Cabelos grisalhos apanhados em um coque simples, óculos de armação redonda, uma mala de rodas ao lado, um casaco de lã cor de musgo e nos olhos uma expressão que Mateus não soube classificar imediatamente, algo entre ansiedade e alívio, como alguém que chegou ao sítio certo depois de uma viagem muito longa. A Dona Fátima estava de pé, ao lado dela com uma expressão que também era difícil de ler.
Havia papéis na mão da diretora. A mulher olhou para Mateus e os olhos dela brilharam de um forma como as pessoas ficam quando estão tentando não chorar. Ela disse: “Você é Mateus Roberto Ferreira?” Disse que sim. Ela disse: “Eu sou a Leonor. A Leonor Costa. Eu era amiga da sua mãe. O silêncio que se seguiu foi o tipo de silêncio que não existe nos filmes, porque nos filmes há sempre uma trilha sonora preenchendo os espaços.
Ali havia apenas o barulho do relógio de parede da sala de entrada e ao longe o canto de um pássaro que não se importava com nada de tudo aquilo. O Mateus não disse nada porque não havia palavras. Havia apenas uma coisa quente e apertada, subindo do peito para a garganta. Leonor continuou devagar, como se tivesse ensaiado cada palavra, mas mesmo assim sentisse o peso delas.
disse que tinha vivido no mesmo bairro que a mãe do Mateus, quando as duas eram jovens, antes do casamento, antes de mais, que tinham sido próximas durante anos, que o tempo e a distância as tinham separado, como o tempo e a distância fazem com tanta gente, que ela tinha ido viver para Portugal quando tinha 35 anos por causa do trabalho do marido, que soube da morte da mãe de Mateus tardiamente por uma amiga em comum e que nessa altura já era tarde para qualquer coisa prática, que ficou sabendo da morte do pai anos mais tarde, também de longe, que tentou, através de
contactos aqui e ali, descobrir o paradeiro do menino, mas os caminhos eram complicados, as informações eram fragmentadas, e a burocracia era o tipo de parede que cansa quem é forte e destrói quem já está fraco. Mas ela não havia parado. disse que foi o marido quem a encorajou a continuar a procurar, que não tinham filhos próprios, que a história de Mateus era uma coisa que ela carregava há anos como uma pedra pequena, mas pesada, mesmo no centro das costas, que tinha contratado uma advogada especializada em direito de
família, que tinha passado os últimos 5 meses enredada em papeladas, certidões, declarações, vistos e que tinha chegado ao Brasil três dias antes e passados esses três dias a tentar localizar o abrigo certo, porque havia mais do que um com o nome semelhante na região. Mateus ouvia tudo isto de pé no centro da sala, com os ténis desamarrados, e sentia que o chão sob estava a tornar-se algo diferente.
Não exatamente firme, mas diferente, como se tivesse mudado de textura. Dona Fátima disse, com a voz cuidadosa de quem aprendeu a não criar falsas esperanças nas crianças. Mateus, a senora Leonor apresentou toda a documentação. O processo ainda vai ter de seguir alguns trâmites legais, mas a intenção dela é formalizar a guarda e eventualmente a adoção. Mateus olhou para Leonor.
Leonor tirou os óculos, limpou-os com a borda do casaco e tornou a vestir. Era um gesto de quem precisa de um segundo para se recompor. Então disse: “Eu sei que tu não me conhece. Eu sei que isto é estranho e assustador e que não tem nenhuma razão no mundo para confiar em mim agora. Eu só vim dizer que não está sozinho e que pretendo provar isso a si com o tempo, com calma, do maneira que precisar.
” A coisa quente que estava na garganta de Mateus desceu de volta para o peito e instalou-se ali de uma forma diferente, menos sufocante, mais parecida com algo que respira. Ele ainda não disse nada, mas sentiu-a com a cabeça. E este aceno simples, aquele movimento quase imperceptível de cima para baixo, foi o primeiro fio de um tecido que levaria meses a ser completamente tecido, mas que começou ali, naquela sala fria de abrigo com cheiro a mofo e madeira velha, às 6:42 de 1 manhã de Julho.
Nos dias que se seguiram, Leonor instalou-se num hotel a 15 minutos do abrigo. Vinha todos os dias, não forçava nada, trazia café e pão de queijo. Por vezes, sentava-se na sala de visitas e esperava que o Mateus chegasse no tempo dele. No início, ele chegava e ficava sentado do lado oposto da mesa, respondendo com frases curtas, olhando mais para as mãos do que para ela. Mas ela não se abalava.
tinha a paciência de quem já esperou muito e entendeu que a pressa é uma forma de desrespeito. Na terceira visita, Mateus perguntou como é que ela tinha sabido que ele estava naquele abrigo específico e não em algum dos outros. A Leonor pensou um momento, disse então que tinha sido uma curiosa coincidência, que a sua advogada tinha consultado os registos e identificados dois abrigos possíveis na região, que ela tinha escolhido este primeiro por um motivo simples.
Era o que ficava mais perto da escola onde o avó de Mateus tinha matriculado o neto antes de falecer. pareceu o mais lógico. Ela disse-o com a casualidade de quem conta uma história de navegação, mas havia algo nos olhos dela enquanto falava, um brilho discreto que parecia guardar um pensamento que ela escolheu não dizer em voz alta.
Mateus guardou isso. Na quarta visita, tirou o santinho do bolso e colocou-o na mesa sem dizer nada. Leonor olhou para o papel plastificado e ficou em silêncio durante um momento. Então disse muito baixinho, Carlo Acutes? O Mateus perguntou se ela conhecia. Ela disse que sim. disse que havia uma paróquia em Lisboa que tinha uma grande devoção a ele.
Disse que o marido João tinha começado a rezar para Carlo Acutes no período em que eles decidiram de forma definitiva tentar encontrar Mateus depois de anos de tentativas intermitentes. O João dizia que tinha pedido ao beato que abrisse os caminhos, que tirasse os obstáculos burocráticos do caminho, que guiasse os passos deles para o lugar certo.
Houve um silêncio na sala de visitas que era diferente dos silêncios anteriores. Era um silêncio mais cheio, mais habitado. O Mateus ficou a olhar para o santinho na mesa. Então contou a Leonor o que tinha feito na noite de quinta-feira. A oração sem forma, o pedido esquisito, as batidas à porta na manhã seguinte, contou com a voz de quem sabe que a história parece demasiado grande para ser só coincidência, mas que também foi criado num mundo que desconfia das histórias demasiado grandes.
Leonor ouviu-o até ao fim, sem o interromper. Quando ele terminou, ela disse: “Não sei explicar tudo. Não acho que alguém conseguir, mas acho que algumas coisas acontecem no espaço entre aquilo que nós pede e o que nós nem sabíamos que precisava. E acho que o Carlo percebe disso. Era jovem, era moderno, usava computador e ouvia música e jogava videojogo, mas entendia que há coisas que estão para além daquilo que nós enxerga.
O Mateus apanhou o santinho de volta e colocou-o no bolso. Os meses que vieram foram um lento processo de aprender a acreditar de novo. O processo agradável foi real, trabalhoso, cheio de documentos e audiências e visitas de assistentes sociais que avaliavam Leonor e o João com aquele olhar profissional e necessário de quem precisa de ter a certeza de que uma criança vai para um lugar seguro.

O João veio ao Brasil duas vezes durante o processo. Era um homem alto, de voz calma, com o hábito de escutar mais do que falar. Na primeira vez que encontraram-se, João e Mateus ficaram sentados no parque perto do abrigo por quase 2 horas. O João a ler um livro e Mateus a pontapear pedrinhas. E no final João disse apenas: “Não tem de ser nada diferente do que tu és”.
E esta frase, demasiado simples para conter tudo o que carregava, ficou com o Mateus durante muito tempo. Havia dias difíceis, havia noites em que o vazio de arestas irregulares voltava, menos intenso, mas ainda presente, como uma cicatriz que coça no tempo frio. Houve momentos em que Mateus olhava para a Leonor e sentia uma coisa complicada, um misto de gratidão e medo, porque amar alguém novo também significava ter mais alguém a perder.
E já tinha perdido tudo o que amou. Foi numa dessas noites, quando já estava na casa temporária que Leonor alugou perto do abrigo enquanto o processo corria, que a encontrou sentada na cozinha às 2as da manhã, com uma chávena de chá a arrefecer na mão, olhando pela janela. Ela não o tinha ouvido chegar. Quando se apercebeu da presença de Mateus, se sobressaltou ligeiramente.
Então, sorriu com aquele sorriso que era um pouco cansado e muito real. Ele perguntou o que ela estava a fazer acordada. Ela disse que estava a pensar no irmão. Tinha um irmão que tinha morrido cedo aos 23 anos, um acidente de moto. Ela tinha 16 na altura. Disse que, por vezes, o saudosismo chegava de madrugada sem avisar, como um hóspede que não precisa bater porque já conhece a casa.
Mateus sentou-se na cadeira ao lado. Ficaram em silêncio durante algum tempo, os dois olhando pela janela para a rua vazia lá fora, com o amarelo dos postes desenhando sombras no asfalto molhado. Assim, muito lentamente, o Mateus encostou a cabeça no ombro de Leonor. Não disse nada. Ela também não disse nada, mas a mão dela ficou moveu-se e pousou no ombro dele e ficou ali firme e gentil, como a mão de alguém que aprendeu que, por vezes, a única coisa que uma pessoa precisa é de saber que tem alguém ao lado. Nessa noite, Mateus
dormiu na cadeira da cozinha. Quando acordou, tinha uma manta sobre ele. O processo legal foi concluído em novembro. A juíza era uma mulher de expressão severa e olhos atentos, que tinha feito várias perguntas difíceis no decorrer das audições. Perguntas sobre a capacidade de Leonor e João de oferecer estabilidade sobre o histórico deles, sobre os planos concretos para a vida de Mateus em Portugal.
responderam a tudo. Mostraram a escola já inquirida, o quarto preparado, o bairro com parque, a comunidade de brasileiros em Lisboa que poderia ajudar na adaptação. No dia em que a juíza assinou os documentos, Leonor chorou. O João ficou de pé, ao lado dela, com a mão na espinha das costas dela. Mateus ficou a olhar para o papel com o carimbo do tribunal, como se precisasse de ter a certeza de que era real.
A advogada disse parabéns o escrivão disse parabéns. A assistente social, a de cabelo curto e olhos cansados que tinha levado Mateus ao abrigo em março do ano anterior, apareceu no corredor do fórum e, quando viu Mateus com Leonor, ficou parada por um momento. Depois caminhou até ele e disse muito baixinho, como se fosse um segredo entre os dois.
Eu torci muito por si e ele soube que era verdade. A viagem para Lisboa aconteceu em dezembro, quatro dias antes do Natal. O aeroporto era barulhento e frio, cheio de gente a carregar malas e reencontros, acontecendo em câmara lenta pelos corredores. Mateus tinha voado uma vez na vida para visitar um tio no Recife quando tinha 4 anos, mas não guardava a memória deste, apenas a história que o pai contava como tinha ficado colado à janelinha do avião por toda a viagem sem pestanejar.
Desta vez ele ficou colado na janelinha outra vez. Lá em baixo, o Brasil encolheu-se em linhas de luz, quadrículas de cidade, rios pareciam raios desenhados no escuro. Mateus ficou olhando até a cidade desaparecer nas nuvens. Sentiu uma coisa partida. Sentiu também uma coisa inteira. Isto é possível ao mesmo tempo, como o dia e a noite se tocando no horizonte.
Leonor estava sentada ao seu lado. Ela estava a dormir, a cabeça ligeiramente inclinada, os óculos tortos. O João estava no assento do corredor, a ler. A luz do interior do avião era suave e amarelada. O ronco dos motores era constante, uma espécie de branco no fundo de tudo. Mateus tirou o santinho do bolso, agora um pouco gasto nas bordas de tanto ser seguro.
olhou para o rosto de Carlo Acutes, aquele rapaz jovem de cabelo escuro que morreu aos 15 anos com um sorriso no rosto e um terço na mão, que tinha utilizava a internet para aproximar as pessoas de algo que vai para além da internet que havia entendido. De alguma forma que não cabe em explicações simples, que o mundo espiritual e o mundo real não são dois mundos separados por uma fronteira, mas um único mundo visto de ângulos diferentes.
Mateus não rezou em voz alta, mas pensou. pensou, obrigado. Pensou, não sei ao certo o que aconteceu nessa noite, mas alguma coisa aconteceu. Pensou que talvez o milagre não seja o extraordinário a rasgar o ordinário como um relâmpago, mas o ordinário sendo iluminado de dentro de forma discreta e persistente, até que a pessoa que estava no escuro consiga ver o que sempre esteve ali.
Lisboa chegou de manhã, dourada e fria, com as pedras antigas das calçadas a brilhar de orvalho e o cheiro do rio misturado com café. O João foi buscar o carro. Leonor ficou com Mateus à saída do terminal, olhando os dois para a cidade que começava ali à frente, nova e antiga ao mesmo tempo. Leonor perguntou o que estava a sentir.
O Mateus pensou um momento, disse: “Parece que fui ouvido”. Ela sentiu-a como se soubesse exatamente o que ele queria dizer e talvez soubesse mesmo. O apartamento em Lisboa ficava num bairro de ruas estreitas e pátios interiores, onde havia gatos a dormir em vasos de plantas. O quarto do Mateus tinha uma janela que dava para uma amendoeira e a Leonor tinha colocado na prateleira, sem fazer alarde, uma pequena imagem de Carlo Acutes, que ela tinha trazido da paróquia em Lisboa, onde costumava rezar. Mateus viu a imagem quando entrou
no quarto pela primeira vez e ficou parado à porta por alguns segundos. Depois entrou, colocou a mochila no chão, sentou-se na beira da cama nova que cheirava a roupa lavada, olhou para janela, para a amendoeira lá fora, para o céu que estava a ficar cor de laranja no final da tarde de dezembro. Havia um silêncio no quarto que era diferente de todos os silêncios que conhecia.
Não era o silêncio do abrigo, que era um silêncio cheio de ausências. Não era o silêncio do apartamento da avó depois que ela partiu, que foi um silêncio que doía, era um silêncio que respirava, um silêncio habitado. Da cozinha vinha o barulho da Leonor a abrir armários, arrumar coisas e o som da voz do João perguntando se havia azeite.
Era o som mais simples e mais cheio que Mateus tinha escutado em muito tempo. Era o som de uma casa com pessoas lá dentro. Nas semanas que se seguiram, Mateus foi encontrando o ritmo de uma vida nova, da forma como se aprende a nadar em água fria, com hesitação primeiro, depois com um certo espanto de que o corpo sabe o que fazer.
A escola nova foi difícil no começo. A língua portuguesa era a mesma, mas os sotaques e as expressões e as calão eram mundos diferentes. E havia aquele período particular de adaptação em que ainda não sabe bem onde está, mas já sabe que já não está onde estava. Havia um menino na turma chamado Tomás, filho de pais angolanos, que falava depressa e ria alto, e que no terceiro dia convidou o Mateus para jogar bola no recreio sem qualquer cerimónia, como se fosse o gesto mais natural do mundo.
Era o gesto mais natural do mundo. Leonoro levou-o à paróquia uma tarde de sábado, não de forma obrigatória. Deixou claro que era um convite e não uma imposição. Havia uma pequena exposição sobre Carlo Acutes naquela paróquia. Painéis com a história do beato, imagens dos milagres eucarísticos que tinha catalogado, uma breve linha do tempo de uma vida curta e intensa.
Mateus caminhou pelos painéis devagar, lendo cada texto com atenção. Havia uma frase que chamava a sua atenção: “Todos nascem originais, mas muitos morrem cópias”. Era uma coisa que Carlo tinha dito. Mateus ficou a olhar para ela durante um tempo longo. Havia também uma foto de Carlo a jogar videojogo com um sorriso diagonal, despretencioso, a expressão de um menino comum que tinha encontrou uma forma invulgar de ser extraordinário, sem nunca tentar parecer extraordinário.
Mateus saiu da paróquia com algo que levaria tempo a nomear adequadamente, mas que naquele momento parecia a sensação de ter encontrado em um contexto completamente inesperado, alguém que compreendia. Os meses em Lisboa foram uma construção gradual. Havia os momentos difíceis e ele teve-os. Porque a dor de perder o pai e a mãe e a avó não desaparece com uma nova casa e uma nova família.
Ela transforma-se, incorpora-se, passa a fazer parte de quem é, de uma forma diferente, menos aguda, mais parecida com uma memória do que com uma ferida aberta. Havia noites em que sonhava com o pai na cozinha a comer pão com manteiga. Havia tardes em que sentia a falta da avó de uma forma física, como se o espaço ao seu lado estivesse ligeiramente incompleto.
E havia misturadas a tudo isto manhãs de sábado em que João ensinava o Mateus a fazer ovos mexidos com a quantidade certa de manteiga, e tardes em que Leonor ajudava com o dever de matemática na mesa da sala, e jantares em que os três ficavam a conversar até tarde sobre qualquer coisa e sobre nada. E estes momentos não apagavam os outros, mas existiam ao lado deles, no mesmo espaço, no mesmo coração, capaz de guardar muitas coisas ao mesmo tempo.
Em março, quando Mateus completou 13 anos, A Leonor perguntou-lhe o que queria como presente. Ele disse que queria uma coisa pequena e uma coisa grande. A coisa pequena era uma melhor réplica do santinho de Carlo Acutes, uma versão mais resistente que não se gastasse nas bordas. A grande coisa era ir ao cemitério onde os pais eram sepultados antes de voltar definitivamente a Portugal.
Leonor ficou em silêncio durante um momento, depois disse: “Está feito! Vieram ao Brasil nesse mesmo mês. Foram ao cemitério numa manhã de céu branco e luz difusa. Mateus ficou de pé diante das duas lápides durante muito tempo sem dizer nada. João e Leonor ficaram a alguns passos de distância, deixando aquele espaço como se soubessem que pertencia a Mateus sozinho.
Ele não chorou não de início. Ficou apenas olhando, lendo os nomes, as datas, aquelas informações secas que tentam resumir uma pessoa em números e que nunca conseguem. Depois tirou do bolso o novo santinho de Carlo Acutis e colocou com cuidado entre as flores que havia na base da lápide do pai, flores que alguém tinha deixado, talvez um colega do trabalho, talvez algum vizinho que ainda se lembrava. Então chorou.
Chorou com a tranquilidade de quem sabe que o choro não é uma fraqueza, mas uma forma de honrar o que foi real. Chorou por Roberto, que comia pão com manteiga e ouvia futebol às sextas-feiras. chorou pela mãe, cujo rosto recordava principalmente pelas fotografias. Chorou pela avó Irene, que cantava canções antigas enquanto lavava a loiça.
Chorou por tudo o que tinha perdido e que nenhuma nova família poderia devolver. E chorou também de gratidão, que é um sentimento complexo e, por vezes, doloroso, porque ser grato pela nova vida não significa ser indiferente à vida que ficou para trás. O João aproximou-se quando o choro diminuiu e ficou de pé ao lado de Mateus em silêncio.
Passado um tempo, colocou uma mão firme no ombro do menino e ficou assim, sem dizer nada, presente da única forma que importava. Na volta ao aeroporto, o Mateus dormiu no banco traseiro do carro, a cabeça pousada no vidro da janela. Leonor olhou para ele pelo espelho retrovisor e disse para O João muito baixinho, ele vai ficar bem. João respondeu: “Já está a ficar.
De regresso a Lisboa, a vida continuou a ser construída. Mateus foi-se tornando um menino de dois mundos. o do Brasil, que transportava dentro de si como uma língua materna do coração, e o de Portugal, que ia-se tornando quotidiano, familiar, cheirando a erva-cidreira no quintal do vizinho e ao pão que Leonor comprava na padaria da esquina nas manhãs de domingo.
O Tomás tornou-se amigo de verdade, o tipo de amigo com quem partilha silêncios e não apenas conversas. A professora de português descobriu que Mateus escrevia bem e incentivou-o a participar num concurso de redação da escola. E ficou, em segundo lugar com um texto sobre o que é ter saudades de alguém que já não pode abraçar.
A professora disse que havia algo na forma como escrevia, que parecia uma luz vinda de dentro para fora. Ele guardou isto num domingo de outubro, quase um ano depois da primeira vez que Leonor batera a porta do abrigo, Mateus sentou-se à mesa do café da manhã e olhou para o pão com manteiga que tinha preparado para si e sentiu uma coisa estranha e familiar ao mesmo tempo, como uma memória que de repente se torna presente.
E ficou em silêncio por um momento. E então disse para Leonor, que estava de costas no fogão a fazer café, acho que o meu pai estaria feliz. Ela virou-se. Havia algo nos olhos dela que era difícil de olhar diretamente, do tipo de coisa que é demasiado bonita para ser suportada por muito tempo.
Ela disse: “Tenho a certeza de que está. Mateus comeu o pão com manteiga e foi exatamente como deveria ser. A imagem de Carlo Acutis ficou na prateleira do quarto do Mateus por todos os anos que se seguiram. Ela esteve lá quando teve a primeira prova difícil da escola nova e ficou acordado estudar até tarde com a luz do candeeiro amarelo iluminando as páginas.
esteve lá quando brigou com a Leonor por algo idiota, que ele depois pediu desculpa e ela disse que as desculpas eram desnecessárias, mas que ela as aceitava a si próprio. Esteve lá quando o João ficou doente durante alguns meses com algo que assustou toda a gente, mas que passou passando por um fio.
E Mateus ficou do lado da cama do hospital, lendo em voz alta para distrair, como tinha visto a avó fazer-lhe uma vez quando ele tinha febre. Esteve lá em todas as manhãs comuns e em todas as noites difíceis. Aquele rosto jovem de sorriso discreto que parecia dizer sem palavras que é possível ser profundamente humano e ao mesmo tempo, estar virado para algo maior, que a fé não é fuga ao mundo, mas uma forma diferente de habitá-lo.
Que rezar não exige uma linguagem perfeita, nem uma vida sem dúvidas. Exige apenas honestidade. Exige a coragem de dizer preciso de ajuda em voz baixa no escuro. No dia em que O Mateus completou 15 anos, a mesma idade com que Carlo Acutes tinha morrido, ele ficou a olhar para a imagem por um longo tempo antes de dormir.
Pensou em quanto tinha acontecido em três anos. pensou em como a vida tem uma capacidade perturbadora e milagrosa de se reconstruir em formas que nenhuma pessoa sozinha poderia projetar. Pensou na oração informe daquela noite de julho, no vazio de arestas irregulares nas batidas à porta de manhã cedo, e pensou que, por vezes, o que parece o fim de tudo é apenas o lugar de onde um novo começo vai partir, que por vezes o silêncio de uma noite é exatamente o que precisa de vir diante de uma porta que bate, que às vezes a coisa mais real que existe é
aquilo que não tem explicação incompleta e que aprender a viver com ele, a acolher o mistério, sem tentar desse até matar o que nele havia de vivo, é talvez uma das formas mais honestas de atravessar o mundo. Mateus apagou a luz do abajur. O quarto ficou na penumbra do luar, entrando pela janela, a amendoeira lá fora, balançando ligeiramente com o vento de outono de Lisboa.
E ele dormiu com a paz de quem foi ouvido. A história de Mateus é a história de que nenhuma oração sincera fica sem resposta, mesmo quando a resposta chega de uma forma que não esperávamos, num horário que não pedimos, pela mão de uma pessoa que não conhecíamos ainda. É a história de que os que partem não nos abandonam de vez, que o amor dos que ficam pode ser real, mesmo sem ter nome de família, e que a a fé não precisa de ser grandiosa para ser verdadeira.
Carlo Acutes viveu 15 anos e encheu estes 15 anos de uma presença que ainda hoje bate às portas de quem mais precisa. E às vezes essa batida chega exatamente na manhã seguinte, a noite mais escura. Se esta história tocou o o seu coração, subscreva já o canal e ative o sininho para não perder os próximos vídeos. e diga-nos nos comentários de onde está assistindo.
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