A vida trágica e misteriosa de Casusa. O que nunca nos contaram. Um homem de 31 anos numa cadeira de rodas dentro de uma danceteria no Rio de Janeiro, de bandana na cabeça, muito magro, com o corpo que a doença tinha consumido até quase não restar nada. E ele estava dançando.
A empresária que o levou nessa noite havia negado o pedido primeiro. Achou que era uma loucura, que ele não tinha condições, mas ele insistiu e ela cedeu. O público da danceteria reconheceu aquele homem na cadeira de rodas. Ele dançou, sorriu. Existiu nessa noite com uma intensidade que as pessoas saudáveis do lado de fora nem sonhavam ter.
Quando ela levou-o de volta para casa e o colocou-o na cama, ele dormiu feliz da vida. Esse homem estava morrendo de aides. Esse mesmo homem comporia música até 15 dias antes de morrer. Esse mesmo homem tinha subido num palco completamente destruído pela doença, com o Brasil inteiro a saber que estava a morrer e cantou como se fosse imortal.
Ele era algo que o mundo não sabia classificar. Um homem que vivia com uma urgência que ninguém ao redor conseguia acompanhar, que amava sem escolher, que criava sem parar, que se destruía e reconstruía a uma velocidade que deixava todos à volta tontos. E a pergunta que ninguém faz direito sobre ele é a seguinte: será que ele sabia? Não o diagnóstico, não a data, mas esta sensação profunda, visceral, quase física, de que o seu tempo era diferente do tempo dos outros? Será que toda aquela intensidade era a
resposta de um homem que sentia antes de qualquer médico confirmar qualquer coisa que não havia tempo a perder? Essa é a história que ninguém contou direito sobre Kazusa. Hoje vai descobrir o segredo que carregou sozinho durante dois anos inteiros enquanto enchia estádios e sorria para as câmaras.
Os amores que viveu sem pedir licença a ninguém. A humilhação que a maior revista do Brasil cometeu contra ele ainda vivo. E a cena que aconteceu quando leu aquela capa que ninguém te contou. Os versos que escreveu anos antes que descrevem com uma precisão que assusta exatamente o que viria a acontecer com ele.
E no final vais entender porque um homem que morreu aos 32 anos viveu mais do que a maioria que chega aos 80. E se ainda não se inscreveu no canal Doce VIP, faça-o agora. Prima o botão de inscrição e ative o sininho. Aqui há investigação. Todo dossier que nós lançamos, você vai ser o primeiro a saber.
Fica até ao fim, porque o Kazusa que vai conhecer aqui é muito maior e muito mais humano do que qualquer história que já te contaram. Cazusa não começou pela música, começou pela recusa. A recusa de ser o que a família esperava, a recusa de seguir o caminho que o apelido abria, a recusa de viver com segurança quando havia tanta vida disponível no exterior da segurança.

Tudo o que ele foi como artista e como homem nasceu dessa recusa. E ela começou muito antes de qualquer palco, muito antes de qualquer disco, muito antes de qualquer diagnóstico. O seu nome de batismo era Agenor de Miranda Araújo Neto. O apelido chegou antes do menino. O pai, durante a gravidez, já dizia que seria um casusa, palavra nordestina que significa miúdo.
E o nome colou antes do nascimento, antes de qualquer escolha, antes de qualquer coisa. Cresceu sem atender quando chamavam pelo nome de registo. só fez as pazes com o Agenor quando descobriu que o seu maior ídolo, o sambista Cartola, tinha o mesmo nome. Isto já diz tudo sobre quem era. Um homem que preferia se definir pelos seus ídolos e pelas suas escolhas do que pelo que a família decidira por ele antes de ele existir.
O seu pai, João Araújo, fundou e dirigiu a gravadora Som Livre durante quase quatro décadas, a maior do Brasil. Sua mãe Lucinha tinha lançado dois discos como cantora. A casa deles não era uma casa comum, era um lugar por onde passavam os maiores nomes da música popular brasileira, como se fosse uma coisa normal, onde a conversa de jantar poderia ser sobre composição, sobre arranjo, sobre a MPB que estava a ser inventada naquele momento.
Cazusa absorveu tudo isso, mas absorveu de uma forma que os pais não esperavam. Aos 15 anos, tinha o hábito que a mãe considerava preocupante. Seguia Carlos Drumon de Andrade pelas ruas do Rio de Janeiro. Não para abordá-lo, não para lhe pedir um autógrafo, só para estar perto, para observar como um homem assim caminhava pelo mundo.
Drumon nunca percebeu. Além de Drumon, devorava Augusto dos Anjos e Clarice Lispector. Aos 17 anos, escreveu um poema para a avó materna, uma mulher chamada Maria. Um texto de uma ternura que poucos jovens de 17 anos conseguem pôr em palavras. Esse poema, anos mais tarde, se tornaria uma das canções mais belas da música brasileira, gravada pelo homem que ele viria a amar.
Mas isso vem no momento certo. Foi aprovado no exame de admissão de comunicação em 1976. trancou a matrícula três semanas depois, não por insucesso, por escolha deliberada e consciente, porque tinha decidido que o local onde ia aprender o que precisava aprender não era dentro de nenhuma sala de aula.
Era o baixo Leblom, os bares que ficavam abertos até ao amanhecer, as pessoas que a burguesia carioca fingia não ver, os poetas sem dinheiro, os músicos sem editora, os histórias que não cabiam num currículo nenhum. E aqui está a contradição mais fascinante de toda esta história. Cazusa era filho da burguesia.
Cresceu com dinheiro, com acesso, com o apelido certo e os contactos certos. E com tudo isto, optou por passar as noites entre pessoas que não tinham nada disto. Não como turista, não como exercício intelectual, como habitante, como alguém que tinha decidido que aquele mundo era mais honesto do que o que o esperava.
O pai preocupado deu a -lhe um emprego no departamento artístico da gravadora. Casusa trabalhava de dia e continuou a ser o Casusa do baixo Leblom à noite. Esta dupla vida não era fraqueza, era o material de onde tudo viria. E havia algo nesta forma de existir que não cabia em nenhuma explicação racional. Uma urgência que não vinha de fora, não vinha da fama, nem da pressão, nem da indústria, vinha de dentro, como se o corpo conhecesse algo que a mente ainda não tinha formulado em palavras, como se cada madrugada vivida até ao fim fosse uma resposta a uma
pergunta que ainda não tinha aprendido a fazer. Conhece alguém assim? Alguém que vive com uma intensidade fora do normal, como se soubesse no fundo que o tempo é escasso? Conta nos comentários. Quero muito ler. Havia dois homens completamente diferentes vivendo dentro do mesmo corpo.
E a maioria das pessoas, incluindo uma boa parte dos seus fãs mais dedicados, apenas conheceu um deles. O casusa que o Brasil viu era uma criatura de excesso. O álcool não era ocasional, era constante, era combustível, era quase uma declaração pública de que não ia pedir autorização para existir do jeito que queria.
A cocaína fazia parte do mesmo pacote. Nos palcos, esta energia se transformava em algo que as pessoas que lá estavam descrevem até hoje com dificuldade em encontrar as palavras certas. Havia uma urgência física nas suas apresentações, uma sensação de que aquele homem estava colocando em cada nota algo que não sobrava em lado nenhum depois, como se cada concerto pudesse ser o último, como se soubesse que não havia tempo para guardar nada para depois.
O rocking Rio de Janeiro de 1985 foi a prova disso para todo o Brasil. Os Barão Vermelho subiram àquele palco e o que aconteceu não foi apenas um concerto, foi uma declaração de existência, uma explosão que deixou o país a olhar para o rock nacional com outros olhos. E no centro de tudo isto estava Casusa, com aquela energia impossível de sustentar, porque era impossível.
E ele sabia. O episódio da bandeira nacional é um dos mais contados e menos entendidos da história dele. Durante um concerto, Casusa cuspiu na bandeira do Brasil. O país se dividiu. Parte ficou escandalizada. Parte ficou fascinada e muito poucos pararam para perguntar o que estava por baixo daquele gesto. Não era desleixo, era raiva.
A raiva de um homem que olhava para o O Brasil dos anos 80 com toda a sua A hipocrisia, com toda a sua desigualdade disfarçada de normalidade, com toda a burguesia que ele conhecia por dentro, e desprezava com cada célula do corpo e já não conseguia fingir que estava tudo bem. O gesto era violento porque o sentimento era violento.
E os sentimentos de Cusa nunca foram pequenos. Mas havia outro homem, o que aparecia quando as câmaras apagavam-se e os aplausos paravam. Nei Matogrosso, que foi uma das pessoas mais próximas de Casusa e com quem viveu um dos amores mais intensos da própria vida, disse uma coisa que resume este mistério melhor do que qualquer análise poderia fazer.
disse no lado público. Cazusa mostrava-se agressivo, louco, bêbado e cheirava muito pó. Já na intimidade era o oposto. Foi uma das pessoas mais encantadoras que conheci. Duas frases, dois homens. O mesmo Kusa, o homem privado, era o rapaz que seguia poetas pelas ruas, o jovem que escrevia poemas para a avó com uma ternura que nenhuma máquina fotográfica jamais capturou.
O amante que na A intimidade era, nas palavras de Nei, a pessoa mais encantadora que ele havia conhecido. Este Cusa não vendia disco, não aparecia em capa de revista, ficava nos quartos e nas madrugadas e nas conversas que ninguém gravava. E era esse, curiosamente o que escrevia as letras.
Porque por baixo de toda a agressividade das músicas dele, existe uma ternura escondida, uma delicadeza camuflada. atrás de cada provocação que só faz sentido quando se conhece o homem que o público nunca viu. O que acontece com um ser humano que vive essa contradição por anos, que sustenta dois personagens tão diferentes dentro do mesmo corpo? O que acontece é que a guerra interna vai pedindo mais combustível para se manter, mais álcool, mais substâncias, mais intensidade, mais excesso, até que o corpo começa a apresentar a conta.
E a conta de Casusa chegou mais cedo do que para a maioria das pessoas, muito mais cedo. Casusa amava com a mesma intensidade com que vivia, sem regras, sem fronteiras, sem a menor preocupação com o julgamento de ninguém. E num Brasil dos anos 80, essa forma de amar só usada, era perigosa.
Ele havia declarado publicamente que era bissexual, não como manifesto político, não como bandeira, como quem declara que prefere café ao leite. Um fato da vida que não precisava de justificativa nem de pedido de desculpa. Numa época em que isso ainda soava como confissão de crime para boa parte da sociedade brasileira, essa naturalidade era em si mesma um ato de coragem.
A história com Nei Mato Grosso começou da forma mais casusa possível. Eles se encontraram numa festa e em determinado momento da noite, Casusa simplesmente perguntou ao anfitrião se podia lhe dar um beijo com a naturalidade de quem pede um copo d’água. Nei disse que foi completamente surpreendido e completamente tomado pelo que veio depois.
O namoro durou três a qu meses. Parece pouco para uma história que as duas pessoas mencionaram em entrevistas por décadas, mas Nei explica com uma frase que diz mais do que um romance inteiro: “Os quatro meses foram suficientes para que o amor permanecesse até hoje. A intensidade de uma relação não se mede em tempo.
Kusa já sabia disso e vivia de acordo. O que Nei revelou muito mais tarde, quase como uma confissão tardia, é que Kazusa tinha muito ciúme do relacionamento de 13 anos que ele mantinha com outra pessoa. 13 anos de ciúme, silencioso ou não, de um amor que havia durado 4 meses. Isso é Casusa, tudo ou nada, nunca nada no meio.
A forma como ele amava era a mesma forma como subia no palco, a mesma forma como bebia, a mesma forma como escrevia, com uma totalidade que o mundo em geral não sabe receber. O poema que havia escrito aos 17 anos para a avó Maria virou canção na voz desse mesmo Nei, o amor e a arte sempre entrelaçados, inseparáveis, alimentando um ao outro.
Ouve também Lauro Corona, ator, outro amor intenso e pouco contado, que faz parte da mesma equação, da mesma forma de existir, sem meias medidas. Ativistas LGBT dos anos 80 e 90 apontavam que Kazusa nunca usou a sua visibilidade de forma explícita para defender a causa. O antropólogo Luis Mott, fundador do grupo gay da Bahia, chegou a dizer publicamente que discordava do mutismo de Kazusa sobre o movimento gay.
É uma crítica legítima e precisa ser dita. Kusa escolheu viver a sexualidade dele sem torná-la bandeira política. Pode ter sido uma limitação, pode ter sido uma escolha consciente, pode ter sido simplesmente o reflexo de um homem que fazia as coisas do jeito dele, até quando o mundo que esperava mais dele tinha razão.
O que ele deixou nas letras foram mais de 10 músicas com referências à homossexualidade ao longo de toda a carreira. Músicas que os próprios membros do Barão Vermelho resistiram em gravar. músicas que ele insistiu em manter. A bandeira estava nas letras, não nos discursos. Você acha que Kazusa fez certo ou errado? Essa discussão existe até hoje e divide as pessoas de formas interessantes.
Me conta nos comentários o que você pensa. Se esse vídeo está te fazendo ver Cazusa de um jeito diferente, de um jeito mais humano e mais próximo do que você estava acostumado, deixa o like agora. Isso ajuda muito o canal a chegar em mais pessoas e a continuar trazendo histórias assim.
E se ainda não é inscrito, se inscreve e ativa o sininho. Tem muito mais por vir. Em algum momento entre a glória do Rocking Rio e as madrugadas no baixo Leblom, algo entrou no corpo de Cusa que não ia embora. E durante dois anos inteiros, dois anos de shows, de discos, de entrevistas, de sorrisos para a câmera, ele carregou esse peso completamente sozinho. Dois anos.
Pense no que são dois anos vivendo com um segredo desse tamanho, enquanto o Brasil inteiro aplaude e canta junto. Os primeiros sinais surgiram em julho de 1985. Cazusa foi internado com febre alta e convulsões. Os médicos não identificaram imediatamente o que estava acontecendo. Saiu do hospital e continuou.
Continuou a beber, continuou cantando, continuou a ser o casusa que o Brasil estava a descobrir, mas o corpo guardou a informação. Em 1987, após uma nova hospitalização com pneumonia, o diagnóstico chegou com todas as letras H e V. Kasusa tinha 29 anos. O Brasil de 1987 não era um local fácil para receber esta notícia.
Aides era sinónimo de morte, não de doença, de morte. E carregava um peso moral devastador associada à promiscuidade, ao que a sociedade chamava de vida errada. A culpa que os conservadores distribuíam com uma generosidade infinita para quem adoecia. Revelar o diagnóstico naquele contexto era entregar não só a própria saúde ao julgamento público, era entregar a carreira, a reputação, talvez as relações com a família.
Cazusa calculou tudo isso e escolheu o silêncio. Os dois anos seguintes foram os de uma mentira que custava mais a cada dia. Ele viajava para Boston dizendo que tinha uma doença do pulmão séria. Dava entrevistas desconversando. Aparecia nos palcos com uma energia que escondia o esforço que aquilo custava.
A imprensa desconfiava, mas sem confirmação não havia notícia. até Dezembro de 1988, quando foi ao programa da Marília Gabriela numa entrevista que ficou famosa por razões que Cazusa não havia planeado. A Marília sabia, a equipa do programa sabia, uma boa parte da imprensa presente sabia.
E Marília deu a -lhe todas as oportunidades de falar. Perguntou sobre os internamentos, perguntou sobre a saúde, perguntou diretamente se tinha aides. Cazusa gaguejou em direto na televisão nacional, hesitou, desconversou e disse a frase que ficou registada como um dos momentos mais dolorosos daquela entrevista.
Não estou a idético, não. Tive um problema muito a sério, uma coisa de pulmão muito grave, mas agora está tudo bem. Não estava, não ia ficar. O que mudou entre dezembro de 1988 e fevereiro de 1989, não foi um médico, não foi a pressão da imprensa, não foi uma conversa com o família, foi uma música, uma música que ele próprio havia escrito.
Estava a cantar Brasil do álbum Ideologia, onde a letra dizia: “Brasil, mostra a tua cara”. E em algum momento, cantando estes versos, algo se partiu por dentro. Ele já não conseguia cantar aquilo sem se sentir completamente hipócrita. Não conseguia pedir ao Brasil que mostrasse a cara enquanto escondia a sua.
A decisão foi tomada numa tarde de Fevereiro de 1989 em Boston, nos Estados Unidos. O jornalista Zeca Camargo, correspondente da Folha de São Paulo, estava com ele. Casusa pegou num copo de vinho, olhou para o jornalista e disse a frase que parou o Brasil inteiro. Escreve lá: “A maldita é a Aides.” Zeca Camargo ficou sem reação durante alguns segundos, depois escreveu: “A notícia saiu e Casusa tornava-se nesse momento a primeira personalidade brasileira a assumir publicamente o diagnóstico de VIH.
Numa época em que fazer isso exigia uma coragem que a maioria das pessoas nunca vai precisar ter na vida. O preço desta coragem, no entanto, viria a seguir e foi cruel. Kazusa tinha feito algo extraordinário. Tinha exposto a própria vulnerabilidade num país que não sabia lidar com ela.
Tinha mostrado a cara, como ele mesmo havia pedido ao Brasil. E parte do Brasil respondeu a esta coragem da pior forma possível. Abril de 1989, a revista Veja, a maior publicação de notícias do país, lança uma edição com Cazusa na capa. A foto mostra o cantor visivelmente devastado, o corpo irreconhecível, o rosto que guardava apenas sombras do homem que tinha estado no palco do Rocking Rio 4 anos antes.
E sobre esta foto, em letras grandes, a Manchete Casusa, uma vítima da Aides agoniza em praça pública. Não é exagero dizer que esta manchete foi um dos momentos mais vergonhosos do jornalismo brasileiro da década de 80. Um homem vivo que tinha tido a coragem de dizer a verdade quando mais ninguém dizia, sendo tratado como um cadáver espetacularizado pela maior revista do país.
A cena que aconteceu quando Kazusa leu esta capa é uma das mais dolorosas de toda a sua história e é uma das que menos aparecem quando as pessoas falam sobre ele. Ele estava em Petrópolis, numa casa de campo com os pais e o equipa que cuidava dele. Alguém trouxe a revista, ele leu-a e começou a chorar.
Não de tristeza apenas, de algo mais fundo e mais difícil de nomear. uma mistura de humilhação, de raiva, de desamparo e da sensação de que, mesmo tendo feito a coisa certa, o mundo ainda encontrava uma forma de punir quem se expõe. A queda de pressão foi tão grave que a família teve de voltar imediatamente para o Rio de Janeiro.
Ele acabou internado. A revista Veja havia mandado um homem doente para o hospital com uma manchete. O detalhe que revela mais sobre quem Casusa era do que qualquer outra coisa. O que mais o feriu na reportagem não foi a foto do corpo destruído, não foi a exposição da fragilidade ao mundo inteiro. Foi que a matéria duvidava da sua genialidade.
Tratava o artista como coisa do passado, como encerrado, como alguém de quem só restava a doença. E isso, para um homem que entendia a própria existência através da criação, foi o golpe mais certeiro que a reportagem conseguiu dar. Kasusa poderia aceitar a morte. O que ele não aceitava era ser tratado como se já estivesse morto antes de morrer.
Existe um paradoxo cruel nessa história que não pode ser ignorado. A mesma capa que o humilhou, que o fez chorar e cair da pressão e ir parar no hospital, fez com que milhares de brasileiros soropositivos se sentissem pela primeira vez menos sozinhos. Num país que não falava sobre aides, que escondia os doentes, que tratava o tema como tabu ou como punição merecida, ver o rosto da doença estampado na maior revista do país trouxe o assunto para dentro das casas e das conversas, de uma forma que talvez
uma cobertura mais digna não conseguisse. A história é complicada assim e a resposta de Casusa a tudo isso não foi um comunicado, não foi uma entrevista pedindo retratação, não foi recuar. foi para o estúdio. Nos meses seguintes aquela capa que o declarou acabado, Kusa gravou o álbum burguesia, Saindo do Leito, às vezes de cadeira de rodas, às vezes de maca.
Escreveu letras de dentro de um hospital e pediu aos amigos que compusessem músicas para elas. produziu um disco duplo que desmentiu com fatos cada linha daquela manchete. A vingança silenciosa de um artista que o mundo havia declarado encerrado foi continuar sendo artista com uma qualidade que a doença não apagou e que a revista não previu.
Isso é o que ninguém conta direito sobre ele. Existe algo nas letras de Cazusa que incomoda quem para analisar com atenção. algo que vai além da poesia, além do talento, além da coincidência, porque ele escreveu coisas anos antes do diagnóstico, anos antes de qualquer revelação pública, que descrevem com uma precisão perturbadora exatamente o que veio a acontecer com ele.
E isso levanta uma pergunta que esse vídeo não tem como responder com certeza, mas que é impossível de ignorar. Será que Kazusa sabia de alguma forma antes de saber? Pense no verso de ideologia, disco de 1988, lançado quando o diagnóstico já existia, mas o Brasil ainda não sabia. Meu prazer agora é risco de vida. Numa leitura superficial é uma provocação, uma referência ao excesso de alguém que não tem medo de nada.
Numa leitura mais atenta, é uma confissão. Um homem que sabe que o prazer que viveu tem um preço biológico concreto e que esse preço está sendo cobrado. Não é metáfora, é relato. Pense no verso de boas novas. Eu via ela estava viva. Isso não é a imagem poética de um homem saudável fantasiando sobre a mortalidade.
Isso é o que alguém escreve quando olhou de perto para algo que a maioria das pessoas não viu ainda. Quando a morte deixou de ser conceito e virou presença, algo que ocupa espaço no mesmo quarto. E pense em vida louca, vida, vida louca, vida, vida breve. Cantada com uma alegria que parece leveza, mas que guarda dentro dela uma urgência.
A vida é breve, não como filosofia, como diagnóstico, não como melancolia, como motor. Se é breve, então vive. Vive agora, vive demais. Vive de uma forma que o tempo não possa levar sem ter sentido a resistência. Será que Kazusa tinha uma consciência quase física de que o tempo dele era limitado e que, por isso, vivia com aquela intensidade toda, muito antes de qualquer exame confirmar qualquer coisa? Ou foi a forma como ele viveu, os excessos, a forma como tratou o próprio corpo como material de arte, que criou
as condições para o fim que veio? É uma pergunta que diz respeito a algo maior do que Casusa. Diz respeito à relação entre arte e autodestruição, entre urgência criativa e negligência com a própria existência, entre genialidade e o preço que a genialidade cobra. O pesquisador Rafael Julião da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de CAS Segredos de liquidificador, defende que a relevância do artista está em ter conseguido fazer a crônica de um tempo histórico de uma forma que só é possível
quando o artista está a viver na orla. aborda entre a euforia e o colapso, entre a celebração e o luto, entre a vida mais intensa que se pode imaginar e a consciência de que ela não dura para sempre. Caetano Veloso, que não costuma desperdiçar elogios, chamou a Cazusa o maior poeta brasileiro da sua geração.
E quando se lê as letras com esse olhar, com atenção para o que está por baixo das palavras, é difícil discordar. O que é innegável, independente de qualquer interpretação. Kusa transformou a morte em arte antes de morrer. Escreveu sobre ela, cantou sobre ela, viveu em direção a ela com uma clareza que a maioria dos nós passa a vida inteira a evitar.
E é isso que o torna verdadeiramente misterioso. Não o diagnóstico, não a capa da revista, não a revelação em Boston, mas esta consciência que habitava as letras antes que qualquer outra coisa acontecesse. Acredita que alguns os artistas sentem de alguma forma que vão partir cedo? Que a intensidade com que vivem é uma resposta a um pressentimento que não conseguem nomear? Essa pergunta persegue-me.
Deixa a tua resposta nos comentários. Quero muito saber o que pensa. A maioria das pessoas perante uma sentença de morte com data que a medicina não consegue esconder para fechar a porta. Apaga a luz. Espera. Kazusa fez exatamente o contrário. George Israel, produtor e amigo próximo, conta que mesmo internado, mesmo debilitado ao ponto em que sai da cama custava um esforço enorme, Casusa enviava letras, enviava textos e pedia para que os amigos que visitavam a clínica compusem músicas para elas, porque as letras ele ainda
escrevia sempre. Israel disse com uma perplexidade ainda audível na voz anos depois. Mesmo naquela situação, ele conseguia extrair uma energia fora do comum para escrever, gravar e cantar. O álbum burguesia foi gravado entre março e junho de 1989. Cazusa saiu do leito para gravar, algumas vezes de cadeira de rodas, algumas vezes de maca.

A voz tinha perdido parte do que tinha quando era jovem e saudável. havia perdido o brilho fácil, a potência imediata, mas tinha ganho outra coisa que voz saudável nenhuma consegue fabricar. Uma honestidade que só aparece quando não há mais nada a proteger. Uma presença que vai para além da técnica vocal.
Uma pessoa que está ali de verdade, sem distância, sem a proteção que a saúde permite manter entre o artista e a dor. Em Dezembro de 1988, Casusa tinha feito uma transfusão de sangue. Com a energia temporariamente devolvida ao corpo, foi ao casamento do amigo George Israel e cantou por cerca de 20 minutos.
Israel disse: “Acho que foi uma das últimas vezes que ele conseguiu fazer algo do género. Depois disso, começou a ficar cada vez mais fragilizado. Um homem que utilizou a energia de uma transfusão de sangue para cantar no casamento de um amigo. Isto é Casusa. A canção Cobaias de Deus foi escrita nesse período.
Escrita enquanto morria, premiada depois de morrer. O prémio Sharp de melhor canção do ano foi concedido póstumamente, o Brasil reconhecendo que o artista que tinha declarado encerrado continuava produzindo obras primas de dentro de um hospital, de dentro de um corpo que estava a desistir, de dentro de uma vida que tinha decidido continuar a ser arte até ao último segundo possível.
Casusa compôs até 15 dias antes da morte. 15 dias, quando o esgotamento físico finalmente o silenciou, foi a primeira vez que algo no mundo o calou de verdade. Nos últimos meses, pediu para ser levado a uma discoteca. A empresária Rosa de Almeida, que o acompanhava, negou primeiro, depois cedeu.
E o que ela descreveu depois é uma das imagens mais poderosas de toda esta história. Ele foi de cadeira de rodas com a bandana na cabeça, muito magro, e dançou. Rosa disse com uma simplicidade que parte o coração. Foi uma noite linda. Depois levei-o para casa, pus-lhe na cama e ele dormiu feliz da vida. Um homem moribundo numa cadeira de rodas, numa danceteria no Rio de Janeiro dançar, porque a alternativa parar era a única coisa que ele genuinamente não sabia fazer.
No cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, há uma lápide que diz tudo sobre quem foi este homem. Não está escrito Agenor, está escrito O tempo não para. Quatro palavras escolhidas pelos pais que o conheciam melhor do que ninguém. Quatro palavras que são ao mesmo tempo título de música epitáfio. E a descrição mais precisa de uma forma de existir que o mundo não conseguiu esquecer.
Partilha esse vídeo com quem ama a música brasileira de verdade, com quem ama história real, com quem precisa de um vídeo que faz pensar. E se ainda não é inscrito, se inscreve agora. 7 de julho de 1990, Rio de Janeiro. Cazusa tinha 32 anos. A morte chegou como choque séptico, a consequência final de um corpo que havia dado tudo que tinha e que tinha mais.
Os pais estavam ao lado. Lucinha e João Araújo, que haviam dado a ele o apelido antes de ele nascer, que haviam tentado de todas as formas segurar o filho que não cabia em lugar nenhum. Estavam ali quando ele parou. O silêncio que veio depois era de um tipo diferente de todos os silêncios que ele havia vivido, porque esse era o primeiro que ele não ia romper.
Lucinha Araújo não ficou parada. Em outubro de 1990, menos de 4 meses depois da morte do filho, ela fundou a Sociedade Viva Casusa, uma organização que atende crianças e adolescentes soropositivos com saúde, educação e lazer. Uma mãe transformando o luto em cuidado com quem mais precisava. funciona até hoje. O nome do filho continua fazendo diferença na vida de crianças que nunca ouviram uma nota da música dele.
Esse é o legado mais concreto e mais bonito que um artista pode deixar. O filme Cuza O Tempo não para. Lançado em 2004 com Daniel de Oliveira no papel principal apresentou a história a uma geração que não havia vivido os anos 80. Uma geração que descobriu o artista e o homem ao mesmo tempo, sem a separação que o tempo às vezes impõe entre a pessoa real e o mito.
Em 2016, o Leblon, que foi o território onde ele construiu a versão de si mesmo que o mundo conheceu, ganhou uma estátua e uma praça com o seu nome. O menino que percorria aquelas ruas de madrugada em busca do que a faculdade não dava, virou bronze e concreto naquele mesmo lugar.
Caetano Veloso disse que ele era o maior poeta da sua geração. A Rolling Stone Brasil, em 2008, colocou na 34ª posição na lista dos 100 maiores artistas da música brasileira. Números e listas dizem pouco sobre o que de fato foi esse homem. O que diz mais é a forma como as músicas dele continuam sendo ouvidas por pessoas que vivem problemas que ele nunca conheceu, em épocas que ele não viu, com referências que ele não teria como imaginar.
Isso é o que define um artista que não envelhece. Não a qualidade técnica, não os prêmios, mas a capacidade de tocar algo permanente dentro de quem ouve. Algo que não depende do ano, da geração, do contexto, algo que é simplesmente humano. E Casusa, com todos os seus excessos e todas as suas contradições e toda a sua tragédia e todo o seu mistério, foi isso profundamente, completamente, irremediavelmente humano. Casusa não viveu pouco.
Viveu com uma densidade que a maioria das pessoas não alcança. em 80 anos de existência cuidadosa e organizada. O trágico não é que ele morreu cedo. O trágico é imaginar o que mais ele teria dito, quais letras ainda estavam esperando, quais verdades ainda iam aparecer nessa voz estranha e única que o Brasil demorou para entender e nunca mais esqueceu.
No fim, o que Cazusa nos deixou não é só música, é um espelho. Um espelho que desconforta de uma forma específica. Porque não pergunta se você é talentoso ou corajoso ou especial. Pergunta uma coisa muito mais simples e muito mais difícil. Você está mesmo vivendo? Ou está apenas existindo com segurança, com cuidado, com todas as proteções no lugar, esperando que a vida comece em algum momento mais conveniente? O menino que seguia poetas pelas ruas, o jovem que largou a faculdade para aprender na madrugada,
o homem que amou sem escolher e criou sem parar e disse a verdade quando mentir era infinitamente mais fácil. O artista que subiu num palco sabendo que estava morrendo e cantou como se fosse imortal, o homem que dançou de cadeira de rodas numa danceteria e dormiu feliz da vida. Tudo isso foi a mesma pessoa.
Tudo isso foi Kusa. Kusa viveu 32 anos e deixou a sensação de que passou por aqui durante muito mais tempo do que isso. Talvez porque as pessoas que vivem de verdade não ocupam apenas os anos que têm, ocupam a memória de quem ficou. E a memória de Casusa não envelhece, não esmaece, não pede licença. Ela simplesmente continua.
Como ele sempre soube que ia continuar, como uma música que você não consegue parar de ouvir mesmo depois que o som acabou. Se esse vídeo te fez sentir alguma coisa, te fez pensar, te apresentou um Cusa que você não conhecia ou te fez redescobrir um que você havia esquecido, deixa o like agora.
É a forma mais simples de dizer que vale a pena continuar contando histórias assim. Compartilha com quem ama música, com quem ama história real, com quem precisa de um vídeo que faz pensar de verdade e subscreve o canal para não perder os próximos documentários. A gente se vê no próximo.