MINHA ESPOSA LEVOU O VASO DE UM TÚMULO PARA CASA… E NUNCA ESQUECI O QUE VIVI NAQUELA SEMANA c

MINHA ESPOSA LEVOU O VASO DE UM TÚMULO PARA CASA… E NUNCA ESQUECI O QUE VIVI NAQUELA SEMANA c

Quando a minha mulher pegou naquele vaso de um túmulo que parecia abandonado no cemitério em 1988, achando que não tinha problema nenhum, ninguém imaginava o que aquilo ia trazer para dentro da nossa casa. Na mesma noite, começaram os barulhos. No outro dia, as flores que ela tinha acabado de colocar no vaso já estavam secas e com um cheiro que não tinha explicação.

 Foi então que comecei a desconfiar que a gente tinha mexido em coisa que não devia. E depois de uma discussão com o minha mulher, fui sozinho até ao cemitério tentar encontrar algo que a fizesse mudar de ideias para devolver aquilo. E o que o funcionário me contou sobre aquele túmulo fez-me compreender o que realmente era aquele vaso e o que a gente tinha feito.

 O meu nome é Anísio Ferreira Campos, tenho 76 anos e esta é a minha história em minutos. Naquele Domingo, em 1988, Fui juntamente com a minha esposa até ao cemitério municipal do Faxinal. Era costume nosso, todos os meses visitar o túmulo da mãe dela. A gente ia sempre de manhã, antes do sol se tornar demasiado forte. Levava um balde de água, um pano e um bouquet de flores fresquinhas cortadas do nosso próprio quintal.

 Aquele domingo começou como qualquer outro, sem qualquer sinal de que ia ser diferente. Chegamos ao cemitério e fomos logo para o túmulo da mãe dela. Limpamos tudo com calma. Tirei o pó ao azulejo com o pano molhado. Ela trocou as flores velhas pelas novas que tinha trazido. Terminámos rápido e ainda era cedo. Foi então que ela nos sugeriu dar uma volta pelo cemitério antes de ir embora. Eu não via nenhum nisso.

 O lugar estava bastante calmo naquele dia, quase deserto. Não tinha sequer funcionário à vista, nem outros visitantes por perto. Só a gente e o silêncio dos jazigos ao redor. Caminhamos devagar, olhando os nomes nas lápides, comentando alguma coisa aqui e ali, sem pressa nenhuma. Foi nesta caminhada que ela deixou de repente diante de um jazigo mais afastado dos outros, num canto mais isolado do cemitério.

 Era um túmulo simples, feito de alvenaria, com azulejo já meio rachado e sujo de bolor em alguns pontos. O mato tinha crescido bastante nas juntas do pavimento em redor da base, dando aquele aspecto de lugar esquecido há muito tempo. Em cima do túmulo tinha um vaso de louça branca. com flores completamente secas dentro dele.

 Não eram flores murchas de poucos dias, eram flores secas verdadeiras, quebradiças, com aquela cor de palha que só aparece depois de muito tempo sem água nenhuma. Dava para perceber só de olhar que ninguém passava ali há meses. Minha esposa ficou parada a olhar para aquele vaso durante algum tempo, sem dizer nada, e depois disse que era uma pena um vaso daquela qualidade ficar largado daquela maneira, perdendo-se ali no meio do mato.

 disse que ia levar para casa, que ia dar um jeito nele e que ninguém ia sentir falta de um vaso que já estava esquecido fazia tanto tempo. Não gostei da ideia. Disse-lhe que aquilo não era certo, que não devíamos mexer em coisa de cemitério que não era nosso, ainda para mais apanhar um objeto de cima de um túmulo alheio.

Não é que eu fosse de acreditar em assombração ou coisa parecida, mas desde pequeno aprendi que o cemitério é um lugar que merece respeito e não se mexe no que não é seu. Ela insistiu, disse que eu estava a exagerar, que era só um vaso velho, sem dono nenhum por perto para reclamar. disse que aquilo era desperdício, que até dava pena ver um objeto bonito daquele jeito, tomado pelo tempo.

 Fomos indo e voltando na conversa. E eu, sinceramente, sem grande ânimo para brigar por causa de um vaso, acabei por concordar. E no momento em que ela baixou-se e pegou no vaso com as duas mãos, senti um vento forte passar muito perto de mim. O estranho é que o dia estava completamente parado até àquele instante, sem uma brisa sequer, nem as árvores em redor tinham se mexido antes disso.

 Foi um vento rápido, forte e desapareceu da mesma forma que veio. Olhei para ela, na esperança de ver alguma reação, mas ela continuou tranquila, segurando o vaso, ajeitando ele nas mãos, sem demonstrar ter sentido absolutamente nada. Perguntei se ela tinha reparado naquele vento e ela só me olhou meio sem compreender.

 Disse que não tinha reparado em nada de diferente. Fiquei intrigado com aquilo e, sem querer parecer parvo, olhei em redor, tentando perceber se tinha vindo alguém, se algum funcionário estava por perto, a cortar relva ou a fazer algum serviço que pudesse explicar aquele movimento de ar, mas não havia ninguém.

 O cemitério continuavazio, do jeito que estava desde que a gente chegou. Comecei a caminhar de volta para o portão juntamente com ela, que já ia à frente, cuidando do vaso com as duas mãos, evitando derrubar. Fui logo atrás, ainda a pensar naquele vento estranho, quando senti um arrepio a subir pelo braço, começando no pulso e indo até ao ombro, da forma que a gente sente quando alguém fica a olhar fixamente para as as nossas costas.

 Virei-me rápido, de repente para trás, olhando na direção do jazigo que tínhamos acabado de deixar. Não não havia lá nada, nenhum movimento, nenhuma sombra diferente, só o mato a abanar um pouco, talvez para o resto daquele vento que já tinha passado. Mesmo assim, aquela sensação não desapareceu. Ficou colada a mim o resto do caminho até ao saída.

 A minha esposa seguia normal, comentando qualquer coisa sobre o dia, sobre a limpeza que tínhamos feito no túmulo da mãe, sem qualquer sinal de estar incomodada com nada. Eu respondia da maneira que dava, meio distraído, ainda a tentar perceber o que tinha-me atingido lá atrás. Saímos do cemitério, ela levando o vaso debaixo do braço, como se fosse a coisa mais natural do mundo, satisfeita por ter salvado aquele objeto do abandono.

 Eu ia ao lado dela, carregando aquela sensação estranha que não conseguia explicar direito, nem para mim próprio. Não sabia dizer se era só impressão minha ou se realmente tinha acontecido alguma coisa fora do comum ali dentro. Entramos no carro. Ela colocou o vaso no colo com cuidado e dei à partida sem falar muita coisa.

 Fiquei calado a maior parte do caminho, tentando esquecer aquele arrepio e aquele vento sem explicação. Não imaginava naquele momento que aquilo era apenas o início de uma semana que eu levaria o resto da vida a conseguir esquecer. Chegámos a casa naquela mesma tarde de domingo e a minha mulher foi logo cuidar do vaso, satisfeita com o achado.

Levou-o até à piazinha, lavou-o por dentro e por fora com água em abundância, tirando toda aquela sujidade. deixou brilhando. Parecia até outro objeto depois de limpo. Colocou na sala, perto da janela, num sítio que se via bem de qualquer canto da casa, e ajeitou as flores frescas que tinha cortado do nosso quintal.

 Eu fiquei quieto, a olhar ela fazer aquilo tudo com tanto cuidado, como se fosse um objeto valioso, não um vaso apanhado de cima de um túmulo de gente que nem sabíamos quem era. Não falei mais nada. sobre o assunto. Já tinha discutido o suficiente lá no cemitério, mas por dentro aquela sensação estranha não tinha ido embora.

 Continuava a me incomodando de uma forma que eu não sabia explicar direito. O resto da tarde passou normal. Almoçamos, descansamos um pouco. Ela ficou satisfeita olhando o vaso de vez em quando, comentando como tinha ficado bonito ali na sala. Eu ia respondendo da forma que dava, mas confesso que os meus olhos iam sempre nessa direção, sem eu sequer querer, como se alguma coisa dentro de mim ficasse de olho para aquele objeto o tempo todo.

 Já era noite quando fomos dormir, cansados ​​do dia de cemitério e sol. Apaguei a luz, deitei-me, mas demorei a adormecer. Ficava a pensar naquele vento parado, sem explicação nenhuma. Foi quando ouvi um barulho vindo da sala. Parecia coisa arrastando-se lentamente no chão, um som seco, baixo, mas bem nítido no silêncio da casa.

 Levantei-me rapidamente, com o coração já acelerado, e fui direito até à sala acender a luz. Não tinha nada fora do lugar. O vaso estava exatamente onde ela tinha deixado, as flores intactas, tudo em ordem. Fiquei ali parado um pouco, olhando para os cantos, tentando perceber de onde tinha vindo aquele som, mas não encontrei explicação nenhuma.

 O ar da sala parecia mais parado, mais pesado, diferente do resto da casa, como se faltasse alguma coisa lá dentro, um maneira de respirar que eu não sabia nomear. Voltei para o quarto sem contar nada para ela, que continuava a dormir tranquila, sem se aperceber de nada do que tinha acontecido.

 Fiquei acordado boa parte da madrugada, escutando qualquer som, mas não veio mais ruído depois daquele. Só de manhã, já claro, foi que consegui relaxar um pouco e dormitar antes do despertador tocar. Na manhã seguinte, quando fui para a sala tomar café, reparei que um porta-arretratos com a foto do nosso casamento, que estava na estante, estava fora do lugar habitual.

 Ele estava tombado, virado com o vidro para baixo. Chamei a minha esposa para mostrar e ela também ficou intrigada, disse que não tinha mexido em nada daquilo. Foi então que sentimos um cheiro forte a flores murchas espalhado pela sala. Um cheiro enjoativo, difícil de descrever, misturado com um toque de terra molhada.

Fomos até perto do vaso para ver de onde vinha aquilo e o que encontramos nos deixou sem perceber bem. As flores que ela tinha cortado no dia anterior estavam completamente secas e murchas, como se tivessem passado uma semana inteiro sem uma gota de água. Peguei numa das flores e ela desfez-se quase toda entre os meus dedos, quebradiça, seca de verdade.

 Não parecia coisa de um dia só. A minha esposa ficou olhando aquilo calada, sem saber o que dizer, e também não consegui explicar. Trocámos as flores por outras, mas aquele cheiro forte demorou o dia inteiro para desaparecer de vez da sala. À noite, já perto da hora de deitar, o meu vizinha veio ao portão e chamou-me. Comentou que tinha visto um vulto de homem parado perto da nossa casa na noite anterior, olhando fixamente para a a nossa janela.

 Disse que achou estranho e que quando chamou o marido para olhar, já não estava lá mais ninguém. Fiquei sem jeito. Ao ouvir aquilo, tentei disfarçar, dizendo que devia ser alguém perdido de madrugada. Ela concordou, sem dar muita importância e foi-se embora logo depois. Mas por dentro aquele comentário mexeu comigo.

 Veio na altura certa para juntar com tudo o que já estava acontecendo desde que trouxemos aquele vaso para dentro de casa. Fui contar à minha mulher o que a vizinha tinha dito e ela também ficou pensativa, mas ainda tentava encontrar uma explicação simples para tudo. Dizia que era coincidência. Eu já não estava tão certo assim.

 Assim, fomos dormir mais cedo naquele dia, cansados ​​de tanto pensar no assunto. A meio da madrugada, acordei com um barulho forte vindo da sala, desta vez bem mais alto que o da noite anterior. Parecia coisa a cair, quebrando. Levantei-me a correr e a minha esposa acordou mesmo atrás de mim, os dois com o coração aos saltos. Chegamos na sala e encontrámos o vaso caído de lado no chão, virado, com água espalhada pelo tapete e as flores novas atiradas para todo o lado.

 Ninguém tinha entrado na casa. As portas continuavam trancadas, as janelas fechadas da maneira que a gente deixou antes de dormir. Ficamos parados ali, a olhar para aquela cena, sem conseguir perceber como aquele vaso tinha ido parar no chão sozinho, longe da mesa onde estava. Enquanto limpava a água do alcatifa, senti de novo aquela sensação de estar a ser observado, a mesma que tinha sentido no cemitério, só que agora muito mais forte, quase como se tivesse alguém parado atrás de mim, a respirar no meu pescoço. Olhei para a minha mulher

e pela cara dela percebi que estava sentindo a mesma coisa. Recolocamos o vaso em pé, limpámos tudo e voltámos para o quarto, sem trocar grande palavra. Fiquei ali a olhar para o teto, lembrando-se do momento em que ela pegou aquele vaso e de como já sabia desde aquela hora em que aquilo não era certo. No dia seguinte de manhã, tentei conversar com a minha mulher antes de sair para o trabalho.

 Eu disse que aquilo tudo só tinha começado depois de termos trazido aquele vaso para dentro de casa, que não não era coincidência nenhuma, que era hora de admitir que tinha alguma coisa de errado acontecendo. Ela ouviu, mas abanou a cabeça. Diz que eu estava a exagerar. Insisti um pouco mais. Contei de novo sobre o vento que tinha sentido no cemitério, sobre o arrepio, sobre a certeza que eu tinha de que aquele vaso não devia estar ali. Ela ficou irritada.

Diz que eu vivia a inventar história, que sempre fui de me preocupar demasiado com disparates. Discutimos ali na cozinha, cada um segurando o seu próprio lado, e acabei por sair de casa mais cedo do que precisava, ainda incomodado com a forma que a conversa tinha terminado. No trabalho, o dia não foi normal.

 Eu ficava parado, a olhar para a madeira, esquecendo-se do que estava a fazer e voltando sempre na cabeça para aquele vaso, para o cheiro das flores secas, para o vulto que a vizinha tinha visto. Errei medida em duas tábuas. coisa que não o fazia há anos de tão distraído que estava. Decidi então sair mais cedo.

Avisei o rapaz que trabalhava comigo que ia resolver um assunto e peguei no caminho de regresso a casa. No meio do trajeto, mudei de ideias e decidi passar no cemitério antes de ir para casa. Não sabia bem o que procurava, se era resposta, se era apenas uma forma de aliviar aquela inquietação, mas senti que precisava de ver aquele lugar de novo, olhar para o túmulo com mais atenção, talvez encontrar alguma coisa que explicasse o que estava a acontecer, ou pelo menos alguma coisa que fizesse a minha mulher mudar de

ideia sobre devolver o vaso. Cheguei ao cemitério a meio da tarde e desta vez o lugar não estava tão vazio como no domingo. Vi um homem a trabalhar perto da entrada, cortando o mato em redor de alguns túmulos com uma foice. Um senhor de cerca de 60 anos, magro, de chapéu de palhaçurrado e uma camisa velha colada de suor nas costas.

 Fui-me aproximando devagar, sem saber bem como começar aquela conversa. Cumprimentei-o e Perguntei se conhecia o cemitério há muito tempo, tentando entrar no assunto aos poucos. Parou o serviço, encostou a foice à perna e respondeu que ali trabalhava há 20 anos, cuidando da limpeza e ajudando nos enterros quando precisava.

 Falei então sobre o túmulo que tinha chamado a atenção da gente no domingo. Descrevi o lugar mais ou menos onde ficava, o jazigo simples, mais afastado dos outros. Pensou um pouco, coçou o queixo e perguntou se era perto de um pé de IP que tinha ali perto. Confirmei. E o rosto dele mudou logo. Ficou mais grave.

 Disse que conhecia aquele túmulo muito bem, que tinha sido ele próprio quem tinha feito lá o enterro atrás. e que se lembrava direitinho da história daquela família mesmo depois de tanto tempo. Contou que a esposa do homem ali sepultado nunca deixou de visitar aquele túmulo nem uma semana mesmo depois da morte do marido.

 Disse que ela chegava sempre à mesma hora, trazia flores, limpava tudo com a maior dedicação, da forma que poucas pessoas faziam ali naquele cemitério. falou isso com um respeito na voz que me deixou ainda mais incomodado, sabendo do que a gente tinha feito. Perguntei então com um nó na garganta, se sabia porque o túmulo estava agora daquele jeito, tomado pelo mato, esquecido.

 Ele ficou quieto por um instante, olhando para o chão, e depois contou que a última pessoa que tinha ido visitar não foi a viúva, foi a sua filha cerca de três meses antes desse dia. disse que a rapariga tinha passado ali rapidamente só para avisar que a mãe estava muito mal de saúde e que tinha sido internada às pressas num hospital da região.

 Falou que desde essa visita da filha ninguém mais tinha aparecido por lá, nem a viúva, nem qualquer outro parente. O homem contou tudo isto olhando para o túmulo à distância, com um jeito triste na voz, como quem tem pena de ver um lugar que sempre foi cuidado virar aquilo, abandonado, sem ninguém para zelar. Fiquei ali parado, sem conseguir falar nada durante alguns segundos, sentindo o peso daquelas palavras a cair em cima de mim como uma pedra.

 Entendi naquele momento exatamente o que tínhamos feito. Não era apenas um vaso velho apanhado de um túmulo esquecido. Era o último gesto de amor de uma mulher que provavelmente ainda estava a lutar pela vida em algum hospital, sem imaginar que o vaso que ela sempre cuidou tinha desaparecido do lugar dela.

 Agradeci ao homem, ainda meio sem chão, e caminhei de volta até ao carro devagar, pensando em como ia contar aquilo para a minha mulher. O caminho de casa pareceu mais longo do que de costume, cada quilómetro dando-me mais tempo para pensar em como aquela mulher devia estar a sofrer, doente, longe do único lugar que ainda a ligava ao marido que ela tinha perdido.

 Cheguei a casa já ao fim da tarde e encontrei a minha esposa na cozinha, ainda com aquele ar de desconfiança sobre a nossa discussão da manhã. Sentei-me com ela na mesa e contei tudo, devagar, sem pressas, do forma como o coveiro me tinha contado. Ela ficou calada, ouvindo cada palavra, sem me interromper uma única vez, coisa rara nela.

 No início, ela só abanava a cabeça, tentando digerir a história. Depois, pouco a pouco, percebi que os olhos dela iam enchendo de água e ela começou a chorar baixinho, tentando disfarçar. Disse que se sentia péssima, que nunca imaginou que um vaso pudesse guardar tanto sentimento de alguém, que nunca pensou que estava a tirar algo tão importante da vida de uma pessoa que nem conhecia.

 Ali mesmo na cozinha, decidimos que íamos devolver aquele vaso. Nessa noite, o silêncio da casa não durou muito tempo. Pouco depois de deitarmos, os barulhos voltaram, mas de uma forma diferente de tudo o que já tínhamos escutado até então. Não era mais um som isolado, era quase um lamento baixo, contínuo, vindo lá da sala, misturado com um arrastar de móveis que parecia mais desesperado do que ameaçador.

 Nós os dois ficamos deitados, sem coragem para se levantarem, escutando aquilo a ir e voltar pela casa inteira. Foi ali no escuro do quarto que entendemos verdadeiramente o que estava a acontecer. Não era maldade nenhuma proveniente daquele vaso. Era o puro desespero de um homem que já tinha morrido, tentando perder o último fio que ainda o prendia à mulher que ele amou toda a vida.

 Assim que o dia começou a clarear, nem precisamos conversar muito. Levantamos os dois quase ao mesmo tempo, ainda com os olhos pesados ​​de sono, mas sem qualquer vontade de esperar mais um minuto sequer. Vesti a primeira roupa que fui buscar ao armário. A minha esposa fez o mesmo e levámos o vaso com cuidado, embrulhado num pano limpo juntamente com um ramo de flores que ela tinha colhido do quintal na noite anterior.

 Ainda a pensar em devolver aquilo, saímos de casa diretamente para o cemitério sem tomar café. O silêncio dentro do carro já não era aquele silêncio pesado da madrugada. Era um silêncio diferente, de gente cansada, mas decidida, cada um pensando na própria cabeça, no que ia fazer assim que lá chegasse. Chegámos e o portão do cemitério estava aberto, sem qualquer fila nem espera.

 O lugar ainda estava bem vazio. Só se via ao longe alguns funcionários a iniciar o serviço do dia, varrendo folha, ajeitando ferramenta perto do pequeno barracão na entrada. Ninguém prestou muita atenção na gente a entrar, cada um cuidando do próprio trabalho. Entrámos diretamente, sem precisar de falar com ninguém, e fomos para o fundo do cemitério, onde se encontrava aquele jazigo mais afastado dos outros.

 O caminho parecia mais curto do que da primeira vez. Talvez pela pressa, talvez pela vontade de terminar aquilo de uma vez, de voltar a colocar tudo no lugar certo. Encontramos o túmulo exatamente da forma que tinha ficado. O azulejo ainda sujo de bolor, o mato crescido nas juntas do pavimento, a cruz de ferro enferrujada em cima, meio torta para o lado.

 Fiquei a olhar para aquilo por um instante, pensando em como aquele lugar já tinha sido cuidado com tanto carinho durante tantos anos. E agora estava assim, abandonado por um motivo que nem tinha a ver com falta de amor. A minha esposa se abaixou primeiro, começou a puxar o mato com as mãos, sem medo de sujar, arrancando tufo por tufo cuidado para não magoar as raízes de nenhuma outra planta que estivesse ali por perto. Ajudei também.

Peguei num pano que tínhamos trazido e Comecei a limpar o azulejo, tirando aquele bolor que já estava agarrado havia meses, esfregando com força nos cantos mais difíceis. Trabalhamos ali quietos durante um bom tempo, sem pressas nenhuma desta vez, com aquele cuidado de quem está a fazer alguma coisa importante de verdade.

 Ajeitei a cruz de ferro, endireitando-a na base, tirando- a ferrugem mais solta com as costas da mão. Aos poucos, o túmulo foi ficando diferente, mais parecido com o que devia ter sido antes, quando a viúva ainda vinha toda a semana a cuidar dele. Quando terminámos a limpeza, o meu esposa pegou no vaso, ainda embrulhado no pano e desembrulhou-se lentamente, como se estivesse com medo de magoar alguma coisa.

 colocou-o de volta no lugar exato onde tinha encontrado, bem no centro do jazigo, ajeitando cuidadosamente para não ficar torto. Depois arrumou as flores novas dentro dele, as mesmas que tinha colhido do nosso quintal na noite anterior. Fiquei a olhar para aquela cena por um momento, sentindo um alívio diferente de tudo o que tinha sentido naquela semana inteira.

 Já não era medo, nem aquela sensação de estar a ser observado. Era como se alguma coisa dentro de mim também estivesse se acalmando juntamente com aquele lugar que a gente tinha acabado de arrumar. Foi então que ali, olhando para aquele túmulo, eu disse que sentíamos muito pelo que tinha acontecido, que não sabíamos o valor daquele vaso quando levámo-lo embora e que agora sabíamos exatamente o que aquilo representava.

Pedi desculpa, olhando para o túmulo, com a voz meio embargada, sem me importar se parecia disparatado falar sozinho daquela maneira. Continuei falando, pedindo que a sua mulher se recuperasse logo, que voltasse a ter saúde para poder visitar aquele local de novo, da forma que sempre fez durante tantos anos.

 disse que íamos rezar por ela, esperar que conseguisse sair do hospital em breve e voltar a cuidar daquele túmulo com a mesma dedicação de sempre. A minha esposa ficou ao meu lado, calada, com os olhos cheios de água, olhando para o vaso já no lugar certo, rodeado pelas flores novas. Ela também estava a sentir aquele peso saindo de cima de nós, aquela culpa que carregamos a semana inteira desde o momento em que apanhamos aquele objeto sem pensar direito no que estávamos a fazer.

Ficámos ali mais uns minutos em silêncio, olhando o túmulo já limpo, o vaso no lugar, as flores novas balançando levemente com o vento fraco daquela manhã. Foi um vento diferente daquele que eu tinha sentido no domingo anterior. Este era suave, comum, do tipo que nem reparamos direito, sem nenhum peso estranho misturado nele.

 De repente, percebi que aquela sensação de estar a ser observado, que me tinha acompanhado a semana inteira, desde o momento em que ela pegou no vaso, simplesmente já não estava lá. Não desapareceu aos poucos, desapareceu de uma vez, como se alguma coisa tivesse finalmente descansado, aliviada por ver aquele objeto de volta no lugar onde sempre deveria estar.

 Voltamos para casa nessa manhã, bem diferente do que tínhamos vivido durante toda a semana. Nessa noite, pela primeira vez desde que trouxemos aquele vaso, dormimos a noite inteira sem escutar qualquer ruído, sem sentir qualquer presença estranha dentro de casa. Passaram os anos e nunca mais voltei a mexer em nada que não fosse meu, principalmente dentro de um cemitério.

 Aprendi do jeito mais difícil possível, que por vezes um objeto simples, que para nós pode parecer sem valor nenhum, pode carregar o peso de uma vida inteira de amor e cuidado de alguém. Aquele vaso não era só louça e flor, era o último fio que ligava um homem já morto à mulher que amou até ao fim. E a gente quase partiu esse fio sem sequer perceber.

 E foi assim, com essa memória guardada até hoje, que aprendi que o respeito pelos mortos não é só uma palavra bonita, é uma coisa que sentimos na pele quando entendemos tanto que pode doer, tirar a alguém o último gesto de amor que ainda restava. Se acredita que há coisas que não conseguimos explicar, coisas que estão para além do que os nossos olhos veem, deixa o teu eu acredito aqui nos comentários.

 E se já viveu alguma coisa parecida, deixa cá em baixo nos comentários uma palavra de força para quem já perdeu alguém que amava e ainda carrega esse amor no peito, mesmo depois de tanto tempo. Se tem um lugar, uma lembrança ou até um simples objeto que guarda a memória de alguém querido, conta-me aqui em baixo. Eu quero saber. E que Deus abençoe a sua semana.

Até ao próximo relato.

 

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