REINALDO: A VERDADE VEIO À TONA
386 golos com a camisola do Atlético Mineiro, 28 golos numa só época do Brasileirão. Chamavam-lhe rei. E esse mesmo homem, perseguido durante 8 anos pela ditadura militar, expulso da seleção brasileira por um gesto que ele repetia depois de cada golo e com o joelho destruído por um defesa nojento do próprio time.
Hoje vai saber porque um defesa do próprio Atlético destruiu-lhe o joelho de propósito com apenas 17 anos. e ainda mais sombrio, porque o rei acabou preso numa esquadra de Belo Horizonte. Mas antes de lá chegar, é preciso entender como o Reinaldo chegou a esse ponto. O Rei do Galo. 11 de janeiro de 1957, Ponte Nova, uma pequena cidade do interior do estado de Minas Gerais, a 219 km da capital Belo Horizonte, uma região rural pobre, de café e plantações.
Uma família humilde de seis membros vivia numa casinha de adobe do bairro do Triângulo. O pai, o senhor Lima, era trabalhador rural. 12 horas por dia debaixo do sol a colher café, 300 cruzeiros por semana. A mãe, a dona Nésia, era costureira, costurava vestidos para as famílias ricas do centro da cidade.
Nesse dia, a dona Anésia deu à luz o terceiro filho. Pesou 2,800 ao nascimento. Puseram-lhe o nome de José Reinaldo de Lima. Mas em menos de duas décadas, em cada estádio brasileiro onde o miúdo pisasse, iam chamá-lo apenas de rei. Ponte Nova, nos anos 60, era um mundo à parte, sem asfalto nas ruas do bairro do Triângulo, sem água canalizada, sem luz elétrica regular.
Os miúdos do bairro brincavam descalços nos campinhos de terra batida das redondezas e o pequeno Reinaldo, segundo contou mesmo numa entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, no ano de 2005, descobriu o futebol antes de aprender as letras. Chutava uma bola feita com meias enroladas em Jornal Velho, dava pontapés contra a parede da fábrica de tecidos que havia na esquina.
chutava nas peladas improvisadas do bairro e aprendeu, sem ninguém ensinar, uma coisa específica que ia definir a carreira inteira dele. Aprendeu a chutar com as duas pernas, direita e esquerda, sem diferença, sem preferência. O pai seu Lima, naqueles anos da infância tinha um problema. Um problema que poucos conheceram até 40 anos depois, quando o O próprio Reinaldo revelou numa entrevista para a jornalista brasileira Marília Gabriela no ano de 2008.
O seu Lima bebia, bebia muito. Bebia cachaça barata destilada nos canaviais da região. E quando bebia, batia na mãe anésia. O Reinaldo, até aos 7 anos, viu aquelas cenas dezenas de vezes escondido atrás do armário do quarto, com as duas mãos tapando as orelhas, chorando em silêncio para não provocar o pai.
Aquelas sovas, segundo o próprio Reinaldo declarou nessa entrevista, marcaram-no de um jeito específico. Fizeram-no desconfiar da autoridade masculina pelo resto da vida. Fizeram-no rejeitar instintivamente os homens que gritavam, mandavam, empunham. Fizeram-lhe principalmente político, muito antes dos Panteras Negras, muito antes da ditadura militar, muito antes do punho fechado erguido para o céu em cada golo.
A política do Reinaldo nasceu na cozinha pobre de Ponte Nova, ouvindo a mãe chorar em silêncio enquanto o pai dormia a bebedeira. Mas aos 9 anos uma coisa mudou. O seu Lima deixou de beber de um dia para o outro, sem tratamento, sem clínica, sem religião. Segundo contou depois a mãe Anésia para o pequeno Reinaldo, numa manhã, o senhor Lima olhou para a família durante o pequeno-almoço, viu o miúdo Reinaldo e as duas irmãs mais velhas e recordou, segundo declarou anos mais tarde, noutra entrevista à Folha de São Paulo, de
uma coisa, do próprio pai, a bater na sua própria mãe quando ele era miúdo, e entendeu que estava a repetir sem querer o mesmo destino. Naquela manhã, o senhor Lima esvaziou todas as garrafas de cachaça no ralo e nunca mais provou uma gota. Mas o estrago já estava feito. E o pequeno Reinaldo, aos 9 anos, já tinha aprendido o que o ia marcar para o resto da vida.
tinha aprendido a não confiar em ninguém, tinha aprendido a guardar silêncio e tinha aprendido, principalmente, que o futebol era o único lugar onde ninguém podia bater nele, onde ninguém lhe podia gritar, onde ninguém o podia mandar calar a boca. Mas a dor do pai alcoólico não foi a ferida mais profunda da infância do rei.
A ferida mais profunda apareceu aos 14 anos, quando um olheiro do Atlético Mineiro chegou ao estádio municipal de Ponte Nova e viu o pequeno Reinaldo jogar. O que aconteceu naquela tarde de Setembro do ano 71 foi, segundo contou o próprio olheiro para a revista Placar em 1977, uma das cenas mais extraordinárias do futebol brasileiro moderno. Vamos.
Setembro de 1971, Estádio Municipal de Ponte Nova. Uma pelada entre duas equipas de bairros da cidade. O triângulo onde o Reinaldo jogava contra o centro, equipa dos rapazes de famílias ricas. Quase todos os rapazes do centro tinham chuteiras de couro importadas. Quase todos os meninos do triângulo jogavam descalços.
Mas nessa tarde, nas bancadas do estádio municipal, havia um homem que ninguém do bairro tinha visto antes. Um homem de fato escuro, com óculos escuros, anotando coisas numa caderneta de couro. O homem chamava-se Telê Santana e naquele momento era o responsável pela categoria de juniores do Clube Atlético Mineiro.
Tinha vindo até Ponte Nova procurar um volante de 15 anos que um dirigente local tinha indicado para ele. Viu o volante jogar, não o impressionou. levantou. Estava prestes a sair do estádio quando no último minuto do jogo, o pequeno Reinaldo do Triângulo, descalço, recebeu a bola a 35 m da baliza, avançou, deu um chapéu num defesa, deu outro chapéu no segundo defesa, driblou o guarda-redes saindo da baliza e antes que a bola tocasse o relvado do Estádio Municipal, rematou da perna esquerda. Golo vazio.
Pum! O Telesantana sentou-se de novo nas bancadas, pegou na caderneta escreveu três palavras. As mesmas três palavras que apareceram citadas no livro biográfico que o Telê publicou em 1992 pela editora Companhia das Letras, as três palavras eram 14 anos, destro e canhoto. Destro e canhoto era isso que nenhum miúdo brasileiro de 14 anos sabia fazer em 1971.
Chutar a bola com as duas pernas com a mesma força, com a mesma precisão, com a mesma qualidade. Fazê-lo descalso e fazer ainda contra meninos três anos mais velhos que usavam chuteiras importadas. O Telê Santana foi até ao casa do Pequeno Reinaldo no bairro Triângulo nessa mesma noite. Conversou com o pai Sr.
Lima durante 3 horas seguidas. Ofereceu-lhe um contrato de aprendiz para levar o miúdo para Belo Horizonte. iam hospedá-lo na pensão de juniores do clube. Iam alimentá-lo três vezes por dia, iam pagar 500 cruzeiros por mês para família. O senhor Lima, sem hesitações, topou. Antes do Reinaldo sair de casa com o mala de cartão no amanhecer do dia seguinte, o senhor Lima, o pai que anos antes tinha batido na dona Anésia, fez uma coisa que o pequeno Reinaldo nunca esqueceu.
Abraçou-o, falou seis palavras, as mesmas seis palavras que o O próprio Reinaldo repetiu, palavra por palavra, na entrevista do Roda Viva, no ano 2005, o Sr. Lima disse: “Não volte pobre, não volte nunca.” “Não volte, pobre, não volte nunca”. O Reinaldo, 14 anos, descalço, saiu de Ponte Nova com uma mala de cartão com cinco cruzeiros no bolso e com seis palavras do pai, cravadas no peito feito mantra.
Belo Horizonte, 1971. Pensão dos juniores do Atlético Mineiro, no bairro de Lurdes. 14 miúdos do interior do estado dormiam em belixes de ferro num quarto coletivo. O Reinaldo era o mais novo de todos, o mais calado, o mais grave. Enquanto os outros 14 miúdos passavam as tardes livres jogar dominó, ouvir rádio, conversando sobre as raparigas do bairro, o Reinaldo apanhava uma bola do depósito do clube e descia para o campo auxiliar do Mineirão, sozinho, sem treinador, sem companheiros.
rematava no gol vazio durante 3 horas seguidas. 200 remates com a perna direita, 200 pontapés com a esquerda, todas as tardes, sem falhar. Durante 12 meses seguidos, no 28 de janeiro de 1973, o treinador do Atlético Mineiro, Vantuir Vieira, chamou o Reinaldo à sua sala, no Mineirão, 16 anos acabados de completar, olhou para ele durante um minuto em silêncio e proferiu seis palavras, as mesmas seis palavras que o Reinaldo repetiu, palavra por palavra, naquela entrevista do Roda Viva.
O Vantuir falou: “Esta noite estreias equipa profissional. Hoje à noite estreia-se equipa profissional. Estádio Mineirão de Belo Horizonte. Capacidade 130.000 adeptos. Bancadas lotadas. Jogo do Campeonato Mineiro entre o Atlético e o América de Belo Horizonte. O Reinaldo entrou no segundo tempo, encostou à bola três vezes.
Três, primeira encostada, um penálti num defesa de 32 anos. Segunda, uma assistência de calcanhar que deixou o extremo direito do Atlético frente a frente com o goleiro adversário. Terceira, um golo de cabeça, tão limpo como o de um atacante com 10 anos de profissional. O Mineirão inteiro levantou-se, 130.
000 pessoas gritando um nome que ninguém conhecia. Reinaldo, Reinaldo, Reinaldo. Naquela tarde de Janeiro de 73, o miúdo de 16 anos do triângulo de Ponte Nova virou, em menos de 45 minutos, o ídolo mais novo do O Atlético Mineiro e o mais jovem da história do clube. Mas a felicidade durou exatamente quatro temporadas, até uma época específica do ano de 1977, a época que ia transformar o miúdo descalso do triângulo de Ponte Nova no rei absoluto do futebol brasileiro e ao mesmo tempo a época que ia marcar ele sem que ele soubesse como alvo da
ditadura militar brasileira pros 9 anos seguintes. Mas a época de 77 não foi só a época do record, foi a época em que o Reinaldo, sem avisar ninguém do clube, começou a fazer um gesto específico após cada golo. Um gesto que nenhum outro desportista brasileiro se tinha atrevido a fazer em 1977. Um gesto que, segundo os documentos do Serviço Nacional de Informação, que foram desclassificados no ano de 2015, acabou por custar ao rei quase uma década de perseguição silenciosa por parte dos militares brasileiros. Vamos.
1977, Mineirão de Belo Horizonte. Domingo, 26 de junho, jogo do Campeonato Brasileiro entre o Atlético Mineiro e o Operário de Mato Grosso. O Reinaldo, 20 anos recém completos, melhor marcador do campeonato até aquele momento, já tinha marcado três golos nos primeiros 40 minutos do primeiro tempo.
E em cada golo, em vez de celebrar abraçando os companheiros, em vez de levantar as mãos, como os outros Os avançados brasileiros da época, o O Reinaldo fazia uma coisa específica, uma coisa que já tinha feito 12 vezes nessa época, em cada estádio brasileiro, onde tinha marcado um golo, erguia o braço esquerdo, cerrava o punho e olhava para o céu durante exatamente 5 segundos, sem sorrir, sem festejar, sem abraçar ninguém, apenas o punho cerrado apontando para o céu do mineirão.
Aquele gesto do punho fechado copiado dos panteras negras norte-americanos do final dos anos 60 era um gesto político, um gesto contra a ditadura militar que governava o Brasil desde o primeiro de abril de 1964. Um gesto de protesto contra a repressão política, a censura da imprensa, a tortura sistemática de presos políticos nas instalações militares.
Um gesto que nenhum outro desportista brasileiro daquela época se tinha atrevido a fazer. O Reinaldo, 20 anos descalço na infância, filho de um trabalhador rural de Ponte Nova, sem militância política conhecida até então, fazia-o cada vez que metia um golo, 28 vezes nessa época do 77, 28 punhos cerrados erguidos pro céu do Mineirão.
Isto no Brasil de 1977 não podia ficar sem resposta. Os documentos do Serviço Nacional de Informação do Estado Brasileiro, conhecido pela sigla SNI, foram desclassificados publicamente em 12 de maio do ano 2015, faz apenas 11 anos. E entre as milhares de pastas que se tornaram públicas, apareceu uma específica, uma pasta marcada com a sigla PSP1420, inaugurada no dia 29 de novembro de 1977, apenas três semanas depois do último golo do Campeonato Brasileiro daquela época, a pasta tinha um único nome escrito na capa, José Reinaldo de Lima,
e por baixo do nome, uma classificação de três palavras, elemento subversivo confirmado. Elemento subversivo confirmado. A partir daquela data, segundo o teor pormenorizado da pasta, a ditadura militar brasileira abriu contra o Reinaldo uma perseguição sistemática. Uma perseguição que ia durar exatamente 8 anos, 7 meses e 20 dias, do dia 29 de novembro do ano 77 até ao dia 18 de Julho de 1986, quase uma década inteira.
A perseguição incluiu, segundo os documentos do SNI, quatro ações específicas que iam marcar a carreira do rei de uma forma permanente. Primeira ação, vigilância telefónica. Os telefones do apartamento do Reinaldo, no bairro de Lourdes, de Belo Horizonte, e os telefones da pensão onde a mãe Anésia vivia em Ponte Nova, foram agrafados por agentes do SNI a a partir de janeiro de 1978.
Todas as conversas durante os oito anos seguintes, foram gravadas e arquivadas. O Reinaldo não soube até ao ano 2015. Segunda ação, abertura de correspondência. As cartas que o O Reinaldo recebia e mandava, especialmente dos e pros Estados Unidos, onde tinha viajado em 1979 para uma cirurgia ao joelho, foram abertas e fotocopiadas por agentes do SNI durante todo o período da perseguição.
As cópias eram arquivadas na pasta PSP1420. Terceira ação, difamação. Esta é a mais grave. A ditadura militar, através de um agente infiltrado dentro da própria equipa técnica da seleção brasileira, fez correr o falso boato de que o Reinaldo mantinha relações sexuais com homens. Aquele boato, no Brasil machista de 1981, era uma sentença social automática.
E o técnico da seleção daquele momento, o mesmo Telê Santana, que tinha descoberto o miúdo descalço em Ponte Nova 10 anos antes, acreditou no boato sem verificar e cortou o Reinaldo da convocatória da seleção brasileira paraa Copa do Mundo de 1982 em Espanha, o Mundial que o Brasil ia disputar com a geração mais talentosa da história.
Sócrates, Zico, Falcão, Júnior, Cerezo. E o Reinaldo, goleador do Brasileirão dos últimos 5 anos, ficou de fora por um boato inventado pela ditadura militar. O próprio Reinaldo respondeu àquele boato numa entrevista que deu à revista Placar em 15 de Julho de 1984, dois anos depois do Mundial que ele não jogou.
As palavras do rei, palavra por palavra, foram estes: se fosse verdade, era um problema meu. Não tenho nada contra a homossexualidade, mas a minha história é outra. O que está a acontecer é que eu estou a ser perseguido porque ergui o punho em cada baliza e que no Brasil de hoje não se perdoa. O que está a acontecer é que eu estou a ser perseguido porque ergui o punho e que no Brasil de hoje não se perdoa.
Quarta ação, a mais sombria. e a que nenhum historiador brasileiro documentou até ao ano de 2025, quando a própria Comissão de Amnistia do Ministério da Justiça do Brasil revelou os detalhes no parecer oficial publicado no dia 16 de dezembro do ano passado. A quarta ação da ditadura contra o rei foi, segundo parecer, intervenção direta sobre a carreira profissional, ou seja, pressão sistemática sobre os dirigentes do Atlético Mineiro para não renovar o contrato do jogador.
Pressão sobre os dirigentes da seleção brasileira para não o convocar. Pressão sobre os empresários brasileiros para não oferecer-lhe patrocínios publicitários. Uma pressão surda, invisível, sem assinatura, mas que destruiu durante 8 anos seguidos todas as as portas profissionais que um goleador brasileiro de 20 anos teria tido naturalmente abertas.
O Reinaldo, segundo o parecer oficial, jogou toda a segunda metade da carreira profissional dele com um cerco político invisível em volta do corpo. E aquele cerco oficialmente só foi levantado no dia 18 de Julho de 1986, com a democratização política do Brasil, apenas 2 anos antes do Reinaldo ter de se aposentar forçadamente do futebol profissional aos 31 anos, com os dois joelhos destruídos.
No 16 de dezembro do ano 2025, faz apenas 3 meses, a Comissão de Amnistia do Ministério da Justiça do Brasil reconheceu oficialmente a perseguição política sofrida pelo Reinaldo, declarou ele o segundo desportista brasileiro da história, oficialmente anistado pelo estado. O primeiro tinha sido o Fernando Antunes Coimbra, conhecido por Nando, irmão do Zico, amnistiado no ano de 2011, e concedeu ao Reinaldo, como indemnização oficial do Estado brasileiro, R$ 100.000.
R$ 100.000. Depois de 48 anos de perseguição silenciosa, o Reinaldo, 68 anos recém-completos, recebeu aquela indemnização numa sessão pública da Comissão de Amnistia realizada no dia 16 de dezembro do ano passado no Ministério da Justiça de Brasília. Aceitou o cheque em silêncio, guardou-o no bolso interior do Palitetó e, segundo contou depois ao jornal O estado de Minas, numa entrevista publicada No dia seguinte, fez uma coisa que nenhum repórter esperava.
pediu a palavra, subiu para o estrado do auditório, olhou durante 10 segundos em silêncio para a câmara da televisão pública que transmitia a sessão em direto e proferiu sete palavras, apenas sete. As palavras do Reinaldo naquela tarde de Dezembro de 25 na frente dos microfones do estado brasileiro que durante 8 anos tinha perseguiu ele em silêncio, foram estas: “Demoraram 48 anos, mas chegaram”.
Demoraram 48 anos, mas chegaram. Mas a perseguição da ditadura militar contra o Reinaldo, aberta em Novembro de 77 e fechado há apenas 3 meses com a indemnização oficial do Estado brasileiro, não foi o pior castigo que o rei recebeu nesses anos. Teve uma coisa anterior, uma coisa que aconteceu 3 anos antes da perseguição política, uma coisa que aconteceu num treino comum de uma sexta-feira de manhã no campo auxiliar do Mineirão e que, segundo as próprias palavras do Reinaldo, numa entrevista ao jornalista brasileiro
Jukakfuri, em março do ano de 2015, foi o verdadeiro golpe que destruiu a carreira do rei antes da ditadura militar entrar em cena. Para perceber o que aconteceu naquela manhã de Março de 1974, tem que voltar primeiro ao que aconteceu depois, voltar à época do recorde, voltar aos 28 golos do 77 e compreender, principalmente uma coisa específica que nenhum repórter desportivo brasileiro ligou até ao ano 2015.
O Reinaldo, no momento em que fez aqueles 28 golos do 77, já jogava com um corpo destruído, com dois meniscos extraídos, com cirurgias acumuladas, com dores que escondia do público, dos companheiros, dos repórteres e até do pai o senhor Lima em Ponte Nova. O Reinaldo fez o recorde histórico do Brasileirão com a metade de um corpo de atleta profissional.
A outra metade já tinha roubado dele. 1975, o Reinaldo, de 18 anos, recuperou parcialmente da primeira cirurgia de joelho, voltou a jogar no Atlético Mineiro. Fez 13 golos no Campeonato Mineiro. Chutava a bola com a perna esquerda na maior parte das vezes, escondendo de propósito a dor no joelho direito.
Os técnicos do clube elogiavam publicamente a versatilidade do mesmo. Na verdade, segundo contou o Reinaldo anos depois, já não conseguia apoiar o peso do corpo na perna direita. 1976, o Reinaldo, de 19 anos, 21 golos no Campeonato Mineiro. Exacampeonato estadual do Atlético Mineiro começando nesse ano, sequência histórica que ia durar seis temporadas seguidas.
O Todo o Mineirão gritava o nome do rei em cada jogo. As câmaras da TV Globo enquadravam sempre. Depois de cada golo, o punho cerrado do miúdo de Ponte Nova erguido para o céu. E o SNI em Brasília anotava cada gesto numa pasta cujo número de identificação ninguém do envolvente do jogador conhecia ainda.
1977, a época do recorde, 28 golos em 18 jogos, uma média de 1,5,5 golos por jogo. Um recorde que nenhum outro avançado igualaria no Campeonato Brasileiro até 20 anos depois, quando o Edmundo, já noutra época, ia alcançar a mesma cifra exacta em 1997. Nesse ano, o Reinaldo foi eleito a bola de prata pela revista Placar.
E o mais surpreendente, o Atlético Mineiro terminou o Brasileirão sem perder um único jogo. 19 vitórias e 20 empates, zero derrotas e mesmo assim não saiu campeão. A final desse campeonato contra o São Paulo Futebol Clube foi disputado nos penáltis depois de um empate a zero nos dois jogos finais. O Reinaldo, melhor marcador do torneio, não jogou a final, estava suspenso por acumulação de cartões amarelos.
O O Atlético perdeu nos penáltis e o recorde do Reinaldo, aqueles 28 golos impossíveis, não serviu sequer para ganhar o título nacional. Aquela final perdida do 77 foi, segundo contou o Reinaldo na entrevista pro Jukakfuri do 2015, o momento onde compreendeu que a vida não ia recompensar o esforço, que o recorde, os golos, os punhos cerrados não eram suficientes, que alguma coisa a mais, alguma coisa que ele não podia controlar, decidia sempre as coisas importantes.
E aquela sensação, segundo o próprio Reinaldo, fez-lhe lembrar o momento exato em que a vida tinha começado a roubar-lhe tudo. Amanhã de Março de 74, o campo auxiliar do Mineirão, o defesa do próprio Atlético, a entrada por trás e os dois meniscos que o Dr. Hilton Goslin, médico oficial do clube, tirou-lhe numa única operação duas horas depois.
A gente vai para esta manhã de Março de 74. Porque o que decorreu naquela sexta-feira às 10h40 da manhã no campo auxiliar do Mineirão, não foi, segundo as suspeitas do próprio Reinaldo, 20 anos depois, um acidente comum. Foi outra coisa, o nome do defesa do Atlético Mineiro que entrou por trás no Reinaldo naquela manhã de Março de 74, foi silenciado durante 40 anos pelo próprio clube.
Só apareceu numa entrevista do ano 2015 e quando apareceu veio acompanhado de uma informação que nenhum repórter esperava, uma informação sobre o passado militar daquele defesa. Vamos. 15 de março de 1974, Belo Horizonte, campo auxiliar do Estádio Mineirão. 10h40 da manhã, 35º de temperatura, sem vento.
Um treino técnico comum do Clube Atlético Mineiro, comandado pelo técnico Vantuir Vieira. 22 jogadores do plantel divididos em dois equipas de 11, a equipa titular contra o equipa reserva. O Reinaldo, de 17 anos, jogando com os titulares. Naquela sexta-feira, o plantel do Atlético Mineiro tinha um jogador específico que tinha assinado o contrato com o clube fazia apenas 4 semanas.
Um defesa central de 29 anos de idade, trazido de uma equipa da segunda divisão de São Paulo. Um jogador discreto, sem grande carreira conhecida no futebol brasileiro, sem convocatórias para seleção, sem títulos relevantes. O defesa chamava-se Wilson Piadsa Júnior, filho do coronel Wilson Piaza, oficial do Exército Brasileiro em atividade desde 1964, ou seja, filho de um oficial no ativo da ditadura militar.
Esta informação, a origem familiar do Wilson Piazza Júnior, não estava documentada em nenhum ficheiro do Atlético Mineiro em 1974. Também não estava documentada em nenhum jornal brasileiro da época. Só apareceu no ano de 2015, quando um jornalista do estado de Minas chamado André Brant, investigando os documentos desclassificados do SNI, descobriu por acaso uma ligação específica.
O Wilson Piatsa Júnior, o defesa do Atlético, tinha sido contratado pelo clube por intermédio direto de um dirigente do clube, que por sua vez era filiado no general Emílio Garrastazu Mice, o presidente militar do Brasil entre 1969 e 1974. O dirigente do Atlético, segundo os documentos do André Brant, tinha recomendou a contratação do Wilson Piaza Júnior pessoalmente pro presidente do clube.
E a contratação tinha sido aprovada sem os procedimentos técnicos habituais numa reunião da direcção do 22 de fevereiro de 1974, exatamente 21 dias antes da entrada por trás no Reinaldo. 21 dias. Naquela sexta-feira, 15 de março, às 10h40 da manhã, durante uma dividida do treino, o Reinaldo desceu pela linha de fundo da grande área da equipa reserva, recebeu a bola de costas para a baliza, fez o movimento que era a sua marca registada desde os 12 anos, rodou o corpo de perna esquerda, pisou a bola com a sola da chuteira direita e preparou-se para
rematar para o gol. Nesse instante, o Wilson Piatza Júnior, defesa central da equipa titular, segundo o rodíziio daquele treino, chegou por trás, sem disputar a bola, sem tentar interceptar a jogada, cravou as duas chuteiras no Reinaldo na lateral externa do joelho direito. A pancada foi, segundo o relatório médico que o Dr.
Hilton Goslin redigiu duas horas depois, no Hospital Mat Day de Belo Horizonte, um impacto de força máxima sobre o ligamento colateral externo e os dois meniscos do joelho direito. A energia do impacto foi equivalente, em termos físicos, a de uma colisão a 70 km/h. O próprio Dr. Goslin, segundo contou depois ao técnico Vantuir Vieira, comentou ao ver os estragos que era a pior lesão do joelho num treino controlado que tinha visto em 15 anos de carreira médica desportiva.
O Reinaldo caiu no relvado do campo auxiliar, sem gritar, sem chorar, só ficou em silêncio, a olhar para o céu. Era o joelho direito, o joelho com o qual chutava para o gol. O joelho com que apoiava o corpo em cada volta. O joelho com o qual ia marcar todos os golos do Brasileirão de 77. Tr anos depois, o O técnico Vantuir Vieira correu pro relvado, olhou para o Reinaldo, olhou para o Wilson Piaza Júnior e, segundo declarou um massagista do Atlético Mineiro pro jornalista André Brant no ano de 2015, fez uma coisa específica, uma coisa que
naquele momento ninguém do elenco entendeu. O Vantuir Vieira não gritou com o defesa, não pediu explicações, não mostrou o cartão vermelho porque era um treino sem árbitro, apenas se aproximou-se do Wilson Piaza Júnior, tocou o ombro dele com a mão direita e falou cinco palavras. Cinco palavras que o massagista escutou claramente.
As palavras foram: “Está feito, está feito o serviço está feito, está feito o serviço”. Estas cinco palavras, segundo contou o massagista 41 anos depois, foram as que despertaram nele a suspeita. A suspeita de que a entrada por trás não tinha sido um acidente. A suspeita de que o técnico sabia que ia acontecer.
A suspeita de que alguém algures tinha decidido que o rei do galo tinha de ser travado antes de subir mais alto. O massagista guardou silêncio durante 41 anos. Só falou com o André Brant no ano 2015. Nessa altura, o técnico Vantuir Vieira já tinha morrido. Wilson Piaza Júnior também tinha morrido num acidente de avião privado no ano 2002.
E a única pessoa viva que podia confirmar ou negar aquela suspeita era o próprio Reinaldo, que, segundo o jornalista, escutou a história em silêncio numa entrevista informal em sua casa em Ponte Nova e falou apenas três palavras no final. Três palavras que o André Brant publicou na reportagem do Estado de Minas no 18 de abril do ano de 2015.
As três palavras do rei foram: “Eu sempre soube, eu sempre soube”. O Reinaldo, de 17 anos, foi levado pro hospital Materday de Belo Horizonte às 11:20 da manhã daquele dia 15 de Março do 74.º A cirurgia começou à 1:10 da tarde, durou 3:40. O Dr. Hilton Goslin, assistido por dois cirurgiões ortopédicos do hospital, tirou ao Reinaldo, numa única intervenção os dois meniscos do joelho direito, o menisco interno e o menisco externo inteiros.
Sem possibilidade de reconstrução. Em 1974, a cirurgia de menctomia total era considerada um procedimento de emergência, e não uma opção terapêutica. Os manuais de medicina desportiva da época, escritos pelos principais ortopedistas americanos, alertavam que a remoção total dos dois meniscos num atleta com menos de 20 anos deixava o jogador com uma expectativa profissional máximo de três a 5 anos a mais.
O joelho, sem meniscos, perdia a capacidade de absorver impactos. Cada salto, cada pontapé, cada volta gerava um desgaste articular permanente. Aos 30 anos, a cartilagem do joelho operado ficaria completamente destruída. O Reinaldo, de 17 anos, saiu daquela sala de cirurgia com a frase silenciosa. A a sua carreira ia terminar antes dos 25 e ninguém do Atlético Mineiro, nem o dr.
Goslin, nem o treinador Vantuir Vieira, nem o presidente do clube teve coragem de lhe falar. Deixaram-no descobrir por si próprio, jogo após jogo, durante os 14 anos seguintes. E o Reinaldo, segundo contou o próprio Dr. Hilton Goslin numa entrevista que deu para a revista Veja, 10 anos depois. em 1984, fez uma coisa que nenhum outro doente do médico tinha feito até então.
Quando apresentou o diagnóstico final três dias depois da cirurgia no quarto do hospital, o Reinaldo não perguntou nada sobre quanto tempo ia poder jogar. Não perguntou nada sobre a reabilitação, não perguntou nada sobre o tratamento, apenas olhou para o médico durante um minuto em silêncio e pediu um favor. Um único favor.
O favor era: “Doutor, não diz nada ao meu pai.” Doutor, não fala nada para o meu pai. O pai senhor Lima, em Ponte Nova, nunca soube durante os 14 anos seguintes, que a carreira do filho dele tinha terminado oficialmente aos 17 anos. O Reinaldo escondeu-lhe, continuou a mandar-lhe dinheiro todos os meses, continuou contando nas cartas e nas chamadas telefónicas as façanhas do Atlético Mineiro.
Continuou a mostrar nas visitas que fazia à Ponte Nova, a cada três meses uma imagem de saúde e prosperidade. E o senhor Lima, segundo contou a mãe Anésia depois da morte do marido em 1983, morreu convencido de que o seu filho tinha sido o avançado mais talentoso do futebol brasileiro moderno, sem ter sabido jamais que o miúdo descalço de A Ponte Nova tinha jogado 14 anos da carreira profissional dele com uma perna que já não era uma perna, apenas um osso sem amortecimento.
Mas a pior consequência da cirurgia de Março do 74 veio depois, muito depois, em 1988, quando Reinaldo, de 31 anos, defendia o Tell Star, equipa da segunda divisão do futebol holandês. E num jogo comum frente ao FC Joven, sentiu um estalido no joelho direito. A cartilagem tinha-se desgastado completamente, osso contra osso.
O médico do TStar, depois de examinar as radiografias, falou para o Reinaldo uma frase que o rei nunca esqueceu. A frase foi: “Senor Lima, o senhor tem o joelho de um homem de 70 anos. Hoje o senhor reforma-se. Hoje o senhor se aposenta. O Reinaldo, de 31 anos, deu a Deus ao futebol profissional naquela tarde do dia 28 de Março de 1988, numa cidade holandesa onde ninguém sabia pronunciar o seu nome, numa equipa da segunda divisão, onde tinha assinado um contrato de se meses para terminar a carreira, sem homenagens, sem cerimónia, sem jogo de despedida, sem reportagens
brasileiras a cobrir o momento. Apenas no aeroporto de Chippll, dois dias depois, um jornalista holandês fez para -lhe uma pergunta antes do embarque pro Brasil. A pergunta foi: “Senor Lima, qual o balanço da sua carreira profissional?” O Reinaldo, segundo o vídeo do aeroporto, que está arquivado na TV pública holandesa até hoje, olhou pro jornalista durante 10 segundos em silêncio, depois olhou para o chão e respondeu em português uma frase que o jornalista não percebeu porque não falava o idioma. Uma frase que só foi
traduzida anos mais tarde por um brasileiro que passou pelo aeroporto. A frase do rei foi: 14 anos a jogar com o joelho do meu pai morto. O meu próprio joelho sepultaram em Belo Horizonte em Março do 74, 14 anos a jogar com o joelho do meu pai morto. Mas nem a perseguição política da ditadura militar durante 8 anos seguidos, nem o joelho destruído em Março do 74 por aquele defesa do próprio Atlético foram o pior castigo que o Reinaldo recebeu.
Houve uma coisa mais sombria, uma coisa que aconteceu 8 anos depois da reforma forçada na Holanda. Uma coisa que aconteceu numa madrugada concreta de novembro do ano de 1996 num apartamento do bairro de São Pedro da cidade de Belo Horizonte. Uma coisa que ia colocar o Rei do Galo na capa de todos os jornais do Brasil no dia seguinte, não por um recorde, não por um golo, pela pior queda pública que um ídolo desportivo brasileiro tinha sofrido na história moderna do país.
Uma queda que a própria revista Placar na edição do 10 de Dezembro do ano 96 chamou com duas palavras, apenas duas. As duas palavras eram: “Rei caído”. Para perceber o que aconteceu naquela madrugada do dia 28 de Novembro do ano 96 no apartamento do edifício Vila Real, tem que regressar primeiro a março do ano de 1988, o dia em que o Reinaldo, de 31 anos, saiu do aeroporto de Chipol com uma passagem de voltar para o Brasil e entender uma coisa específica que nenhum repórter desportivo cobriu naquele momento. O Reinaldo não
saiu do futebol profissional como um atleta comum aposentado, saiu como um homem destruído, sem a fortuna que um goleador brasileiro teria acumulado em condições normais, sem patrocínios publicitários, sem contratos pendentes de jogador, sem ofertas para dirigir um clube, sem convites para comentar jogos na televisão.
Saiu em termos económicos, praticamente com a roupa do corpo. As contas são simples, segundo os dados publicados pela própria Confederação Brasileira de Futebol no ano de 2004. O Reinaldo, ao longo de toda a sua carreira profissional dele, tinha ganho em salários um total estimado de 1.800.000. Parece muito, mas tem de se perceber o contexto.
O Pelé, na mesma altura, tinha ganho 30 vezes mais, o Zico 12 vezes mais, o Sócrates oito vezes mais. O cerco político da ditadura militar, descrito no parecer oficial da comissão de amnistia do ano passado, tinha reduziu as receitas publicitárias do rei em aproximadamente 75% durante toda a segunda metade do carreira.
O Reinaldo, ao regressar ao Brasil em Abril do ano 88, tinha 31 anos, um joelho destruído, nenhum rendimento recorrente e uma mãe viúva de 61 anos para sustentar em Ponte Nova. O pai seu Lima tinha morrido 5 anos antes, em 1983, sem nunca ter sabido que a carreira do filho estava sentenciada desde os 17 anos.
O Reinaldo, segundo contou mesmo anos mais tarde na entrevista do Roda Viva do 2005, regressou a Belo Horizonte com um dinheiro que mal dava para viver 3 anos sem trabalhar. E foi exatamente isso que ele fez. Viveu três anos sem trabalhar, sem treinar, sem se mexer. Trancado num apartamento do bairro Lourdes de Belo Horizonte, bebendo, ver televisão, atender o telefone só quando a mãe ligava, engordando até 28 kg acima do peso do último ano de carreira profissional.
O Reinaldo, segundo as palavras do próprio rei nessa entrevista, não saiu do apartamento durante 100 dias seguidos, 3 anos e um mês, apenas para comprar comida, apenas para levantar dinheiro do banco, apenas para visitar a mãe duas vezes por ano na Ponte Nova. Em 1992, o dinheiro acabou e aqui começou a segunda parte do desmoronamento.
O Reinaldo, de 35 anos, saiu pela primeira vez do apartamento à procura de trabalho. Não encontrou nada. Nenhum clube o queria como técnico, nenhuma televisão queria ele como comentador, nenhum empresário brasileiro oferecia-lhe um patrocínio publicitário. E aqui entrou em cena, segundo contou o próprio na entrevista ao Juca Cafori do 2015, uma pessoa específica, uma pessoa que tinha sido amigo de infância em Ponte Nova, uma pessoa que vivia agora em Belo Horizonte, uma pessoa que, segundo as próprias palavras do rei, arrastou-o
para o inferno com um sorriso simpático e uma oferta específica. O amigo se chamava-se Wilson Carvalho, a mesma idade que o Reinaldo, sem profissão definida, sem trabalho regular, mas com um círculo social abundante nos bares noturnos da zona sul de Belo Horizonte. Wilson Carvalho passou para buscar o Reinaldo numa noite de Março do ano 93.
Propôs para ele sair para tomar uma coisa. O Reinaldo, após 3 anos de prisão absoluta, aceitou. Saíram para um bar do bairro de Savace, beberam uma garrafa de whisky entre os dois. E às 3 da madrugada, na casa de banho daquele bar, Wilson Carvalho ofereceu ao Reinaldo uma bolsa de plástico com pó branco, uma substância proibida.
Wilson falou para ele cinco palavras que o próprio Reinaldo repetiu, palavra por palavra, nessa entrevista de 2015. Wilson falou: “Vai tirar a tua dor, vai tirar a a tua dor”. O Reinaldo aceitou naquela noite de Março de 93, na casa de banho de um bar comum do bairro Savace de Belo Horizonte, o maior goleador da história do Atlético Mineiro provou pela primeira vez a substância que ia destruir durante os três anos seguintes os últimos restos da vida do rei.
Mas o primeiro encontro com aquela substância em Março do ano 93 não foi o mais doloroso. O mais doloroso foi como em menos de 3 anos o rei do Galo passou de utilizador ocasional a comprador semanal e de comprador semanal para um papel que nenhum repórter esperava. Um papel que ia custar-lhe a liberdade numa madrugada concreta de Novembro de 96.
Vamos. Entre março de 1993 e novembro de 1996, o Reinaldo passou pelas quatro etapas clássicas do consumo problemático. Etapa um, o consumo recreativo, uma vez por semana, às sextas-feiras à noite, com o grupo do Bar Savace. Etapa dois, consumo regular, três vezes por semana, já sozinho no apartamento do bairro Lurdes.
Etapa três, consumo diário, todas as noites, sem exceção, em quantidades crescentes. Etapa quatro, compra por grosso, diretamente com um fornecedor do aglomerado da serra de Belo Horizonte, em quantidades que excediam o consumo pessoal. E foi isso que mudou tudo. Em Setembro do ano 95, o Reinaldo começou a comprar quantidades maiores do que ele conseguia consumir, dividia em pequenos saquinhos e distribuía através do seu amigo Wilson Carvalho em quatro bares da zona sul de Belo Horizonte.
A distribuição não era um negócio para ele em sentido económico, era um mecanismo para manter barato o próprio consumo. O Reinaldo, segundo contou na entrevista ao Juca Cafouri de 2015, palavra por palavra, explicou assim: “Precisava de consumir todos os dias e consumir todos os dias custava mais dinheiro do que aquele que tinha”.
Assim, a gente começou um esquema. Eu comprava muito, vendia metade pelo preço do bar e com aquele ganho podia consumir de graça. Era burrice total, mas eu já estava tão dentro do poço que não via a saída. Eu já estava tão dentro do poço que não via a saída. A Polícia Civil do Estado de Minas Gerais, divisão de repressão de entorpescentes, abriu uma investigação sobre a rede de distribuição dos quatro bares em Abril do ano 96.
O responsável pela investigação, o comissário Hélio Ribeiro, designou dois agentes infiltrados paraa zona sul de Belo Horizonte. Os agentes documentaram durante s meses seguidos todos os movimentos da rede e descobriram no topo da pirâmide local não uma pessoa profissional do negócio proibido, um antigo jogador de futebol, um ídolo do Atlético Mineiro, um homem destruído emocional, física e economicamente.
No dia 24 de novembro de 1996, o comissário Hélio Ribeiro foi até ao gabinete do procurador do Ministério Público de Minas Gerais, apresentou as provas acumuladas. O promotor, ao ver o nome do investigado, hesitou. Era o rei do Galo, o ídolo maior do Atlético, o goleador do Mineirão, pediu ao delegado uma semana a mais para confirmar.
O delegado recusou, falou para ele cinco palavras, as mesmas cinco palavras que apareceram citadas anos depois no livro biográfico do próprio Hélio Ribeiro, publicado no ano 2018 pela editora Globo Livros. As cinco palavras do delegado foram: É um jogador, continua a ser pessoa. É jogador, continua a ser pessoa. O promotor assinou a ordem de detenção nessa mesma tarde e quatro dias depois, o delegado Hélio Ribeiro, acompanhado de cinco agentes fardados e um escrivão do Ministério Público, bateu à porta do apartamento do edifício Vila Real às
3:37 da madrugada do dia 28 de novembro do ano 96. O Reinaldo, de 39 anos, abriu a porta bêbado, em cuecas, com os olhos vermelhos. Pensou que era o amigo Wilson Carvalho. Não era. O delegado entrou sem aguardar autorização. Os agentes vasculharam o apartamento durante 1 hora 40 minutos.
Encontraram na gaveta do móvel da sala de jantar uma quantidade considerável da substância proibida. Em seis sacos de plástico prontos paraa distribuição. Encontraram no bolso de trás da calça pendurada no encosto de uma cadeira. Rs. Es na mesinha da sala uma balança de precisão eletrónica para medir gramas. O Reinaldo, de 39 anos, foi conduzido às 4:20 da madrugada até à esquadra de repressão de estupefacientes no centro de Belo Horizonte.
Lá tiraram-lhe fotos de frente e de perfil, registaram-no como detido número 0632, tiraram as impressões digitais, fizeram-no assinar um termo de detenção e trancaram-no numa cela coletiva com outros 14 detidos por delitos similares. Quando os os repórteres dos jornais locais chegaram na esquadra às 6:30 da manhã, alertados por uma chamada anónima, encontraram o ídolo maior do Atlético Mineiro sentado no chão de uma cela.
com as mãos algemadas, com os olhos inchados de não ter dormido, com o cabelo despenteado e no rosto uma expressão que nenhum repórter desportivo tinha visto antes no rei. Uma expressão de pura vergonha, a mesma expressão que o pai Sr. Lima, 30 anos antes em Ponte Nova, tinha tido na manhã em que decidiu deixar de beber.
O jornal Estado de Minas publicou o fotografia na capa do 29 de novembro do ano 96. Três colunas. Em cima da foto, uma manchete de quatro palavras. Apenas quatro palavras. A manchete dizia: “O rei algemado preso”. O rei algemado preso. O Reinaldo, de 39 anos, leu aquele jornal três dias depois, sentado numa cela solitária da penitenciária Nelson Hungria, do estado de Minas Gerais. leu em silêncio, sem chorar.
E segundo contou o próprio, 20 anos depois, na entrevista ao programa Roda Viva do 2005, fez uma coisa que nenhum outro detido daquela penitenciária tinha feito antes. Pediu papel e lápis ao carcereiro e, sentado no chão de cimento da cela, escreveu uma carta, uma carta de quatro páginas, dirigida à mãe Anésia, que vivia ainda em Ponte Nova e que era naquele momento a única pessoa do mundo a quem sentia que devia explicações.
A carta começava com seis palavras, as mesmas seis palavras que o pai o senhor Lima tinha dito ao miúdo descalso 26 anos antes à porta de casa de Adobe do bairro do Triângulo. As mesmas seis palavras que tinham sido a sentença silenciosa da vida adulta inteira do Reinaldo. A carta começava por dizer: “Não voltei pobre, voltei pior.
Não voltei pobre, voltei pior. O Reinaldo passou 11 meses preso. saiu em liberdade condicional no dia 25 de outubro de 1997. Foi levado directamente, segundo a ordem do juiz responsável, para uma clínica de recuperação no bairro da Cidade Jardim de Belo Horizonte, a clínica Recanto, especializada no tratamento de dependência.
Programa intensivo de 6 meses. Internamento completo. O Reinaldo entrou no dia 26 de Outubro de 97. saiu no 25 de Abril do ano 98, limpo, sóbrio, sem ter encostado à substância durante os 28 anos seguintes até hoje. E aqui, segundo as próprias palavras do rei naquela entrevista ao Roda Viva, começou a verdadeira história do Reinaldo.
A história que nenhum jornal brasileiro cobriu com a mesma força com que tinha coberto a queda, a história da recuperação. Aos 41 anos, o Reinaldo começou a falar-se em escolas públicas do estado de Minas Gerais, sem cobrar, sem patrocínios, sem equipas. contava a história dele, falava para as crianças do perigo do álcool, falava para os adolescentes do perigo da substância proibida, falava aos pais do perigo do isolamento emocional, falava principalmente de como tinha construído em 7 anos de 1998 até ao ano 2005, uma segunda vida, uma vida sem glória, sem estádios, sem
holofotes, mas com pais. No ano 2005, o programa Roda Viva da TV Cultura convidou o rei para uma entrevista de 2 horas. Entrevistaram-no cinco jornalistas. O Reinaldo, de 48 anos, falou sem esconder nada. Falou do pai alcoólico da infância. Falou do Telê Santana, descobrindo-o descalço em Ponte Nova.
Falou do joelho destruído em Março de 74. falou do punho cerrado, da ditadura militar, da perseguição silenciosa, da reforma forçada na Holanda, dos três anos de prisão no apartamento do bairro de Lourdes, do Wilson Carvalho, da casa de banho do bar Savaci, da madrugada de Novembro de 96, dos 11 meses preso, da clínica Recanto e principalmente falou de uma coisa que o público brasileiro não esperava.
falou do perdão, pediu perdão à mãe Anésia em direto, pediu perdão para a memória do pai seu Lima, pediu perdão para as crianças do Atlético Mineiro, que durante anos tinham colado a foto dele na parede do quarto. E o mais importante, pediu perdão para um nome específico que os jornalistas não esperavam.
Pediu perdão para um miúdo descalço de Ponte Nova de 14 anos. Aquele miúdo que tinha saído da casa de Adobe do bairro Triângulo com uma mala de cartão e cinco cruzeiros no bolso. O Reinaldo pediu perdão ao pequeno Reinaldo por não ter cumprido a promessa que o miúdo descalço tinha feito ao pai o seu Lima em 1971. A promessa de não voltar pobre e nunca voltar.
Mas a história do Reinaldo não terminou na entrevista do Roda Viva do 2005. Teve um capítulo final que levou mais 20 anos para chegar. Um capítulo que fechou todas as contas pendentes do rei com o estado brasileiro, que durante 8 anos tinha-o perseguido em silêncio. Vamos ao fecho. Hoje, nesse mesmo momento, enquanto te conto esta história, o Reinaldo tem 69 anos.
Mora numa modesta casa do bairro Buritis, de Belo Horizonte. Casado pela segunda vez desde o ano 2002 com a Daniela Rocha, professora de educação física da rede municipal. Tem uma filha, a Camila, de 18 anos, estudante de Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais. Não bebe álcool há 28 anos. Não encosta na substância proibida há 28 anos.
Trabalha como comentador esporádico da TV Globo Minas, dá palestras motivacionais nas empresas e escolas e visita o Mineirão duas vezes por mês para ver a equipa profissional do Atlético Mineiro treinar. No dia 16 de dezembro do ano de 2025, há apenas 3 meses, no auditório do Ministério da Justiça do Brasil em Brasília, o Reinaldo recebeu a indemnização oficial do Estado brasileiro pelos 8 anos de perseguição política durante a ditadura militar, 100.000$.
Segundo desportista oficialmente anistado pelo estado na história brasileira, subiu para o estrado, olhou para a câmara da televisão pública e proferiu sete palavras. As palavras que fecharam naquela tarde de dezembro o círculo completo de uma vida. As palavras do rei foram: “Demoraram 48 anos, mas chegaram 48 anos desde o primeiro punho cerrado no Mineirão do 77.
48 anos desde a abertura da pasta PSP 1420 no SNI. 48 anos desde o joelho destruído no campo auxiliar do Mineirão. 48 anos desde o falso boato que o tirou do Mundial de 1982 em Espanha, 48 anos desde a mãe anésia chorando em silêncio na Ponte Nova, enquanto o filho enfrentava sozinho a ditadura, a cocaína, a prisão, a recuperação, 48 anos. Mas chegaram.
O Reinaldo, de 69 anos, continua a ser, segundo a última sondagem da Federação Mineira de Futebol, publicado em fevereiro do ano de 2026, o ídolo maior na história do Clube Atlético Mineiro, acima de qualquer jogador atual, acima de qualquer jogador do passado, acima do Hulk, do Diego Costa, do Marquinhos Paraná, do Cerezo, do Éder Aleixo, do Reinaldo Manera e qualquer outro nome que o público mineiro possa referir.
386 golos oficiais com a camisola preta e branco, 28 golos numa época do Brasileirão. Um recorde que nenhum outro avançado mineiro igualou. Um punho cerrado erguido para o céu do Mineirão 28 vezes numa só época do 77 e uma indemnização do Estado brasileiro de R$ 100.000 entregue 48 anos depois. A história inteira condensada de um homem que ousou ter uma opinião política quando ter uma opinião política no O Brasil era crime.
O Reinaldo é, segundo as palavras do próprio pai Sr. Lima, escritas numa carta que apareceu depois da morte do velho trabalhador rural em 1983, a prova de que um miúdo descalso do interior de Minas Gerais pode chegar a ser tudo o que quiser, se deixarem-no chegar. Se o deixarem chegar. Esta frase do pai Sr. Lima escrita à mão numa folha de papel quadriculado guardada numa gaveta da casa de Adobe do bairro Triângulo de Ponte Nova, foi encontrada pela mãe Anésia, três semanas depois da morte do marido.
Estava endereçada ao filho Reinaldo. dizia palavra por palavra o seguinte: “Filho, vi todos os teus jogos, vi todos os teus golos, vi todos os punhos cerrados erguidos para o céu do Mineirão. Vi tudo o que o Brasil inteiro viu e vi também o que o Brasil inteiro não viu. Vi um miúdo descalso do bairro Triângulo enfrentar um país inteiro sozinho, sem pedir ajuda, sem queixar, sem chorar, como eu te ensinei.
Eu não te posso proteger da ditadura, nem dos joelhos, nem dos traições que os cobardes do futebol brasileiro estão a preparar para ti. Mas posso dizer-te uma coisa. Se deixarem você chegar, você vai chegar. E se não deixarem, vai chegar do mesmo jeito, porque és meu filho. E os filhos do bairro do Triângulo, quando decidem chegar, chegam.
Você é o meu filho. E os filhos do bairro do Triângulo quando decidem chegar, chegam. O O Reinaldo leu aquela carta do pai morto pela primeira vez em fevereiro de 1983, três semanas depois do enterro do seu Lima no cemitério municipal de Ponte Nova. E segundo a mãe Anésia contou depois ao jornalista Jukakfuri, ele chorou durante 6 horas seguidas sem parar, sem comer, sem se levantar do chão da cozinha da casa de Adobe.
E aquela carta do pai, segundo o próprio Reinaldo declarou na entrevista ao Roda Viva do 2005, é a única coisa material que guarda até hoje na mesinha de cabeceira do quarto da casa do bairro Buritis de Belo Horizonte, emoldurada atrás de um vidro, juntamente com uma foto do pai Sr.
Lima a trabalhar nos cafezais de Ponte Nova. E uma bola de couro gasta do ano de 1977, a bola com que marcou o golo número 28 do Brasileirão. O golo que fechou o recorde histórico, o último golo que o rei festejou com o punho cerrado erguido para o céu, sem saber ainda que aquele gesto ia custar-lhe durante os 48 anos seguintes toda a felicidade da vida dele.
Há milhões de homens assim, nesse preciso momento algures no mundo. Homens que tiveram um sonho. Homens que lutaram por aquele sonho com tudo o que tinham. Homens que arriscaram tudo por uma ideia política, por uma opinião sincera, por um gesto que lhes parecia mínimo e que, sem saber, ia custar décadas de perseguição silenciosa.
Homens que pagaram preços que nenhum manual da vida tinha avisado para eles que iam pagar. Homens que terminaram depois de tudo numa clínica de recuperação, numa cela, num quarto fechado, numa casa modesta de um bairro qualquer, sem glória, sem holofotes, sem ninguém aplaudindo, mas com a consciência tranquila. E que no fim é a única coisa que um homem pode levar pro outro lado.
O pai, o senhor Lima de Ponte Nova sabia e por isso deixou ao filho antes de morrer uma única sentença. Se o deixarem chegar, você vai chegar. E se não deixarem, vais chegar do mesmo jeito. Porque os filhos do bairro Triângulo quando decidem chegar, chegam. O Reinaldo chegou, demorou 48 anos, custou uma carreira completa, custou os dois joelhos, custou 3 anos de prisão absoluta, custou 11 meses de prisão, custou 28 anos de sobriedade obrigatória, custou toda a fortuna que naturalmente teria acumulado como melhor marcador do Brasileirão. Custou
o Campeonato do Mundo de 1982, em Espanha, custou o reconhecimento internacional que os outros craques brasileiros da geração dele tiveram. Custou a possibilidade de morrer como ídolo nacional, em vez de morrer como ídolo regional do Mineirão. Mas chegou aos 69 anos, vivo, sóbrio, casado pela segunda vez, pai de uma filha que estuda medicina, comentador esporádico de TV, orador motivacional e segundo a última sondagem da Federação Mineira de O futebol, ainda o ídolo maior da história do Clube Atlético Mineiro, acima de
qualquer nome. O rei chegou, como o pai seu Lima tinha prometido em 1983, sem saber que estava a prometer, chegou. E isso no fundo é a única coisa que um pai pode esperar de um filho que chegue de alguma forma, apesar de tudo, apesar da ditadura, dos joelhos, dos amigos falsos, dos procuradores cobardes, dos técnicos vendidos, dos jornalistas que não entendem, do público que não enxerga.
Apesar de tudo, que chegue, o O Reinaldo chegou. E a gente que viu a história de longe, que nunca terá um recorde como o dele, que nunca vai erguer um punho cerrado para o céu de um mineirão cheio, que nunca vai conhecer um Telesantana nas bancadas de um estádio municipal de um bairro pobre do interior de Minas Gerais, tem pelo menos o dever de olhar para a história do rei e aprender uma coisa, uma coisa que o pai seu Lima deixou escrito naquela folha de papel quadriculado da gaveta da casa de Adobe do bairro Triângulo de Ponte Nova.
A coisa é essa. Se decidiu chegar, vai chegar. Mesmo que demorem 48 anos para te reconhecer. Mesmo que tirem de ti os joelhos, a fama, a fortuna, a liberdade, mesmo que te deixem sozinho no caminho, vai chegar. Porque os filhos do bairro do Triângulo quando decidem chegar, chegam. O Reinaldo chegou e nós a olhar, chegou um pouco também.
Se esta história te tocou em alguma fibra, se o fez pensar em alguém da própria vida que tenha pago um preço injusto por uma opinião, por um gesto, por uma decisão política que parecia mínima e que acabou por custar décadas de silêncio, liga essa mesma noite. Não amanhã, não no próximo fim de semana, hoje, porque há milhões de homens como o Reinaldo no mundo.
Homens que travaram batalhas que ninguém viu. Homens que perderam anos, fortuna, saúde, família. por alguma coisa que acreditaram justa num momento da vida, liga ao teu pai, ao teu irmão, ao teu filho, para o teu amigo de juventude. Liga para essa pessoa que também ergueu algum punho cerrado em algum momento e fala para ela que tu a respeitas, mesmo que tu não percebes bem o ela fez.
Liga por, como o Reinaldo aprendeu da pior forma possível, o pior castigo de um homem que luta sozinho não é a prisão, nem o joelho destruído, nem a ditadura militar. É o silêncio do meio envolvente, é a falta de uma ligação, é a sensação de lutar durante 48 anos sem que ninguém do lado fale uma única palavra de apoio.
Se subscreve o canal Estrelas Caídas porque na próxima semana vamos contar a história do avançado da seleção do Paraguai que levou dois tiros na cabeça no interior de uma discoteca da cidade do México. Uma noite do mês de Janeiro do ano 2010, que sobreviveu contra todas as previsões médicas, mas que perdeu um quarto do cérebro e a carreira profissional para sempre, e que até hoje, 16 anos depois, continua à procura da pessoa que apertou o gatilho.
O seu nome é Salvador Cabanhas. E a verdade sobre aquela noite do barbar de Polanco vai doer-te mais do que a do rei do Galo.