César Augusto: O Menino SEM PAI que Fundou o IMPÉRIO ROMANO

César Augusto: O Menino SEM PAI que Fundou o IMPÉRIO ROMANO

O ano é 43. de. Crist. As ruas de Roma estão em silêncio, enquanto várias legiões armadas posicionam-se nos arredores da cidade. E o Senado, a instituição mais poderosa do mundo antigo, está fechado em sessão de emergência. No exterior, montado a cavalo, na frente de um exército que pagou do próprio bolso, está um miúdo de 19 anos, magro, fraco e sem qualquer batalha importante no currículo.

Ele não está a pedir para ser recebido, não. Está a exigir ser nomeado cósul, o cargo político mais elevado da República Romana. E se quer saber como um adolescente franzino e sem experiência militar conseguiu um exército inteiro para estacionar à porta do Senado? é que pelas regras não escritas da política romana, a lealdade sempre teve um preço.

[música] O que convenhamos acontece até hoje. Meses antes, o seu tio avô, o famoso Júlio César, tinha sido apunhalado 23 vezes no chão do Senado por homens que achavam que o assassinato era sinónimo de democracia. O testamento deixado àquele miúdo, a maior fortuna de Roma. dinheiro, nome e a lealdade dos milhares de veteranos de guerra que ainda chamavam a Júlio César de comandante.

O miúdo pegou no dinheiro, comprou duas legiões do principal rival, recrutaram milhares de soldados por Itália e marchou sobre a capital antes que alguém tivesse tempo de perguntar: “Espera, quantos anos tem?” Nessa tarde seria inaugurada uma carreira política que iria, nos 40 anos seguintes, destruir a República, fundar o Império Romano e transformar uma civilização inteiro para os próximos 500 anos.

O seu nome era Caio Otaviano, mais conhecido por outro que ele próprio inventou décadas depois, quando já tinha o mundo nas mãos, César Augusto. Mas antes de começar, quero agradecer pela sua companhia e se quiser receber a notificação, sempre que novos vídeos forem publicados, considere candidatar-se no canal.

Agora relaxe, desfrute do vídeo e vamos juntos falar do miúdo órfã que ninguém levava a sério e acabou por se tornar o arquiteto do maior império da antiguidade. O homem que a história imortalizou como César Augusto, primeiro imperador de Roma e inventor do marketing imperial, nasceu no dia 23 de setembro do ano 63.

  1. Crist. A morada era o Monte Palatino, um dos locais mais caros da República, basicamente Ipanema de Roma, só que com togas e sem protetor solar. Naquela época em Roma, as pessoas colecionavam nomes como quem coleciona medalhas. Cada conquista, cada adoção, cada reviravolta política rendia um nome novo.

 Assim, César Augusto é, na verdade, um nome de marca registada, um pseudónimo construído anos mais tarde, para vender uma imagem de divindade e autoridade. O menino que um dia carregaria o império nas costas, no entanto, nasceu com um nome bem mais modesto, Caio Otávio, ou Caio Otaviano, e é assim que vamos chamá-lo na primeira parte desta biografia.

 O pai, também chamado Caio Otávio, era um membro do clã Otávio da classe Equestre, porque aparentemente a criatividade onomástica não era o forte deles. Os otávios não eram propriamente o topo da cadeia alimentar de Roma. Não faziam parte da aristocracia senatorial, aquele clubinho fechado de famílias que orgulhavam-se de descender de lobos, deuses e fundadores míticos.

Estavam mais para a nova classe média alta. Gente que subiu na vida à base de serviço militar e político e que os patrícios tradicionais olhavam com aquele sorriso condescendente de quem olha para emergentes sociais. Por isso, o O pai de Octávio era classificado como novo Zomo, literalmente homem novo.

 Era um termo meio elogioso, meio desdém. Reconhecia que o tipo tinha subido sozinho, mas lembrava-se gentilmente que não tinha pedigri. Em tradução livre, algo como tu conseguiu. Parabéns, mas sabemos de onde veio. Já do lado da mãe, a história era bem mais interessante. Acia Balba era filha de Marcos Balbo, um político que seria eleito pretor de Roma, um dos cargos mais importantes da República, precisamente no ano seguinte ao nascimento de Octávio.

 A avó materna era Júlia Menor e irmã de um sujeito que naquele momento ainda era apenas um político ambicioso em ascensão. O seu nome era Caio Júlio César e guarda isso. Vai ser importante daqui a pouco. Na verdade vai ser importante para os próximos 2000 anos de história ocidental. A infância de Octávio começou do jeito menos glamoroso possível, despachado para fora de Roma.

 A cidade estava super cheia, mal cheirosa e insalubre. Então, quem tinha dinheiro fugia para o campo. A família Otávio tinha uma aldeia em Veletre, a cerca de 40 km a sul de Roma. Foi aí que o menino passou os primeiros anos, longe da política, longe dos generais, longe de tudo o que importava.

 E aí o destino deu o primeiro soco. Com quase 4 anos, Octávio perdeu o pai, sem aviso e sem herdeiro mais velho para assumir o papel. O novo Zomo, que tinha subido tão bonito na hierarquia romana. saiu de cena deixando um rapaz pequeno e uma viúva com futuro incerto. A mãe fez o que as viúvas romanas nobres faziam na época.

 Casou de novo, rápido. O novo marido foi Lúcio Mário Felipo, um membro da aristocracia romana a sério, desta vez com pedigri. O problema? Felipo não queria saber do enteado. Otaviano tornou-se na prática um móvel em casa do padrasto. Mas criança percebe essas coisas, mesmo que a gente não dê importância.

 Não precisamos de ser psicanalistas para compreender [a música] que esta rejeição silenciosa contribuiu para formar o adulto frio, calculista e emocionalmente impenetrável que Octávio se tornaria. Sem pai biológico e com o padrasto ocupado em ignorá-lo, quem assumiu a criação de Octávio foi a avó materna Júlia, a tal irmã de Júlio César.

 E aqui a história começa a ficar interessante. Foi ali ao colo da avó, enquanto o tio avô estava ocupado a massacrar celtas na galha que Octávio começou a prestar atenção no mundo. Quando a avó morreu, Otaviano tinha 12 anos e foi ele quem proferiu o discurso fúnebre. 12 anos, subiu à tribuna, encarou a elite romana e entregou um discurso sobre a vida da avó como um político experiente.

 Os adultos presentes devem ter-se entreolhado, tipo: “E este menino, hein?” Era o primeiro sinal de que aquela criança tinha alguma coisa de diferente. Mas para perceber o que vinha por aí, precisamos dar um passo atrás e olhar para o contexto em que Octávio estava a crescer. Roma estava com um problema existencial. No papel era a potência máxima do mundo conhecido.

 Nos séculos anteriores tinha engolido Cartago em duas guerras gigantescas e sangrentas, dominado a Itália inteira, anexado à Espanha, o sul da Gália e a Grécia. Mas quem ganhava as guerras não era Roma, eram os generais. E generais vitorios regressavam a casa com ouro, terras e detalhe essencial, os soldados pessoalmente leais a estes, não à república.

 É o equivalente a dar ao CEO de uma empresa um exército particular e pedir educadamente para ele continuar a ser funcionário humilde, nunca ia funcionar e não funcionou. Duas décadas antes de Octávio nascer, a pressão rebentou. Dois generais Caio Mário e Lúcio Cornélio Sil entraram em guerra civil.

 Sila venceu, tornou-se ditador de Roma e, para seu crédito, fez a única coisa que nenhum tirano posterior da história mundial teve coragem de imitar. Renunciou ao cargo voluntariamente, mas o recado estava dado. A República Romana era um castelo de cartas. Qualquer general com exército podia derrubá-la numa tarde de terça-feira.

 A pergunta na Roma da infância de Octávio era só uma: quem seria o próximo? A resposta parecia estar entre três homens muito específicos. Tr anos depois de Otaviano nascer, estes três formaram uma aliança que ficou conhecida como o primeiro triunvirato. Era menos um governo de coligação e mais um pacto de não agressão entre predadores famintos.

 O primeiro e mais famoso dos três era Pompeu Magno. E o Magno quer dizer o grande alcunha que cunhou para si. Ninguém discutiu porque o currículo militar dele fazia qualquer um engolir em seco. Ele tinha liderado os exércitos romanos a importantes vitórias pelo Mediterrâneo, conquistado esmagado piratas e vários outros territórios pelo oriente.

 Quando um gajo volta com esta ficha, sorri, concorda e troca de assunto. O segundo era Marco Licínio Crasso, currículo militar mediano, mas um pormenor compensava. Era o homem mais rico de Roma e enriqueceu com um dos esquemas mais elegantemente horríveis da antiguidade. Tinha um corpo de bombeiros particular. Chegava ao local do incêndio, olhava a casa a arder, oferecia comprar por uma ninharia.

 Se o dono aceitasse, apagavam o fogo. Se recusasse, a casa virava cinzento. Extorção com recibo. Crasso também foi o gajo que esmagou a rebelião de Espártaco, no sul de Itália, e crucificou 6.000 sobreviventes ao longo da Via Ápia. A gentileza a gente vê por aqui. O terceiro membro do triunfirato era o único que tecnicamente tinha estado do lado perdedor da guerra civil.

 Apesar disso, conseguiu se reinventar, acumular cargos, conquistar parte da Espânia e voltar a ser uma presença política de respeito. O seu nome era Caio Júlio César. E como a gente já referiu que ia ficar importante, era tio avô do pequeno Otaviano. Durante toda a infância de Octávio, estes três faziam uma dança das cadeiras pelo controlo de Roma.

 Cada um queria ser o próximo Sila, mas sem a parte de abdicar do poder depois. Crasso foi o primeiro a cair na tentativa de igualar a glória militar dos outros dois, porque aparentemente dinheiro não chegava. Ele liderou um exército contra o império dos Partos, no que hoje é o Iraque, e foi dizimado na batalha de Carras.

 Morreu em combate em uma das piores derrotas da história militar romana. E segundo a lenda, os partas despejaram ouro derretido goela abaixo como comentário irónico sobre a avareza. Pontos pela criatividade. Com Craço fora do mapa, o triunfirato tornou-se um duelo e os dois homens que restavam, César e Pompeu, começaram a olhar um para o outro com cada vez menos amizade.

 César estava ocupado a realizar a sua obra prima militar, A conquista da Gália, a que hoje chamamos França. Em poucos anos empurrou as fronteiras romanas dos Alpes até ao Canal da Mancha, derrotou tribos celtas e transformou-se no general mais popular de Roma. Ele era famoso por enviar relatórios semanais para casa, que na verdade era a propaganda autobiográfica disfarçada de jornalismo de guerra.

 Basicamente um influencer 2000 anos antes do Instagram. Pompeu, parado em Roma, assistia a tudo de longe com a expressão azeda de quem está sendo ultrapassado e fez o que os políticos em declínio sempre fazem. Buscou aliados institucionais. O Senado, que via César como uma ameaça à República, abriu-lhe os braços.

 De repente, os dois antigos parceiros do triunfirato estavam em lados opostos. Roma sentiu. A guerra civil ia explodir de novo. No final da década de 50 anes de. Cristo, o Senado tentou o golpe legal, proibir César de concorrer a cósul e tirar-lhe o comando militar. Se funcionasse, César regressaria a Roma como cidadão comum.

 E cidadão comum podia ser processado, exilado ou executado. Mas a sua resposta foi a mesma que todo o general com um exército fiel sempre deu na história. Não foi então que em 10 de Janeiro do ano 49 antes de Crist, César parou com as suas legiões na beira de um rio aparentemente insignificante no nordeste de Itália, o Rubicão.

Modesto geograficamente, mas gigantesco juridicamente, ele marcava a fronteira, para além da qual nenhum general romano podia trazer as suas tropas. Atravessar aquele rio com os soldados era tecnicamente um ato de traição. César atravessou e, segundo a lenda, soltou a célebre frase: “Alcta, a sorte está lançada”.

 Era o início da Segunda Guerra Civil Romana em uma mesma geração. Pompeu e os senadores evacuaram a Itália imediatamente porque por vezes a melhor estratégia é correr. Foram paraa Grécia tentar reorganizar forças no Mediterrâneo Oriental. César perseguiu-os perdendo a primeira batalha de Diráquio, mas poucas semanas depois aniquilou o exército de Pompeu na batalha de Farsalos no ano 48. de.

Cristo. Pompeu fugiu para o Egito à espera de refúgio. O regime ptolemaico, hábil na leitura das pistas políticas, executou-o e mandou a cabeça embrulhada de presente para César, uma forma eficiente de pedir amizade. Pausa aqui porque Hollywood fez uma confusão nesse ponto.

 Existe um erro popular de que César, nesse momento, virou o primeiro imperador de Roma. Não virou. Nunca foi imperador. O que ele virou foi ditador. Mas cuidado com a palavra. Ditador na Roma antiga não significava o que significa hoje. Não era um tirano louco com poder infinito. Era um cargo constitucional formal, concedido pelo Senado em períodos de crise, com poderes extensos, mas em teoria temporários.

 Outros romanos, como quinto Fábio Máximo e o próprio Sila, já tinham exercido o cargo antes, cumprido a missão e devolvido tudo direitinho. Mas o problema com César não era ter sido ditador. Era que à medida que os meses passavam, ficava cada vez mais claro que não planeava devolver nada, mas imperador nunca foi. Esta invenção constitucional viria 20 anos depois e viria pelas mãos daquele sobrinho neto franzino, que era ainda um pré-adolescente.

Octávio, por sinal, estava a prestar muita atenção a tudo. Depois da morte da avó, voltou a viver com a mãe e o padrasto, tão desinteressados ​​nele quanto sempre. Mas Octávio tinha agora uma obsessão, construir uma carreira. Aos 15 anos, foi eleito para o colégio de pontífices, que era uma casta influente de sacerdotes romanos.

 Porque enquanto outros adolescentes estavam preocupados com os casamentos arranjados, Otaviano já estava a acumular cargos. No ano seguinte aos 16, ajudou a organizar os grandes jogos públicos de Roma, tarefa que combinava a logística, a política e relações públicas numa escala razoável para um adulto, quanto mais para um miúdo.

Mas o que ele queria mesmo era outra coisa. Queria a guerra, queria provar a si próprio no campo de batalha, ao lado do tio avô, que era agora o homem mais poderoso do mundo conhecido. Ele implorou à mãe desde o início da guerra civil para se juntarem às campanhas. Ia, como toda a mãe com dois neurónios a funcionar, disse não.

 O filho era frágil, adoecia com frequência e a guerra civil é o último lugar para um adolescente de família nobre. Mas Octávio insistiu e insistiu e insistiu. No final da guerra, quando o conflito já estava basicamente decidido, ela cedeu. Otaviano viu as suas primeiras ações militares em Espanha no ano 46 antes de Crist, durante a limpeza final contra os últimos pompeianos remanescentes.

 Não foi glória, foi lama, pó e operações menores. Mas foi a primeira vez que o o tio avô olhou para ele com atenção real. A primeira vez que César viu no sobrinho neto franzino e doentio alguma coisa que valia a pena cultivar. E esse olhar silencioso, este reconhecimento entre o homem mais poderoso de Roma e o adolescente magro da família ia mudar o mundo.

 Octávio, evidentemente, causou uma boa impressão em César na campanha da Espânia, tão boa que em algum momento, no final do ano 46 antes de Crist ou início do 45, o ditador de Roma alterou em silêncio o próprio testamento. duas grandes decisões. Adotou Octávio formalmente como filho e nomeou-o herdeiro principal de toda a fortuna.

Adoções deste tipo eram rotina entre a nobreza romana, o equivalente antigo, a um plano sucessório empresarial. E o caminho estava relativamente livre, porque César não tinha herdeiro legitimário próprio. Bem, tecnicamente ele tinha um filho pequeno chamado Cesarião, fruto de um caso bastante famoso com ninguém menos do que Cleópatra.

 Mas bastardo egípcio não entra em testamento romano. Regras são regras, pelo quando convinham. E aqui cabe uma observação que só se torna óbvia em retrospecto. O testamento que César assinou nessa tarde, provavelmente parecia um pormenor administrativo menor, um ajustamento burocrático, algo para resolver mais tarde.

Ninguém sabia, nem César, que depois estava prestes a chegar muito mais rápido do que qualquer imaginava. Porque enquanto os meses passavam e César continuava sem dar o mínimo sinal de que pretendia devolver os seus poderes ditatoriais, uma conspiração estava a crescer em silêncio dentro do Senado.

 Não era uma conspiração de plebeus revoltados, era uma conspiração da elite política romana, homens que, em teoria, eram seus aliados. A notícia do complot até vazou pouco antes do golpe final. O homem que descobriu era um dos comandantes mais leais de César desde os dias da Gália, Marco António.

 Esse nome vai aparecer muito nesta história, por isso guarda-o. Só que Marco António foi impedido de avisar, barrado à porta, distraído numa conversa, seguro por um dos próprios conspiradores, dependendo de qual a fonte antiga acredita. O facto é, César entrou no Senado no dia 15 de março do ano 44. de. Cristo, sem a menor ideia do que o esperava.

 15 de março, idos de março, um dos dias festivos mais importantes do calendário romano. E nos minutos seguintes, um grupo de senadores cercou César e começou a esfaqueá-lo furiosamente. Foi caótico, rápido, desesperado. Relatos contam 23 punhaladas. Alguns dos conspiradores se feriram nas próprias facadas de tanta pressa em acertar.

A maioria das fontes quase contemporâneas concorda que César morreu em silêncio, que a célebre frase et tu brut em português até tu brutos, dirigida ao ex-protegido Marcos Bruto, [a música] foi invenção literária de William Shakespeare 16 anos depois. Bom para o teatro, má para a história, mas não retira a ironia do facto.

 Um dos punhais que matou César foi realmente seguro por um homem que tinha tratado como um filho. Octávio não estava em Roma quando este aconteceu. Estava a fazer treinamento militar na Ilíria, a região que hoje corresponde à Croácia e à Albânia, do outro lado do Mar Adriático. tinha 18 anos, estava longe da cidade e provavelmente passou dias sem saber que o mundo tinha virado de cabeça para baixo.

 Quando a notícia finalmente chegou, Suetónio, biógrafo romano posterior, também conhecido como o tipo que adorava uma fofoca imperial, conta que Octávio teria considerado reunir um exército entre as legiões locais e marchar sobre Roma imediatamente para reivindicar o poder. Improvável. O miúdo tinha 18 anos, zero currículo militar de peso e praticamente nenhum exército próprio.

 Até ele devia saber disso. O que ele fez foi mais inteligente, [a música] foi para Roma sozinho, devagar. E foi só ao chegar à Itália que descobriu duas coisas que mudariam a sua vida. Primeiro, era o herdeiro principal de uma fortuna colossal. Segundo, e muito mais importante do que o dinheiro, César tinha-o adotado formalmente, o que significava que, aos olhos dos inúmeros seguidores de César, espalhados pelo exército e pela sociedade romana, Octávio já não era o sobrinho neto magro do ditador.

 Ele era o filho. E o filho tradicionalmente herda mais do que propriedades. Erda a rede política, herda a lealdade dos veteranos, herda o nome. Então, Octávio fez exatamente o que se esperava de um romano astuto. Adotou o nome César, passou a apresentar-se como Caio Júlio César Octávio. Porque se ia reivindicar um legado político gigantesco, era melhor começar carregando o apelido certo logo na fachada.

 era Branding antes de ter o produto, um instinto que nunca mais ia abandoná-lo. Enquanto isso, em Roma, o plano dos conspiradores estava desmoronando espetacularmente. A camarilha de senadores que matou César tinha uma fantasia: matar o tirano, restaurar a república gloriosa, ser aclamada pelo povo como libertadora. Pizza, vinho e a democracia para todos.

A realidade foi outra. Marco António, o tal cônsul que tinha sido impedido de avisar César, subiu para fazer o discurso fúnebre e transformou aquele numa aula magna de manipulação política. Mostrou o corpo ensanguentado, leu o testamento em voz alta, inflamou o povo até um ponto em que a turba começou a caçar os assassinos pelas ruas de Roma.

Numa questão de semanas, Bruto e companhia tiveram de fugir da cidade para não serem linchados. Pouco depois, foram oficialmente condenados como traidores da República. Matar um tirano é uma coisa, controlar o que acontece depois é outra completamente diferente. Os conspiradores entenderam isso tarde demais.

 Descobriram que, na verdade, a parte mais difícil de apunhalar um ditador começa quando o corpo arrefece. Com os assassinos fora do caminho, Roma mergulhou exatamente no cenário que os conspiradores tinham querido evitar, uma nova corrida entre generais para ver quem seria o próximo ditador. O favorito era Marco António, cônsul em exercício, veterano das campanhas gálicas, arquitecto da viragem política pós-assinato.

O gajo tinha tudo: experiência, tropas, o carisma e, principalmente, a idade suficiente para ser [a música] levada a sério. Mas o António tinha um problema de imagem. Muita gente olhava para ele e via com razão mais um general ambicioso, prestes a repetir o ciclo Sila César.

 E no Senado existia uma facção cansada de generais ditadores. Essa facção começou a procurar candidatos alternativos. Um dos alternativos era o Marco Emílio Lépido, outro veterano das campanhas de César, fiável, competente e, principalmente, não tão assustador quanto o António. O outro alternativo era aquele miúdo de 18 anos que tinha acabado de chegar à Itália transportando um testamento e um novo apelido.

 E aqui começa a metamorfose, porque Octávio não era apenas jovem, era politicamente inexperiente, fisicamente frágil e parecia um alvo fácil para qualquer veterano. Todo mundo em Roma, incluindo Marco António, olhou para ele e subestimou-o. Todos erraram. Nos meses seguintes ao assassinato, Octávio fez aquilo que alguns políticos demoram décadas a aprender.

 Transformou o dinheiro em poder e ele tinha dinheiro, muito dinheiro. Parte da fortuna herdada do pai adoptivo incluía um fundo de guerra gigantesco. 700 milhões de cestércios acumulados no sul de Itália para financiar uma campanha militar massiva que César planeava contra o império parto.

 Uma guerra que agora não ia acontecer, mas um dinheiro que já estava lá. Otaviano se apropriou sem autorização formal, sem pedir licença. Depois completou o caixa de um modo ainda mais ousado. Quando o tributo anual dos Estados Mediterrâneo Oriental chegou a Roma, ele simplesmente desviou uma fatia considerável para si próprio.

Resumindo, o miúdo de 18 anos acabava de fazer o maior desvio de dinheiro público da história recente de Roma e ninguém tinha coragem de o parar. Porque quando compra a lealdade das legiões, tem o exército nas próprias mãos, inclusive das legiões de Marco António. Isso mesmo. Otaviano pegou no dinheiro que deveria pagar a guerra do pai adotivo e usou-o para subornar Os soldados do principal rival político dele.

 Duas legiões inteiras de António mudaram de lado. Milhares de antigos veteranos de César, espalhados pela Itália, vieram a correr quando o filho convocou. Para consolidar a manobra, Octávio fez algo que roçava a piada institucional, fez-se senador e não só, conseguiu autorização especial para votar em assuntos normalmente reservados aos senadores que já tinham sido cônsules, porque afinal nada como um estagiário entrar no reunião da direção e receber votos no conselho. Sim, parece uma piada.

 E não, não foi uma piada. Aí, em meados do ano 43, veio o golpe final. Os dois cônsules eleitos do ano tinham morreu em campanhas militares, deixando os dois cargos mais poderosos da República vagos. Octávio marchou sobre Roma com várias legiões e, basicamente, exigiu ser nomeado cósul.

 Não encontrou praticamente nenhuma resistência. Com 19 anos, Octávio tornou-se cônsul único de Roma. 19 anos. Cônsul de Roma, o cargo mais elevado da República. A coisa é tão absurda que precisa de ser dita de novo. 19 anos. 19.º A idade em que a maioria dos romanos aristocratas estava a começar a carreira militar como soldado raso.

Octávio já estava a governar. O mundo tinha acabado de descobrir que o miúdo franzino não era uma promessa, era uma ameaça. E miúdo franzino no topo gera inevitavelmente rivalidade com quem também quer estar presente. Marco António, Octávio e Lépido eram agora três figuras políticas demasiado grandes para coexistirem sem algum tipo de acordo. A solução foi copiar o passado.

No dia 27 de Novembro do ano 43, o Senado aprovou Alex Titia, uma lei que dividia formalmente o poder da república entre os três. Ficou conhecido como o segundo triunfirato, mas este segundo era bem diferente do primeiro. primeiro com César, Pompeu e Crasso tinha sido basicamente um acordo informal de cavalheiros, uma aliança privada entre três tipos ricos.

 O segundo era formalizado com chancela do Senado e dividia a República geograficamente em três esferas de influência bem demarcadas. Otaviano ficou com a Tunísia, a Líbia e as ilhas da Sardenha e da Córcega. Lépido ficou com a Espânia e o sul da Gália. Marco António ficou com a região Alpina e a maior parte da Gália.

 E a Itália, com a própria Roma, ficou teoricamente sob o controlo do Senado. Teoricamente, mas a região mais importante do tabuleiro não pertencia a nenhum dos três triúniros. O Mediterrâneo Oriental, a parte mais rica da República, onde circulavam ouro, cereais e comércio, estava nas mãos dos homens que tinham morto César.

Bruto, Csio e companhia tinham fugido para lá, reagruparam forças e montaram exércitos consideráveis. Qualquer triunfiro que conseguisse tomar o Oriente saía automaticamente na frente dos outros dois, na corrida ao poder total. E fazer isso significava acabar de uma vez por todas com os assassinos de César, o que para Octávio era conveniente, porque vingar o pai adoptivo era simultaneamente um dever moral público e uma excelente jogada política.

 Dois coelhos, uma cajadada. Primeiro, os triúniros fortaleceram a posição interna com um mecanismo legal brutal chamado proscrição. Proscrever alguém significava declarar essa pessoa fora da lei. Propriedades confiscadas, vida protegida zero. Qualquer cidadão podia matar o proscrito e receber recompensa. Centenas de romanos ricos entraram nas listas dos triúniros.

 A lógica era simples e cínica. Cada proscrito era uma fortuna confiscada e cada fortuna confiscada era mais dinheiro para pagar aos soldados. Entre os nomes das listas estavam vários opositores políticos dos três, incluindo nomeadamente o orador Cícero, que tinha passado meses a criticar Marco Antônio publicamente.

Cícero foi caçado e decapitado e as suas mãos foram pregadas no fórum romano como aviso. Bem-vindos ao segundo triunfirato. Com o dinheiro dos proscritos no Caixa, Otaviano e Marco António marcharam juntos sobre a Grécia, 28 legiões atravessando o Adriático. Lá, em Filipos, na Macedónia, encontraram o exército de Bruto e Cássio.

Mais de 200.000 homens defrontaram-se em duas batalhas sucessivas. E aqui a história entrega uma das reviravoltas mais bizarras da antiguidade. As baixas das batalhas em si não foram catastróficas. Nenhum dos lados teve uma vitória militar esmagadora, mas no meio da confusão, o CIO recebeu uma informação falsa.

 Disseram a ele que o exército de Bruto tinha sido completamente derrotado. Acreditando na notícia e considerando a causa perdida, Csio matou-se de imediato. Só que não era verdade. Bruto estava bem. Quando soube do suicídio precipitado do aliado e das reais dificuldades de continuar sem ele, Bruto também se matou.

 Dois dos maiores generais do lado antitriunvirato se eliminaram sozinhos por um mal entendido. As suas forças renderam-se em seguida. Foi uma vitória grotesca causadas por fake news, tipo as que a pessoas recebem nos grupos de WhatsApp. Octávio e Marco António saíram de Filipos como os homens mais poderosos da República.

 E Lépido ficou onde sempre esteve, parado em terceiro lugar, acumulando tristeza e esperança. Após Filipos, o tabuleiro mudou rapidamente. Lépido, que já era o triúniro mais fraco desde o início, foi marginalizado de vez. Octávio e Marco António inventaram uma história convenientemente vaga de que ele estaria conspirando em segredo com o sexto Pompeu, um filho de Pompeu Magno, que tinha tomado o controlo da Sicília.

A acusação era fraca, mas quando dois dos três triúniros resolvem dispensar o terceiro, a prova é um pormenor administrativo. Lépido foi empurrado para canto, mantendo títulos nominais, mas perdendo qualquer poder real, efetivamente reformado antes do tempo. Com isto, a República tornou-se oficialmente um negócio de dois sócios.

 Otaviano ficou com o Oc, a Itália, a Gália, a Espanha, o Norte de África. Marco António ficou com o Oriente, a A Grécia, a Síria e, principalmente, a influência sobre os ricos reinos clientes, como o Egito Ptolomaico. Para selar o acordo, fizeram o que romanos faziam sempre para selar acordos, casamento familiar.

 Em outubro do ano 40, Marco António casou com Octávia, irmã mais velha de Octávio. Um casamento político clássico, sem amor, sem química, só interesse de estado com vestido branco por cima. Aliança entre os dois sustentou-se por quase uma década, desconfiada e cheia de atritos silenciosos.

 Mas Marco António tinha ido para o oriente e no oriente havia uma rainha esperando que em breve ia mudar tudo. Resolvida a confusão de Filipos e descartado o lépido para segundo plano, Octávio tinha agora um problema muito concreto para lidar no Mediterrâneo Ocidental. O nome do problema era Sexto Pompeu, filho daquele magno Pompeu que César tinha derrotado em farçá-los.

 e, portanto, um homem com uma excelente razão pessoal para odiar qualquer coisa associada ao nome César. Sexto tinha tomado o controlo da Sicília após o assassinato de César. Depois expandiu o domínio para a Sardenha e Córcega e com muita paciência construiu uma gigantesca marinha. A ilha era estrategicamente perfeita.

estava sentada em cima das principais rotas de navegação entre os dois lados do Mediterrâneo. E sexto, começou a usar esta posição exatamente como um filho amargurado faria. Pirataria de Estado. Ele atacava navios comerciantes que iam e vinham de Roma, especialmente os que transportavam grãos do Egito.

 Pode parecer pormenor comercial, mas não era. Roma dependia dessas remessas de cereais para alimentar a população inchada e bancar a famosa distribuição gratuita de pão aos cidadãos, aquela política que mantinha a pleb minimamente calmo e o Senado minimamente vivo. Resumindo, [a música] se sexto cortava as remessas, Roma passava fome.

 Se Roma passava fome, havia revolta. Se havia revolta, Octávio perdia o chão politicamente. O problema era existencial e tinha endereço. Sicília. A primeira tentativa foi diplomática. No ano 39, assinaram o Pacto de Mizeno, um acordo pelo qual sexto podia ficar com as ilhas desde que deixasse de roubar os navios romanos.

 Foi assinado, albardado, comemorado com um banquete. Durou alguns meses porque o sexto Pompeu não era o tipo de homem que compreendia muito bem de acordos escritos. A pilhagem recomeçou assim que sentiu que podia recomeçar. E a paciência não era o forte de Octávio quando o assunto envolvia receita pública.

 Ele enviou o homem que ia aparecer muito daqui para a frente, Marco Agripa, o seu comandante militar mais fiável e, provavelmente o melhor estratega que Roma produziu naquela geração. A gripa era o oposto da Octávio fisicamente, forte, sólido, feito para a guerra. Era o braço que executava o que a cabeça de Octávio planeava.

 Basicamente, o Pink e o cérebro do mundo antigo. Esta divisão de trabalho ia definir todos os grandes sucessos militares do futuro imperador, porque Octávio era um péssimo comandante em campo. Sabia disso, aceitava isso e delegava isso com a humildade que não se costuma ver num ditador. A gripa esmagou sexto Pompeu no ano 36, numa brilhante campanha naval.

 Sexto fugiu para o oriente, foi capturado na ilha grega de Mileto e executado no ano seguinte. Era o fim da linha pompeiana. Aquela família que tinha dominado metade do primeiro século antes de Cristo acabava num fundo de quintal qualquer da Grécia. E a queda de sexto desencadeou a queda definitiva de Lépido.

Lépido, lembras-te dele? O triún viro da tristeza e esperança. Cometeu o erro tático da vida. tentou aproveitar o vácuo deixado por cesto para lhe tomar a Sicília. Parecia uma ideia inteligente reafirmar a própria relevância, não foi? As legiões de Lépido, quando viram as legiões de Octávio chegarem, fizeram uma escolha bem mais pragmática do que a lealdade.

 Octávio aplicou o método que já tinha resultado antes. Deixou claro que qualquer soldado que desertasse para o lado dele receberia pagamentos generosos. E funcionou. Os legionários de Lépido mudaram de patrão em questão de dias, porque afinal o ouro sempre foi o argumento mais persuasivo da história. Lépido ficou ali no meio do acampamento, sem exército, sem poder e sem plano B.

Octávio, numa jogada teatral permitiu que se aposentasse no cabo circeu com o título de pontífice máximo, sumo sacerdote de Roma, intacto. Ou seja, podia continuar a usar a toga bonita, presidir a alguns rituais religiosos e viver entristecido a muitos quilómetros de qualquer decisão importante. Lépido aceitou.

 Viveu mais 25 anos. Morreu sem incomodar ninguém. Uma reforma digna para um político que entendeu a tempo que discutir daria mal para o lado dele. E agora o tabuleiro estava como deveria estar desde o começo. Dois homens, a república esticada entre eles, uma guerra civil à espera de um pretexto. E o pretexto, como quase sempre na história, [a música] tinha nome de mulher.

 Enquanto Octávio limpava o ocidente, Marco António fazia uma coisa muito diferente no Oriente. Estava a apaixonar-se. A relação com Cleópatra, a rainha do Egipto Ptolomaico, tinha começado no finais da década de 40. Não era a primeira vez que um romano importante se envolvia com ela. Cleópatra já tinha sido amante de Júlio César e tinha-lhe dado aquele filho bastardo, cesarião, que referimos antes.

 A mulher sabia escolher os seus amantes, ou melhor, sabia escolher amantes que convinham politicamente a um Egito rodeado por interesses romanos. digamos que o pragmatismo monárquico fosse um ponto forte dela. António instalou-se no Egito no início da década de 30, fez de Alexandria a sua base, começou a viver como um rei oriental, não como um magistrado republicano romano.

 E isto, paraa narrativa que Octávio precisava de construir em Roma, era perfeito. Mas António não era só amor e vinho egípcio. Ele tinha ambições estratégicas legítimas. Queria retomar os planos de César de fazer guerra ao império Parta, que já tinha humilhado Roma quando Crasso foi despejado de ouro derretido goela abaixo.

 Vingar Crasso e engolir a Ptia seriam feitos que transformariam António no general romano da geração. Seria a cartada definitiva contra Otaviano. Assim, fez a invasão com uma força massiva no ano 36. de. Cristo, milhares de soldados, equipamentos pesados, máquinas de cerco, tudo preparado. E foi um desastre quase imediato.

 A logística colapsou. A força principal de António separou-se das caravanas de abastecimentos e das máquinas de cerco. A cavalaria parta, que era mais ágil, intercetou e destruiu a retaguarda. Sem mantimentos e sem máquinas para atacar cidades fortificadas, António teve de bater em retirada pela Síria.

 E a retirada foi um massacre lento. Os Partos hostilizaram as legiões em fuga durante semanas, cortando destacamentos isolados, envenenando as fontes de água. António perdeu cerca de 1/3 do exército no caminho de regresso. A campanha que deveria ser a coroação dele tornou-se a vergonha militar da década.

Tentou remediar no ano 34, conquistando o pequeno reino da Arménia e instalando como rei Alexandre Hélio, o próprio filho com Cleópatra. uma vitória simbólica que quase não ajudava. Enquanto isso, Octávio estava em Roma a rir-se de tudo, porque cada erro de António no Oriente era mais munições para campanha narrativa que vinha construindo há anos.

 Era uma campanha simples e funcionava porque tinha um fundo de verdade. Marco António estava a orientalizar-se, estava a tornar-se um rei estrangeiro, estava a abandonar Roma por Alexandria, estava a escolher uma rainha egípcia no lugar da própria esposa romana, que tecnicamente [a música] ainda existia.

 E como se recorda, era Otávia, a irmã de Octávio. O António nunca tinha formalizado o divórcio. Continuava casou enquanto exibia Cleópatra pela corte egípcia, como se fosse a rainha oficial dele. Humilhação pública de uma esposa aristocrática romana já era uma ofensa grave. Humilhação pública da irmã do outro triún era uma declaração política.

 E Octávio usou isso muito bem como combustível. emocional para inflamar a opinião pública em Roma. Otávia, vale por dizer, merece uma nota de respeito histórico aqui. Cuidava das filhas que teve com António e dos filhos que António tinha tido noutros casamentos. Tudo isto enquanto o marido desfilava por Alexandria com a amante.

 Quando António finalmente divorciou-se em público, anos depois, toda Roma se solidarizou-se com ela. Mas Octávio não se contentou-se, precisava de provas e fez algo que, mesmo para os padrões da política romana, foi um movimento ousado. No ano 32 a de. Cristo, ele entrou no templo das virgens vestais em Roma, um lugar sagrado da cidade onde eram guardados os documentos mais importantes da elite romana, e tirou de lá o testamento de Marco António.

Violar o templo das vestais era ofensa religiosa muito grave, mas aparentemente quando se é otaviano e se quer provas contra o cunhado que traiu a sua irmã, aí está tudo bem. E o que encontrou no documento era perfeito para propaganda. O testamento revela duas coisas. Um, ele planeava dividir os territórios da República entre os filhos que teve com Cleópatra.

Dois, queria ser enterrado em Alexandria, ao lado da rainha, um general romano querendo ser sepultado no Egito. Para os romanos tradicionais, era o equivalente a dizer que tinha escolhido ser egípcio. Traição cultural, patrimonial e religiosa, tudo de uma só vez. Octávio leu o testamento em voz alta no Senado, cuidadosamente editado, provavelmente, combinado com o facto de António ter celebrou a sua conquista da Arménia, realizando um triunfo em Alexandria, em vez de em Roma. O mal estava feito.

Marco António, anunciou Octávio ao Senado, já não era um triunfiro romano, [a música] era um déspota oriental. E Roma estava prestes a perder os territórios orientais se ninguém agisse. No final do ano 32, o Senado aceitou a narrativa, revogou os poderes formais de António e declarou guerra não só a ele, mas a todo o Egito pitolomaico de Cleópatra, o que me parece brilhante e estúpido ao mesmo tempo.

 Sejamos claros, Roma não estava entrando em guerra civil contra um concidadão. Estava oficialmente a entrar em guerra externa contra uma rainha. estrangeira, especialista em relações públicas. E havia ainda um pormenor inconveniente. Octávio não tinha apoio unânime. Cerca de 40% do Senado votou contra a guerra e muitos desses foram imediatamente pro Oriente para se juntar a António.

 Isso mostra que nem toda a gente em Roma estava convencido de que o vilão era Marco António. Boa parte da elite via Octávio como o verdadeiro ambicioso da história. Mas quando a guerra bate à porta, dúvidas políticas são silenciadas. Os números da mobilização militar que se seguiu são difíceis de processar. Otaviano reuniu aproximadamente 200.

000 homens. O António igualou esse número. Ambos montaram frotas navais gigantescas, somando centenas de galés entre os dois lados. Para colocar em perspectiva, na batalha de Farçalos, onde César decidiu a guerra contra Pompeu, comandava cerca de 25.000 homens, oito vezes menos. Era a maior mobilização militar da história romana até então. No Verão do ano 31. de.

Cristo, os dois lados canalizaram as suas forças paraa Grécia, o mesmo palco de Farsalos e Filipos, porque a Grécia, aparentemente era o cemitério preferencial das guerras civis romanas. O confronto final deu-se no mar, perto de uma colónia romana chamada Áccio, no noroeste do país. Na voz do Golfo de Ambrácia, a cerca de 50 km a sul da ilha de Corfu, António chegou primeiro.

 Ele tinha planeado utilizar aquela posição como base para atacar o continente italiano e levar a guerra para dentro do território de Octávio. A estratégia fazia sentido no papel. Otaviano respondeu rápido, moveu as suas forças para o continente grego, posicionou-se em frente a Corfu e começou a fechar o cerco.

 Com o passar dos dias, o que era para ser base de ataque de António, foi virando armadilha. A gripa, aquele comandante que era o rosa da relação, controlava o mar. E o mar era o que mais importava naquele confronto. No final do verão, a situação dentro do acampamento de António estava crítica. Deserção em massa, doenças a espalharem-se pelas tropas, mantimentos cortados pela frota de Octávio, bloqueando os portos.

António estava a ser estrangulado lentamente antes mesmo de qualquer batalha começar. No dia 2 de setembro de 31, sem melhor alternativa, António tentou a última cartada. Romper o cerco com pouco mais de 300 navios e quase 25.000 1 soldados e cavalaria a bordo. A gripa esperava-o com cerca de 400 galés, formando uma linha de combate à saída do golfo.

 A batalha de Ásio começava e seria o confronto decisivo da história do mundo antigo. No papel, O António tinha uma vantagem. Os seus navios orientais eram maiores e mais pesados que as embarcações italianas de Otaviano. Torres mais altas, mais arqueiros, mais catapultas. Mas o tamanho não é tudo em combate naval. Os navios mais pequenos de Octávio eram muito mais ágeis.

 Conseguiam dançar à volta das embarcações gigantes de António sem entrar no raio de fogo delas. Davam picadas rápidas, recuavam, voltavam. E então a ironia da história. Os navios de António ficaram presos na chamada água morta, um fenómeno marinho em que embarcações arrastam-se em baixa velocidade por causa das variações de salinidade da água.

 Basicamente, os grandes navios orientais entraram numa zona do mar, onde o próprio oceano os travou. O poderio naval que deveria decidir o O destino do Mediterrâneo estava literalmente empacado. A frota de António entrou em colapso rápido, uma combinação de água morta, mau vento, comunicação travada entre os comandantes orientais e a agilidade dos navios mais pequenos de Agripa fazendo o trabalho.

 Logo as galés italianas conseguiram chegar perto o suficiente para começar a incendiar os navios maiores de António. Quando a noite caiu sobre Áxio, a frota oriental estava praticamente destruída, ardendo nas águas do Golfo de Ambrácia, que aí vieram o pormenor que selou a história. Cleópatra, vendo o massacre e a derrota eminente, ordenou que todos os navios egípcios fugissem.

 António, e que é o que ficou para a história, fez algo impensável para um general romano. Abandonou a sua própria frota a meio da batalha, pegou num navio rápido e correu atrás dela. O comandante deixou os homens a lutar enquanto fugia atrás da rainha. Para um general romano, era pior do que perder. Era deshonrar três séculos de tradição militar de uma só vez.

 E foi exatamente esta cena que Octávio usou para o resto da vida para justificar tudo que veio depois. António e Cleópatra conseguiram chegar de volta ao Egito. Otaviano e Agripa foram atrás sem pressa, pois já não tinham para onde fugir. Em primeiro de agosto do ano 30 antes de Cristo, depois de mais uma derrota nos arredores de Alexandria, Marco António fez aquilo que generais romanos derrotados costumavam fazer. tirou a sua própria vida.

Cleópatra seguiu o exemplo nove dias depois. O veneno, segundo as fontes mais fiáveis. A famosa cena da mordedura de cobra é poesia posterior, provavelmente invenção romana para lhe dar um final mais dramático. A verdade prática foi menos cinematográfica e mais eficiente. E aqui Otaviano fez uma coisa que talvez seja o lembrete mais frio da sua personalidade.

Cesarião, que era um primo de segundo grau, filho de Cleópatra com o seu tio avô, Júlio César, tinha 17 anos. Marco António Antilo, filho de António com a primeira mulher Fúvia, tinha praticamente a mesma idade. Os dois eram tecnicamente herdeiros legítimos. Os dois podiam, no futuro, virar bandeiras para alguma revolta contra Octávio.

 Ele mandou matar os dois. Como se lembra, Otaviano tinha exatamente essa idade quando começou a própria ascensão política depois do assassinato de César. Ele sabia, melhor do que ninguém, que com 17 anos um aristocrata romano já podia derrubar impérios. Otaviano não correu o risco. Para ele, ser jovem tinha deixado de ser desculpa anos antes, quando ele próprio virou cônsul aos 19.

 Cesarião e Antilo foram rapidamente executados. O Egito, que era estado cliente de Roma há gerações, foi formalmente anexado e virou província. Otaviano assumiu pessoalmente o controlo direto da região e não era detalhe administrativo. O Egito era a civilização mais rica do mundo conhecido.

 Quem controlava o Egito controlava o trigo e quem controlava o trigo controlava a Roma. Em poucos meses, Octávio tinha ouro, cereais, exércitos e nenhum rival vivo. Era oficialmente o único homem de pé. Mas aqui veio o teste mais difícil. Porque o que vinha a seguir era exatamente o problema que tinha matado Júlio César. O tio avô tinha cometido o erro que todo o ditador inexperiente comete.

 Agarrou o poder e segurou com força a mais. Reivindicou poderes ditatoriais permanentes, ignorou o Senado, encolheu os ombros para tradição republicana. Resultado, 23 punhaladas no chão do Senado. Octávio tinha visto tudo, aprendido tudo e não ia repetir. A jogada dele foi mais inteligente e, francamente, mais astuto do que qualquer coisa que César tinha tentado.

 Otaviano percebeu uma coisa que poucos políticos da história compreendem. Não precisa abolir as instituições para controlar elas. Basta esvaziá-las por dentro, mantendo a fachada intacta. Então ele fez exatamente isso. Regressou a Roma e, em vez de se proclamar rei ou ditador vitalício, começou a acomodar-se nas instituições existentes uma por uma.

 Se nomeou cósul para o ano e foi mantendo o título ano após ano até ao final da década. Por fora era apenas um magistrado eleito da República, como tantos antes dele. Por dentro, controlava as legiões, controlava os cofres e controlava o Senado pelo simples método de ter pago a maioria dos senadores em algum momento dos últimos 10 anos.

 Em paralelo, fechou um acordo com o Senado para dividir as províncias do império. Algumas seriam administradas por magistrados senatoriais. A velha aristocracia continuava participando no governo. Outras seriam administradas por homens nomeados diretamente por ele. Resultado prático: o Senado sentia-se respeitado, a aristocracia se sentia-se incluída e Octávio controlava todas as províncias estratégicas com tropas no seu interior.

 Era a fórmula que César nunca tinha compreendido. Governar com o consentimento aparente de quem estás na verdade a dominar. Mas o momento que oficialmente fundou aquilo que hoje conhecemos como Império Romano veio em janeiro do ano 27. O Senado, agradecido ou bem treinado, dependendo da forma como se lê, concedeu a Octávio dois títulos novos.

O primeiro foi prínceps, significa primeiro ou principal dentro de um grupo. Soa modesto e era a intenção. Otaviano era agora oficialmente o primeiro cidadão de Roma. Não rei, não imperador, apenas o primeiro entre iguais, o cidadão de Roma. O segundo título foi mais grandioso, Augusto.

 Algo entre ilustre, sagrado e reverenciado. Era o tipo de palavra que se usava para deuses e templos, não para políticos. E Octávio adoptou esse como próprio nome. A partir desse ano, deixava de ser Octávio e passava a ser oficialmente César Augusto. O nome herdado do tio avô, agora carregado por um título quase divino.

 E para fechar o pacote, também adotou o termo imperator, palavra latina que originalmente significava comandante militar, mas que com o tempo iria evoluir precisamente por causa dele para significar imperador. Janeiro do ano 27 a de. Crist. Esta data, mesmo sem fanfarra oficial, é geralmente entendida pelos historiadores como o fim da República Romana e o início do Império Romano, um império que duraria quase exatamente 500 anos depois disso.

 E o detalhe mais diferenciado desta transição aconteceu sem coroação, sem golpe, sem proclamação imperial. Tecnicamente, Roma continuava a ser uma república. Os cônsules continuavam a ser eleitos. O Senado continuava a reunir-se. Tudo parecia normal, só que tudo já era diferente. E ninguém, excepto talvez o próprio Augusto, tinha a coragem de dizê-lo em voz alta.

 Com o trono asfaltado, Augusto fez o que os líderes romanos faziam sempre quando se sentiam confortáveis. começou a expandir-se. A Galácia, na atual Turquia central, virou província romana no ano 25, depois de o rei local Amintas ter sido morto. As tribos do norte da Espânia, que tinham resistido aos romanos por dois séculos inteiros, foram finalmente esmagadas.

 E quando a Espânia foi totalmente conquistada por volta do ano XIX, os romanos descobriram ali depósitos colossais de ouro, um achado que encheu os cofres imperiais e fez com que Augusto e a aristocracia romana absurdamente mais ricos do que já eram. A Judeia, sob o controlo do reino de Herodes, entrou definitivamente na órbita romana no final da década de 20.

 E aqui fica um detalhe para quem está a fazer as contas. Quando Cristo nascer dali a alguns anos, vai nascer sob o reinado deste mesmo Augusto num território que ele acabou de incorporar no sistema imperial. Talvez a melhor das vitórias, pelo menos pela propaganda, tenha vindo no ano 20 antes de Cristo. Augusto fechou um acordo com o império Parta, esse mesmo império que tinha despejado o ouro derretido goela abaixo do Craço décadas antes.

 Os Partas acordaram em devolver os estandartes de batalha das legiões romanas perdidas em carras. Pode parecer pormenor, mas não era. Aqueles Os estandartes eram símbolos sagrados para as legiões romanas. Tê-los nas mãos do inimigo durante 33 anos era uma humilhação nacional. Recuperá-lo sem disparar uma flecha foi vendido como vitória militar.

 E Augusto soube usá-lo como queria. Mas nem tudo era ouro nestas conquistas. Em meados da década, Augusto adoeceu gravemente. Ninguém sabe exatamente o quê. Tudo o que se sabe é que durante semanas Roma pensava que ele ia morrer. E depois veio um problema que Augusto nunca tinha pensado direito, sucessão. Ele tinha passado a vida inteira, garantindo que ninguém o pudesse desafiar.

 Mas quem tomaria o lugar dele se morresse? Depois improvisou rápido. Marco Agripa, aquele comandante militar que vinha vencendo as guerras há anos, sucederia militarmente e o seu jovem O sobrinho Marcelo seria preparado para suceder politicamente no longo prazo. Augusto recuperou, mas o susto deixou marcas.

 Pela primeira vez, ele percebeu que todo aquele sistema que tinha construído dependia diretamente dele continuar vivo. Era um império personalista travestido de república. Sem o Augusto Vivo, o sistema não rodava sozinho. Depois, no ano 23, fez ajustes constitucionais importantes. Devolveu o cargo de cônsul, aplaudindo o Senado e fingindo que estava a restaurar a velha Ordem Republicana.

 Em troca, recebeu dois novos títulos vitalícios: Tribuno Permanente e Sensor Powers. Tribuno, o cargo que tradicionalmente protegia os direitos do povo contra a aristocracia, agora dele, sensor, o cargo que decidia quem podia ou não ser senador, agora dele. Era a mesma jogada de antes, com um novo formato, cargos diferentes, controlo igual.

 O senado se sentia-se satisfeito porque tinha devolvido o consulado. Mal percebeu que tinha acabado de lhe dar dois cargos ainda mais poderosos, com nomes mais bonitos. Houve resistência. Houve uma conspiração obscura comandada por um certo fâo sépio, foi descoberta no ano 21. foi esmagada rapidamente e a partir a partir daí Augusto consolidou o poder definitivamente.

A oposição praticamente desapareceu como força organizada, mas administrar Roma exigia mais do que controlar o Senado. A cidade ali pelo final do seu reinado, tinha mais de 1 milhão de habitantes. Era a maior metrópole do mundo e funcionava como muitas mega cidades modernas pessimamente. Roma era uma cidade que ardia praticamente todos os meses.

 Construções de madeira em ruas estreitas, sem qualquer força organizada para apagar incêndios. Era uma cidade onde as agressões violentas eram tão comuns que quase ninguém andava de noite sem guarda-costas. Estava cheia de doenças, ratos, pobreza extrema. Augusto resolveu meter a mão na massa. Criou a primeira força policial profissional da história romana e o primeiro corpo de bombeiros organizado da cidade.

 Eles ficaram conhecidos como vigíles. Patrulhavam as ruas, apagavam incêndios, mantinham alguma ordem. Pode parecer básico, mas para a época era revolucionário. Roma tornou-se um lugar minimamente habitável pela primeira vez em séculos. em paralelo, expandiu a guarda pessoal dele, que tinha começado pequena no início da carreira, para uma força de elite chamada Guarda Pretoriana.

 Eles deviam lealdade direta ao imperador, não ao Senado, não a generais e ficavam responsáveis ​​pela proteção de Roma e da Itália central. Isto vai virar uma instituição perigosa nos séculos seguintes, porque uma força armada que serve só ao imperador acaba por descobrir que ela própria pode escolher imperadores.

Mas isso é tema de outra biografia. Para ele, naquele momento, era apenas segurança própria. César Augusto e o Senado estabeleceram um sistema administrativo que duraria séculos. As províncias senatoriais, administradas pelos velhos aristocratas, províncias imperiais administradas por homens nomeados diretamente por ele.

Todas as províncias com tropas militares importantes ficaram claro sob controlo imperial, incluindo o Egito, que logicamente recebeu um tratamento especial. Por causa da riqueza absurda da região, Augusto não confiou no Senado, nem em nenhum aristocrata de elite para administrar. Colocou um prefeito da classe Equestre abaixo da aristocracia senatorial, respondendo diretamente a ele, porque aparentemente cabides de emprego já existiam 2000 anos antes do termo ser inventado e também construiu estradas, muitas estradas, juntamente com um

sistema de estações de retransmissão com cavalos frescos posicionados em distâncias regulares para que as mensagens pudessem viajar à velocidade máxima entre Roma e qualquer canto do império. A coisa funcionava tão bem que 15 séculos depois, o rei Luís 14 de França ainda não conseguia enviar um mensageiro de Paris a Roma mais depressa do que Augusto conseguia enviar de Roma para qualquer canto do império. Pensa nisso.

 A Europa não bateu o sistema postal de Augusto até ao século XIX com a chegada das ferrovias. Enquanto o império estava sendo costurado por estradas, Roma estava a ser costurada por palavras. Reformou também o sistema de impostos. Durante muito tempo, Roma se sustentava pilhando os territórios conquistados.

 Mas esta é uma estratégia que funciona até deixar de conquistar. Augusto criou um sistema de tributação fixa de terras e comércio com receita estável, previsível e crescente. Bem-vindo à nossa realidade, governantes mais ricos e população mais pobre. O reinado de Augusto é considerado a era dourada da literatura em latim. Não por acaso.

 Augusto entendia uma coisa que César nunca tinha entendido. O poder também precisa de poetas. Os generais conquistam terra. Poetas conquistam memória e memória dura mais. Horácio publicou as suas odes no início e meio do seu reinado. O vídeo compôs as metamorfoses, a arte de amar e os fastos no final.

 Tito Lívio passou 30 anos a escrever a história de Roma desde a fundação até Augusto, uma obra colossal chamada Desde a fundação da cidade. E tinha Virgílio, o maior poeta de Roma. escreveu a Eneida, epopeia nacional sobre Eneias, herói troiano fugitivo que teria fundado, segundo a lenda, a linhagem que deu origem a Roma.

 Coincidentemente, Augusto se reivindicava descendente direto desse Eneias mítico, o que é uma coincidência literária bastante suspeita quando o imperador costuma ser generoso com o poeta. Boa parte destes génios foi sustentada por um homem chamado Caio Messenas, amigo próximo de Augusto, que funcionava como ministro não oficial da cultura.

 O seu nome virou substantivo comum e ainda hoje chamamos de mecenas, qualquer pessoa que financie artistas. Mas a relação entre poder e poesia [a música] tinha limites e o vídeo descobriu isso da pior forma possível. foi exilado por Augusto paraa cidade de Tomes, na actual Roménia, no ano 8 depois de Cristo.

 Os motivos exatos do exílio nunca ficaram claros. Provavelmente envolviam algum escândalo relacionado com a poesia amorosa dele e a alguma figura próxima da família imperial. O vídeo nunca mais regressou e morreu por ali mesmo. Augusto também transformou fisicamente a cidade. Construiu o fórum de Augusto com um templo a Marte Vingador.

 Construiu o Arco do Triunfo de Augusto. Construiu o mausoléu de Augusto nas margens do Tibre. O pórtico de Octávia, que foi construído em homenagem à irmã, essa mesma Octávia humilhada por Marco António. E as termas de Agripa, primeiras termas públicas da cidade, vieram pelas mãos do velho amigo militar.

 Como dizia o próprio Augusto no fim da vida, numa frase que ficou famosa e sintetiza todo o reinado, encontrei Roma de tijolo e deixo Roma de mármore, mas toda esta idade de ouro algustana, os poetas, os monumentos, os mármores, era brilhante, mas não era inocente. Quando Messenas pagava Virgílio para escrever sobre a grandeza de Roma, não estava a fazer caridade, estava a fazer propaganda.

Moedas com o rosto de Augusto circulavam até aos cantos mais remotos do império. Estátuas dele apareciam em cidades que nunca pisou. Monumentos celebravam vitórias que por vezes tinham sido mais diplomáticas do que militares. Era uma máquina de imagem a funcionar em escala continental.

 E Augusto não deixou de acumular poder. Tinha deixado o cargo de cônsul, sim. Mas no ano 19 antes de. Cristo, o Senado concedeu a lhe o direito de usar as insígnias consulares em público. Basicamente, não tem o cargo, mas pode vestir-se como se tivesse. Nos debates do Senado, a sua cadeira ficava entre os dois cônsules do ano.

 A mensagem era clara, sem ter de de palavras. Quando o velho lépido finalmente morreu no ano 12 antes de Cristo, depois de décadas aposentado no Cabo Circeu sem incomodar ninguém, Augusto absorveu o título de pontífice máximo que ele carregava. Agora era, além de tudo, o chefe religioso supremo de Roma. E o título final veio em fevereiro do ano 2 antes de Cristo.

 Páer Patriai, que significava pai da pátria. Era o coroamento de três décadas de concentração de poder. Primeiro cidadão, comandante supremo, chefe religioso e pai simbólico da nação. Tudo embrulhado numa única pessoa que oficialmente ainda não era imperador. Tecnicamente era apenas um cidadão romano comum com muitos títulos.

Mas por detrás desta fachada impecável, havia um problema que Augusto nunca conseguiu resolver bem. E era ironicamente o mesmo problema que tinha destruído a geração do seu pai adoptivo. Sucessão. Augusto casou três vezes. Os dois primeiros casamentos foram descartáveis. Arranjos políticos da fase turbulenta pós- assassinato de César.

 O primeiro com Cláudia durou dois anos e existiu basicamente para cimentar alianças durante o segundo triunfirato. O segundo com escribónia durou o mesmo tempo e produziu a sua única filha biológica, Júlia. Augusto divorciou-se de escribónia no mesmo dia em que ela deu à luz. No mesmo dia, a justificação oficial foi adultério.

 A justificação real era mais simples. Ele tinha conhecido outra mulher e ficou apaixonado. O seu nome era Lívia Druzila. Casada na época com um senador romano, mãe de dois filhos. A Lívia divorciou-se rapidamente e casou com Augusto no ano 37 antes de Cristo. Ficariam juntos pelos 50 anos seguintes até à morte de Augusto, um dos casamentos mais longos e mais estáveis ​​da história imperial romana.

 O problema nunca tiveram filhos em comum. Os motivos são desconhecidos. Ambos tinham filhos de casamentos anteriores. Assim, a fertilidade não era a questão. Mas o facto é que Augusto não produziu um herdeiro direto masculino e isso transformou a questão da sucessão num drama familiar que durou décadas. A primeira escolha de Augusto foi Marco Agripa, o velho companheiro de guerra, o pink militar, o gajo que tinha ganho Axio para ele.

 Augusto casou a própria filha Júlia com a gripa e a união produziu cinco filhos. Parecia resolvido, mas a gripa nasceu no mesmo ano que Augusto e faleceu no ano 12 antes de Cristo, quase 30 anos antes do imperador. O plano A foi para o túmulo juntamente com ele. Augusto voltou então os olhos para os netos.

 Caio César e Lúcio César, filhos de Júlia e Agripa. Começou a prepará-los como herdeiros. Eram jovens, saudáveis, tinham o sangue certo e morreram os dois. Lúcio morreu no ano 2 depois de Cristo. Caio morreu no ano 4.º Em 18 meses, os dois netos que Augusto tinha preparado durante anos simplesmente desapareceram sob circunstâncias que nunca ninguém explicou direito.

 Os rumores em Roma eram venenosos, literalmente. Muita gente suspeitava que Lívia, a esposa, tinha envenenado os dois meninos para garantir que o próximo na fila estava Tibério, o filho dela do primeiro casamento. Se ela realmente envenenou os netos de Augusto, nunca saberemos. Mas o facto de Roma inteira acreditava nisso diz alguma coisa sobre o tipo de família que vivia no Palatino.

 Ainda restava um neto biológico, a gripa póstumo, o filho mais novo de Júlia e Agripa. Mas esse foi banido do império no ano 6 depois decoist por conduta excessivamente brutal e violenta. Tradução provável: [a música] era instável demais para ser fiável. ou demasiado inconveniente para ser tolerado. O resultado foi o mesmo, exilado.

 E assim, por eliminação, não por mérito, não por escolha entusiasta, o herdeiro que ficou foi Tibério. Em Teado de Augusto, filho de Lívia e protagonista da nossa próxima biografia, Tibério era um homem que ninguém descreveria como carismático, mas era o último em pé. E em Roma, ser o último em pé sempre foi suficiente.

Enquanto a questão familiar se arrastava, as fronteiras do império continuavam a mover-se. A segunda metade do reinado viu Augusto consolidar o corredor terrestre entre as partes ocidental e oriental do império na Europa. A região dos Balcans, Panónia e Líria, Mésia, zonas que hoje correspondem à Croácia, Bósnia, Albânia, Kossovo e partes da Sérvia, foi trazida para o interior do domínio romano.

 Uma revolta gigantesca, a grande revolta Ilíria, explodiu no ano 6 depois de Cristo e demorou 3 anos a ser esmagada. Mas quando acabou, [a música] os territórios romanos formavam uma cadeia da costa atlântica de Espanha até à Turquia. A Judeia, que tinha sido estado cliente durante décadas sob o controlo do reino de Herodes, foi formalmente anexada e transformada em província no mesmo ano e Augusto começou a reduzir o tamanho do exército.

 As legiões, que tinham passado de 50 durante as guerras civis foram cortadas para um efetivo permanente de 28. A ideia era clara. O tempo de conquista tinha terminado, o tempo de consolidação tinha chegado, a não ser num lugar, a Germânia. César tinha conquistado toda a Galha em menos de 10 anos.

 Augusto olhou para o mapa, viu as terras germânicas para além do Reno e pensou: “Se o tio avô fez com a Gália, faço com a Germânia”. As legiões romanas, operando a partir de Colónia, a cidade que até hoje carrega o nome romano, começaram a avançar para leste. O progresso foi tão rápido que pelo ano 7 antes de Cristo, as armas romanas já tinham chegado ao rio Elba, no leste da Alemanha.

Uma nova província chamada Germânia antiga foi estabelecida. Parecia fácil demais, porque era em segredo, as tribos germânicas estavam a se organizando e tinham um líder que conhecia os romanos por dentro, Armínio, um germano que tinha servido de aliado dos romanos e sabia exatamente como as legiões operavam.

 No ano 9 depois de Cristo, o general romano Públio Quintilho Varo marchou com três legiões para a região da Saxónia. Armínio guiou-o pessoalmente para dentro de uma emboscada numa floresta densa que ficou conhecida como a floresta de Teutuburgo. 15.000 homens, praticamente todos mortos. Foi das piores derrotas da história militar romana e aconteceu nos últimos anos de vida de Augusto.

 Suetónio conta que ao receber a notícia, Augusto bateu a cabeça contra a parede e gritou para Quintilho devolver as legiões. Não devolveu. A Germânia nunca mais seria conquistada. O rio Reno virou a fronteira definitiva do norte do império. E aquela derrota, depois de décadas de vitórias, foi a última grande marca no reinado de um homem que tinha passado toda a vida tentando controlar tudo.

 César Augusto morreu com quase 80 anos no dia 19 de agosto do ano 14 depois de Cristo. Agosto, o mês que tem o nome dele, assim como julho, tem o nome do tio avô. A saúde vinha falhando há tempos. Houve rumores de que Lívia teria apressado a morte para garantir que Tibério assumisse sem complicações, mas provavelmente não passam de fofoca palatina.

 Um velho de quase 80 anos no mundo antigo não precisava de ajuda para morrer. Tibério assumiu não porque fosse brilhante, não porque era amado, mas porque tinha sobreviveu a todos os outros candidatos. A ironia de um império construído pelo político mais astuto da história, ser herdado pelo último sobrevivente disponível, é difícil de ignorar.

 E os sucessores imediatos de Augusto fizeram questão de mostrar como era difícil substituí-lo. Tibério governou distante, desinteressado, delegando para intermediários duvidosos. Calígula, que [a música] veio depois, é geralmente recordado pela sua tirania, crueldade e instabilidade. O bisneto de Augusto provou que o parentesco nobre não garante a sanidade.

 Cláudio, que veio a seguir, [a música] era na verdade o mais competente do grupo. Reformou o sistema jurídico, construiu infraestruturas pelo império, mas como era coxo e gago, sempre sofreu bullying da história. Roma aparentemente preferiu generais bonitos a administradores competentes. E depois veio Nero, o último da dinastia Júlio Claudiana, o homem que terá mandado matar a mãe e tocou Lira enquanto Roma ardia.

 O seu reinado terminou em guerra civil e no fim da linhagem que Augusto tinha construído com tanta paciência. Tibério, Calígula e Nero, todos os três com biografias próprias aqui no canal. cada um à sua maneira. Todos serviram como demonstração involuntária de quão difícil tinha sido o que Augusto realizava e de quão frágil era o sistema que ele deixou.

 Porque no fim das contas, César Augusto é um paradoxo que 2000 anos de historiografia não resolveram. Por um lado, acabou com a República Romana, destruiu as instituições mais democráticas do Estado, concentrou todo o poder em si mesmo e disfarçou-o com títulos elegantes. Matou adversários, proscreveu centenas de pessoas, executou adolescentes que o podiam ameaçar.

Tácito, o historiador romano, não teve dúvida. Augusto subverteu a vontade do povo e fez de todos eles escravos. Por outro lado, apanhou uma república que se estava a autodestruir, décadas de guerras civis, os generais tornaram-se matando pelo poder, o Senado incapaz de governar e deu-lhe estabilidade.

formou a administração, profissionalizou o exército, criou infraestruturas, incentivou a cultura, definiu fronteiras que faziam sentido geográfico e militar e inaugurou a Pax Romana, dois séculos de paz relativa para os 50 a 70 milhões de pessoas que viviam sob o domínio de Roma. É muito distante do caos em que Octávio nasceu.

Então, o que era ele? o tirano que matou a república ou o estadista que salvou Roma de si mesma. A resposta provavelmente é que ele era as duas coisas ao mesmo tempo. O homem implacável que destruiu a República moribunda e o arquiteto que construiu algo mais durável no lugar dela. Porque a verdade sobre Augusto é a mesma verdade sobre o poder em qualquer época.

Raramente vem limpo. E se chegou até aqui, muito obrigado pela sua companhia. Conta-me nos comentários a próxima biografia que quer ver por aqui. E não se esqueça de se inscrever no canal para mais conteúdos como este. O menino Franzino, órfão de pai, criado pela avó, rejeitado pelo padrasto, o miúdo que ninguém não apostaria nada, governou Roma durante mais de 40 anos.

 transformou um amontoado de províncias em guerra num império coeso. Encontrou uma cidade de tijolo e deixou uma de mármore e morreu na cama de velice, rodeado pela família, num mundo onde quase todos os seus antecessores poderosos morreram de punhalada, veneno ou espada. Isto por si só, é talvez a maior prova do que realizou.

 Porque os reis vêm e vão. Os generais são esquecidos, os senados viram pó. Mas o sistema que aquele miúdo do Palatino inventou sobreviveu durante 500 anos depois dele e o modelo de governo que ele criou, de uma forma ou de outra, nunca deixou de ser copiado.

 

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