Em 1980 Luiz Gonzaga Tocou para o Papa – O Que Aconteceu Poucos Conhecem

Em 1980, Luís Gonzaga embarcou para Roma conflito de que regressaria em silêncio, sem palco, sem acordeão, sem qualquer microfone. Era uma viagem discreta, quase secreta, que ele próprio pediu que não fosse divulgada. regressou com uma história que passou décadas guardada no fundo de uma mala de couro curtido e que só veio ao de cima porque um padre do interior do Ceará decidiu falar antes de morrer.

Quem conhecia o Gonzaga sabia que ele tinha um orgulho que pesava. Orgulho de retirante, de filho do sertão, de homem que construiu tudo sozinho, desde que saiu de Exu com 18 anos e quase nada no bolso. Esse orgulho nunca o deixou pedir nada. A ninguém que ele não respeitasse de verdade.

E o facto de ter aceitado aquela viagem daquela maneira, com aquelas condições, já dizia algo. Mas o que aconteceu dentro daquele encontro? O que foi dito e o que ficou por dizer. Este ficou enterrado durante quase 20 anos. Há uma gravação, ou havia uma fita cassete que um jornalista do Recife levou consigo quando emigrou para Portugal em 1987 e que nunca foi transmitida, nunca foi transcrita, nunca apareceu em nenhum livro, nem em qualquer reportagem.

Só que esta fita não continha uma entrevista comum e o que lá estava gravado mudava a versão que todos conhecias são sobre aquela viagem, mas o que vem agora é ainda mais forte, porque a história da fita é apenas a parte que se consegue provar, o que aconteceu antes da viagem dentro do Brasil, nos bastidores de uma decisão que quase não foi tomada.

Isso é a parte que poucos imaginam que existiu. Em 1979, Gonzaga tinha 62 anos e estava num momento estranho da carreira. Estranho porque o Brasil tinha mudado em torno dele e ele tinha mudado junto sem perceber direito. O tropicalismo tinha sacudido tudo uma década antes. A jovem guarda tinha roubado o rádio aos jovens.

O baião ainda vivia, mas já não vivia com a mesma urgência de antes. Quando uma concertina tocada num salão de Caruaru fazia chorar de saudade do que tinha deixado para trás. Gonzaga seguia tocando, continuava a encher, mas havia algo diferente, uma espécie de peso que ele carregava sem nomear.

Foi nesse período que um assessor do Vaticano, passando pelo Rio de Janeiro numa visita discreta, ouviu Gonzaga numa apresentação num teatro do centro, sentou-se no fundo da plateia, não se identificou e ficou até ao fim. Saiu sem falar com ninguém, mas escreveu uma carta. Esta carta chegou às mãos de um bispo nordestino que tinha contacto com Gonzaga desde os anos 50, desde os tempos em que a igreja e o forró partilhavam o mesmo calendário nas festas de junho do interior.

O bispo leu a carta, releu, dobrou com cuidado e foi pessoalmente até São Paulo, onde Gonzaga estava hospedado num hotel da Bela Vista. Entre uma apresentação e outra, o encontro durou menos de 40 minutos. O bispo não revelou o que foi dito naquele quarto, mas quando saiu, Gonzaga estava sentado na beira da cama com o chapéu de couro nas mãos, passando o polegar pelo aro de couro como quem precisa de ter alguma coisa para se gurá.

Ainda não sabe o que estava escrito nessa carta. Isso vem daqui a pouco e quando souber a vai entender por Gonzaga passou três meses sem falar sobre aquela visita com ninguém, nem com a família. O que se sabe com certeza é que a decisão de aceitar a viagem para Roma não foi imediata.

Levou semanas e demorou uma conversa que decorreu num local completamente improvável, num camião pau de arara parado à beira da BR232, em pleno sertão pernambucano. Durante uma caravana que Gonzaga fazia pelo interior antes de regressar a São Paulo. Tinha o hábito de parar nesses camiões. Não era performance, não era foto para jornal, era verdadeiro, parava.

Descia do carro, subia para o estribo do camião e ficava a conversar com os retirantes que se iam embora. perguntava de onde vinham, para onde iam, se tinham família à espera. Às vezes pegava na concertina e tocava uma música ali mesmo à beira da estrada, com o sol a cortar de lado e o pó ainda na roupa de toda a gente. Um desses paradas.

Em dezembro de 1979, havia um homem velho sentado no canto do camião, de costas para a cabine, com uma mala de madeira atada com corda de cisal aos pés. Gonzaga parou perto dele, olhou e reconheceu-o. Era um cantador de viola que tinha visto pela primeira vez num mercado de petrolina ainda na adolescência. Um homem que tinha o dom de improvisar estrofes durante horas, sem repetir uma rima sequer, um dos melhores que já tinha escutado.

O cantador estava velho, muito velho. As mãos estavam cheias de manchas escuras e os olhos tinham tinham aquela película esbranquiçada que a vida ao sol do sertão deixa ao fim de décadas. Gonzaga sentou-se ao lado dele no estribo do camião. Ficaram em silêncio um bom tempo. Depois o velho falou sem olhar para ele: “Gonzaga, tu já fizeste tudo o que precisava de fazer aqui, agora vai fazer o que te está a chamar lá fora.

” Gonzaga não respondeu logo, mas ficou com aquela frase. E segundo pessoas próximas que souberam depois, foi esta frase dita por um cantador desconhecido num camião na berma da estrada, que pesou mais do que qualquer argumento formal na decisão de aceitar o convite de Roma, o que parecia uma decisão simples, estava prestes a tornar-se tornar algo muito mais complicado, porque quando a notícia começou a circular nos bastidores, discretamente que Gonz Zaga poderia estar a ir à Europa.

Apareceram as vozes à contrárias, vozes fortes. gente do meio artístico que dizia nas conversas fechadas que aquilo era uma armadilha de imagem, que ia parecer que Gonzaga estava a curvar-se a uma instituição que historicamente tinha tratado o nordestino com distância, que a igreja dos bispos ricos nunca tinha sido a igreja do povo do sertão, que mandaram missão, que mandaram padre, mas nunca enviaram água nem terra.

Havia quem o dissesse com raiva genuína, e havia quem dissesse com cálculo, querendo garantir que Gonzaga permanecesse ligado a uma imagem específica, a uma narrativa específica, que também servia determinados interesses. Gonzaga ouvia tudo, não rebatia. Quando alguém pressionava demais, pegava na concertina, ajustava as pegas e começava a tocar sem dizer uma palavra.

Era assim que ele encerrava conversas que não queria continuar, mas havia algo que ele ainda não sabia sobre as razões por detrás do convite, algo que o conselheiro do Vaticano não tinha incluído na carta e que o bispo nordestino também tinha decidido omitir, pelo menos por enquanto, à espera do momento certo.

A viagem foi marcada para março de 1980. Gonzaga viajou com uma pequena comitiva, um acordeonista de apoio, um assistente pessoal que tratava da logística e um padre brasileiro que servia de intérprete informal. Nenhuma gravadora enviou representante, nenhuma estação de televisão foi informada. O único registo fotográfico que se sabe que existiu foi feito por um frei franciscano com uma câmara de filmar pequena e estas fotos só aparecessam em público décadas depois em cópias de de baixa qualidade, sem legenda e sem data confirmada. Chegados a Roma, foram

instalados numa estalagem ligada à Santa Sé, perto do Vaticano. Gonzaga ficou os primeiros dois dias praticamente sem sair. Sentou-se à janela, olhou para a cidade e disse ao assistente que Roma era demasiado bela para ser de verdade, que parecia cenário, que ele preferia Exu. No terceiro dia, o encontro aconteceu.

A sala onde foram recebidos era menor do que qualquer esperava. Não era uma audiência formal, não era no salão principal, era uma sala de trabalho com livros nas paredes e uma janela que dava para um pátio interior. O O Papa João Paulo I estava sentado quando entraram e levantou-se. Estendeu a mão. Gonzaga olhou para aquela mão por um segundo antes de apertar.

O que aconteceu a seguir? Ninguém da comitiva havia previsto. Antes de o intérprete conseguisse organizar a primeira frase de apresentação, o Papa falou em português. Um português carregado, com sotaque carregado, mas compreensível, disse, olhando diretamente para Gonzaga. Eu conheço o seu trabalho, conheço a sua terra, conheço o que o teu povo transporta.

Gonzaga ficou parado nesse momento, segundo o relato que o assistente pessoal deu muitos anos depois, o rei do baião ficou com os olhos marejados, não não disse nada durante um tempo que pareceu muito mais longo do que foi. Depois falou: “Vos no vosso nordestino fechado com a voz que era a mesma da concertina: “Vossa Santidade já viu o sertão?” O Papa respondeu que nunca tinha estado no nordeste do Brasil.

mas que tinha lido sobre a seca, sobre os retirantes, sobre o êxodo, que havia gente na Santa Sé que acompanhava de perto as condições do povo nordestino, que o convite não era protocolo. E aqui é onde tudo o que pensava que estava compreender muda completamente, porque o convite para Gonzaga ir a Roma, não tinha nascido de uma admiração pessoal do Papa por música regional brasileira, nascera de um documento, um relatório que um grupo de padres brasileiros enviara a Santa Sé no final dos anos 70, durante os anos mais duros da ditadura militar,

descrevendo a situação dos retirantes no Nordeste, a seca de 1979, que tinha forçado mais de 1 milhão de pessoas a abandonar as suas terras e o papel que a altura popular tinha na manutenção da dignidade e da identidade destes pessoas. Nesse relatório, o nome de Luís Gonzaga aparecia vezes sem conta, aparecia como exemplo de resistência cultural, aparecia como a voz de um povo que o Estado tinha abandonado.

O convite era uma forma de reconhecimento público, mas reconhecimento de que exatamente e para quem. Isto ainda não estava claro para Gonzaga naquele momento. O papa pediu que a comitiva saísse, que ficasse só Gonzaga e o intérprete. O que foi dito nos 30 minutos seguintes, os outros nunca souberam em pormenor.

O intérprete nunca deu entrevista, nunca publicou nada. Morreu em 2004, numa cidade pequena do interior do Paraná, sem ter contado a versão completa, mas houve uma fita. Esta fita, a mesma que o jornalista do Recife levou a Portugal em 1987, continha partes de uma conversa que o O próprio intérprete tinha gravado naquele dia sem autorização, com um gravador pequeno que cabia dentro do casaco.

“Gravou por precaução”, disse numa única conversa informal, que o jornalista registou muito tempo depois. Não queria que aquilo se perdesse, não sabia o que fazer com aquilo, mas não conseguia destruir. O jornalista de Recife, que ficou com essa fita, se chamava Armando Leite. Trabalhou durante anos no Diário de Pernambuco.

migrou para Lisboa em 1987 durante uma crise pessoal e levou consigo caixas de material de trabalho, entre elas a fita que o intérprete lhe tinha deixado numa tarde de 1985, num encontro casual numa cafetaria do Recife antigo, dizendo que não sabia o que fazer com aquilo e que Armando provavelmente saberia melhor do que ele.

Armando Leite morreu em Lisboa, em 2001. As caixas ficaram com a filha, a filha, que cresceu em Portugal e nunca teve muito contacto com a cultura brasileira. Guardou tudo sem ouvir, sem examinar, até que um investigador brasileiro que trabalhava num projeto sobre música nordestina e a ditadura bateu-lhe à porta em 2003.

Ainda não sabe o que estava gravado nessa fita. Mas isso está a chegar e o que vem antes disso importa tanto como que estava nela registado. De regresso à sala do Vaticano, Gonzaga estava sentado. O papa estava sentado, o intérprete ficou num canto tentando ser invisível, e ao mesmo tempo grava tudo o que podia. O Papa disse em português que havia uma coisa específica que queria pedir.

Pediu que Gonzaga tocasse ali naquela sala, sem palco, sem público, sem nada. Só os dois e o intérprete. Gonzaga olhou para o intérprete. O intérprete olhou para ele. Nenhum dos dois tinha trazido a concertina para aquele encontro, porque ninguém tinha avisado que seria necessária. A a concertina estava na estalagem.

O papa esperou. Gonzaga ficou parado mais um tempo. Depois fez uma coisa que o intérprete descreveu como a coisa mais inesperada que já tinha visto em toda a a sua vida. Fechou os olhos, pôs as mãos sobre os joelhos e começou a cantar sem instrumento, sem acompanhamento, só a voz. cantou o início de Asa Branca devagar, com aquela voz que parecia sair do fundo da terra, daquela terra vermelha e seca que transportava onde quer que fosse.

Cantou apenas a primeira estrofe e quando chegou ao verso que fala de ir embora, parou. ficou em silêncio. O papa ficou em silêncio. O intérprete disse nessa conversa gravada por Armando Leite em 1985, que o silêncio que se instalou naquela sala foi o silêncio mais pesado que alguma vez sentiu em toda a vida. Mais pesado do que qualquer sermão, mais pesado do que qualquer cerimónia.

Dois homens velhos numa sala pequena, um que vinha do sertão do Nordeste e outro que vinha dos campos da Polónia. E os dois compreenderam alguma coisa que não teve de ser traduzida. Depois de passado o silêncio, o Papa disse uma coisa, uma frase curta, o intérprete gravou e esta frase é o centro de tudo.

O núcleo da Storio que esteve enterrada durante anos, o motivo pelo qual o jornalista Armando Leite não conseguiu desfazer-se da fita e o intérprete não conseguiu destruir a gravação. O Papa disse em português com o sotaque carregado, olhando diretamente para Gonzaga. Esta música guarda um povo inteiro.

Isto tem que chegar mais longe do que chegou. Gonzaga ficou a olhar para ele, depois perguntou com uma calma que o intérprete nunca esqueceu. mais longe. Como é que o Papa respondeu algo que o intérprete transcreveu para a fita como uma frase longa em parte italiana e em parte português, e que o investigador brasileiro, que ouviu a gravação em 2003 passou semanas a tentar reconstruir com clareza a essência do que foi dito era que a Santa Sé tinha interesse em apoiar iniciativas culturais que preservassem a identidade dos povos em situa situação

de vulnerabilidade e que o Nordeste brasileiro era um caso que necessitava de atenção específica. Havia uma proposta concreta a ser montada e o nome de Gonzaga tinha surgido como o nome mais importante para ancorar esta proposta. Uma proposta que se tivesse ido em frente teria mudado completamente os últimos 15 anos de carreira de Luís Gonzaga teria alterado a forma como a música nordestina circulou pelo mundo nas décadas seguintes.

teria mudado, talvez, até a forma como o O próprio Brasil olhou para o baião, para o chote, para o forró de raiz, numa época em que a ditadura ainda controlava o que entrava e o que saía, o que era financiado e o que era silenciado. A proposta nunca foi avante. Conzaga regressou ao Brasil em abril de 1980. voltou quieto como tinha prometido que voltaria, mas por razões completamente diferentes das que tinha imaginado antes de partir.

O que ele carregava de volta ao não era a memória de uma cerimónia bonita ou de um encontro protocolar, era o peso de uma decisão que tinha tomado dentro daquela sala. Antes de sair, depois de o Papa terminou de falar e a decisão que Gonzaga tomou naquela sala é a parte que quase ninguém sabe. Antes de deixar esse ponto aqui, é preciso entender o que estava em causa.

que nos meses anteriores à viagem, enquanto as vozes contrárias falavam nos bastidores, havia algo acontecendo dentro do próprio movimento cultural nordestino, que tornava a proposta do Vaticano muito mais do que uma questão religiosa ou artística, era uma questão política. E no Brasil de 1980, política tinha um peso que a maioria dos as pessoas mais jovens hoje não consegue sentir na pele.

A ditadura militar estava nos seus últimos anos. Sim. A abertura começava a aparecer, mas o aparato de vigilância continuava ativo. O O SNI, o Serviço Nacional de Informações, ainda havia gente em todo o lado, nos teatros, nas estações de rádio, nas universidades, nas igrejas e qualquer iniciativa cultural que envolvesse O financiamento externo, especialmente financiamento ligado a uma instituição estrangeira com projeção mundial, como o Vaticano, passaria por uma análise que não seria simplesmente burocrática.

Gonzaga sabia disso. Não porque alguém lhe tivesse explicado em detalhes técnicos. Sabia porque era nordestino, porque era filho de retirante, porque tinha passado décadas vendo o que acontecia às pessoas que se metia, onde não era conveniente para quem estava no poder. Tinha visto amigos desaparecer, tinha visto músicas serem censuradas, tinha uma memória concreta, corporal, do que o Estado brasileiro fazia com quem ultrapassava certas linhas.

Proposta que o Papa colocara sobre a mesa era generosa, era genuína, mas aceitá-la. Nas condições de 1986 significava colocar o seu nome num projeto com implicações que iam muito para além da música. Gonzaga ficou em silêncio longo dentro daquela sala. O papa esperou. O intérprete ficou com o gravador ligado, sem fazer ruído.

E então Gonzaga falou, falou em nordestino fechado, com uma calma que o intérprete descreveu como a calma de quem já pensou tudo antes de abrir a boca. Ah, disse que agradecia, disse que compreendia o que estava a ser proposto e disse que ia precisar recusar. Recusar a proposta, não o encontro, não o reconhecimento, não o respeito que tinha sentido naquela sala, mas a proposta concreta, o projeto, o envolvimento que aquilo implicaria.

disse, segundo o intérprete, uma frase que ficou gravada e que o investigador brasileiro conseguiu recuperar com clareza. Eu posso levar o sertão para onde eu for à minha concertina, mas se eu deixar que alguém me use para levar outra coisa, perco o que sou. E aí a acordeão não vale nada. O papa viu-o, ficou em silêncio, depois disse apenas: “Eu compreendo.” E o encontro terminou.

O Gonzaga saiu daquela sala da mesma maneira que tinha entrado, sem acordeão, sem palco, sem nada para além das vozes e da história que carregava desde Exu. Só que agora carregava também aquele silêncio, aquela frase que o Papa tinha dito antes de se despedirem. Aquele, entendo que pesava de uma forma diferente, vindo de onde vinha, de regresso à hospedaria.

Nessa noite, o assistente pessoal disse que Gonzaga esteve acordado até muito tarde, que pediu uma garrafa de cachaça que o padre intérprete conseguiu milagrosamente numa bodega perto do Trastevere que bebeu devagar, olhando pela janela para o pátio escuro, e que quando o assistente foi dormir, Gonzaga ainda estava ali sentado com o chapéu de couro no colo.

Não tocou a concertina naquela noite, não cantou, ficou quieto com aquilo. A viagem de regresso ao Brasil foi longa. O Gonzaga dormiu quase todo o voo. Quando desembarcaram em Guarulhos, havia uma chuva miudinha e o ar estava pesado da humidade que o Nordeste não tem. Gonzaga desceu do avião, parou na pista durante um segundo antes de entrar no terminal, respirou aquele ar húmido de São Paulo e disse: “Para ninguém em concreto, com a voz baixa que o assistente mal ouviu. Estou em casa, mesmo que não seja.

” Durante os meses seguintes, não falou da viagem. Quando alguém perguntava, dizia que tinha sido uma coisa boa, que o papa era um homem de verdade e mudava de assunto. Não deu entrevistas sobre o mesmo. Não comentou nos bastidores. A fita de Armando Leite ficou guardada, o intérprete ficou quieto. O bispo nordestino, que tinha intermediado o contacto, também não falou.

E a história manteve-se assim durante quase 20 anos. Mas havia alguém que sabia, para além das pessoas que estavam na sala, havia alguém no Brasil que tinha sido informado dos pormenores do encontro, da proposta, da recusa, um homem que trabalhava como assessor cultural numa das principais estações de rádio do Recife, que tinha ligações tanto com os círculos artísticos nordestinos, como com setores da igreja progressista que articulavam a teologia da libertação nos anos 70 e 80.

Esse homem chamava-se Severino Targino. Não era famoso, nunca foi, mas conhecia toda a gente que importava no Nordeste cultural daquele período. Sabia quem tinha saído do Recife para São Paulo. Sabia quem tinha voltado, sabia quem tinha desaparecido. Tinha uma memória de elefante para histórias que os outros preferiam esquecer.

Severino Targino soube dos pormenores do encontro com o Papa através de uma cadeia de pessoas que preferia não mencionar pelo nome. Ficou com aquilo. Escreveu num caderno, como era seu hábito, alguns pontos da história. Esse caderno passou por várias mãos ao longo dos anos. foi copiado por partes, foi dividido, foi quase perdido durante as cheias do Recife de 1994 e acabou por chegar, em cópia parcial ao investigador brasileiro, que já estava investigando a história de Armando Leite e da Fita. A confluência destas duas

fontes, a fita de Lisboa e o caderno de Severino Targino, foi o que permitiu reconstruir a história com alguma consistência. Não é uma história perfeita. Há buracos. Há momentos em que as versões não batem certo. Há a frase do Papa que o investigador reconstruiu, mas que nunca pôde ser certificada por nenhuma fonte oficial do Vaticano.

Mas o núcleo é sólido, o encontro aconteceu, a proposta existiu, a recusa foi real. E há uma consequência desta recusa que poucos consideraram, mas que o investigador levantou num texto que circulou em meio académico, sem nunca chegar ao público alargado. Se Gonzaga tivesse aceite a proposta e o projeto tivesse avançado, ele necessitaria ter permanecido na Europa pelo menos 6 meses, possivelmente um ano.

Isso significava que em 1981 estaria fora do Brasil quando aconteceu o seu reencontro público com Dominguinhos num festival em Caruaru que tornou-se um dos momentos mais importantes da história do forró. Um reencontro que não estava planeado, que ocorreu à última hora, que foi o início de uma nova fase na carreira de Gonzaga.

Uma fase que o próprio descreveu como a mais importante desde os anos 50. A recusa que Gonzaga deu ao Papa naquela sala romana foi, sem que ele soubesse na hora a a decisão que garantiu que ele estaria presente no local certo na hora certa. Dois anos depois, do outro lado do Atlântico, no sertão que nunca mais saiu do seu peito.

Uma última coisa que Severino Targino anotou no caderno como uma observação pessoal, fora das informações factuais, escreveu que quando conseguiu ver o Gonzaga pessoalmente, num evento em Caruaru em 1982, 2 anos depois do encontro com o Papa, perguntou diretamente com a intimidade que os anos de convivência davam: “Gonzaga, arrependes-te?” E O Gonzaga olhou para ele com aquela cara que as pessoas que o conheciam bem reconheciam, como a cara de quem vai dizer a verdade, mas vai dizê-lo da maneira dele. Ajustou o chapéu, limpou a mão no

gibão e disse: “O arrependimento é uma coisa de quem não sabia o que estava a fazer. Eu sabia. Foi tudo o que ele disse. E O Severino escreveu no caderno, abaixo desta frase, uma observação sua. Gonzaga nunca fez nada por acidente, nem quando parecia que sim. Este é o Gonzaga que a maioria das histórias não conta.

O homem que numa sala do Vaticano, perante uma proposta que qualquer um teria achado impossível recusar, disse: “Não, não por orgulho barato, não por teimosia, não por desconfiança religiosa, disse: “Não porque sabia que o sertão que ele transportava na concertina sobrevivia, exatamente porque nunca tinha sido de ninguém, além do povo que o criou.

O rei do baião regressou de Roma sem acordos, sem projetos, sem fotografias para jornal. voltou com o mesmo que tinha levado. A voz, o assento, a memória de uma terra que dói e enorgulha ao mesmo tempo. E nesse reencontro, com Dominguinhos em Caruaru, dois anos depois, quando a acordeão e a Zabumba juntaram-se num baião que fez cantar toda a praça, estava lá tudo.

Tudo o que ele havia protegido naquela pequena sala de Roma. estava ali inteiro, vivo, na voz de um homem que nunca deixou que ninguém colocasse o nome do sertão em nenhum projeto que não fosse o projeto do próprio sertão. Se viveu essa época, se escutou Gonzaga Oá na rádio, quando a rádio era a única forma de sentir que o Nordeste existia dentro de um países que insistia em ignorá-lo, deixa aqui nos comentários de onde o acompanhava.

De que cidade? De que rádio, de que varanda ou de que camião ouvias essa voz? Quero saber o que acabou de ouvir tem uma continuação que é ainda mais pesada, porque alguns anos depois deste episódio, alguém decidiu contar isto uma história de uma forma diferente. Alguém que tinha interesses naquilo que esta história significava a imagem da música nordestina no Brasil.

E quando Gilberto Gil, num programa de televisão, disse que o baião era coisa do passado, que o Nordeste musical precisava de se reinventar para sobreviver, Gonzaga estava a assistir e a resposta que deu não foi numa entrevista, não foi num artigo, não foi numa carta aberta, foi no palco da forma que ele sempre resolveu as coisas.

A história completa está nesse vídeo aqui. Hum. E se já assistiu, há mais histórias como esta à espera por si aqui no Napoli.

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