OS LUXOS ABSURDOS ABANDONADOS POR ZACARIAS APÓS SUA MORTE — DOCUMENTÁRIO COMPLETO tc
Você com certeza lembra-se dele. Aquela riso fino, apertado, que invadia a sala da sua casa todos os domingos à noite. O Zacarias, o tipo que fez o Brasil inteiro esquecer os problemas por algumas horas. A gente cresceu a achar que conhecia este homem, achando que sabia quem ele era realmente, só que não sabia. por trás da peruca.
E daquela riso que nunca esqueceu, existia um Mauro Gonçalves que quase ninguém viu. Um homem que ganhou muito dinheiro, perdeu praticamente tudo por causa da gente em quem confiava e fez com o pouco que sobrou algo que te vai deixar de queixo caído. Neste vídeo vai conhecer a história completa de onde ele veio, o que conquistou, os bens que ele deixou para trás, para quem tudo ficou e o que de verdade significava luxo para esse homem.
Mas antes de falar de fortuna, é preciso conhecer de onde o Zacarias veio, porque é aí que tudo começa. Mauro Fátil Gonçalves nasceu em 18 de janeiro de 1934, numa pequena cidade do interior de Minas Gerais, denominada Sete Lagoas. E quando eu digo que a família dele era humilde, não é força de expressão, não. Ele era o filho mais velho de 11, 11 irmãos.
Imagina a cena. Casa cheia, pouco espaço, muita gente a partilhar pouco. O tipo de infância que quem cresceu no interior do Brasil nos anos 40 e 50 conhece de perto, ou porque viveu, ou porque viu em casa do vizinho, ou porque ouviu o pai ou a mãe contar. Na cidade, toda a gente lhe chamava Bidu, apelido de família daqueles que se colam e nunca mais soltam.
O Bidu era um menino tímido, na rua, calado, na escola quieto, mas dentro de casa, no quintal, era outra pessoa. Criava vozes, inventava personagens, imitava os vizinhos com uma precisão que fazia rir toda a gente. E olha que curioso o que ele fazia com os lençóis da mãe. Ele pegava nas roupas, os lençóis, juntava os meninos da rua e montava peças de teatro ali mesmo no Quintal de Terra.
Teatro improvisado com figurino roubado do estendal. E depois apanhava porque a mãe ia procurar o lençol limpo e encontrava-se amassado, sujo, usado de capa, de cortina, de fantasia. Mas nem assim parava. Já sabia o que queria ser artista. Só que a vida não o deixou ir direito ao palco. Antes da fama, Mauro foi de tudo um pouco, vendeu sapatos, foi caixeiro com o pai, vendeu bijuteria na rua, trabalhou numa fábrica de café, tornou-se bancário, chegou a formar-se técnico em contabilidade em 1956.
tentou ainda estudar a arquitetura, mas o dinheiro não deu e ele teve de desistir. Uma lista de empregos que qualquer brasileiro que já tenha tido necessidade de se virar para sobreviver reconhece de imediato. Só que este menino tímido de Sete Lagoas havia uma coisa que ninguém à volta dele tinha, uma voz.
Uma voz que mudava de tom, que se transformava em bicho, que se transformava gente, que se tornava personagem. E foi essa voz que abriu a primeira porta de verdade. Em 1955, Mauro entrou na rádio em Minas Gerais e aí a coisa mudou de figura. Ele era tão bom, mas tão bom, que ganhou três vezes seguiu-se o prémio de melhor comediante de rádio, de 1960 a 1963, 3 anos seguidos na rádio, que naquela época era a televisão do Brasil, toda a mundo ouvia.
E depois veio um momento que mudou tudo na vida dele. Ele tentou ser ator dramático, preparou um monólogo sério, ensaiou, foi para o palco cheio de vontade de emocionar o público. E o público riu. Riu tanto que ele saiu de lá com uma certeza que carregou para o resto da vida. Para o drama, ele não servia, servia para comédia. Em 1963, O Mauro foi para o Rio de Janeiro.
Trabalhou na TV Excelor, na TV Record, na TV Tupi. Criou várias personagens. O mais famoso era o empregado Moranguinho, mas o personagem que lhe ia mudar a vida ainda não existia. Até que em 1973, Renato Aragão fez o convite e foi o próprio Renato que batizou o nome Zacarias. Mas há um pormenor sobre a riso do Zacarias que quase ninguém sabe.
Durante uma gravação, um animal começou a cacarejar a meio do set. Todo mundo caiu na gargalhada porque o som era igualzinho à forma como o Mauro se ria. E ali nasceu a gargalhada mais famosa da televisão brasileira. E o mais curioso de tudo, Mauro era o oposto do personagem. Zacarias tinha uma peruca farta, era espalhafatoso, barulhento.
O Mauro era calvo, reservado, tímido. Ele mesmo dizia: “Não tenho piada”. Todo mundo sabe que não sou engraçado. Careca, baixinho, barrigudo, não se pode fazer graça. O homem que não se achava engraçado, fez rir o Brasil inteiro. Durante 17 anos. Com os trapalhões, Zacarias ganhou fama, público e muito dinheiro. Muito dinheiro mesmo.
Só que o que aconteceu com esse dinheiro é uma das partes mais revoltantes desta história. A maioria das pessoas olha para os trapalhões e pensa: “Estes gajos ficaram milionários”. E faz sentido pensar assim, porque o sucesso era absurdo. Filmes que enchiam o cinema no Brasil inteiro, discos que vendiam milhões, concertos por todo o canto do país, produtos licenciados, caderno, lancheira, boneco, álbum de cromos.
Se tinha a cara dos trapalhões, vendia. Era uma máquina de fazer dinheiro, como poucas que o Brasil já viu. Só que a realidade era bem diferente do que todo o mundo imaginava. E é exatamente aqui que a história começa a ficar pesada. Zacarias, Dedé e Mussum resolveram fazer a coisa certa. Montaram juntos uma empresa para organizar o dinheiro que ganhavam.
Contrataram pessoas para gerir, pessoas que, pelo menos na teoria, percebia de imposto, de contabilidade, de como manter tudo nos eixos. Os três confiaram. E quando eu digo que confiaram, é confiaram de olho fechado, porque era assim que funcionava naquela época. O artista fazia o espetáculo, gravava o filme, ia para o palco e o dinheiro ficava na mão de quem supostamente sabia o que estava a fazer.
Prepara o coração pro que vem agora. Os administradores levavam o dinheiro que era destinado ao pagamento do imposto sobre o rendimento dos três. O dinheiro saía do trabalho deles, ia para a conta da empresa e era separado para pagar o imposto. Até aqui tudo certo. Só que estes gestores simplesmente não pagavam.
Embolsavam o dinheiro e deixavam crescer a dívida. E fizeram isto durante anos até que a empresa faliu. E quando a empresa faliu, o dívida ao governo caiu nas costas de quem? de Zacarias, de Dedé e de Musum. O Dedé confirmou numa entrevista que dói de assistir. Perguntaram-lhe: “Todo o dinheiro que vocês ganharam com os trapalhões?” E a sua resposta foi seca: “Tudo, tudo, tudo.
Pegavam em todo o dinheiro do imposto sobre o rendimento que era nosso para pagar e não pagavam. E aí nós ficamos sem nada, sem nada. Você para e pensa, estes três homens trabalharam durante anos a levar alegria ao Brasil inteiro. Encheram estádio, cinema, programa de televisão e no final o dinheiro que ganharam com o próprio suor foi-se embora na mão de gente que eles confiavam.
Era o Brasil dos anos 80, sem internet, sem acesso fácil à informação, sem transparência. artista não entendia de imposto e não tinha de entender porque havia gente paga para isso. Só que esta gente roubou. E se conhece alguém, ou se você próprio já foi passado para trás por gente em quem confiava, sabe exatamente o tamanho dessa dor.
Não é só perder dinheiro, é perder a confiança. É olhar para trás e pensar: “Trabalhei toda a vida para quê?” Mas espera, porque o mais impressionante não é o que ele perdeu, foi o que ele fez com o que sobrou. Zacarias não ficou na miséria total. Ficou muito longe do que poderia ter sido e assim ficou.
Mas ainda tinha bens, uma casa, um sítio, objetos pessoais. E o que fez ele com tudo isto revela um lado deste homem que o Brasil nunca conheceu. Quando ouve os luxos do Zacarias, o que vem na sua cabeça? Mansão com piscina, carro importado na garagem, coleção de relógios, jóia? É isso que a maioria dos pessoas imaginam quando pensam num gajo que fez o sucesso que ele fez.
E faz sentido, porque os trapalhões eram gigantes. O nome deles estava em tudo. Só que os luxos do Zacarias não eram nada disso. E é aqui que esta história vira-se de cabeça para baixo. Nos anos de maior fama, Mauro comprou uma casa em Jacarpaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro. Uma casa grande e espaçosa, cerca de 400 m², quatro quartos, duas casas de banho e uma pequena biblioteca que para a época era considerada um luxo.
Para quem não sabe, 400 m² é maior do que a maioria dos apartamentos que hoje conhecemos. Mas não era uma mansão de novela. Não tinha piscina olímpica, não tinha sala de cinema, não tinha nada daquilo que esperaria de alguém do tamanho dos trapalhões. E olha que curioso, Jacaré O Paguá naquela época era um refúgio de estrelas. O Mestre Cartola morou ali.
Mussum, seu parceiro nos trapalhões, morou ali. Era um pedaço do rio que tinha alma de interior. Vizinho conhecia vizinho. A rua era ainda lugar de conversa. Além da casa, Zacarias tinha um sítio rural na região, uma propriedade campestre mais simples, que utilizava como refúgio. E era isso, casa, sítio e os bens pessoais.
Não tinha coleção de automóveis de luxo, não tinha lancha, não tinha apartamento em Miami. Para alguém do tamanho da fama que ele alcançou, a fortuna era considerada modesta, muito modesta. A família guardou tudo, móveis, roupas, documentos pessoais. Até o histórico escolar do Mauro foi preservado. A casa ficou trancada durante anos depois da sua morte, com tudo lá dentro, como se o tempo tivesse parado ali.
Esperava mansão, carro importado, lancha, mas vejam o que este homem fez. O Mauro era uma pessoa profundamente religiosa, tinha uma crença forte no espiritismo e era simpatizante da Umbanda. Essa fé se intensificou-se depois de uma experiência pessoal. Teve uma osteomi, um problema grave de saúde e atribuiu a cura a visitas que fez a um centro espírita.
A partir dali, a a espiritualidade deixou de ser apenas crença, tornou-se modo de vida. E depois vem a parte que ninguém esperava. Em vez de transformar a casa num templo de luxo pessoal, Mauro fez o contrário. Ele abriu um espaço dentro da própria casa para funcionar como centro espiritual e consultório médico comunitário gratuito para vizinhos que não tinham condição de pagar uma consulta.
O homem que fez o Brasil rir no domingo à noite passava o resto da semana a cuidar de gente que precisava de ajuda. Preparava chás, cuidava de plantas medicinais, recebia pessoas em busca de conselhos, de conforto, de tratamento para a dor que carregavam. O luxo do Zacarias era cuidar dos outros. Só que a história desses bens não se esgota aí.
Quando Mauro morreu, toda a herança ficou com uma única pessoa, Maria Laura Gonçalves, a filha dele. Maria Laura era filha adotiva, registada por Mauro como filha legítima. Era a única herdeira reconhecida. Ela herdou a casa de Jacaré Paguá, o sítio e todos os pertences pessoais. As irmãs de Zacarias contaram que depois do falecimento perderam contacto com Maria Laura.
Não houve qualquer briga pública pela herança, não houve escândalo judicial pela divisão dos bens. E depois vem a parte da herança que quase ninguém conhece. Em 2001, Maria Laura avançou para a justiça contra a Rede Globo. Não era pela casa, não era pelo sítio, era pelos direitos de autor do pai. Ela queria que o trabalho do Zacarias fosse reconhecido como obra e património, não apenas como graça de domingo.
Que o seu nome, a sua imagem, as personagens dele tivessem o valor financeiro que mereciam. Essa luta se tornou a missão da vida dela. Maria A Laura transformou-se na gestora do legado do Zacarias. A casa continuou sendo gerida pela família. O sítio fazia parte da herança, mas o que ela queria de verdade era algo que o dinheiro nenhuma compra, reconhecimento.
Este era o Zacarias que o público nunca viu, o homem que usou o que tinha para cuidar dos outros, mas tinha um lado dele que ficou ainda mais escondido, um lado que ele protegeu toda a vida e que só veio a público décadas depois. Enquanto o Brasil inteiro via o Zacarias, aquela personagem infantil, espalhafatoso, de riso fino e peruca colorida, a vida real do Mauro acontecia em silêncio, longe das câmaras, longe do público e com uma descrição que hoje a gente entende por Mauro foi casado durante 15 anos com a atriz e dobradora
Selma Lopes. Se este nome não te diz muita coisa de primeira, talvez a voz diga. A Selma foi a voz da Marge Simpson em algumas fases da dobragem brasileira. uma profissional respeitada, estabelecida, que já tinha uma carreira antes do Mauro rebentar na televisão. E olha que curioso, foi precisamente ela quem incentivou Mauro a largar Minas Gerais e tentar a vida no Rio de Janeiro.
Sem Selma, talvez o Zacarias nunca tivesse existido. Do casamento dos dois veio a Maria Laura, filha adoptiva, registada por Mauro, criada como filha de sangue. Selma já tinha uma filha de um casamento anterior que também ele adotou. Este era o tipo de homem que o O Mauro era, o tipo que não fazia diferença entre filho biológico e filho do coração.
O casamento terminou em 1973, mas o respeito e a amizade ficaram. Selma e Mauro continuaram próximos. Ela tornou-se uma peça central, não só na vida pessoal dele, mas também na preservação da memória do artista depois de este se foi. A própria Selma disse numa entrevista: “Não é porque tenha sido o meu marido, mas era um ator maravilhoso, um marido maravilhoso e um pai maravilhoso, mas tem uma parte da vida do Mauro que ficou escondida por décadas.
Após o divórcio, Mauro teve outros relacionamentos, sempre com a mesma descrição. Namorou com a cantora Valesca entre 1980 e 1981. Depois, em 1986, teve um relacionamento com Idalina Martins Campos, uma mulher 25 anos mais nova do que ele, mas as revelações mais delicadas vieram muito tempo depois da a sua morte.
Documentários recentes, como o trabalho do jornalista Rafael Espaca trouxeram à tona relatos de que Mauro teria vivido um relacionamento afetivo com o ator Gessé Dantas. E nos seus últimos dias, quem esteve mais perto a cuidar dele foi o ator Carlos Leite. Carlos morreu no ano seguinte à morte do Zacarias. Há quem diga que Mauro deveria ter vivido abertamente, que escondia quem era por pressão social, mas há também quem defenda que a escolha de proteger a intimidade foi dele e que merece ser respeitada como tal. E aí fica a pergunta para si. O
que nós sabemos com certeza é o seguinte: Mauro viveu num Brasil onde certas coisas simplesmente não se falavam, não se assumiam, não se mostravam. O medo do julgamento, da maldade, da rejeição era real. E para um homem cuja imagem pública estava ligada ao universo infantil, esse medo pesava ainda mais.
Ele escolheu proteger a sua intimidade e pagou o preço dessa escolha com uma solidão que poucos imaginavam. O público conhecia a personagem. Jessé, O Carlos, a Selma e a Maria Laura conheceram o homem. E foi exatamente aí que o medo começou a tomar conta. No final de 1989, O Mauro tomou uma decisão que mudou tudo. Decidiu emagrecer.
Uma decisão que parece comum, simples, mas que no caso dele foi tomada de forma drástica. Ele iniciou uma dieta extremamente restrita, sem acompanhamento médico, com automedicação, medicamentos para emagrecer que ninguém sabe exatamente quais eram. E o corpo começou a responder. Ele perdeu mais de 20 kg em pouco tempo. Mais de 20 kg.
Quando apareceu na televisão, o público apanhou um susto. No filme A Escola Atrapalhada, estreado em 1990, já estava visivelmente magro, muito magro. Quando perguntavam o que estava a acontecer, ele dizia que era só regime, só regime. Mas quem olhava de perto sabia que não era só regime. E a imprensa.
A imprensa começou a farejar, começou a especular. E naquele Brasil de 1990, A especulação sobre este tipo de assunto não tinha piedade nenhuma. O Mauro estava emagrecendo, os boatos estavam a crescer e o medo estava a tomar conta. O que veio depois é a parte mais difícil desta história e talvez a mais injusta. Para você perceber o que aconteceu com o Zacarias nos últimos meses de vida, você precisa de compreender o Brasil de 1990.
Não. O Brasil de hoje, o de 1990, um país onde falar de determinadas doenças era praticamente uma sentença social, onde o diagnóstico fazia manchete, onde o doente se tornava culpado e onde a imprensa destruía muitas vezes a pessoa antes da doença ter a possibilidade de fazer isso. E depois vem a parte mais difícil.
A aparência de Mauro, cada vez mais magro, chamou a atenção de todos e a imprensa não teve piedade. Manchetes sensacionalistas, especulações sobre a aides, sem confirmação, sem cuidado, sem o menor respeito por um homem que tinha passado a vida inteira levando alegria a milhões de crianças.
Atiraram o nome dele nas capas de revista e de jornal, como se fosse notícia confirmada. E não era. A causa oficial registada depois foi insuficiência respiratória por infecção pulmonar. Esta é a versão do atestado de óbito. Mas a versão que circula entre fontes próximas e em documentários é outra.
E segundo alguns relatos, a ideia de suavizar o atestado teria sido uma tentativa de proteger a sua imagem, principalmente perante o público infantil, para evitar manchetes ainda mais cruéis para poupar a família, mas o estrago já estava feito. Zacarias, que a vida inteira se preocupou com a imagem que as crianças tinham dele, ficou profundamente abalado com os boatos.
E o que ele fez? se fechou, começou a isolar, atendia cada vez menos pessoas, se afastou das gravações, o homem que enchia estúdio de riso agora evitava até sair de casa. Só que ninguém estava preparado para o que veio depois. Nos últimos meses, Mauro passou a recusar visitas dos próprios colegas de trapalhões.
Dedé tentou vê-lo, Musum tentou, mas Mauro não quis. Dos quatro, só o Didi Renato Aragão conseguiu manter um contacto mais próximo nesse período. Os outros foram sendo afastados, não por maldade, por medo, por vergonha, por uma dor que não queria que ninguém visse de perto. As irmãs contaram um pormenor que arrepia.
Elas disseram que parecia que já sabia o que ia acontecer, que da última vez que o viram, já estava debilitado, magro, sem aquela alegria que sempre teve, e que chegou a dizer a uma delas: “Estou perto de ir”. Quando lhe perguntaram para onde, ele respondeu: “Vocês vão ver. Estou perto de ir”. No dia 18 de Março de 1990, o Brasil recebeu a notícia.
Mauro Fácio Gonçalves, o Zacarias dos trapalhões, faleceu às 11:25 da manhã na clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Tinha 56 anos. Estava internado há 9 dias com infeção respiratória. Renato Aragão ponderou acabar com o programa naquele momento. Disse: “Agora acabou. Acabou o quarteto, acabou a história. Eu não posso mais continuar.
A última aparição do Zacarias no programa ficou marcada para sempre. O personagem que passava a vida a rir estava a chorar e os amigos fizeram uma homenagem que quem viu nunca esqueceu. Adeus, Mauro Gonçalves. Responde, companheiro. Responde, pá. Responde, palhacinho. Zacarias foi sepultado em Sete Lagoas, a cidade onde nasceu.
Milhares de pessoas acompanharam. Uma irmã dele disse no enterro: “Eu sei que nesta altura ele não quer ver ou a tristeza de ninguém. Ele quer ver a alegria das crianças.” Didié e Musum estiveram lá. Os três foram se despedir-se do amigo. Prestaram condolências à família, mas ficaram cerca de uma hora. E o que veio depois do enterro é o que mais dói.
Depois a partir dessa hora, o telefone deixou de tocar. A irmã de Zacarias contou numa entrevista em 2017 com uma frase que resume tudo. Vieram no dia do velório. Nunca mais acabou e o telefone pagou o telefonema. Nunca mais. A família que o Brasil via todos os domingos na televisão, aquele quarteto que parecia inseparável, que ria junto, que brigava juntos, que fazia o país inteiro feliz junto.
Esta família desapareceu na hora que o Zacarias mais precisava, ou melhor, na altura que a família dele mais precisava. Há quem diga que a dor era grande demais para manter o contacto, que ver a família do Zacarias era reviver a perda. Mas há também quem diga que quando a câmara desligava, cada um ia para o seu lado.
E aí fica a pergunta para si: Mas esta história tem mais uma revira-volta e essa é talvez a mais estranha de todas. Anos depois da morte do Zacarias, começou a circular um vídeo na internet. Um apresentador chamado Marcos Ron, da TV Pardal gravou a exploração de uma quinta abandonada na região de Analândia. Interior de S. Paulo.
Roupa dentro do guarda-roupa, móveis intactos, champô pela metade no casa de banho, bucha de banho pendurada, como se alguém tivesse saído apressadamente e nunca mais voltado. E a narrativa que acompanhava o vídeo era irresistível. Esta fazenda teria pertencido aos Zacarias dos Trapalhões. A internet abraçou a história.
Vários canais foram até lá e repetiram a mesma versão, milhões de visualizações. E o Brasil, com aquela saudade enorme do Zacarias, adotou aquela casa como se fosse sua. Mas espera, porque esta história tem uma reviravolta. A casa nunca foi do Zacarias, nunca. O verdadeiro proprietário, um homem chamado Alexandre, apareceu e desmentiu tudo.
O avô dele comprou aquela terra em 1956. As casas foram construídas a partir dos anos 70. O tio de Alexandre, que vivia aí, sofreu um acidente grave e teve de sair para tratamento na cidade. Por isso, os pertences ficaram intactos. Ele esperava voltar. e o tal Zacarias, que deu origem ao boato. Era um amigo da família que frequentava o local nos anos 80, não tinha absolutamente nada a ver com o nosso Zacarias.
E depois a pergunta que fica é: porque é que o Brasil inteiro acreditou? Porque queria acreditar? porque precisava de um local para depositar a saudade. O país que cresceu rindo com aquele homem não tinha para onde ir para se lembrar dele. E quando apareceu uma casa com cara de vida interrompida, com aquele ar de abandono, encaixou perfeitamente na história que todos queria contar.
Mas o que foi realmente abandonado nunca foi uma casa em Analândia. foi durante muito tempo o reconhecimento do homem por detrás da risada. E há um último pormenor que talvez resuma tudo. O verdadeiro legado do Zacarias existe. Está na casa de Jacaré Paguá, que a sua filha continua administrando. Encontra-se no Museu Zacarias, em Sete Lagoas, onde a peruca ruiva e os figurinos estão preservados.
está na medalha da inconfidência que recebeu em 1988 no anfiteatro e no colégio público que levam o seu nome, na luta da Maria Laura pelos direitos de autor do pai na justiça. E em 2024, numa homenagem que nunca imaginou receber, Madonna incluiu o rosto do Zacarias num tributo, às vítimas da Aides. O reconhecimento que não teve em vida chegou tarde, mas chegou.
Os luxos do Zacarias nunca foram mansões, carros ou ostentação. Eram a casa que se transformou no consultório, o chá que preparava, o vizinho que atendia gratuitamente, a alegria que ele entregava todos os domingos para um país inteiro. Uma alegria que nascia de um homem que também sofria, que também tinha medo, que também se sentia sozinho.
O maior luxo do Zacarias não estava em bens, estava na capacidade de tocar vidas. E isso ninguém abandona. Me conta aqui nos comentários qual é a tua recordação mais forte do Zacarias. Era a riso, os filmes ou era aquele jeito dele de o fazer esquecer dos problemas durante algumas horas no domingo à noite? E se conhece alguém que cresceu a ver os trapalhões, manda este vídeo a essa pessoa, porque esta história merece ser contada e o Mauro Gonçalves merece ser recordado não só como personagem, mas como o homem que ele foi a sério. Deixa o teu like, se
subscreve o canal e ativa o sininho para não perder nenhum vídeo, porque no próximo vamos contar uma história que talvez seja ainda mais surpreendente. A de um outro nome que com certeza se lembra, que também fez o Brasil inteiro rir, que também ganhou fortunas inimagináveis, mas que hoje vive de uma forma que nunca esperaria. Não vai querer perder.