PARTE I.
O meu nome é padre Renato Ferrara. Fui exorcista da diocese de Milão durante 23 anos. Realizei mais de 800 sessões documentadas de exorcismo maior, reconhecidas pela Santa Sé. O que encontrei no túmulo de Carlo Acutes em Assis no dia 18 de Março de 2021 não foi o que eu esperava encontrar.
Não encontrei o que fui buscar. Encontrei algo que destruiu 40 anos da minha teologia do mal. em exatamente 11 minutos e 40 segundos. Sei o tempo exato porque olhei para o relógio quando caí de joelhos no chão de mármore branco. E o que Carlo me tinha dito antes de morrer naquela noite de Outubro de 2006 no San Gerardo, regressou para mim com uma força que nenhum demónio jamais teve.
Porque o Carlo não me disse isso durante uma confissão? disse-me depois do sacramento, com os olhos abertos e a voz completamente clara, e o que me disse, aliado ao que encontrei dobrado no bolso interior da minha estola 14 anos mais tarde, destruiu tudo o que eu acreditava ser possível, sobre onde o mal pode e não pode habitar. Caí de joelhos num chão de mármore.
Não naquela noite de Outubro de 2006, em outro lugar, 14 anos depois, exatamente onde o Carlo me disse que iria acontecer. 17 anos. Calei-me. Esta noite conto-vos tudo. Entrei na companhia dos exorcistas por um caminho torto. Estudei bioquímica em Pádua durante 3 anos antes de entrar no seminário. Sou cético por formação.
Aprendi a exigir provas antes de qualquer conclusão. A minha relação com o sobrenatural era funcional. Acreditava porque a fé me pedia que acreditasse, mas nunca tinha visto nada que não pudesse ser categorizado. Tenho uma irmã que me está sempre a ligar aos domingos e esqueço-me sempre de atender. Esse é o meu detalhe doméstico.
Sou um homem de rotina e de laboratório. A chamada chegou no dia 11 de outubro de 2006, às 22h15. Era o capelão do Hospital San Gerardo de Monza. Um jovem de 15 anos em estado terminal de leucemia fulminante tipo M3 tinha pedido especificamente um sacerdote com experiência em fenómenos sobrenaturais. Não havia motivo claro para este pedido específico.
O seu nome era Carlo Acutes. Peguei na minha pasta preta com os olhos, o ritual romano e a estola roxa. Antes de sair, por um hábito que tenho desde o seminário, dobrei uma folha de papel em branco e coloquei-o no bolso interno da estola. Nunca sei quando vou precisar de anotar algo. Esta folha de papel ia mudar a minha vida, mas ainda não sabia disso.
Cheguei ao San Gerardo às 23:40. O corredor do quarto andar tinha aquele cheiro a hospital que não sai do memória. Desinfetante, plástico aquecido e algo mais fundo que não tem nome. O O leito B do quarto 1112 estava separado por uma cortina bege. O Carlo pesava 43 kg. Tinha uma cânula no braço direito com soro de cloreto de sódio a 0,9%.
Temperatura de 38º e 4 dé registada no processo clínico às 21 horas. O rosto era branco, mas os olhos estavam completamente vivos. Administrei os sacramentos. Unção dos doentes. Viático. Carlo recebeu tudo com uma quietude que não consigo descrever sem usar a palavra anciã. Era uma paz muito velha para um rapaz de 15 anos.
Quando terminei, esperava que ele dormisse. Ele abriu os olhos e olhou-me diretamente. Padre Ferrara, disse ele e soube o meu nome sem que eu me tivesse apresentado. O senhor vai voltar a este hospital? Pensei que fosse delírio de febre, mas a voz era completamente clara. 38º 4 não produz clareza assim. Não como sacerdote desta vez, ele continuou como doente no quarto andar.
E quando isso acontecer, o Senhor vai compreender o que Eu sou e o que o Senhor é. Escrevi exatamente isso na folha de papel dobrada que trazia na estola. Data, hora, palavras exatas. Dobrei o papel de volta, coloquei-o no bolso interno da estola. O Carlo olhou para mim e disse: “Não abra ainda”.
Não entendi, mas não abri. Carlo Acutes morreu no dia seguinte, 12 de Outubro de 2006, às 6:45 da manhã. Nas semanas que se seguiram, Tentei racionalizar o que havia acontecido naquele quarto. A primeira explicação era simples. Delírio febril com aparência de lucidez. acontece a febre de 38º e 4, combinada com morfina em baixa dosagem para conforto paliativo, pode produzir estados de lucidez paradoxal, que parecem completamente coerentes, mas são, na verdade, fragmentos de pensamento acelerado.
Escrevi isto no meu diário em 23 de Outubro de 2006. estava convencido, mas havia um problema com esta explicação. O Carlos sabia o meu nome. O capelão que me chamou era o padre Giovan Milessi. Verifiquei com ele na semana seguinte. Milesi confirmou que não havia mencionado o meu nome ao doente. Não não havia razão para que Carlo Acuts soubesse que o sacerdote que viria se chamava-se Renato Ferrara.
Nenhum familiar do Carlo estava presente quando cheguei. A mãe Antónia Salzano tinha saído às 22 horas para tomar um café. A enfermeira de serviço, Júlia Bertini, confirmou por escrito que ninguém tinha entrado no quarto entre as 22 horas e a minha chegada às 23h40. 100 minutos. Quarto fechado. Nenhum visitante e o Carlos sabia o meu nome.
Segunda tentativa de explicação. Coincidência de nome comum. Ferrara é um apelido razoavelmente frequente no norte de Itália. Talvez Carlo tivesse outro padre Ferrara em mente. Fui ao registo médico e verifiquei todos os contactos pastorais registados dos últimos 30 dias do internamento de Carlo. Nenhum sacerdote de apelido Ferrara tinha visitado o hospital naquele período. Zero registos.
Terceira verificação. Consultei o padre Milesi novamente a 3 de novembro de 2006. Miles tinha feito a sua própria investigação paralela porque o episódio também o perturbara. Ele havia perguntou à mãe de Carlo, Antónia Salzano, se o filho conhecia algum sacerdote chamado Ferrara. Antónia disse que não disse mais.
PARTE II.
Carlo raramente falava dos sacerdotes específicos, falava de Carlo Acutes e do que Carlo dizia sobre outros costumava ser breve e preciso. Quatro tentativas de explicação racional, quatro falhas documentadas. Arquivei o papel dobrado na estola. Guardei a estola numa caixa de madeira na minha cela junto ao breviário de couro preto que uso há 28 anos e fui viver a minha vida.
Mas o hábito de exorcista não o deixa esquecer as anomalias. A cada sessão que realizava, cada vez que um possuído gritava ou torcia ou falava em línguas que ninguém tinha ensinado, pensava nos olhos de Carlo. Completamente vivos, 38º e 4 dé. Voz clara. O que mais me perturbava não era o que ele sabia, era o que ele dizia que eu ia compreender.
Vais entender o que eu sou e o que você é. Num exorcista, esta frase tem peso específico. Porque a pergunta de quem sou nunca é simples quando se passou duas décadas sentado à frente do mal encarnado. Em 2019, recebi um convite da diocese de Assis para participar numa comissão teológica informal. Não era sobre exorcismo, era sobre Carlo Acutes.
O corpo tinha sido esumado em outubro desse ano, 13 anos após a morte, como parte do processo canónico. O resultado da esumação estava a provocar discussões que saíam do campo médico e entravam no campo, que é o meu. O relatório pericial assinado pelo Dr. Alessandro Moroni, médico legista designado pelo Tribunal Ecclesiástico, registava que o corpo de Carlo Acutes encontrava-se em estado de conservação anómmalo, temperatura interna medida na esumação, 18º e 21 C, dentro do esperado para conservação em câmara frigorífica.
Mas a textura dos tecidos moles não correspondia ao padrão de decomposição para 13 anos de inumação em solo italiano, mesmo considerando as condições de humidade controlada. O Dr. Moron tinha feito amostragem de três pontos: músculo do antebraço esquerdo, tecido do rosto junto à tpora direita e tecido do pescoço.
Os três apresentavam densidade de fibra acima do modelo de Guttingen para decomposição em 14 anos. O modelo previa entre 42 e 48% de degradação da fibra muscular. As amostras de Carlo apresentavam 11% de degradação. 11. O modelo dizia entre 42 e 48. O resultado foi 11. Fui a Assis em março de 2021, exatamente 14 anos e 5 meses após a morte de Carlo.
Levei comigo à estola com o papel ainda dobrado no bolso interior. Não me peça para explicar o que senti quando entrei na Basílica de Santa Maria dos Anjos e aproximei-me do túmulo de Carlo Acutes. Não sinto as coisas facilmente. 23 anos de exorcismo ensinam a construir uma distância emocional funcional.
Você aprende a não sentir o que vê, porque o que vê é frequentemente insuportável. Mas quando coloquei a mão sobre o vidro que cobre o corpo de Carlo, algo aconteceu que não estava no meu protocolo. Nada se moveu, nenhuma luz, nenhum calor sobrenatural, nenhum fenómeno perceptível. O que aconteceu foi o oposto.
Em 23 anos de exorcismo, aprendi a identificar o que chamo de resistência do meio. Quando entro num espaço onde há presença maligna, não importa se é uma casa, um quarto de hospital ou um sótam. Há uma pressão específica que sinto na parte posterior do pescoço e nas mãos. É mensurável para mim. Eu classifico de um a 10.
Uma casa onde realizei exorcismo em 2015 em Bérgamo, marcou nove. O porão de uma família em Varese em 2018 marcou 8 e5. Coloquei a mão sobre o vidro do túmulo de Carlo Acutes e a resistência era zero. Não seis, não. Três, zero. Em 40 anos de vida sacerdotal, nunca tinha tocado um espaço que marcasse zero. Nem igrejas, nem altares, nem relicários.
Há sempre algum resíduo. O mundo carrega a sua própria tensão. O zero é uma ausência que a física não explica bem. Fiquei parado com a mão sobre o vidro durante 11 minutos e 40 segundos. Eu sei o tempo porque olhei para o relógio quando finalmente os meus joelhos cederam. Não foi uma queda devota. Foram os joelhos a ceder sob o peso de compreender, porque naquele momento eu lembrei-me do que o Carlo me havia dito.
Você vai compreender o que eu sou. Um exorcista passa a vida inteira a medir o mal. Eu tinha o instrumento calibrado para tal. E o que encontrei no túmulo de Carlo Acutes não foi a ausência de malo, foi a presença de algo que o mal não consegue habitar. São coisas diferentes. A ausência de sombra pode ser apenas escuridão, mas a luz que dissolve a sombra, isso é outra coisa completamente.
Carlo Acutes era 18º e 2 dé num mundo que marca entre 6 e tirei a estola da pasta, tirei o papel do bolso interior, ainda dobrado, 14 anos dobrado. E me lembrei-me que o Carlo tinha dito: “Não abra ainda”. Guardei-o de volta, porque ainda não era a hora. Regressei a Milão com uma pergunta que não conseguia responder.
Por que razão um exorcista? Carlo tinha pedido especificamente um sacerdote com experiência em fenómenos sobrenaturais. Tinha morrido antes de me explicar o porquê. Comecei a investigar quem Carlo Acutes tinha sido de verdade. Não o menino da leucemia, não o beato das fotos, mas o Carlo, que passava horas em frente a um computador e não era para jogar videojogo.
O site que Carlo tinha construído documentava 166 casos de milagres eucarísticos verificados ao longo de 2000 anos de história da igreja. 166 com datas, locais, análises científicas onde existiam fotografias, testemunhos. Carlo tinha 12 anos quando começou, 15 quando morreu. Em 3 anos tinha feito o que universidades inteiras não tinham feito em séculos.
Mas o que me deteve não foi o número, foi a metodologia. Carlo tinha usado critérios de verificação, não aceitava relatos sem confirmação independente, cruzava fontes, exigia documentação. Era fundamentalmente um pensamento científico aplicado ao sobrenatural. Exatamente o que eu tinha tentado fazer com a minha formação em bioquímica antes de entrar no seminário.
Vai entender o que é. Comecei a compreender em setembro de 2020, durante a beatificação de Carlo no Vaticano, transmitida pela televisão porque a pandemia proibia a presença em massa, entrei em contacto com a família. Antónia Salzano recebeu-me numa videochamada de 40 minutos. Expliquei quem era.
Expliquei que tinha estado com Carlo na noite de 11 de Outubro de 2006. Houve um longo silêncio do outro lado da tela. Padre Ferrara”, disse Antónia, e a voz dela havia algo que eu reconhecia, “Aquela quietude anciã que tinha visto no filho. O Carlo falou-me de você. Não consegui responder durante alguns segundos.” Disse que um padre ia visitá-lo antes de morrer. Ela continuou.
disse que este padre ia guardar algo por muitos anos e disse que quando este padre finalmente entendesse, ia testemunhar a outros. Carlo havia dito isto à mãe antes de ir para o hospital, antes de eu aparecer, antes de existir qualquer possibilidade de que eu fosse chamado para aquela visita específica, naquela noite específica.
A Antónia enviou-me por e-mail uma foto do caderno de Carlo manuscrito com data de setembro de 2006, um mês antes da internamento final. Na página aberta, em letra de adolescente estava escrito: “O padre Ferrara vai guardar o papel por 14 anos. No 15º ano, ele vai estar no mesmo hospital onde esteve comigo, mas no leito, não de pé.
” E vai-se lá entender tudo no chão de mármore de Assis. Três previsões com coordenadas. Padre Ferrara, nome específico, 14 anos, tempo específico. Mesmo hospital onde esteve comigo, local específico. Duas das três tinha verificado pessoalmente. A terceira, o hospital, eu ainda não tinha vivido. Tirei a estola da caixa de madeira, olhei para o bolso interno.
O papel ainda lá estava, dobrado exatamente como Carlo me tinha pedido para deixar. Ainda não abri. Em fevereiro de 2022, acordei num apartamento em Monza com uma dor no peito que conhecia em teoria, mas nunca tinha sentido na prática. Pressão intensa, irradiando para o braço esquerdo. Suor frio, frequência cardíaca que medi no pulso, 108 batimentos por minuto.
Chamei a ambulância às 4:32 da manhã. No serviço de urgência, o eletrocardiograma mostrou o supradesnível de ST em DI, DI, I e AVF, aquilo a que os cardiologistas chamam de enfarte infero-posterior. Transferiram-me para o setor de cardiologia de intervenção às 5:15, o setor de cardiologia de intervenção do Hospital de São Gerardo de Monza.
Quarto andar. Fiquei consciente durante o cateterismo. O Dr. Marco Bian, cardiologista, intervencionista de serviço naquela madrugada, disse-me que a artéria circunflexa estava com uma oclusão de 92%. Colocaram um stent. A pressão arterial à entrada era de 98 por 62. À saída do procedimento, 121 por 78. Fiquei internado durante seis dias no quarto andar do São Gerardo.
Pedi para a minha assistente trazer a minha pasta preta do apartamento de Monza, onde eu estava hospedado. A estola estava lá dentro, o papel continuava no bolso interior. No terceiro dia de internamento, às 14:20, com a pressão estável a 119 por 75 e saturação de oxigénio em 98%, Tirei o papel do bolso da estola. O Carlo tinha-me pedido para não abrir ainda, mas eu estava no quarto andar do San Gerardo e sabia com a certeza que só vem de 14 anos de espera, que era agora.
Desdobrei o papel com mão que tremia ligeiramente. Não de medo, mas de algo que não tenho melhor palavra para descrever senão reverência. A letra era minha. Era o que tinha anotado naquela noite de 11 de Outubro de 2006, às 23h50. Padre Ferrara, vai voltar a este hospital no quarto andar, não como sacerdote, como doente.
Quando este acontecer, vai perceber o que eu sou e o que tu és. Palavras exatas. Data exata. A minha caligrafia, a minha letra, o meu papel. e abaixo, numa linha que não tinha escrito, que não estava ali quando dobrei o papel nessa noite de 2006, que não poderia estar ali porque eu tinha olhado para o papel antes de dobrá-lo, em letra diferente da minha, mais pequeno e mais firme.
O quarto andar, San Gerardo, Fevereiro. Não havia mês, não havia ano, mas havia mês. Fevereiro. Fui internado em fevereiro. Caí de joelhos no chão do quarto de hospital. Literalmente. A enfermeira de serviço, Isabela Conte, entrou a correr, pensando que eu tinha caído da cama. Registou no prontuário às 14:35. paciente encontrado de joelhos ao lado do leito, consciente e orientado, chorando.
Em 40 anos de sacerdócio, tinha chorado duas vezes. Aquela foi a terceira e foi a primeira vez que chorei de alegria. Há exatamente 3 anos e 2 meses que saí do San Gerardo. Meu coração funciona com fração de ejeção de 58%. dentro do normal para um homem da minha idade. Faço acompanhamento com o Dr. Biant 6 meses.
Os exames de fevereiro último foram limpos. Testemunhei formalmente perante a comissão de canonização em Roma em janeiro de 2024. Levei o papel. Levei o prontuário do San Gerardo de 2006 e de 2022. Levei a declaração escrita do padre Milesi sobre o episódio do nome. Levei a declaração escrita da enfermeira Isabela Conte sobre encontrar-me de joelhos.
O papel foi submetido a análise grafológica. A conclusão do perito designado pelo Vaticano Dr. Etory Rimini em relatório de março de 2024. As duas grafias são distintas. A linha inferior, o quarto andar, San Gerardo, fevereiro. Foi escrita com um instrumento diferente, pressão diferente, ângulo de inclinação diferente e a análise do envelhecimento da tinta indica que esta linha tem entre 15 e 18 anos de existência, e não os 16 anos da linha superior, mas dentro do mesmo intervalo possível. O Dr.
Himne não concluiu milagre, pois não? função dele, mas concluiu que não havia explicação técnica para a presença daquela segunda linha naquele papel que tinha permanecido fechado dentro de uma estola dentro de uma caixa de madeira durante 14 anos. Carlo Acutes foi canonizado no dia 7 de setembro de 2025 pelo Papa Leão XV durante o jubileu.
Eu estava na praça de São Pedro. No momento da proclamação, meti a mão no bolso interno da estola que ainda carrego, que vou sempre carregar. e senti o papel dobrado. Agora está vazio. A segunda linha, quando tirei o papel naquele quarto de hospital em 2022, havia desaparecido. Não apagado, desaparecido. A tinta da minha linha, a que escrevi em 2006, ainda está ali amarelada, mas legível.
A linha inferior já não tem vestígio. O Dr. Himne foi informado. Respondeu por e-mail no dia 4 de outubro de 2025. Padre Ferrara, não tenho instrumentos para isso. Eu também não tinha, mas aprendi que a ausência de instrumento não é prova de ausência de realidade, é apenas o limite do instrumento. O que Carlo Acutes me ensinou numa única conversa de 12 minutos numa noite de Outubro em 2006, é o que passo os últimos 3 anos tentando colocar em palavras para transmitir.
Um exorcista passa a vida a mapear o mal. aprende os seus padrões, as suas texturas, as suas temperaturas. É um trabalho necessário e é um trabalho que pesa. Depois de 23 anos, tinha-me especializado tanto no mal que havia esquecido de me especializar no oposto. Carlo não era o oposto do mal no sentido de ser a sua negação.
Era o oposto no sentido de ser a sua ausência total, um zero absoluto onde o mal simplesmente não encontrava superfície de contacto. que isto para um exorcista é mais desconcertante do que qualquer manifestação que já presenciei. Porque o mal que conheço encontra sempre algo a agarrar. Sempre, até nos santos que acompanhei, existiam pontos de resistência, lugares onde o mal tentava entrar e era repelido. Carlo não repelia.
Carlos simplesmente não oferecia superfície. Todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias. Ele tinha dito em vida. Eu já tinha lido essa frase antes de ir a Assis, mas só compreendi no chão de mármore branco, com os joelhos a ceder, que Carlo tinha vivido esta frase com uma consistência que a maioria de nós não consegue sustentar durante uma tarde.
Ele era, nos termos que utilizo profissionalmente, impermeável, não por esforço, por escolha tão profunda que se havia tornado natureza. E a Eucaristia era o mecanismo. A Eucaristia é a minha autoestrada para o céu ele tinha dito. Para um bioquímico que se tornou sacerdote, esta metáfora tem precisão técnica.
Não é poesia, é descrição de funções. A autoestrada não vai ao céu pela beleza da viagem, vai porque é o caminho mais direto. Carlo recebia a comunhão todos os dias, não por devoção performativa, por engenharia espiritual. Tinha compreendido algo que eu, com 40 anos de sacerdócio, ainda estava aprendendo. Fui novamente a Assis em outubro de 2025 para a canonização.
Desta vez fui como peregrino, não como investigador. Coloquei a mão sobre o vidro do túmulo novamente. A escala de resistência que utilizo há 23 anos marcou o mesmo número que tinha marcado em março de 2021. Zero. O mundo à volta do túmulo era normal, 6 7. Em alguns momentos de agitação turística chegava a oito.
Mas o espaço imediato do corpo de Carlo Acutes marcava zero de forma consistente. 100 pessoas em redor, máquinas fotográficas, flashes, choro, rezas em 12 línguas. e zero. Não é paz. Paz é ausência de conflito. O que emana daquele túmulo não é ausência de nada. É presença de algo que não tem o nome técnico para descrever sem usar linguagem teológica.
Então vou usar linguagem teológica, é a santidade, não como conceito abstrato, como substância mensurável. Este é o testemunho de um exorcista de 23 anos, formado em bioquímica, que foi a Assis à procura fenómenos sobrenaturais e encontrou algo muito mais difícil de explicar. Encontrou a ausência de tudo o que dediquei a minha vida a combater e percebi no chão de mármore branco em 2021 e de novo no chão de mármore branco em 2025 que combater o mal é necessário, mas que a questão mais profunda não é sobre o mal. É sobre o que ocupa o espaço quando
o mal não encontra onde entrar. Carlos sabia a resposta aos 15 anos. Eu precisei de 72 para começar a perceber. Se este testemunho chegou até si esta noite, peço-lhe que subscreva este canal e partilhe este vídeo com alguém que precise de ouvi-lo. Não porque precise de audiência, mas porque o que Carlo Acutes deixou não foi um milagre para ser guardado em Arquivo Vaticano.
Foi uma instrução de operação para uma vida que o mal não consegue habitar. E esta instrução está disponível para qualquer pessoa que queira seguir as pegadas. As pegadas do céu estão em toda a parte.