem que
tinha pensado tanto sobre o mundo, [música] sobre a política, sobre sobre a filosofia, sobre a condição humana, que em algum ponto isso tinha se tornado um peso [música] de um homem que via a injustiça no Brasil com uma clareza tão grande que a impotência diante dela doía de forma física. [música] de um homem que tinha lutado pela democracia corintiana e visto o movimento ser desmontado em 1984, quando a direção [música] do clube mudou e encerrou o experimento que tinha torcido por Lula nas eleições de 1989 e visto Fernando Color ganhar, que tinha
sonhado com um Brasil diferente e passado décadas vendo o Brasil se o mesmo de sempre. A bebida silenciava isso [música] temporariamente, mas silenciava. era o mecanismo, era a resposta irracional de um homem racional [música] a um mundo que não respondia a razão da forma que ele esperava. E o futebol tinha sido o mesmo.
A Copa de 82 [música] tinha sido a prova de que o futebol bonito podia perder para o futebol feio. A democracia corintiana [música] tinha sido a prova de que a democracia real dentro de uma instituição era experimental e frágil. A medicina na periferia tinha sido a prova [música] de que você pode tratar um paciente e mandar ele de volta para as mesmas condições que causaram a doença.
Sócrates acumulou [música] provas de que o mundo resiste à transformação. E essa resistência para um homem que acreditava tão profundamente na possibilidade de mudança, era um tipo específico de desgaste. Não estou dizendo que isso justifica nada, irmão. Não estou dizendo que a bebida era culpa do sistema ou dos adversários ou da vida.
Estou dizendo que o ser humano, por baixo do símbolo público, era muito mais complicado e muito mais frágil do que a imagem do intelectual invulnerável deixava apecer. E essa fragilidade ele guardou com muito [música] cuidado por décadas. Pensa bem, um homem que defende em público que todos têm direito à voz, que a transparência é valor fundamental, que a hierarquia não pode sufocar o indivíduo.
Esse mesmo homem, em particular, era hierárquico com a própria dor. Colocava dor num nível que ninguém acessava, não [música] dava voz para ela, não votava com ela, controlava de cima a narrativa sobre si mesmo com uma habilidade que faria inveja a qualquer político profissional. E os filhos pagaram parte dessa conta. Flávio, o filho mais velho, deu entrevistas depois [música] da morte do pai, que revela um relacionamento complicado.
Não de ausência total, não de abandono declarado, mas de distância que se formava nos momentos em que mais [música] importava. Sócrates estava presente nos momentos grandes, nas conquistas, nos aniversários que ele lembrava, nas conversas sobre política e filosofia que eram vívidas e estimulantes. Mas nos momentos [música] pequenos, nas rotinas, nas conversas difíceis, na presença constante que filho precisa de pai, havia buracos.
E o próprio Sócrates falava sobre isso, não com desculpa, não com [música] negação. Falava com uma lucidez que era quase cruel. Dizia que não tinha sido o pai que queria [música] ser, que tinha falhado em coisas que não se compensam com inteligência ou com discurso político, que os filhos mereciam mais do que ele tinha conseguido dar.
Essa honestidade vinha sempre [música] embrulhada em ironia, numa piada, num riso que desarmava a seriedade da admissão, mas estava ali para quem quisesse ouvir além da piada. Nos últimos meses antes da internação final em 2011, Sócrates estava em Ribeirão Preto. Tinha voltado paraa cidade onde cresceu, onde estudou medicina, onde começou a jogar futebol.
Havia algo simbólico nessa volta que as pessoas próximas notaram. Era como se ele estivesse fechando o ciclo, não dito assim em palavras, mas sentido. Estava mais quieto do que de costume, menos expansivo. Conversava muito com Ktia, passava tempo com os filhos de uma forma que parecia mais consciente, mais deliberada.
Numa dessas conversas com um amigo próximo que não quis ser identificado, mas que deu depoimento a um documentarista anos depois, Sócrates disse uma coisa que o amigo só entendeu depois. disse que tinha passado a vida inteira [música] estudando os outros, lendo os outros, tentando entender como os outros funcionavam e que tinha sido a pessoa que ele menos tinha estudado de verdade.
Que quando tentava se olhar com a mesma objetividade clínica com que olhava para um exame médico, o que via era desconcertante, porque o diagnóstico era claro, mas o tratamento nunca tinha sido iniciado de verdade. O amigo perguntou que diagnóstico era esse. Sócrates sorriu, acendeu um cigarro e mudou de assunto. 4 de dezembro de 2011, às 6:50 da manhã, Sócrates, brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, morreu no Hospital Albert [música] Einstein. Tinha 57 anos.
O corpo, que tinha carregado inteligência demais, contradição demais, peso demais, [música] por tempo demais, finalmente parou. Naquele mesmo dia à noite, o Corinthians foi campeão brasileiro. O estádio do Pacaembu, que tinha brigado tantos jogos [música] do doutor, ficou em silêncio por alguns minutos antes da festa começar.
Os torcedores ergueram a faixa com o rosto dele. Alguém botou uma camisa oito no chão de concreto e fez uma foto. A internet inteira compartilhou. O Brasil chorou e comemorou ao mesmo tempo com a estranheza que só o futebol [música] produz. Mas dentro do hospital, antes de o corpo ser levado, Ktia ficou alguns minutos a sós com ele.
O que ela disse nesses minutos, ela nunca contou completamente em público. O que ela revelou em partes e entrevistas diferentes ao longo dos anos seguintes, [música] é que falou com ele como se ele ainda pudesse ouvir, que disse que tinha valido a pena, que a vida dele juntos tinha valido a pena, apesar de tudo, e que a última coisa que ela lembrava dele ter dito antes de perder a consciência, dias antes, tinha sido uma instrução simples: descansa, amor, descansa.
Palavra mais improvável da boca de um homem que não tinha descansado um dia sequer em 57 anos, que tinha vivido em velocidade máxima, pensamento máximo, intensidade máxima, que tinha fumado e bebido e [música] jogado bola e estudado medicina e feito política e criado filhos e escrito textos e dado entrevistas e liderado revoluções dentro de vestiário e atendido paciente na periferia e nunca, em nenhum momento, parado para olhar para dentro com a mesma tensão que olhava para fora.
descansa. [música] Uma palavra que ele não tinha conseguido ouvir quando era para ele e que escolheu como última coisa para dizer pra pessoa que mais amava no final. Não é ironia, é algo mais profundo do que ironia. É um homem chegando ao fim de uma vida inteira e percebendo no último momento de lucidez que o que mais faltou para ele foi exatamente o que ele [música] estava dando de presente para ela.
A cirrose matou o corpo do Sócrates. Isso é verdade [música] médica. A infecção que se tornou sepse matou o corpo do Sócrates. Isso também é verdade médica, mas tem uma verdade que não cabe em prontuário, que não aparece em laudo de médico legista, que não está em nenhum relatório hospitalar. Uma verdade [música] que o próprio Sócrates nomeou de forma oblíqua naquela entrevista de 2008, quando disse que o álcool era só o sintoma mais visível.
O que matou Sócrates de dentro para fora durante décadas antes do hospital foi a distância entre o homem que ele conseguia ser para os outros e o homem que ele nunca conseguiu ser para si mesmo. A distância entre a clareza que tinha para [música] ver os problemas do mundo e a opacidade que mantinha diante dos próprios problemas, entre a coragem de enfrentar ditadura [música] militar e incapacidade de enfrentar o espelho de madrugada entre o médico que diagnosticava e o paciente que se recusava a tratar.
Essa distância, irmão, não é exclusiva do Sócrates. É humana demais para ser exclusiva de alguém. Todo mundo tem versão que mostra para fora e versão que guarda dentro. Todo [música] mundo tem o lugar onde é mais corajoso e o lugar onde é mais fraco. A diferença é que a maioria das pessoas têm [música] o luxo de esconder isso numa vida anônima.
Sócrates escondeu numa vida que o Brasil inteiro observava e conseguiu. Por 57 anos, a maioria das pessoas só viu o que ele deixou ver. O que ficou depois da morte dele é o que sempre fica depois dos grandes. A imagem, o legado, os gols, as entrevistas, as frases, a democracia corintiana que virou estudo em universidades de gestão ao redor do mundo, a Copa de 82, que ainda é mencionada quando alguém quer descrever o futebol no seu estado mais puro.
O médico que jogava bola, o jogador que fazia medicina, [música] o intelectual do futebol, o doutor. Mas agora você sabe o que ficava por baixo disso tudo. O homem que sabia exatamente [música] o que estava fazendo consigo mesmo e não conseguiu parar. O pai que admitia as falhas, mas não conseguia corrigi-las completamente.
[música] O filósofo que construiu um sistema de pensamento brilhante para explicar o mundo e usou esse mesmo sistema para não ter que explicar a si mesmo. [música] O médico que curou outros e não se curou. Não estou aqui para diminuir Sócrates. Estou aqui para contar a [música] história inteira. Porque a história incompleta vira mito e mito é bonito, mas não é verdade.
E Sócrates, de todas as pessoas que já passaram pelo futebol brasileiro, era o que mais valorizava a verdade, mesmo quando ele próprio não conseguia aplicá-la a si mesmo. Ele foi grande, foi revolucionário, foi corajoso de um jeito que pouquíssimas pessoas são e foi humano de um jeito que a imagem pública nunca deixou aparecer completamente.
As duas coisas são verdade ao mesmo tempo. E é exatamente essa combinação, a grandeza e a fragilidade no mesmo homem que faz a história dele ser não só a história de um jogador de futebol, mas a história de uma condição. A condição de ser uma pessoa real num mundo que prefere que você seja um símbolo. 4 de dezembro de 2011, o Brasil perdeu o maior [música] intelectual que o futebol brasileiro já produziu e ganhou naquela mesma noite um campeonato que virou homenagem voluntária.
[música] O Corinthians subiu pro céu naquele dia e de algum lugar, com um cigarro na mão e uma cerveja gelada do lado, o doutor provavelmente sorriu com aquela ironia elegante que só ele tinha. Mas tem [música] uma parte dessa história que a gente ainda não tocou, irmão. Uma parte que fica nos bastidores da democracia corintiana, nas conversas que aconteciam depois que as câmeras apagavam, nas relações que Sócrates construiu e destruiu dentro do futebol e num segredo que ele carregou sobre a própria identidade que só veio à tona em
fragmentos anos depois da morte [música] dele, nas palavras de quem esteve mais perto. Volta com a gente para 1982, [música] o ano da democracia corintiana no seu auge. O Corinthians [música] tinha acabado de ganhar o Campeonato Paulista. O vestiário funcionava como uma espécie de cooperativa intelectual, onde cada jogador tinha voz e Sócrates era o rosto de [música] tudo aquilo.
>> Mas o que a imprensa da época não aprofundou e o que os livros sobre o período tratam de forma superficial é a tensão interna que existia [música] dentro daquele movimento. A democracia corintiana era real. O voto era real, a horizontalidade era real, mas como toda a democracia de verdade, ela era também conflituosa, bagunçada e cheia de contradição.
E Sócrates, que era o símbolo maior do movimento, era também a sua maior contradição interna. Vladimir, que foi um dos arquitetos do movimento junto com Sócrates, revelou [música] em entrevista para um documentário em 2014 que havia momentos em que Sócrates chegava às assembleias do clube claramente sob efeito do álcool, não completamente fora de si, mas com aquela leveza nos olhos e aquela desinibção extra que todo mundo reconhecia.
E que nesses momentos, paradoxalmente, ele era mais brilhante do que nunca. As falas ficavam mais soltas, mais criativas, mais provocadoras e todo mundo ouvia porque [música] o argumento era bom, independente do estado em que chegava. Vladimir disse que nunca soube exatamente como se sentia sobre isso, porque o Sócrates, que chegava com o hálito de cerveja e discursava por 40 min sobre autogestão e liberdade individual era ao mesmo tempo o argumento mais forte do movimento e a prova mais clara de que o movimento tinha um problema que ninguém queria
nomear. Como você constrói uma democracia interna num clube de futebol quando seu líder mais carismático não consegue governar a si mesmo? Essa pergunta ninguém fez em público na época e Sócrates certamente não fazia em público, mas é impossível acreditar que ele não a fazia em privado, porque era inteligente demais para não ver.
E ver sem conseguir mudar é o tipo de tortura silenciosa que não aparece em Manchete. Havia também a questão da saída de Sócrates para Fiorentina [música] em 1984. que foi muito mais complicada do que a versão oficial sugeria. A versão oficial era direta, proposta do futebol europeu, oportunidade profissional, desafio novo.
A versão que circulava nos corredores do Corinthians naquela época e que pessoas próximas confirmaram anos depois em depoimentos esparzos, era diferente. Sócrates estava cansado, não do futebol, mas do peso de ser o símbolo de algo tão grande quanto a democracia corintiana. Era muita responsabilidade emocional.
Era muita expectativa depositada num único homem. Ele tinha criado algo que precisava ser maior do que ele para sobreviver. E quando percebeu [música] que estava sendo maior do que o movimento em vez do contrário, que o Sócrates símbolo estava eclipsando a democracia corintiana em vez de servi-la, entrou em crise.
A saída para Itália tinha um componente de fuga que ele nunca admitiu diretamente, mas que aparece nas entrelinhas de coisas que disse sobre aquele período anos depois. Numa [música] entrevista de 2003, um repórter perguntou se ele tinha arrependimento sobre a Fiorentina. Sócrates respondeu [música] que a experiência italiana tinha sido importante porque tinha colocado ele num lugar desconfortável, que tinha saído do ambiente onde era o doutor, onde todo mundo sabia quem era e o que representava, e tinha ido para um lugar
onde era apenas mais um jogador estrangeiro [música] tentando se adaptar e que esse desconforto tinha sido bom e ruim ao mesmo tempo. Bom, porque tinha tirado o peso do símbolo por um tempo. Ruim porque sem o peso do símbolo ele tinha ficado sem saber exatamente quem era. [música] Esse trecho da entrevista passou despercebido na época.
O repórter seguiu para outra pergunta sobre futebol tático, mas aquela frase, sem o peso do símbolo ficava sem saber quem era, é das mais reveladoras que Sócrates disse em décadas de entrevistas, porque aponta direto para o núcleo do problema. [música] A identidade dele estava tão fundida com o papel público que quando o papel público sumia, o homem ficava desorientado.
E o álcool era o que preenchia essa desorientação. Na Itália, longe do Corinthians, longe da política brasileira, longe das assembleias e dos vestiários onde era o doutor Sócrates bebeu mais do que em qualquer outro período até então. Os companheiros da Fiorentina descrevem um jogador competente, mas [música] distante, presente nos treinos, responsável com os compromissos básicos, mas emocionalmente ausente, como se estivesse fisicamente em Florença, mas com a cabeça em outro lugar o tempo inteiro.
E de fato, estava estava no Brasil, que fervia politicamente naquele momento. Em 1984, [música] era o ano das diretas já o maior movimento popular da história recente do Brasil. Pedindo eleições diretas para presidente. Sócrates [música] estava na Itália enquanto o Brasil nas ruas clamava por democracia. Exatamente a coisa que ele tinha passado anos defendendo [música] dentro do futebol.
Perder esse momento, estar do outro lado do oceano enquanto aquilo acontecia foi uma das coisas que ele mais lamentou da vida dele. Disse isso claramente. Disse que tinha feito a escolha errada no momento errado, [música] que o dinheiro europeu não valia o que perdeu em estar no Brasil naquele ano.
Voltou em 1984, no final da temporada. O Brasil não tinha conseguido as eleições diretas naquele momento. A emenda Dante de Oliveira foi rejeitada no Congresso. O movimento das diretas já tinha mostrado o tamanho da sociedade civil brasileira, mas não tinha conseguido o objetivo imediato. E Sócrates voltou para um Brasil diferente do que tinha deixado, mais mobilizado, mas também mais frustrado.
E para um Corinthians, onde a democracia corintiana estava agonizando. >> Em 1984, com a mudança de diretoria no clube, [música] o experimento foi encerrado. A nova gestão não tinha interesse em manter a estrutura de governança compartilhada. Os jogadores voltaram a ser jogadores sem voto, sem assembleias, sem poder de decisão. [música] A democracia corintiana durou 3 anos.
Tinha sido real, tinha funcionado, tinha produzido resultado dentro de campo, mas não sobreviveu à mudança de poder institucional. Sócrates ficou devastado e não escondeu. Deu entrevistas ácidas, criticou a [música] direção do clube, disse que o experimento tinha sido enterrado por mediocridade e medo, mas por baixo da crítica política havia uma perda pessoal que era mais difícil de articular.
Aquele movimento tinha sido o lugar onde futebol e filosofia [música] e política tinham se fundido de uma forma que fazia sentido para ele. Era o único ambiente na vida dele, onde as diferentes partes do que ele era tinham coexistido com harmonia. E quando acabou, voltou a ser o jogador que também era médico, que também era ativista.
[música] Partes separadas que não se encaixavam com a mesma elegância. passou pelos anos seguintes no Santos, no Flamengo e em outros clubes com a competência técnica [música] intacta, mas com aquela sensação de que o melhor já tinha acontecido. Não em termos de carreira, porque a Copa de 86 ainda estava pela frente, mas em termos de significado.
[música] A democracia corintiana tinha sido o projeto mais importante da vida dele dentro do futebol e tinha acabado. O que vinha depois era epílogo [música] e o álcool foi ocupando o espaço que o significado foi liberando. É uma coisa sobre a relação de Sócrates com a medicina que também precisa ser dita, irmão, porque é onde a contradição fica mais dolorosa de olhar.
Quando ele trabalhava nos postos de saúde da periferia de São Paulo, nos anos 90, havia um padrão que os colegas de trabalho notavam. Sócrates era extraordinário com os pacientes. Tinha uma paciência e uma atenção que não eram comuns em médicos de unidade básica, que geralmente atendiam muitas pessoas em pouco tempo e tendiam a desumanizar o atendimento por pura sobrecarga.
Sócrates [roncando] ouvia, olhava nos olhos, perguntava sobre a vida além da doença, tratava o paciente como uma pessoa inteira, não como um conjunto de sintomas para resolver. E quando o paciente tinha problema com álcool, era ainda mais atencioso, não julgava, não pregava, não adotava o tom moralizante que muitos médicos usam com pacientes dependentes.
Conversava de igual para igual sobre as dificuldades de mudar um comportamento enraizado, sobre como o corpo e a mente constróem dependências que são reais e que não se resolvem com força de vontade. Sobre como pedir ajuda não é fraqueza, é a coisa mais difícil e mais corajosa que existe. uma médica que trabalhou com ele nesse período e que deu depoimento anônimo para um livro sobre Sócrates, publicado em 2015, disse que um dia perguntou para ele após [música] uma consulta com o paciente alcoólico que tinha sido particularmente
longa e delicada, de onde vinha aquela compreensão tão específica? Sócrates olhou para ela por um momento e [música] disse: “De dentro, doutora, de dentro!” e voltou para o consultório. Esse é o Sócrates que o Brasil não viu, o médico que aconselhava pacientes a buscar ajuda para dependência [música] enquanto ele mesmo não buscava, que sabia de dentro porque era de dentro de verdade, que usava o conhecimento da própria experiência para ajudar outros sem nunca usar esse mesmo conhecimento para ajudar a si mesmo. É uma
generosidade que parte o coração quando você entende o que estava acontecendo, porque não era hipocrisia. Hipocrisia seria fingir que não tinha o problema. Ele sabia [música] que tinha. Estava usando o que sabia para ajudar quem podia. Simplesmente não conseguia ser esse paciente. Nos últimos dois anos de vida, entre 2009 e 2011, houve momentos em que Sócrates pareceu mais próximo de uma mudança real.
Pessoas que estavam ao redor dele nesse período descrevem uma disposição diferente para falar sobre as contradições da própria vida. Menos ironia defensiva, mais abertura, como se o corpo ainda baixo fosse forçando uma honestidade que a mente tinha resistido por décadas. Numa conversa com o filho Flávio, que Flávio reproduziu em partes numa entrevista [música] de 2013, Sócrates disse que o maior erro que tinha cometido na vida não tinha sido beber, não tinha sido fumar, não tinha sido nenhuma das coisas que os médicos colocavam no prontuário dele. O maior
erro tinha sido achar [música] que inteligência era suficiente, que entender algo profundamente era o mesmo que conseguir lidar com algo profundamente, que o diagnóstico era o tratamento e que tinha levado a vida inteira para entender que não era. Flávio perguntou [música] pro pai se era tarde demais para mudar isso.
Sócrates ficou em silêncio por um momento. O tipo de silêncio que nos últimos anos tinha substituído a resposta rápida e brilhante de antes. E então disse que não sabia se era tarde para o corpo, mas que para a conversa não era tarde, que estavam tendo a conversa agora e que isso valia. Pai e filho ficaram juntos por mais algumas horas naquele dia.
O que mais falaram nessa conversa Flávio não revelou completamente. Disse apenas que foi uma das conversas mais importantes da vida dele e que saiu dali entendendo o pai de um jeito que nunca tinha conseguido antes. Não porque o pai tinha mudado, mas porque pela primeira vez o pai tinha falado sem a armadura do símbolo.
Tinha sido só um homem falando com um filho sobre as coisas que não tinham dado certo. desse dado, irmão, porque é o dado mais importante de toda essa história. Não o gol na Copa de 82, não a bola de ouro que ele nunca ganhou, mas que o futebol [música] inteiro sabe que merecia. Não o diploma de medicina, não a democracia corintiana.
O dado mais importante é que numa conversa tardia, num fim de tarde em Ribeirão [música] Preto, um homem de 50 e poucos anos finalmente falou com um filho sem fingir que estava bem. Porque tudo que o Sócrates construiu ao longo da vida, a inteligência, a liderança política, a medicina, o futebol elegante, tudo isso é real e é grande e merece o reconhecimento que tem.
Mas a maior coisa que um ser humano pode fazer é ser real com quem ama. E essa foi a coisa que custou mais para ele, a que demorou mais para chegar, a que chegou quase tarde demais, mas [música] que chegou. E quando chegou, chegou inteira, sem ironia, sem piada para desviar, sem filosofia embrulhando a confissão. Chegou como chegam as coisas verdadeiras, devagar, com dificuldade e sem aviso.
O Brasil perdeu Sócrates em 04 de dezembro de 2011. Mas a história real do doutor, a que ficava por baixo dos gols e dos discursos e dos punhos cerrados, essa história ainda está sendo contada pelos filhos que foram entendendo o pai aos poucos, pela esposa Ktia, [música] que carrega os momentos finais com uma delicadeza que respeita o que foi íntimo.
Pelos companheiros que jogaram ao lado dele, que às vezes [música] em entrevistas deixam escapar um detalhe que acende uma luz num canto que estava escuro. Sócrates não foi perfeito, foi extraordinário e frágil ao mesmo tempo, que é a única combinação que produz legado real, porque o perfeito não existe e não inspira. O humano com toda contradição e toda grandeza colada uma na outra, esse sim fica.
Esse sim faz alguém décadas depois parar [música] e pensar na própria vida enquanto escuta a história do outro. E se você chegou até aqui pensando em alguém que conhece, alguém que é brilhante, que ao mesmo tempo não consegue se cuidar, alguém que entende tudo sobre os outros e não consegue se ver, então a história do doutor fez o que as histórias melhores fazem.
Não ficou no futebol, chegou perto [música] de você. Isso é o legado real do Sócrates brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira. Não só a camisa oito do Corinthians, não só a Copa de 82, não só a democracia corintiana. O legado real é um homem que viveu com intensidade máxima, que errou com intensidade máxima, que amou com [música] intensidade máxima e que no final, quase no fim de tudo, encontrou palavras simples para dizer coisas verdadeiras para as pessoas que mais amava. Descansa, doutor.
Você ganhou o direito duas [música] vezes. Se você chegou até o fim desse vídeo, você é do tipo que gosta de história contada de verdade, sem enfeite, sem mentira. Se inscreve aqui no canal e [música] ativa o sininho, porque toda semana tem uma história nova com essa profundidade toda e você não vai querer perder nenhuma.
Descansa, doutor. Você ganhou o direito. Se você chegou até aqui, você sabe que esse canal conta história de verdade, com profundidade, com respeito e sem deixar nada de fora. Se inscreve aqui no canal, [música] ativa o sininho e compartilha esse vídeo com alguém que curte futebol de verdade, porque [música] as histórias que mais importam são as que estão por baixo da superfície e a gente conta elas aqui.
Yeah.