Roberto Carlos Desafiou Luiz Gonzaga a Cantar Bossa Nova – A Resposta Calou o Estudio o

Roberto Carlos Desafiou Luiz Gonzaga a Cantar Bossa Nova – A Resposta Calou o Estudio o

Em 1961, Roberto Carlos tinha 20 anos e entrou num estúdio da Rádio Nacional do Rio de Janeiro com uma aposta na mão. Uma aposta que Luís Gonzaga nunca cantaria boossa nova sem perder a vergonha. Gonzaga não só aceitou o que aquele homem de chapéu de couro fez naquela tarde, calou um estúdio inteiro por quase 2 minutos.

 Luís Gonzaga nesse ano já era tudo o que um homem do sertão  podia sonhar ser. Era o rei do baião. Era a voz de Pernambuco, do Ceará, do Piauí, de cada canto ressequido do Nordeste que o sul do O Brasil mal sabia que existia. tinha gravou mais de 200  discos, tinha feito plateias inteiras, chorarem sem pedir licença, tinha levado o forró para o asfalto do rio, quando o rio ainda pensava que o forró era coisa de matuto sem futuro.

Mas 1961 era um ano diferente. Era o ano em que a bossa nova tinha tomado conta  de tudo, dos bares, das rádios, das conversas nos apartamentos da zona sul, das bocas  dos produtores que decidiam o que ia para o ar e o que ficava no arquivo. João Gilberto era o assunto, Tom Jobim era o assunto.

 E havia uma voz nova que começava a aparecer nos programas, um menino de cachoeiro de Itapemirim, com uma forma suave de segurar o microfone, que fazia as raparigas fecharem os olhos  de tão feliz. Esse menino era o Roberto Carlos e foi Roberto Carlos quem se cruzou com Luís Gonzaga  nessa tarde num corredor da Nacional e disse uma coisa que ninguém que estava naquele corredor esqueceu-se nunca mais.

O que ele disse exatamente é motivo  de versão diferente, dependendo de quem conta. Há quem jure que foi uma brincadeira inocente de rapaz jovem sem  maldade. Há quem jure que foi uma provocação calculada, mas todos [a música] concordam numa coisa. Gonzaga ouviu, abriu um sorriso de canto e respondeu  com quatro palavras que não vou revelar ainda agora, porque estas quatro palavras são o coração desta história e só fazem sentido quando tu  percebes o que aconteceu depois.

O que precisa de saber agora é que havia dentro daquele  estúdio, nessa tarde, uma gravação que foi feita sem que ninguém  tivesse ordenado. Uma fita que existia, que ficou fechada numa gaveta da Rádio Nacional  durante 17 anos sem que quase ninguém soubesse. E quando essa fita foi aberta em 1978, o que estava gravado nela mudava completamente a versão que o Brasil tinha sobre o que se passou naquela tarde de agosto de 1961.

Mas havia algo mais, algo que a fita não capturou. Havia no corredor  do estúdio, nesse mesmo momento, uma mulher que tinha vindo do sertão de Pernambuco, atrás de um irmão desaparecido e que não tinha nada a ver com apostas, nem com bossa nova, nem com rivalidade artística.  O seu nome e o que viu através da janela do estúdio é a parte desta  história que mais dói.

 Você ainda não sabe quem ela é. Isso vai importar  mais do que imagina quando chegar a hora. O que vem agora é ainda  mais forte, porque Gonzaga, nesse início dos anos 60 estava a viver algo que nenhum homem orgulhoso devia viver. Estava a ser esquecido. Não de repente, não com violência. Era pior. Era devagar.

 Era a indiferença que vai chegando sem ruído, como a seca chega, sem nuvem  no céu, sem sinal no horizonte, sem aviso nenhum. Os programas de rádio tinham começado a trocar o baião pelo samba canção mais leve, pela boossa nova que chegava com aquela elegância carioca que o Brasil urbano adorou de imediato.

Os produtores da Nacional recebiam as gravações de Gonzaga com respeito,  porque ninguém tinha coragem de ser abertamente desrespeitoso  com o rei do baião. Mas os horários nobres na programação iam desaparecendo. Uma semana era às 7 da noite, depois era depois das 10. Depois era  de madrugada, quando só os camionistas do interior ouviam rádio. E Gonzaga sabia.

Gonzaga sempre soube. Aquele era um homem que tinha  saído de Exu, ainda adolescente com a concertina às costas e a barriga vazia, que tinha dormido debaixo de Jatobá, com o frio da madrugada, cortando a roupa fina, que tinha tocado por  um prato de comida numa feira de interior, antes de qualquer estúdio de gravação no Rio saber que ele existia.

Aquele homem não era ingénuo. Esse homem lia o silêncio dos  outros como mapa. Sabia decifrar o que as pessoas não diziam com a mesma precisão com que o sertanejo lê o céu antes da chuva. Havia também o  peso de ser o homem que o sul do Brasil admirava de longe, que ouvia na rádio com a emoção de quem ouve algo exótico e distante, mas que nunca convidava para se sentar à mesa como igual.

 O nordestino era apreciado como fenómeno, como curiosidade, como o talento folclórico. Mas quando o assunto era modernidade, quando o assunto era o futuro do Brasil, quando o assunto era o que o país queria  ser, depois o nordestino ficava do lado de fora a olhar pela janela. O Gonzaga carregava isso. Carregava com  dignidade, com silêncio, com aquela resistência que o homem do sertão aprende desde menino, porque não tem outra escolha.

 E foi com tudo isto dentro do peito que ouviu Roberto Carlos no corredor da Nacional. O menino tinha chegado por ali  depois de uma gravação, ainda com a energia de quem acabou de fazer algo que esteve bem. E ao cruzar com Gonzaga, que saía de uma sessão com o chapéu na mão e a concertina num estojo de couro gasto, Roberto Carlos parou, sorriu e disse com o tom de quem pensa que está a fazer graça. O Sr.

 Luiz, os produtores aqui da rádio estão a dizer por  aí que o senhor não consegue cantar uma boossa nova sem parecer que está a tocar na feira de Caruaru. Havia pelo menos seis pessoas no corredor naquele momento. Todas ouviram. O silêncio que se seguiu teve a duração de uma respiração funda. Gonzaga  olhou para o menino, olhou para o chapéu que trazia na mão, depois olhou de novo para Roberto O Carlos  com aqueles olhos que quem conhecia descrevia como olhos que tinham visto coisas que o Rio  de Janeiro nunca ia entender. e disse

com a voz baixa de quem não precisa gritar para ser obedecido: “Vem comigo, meu filho. Só isso. Venha comigo,  meu filho”. e virou as costas e entrou de novo no estúdio. Roberto Carlos, que tinha dito que com o sorriso fácil de quem faz  uma brincadeira entre colegas, hesitou por um segundo antes de seguir.

 Não foi raiva que Gonzaga demonstrara. Não era ofensa. Era algo mais  difícil de responder do que a raiva. A calma de quem não tem nada a provar, porque já provou tudo. E essa calma era a coisa mais intimidante que o Roberto Carlos tinha encontrado na vida até aquele ponto. O verdadeiro problema era apenas  começando.

 Dentro do estúdio havia, para além dos dois  artistas, um técnico de gravação denominado Seu Mário Cardoso, homem de Natal que trabalhava na Nacional há 22 anos. O seu Mário tinha ouvido naquelas paredes coisas que a maioria dos brasileiros nunca ia ter o privilégio de ouvir. Havia também  dois músicos que tinham terminado uma sessão e ficaram porque a palavra tinha corrido no corredor.

“Gonzaga vai tocar bossa nova”, alguém tinha dito. E esta frase era impossível de ignorar e havia ela. A mulher que ainda não conhece. sentada numa cadeira do corredor que dava para aspar a janela do estúdio, com as mãos cruzadas no colo e os olhos  que não pediam nada. O nome dela era Doralice Santos.

Não a cantora famosa, outra Doralice. Esta era uma mulher de Surubim, interior de Pernambuco, que tinha chegado ao rio três semanas antes num camião pau de arara. tinha vindo atrás de um irmão, António, de 32 anos, que tinha desaparecido durante a grande seca de 1958, que tinha entrado num camião de retirante com mais 11 pessoas  da mesma rua e nunca mais mandado notícia.

Doralice tinha encontrado entre os pertences  que o irmão deixara em casa, um papel dobrado com um endereço escrito à mão, o endereço da Rádio Nacional do Rio de Janeiro e em baixo, na letra apertada  de António. Aqui é onde o rei do baião trabalha. Um dia venho ver. António nunca lá tinha chegado.

 A Doralice veio  no lugar dele, não queria falar com Gonzaga. Tinha vindo apenas até ali, até à morada do papel do irmão, para ficar perto do único local concreto que ligava António ao mundo. Era a lógica de quem perdeu alguém e não  tem túmulo onde chorar. Vai até o lugar onde a pessoa sonhava estar e fica ali um tempo, como se o sonho dela ainda pudesse alcançar-te de alguma forma.

Ainda não sabe o que aconteceu quando a voz de Gonzaga chegou onde ela estava. Isso vem daqui a pouco, mas antes de lá chegar, precisa de ver o que aconteceu quando Gonzaga entrou no estúdio. A primeira coisa que ele fez surpreendeu a todos. Não foi para o microfone, foi até ao acordeão que estava encostada à  parede, pegou nela com as duas mãos, sentou-se numa cadeira e ficou parado, olhando para ela.

3 minutos, quase 3 minutos completos, sem dizer uma palavra, sem olhar para ninguém, com os lábios a moverem-se ligeiramente, como se estivesse a rezar alguma coisa que os outros  não tinham o direito de ouvir. Roberto Carlos, que tinha  entrou atrás dele com o sorriso ainda tentando manter-se no rosto, foi ficando mais quieto à medida que os segundos passavam.

O Sr. Mário no painel de controlo contou o tempo depois. 2 minutos e 48  segundos de Gonzaga sentado com a acordeão no colo, olhando para  ela de baixo para cima, com os lábios quase sem se mexer. Era como se pedisse licença disse senhor Mário anos  depois. como se estivesse a explicar alguma coisa para a acordeão  antes de fazer o que ia fazer, como se precisasse do consentimento do instrumento para o que estava prestes a pedir-lhe que tocasse.

 O que Gonzaga disse para Sanfona nestes quase 3 minutos,  em voz muito baixa, de costas para todos, é o quarto nó desta  história. Ele só se desata quando compreender o que aconteceu muito mais tarde, numa entrevista de 1983. Mas esse momento vai importar. Guarde ele. Roberto Carlos  percebeu que tinha feito algo de errado antes mesmo de Gonzaga  tocar uma única nota.

 “Eu era um rapaz”, disse décadas depois. Eu não sabia o tamanho do que lhe estava a pedir que fizesse, mas o pedido  já tinha sido feito e Gonzaga tinha aceitado. Quando ele finalmente levantou-se e foi para o microfone, o estúdio  estava em silêncio absoluto. Se o Mário ligou o equipamento de gravação sem que ninguém pedisse por um instinto  que ele nunca soube explicar direito, aquela certeza de que o que estava  prestes a acontecer precisava de ficar registado.

 E Gonzaga começou. Ele cantou Garota de Ipanema com a concertina no ritmo, nas notas certas, no tempo certo. Era bossa nova, a estrutura era bossa nova, a melodia era  bossa nova. Mas a voz, a voz não era do Rio de Janeiro. A voz era de Exu. a voz de um homem que tinha aprendido a cantar, ouvindo o vento no sertão, que tinha afinado a garganta com a ressonância das pedras  quentes de Pernambuco, que transportava dentro do peito o peso específico de quem já passou fome a sério, de quem já viu a terra estalar debaixo dos próprios pés e

não tinha para onde olhar senão para cima, à espera de uma chuva que não vinha. E aqui é onde tudo o que achou que estava a compreender muda completamente. Porque Gonzaga não cantou bossa nova do forma que Roberto Carlos tinha apostado que não conseguia, com a elegância carioca que fazia as raparigas da zona sul fecharem os olhos.

Gonzaga cantou boossa nova da maneira que só um homem do sertão podia cantar boossa nova. com a  dor lá dentro, com o peso de quem carrega uma terra inteiro na garganta, com um fraseado que era tecnicamente  bossa nova, mas que tinha dentro de si tudo o que o baião tinha, toda a seca, toda a saudade, toda a raiva quieta do retirante que chega ao sul e não encontra o que veio buscar.

 Quando chegou ao refrão, aquele refrão que todo o o Brasil conhece, que fala da rapariga  que passa. E é tão bonita e tão cheia de graça. A voz de Gonzaga abriu. Abriu para dentro como se o refrão tivesse chegado num ponto em que a técnica já não conseguia segurar o que estava por baixo dela. E o que estava por baixo dela era o sertão inteiro.

 A caatinga, o açude de seco, o sol das 3  da tarde de agosto. Saudade de uma terra de onde foste embora, porque não [a música] tinha mais maneira de ficar, mas que carrega dentro do peito, mesmo quando está num estúdio de gravação a cantar boossa nova, porque um rapaz de 20 anos quis provar alguma coisa. O refrão não se completou.

 Gonzaga parou no meio, ficou olhando para o microfone por um segundo, depois afastou-se devagar, colocou a acordeão no chão com cuidado, pegou no chapéu que tinha deixado na cadeira e saiu  do estúdio sem dizer uma única palavra. O silêncio que ficou depois da porta se fechou durou,  segundo o seu Mário, quase do minutos.

 Ninguém falou, ninguém se mexeu. Roberto Carlos continuava de pé no mesmo lugar, com os braços caídos ao longo do corpo, como se se tivessem esquecido onde deviam  estar. E foi neste silêncio, o silêncio pesado e estranho  de um estúdio depois que algo passou que não se sabe nomear, que Doralice Santos começou a chorar do lado de fora.

 Através da janela do corredor que dava para o estúdio, ela tinha ouvido tudo. Não tinha compreendido a  bossa nova como género. Não conhecia garota de Ipanema. Não sabia o nome da música, mas tinha ouvido aquela voz. E essa voz tinha lá dentro  dela tudo o que o sertão coloca dentro de uma pessoa.

 A dor de quem fica, a dor de quem vai, a dor do irmão que desapareceu num camião rumo ao sul e nunca mais mandou notícia. Ela chorava com a garganta fechada, com o queixo a tremer ligeiramente, com os olhos a ficarem  vermelhos, sem que as lágrimas caíssem de verdade, da maneira que o sertão ensina a chorar.

 Quando se aprende desde  criança que mostre dor no público é uma fraqueza que a vida não perdoa, o senhor Mário viu. E então Gonzaga, saindo do estúdio  e atravessando o corredor, passou pela cadeira onde Doralice estava sentada e parou. Não porque a conhecesse, parou porque o sertão reconhece o sertão. Porque há certas formas de ter os  olhos vermelhos, certas formas de ter as mãos abertas no colo, que só uma  pessoa que cresceu no interior do Nordeste sabe ler como um mapa.

Gonzaga ficou parado à sua frente por um segundo. Doralice levantou os olhos. Olharam-se e então Gonzaga pôs a mão no ombro dela. Uma mão só por um segundo, não mais do que isso. E seguiu andando pelo corredor até desaparecer pela porta do fundo. Não soube o nome dela. Nunca ia saber. nunca ia saber sobre o irmão, sobre o papel dobrado com o endereço da rádio, sobre os quatro dias  de camião que ela tinha feito para chegar até ali.

 E, no entanto, aquele segundo de mão no ombro disse  mais do que qualquer conversa poderia dizer. Era o Nordeste a reconhecer o Nordeste sem necessitar de apresentação, sem precisar de palavras. O senhor Mário viu isso também e foi o seu Mário quem muito mais  tarde soube que as duas histórias daquela tarde eram uma só. Agora precisa de saber o que aconteceu com a gravação.

Na semana seguinte, o senhor Mário foi ao diretor da rádio com a fita na mão. O diretor chamava-se Nelson Albuquerque, homem do Rio, jovem para o cargo que ocupava, convicto de que o  futuro da rádio estava na bossa nova e nas novas tendências da música urbana. O senhor Mário colocou a fita no aparelho e ficou de pé junto à porta.

 Enquanto Nelson Albuquerque ouvia, o diretor ouviu do princípio ao fim, sem se mexer. Quando acabou, ficou em silêncio, olhando para o aparelho, como se a fita pudesse fazer outra coisa para além de ficar quieta. Então disse: “Não vai para o ar”. Por quê? perguntou o senhor Mário. E Nelson Albuquerque respondeu com uma frase que o senhor Mário repetiu durante décadas para qualquer pessoa que quisesse ouvir.

Porque isto aqui não é bossa nova e não é baião. Isto aqui é outra coisa. E o O Brasil ainda não está preparado para perceber o que é essa outra coisa. Pegou a fita, colocou-a numa gaveta da mesa e fechou a gaveta com a chave. 17 anos a fita ficou ali numa gaveta, num arquivo, numa gaveta fechada, enquanto a bossa nova nascia, crescia e tornava-se MPB, enquanto a ditadura apertava e o povo cantava de protesto, enquanto Gonzaga estava esquecido e era redescoberto.

Enquanto Roberto Carlos se tornava o maior fenómeno da rádio e da televisão do Brasil. Em 1978, o senhor Mário estava a aposentar-se e esvaziando o arquivo de coisas que mais ninguém precisava. Abriu a gaveta. A fita estava lá com uma etiqueta [canção] manuscrita que dizia apenas: LG Agosto 61. levou-o para casa, ouviu de novo e sentou-se durante muito tempo com a fita na mão, pensar no que fazer, porque o que tinha ouvido  continuava a ser 17 anos depois, exatamente o que o Nelson  Albuquerque tinha chamado de outra

coisa, algo que não cabia num género musical, que não cabia numa categoria de rádio, que não cabia em nenhuma gaveta que o Brasil inventasse para guardar coisas que não sabe utilizar. Nesse mesmo período, uma rádio do Recife preparava um programa especial sobre a história da música nordestina  no Rio.

 Roberto Carlos tinha concordado em dar uma entrevista. O seu Mário mandou uma carta para a produção a contar que existia uma fita, contando o que estava gravado  nela, contando a história da tarde de agosto de 1961. A carta chegou e quando o apresentador do programa do Recife mencionou para Roberto Carlos durante a  entrevista em direto que tinha recebido um relato sobre uma tarde de 1961  num estúdio da Nacional, Roberto Carlos ficou em silêncio.

 O silêncio durou o que o apresentador depois  descreveu como tempo demasiado longo para a rádio. 10 segundos no rádio. 10 segundos de o silêncio é uma eternidade. E depois o Roberto  Carlos disse com a voz de um homem de 50 anos, lembrando-me de quando tinha 20. Eu Lembro-me de cada  segundo daquele estúdio.Luiz Gonzaga

 Eu era um menino que fez uma pergunta errada ao homem  certo e o Gonzaga respondeu-me com a única coisa que não tem resposta. mostrou-me o que eu não sabia que existia. Ainda se lembra das quatro palavras? Vem comigo, meu filho. Não era uma aceitação  da aposta, era uma convocatória. O tipo de convite  que um homem mais velho faz a um homem mais novo, quando sabe que o jovem não compreendeu  ainda o que está a pedir e que a única forma de o fazer  compreender é mostrar, não explicar.

E ainda se lembra do que Gonzaga  disse para a concertina. Os quase três minutos de voz baixa, de costas para todos. O quarto nó desta história.  Em 1983, numa entrevista para uma rádio de Fortaleza, um jornalista perguntou a Gonzaga se tinha algum ritual antes de tocar.

 E Gonzaga  respondeu sem hesitar: “Peço licença. Peço licença para o instrumento, para a música e para os mortos que me ensinaram o que sei. Sem essa licença, o que sai não  é música. É só barulho de pessoas que não percebe de onde vem, o que faz.” Ele não estava a falar daquele dia especificamente, mas estava a falar daquele dia completamente.

O que Gonzaga disse à Sanfona naqueles  quase 3 minutos foi o que ele sempre dizia. pediu licença para o instrumento, para a música e para os mortos, para o pai que lhe ensinou a tocar, para os velhos acordeonistas do sertão que tinha ouvido em criança nas feiras de Exu, para cada homem e cada mulher que antes dele tinha transformou a dor em música  e sobreviveu por causa disso, pediu licença para fazer com bossa nova o que sempre tinha feito com Baião.

Colocar dentro de uma forma musical toda a a verdade de um povo que o Brasil  preferia admirar de longe do que entender de perto. Esta é a história  que o Brasil inteiro nunca soube completa. história de uma aposta que começou num corredor de rádio e terminou num silêncio de 2 minutos que ninguém que esteve presente naquele estúdio nunca conseguiu  explicar a quem não estava lá.

A história de uma fita guardada por medo do que revelava. A história de uma mulher de surubim que chorou num corredor do Rio de Janeiro, sem que o homem que a fez chorar soubesse que ela existia. A história de uma mão no ombro que durou um segundo e disse  mais do que uma conversa inteira poderia dizer.

Gonzaga não provou que a bossa nova estava errada. Gonzaga provou que o sertão não fica para trás nunca, que pode  cantar qualquer música que o mundo quiser que tu cante. Mas se carregar o Nordeste no peito, o Nordeste  sai na voz. Não há arranjo que esconda, não há estúdio que neutralize. A terra de onde vieste fala mais alto  do que qualquer modernidade que o mercado invente.

Conta nos comentários em que cidade é que estava quando ouviu Luís Gonzaga pela primeira vez na rádio e o que lhe estava a fazer naquele momento? O que acabou de ouvir não é o fim desta história, é o início de uma que é ainda mais pesada. Tem um vídeo aqui no canal que conta o que aconteceu quando um menino cego tocava asa branca num autocarro interestadual em 1967  e Luís Gonzaga estava sentado no banco de trás sem que o menino soubesse o que Gonzaga fez quando o autocarro chegou ao fim da linha e o que aquele menino

carregou durante décadas, sem compreender  o que lhe tinha acontecido naquele dia. É algo que as  pessoas que presenciaram levaram anos a conseguir  contar sem a voz travar a meio. A história completa está neste vídeo aqui. E se já assistiu, há mais histórias  como esta esperando por si aqui no canal.

 Se inscreva se carregas o sertão no peito e nunca  esqueceu o que Gonzaga representou.  

 

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