A TRAGÉDIA que MATOU CHICO ANYSIO aos 80 ANOS — Dividiu os Filhos

A TRAGÉDIA que MATOU CHICO ANYSIO aos 80 ANOS — Dividiu os Filhos

antes de morrer. Aos 80 anos, Chico Anísio apagou um dos seus próprios filhos. Riscou o seu nome do testamento da herança inteira, como se esse filho nunca tivesse nascido. Esse é o papel rasgado que está no seu ecrã agora, o último testamento do maior humorista que o Brasil já teve. E o filho que ele apagou, este, teve que processar a própria família em tribunal para provar que era filho do próprio pai.

 Foi isso que o destruiu. O corpo do Chico parou numa cama de hospital de falência de órgãos. Foi essa a morte que nos saiu jornais. Mas a tragédia que dá nome a este vídeo começou depois do funeral. devagar, sem reportagem nenhuma, foi comendo a sua família por dentro, um filho de cada vez, dividindo os oito irmãos, e mais de 10 anos depois ainda não parou.

 Antes do final deste vídeo, vai entender exatamente como uma família destas chegou a esse ponto. Mas deixa-me adiantar-te seis coisas sobre o Chico Anísio. Seis coisas que a televisão fez questão de não te dizer. A primeira, antes de se tornar o maior humorista da história do Brasil, foi um menino pobre do interior do Ceará, que desembarcou no Rio de Janeiro com 7 anos de idade e entrou na rádio por puro acaso num teste que nem sequer era para ele.

 A segunda, o tamanho exato da glória que esse homem teve. Mais de 200 personagens saídos de uma só cabeça. E vai compreender por que razão a queda desta família doeu tanto. A terceira, o dia em que o O Chico morreu e por o pior desta história só foi acontecer mais tarde por causa de uma coisa que ele tinha deixado escrita e assinado s meses antes de partir.

 A quarta-feira, o dia exato em que a justiça do país apanhou a última vontade de Chico Anísiio e rasgou, anulou. Num motivo tem nome e tem rosto o rosto de um filho que o Brasil viu crescer na televisão. A quinta, o que esta família não conseguiu resolver em mais de uma década. Eu o filho que morreu no meio da luta sem nunca chegar a ver o fim dela.

 E a sexta-feira, a que muda tudo. O homem que deu voz a mais de 200 personagens, cada uma com um jeito de falar que ninguém esqueceu, não conseguiu deixar para própria família uma única palavra capaz de manter os filhos dele na mesma sala. A última fala de Chicoísio foi a única que o Brasil não se riu.

 Fica aqui comigo, porque o que a televisão te mostrou deste homem foi a gargalhada. O que vou contar-te é o silêncio que veio depois dela. Francisco Anísio de Ovilhar Paula Filho no Ceará em 1931. Mas o Brasil nunca lhe chamou assim. O Brasil chamou-lhe Chico. E tudo começou num lugar muito, muito longe das câmaras.

 Maranguape é um pedacinho de chão no interior do Ceará, daqueles que cabem na palma da mão de quem lá nasceu. Foi ali, num sítio que nasceu o menino Francisco. O pai dele tinha uma empresa de autocarro. paraa época. Era um homem de posses. A família tinha sustento, tinha nome na cidade, tinha futuro. E aí, um dia, o futuro pegou fogo.

 Foi isso mesmo. A empresa de autocarros do pai do O Chico ardeu em chamas. O que era uma família arranjada virou da noite para o dia, uma família que precisava de recomeçar do zero. O pai ficou para trás em Maranguape, tentando juntar os cacos. E a mãe, a senhora Haidé, fez as malas. Juntou os filhos.

 O Chico era um deles, com sete, 8 anos, e desceu ao Rio de Janeiro atrás de uma vida nova. Olha esta mulher sozinha. com os filhos pequenos pela mão, chegando a uma cidade grande, barulhenta, onde não conhecia ninguém, sem o marido ao lado, sem o dinheiro de antes. Esse foi o ponto de partida do menino que ia tornar-se o homem mais engraçado do Brasil.

 Uma mãe assustada, uma cidade estranha e a recordação fresca de tudo o que tinha virou Senza no Ceará. E aqui vem a primeira coisa que te prometi. Você deve estar a imaginar que um talento daquele tamanho foi descoberto cedo, que alguém olhou para aquele menino e disse: “Este vai longe”. Pois não foi nada disso.

 A verdade é que Chico Anísiio entrou no rádio, que foi a porta de entrada de tudo da carreira inteira por puro acaso e nem era para ser ele. Quem ia fazer o teste na rádio Guanabara era a irmã, a Lupe. Lupe Gigliote, que também era atriz. O Chico foi junto só para acompanhar a irmã. Foi de boleia no sonho dos outros.

 Só que quando viram aquele rapaz ali parado no corredor, decidiram testá-lo também. E o miúdo do Ceará, que tinha ido apenas para fazer companhia, passou, foi contratado na hora. E há mais, naquele teste de locutor, o Chico ficou em segundo lugar. Sabe quem lhe ganhou? Quem ficou em primeiro? um outro rapaz desconhecido, magrinho, que também estava ali a começar do zero.

 O seu nome era Silvio Santos para um segundo. E imagina esta cena numa salinha de rádio no Rio dos anos 40, dois meninos que ninguém conhecia disputando uma única vaga. Um ia virar o dono da SBT, o outro o maior humorista da história do país. E o maior humorista da história do país tinha ido ali nesse dia só para segurar a mala da irmã.

 Esse acaso, essa entrada pela porta das traseiras, lá na frente ia explicar muita coisa, porque o homem que entrou na rádio, sem querer ser ninguém, acabou por se tornar mais de 200 pessoas diferentes, mais de 200 vozes a sair de uma só boca. Mas para lá chegar, o talento teve de aparecer e ele apareceu cedo.

 Ainda menino, na escola, o Chico já imitava os professores, os colegas, os maneira de cada um falar, fazia com que a turma inteira rir. Ninguém tinha ensinado aquilo a ele. Era um ouvido aguçado daqueles que apanham o jeito a qualquer pessoa e devolvem transformado em graça. Aí veio o reconhecimento. adolescente. Começou a frequentar os programas de caloros das rádios do Rio e de São Paulo, fazendo imitações, e ganhava.

 Ganhava tanto, mas tanto, que chegou a um ponto em que foi proibido de competir, porque não sobrava hipótese para mais ninguém. Em 1947, ele craval o primeiro lugar num programa que era líder de audiências na Rádio Nacional, a maior do país naquele tempo. E depois veio a explosão do rádio pro cinema, das chanchadas para a televisão. Quando a televisão brasileira ainda estava a gatinhar, lá estava ele criando programa, criando personagem, inventando uma forma de fazer rir que ninguém tinha visto antes.

 Foi numa dessas rádios, na Mying Veiga, lá para os anos 50, que nasceu a ideia que ia acompanhá-lo para o resto da vida. Uma escolinha, um professor e os seus alunos. No início, eram apenas três alunos e um quadro de humor no meio da programação. Ninguém imaginava que aquilo, décadas depois ia tornar-se um dos programas mais amados da televisão brasileira, a escolinha do professor Raimundo, o professor que punha toda a gente de castigo, que perguntava o nome de cada aluno e levava de volta uma piada.

Este professor nasceu ali pequenino, num rádio que hoje quase ninguém se lembra mais. E em 1978, a Rede Globo abriu-lhe as portas. Foi aí que Chico Anísiio passou de um grande humorista para o maior de todos. Nestas décadas todas, enquanto o Brasil ria, a sua vida pessoal também se ia costurando.

 E preciso plantar uma ideia na sua cabeça, porque vai precisar dela mais paraa frente. Tico Anísiou seis vezes, teve oito filhos, vários deles tornaram-se artistas também, cresceram dentro daquele mundo de riso, de personagem, de palco. Era uma família inteira amarrada pelo humor. Guarda essa imagem. A família é reunida porque num certo dia 18 de Agosto de 2011, uma data que parece distante agora, mas que vai voltar a esta história, esse mesmo homem já velho, já doente, ia sentar-se com uma caneta na mão e assinar um documento, um simples pedaço de papel. E aquele papel

ia fazer à família dele o que nenhuma piada nunca fez. Lia separar todo mundo. Mas para isso faltava ainda muito. Antes o Chico Anísio ainda ia subir mais alto do que imagina. Agora eu Quero que feche os olhos por um segundo e lembre-se. Recorda as noites em que toda a família se sentava na frente da televisão só para ver os programas dele? Era o Brasil todo junto, da mansão a casa mais simples.

 Do sul ao norte, todos paravam para rir das mesmas piadas, na mesma hora, porque Chico Anísio sozinho era um povo inteiro. Quando entrava no ar, entrava o professor Raimundo de óculos na ponta do nariz. Entrava o ponhinho, entrava o justo Veríssimo, o político mais despudorada da televisão. Entrava o Alberto Roberto, o coronel Limoeiro, o Bento Carneiro.

 Mais de 200 pessoas, cada uma com a sua voz, a sua forma de andar, a sua maneira de falar, e todas as viviam dentro de um homem só. E isto não durou um verão, durou décadas. Foram mais de 40 anos só dentro da Globo. Mais de 40 anos, sendo o nome forte do humor de um país que adora rir. Ele escrevia, ele representava, ele dirigia.

 E ainda sobrava tempo para pintar quadro, para compor música, para gravar um disco. Era uma central de graça que não parava nunca. Pensa no tamanho disto. Um menino que chegou ao rio fugindo de um incêndio, que entrou no rádio segurando a mala da irmã, tornou-se o homem que ensinou três, quatro gerações de brasileiros a rir.

 Os humoristas que vieram depois dele aprenderam todos olhando para o Chico. Ele era o professor do humor brasileiro inteiro, não só o da escolinha. E aqui vem a segunda coisa que te prometi, o tamanho exato dessa glória. Foram 209 personagens criadas por uma só cabeça, mais de 40 anos no topo da maior emissora do país.

 Uma carreira que atravessou a rádio, o cinema, o teatro e a televisão sem descer do alto. E o dinheiro acompanhou o tamanho do nome, anos depois da sua morte. Quando a justiça foi abrir as contas, a imprensa brasileira chegou a estimar o património de Chico Anísio em mais de R milhões deais. Houve gente a falar em R50 milhões.

 150 milhões de um menino que chegou ao Rio sem nada nos bolsos. Era tudo isso. Toda esta glória, todo este dinheiro, toda esta família de artistas. E vejam o que um único pedaço de papel ia fazer com tudo isto, porque tinha uma fenda no meio dessa glória toda. Uma fenda que de fora ninguém conseguia ver.

 Lembras-te que eu te pedi para guardar a imagem da família reunida? Aquela família nunca foi bem uma só família. O Chico casou seis vezes seis e teve os oito filhos espalhados por estes casamentos. Filhos de mães diferentes, criados em casas diferentes, em momentos diferentes da vida dele. Por fora, parecia uma dinastia artística lindíssima, todos unidos pelo riso.

 Por dentro era uma costura frouxa, vários pedaços de família amarrados por um só homem. E enquanto este homem foi vivo, forte, engraçado, dono de tudo, a costura segurava. Ah, pergunta que ninguém fazia nessa altura era mais simples de todas. E quando o fio que tudo segura, se soltar, o que é que sobra? Mas naquele auge ninguém pensava nisso.

 Por fora era perfeito o rei da comédia, o patriarca de uma família de artistas, o homem que o Brasil inteiro amava. Só que o corpo começou muito devagar a cobrar o preço. Em 1996, o Chico sofreu um acidente e partiu a mandíbula. E repara na crueldade disso. O homem cujo trabalho inteiro era a voz, era a cara, era a boca a falar por 200 pessoas, ficou impedido de interpretar os próprios personagens.

 A ferramenta dele era o rosto e foi precisamente o rosto que se partiu. Foi o primeiro aviso, o primeiro sinal de que aquele corpo um dia ia parar. E quando esse dia chegasse, não vinha sozinho, vinha acompanhado de um pedaço de papel. Os últimos anos de Chico Anísiio foram anos de hospital. Aquele corpo que tinha trabalhou toda a vida, que tinha emprestado a voz a mais de 200 pessoas, começou a falhar.

 Foram internamentos, idas e vindas. A saúde se fragilizando aos poucos. O Brasil via cada vez menos o professor Raimundo na ecrã e sem se aperceber bem, o país ia habituando-se devagarinho a uma ideia que ninguém queria encarar, a de que um dia ele já não ia estar ali. O homem que tinha sido a voz, o rosto, a boca de um país inteiro estava a ficar em silêncio.

S antes de eu te contar como tudo isto terminou. E eu vou contar-te com pormenor, deixa-me pedir-te uma coisa bem simples. Se cresceu a rir com esse homem, se o professor Raimundo já fez parte de alguma noite da sua vida, deixa o teu like aqui em baixo e subscreve o canal. Não é por mim, não é para que este tipo de história das pessoas que construíram o Brasil e que a televisão de hoje fez questão de esquecer, continue a ser contada.

 Você fazendo isso ajuda a história do Chico a chegar em mais pessoas da tua idade, combinado? Agora vem comigo, porque é agora que aperta. No dia 23 de março de 2012, num cama do hospital samaritano do Rio de Janeiro, o corpo de Chico Anísio finalmente parou. Falência múltipla de órgãos. Tinha 80 anos e o Brasil parou junto com ele.

 A Globo, a casa dele há mais de 40 anos, abriu a programação inteira para se despedir. Os os jornais, os programas, as pessoas a conversar na fila do pão, todos falava da mesma coisa nesse dia. Tinha morrido o homem mais engraçado que este país já teve. Aquela boca que falava por 200 pessoas tinha-se calado de uma vez só.

 O professor Raimundo não ia pôr mais ninguém de castigo. Foi uma despedida do tamanho do seu nome. Só que enquanto o Brasil chorava no velório, a dor mais funda desta história estava noutro canto, guardada numa gaveta, num papel que quase ninguém tinha lido ainda. Agora preciso te contar a terceira coisa que te prometi.

 7 meses antes de morrer num dia 18 de agosto de 2011. Com a saúde já frágil, Chico Anísio sentou-se e fez o que muita gente faz quando sente que o fim está a chegar. Ele escreveu um testamento, pôs no papel o que queria que acontecesse com tudo aquilo que ele tinha juntado ao longo de uma vida inteira: A fortuna, os bens, o nome, a obra.

 Só que dentro daquele testamento tinha um pormenor que ninguém esperava. O Chico tinha oito filhos e o documento que assinou, pelo seu próprio punho, deixava um deles inteiramente de fora, apagado. Um dos oito filhos do Chico simplesmente não existia na última vontade do próprio pai. Repara no peso disso. E o que ele apagou foi um filho, um filho de sangue que viu crescer.

um filho que, no papel mais importante que o pai ia deixar para trás deste mundo, de repente não estava em lugar nenhum. E a partir desse papel, tudo aquilo que admirava neste homem começa a mudar de cor, porque o Chico que o Brasil conhecia era o pai de todo o mundo, o patriarca, o homem que abraçava todo o país com uma gargalhada.

 Esse mesmo homem, no fim da vida, com uma caneta na mão, decidiu deixar um dos próprios filhos do lado de fora. O que será que se passa no coração de um pai para ele fazer uma coisa destas? Ei, o que será que se passa no coração de um filho quando descobre? Segura essa pergunta, porque ela vai acompanhá-lo até ao fim.

 Porque este filho tem nome e tem rosto. E conhece os dois? O filho que o Chico deixou de fora chamava-se Lug de Paula. E o Lug convivia era próximo do pai. era ator igual a ele. E mais do que isso, o Luke era o seu boneco, aquela personagem da escolinha do professor Raimundo, o aluno que se sentava mesmo em frente do professor para fazer graça.

 Quem fazia o professor Raimundo era o Chico e um dos que faziam aquela sala inteira rir do outro lado era o filho dele, era o Lug. Quer dizer, pai e filho partilharam o mesmo palco, a mesma cena, o mesmo público, o mesmo riso durante anos, o Brasil viu os dois ali lado a lado, fazendo uma família inteira rir junto.

 E foi precisamente esse filho, o que estava do lado dele no palco, que desapareceu do papel no final. O parceiro de cena passou a ser o ausente da herança. A gente não sabe o que passou pela cabeça do Lugo no dia em que este descobriu, mas não é preciso muito para imaginar o que um homem sente ao ler o próprio nome em falta na última palavra do Pai.

 Era como se, no fim de tudo, o lugar dele ali ao lado do pai tivesse sido apagado com uma borracha. E se você está a pensar que a tragédia desta família foi esta, o filho deixado de fora. Preciso de te avisar de uma coisa agora. Isto foi só o início, porque nesse preciso momento, quando o Brasil ainda estava a limpar as lágrimas pela morte do Chico, quando toda a gente achava que o pior já tinha passado, o conteúdo daquele testamento veio a público.

 E o que aconteceu a partir daí? Partiu essa família bem no meio e abriu uma guerra que mais de 10 anos depois ainda não terminou. Quando uma pessoa grande morre, a primeira coisa que vem é o ruído, as homenagens, as reportagens, as flores, o velório cheio. Foi assim com o Chico. Durante alguns dias, o nome dele esteve em toda a parte.

 Ei! Aí, como acontece sempre, o barulho foi passando, as câmaras foram embora atrás da próxima notícia as flores murcharam e o que sobrou no lugar de toda aquela festa de despedida foi um silêncio de sala de espera. O silêncio de uma família numerosa que de repente ia ter de se sentar junta para resolver o que o pai tinha deixado para trás.

 E esta família, você já sabe, nunca foi bem uma só família. O que era para ser rápido começou a arrastar. Um ano, 2 anos, três, o inventário do Chico, que é este nome que se dá pro processo de dividir o que a pessoa deixou, não andava. E cada ano que passava, em vez de aproximar os filhos, afastava mais. Em vez de resolver, complicava.

 O que era para ser uma despedida tornou-se um processo. O que era para ser luto tornou-se disputa. E quanto mais o tempo passava, mais aquela costura frouxa que segurava a família ia soltando-se, ponto por ponto. E agora eu preciso que guarde um pormenor. Vai parecer pequeno agora, mas é a chave de tudo.

 Chico Anísio passou toda a sua vida escrevendo falas. deu voz a mais de 200 personagens e cada um tinha uma forma de dizer que ninguém se esquecia. O professor O Raimundo tinha o seu, o Painro tinha o dele, o justo Veríssimo tinha o seu. O O Brasil ria-se de cada uma destas falas, mas houve uma última fala que o Chico escreveu fora de qualquer programa, fora de qualquer personagem.

 A fala dele mesmo, aquele testamento. E essa, a última de todas foi a única fala do Chico Anísio, da qual ninguém se riu. Pior, mais de 10 anos depois, este discurso ainda não terminou de ser lida. Segura esse detalhe. A última fala a que ninguém riu. Porque lá no fim desta história, quando ela voltar, vai perceber tudo de uma só vez. Imagina a cena.

 Anos depois da morte, os filhos do Chico, que cresceram a partilhar o mesmo apelido, o mesmo palco, o mesmo pai famoso, agora se falando através de advogados. Gente que se conhecia desde criança, mandando o recado um para o outro. em papel timbrado. O telefone que antes era para combinar um almoço de família, agora tocava para falar de processo, de prazo, de conta.

 Há coisa mais triste do que isso. Uma família que o país inteiro via rindo juntos na televisão e que na vida real já nem conseguia sentar-se na mesma sala. De um lado, foram se juntando alguns dos filhos. Do outro ficou viúva Amalga de Paula, a última esposa com quem o Chico foi casado durante 14 anos logo após a morte. Foi ela quem ficou responsável por organizar o inventário, por cuidar dos bens.

 Mas com o tempo os filhos começaram a discordar da forma como as coisas estavam a ser conduzidas. E a família, que já estava rachada, dividiu-se de vez. A viúva de um lado, vários dos filhos do outro. Lembra-se da costura frouxa que lhe falei lá atrás? O fio que segurava tudo era o Chico.

 E o Chico já não estava lá para segurar. E foi aí que as palavras pesadas começaram a sair. Eu vou-te repetir o que cada lado disse com as próprias palavras deles e julga sozinha. De um lado, o Nizo Neto, um dos filhos do Chico, também ator e humorista, foi num podcast falar sobre a herança do pai. disse que o pai, esse homem que a imprensa estimava em mais de 100 milhões, não deixou nada, que tinha sido, nas suas palavras, muito roubado, que o Chico não conferia nada, confiava em todo o mundo, era um péssimo homem de negócio. E chegou a dizer que a única

herança decente que recebeu do pai foi um livro. Do outro lado, a viúva, amalga. Num outro depoimento, ela disse uma frase que pesa igual, que quase 10 anos depois da morte do Chico, ela não recebeu qualquer cêntimo da herança, que o património dela estava bloqueado, que tinha sido privada de todos os direitos e que isso, palavra dela, a adoeceu.

Espera, ouve de novo as duas frases, uma do lado da outra. Um filho a dizer que o pai não deixou nada e que foi tudo roubado à viúva, dizendo que não viu um tostão e que ficou doente por causa disso. Os dois lados sobre a mesma herança, sobre o mesmo homem, e nenhum dos dois com o dinheiro na mão.

 E olhe, eu não estou aqui para condenar ninguém, porque esta não é a minha função e não é a sua. São as versões de cada lado. O Nizo acusa, Amalga nega. Ela diz que nunca recebeu nenhuma acusação formal, que não pegou um único cêntimo, que se tivesse roubado uma agulha em 11 anos, todo mundo já saberia. Quem tem razão, só a justiça pode dizer: “Eu só te estou mostrando os dois lados da mesma mesa”.

E o fundo do poço desta história não estáonde imagina. Morrer aos 80 anos. Depois de uma vida inteira de glória, fazendo rir um país inteiro até que é um fim bonito. O fundo do poço veio depois disso. É uma família de artistas querida pelo Brasil inteiro, transformada em dois lados de um processo. É o riso virando recibo.

 É o amor a virar advogado. Mas como é que se chega a um ponto destes? O que é que aconteceu exatamente? para a justiça do país ter que entrar no meio desta família. Pois é é isso que eu preciso de te contar agora. E aqui vem a quarta coisa que eu te prometi. O dia em que toda a história virou.

 Em 2020, 8 anos depois da morte do Chico, a justiça do Rio de Janeiro fez uma coisa que quase nunca acontece. Um juiz lá no segundo juízo da família da A Barra da Tijuca pegou no testamento de Chiconísio, aquele papel que o homem tinha assinado pelo seu próprio punho, e declarou ele nulo, sem efeito, como se nunca tivesse existido.

 E o motivo é o que faz doer ainda mais esta história. No Brasil, a lei não deixa um pai apagar um filho da herança. Por mais dono que a pessoa seja daquilo que é dela, metade do que ela tem pertence por direito aos filhos. É o que a lei chama de legítima. E como Chico naquele testamento dispôs de tudo do património inteiro, deixando um filho de fora, o documento feria a lei. Por isso foi anulado.

 Mas presta atenção em quem teve de ir até ao justiça para lutar por isso. Foi o próprio Lug, o filho apagado, o seu boneco. Foi ele quem precisou de entrar na justiça contra os próprios irmãos e contra a viúva do pai para obrigar a lei a reconhecer uma coisa que devia ser a mais óbvia do mundo, que era filho do Chico Anísio, que tinha o direito de existir nesse papel.

 Pensa nisso com calma. Um homem teve de processar a própria família para provar que era filho do próprio pai. Deixa-me parar aqui um segundo, porque esta parte merece silêncio. O homem que deu voz a 209 pessoas, o homem cuja palavra era lei dentro do humor brasileiro, que escrevia de noite o que todo o país ia repetir no dia seguinte.

 A última palavra desse homem, a vontade última dele, escrita, assinada, registada em notário, foi apanhada pela justiça e rasgada, anulada, o carimbo da lei dizendo alto e bom som, isto aqui não vale. Não pode valer. A voz que mandou no riso de um país inteiro, no fim, não teve direito nem à própria última frase. O que é que isso significa lá no fundo? Significa muito mais do que dinheiro.

 O que o Chico tentou fazer por último, a decisão mais íntima que um homem pode tomar, que é escolher o que deixar para cada filho, foi precisamente a decisão que todo o país, através da lei, disse que não podia ter tomado, porque ele tentou tirar um filho. E uma pergunta fica a martelar no ar. O que será que aconteceu entre este pai e este filho para um homem chegar ao fim da vida e querer apagar o próprio sangue de um pedaço de papel? Ninguém de fora sabe.

Talvez nem eles soubessem bem. Mas o estrago ficou para todos verem. E talvez pense: “Bom, mas pelo a justiça resolveu, anulou o testamento, agora a família faz as pazes e divide tudo direitinho.” Foi o contrário disto. Anular o testamento não fechou a ferida, abriu mais. Porque sem o papel para seguir, tudo voltou paraa mesa, tudo voltou a ser motivo de briga.

 E aquela família que já estava rachada, ficou mais dividida do que nunca. A guerra que parecia que ia acabar só estava a começar de verdade. Se está a sentir um aperto no peito agora, eu sei, eu também sinto contando. E é por isso que eu te peço de novo. Se esta história tá a meter-se contigo, comenta aqui em baixo uma só palavra.

 Comenta, Chico, para eu saber que chegaste até aqui comigo. E se ainda não se inscreveu, faça-o agora, porque a parte mais difícil desta história ainda está por vir. E eu quero contar-te ela até ao fim, do meu jeito, sem pressas. Agora respira comigo e volta lá para o início, naquela imagem do professor Raimundo a pôr a sala toda de castigo, o país inteiro a rir junto, as famílias todas reunidas em frente da televisão para rir das mesmas piadas na mesma hora.

 Esse era o homem, o homem que mais família brasileira juntou. em volta de uma gargalhada. E olha onde a história dele foi parar. No único lugar onde não conseguiu juntar ninguém dentro da própria casa. Vamos falar de hoje ou de quase hoje, porque esta história, diferente da maioria que eu te conto aqui, não terminou. Ela continua a acontecer agora, enquanto me ouve.

 Passaram os anos, 5, 10, mais de 10 anos depois de o Chico ter morrido. Ei, o inventário. Aquela divisão dos bens não fechou. uma família inteira com advogados, com dinheiro, com nome e mais de uma década depois ninguém tinha conseguido pôr um ponto final naquilo. E cada ano que passava, em vez de aproximar de uma solução, enterrava mais fundo qualquer possibilidade de paz.

 O tempo que costuma curar nesta família só apodrecia. E aqui entra a quinta coisa que prometi-te, a mais difícil de todas. O que ficou por resolver? Tem uma grande diferença entre uma tragédia que acaba e uma tragédia que não pára. A morte do Chico foi uma dor, mas foi uma dor com fim. Choras, tu em terra, segue-se a vida.

 Já o que veio depois da morte foi uma dor sem fim. Uma ferida que ninguém deixou cicatrizar, porque cada vez que parecia que ia fechar, alguém cutucava de novo. Olha só o tamanho da confusão. No início, como eu te contei, foi a viúva, a Malga, que ficou responsável por cuidar dos bens, por tocar o inventário. Mas em 2017, um dos filhos, o Bruno Mazeu, que talvez que conheça, ator e argumentista de muito sucesso na televisão de hoje, entrou na justiça e conseguiu tirar a malga a este função. A acusação dele foi dura.

 Ele falou em incompetência e omissão na hora de gerir o que o pai tinha deixado. E foi assim que o Bruno passou a ser o responsável pelo inventário no lugar dela. Depois o buraco só foi ficando mais fundo. Segundo uma reportagem da revista Veja de 2022, quando os herdeiros foram finalmente dividir uma parte das propriedades avaliadas em cerca de R$ 4 milhões deais, eles descobriram que tinha uma dívida pendurada de quase 7 milhões.

 Você ouviu direito? Mais dívida do que bem para dividir é dentro dessa dívida. Segundo a mesma reportagem, tinha mais de R$ 1.400.000 só de IMI e condomínio que não tinham sido pagos. Os filhos foram para tribunal pedir que Amalga prestasse contas de rendas de umas lojas, num shopping, de um apartamento. Contas que, segundo eles, não teriam sido prestadas.

 E a Malga, do lado dela, sempre negou ter feito o que quer que fosse errada. Repara no absurdo desta conta. O homem que a imprensa estimava em 150 milhões deais e os seus filhos mais de 10 anos depois a lutar em cima de 4 milhões com 7 milhões de dívida por cima. Para onde foi o resto? Cada labo tem uma resposta diferente e nenhuma das respostas, nenhuma devolve mesmo a paz para aquela família.

 Eu já vi muita história de herança neste mundo e elas têm sempre uma coisa em comum. Ninguém entra numa luta destas e sai do mesmo forma que entrou. A briga come os amos da pessoa, come os natais que não foram passados ​​juntos, os aniversários que ninguém ligou, os netos que cresceram sem conhecer os tios.

 O dinheiro até pode aparecer no fim, mas os anos perdidos do caminho, esses ninguém devolve. É sábio que ficou mesmo sem resolver. O dinheiro tornou-se o assunto da briga, mas a perda real desta família é mais simples e mais triste do que qualquer conta bancária. Uma família que o Brasil inteiro viu rir junta durante décadas e que não conseguiu mais, nem para enterrar a briga, sentar-se na mesma mesa.

 Filhos que dividiram o apelido de um dos homens mais amados do país viraram nomes num processo um contra o outro. Esta é a herança que o Chico deixou para eles. Os 150 milhões foram o de menos. O que sobrou mesmo foi o silêncio entre os filhos dele. E no meio desta briga toda que se arrastava ano após ano, aconteceu a parte mais cruel de todas.

 Um dos filhos do Chico não chegou a ver o fim. O seu nome era Cícero. Cícero Chaves. Era DJ. Era produtor musical, filho do Chico com uma das esposas anteriores. E em julho de 2021, o Cícero morreu. Tinha 39 anos. 39 anos. Deixa assentar. Um homem que passaram quase 10 anos da sua vida, metido numa luta pela herança do pai. 10 anos de processo, de advogado, de mágoa acumulada.

 e foi-se embora a meio do caminho. Morreu antes daquilo terminar, antes de ver qualquer ponto final, antes de receber talvez qualquer coisa. A briga continuou depois dele. O processo seguiu sem ele, como se a guerra fosse maior do que as próprias pessoas metidas nela. É nesta altura que o peso real desta história bate certo.

 Uma disputa de herança que ocupa quase 10 anos da vida de um homem e ainda o leva antes do fim. Já tinha deixado de ser sobre dinheiro há muito tempo. Já era só dor. Dor que passa de um para o outro, de ano para ano e que não se gasta nunca. Pode imaginar que uma briga dessas de família rica acontece tudo às portas fechadas no escritório do advogado, longe dos olhos das pessoas.

 Não foi o caso. Esta briga em algum momento, transbordou. Saiu dos tribunais e foi parar o local mais exposto que existe hoje, na internet, nos podcasts, nos entrevistas. E a cena era esta, a família de um dos homens mais queridos do Brasil, aquela mesma que o país viu rir junta durante décadas, agora lavando a roupa suja em público, indo cada um num programa, num microfone contar a sua versão.

 O país que um dia se riu com o Chico assistia agora do lado de fora aos filhos e a viúva dele acusando-se um por um. A intimidade da família tornou-se conteúdo. Tornou-se assunto de fim de semana. De um lado, o nízo Neto. Eu já disse-te que ele foi a um podcast e disse que o pai não tinha deixado nada, que tinha sido tudo mal gerido ou roubado, pois não se ficou por aí.

 Em outro momento, nas redes sociais, o Nizo respondeu diretamente à viúva. disse que ela vinha dando palavras dele, entrevistas bizarras, sempre se colocando-o como vítima, e pôs a culpa da demora de 10 anos do inventário, mais uma vez na incompetência e omissão dela enquanto inventariante. Do outro lado, a Malga não se calou quando soube que o Nizo tinha sugerido que a herança era roubada.

 Ela respondeu com firmeza: “Disse, e eu estou a repetir as palavras dela. Não considero que ele esteja falando de mim, porque se ele realmente estiver, teremos um problema grave. Ele terá de provar o que está a dizer. Ele terá de provar. Quatro palavras que resumem 10 anos de guerra. É isso que torna-se uma família quando o amor acaba e sobra apenas a herança.

 Vira a gente exigindo que a outra forneça no papel o que está a acusar. E a malga foi mais longe na defesa dela. Quando perguntaram se as contas estavam a zero, ela rebateu com uma pergunta que, convenhamos, faz sentido. Se não houvesse nada em conta, existiria razão para a gente estar discutindo na justiça.

 Quer dizer, se não tivesse sobrado nada, porquê tanta briga? Ela também fez questão de dizer que em todos estes anos nunca chegou nela nenhuma acusação formal de ter roubado coisa nenhuma e soltou uma frase que ficou marcada que se ela tivesse roubado uma agulha sequer em 11 anos o mundo inteiro já conheceria a versão da Malga é que o desejo do Chico era que os filhos ficassem com uma parte e ela com a outra.

 Uma divisão que os filhos contestam até hoje. Então, olha onde a gente chegou. De um lado, um filho dizendo que desapareceu tudo. Do outro a viúva dizendo que não apanhou nada e que se tivesse apanhado o mundo saberia. Dois lados, duas verdades que não cabem juntas. E no meio um juiz, uma pilha de processo e o nome de um homem que já não estava mais aqui para dizer o que ele de facto quis.

 E essa história a essa altura, deixa de ser apenas o Chico Aníejo e passa a ser sobre todos, sobre a sua família, sobre a minha. Porque quantas famílias conhece que se rasgaram por causa da herança? Quantos irmãos deixaram de se falar por causa de uma casa, de um terreno, de uma conta no banco. Achamos que isso é coisa de gente rica, de quem tem milhões.

Acontece com a herança de 150 milhões do Chico Anísio. E acontece com a herança da casinha da Volá interior. É o mesmo veneno, apenas altera o tamanho do número. O dinheiro tem esta coisa terrível. Ele expõe o que já estava ali escondido as mágoas antigas, os ciúmes de infância, o filho que se sentiu menos amado, o outro que achou que cuidou mais.

 Enquanto o pai está vivo, ninguém fala quando o pai morre e deixa os bens. Tudo isto vem à tona de uma só vez. E o Chico, sem querer, deixou o terreno perfeito para que acontecer. Muita coisa para partilhar, muita mágoa guardada e nenhuma palavra final que valesse para segurar a paz. E chega a grande ironia desta história a que te venho trazendo esta noite inteira.

 Há mais um pormenor que eu preciso falar-te sobre esse fim. E ela envolve o filho que morreu. O Cícero envolve uma frase que a viúva disse, uma frase tão pesada, tão carregada de ironia, que quando ouvir, vai perceber de uma vez por que é que esta família nunca mais foi a mesma. Mas antes de eu dizer-lhe isso, eu preciso que você lembra-te de uma coisa que eu plantei lá atrás a meio do vídeo.

 Lembras-te quando eu falei da última fala do Chico? A única fala dele da qual ninguém se riu, aquela que ainda não tinha terminado de ser lida, segura-a mais um bocadinho, porque agora no fim ela vai voltar e vai fechar tudo. Lembra-se do Cícero, o filho do Chico, que faleceu em 2021, aos 39 anos, no meio da luta, sem ver o fim da nada.

 Eu disse-te que tinha um pormenor sobre a morte dele que te ia fazer perceber o tamanho real da tragédia dessa família. Este detalhe veio da boca da própria Malga, a viúva, e é de cortar o coração, porque mais ou menos na mesma altura em que o Cícero estava a morrer, a Malga também estava a lutar pela própria vida.

 Foi internada, ficou em estado grave, chegou a entrar em coma. Os dois, a viúva e o enteado, que estavam em lados opostos daquela guerra, adoeceram quase ao mesmo tempo. Um não resistiu, a outra acordou. E quando a Malga falou sobre isso, num depoimento, ela disse uma frase que não me sai da cabeça. Ouve com atenção.

 Ela contou que alguns dos filhos foram mais radicais, que não nem quiseram sentar-se para conversar. E aí emendou. Um deles morreu enquanto eu estava em coma. Olha que ironia da vida. E completou dizendo que este filho tinha 39 anos. e que tinha passado quase 10 anos a lutar com ela para receber uma coisa que, segundo ela, nunca ia receber.

 Pára tudo e pensa no peso desta cena. Dois seres humanos que se tornaram inimigos por causa de um dinheiro, os dois à beira da morte ao mesmo tempo. Um vai-se embora aos 39 anos. a outra corda de um coma para descobrir que o adversário dela tinha morrido enquanto ela dormia. E chama-lhe a ironia da vida. E eu preciso dizer-te com toda a honestidade, houve muita gente que ouviu este discurso da Malga e revoltou-se.

 O próprio Niso, irmão do Cícero, achou um desrespeito ela usar o nome do irmão morto deste jeito, num tom de ironia. sendo que o Cícero já não estava ali para se defender. E compreendo quem se revoltou. Mas também não vou condenar a Malga, que passou por um coma, que enterrou o casamento e quase enterrou a própria saúde nesta luta.

 Eu estou aqui só para te mostrar até que ponto uma herança é capaz de levar pessoas que um dia foram família, até o leito de morte, até ao coma, até ironia. E eis que chega a sexta e última coisa que te prometi. Aqui muda tudo. A verdade de hoje é esta. Mais de 10 anos depois da morte do Chico Anísio, esta herança ainda não foi dividida, ainda está em disputa.

 A viúva continua dizendo que não recebeu um tostão. Os filhos continuam a cobrar contas. O espolo não fecha. A guerra que começou com a sua morte segue aberta, viva, respirando mais de uma década depois. E agora quero que te lembres daquela coisa que eu plantei ali no meio do vídeo. A última fala do Chico. Lembra-se? Eu disse-te que o Chico deu voz a 209 pessoas e que cada uma tinha um discurso inconfundível, um discurso que o Brasil inteiro repetia e ria.

 O homem que conseguiu dar a 209 pessoas diferentes uma voz perfeita, eterna, inesquecível. Este homem não conseguiu deixar paraa própria família uma única palavra capaz de manter os filhos dele na mesma sala. E a última fala que o Chico escreveu na vida foi aquele testamento de tudo o que pôs no papel em mais de 60 anos de carreira, foi a única de que ninguém se riu.

 E é a única que mais de 10 anos depois ainda não terminou de ser lida. Por que enquanto a herança não se dividir, enquanto os filhos não se entendem? Aquela última fala do Chico continua ali aberta no meio da mesa, à espera de um ponto final que não chega. O maior contar de histórias que este país já teve não conseguiu escrever o fim da própria história.

 E é assim que fecho consigo, sem apontar o dedo para ninguém, porque depois de tudo o que eu te contei esta noite, não consigo te dizer quem é o vilão desta história. A malga perdeu o marido, ficou doente, jura que nunca viu o dinheiro. Os filhos perderam o pai e sentem que foram passados ​​para trás. O que rasgou esta família é uma coisa mais velha e mais triste do que qualquer um deles.

 É o que o dinheiro e a mágoa fazem com qualquer casa, quando o amor que segurava tudo vai-se embora. Volta comigo uma última vez para aquela imagem lá do início. As famílias de todo o Brasil reunidas na frente da televisão, numa qualquer noite rindo juntas do professor Raimundo. Pais, filhos, avós, todos na mesma sala, rindo da mesma piada na mesma hora.

 Este era o presente que o Chico Anísio dava ao país. Ele juntava as famílias e a família dele, a dele próprio, foi a única que não conseguiu manter junta. Os filhos que cresceram a dividir o palco com ele hoje não conseguem partilhar nenhuma mesa. O homem que se sentou o Brasil inteiro para rirmos juntos não conseguiu sentar os próprios filhos para fazer as pazes.

 Põe a mão no peito comigo agora e pensa na sua família, nos seus irmãos, nos seus filhos, nos netos. Pensa em como é fácil, mais fácil do que gostamos de admitir. Uma vida inteira de amor vira a pó por causa de uma querela de herança. Acontece nas famílias mais simples e acontece, como acabou de ver, até na família do homem que mais fez rir este país.

 O Chiconizio deixou-nos mais de 200 personagens, uma vida inteira de riso, memórias que vão durar enquanto existir televisão neste país. Esse é o belo legado, o que ficou para todo o mundo. Mas para dentro de casa, pros próprios filhos, deixou uma ferida que até hoje ninguém conseguiu fechar. Este tem algo para levar desta história.

É simples. resolver o amor enquanto todo o mundo ainda está vivo. Porque depois, com a pessoa já no caixão e o testamento em cima da mesa, é tarde demais. Aí já não há piada que repare. Se essa história mexeu consigo, como mexeu comigo, faz uma coisa por mim. Partilhe este vídeo com alguém da sua família.

 Pode ser a forma mais simples de lembrar a quem se ama. que mágoa nenhuma, herança nenhuma, vale mais do que sentar todos na mesma mesa enquanto ainda vai a tempo. Eu espero por ti no próximo e cuida de quem é seu.

 

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