Johan Cruyff Chamou Pelé de “Supervalorizado” Ao Vivo — A Resposta Dele Calou Toda a Europa

O técnico holandês de pé no centro da sala de imprensa de Amsterdam não sabia o que acabava de fazer. Os 83 jornalistas presentes naquela sala também não sabiam. Só dois homens no mundo entendiam o que significava chamar Pelé de superestimado numa transmissão ao vivo que estava sendo retransmitida para o Brasil e nenhum deles era holandês. Era novembro de 1973.

A Copa do Mundo da Alemanha estava a 7 meses de distância e o homem que acabava de falar era o jogador mais aclamado da Europa, o gênio de Amsterdam, que havia inventado uma forma nova de jogar futebol e que naquele momento, diante de câmeras e microfones, havia dito em voz clara e sem hesitação, que Pelé era super estimado.

A declaração saiu em todas as agências de notícias da Europa em menos de 40 minutos. No Brasil, chegou na manhã seguinte. O Apel leu o jornal no café da manhã, no hotel onde o Santos estava concentrado para uma excursão europeia que havia começado três dias antes em Lisboa. Leu uma vez, dobrou o jornal, colocou o café de volta na xícara sem beber e não disse nada.

 Não foi uma provocação comum. Não foi uma crítica técnica entre pares. Não foi uma opinião que nasce da rivalidade saudável entre dois grandes do futebol mundial. Foi algo diferente. Foi a declaração pública de um homem que sabia exatamente o que estava fazendo num momento exatamente calculado, há sete meses de uma Copa do Mundo, onde os dois países iam se encontrar num campo de futebol.

Nada na trajetória de Johan CF fazia pensar que terminaria assim naquela tarde de novembro. Tinha o Ajax, tinha a bola de ouro, tinha Amsterdam aos seus pés, mas e tinha a certeza de que o futebol europeu havia finalmente chegado a um lugar onde não precisava mais olhar para o Brasil com admiração. Estava errado, mas isso ele só ia entender meses depois.

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 A partir daqui, a história avança devagar. Tudo o que aconteceu entre aquela sala de imprensa em Amsterdam e o que veio depois precisa ser contado sem pressa. Porque há perguntas que só essa história responde. Quantas vezes pode um homem como Pelé ouvir que o que ele faz não é suficiente antes de deixar o campo responder por si mesmo? Em que momento uma provocação pública deixa de ser uma opinião e se torna o erro mais caro da carreira de quem a fez? E o que exatamente aconteceu nos bastidores nos dias que se seguiram

aquela declaração que nunca saiu em nenhum jornal europeu, mas que as pessoas que estavam lá dentro dos Santos carregaram por décadas? Estamos em novembro de 1973. Não há redes sociais, não há replay imediato, não há cobertura em tempo real. A imprensa europeia controlava a narrativa.

 O que não saía no jornal simplesmente não tinha acontecido. E foi exatamente nesse silêncio que a resposta de Pelé começou a ser construída, não com palavras, mas com a paciência específica de um homem que aprendeu desde criança que o campo sempre fala mais alto do que qualquer sala de imprensa. Era uma coletiva de imprensa comum, ó.

 O tipo que acontecia toda semana naquela época de pré-copa com jornalistas de 10 países diferentes tentando arrancar declarações que virassem manchete. A sala ficava no segundo andar de um hotel próximo ao centro de Amsterdam, num salão com carpete bordô e iluminação de lustre que deixava as pontas dos rostos na meia sombra. As cadeiras de madeira enfileiradas tinham aquele barulho específico de auditório velho quando alguém se mexia e o cheiro era de cigarro e café de máquina que ninguém estava bebendo de verdade. Os microfones estavam

posicionados sobre uma mesa longa com pano verde, o tipo de arranjo improvisado que as equipes de assessoria montavam em meia hora quando o local não tinha estrutura própria de imprensa. Do lado de fora, Amsterdam estava cinza. era um novembro de neblina baixa que ficava pendurada sobre os canais desde o começo da semana, do tipo que escurece a cidade antes das 4 da tarde e faz os bondes parecerem fantasmas quando passam do outro lado da água.

 Dentro do salão, a temperatura era alta demais para o número de pessoas e alguns jornalistas haviam tirado o casaco já nos primeiros 10 minutos de espera. CF havia chegado com 10 minutos de atraso. Entrou sem olhar para os fotógrafos, sentou sem pedir desculpas e respondeu às primeiras quatro perguntas com a eficiência de alguém que já havia dado aquela entrevista 100 vezes antes.

falava num tom que não era arrogância simples, era algo mais específico. Era a segurança de um homem que havia decidido em algum momento dos últimos dois anos a que o futebol europeu tinha chegado a um nível que não precisava mais ser comparado a nada que viesse de fora da Europa.

 Não havia hostilidade naquele tom, havia convicção. E a convicção era mais difícil de rebater do que a hostilidade, porque não precisava de provocação para se sustentar. A quinta pergunta foi de um jornalista alemão chamado Klaus Heineman, correspondente de um jornal de Hamburgo que cobria futebol europeu há 12 anos. Heineman era um homem magro de 50 e poucos anos, com óculos de armação de tartaruga e o hábito específico de jornalistas veteranos de fazer perguntas longas que escondiam a verdadeira questão no meio, entre duas observações aparentemente neutras.

A pergunta dele era sobre a comparação que a imprensa brasileira insistia em fazer entre Cruf e Pelé. A especificamente sobre se Cruff considerava que essa comparação tinha alguma base técnica real, ou se era produto do que ele chamou de romantismo geográfico da cobertura esportiva sul-americana. Era uma pergunta do tipo que os assessores normalmente tentavam cortar antes que chegasse ao microfone, interceptando com um sorriso e um redirecionamento elegante para algo mais seguro.

 Mas naquele dia não havia assessor posicionado para isso. O assessor de imprensa do Ajax estava do lado de fora da sala com um problema de credencial de dois jornalistas espanhóis que havia chegado errada. E a janela de poucos segundos entre a pergunta de Heineman e a resposta de Cruff passou sem que ninguém intervesse. Cru ficou em silêncio por dois ou três segundos.

 Não o silêncio de quem está pensando, o silêncio de quem já sabe o que vai dizer e está escolhendo o momento de dizer. Era um silêncio específico que as pessoas que o conheciam identificavam como o precursor das suas declarações mais diretas. o tipo de pausa que criava atenção antes de qualquer palavra ser dita. Então disse que Pelé era um produto do romantismo sul-americano, que o Brasil precisava de um herói maior do que a vida real e havia encontrado esse herói num jogador que era muito bom, mas que era super estimado pela distância e pela

falta de base de comparação real, que o futebol europeu havia evoluído para um nível de sofisticação tática que tornava o talento individual, por mais impressionante que fosse, secundário diante da organização coletiva. e que quando a Copa do Mundo de 1974 chegasse, a Holanda ia demonstrar isso com resultados, não com declarações.

 A disse tudo isso num tom que não era de raiva nem de provocação óbvia. Era de alguém explicando uma verdade que considera evidente para pessoas que ainda não chegaram lá. Havia naquele tom uma qualidade de paciência pedagógica, que era, em alguns aspectos, mais irritante do que uma provocação aberta, porque não deixava espaço para o tipo de reação direta que uma provocação permite.

Depois que Cruff terminou, Klaus Heineman ficou parado com a caneta sobre o bloco de notas por um instante, como se estivesse verificando mentalmente se havia entendido o que havia ouvido. Depois começou a escrever e dois ou três outros jornalistas começaram a escrever ao mesmo tempo. Os fotógrafos dispararam uma sequência de fleches que iluminou o salão de bordô por alguns segundos.

E o assessor do Ajax, e que havia resolvido o problema das credenciais e entrado na sala nos últimos 30 segundos da resposta de Cruif, ficou de pé, perto da parede, com a expressão de alguém que chegou tarde o suficiente para entender que não havia nada mais a fazer além de esperar pelo que viria depois. A coletiva continuiu por mais 20 minutos, mais quatro ou cinco perguntas sobre o Ajax, sobre a preparação para a Copa, sobre os adversários potenciais na fase de grupos.

 Cruff respondeu com a mesma eficiência das perguntas anteriores, mas a atenção na sala havia mudado de lugar. Os jornalistas que estavam escrevendo nos blocos de notas não estavam mais escrevendo sobre o Ajax ou sobre a Copa, estavam escrevendo sobre três palavras em português. A declaração saiu nas agências em 40 minutos.

 Primeiro em italiano, depois em francês, depois em inglês. O anacá tradução perdia um pouco da nuance e ganhava um pouco mais de dureza, que é o que as traduções rápidas costumam fazer com declarações polêmicas. A versão italiana era a mais próxima do que havia sido dito. A versão inglesa era a mais agressiva.

 A versão francesa ficou no meio. Quando chegou às redações brasileiras na manhã seguinte, a frase já havia passado por quatro idiomas e tinha a clareza comprimida de algo que perdeu todas as suas bordas e ficou só com o núcleo. Pelé é super estimado. Três palavras. Em todos os jornais do país. Pelé leu a declaração de Cruif numa manhã de novembro em Lisboa, em um hotel de três andares perto da Baixa, onde o Santos estava concentrado para o segundo jogo da excursão europeia.

O hotel se chamava Pensão Lusitana, a nome que apareceu em uma placa de azulejo na entrada e que era o tipo de nome que um hotel de três andares em Lisboa com elevador de grade tinha por tradição, sem precisar de nenhuma outra justificativa. tinha paredes de azulejos no corredor do térrio, um elevador de grade que subia devagar demais e fazia um barulho metálico constante entre os andares e um café da manhã servido em um salão do téro com toalhas de mesa xadrez vermelhas e branco e cadeiras de madeira que rangiam

quando alguém se sentava com força. O jornal que Pelé abriu naquela manhã era um vespertino português que havia chegou na edição da manhã com a notícia da agência italiana já consolidada na primeira página de esportes. O jornal era português, mas a agência era italiana e a frase tinha sido traduzida com precisão cirúrgica, ao que não era sempre o caso com o jornalismo europeu da época quando se tratava de conteúdo brasileiro.

Pelé estava sentado sozinho em uma mesa perto da janela. havia pedido café e pão com manteiga, que era o café da manhã de excursão que a maioria dos jogadores do Santos havia adotado desde os tempos das primeiras viagens à Europa, nos anos 60, quando ninguém sabia muito bem o que pedir e o que era seguro comer antes de treinar em solo estrangeiro.

Ao longo de uma década de excursões, o pão com manteiga havia se tornado o consenso implícito da delegação, o denominador comum que funcionou em Lisboa, em Madri, em Paris e em qualquer cidade europeia que tivesse um hotel disposto a atender o grupo. Tinha 32 anos naquele novembro. ele estava com uma leve dor no joelho direito que vinha dos dois jogos da semana anterior em Portugal, especificamente de um lance do segundo jogo onde ele havia entrado em choque com um zagueiro e o impacto havia ficado mais tempo do que deveria. havia dormido menos

do que deveria, porque o quarto ficava de frente para uma rua com barulho de bondes até meia-noite. E bondes de Lisboa fizeram aquele rangido específico nas trilhas que não era possível ignorar completamente, mesmo com travesseiro sobre a cabeça. Abriu o jornal com o cuidado habitual de quem sabe que jornais europeus às vezes têm manchetes que é melhor não ver antes de um treino.

leia a manchete de esportes, leia o primeiro parágrafo, leu a declaração de Cruff completa na versão que a agência italiana havia transmitido, a que incluiu o contexto da pergunta de Klaus Heineman e o desenvolvimento completo de resposta, não apenas a frase destilada que havia circulado nas outras agências, dobrou o jornal, colocou o café de volta na xícara sem beber e ficou olhando pela janela para a rua de Paralelepípedos de Lisboa, com o sol da manhã batendo de lado nas fachadas dos prédios da Baixa, com essa

qualidade específica de luz matinal que Lisboa tem no outono, diferente da luz de São Paulo e diferente da luz de Amsterdã, uma luz mais branca e mais direta, que cai sobre as fachadas de azulejo e as faz brilhar de um jeito que nenhuma outra cidade do mundo produz. você ficou olhando por quanto tempo? Ninguém cronometrado, mas o café ainda estava quente quando ele colocou de volta em xícara, o que limitou o tempo há alguns minutos. Não mais que isso.

 Tempo suficiente para que a janela e a rua de Paralelepípedos e a luz da manhã de Lisboa recebessem o peso de uma informações que você precisava de algum lugar onde pousar antes de ser processada. Ele não disse nada, não chamou ninguém. Ele não fez nenhum gesto que uma pessoa sentada do outro lado da sala pudesse interpretar como reação.

Naquela manhã, no hotel de Lisboa, dois homens observaram Pelé, dobrar o jornal e colocar o café na mesa sem beber. Um era Coutinho, que o conhecia desde os 17 anos e que sabia o que aquele silêncio específico significava. O outro era Pep, que tinha 42 anos naquele novembro e que havia visto Pelé receber notícias ruins de maneiras diferentes ao longo de 15 anos de convivência, e que havia desenvolvido ao longo desses anos a capacidade de ler no corpo de Pelé coisas que Pelé não dizia em voz alta.

Coutinho estava em uma mesa próxima com dois jogadores mais novos, Pedro Augusto e um lateral chamado Geraldo, que havia chegado ao Santos no começo daquela temporada e que ainda estava na fase de aprendendo a se comportar em excursões europeias, que era diferente de aprender a jogar futebol, porque envolvia uma série de regras não escritas sobre o que se faz e o que não se faz em solo estrangeiro, enquanto se representa o sant Coutinho viu Pelé abrir o jornal, viu a leitura, viu o jornal ser dobrado com aquele movimento específico de quem não

dobra por hábito, mas dobra para encerrar o assunto do jornal antes de estar pronto para lidar com o que estava escrito nele. Não disse nada para os jogadores ao lado. pegou a xícara de café, terminou de beber e ficou olhando para a toalha xadrez com a expressão de alguém que acabou de entender que o dia vai ser diferente do que estava planejado.

Os dois jogadores mais novos não entenderam nada. eles estavam discutindo alguma coisa sobre o jogo do dia anterior, um detalhe de posicionamento que havia saído errado no segundo tempo. E a conversa deles continuou no volume normal de dois jovens que não tinham nada urgente para processar naquela manhã.

 Coutinho conhecia aquele silêncio de Pelé. havia visto versões dele em 1966, depois de Gison Park, quando Pelé voltou mancando com a camisa rasgada e ficou dentro do vestiário por 40 minutos, sem que ninguém soubesse ao certo o que estava acontecendo lá dentro. Havia visto uma versão menor depois de jogos ruins no Campeonato Paulista.

 Quando alguma coisa havia saído errada e Pelé precisava de tempo antes de conseguir falar sobre isso, o tipo de silêncio que se instalava logo depois do apito final e que durava até que o chuveiro do vestiário e o calor da água e o cheiro de sabão criassem uma distância física suficiente do que havia acontecido no campo.

 O silêncio de Lisboa não era igual ao de 1966. Era mais frio, mais controlado, e isso o tornava mais difícil de ler, porque o silêncio de Goodson Park tinha calor dentro, tinha raiva e dor e humilhação misturadas. E o silêncio de Lisboa tinha uma qualidade diferente que Coutinho não poderia nomear com precisão, mas isso reconhecido como algo que ele havia visto poucas vezes.

 Pep observou de uma distância maior, ó, encostado no balcão do café, onde havia pedido uma segunda xícara de café, expresso porque o primeiro havia chegado tão pequeno que mal havia durado dois goles. tinha a leitura de corpo de quem passa 15 anos ao lado de alguém e aprende a interpretar postura, velocidade de movimento e direção do olhar, como uma linguagem própria, independente de qualquer palavra.

Pep era o tipo de jogador que havia aprendido essa linguagem, não por interesse psicológico particular, mas pela necessidade funcional de quem joga ao lado de alguém em campo e precisa saber o que esse alguém vai fazer antes que ele faça. Em campo, isso se traduz em antecipação de jogada. Fora do campo se traduz em saber quando falar e quando não falar.

 O que você leu naquela manhã foi simples. Pelé havia decidido alguma coisa, não sabia o quê, mas havia decidido na E a decisão estava no corpo antes de estar nas palavras, naquela qualidade específica de imobilidade que se instala quando alguém encerrou internamente um processo de deliberação e agora está apenas aguardando o momento certo para o próximo movimento.

 Nenhum dos dois foi até a mesa onde Pelé estava sentado. Mais tarde, no ônibus que levava a delegação para o estádio onde ia treinar, Coutinho sentou ao lado de Pelé e ficou em silêncio por alguns minutos. O ônibus cruzava o tiado e as ruas estreitas de Lisboa passavam pela janela com aquela qualidade específica da cidade que envelheceu bem e não tem pressa de mudar.

 com as calçadas de pedra portuguesa e as fachadas de azulejos e as farmácias com a cruz verde e os bares com o café expresso e o pastel de nata na vitrine. Uma era uma cidade que no outono ficava com uma luz específica que os fotógrafos europeus vinham buscar desde os anos 50 e isso era difícil de descrever para quem não a havia visto pessoalmente, mas que tinha a qualidade de fazer tudo parecer ligeiramente mais real do que o normal.

Então Coutinho disse, sem olhar diretamente para Pelé, com a voz no mesmo volume de conversa normal, como se comentasse qualquer coisa. Você viu o jornal? Pelé disse que tinha visto. Coutinho disse: “E daí?” Pelé disse: “Então a gente treina”. Não foi mais do que isso. O ônibus continuou pela rua estreita.

 Os dois olharam pela janela e o assunto não voltou naquela manhã, nem no treino, nem no almoço, nem no resto do dia. Coutinho não mencionou de novo. Pep não mencionou nenhuma vez. Os jogadores mais novos não sabiam o suficiente sobre a declaração de Cruff para entender que havia algo para mencionar. Idécio Brandão, o técnico, que havia lido o mesmo jornal no café da manhã antes que qualquer jogador descesse para comer, havia decidido no elevador de grade entre o segundo e o Térrio, que não iria levantar o assunto, a menos que Pelé levantasse primeiro. Brandão tinha

55 anos e havia aprendido ao longo de uma longa carreira como treinador, que há momentos em que um técnico precisa falar com o jogador e há momentos em que o técnico precisa deixar o jogador sozinho com o que o jogador sabe melhor do que qualquer técnico. conhecia aqueles momentos, não por teoria, mas por uma série de erros acumulados ao longo de 20 anos de trabalho, que haviam lhe ensinou a diferença entre intervir e intrometer.

O Santos de novembro de 1973 não era o Santos de 1963. Qualquer torcedor que tivesse visto os dois times sabiam disso sem precisar de estatística nem de análise técnica. Era uma questão de olhar para o campo e sentir a diferença em como o time se movia coletivamente, na densidade de dos entendimentos que existia entre jogadores que haviam construído uma linguagem comum ao longo de anos.

 Na qualidade específica de um grupo que havia passado pelo fogo dos maiores jogos do futebol mundial e havia saído do outro lado ainda junto, os títulos intercontinentais tinham ficado para trás. Guardados em uma época de futebol que já estava virando história antes de terminar de acontecer, há em uma época em que o Santos de Pelé e Coutinho, e Pep e Gilmar e Lima havia percorrido a Europa e a América do Sul com a naturalidade de quem vai ao trabalho todos os dias e sabe exatamente o que vai encontrar quando você chega lá. Aquele Santos havia

ganhou a Copa Libertadores em 1962 e 1963. Havia vencido o Campeonato Brasileiro seis vezes seguidas, entre 1961 e 1965. Ele havia vencido a Copa Intercontinental em 1962 e 1963 contra Benfica e Milan. havia derrotado times europeus em amistosos com placares que os jornais europeus preferiam não transformar em manchete.

Em novembro de 1973, esse Santos era memória. Não havia nada de pejorativo nessa observação. Era simplesmente o tempo fazendo o que o tempo faz com equipes esportivas. A que é transformá-las em versões diferentes de si mesmas, com o ritmo inevitável das gerações que chegam e das gerações que saem. A equipe estava viajando com um elenco diferente, mais jovem em alguns posições, mais cansado em outras.

Havia qualidade individual em vários jogadores do grupo. Havia comprometimento e havia disciplina, mas havia também aquela ausência que não aparece nas fichas técnicas e que só quem estava no campo sentia. a ausência da certeza coletiva que se constrói ao longo de anos de títulos consecutivos e que não se substitui com contratações nem com treinamento.

 Pelé sabia disso, Brandão sabia disso, Mendes sabia disso. A excursão européia havia sido organizada pelo Santos com o apoio da CBD, que naquele período tinha interesse em manter a visibilidade do futebol brasileiro na Europa durante o ano de Copa. A lógica era comercial, mas não era apenas comercial, porque havia também naquele interesse da CBD uma dimensão de imagem nacional que as federações esportivas de países que produzem futebol de alta qualidade sempre cultivam com a atenção que os governos cultivam a diplomacia.

Santos era a vitrine mais visível do futebol brasileiro naquele momento e Pelé era a vitrine mais visível dos Santos. Pelé havia concordado com a excursão depois de uma conversa com a diretoria do Santos, que havia durado 40 minutos em um escritório do clube em Santos em uma tarde de setembro, quando o calor da cidade de litoral entrava pela janela com aquela umidade específica de setembro no litoral paulista, que é diferente do calor de julho e diferente do calor de dezembro.

 Um calor que gruda a camisa nas costas antes mesmo de você sair de casa. A, o único ponto que ele havia colocado como condição era que a delegação viajasse com o preparador físico que ele escolheu, um homem chamado Artur Mendes, que trabalhava com os santos há 4 anos e que sabia exatamente como administrar o corpo de Pelé em sequências de jogos com pouco descanso entre eles.

 Mendes tinha 53 anos naquele novembro. era natural de Presidente Prudente. Havia chegado ao futebol pelo caminho indireto de quem começa como massagista de time de segunda divisão do interior de São Paulo, nos anos 50, e vai construindo credibilidade ao longo de duas décadas de trabalho diário com atletas que têm lesões que não aparecem nas radiografias e dores que não existem no vocabulário médico convencional da época.

 Era gordo de uma forma que enganava quem não ouvia trabalhar. Ah, porque o trabalho que fazia exigia uma resistência física que os magros de academia não tinham. o tipo de resistência que vem de anos de horas longas e de aprender a carregar o cansaço dos outros como parte do próprio ofício. Dentro dos Santos, Mendes tinha a reputação de ser o único homem que poderia dizer para Pelé que ele precisava descansar sem que Pelé respondesse mal.

Essa reputação havia sido conquistada ao longo de 4 anos de trabalho paciente, de conversas que Mendes conduzia com a paciência específica de quem entende que você está lidando com um atleta que aprendeu desde criança, antes de ser profissional, antes de ser famoso, antes de ser o maior, a ignorar dor como condição de permanência.

Ignorar dor era a habilidade que havia levado Pelé de Bauru para Santos e de Santos para o mundo. Aí também era a habilidade que tornava mais difícil convencê-lo de que havia momentos em que parar era a única maneira de continuar. A estratégia que Mendes havia desenvolvido ao longo dos 4 anos era simples e funcionava justamente porque era simples.

 Nunca pedia descanso quando o joelho ou o tornozelo ou a musculatura já estava no nível em que qualquer atleta normal teria parado automaticamente. Pedia antes, antecipava. identificava os sinais que apareciam no treino da manhã, que indicavam que o corpo estava em uma trajetória de deterioração, que, se não fosse interrompida cedo, ia resultar em algo que nem Pelé ia conseguir ignorar.

pedia cedo o suficiente para que a negociação não fosse sobre dor, mas sobre prevenção. Em Lisboa, nos dois dias antes da declaração de Cruff chegar pelo jornal, Mendes havia pedido a Pelé que reduzisse a intensidade do treino do segundo dia, porque o joelho direito estava reagindo mais do que o esperado à sequência de jogos.

 Pelé havia concordado que era a resposta que Mendes havia aprendido a obter quando pedia cedo. Haviam feito um treinamento de intensidade reduzida no estádio que o Santos havia alugado para o período em Lisboa, com trabalho técnico e pouca explosão física, e o joelho havia respondido bem. Depois que o jornal chegou, Mendes percebeu que a conversa sobre redução de intensidade ia ser diferente nos próximos dias.

Não porque Pelé havia dito alguma coisa que indicasse isso, mas porque Mendes conhecia a relação entre o estado interno de Pelé e o que Pelé pedia ao corpo quando o estado interno estava naquele lugar específico, onde uma provocação não respondida se instala e começa a produzir uma pressão que o atleta traduz em mais intensidade de treinamento, mais exigência de si mesmo, mais determinação de provar algo que não precisa ser dito em voz alta, mas que o corpo expressa com uma clareza que qualquer preparador físico experiente

aprende a reconhecer. A reunião que ninguém registrou aconteceu dois dias depois da declaração de Cruff chegar pelo jornal em uma sala de hotel em Madri, onde o Santos havia chegado de Lisboa no trem da tarde de segunda-feira. O hotel era diferente do de Lisboa, mais novo e mais impessoal. Há concorredores que cheiravam a produto de limpeza e carpete de cor neutra que não dizia nada sobre o lugar onde estava.

 A sala era pequena, com uma janela que dava para o pátio interno do hotel, onde havia um canteiro de plantas que ninguém havia regado há algum tempo, e uma mesa redonda com quatro cadeiras de assento acolcho que tinha visto dias melhores. Pelé havia pedido a reunião por meio de Brandão, que havia recebido o pedido como um comunicado simples.

 Você, o Mendes e o Fernando Lacerda. Sala pequena do terceiro andar. às 21 horas. Sem maiores explicações, Fernando Lacerda ele tinha 47 anos. era o representante da CBD, que viajava com a delegação desde Lisboa como parte do protocolo que a federação mantinha nas excursões internacionais de equipes brasileiras durante anos de Copa do Mundo.

 Era homem de terno mesmo no calor, com um bloco de notas que ele carregava em todos os encontros e que ele usava para anotar coisas que depois não se tornavam nada. O tipo de anotação que pessoas em posições de supervisão fazem para demonstrar atenção ao que está sendo dito em vez de anotar algo que eles vão usar de terno.

Normalmente não era convidado para o tipo de conversa que acontecia dentro do vestiário ou dentro da delegação técnica, que era o espaço de Brandão e Mendes e dos jogadores. Um espaço que os líderes de federação aprendem cedo a não invadir se quiserem ser respeitados. Lacerda ficou surpreso com o convite, ele não disse que ficou surpreso.

 A chegou às 21 horas precisas na sala pequena do terceiro andar, com o bloco de notas e a caneta e o terno e a expressão de alguém que você está tentando parecer que sabe exatamente por chamado. Pelé falou por 20 minutos sem ser interrompido. Ele não falou sobre CF pelo nome em nenhum momento dos 20 minutos.

 não mencionou a declaração de Amsterdam de forma direta, nem a coletiva, nem as três palavras que haviam saído em todos os jornais do Brasil. falou sobre o jogo de Madri, que era quatro dias depois, sobre o time espanhol que eles iriam enfrentar e o que ele sabia sobre isso de excursões anteriores em que o Santos havia jogado contra equipes semelhantes naquela liga, sobre as características do campo onde o jogo ia acontecer e como essas características iam afetar o ritmo que precisavam impor desde o início.

 falou sobre o esquema de marcação que o Santos havia usado no segundo jogo em Lisboa e o que precisava ser ajustado para que a equipe não repetisse os erros de posicionamento que haviam permitido ao time português criar três situações de gol no segundo tempo, mesmo perdendo o jogo. falou sobre o estado físico de cada jogador da delegação, com a especificidade de alguém que havia passado as últimas 48 horas, observando, sem parecer que estava observando, que era uma habilidade que Pelé havia desenvolvido ao longo de 15 anos de

liderança dentro de vestiários, onde a liderança não veio do cargo, mas do reconhecimento diário de que aquele ali era o homem que sabia mais sobre futebol do que qualquer outro na sala. Brandão escutou com a caneta na mão, mas sem escrever. Mendes ficou olhando a mesa com a expressão de alguém que está ouvindo uma coisa que confirma o que havia intuído dois dias antes, quando viu Pelé dobrar o jornal no café da manhã de Lisboa e havia entendido que algo havia mudado na maneira como os próximos dias iriam se desenvolver.

Lacerda ficou com as mãos cruzadas sobre a mesa e o bloco de notas fechado à sua frente e não disse nada durante os 20 minutos, o que era incomum para ele, mas isso a situação tornava a única opção razoável, porque havia algo na forma como Pelé estava falando, que tornava qualquer intervenção periférica uma interrupção que ninguém queria ser responsável por ter feito.

 Quando Pelé terminou, houve um silêncio de alguns segundos que ninguém se apressou em preencher. Lá então, Brandão disse que a formação para o jogo de Madri poderia ser ajustada da maneira que Pelé havia descrito. Mendes disse que o treino do dia seguinte seria estruturado com base no que havia sido pedido. Lacerda disse que ia transmitir o resultado do jogo de Madri para o CBD na manhã seguinte ao jogo.

 Ninguém disse nada sobre CR. Ninguém disse nada sobre a declaração de Amsterdam. Ninguém disse nada sobre os jornais do Brasil, nem sobre as três palavras. Ninguém precisou. A reunião durou 26 minutos. Depois todos saíram da sala pequena do terceiro andar. Lacerda guardou o bloco de notas ainda fechado no bolso interno do palitó e cada voltou para seu quarto pelo corredor com carpete neutro que cheirava a produto de limpeza.

 O que Johan CF não sabia a e que qualquer brasileiro de 40 anos naquele novembro de 1973 sabia de memória sem precisar verificar nenhuma enciclopédia, era o que havia acontecido na Suécia em junho de 1958. Era o tipo de conhecimento que não se aprende, que se carrega, que fica no corpo da mesma forma que ficam certas músicas e certas tardes de infância.

 E certos cheiros que você encontra de novo 20 anos depois e voltam completos, sem detalhe faltando. Cuf tinha 11 anos quando Pelé marcou dois gols na final contra o país anfitrião e chorou no ombro de Didi depois do apito final. 11 anos. Filho de um mecânico de Amsterdam que morreu quando ele tinha 12.

 Criado em um bairro chamado Beton Dorp, onde o futebol era o Ajax. E o Ajax era o que você assistiria aos domingos se saísse do seu bairro e fosse até o Demir Stadium. Era um campo de 67.000 lugares que ficava a 20 minutos a pé e que era onde o mundo de Cruif começou e terminou, enquanto o resto do mundo estava acontecendo em outros lugares por razões que não chegavam por aquelas ruas.

O futebol europeu de 1958 existia em um mundo paralelo ao futebol que estava sendo jogado em Estocolmo naquele junho. As transmissões de rádio chegavam com interferência nas áreas que ficavam longe das estações transmissoras. A televisão existia, mas não tinha a cobertura internacional que teria nas décadas seguintes.

 Os jornais chegavam com um dia ou dois de atraso nos países que ficavam mais longe de onde os eventos aconteceram e mesmo quando chegavam, vinham filtrados pelas agências de notícias que tiveram seus próprios critérios editoriais sobre o que merecia espaço e o que era periférico. Quando a Suécia perdeu a final para o Brasil por 5 a 2 em dia ensolarado de junho de 1958, os jornais suecos e os jornais de boa parte da Europa publicaram a notícia com a frieza reservada para eventos que não se encaixam bem na narrativa que estavam construindo sobre o futebol de seu

continente. Havia algo naquela derrota que era difícil de enquadrar dentro do que a imprensa européia havia estabelecido como a hierarquia natural do futebol mundial. E o que é difícil de enquadrar, às vezes você encontra espaço menor do que merece, tratado como anomalia em vez de como evidência.

 O jovem de 17 anos, que havia marcado dois gols na final, aparecia nas fotografias como uma figura distante, num campo que ficava longe demais para ser relevante de verdade no cotidiano europeu. As fotografias chegavam com a granulação das câmeras da época e com a distância das arquibancadas, que era a posição padrão dos fotógrafos da época em campos de futebol.

O rosto de 17 anos que havia feito aqueles dois gols era um rosto que a Europa de 1958 não tinha ainda aprendido a reconhecer. Cru cresceu nesse futebol, aprendeu seu ofício num sistema que valorizava a organização, a inteligência posicional e a capacidade de um time de se mover como um organismo único, em vez de como 11 indivíduos com qualidades diferentes, tentando coordenar esforços em tempo real.

 Era um modelo que havia produzido futebol de alta qualidade na Holanda, na Alemanha, na Itália e que havia sido refinado ao longo dos anos 60 em direção a uma sofisticação tática que tinha seus próprios critérios sobre o que era bom futebol e o que era talento individual que não contribuía para a organização coletiva. Havia levado esses princípios ao limite mais alto que um jogador daquela época havia conseguido levar.

 Porque ele era dentro daquele sistema genuinamente excepcional. Não era apenas um produto do sistema, era alguém que havia pego o sistema e o havia expandido com uma inteligência de jogo que poucos atletas de qualquer geração possuem. E havia chegado ao Ajax de 1971, 1972 e 1973, que ganhou três Copas da Europa consecutivas.

 com um futebol que a imprensa europeia chamou de total e que o resto do mundo assistiu com uma combinação de admiração genuína e aquela sensação específica de estar vendo algo novo que vai mudar o que vem depois. era justo. O Ajax daqueles anos era extraordinário. Cruif dentro daquele sistema era extraordinário. E havia nesse conjunto de realidades inegáveis a base sólida para uma convicção que, no entanto, era ao mesmo tempo legítima e incompleta.

 A convicção de que o futebol europeu havia finalmente superado tudo que vinha de fora da Europa em termos de sofisticação e qualidade. O que essa convicção não incluía era a memória detalhada do que havia acontecido em campo nos anos em que o Santos de Pelé havia percorrido a Europa e deixado times do calibre do Benfica de Eusébio.

 A da Inter de Milão de Helênio Herreira e do Real Madrid de Di Stefano olhando para o placar sem conseguir explicar completamente o que havia acontecido. Esses jogos existiam nos arquivos dos jornais europeus. estavam documentados, os placar estavam registrados, mas existiam naquela zona específica da memória europeia que é reservada para coisas que é mais confortável não lembrar, com a mesma precisão com que se lembram as vitórias próprias.

 O Benfica havia perdido para o Santos por 5 a 2 em 1962 na final da Copa Intercontinental. A Inter de Milão havia perdido para o Santos em dois jogos que deram ao Santos o título de 1963. O Real Madrid havia perdido amistosos para os Santos em anos diferentes por placares que os jornais espanhóis haviam descrito com adjetivos que tentavam explicar o inexplicável sem ceder demais ao adversário.

 A esses resultados existiam. Cruff os conhecia da mesma forma que qualquer pessoa do futebol europeu os conhecia. Mas conhecer é diferente de carregar e carregar é diferente de entender o que significam. Quando a declaração de Cruff chegou ao Brasil na manhã seguinte pela agência italiana, três redações de São Paulo entraram em contato com a delegação dos Santos em Lisboa, pedindo reação de Pelé.

As melhores frases sobre Pelé - Nelson Mandela, Johan Cruyff e outros  definem a lenda

 Era o tipo de situação para o qual havia protocolo estabelecido, mesmo que o protocolo não estivesse escrito em nenhum documento. O assessor de imprensa que atendia os telefones naquela época era um homem chamado Benedito Nogueira. Benedito tinha 51 anos a cabelo grisalho, penteado pro lado com aquele fixador que os homens da geração dele usavam desde a juventude e não trocavam por nenhuma moda nova que aparecesse nos anos seguintes.

Usava óculos de aros finos, que eram o modelo padrão dos anos 60, que havia continuado usando na década seguinte por hábito. E também porque nenhuma nova moda de óculos havia parecido melhor do que os que já funcionavam. Era natural de Araraquara. Tinha chegado ao jornalismo pelos jornais do interior paulista nos anos 40.

 havia trabalhado em Campinas e em Ribeirão Preto em décadas diferentes e havia chegado ao Santos em 1968 depois de uma recomendação de um colega de redação que havia deixado o jornalismo para trabalhar em assessoria esportiva e que havia reconhecido em Benedito o temperamento específico que o trabalho exigia.

 E atemperamento era a palavra certa, não paciência, que é uma virtude passiva que pode ser confundida com indiferença. Temperamento no sentido de uma composição interna que permanecia estável quando as circunstâncias ao redor mudavam rapidamente e em direções que não eram previstas. Benedito havia desenvolvido esse temperamento ao longo de anos de redação de jornal em que a notícia chegava às 3 da manhã e precisava estar no papel às 5.

 E qualquer desequilíbrio emocional de quem estava no meio do processo produzia erros que apareciam na página impressa para 100.000 leitores verem. tinha uma regra que havia formulado sozinho nos primeiros meses no Santos, derivada de uma observação simples que fez nas primeiras semanas de trabalho. Ah, e isso nunca tinha precisado explicar para ninguém, porque os resultados da regra sempre haviam sido bons o suficiente.

Pelé não responde declaração de adversário antes de jogo. Depois de jogo, dependia do jogo, do que tinha acontecido em campo, do placar. do que havia sido dito antes e do que a resposta poderia fazer pelo Santos ou pelo futebol brasileiro naquele momento. Antes de jogo, jamais. A regra existia porque Benedito havia observado ao longo de seus primeiros meses no Santos, que qualquer coisa que Pelé dissesse antes de um jogo funcionava como combustível para o adversário e como distração para os jogadores do Santos. E as únicas

coisas que deveriam funcionar como combustível para os santos eram os treinos, a preparação e o campo quando o jogo começava. Os três jornalistas de São Paulo, que ligaram naquela manhã de novembro em Lisboa, receberam de Benedito, com diferentes graus de insistência de cada lado, a mesma resposta formulada com diferentes ênfases, dependendo do grau de insistência de cada um, que a delegação dos Santos estava focada em preparação para o próximo jogo em Portugal, que era na quinta-feira seguinte, que Pelé estava bem

fisicamente e tecnicamente preparado para o jogo, que qualquer declaração de qualquer natureza sobre qualquer assunto seria comunicada pelos canais usuais quando houvesse algo concreto a comunicar. O repórter do Jornal da Tarde, cujo nome era Mauro Evangelista e que cobria futebol há 15 anos com a persistência de quem entende que a maioria das boas histórias está do outro lado de uma recusa inicial.

 foi o mais persistente dos três. A disse que o assunto estava em todos os jornais do país, que havia leitores que precisavam saber o que Pelé pensava sobre aquilo, que era uma questão de representar o futebol brasileiro com a dignidade que merecia diante de uma provocação européia que teve ressonância política além do esporte. Benedito ouviu todo o argumento de evangelista com a atenção de quem está ouvindo de terno e não apenas esperando que o outro termine.

Depois disse que entendia a importância do assunto e a legitimidade da preocupação do jornalista. Depois repetiu o que havia dito antes com as mesmas palavras, porque havia aprendido que mudar as palavras da recusa transmite a impressão de que a recusa pode ser negociada e a recusa não poderia ser negociada.

 E evangelista desligou com a expressão que Benedito não poderia ver pelo telefone, mas que havia aprendido a imaginar nos anos de trabalho a expressão de um jornalista que obteve o que esperava não obter, mas que vai usar a ausência de declaração como parte da história do dia. Porque a ausência de declaração em certos circunstâncias também é uma declaração.

Benedito ficou com o telefone na mão por alguns segundos depois do clique. Depois foi pelo corredor até o quarto de Pelé, no segundo andar da pensão lusitana. Ele bateu duas vezes na porta com o nó do dedo médio, que era a maneira como ele batia quando precisava de Pelé. E o assunto não era urgência de campo, mas era importante o suficiente para não esperar.

Pelé atendeu a porta vestido e com as chuteiras na mão, porque estava a caminho do treinamento e havia saído do quarto ao mesmo tempo em que Benedito batia. Benedito disse: “Três redações de São Paulo querem declaração sobre Cruif.” Pelé disse: “O que você falou para eles?” Benedito disse: “O de sempre”, Pelé disse: “Certo.

” E foi para o treinamento. Benedito voltou pelo corredor para a sala pequena no térrio, onde ficavam os telefones da delegação. Pegou o bloco onde anotava as chamadas recebidas, escreveu os três nomes com as três redações e os horários das chamadas. fechou o bloco, foi buscar o café que havia pedido antes que os telefones começassem a tocar e que estava frio agora.

 Há em uma xícara de porcelana branca com uma borda de azul, que era o modelo que a pensão lusitana usava para todos os quartos e para o salão do café da manhã e, provavelmente para qualquer xícara que existia no prédio desde que o hotel havia aberto. O café frio de manhã tem um sabor diferente do café quente. Não necessariamente pior, diferente.

Benedito bebeu sem comentar sobre a temperatura. O estádio espanhol, onde o Santos jogou em Madri, era um campo de clube de primeira divisão que ficava numa área da cidade que não era o centro, mas também não era a periferia, uma das regiões intermediárias de Madri, que tinham crescido nos anos 50 e 60, com blocos de apartamentos de cimento e ruas largas com pouca árvore.

 O estádio tinha capacidade para 22.000 1 pessoas quando estava cheio, a que era a capacidade adequada para um clube que competia bem no campeonato espanhol, mas que não era Real Madrid nem Atlético. Não tinha o público daqueles dois, nem a infraestrutura, nem o orçamento. Naquela tarde de novembro estava com aproximadamente 11.

000 1 pessoas espalhadas pelas arquibancadas, que era o público típico de uma quinta-feira para um amistoso contra um time brasileiro que a maioria das pessoas no estádio havia ouvido falar por causa de Pelé, mas cujos outros jogadores não conhecia pelos nomes. O frio seco de Madrid em novembro era diferente do frio úmido do litoral paulista que a maioria dos jogadores do Santos conhecia desde que haviam aprendido a andar.

 Era um frio que vinha do Planalto Castelhano, que fica a 660 m de altitude, e que tem uma qualidade de secura que a costa do litoral paulista não produz. Entrava pela boca quando você respirava rápido e deixava a garganta seca dentro de 20 minutos de esforço físico. Deixava a grama mais rígida do que parecia quando você pisava, não congelada, mas com uma firmeza diferente da grama de novembro em Santos.

O vestiário do time visitante tinha aquecimento que não funcionava direito, o que era um problema comum em estádios de médio porte europeu da época que haviam sido construídos nos anos 40 e 50, com uma ideia de conforto visitante que era diferente do padrão que as equipes brasileiras haviam se acostumado nas viagens mais recentes.

Os jogadores utilizavam os agasalhos de treino por baixo do uniforme enquanto esperavam, removendo-os apenas quando Brandão dava a ordem de sair para o aquecimento. E o cheiro do vestiário era a mistura habitual de linimento e suor antigo que os vestiários de estádios velhos acumulam nas paredes e nos vestiários ao longo de décadas de uso e que nenhuma limpeza consegue remover completamente porque não está nas paredes, mas dentro delas.

 Pelé aqueceu com o grupo, mas com menos intensidade do que os outros, que era o protocolo que Mendes havia estabelecido para aquele dia, baseado na condição do tornozelo, que havia sido observada no treino da manhã. Mendes ficou na beira do campo durante o aquecimento com a pasta, onde registrava as observações físicas de cada jogador. Uma pasta de capa dura que havia comprado na rua 15 de novembro em Santos, em 1969 e que havia carregado em todas as excursões desde então com aquelas folhas de anotação densa que só ele conseguia ler completamente.

Ao primeiro tempo, acabou com 0 a 0. O time espanhol havia marcado bem e criado poucas situações de risco nas duas áreas. O tipo de resultado de primeiro tempo que no futebol da época era lido de formas diferentes, dependendo de quem estava lendo. Para os torcedores espanhóis era um resultado satisfatório. Para Brandão, era o resultado esperado para uma equipe que está guardando o seu principal jogador para o segundo tempo e que, portanto, não tem o nível máximo de criatividade no primeiro.

 Pelé entrou pelos pés de substituição 7 minutos depois do intervalo. O vestiário no intervalo havia sido curto e direto, com Brandão fazendo os ajustes técnicos que havia planejado. Mendes verificando rapidamente o estado físico dos jogadores que haviam apresentado sinais de cansaço no primeiro tempo. e Pelé, ouvindo tudo em silêncio, com os joelhos dobrados e as mãos abertas sobre os joelhos, a postura de vestiário que havia tido desde os 17 anos, quando era o mais jovem da delegação, e que havia mantido ao longo de 15 anos, porque era

simplesmente a postura que o corpo assumia quando estava ouvindo com atenção. O primeiro contato de Pelé com a bola no segundo tempo foi um toque simples de controle no meio de campo, recebendo um passe de um lateral e protegendo enquanto verificava as opções à frente. O segundo contato foi uma tabela rápida com aquele mesmo lateral que criou um espaço numa linha de marcação que havia ficado fechada por todo o primeiro tempo.

 O tipo de tabela que parece simples quando acontece, mas que exige que os dois jogadores envolvidos tenham um entendimento que não se improvisa em campo. O terceiro contato com a bola foi o drible. Os marcadores europeus descreviam os dribles de Pelé com variações da mesma frase há 15 anos, porque não havia outra forma de descrevê-los que chegasse ao que de fato acontecia.

Ele foi para um lado e a bola foi para o outro. E quando eu entendi, ele já estava na frente. Era uma simplificação técnica do que de fato acontecia, que era mais complexo do ponto de vista mecânico e que tinha a ver com a forma como Pelé usava o peso do corpo para criar uma expectativa de movimento, que não era o movimento que vinha a seguir, mas a simplificação capturava a essência do resultado, que era que o marcador ficava parado no lugar errado, enquanto Pelé seguia em movimento no lugar certo.

O primeiro gol veio aos 18 minutos do segundo tempo. Pelé recebeu na entrada da área pelo lado esquerdo. A ajustou o corpo em dois movimentos rápidos que empurraram o goleiro espanhol para o canto direito da sua perspectiva e finalizou de perna esquerda no ângulo superior esquerdo da perspectiva do goleiro.

 O goleiro foi para o lado certo, mas chegou tarde. bola entrou com aquela trajetória específica que os gols de ângulo produzem quando a execução é precisa, roçando o poste interior antes de bater no fundo da rede. O estádio fez o barulho que estádios fazem quando o adversário marca um barulho de expiração coletiva que não é hostilidade, mas é decepção com aquela qualidade específica de decepção de quem havia esperado que fosse possível manter o zero.

O segundo gol veio aos 29 minutos do segundo tempo. Começou com uma recuperação de bola no meio de campo. passou por dois toques que envolveram Pelé, a um meia e um atacante que havia entrado na excursão como suplente, mas que naquele lance estava na posição certa no momento certo, e terminou com Pelé, recebendo na pequena área com o corpo de costas para o gol, girando sobre o marcador que havia perdido a posição no primeiro toque e finalizando num movimento que parecia contínuo, porque era de fato contínuo, sem pausa

entre o giro e e a finalização. O terceiro gol veio de falta aos 34 minutos. A falta foi marcada a 22 m do gol, levemente à esquerda, na posição de onde os treinadores defensivos ensinavam os goleiros a se posicionar para cobrir o ângulo mais lógico. Pelé colocou a bola no ângulo oposto ao que o goleiro havia escolhido, no canto que a posição do goleiro deixava vulnerável pela lógica da cobertura do mais provável.

A bola passou sobre a barreira com uma curva que a câmera do estádio não conseguia capturar completamente, porque a câmera ficava num ângulo que mostrava a barreira ou mostrava o gol, mas não mostrava o caminho inteiro entre um e outro. Pelé saiu do campo aos 37 minutos por decisão de Brandão, que havia observado no lance do 20º minuto que o tornozelo esquerdo havia reagido de uma forma que Pelé havia minimizado na hora, mas que Brandão havia visto e que Mendes também havia visto da beira do campo.

Saiu sem gesticular, sem olhar para as arquibancadas, onde 11.000 espanhóis estavam processando o que haviam visto nos últimos 37 minutos. sentou no banco de reservas ao lado de Mendes, que já tinha gelo preparado e atadura cortada no tamanho certo. Mendes verificou o tornozelo com as mãos, apalpando com a pressão específica de quem sabe onde o problema está antes de palpar.

 Disse em voz baixa que não era nada sério, mas que precisava de cuidado nas próximas 48 horas. Pelé disse que sabia. O placar final foi 3 a 0. No vestiário depois do jogo, com o cheiro de linimento aumentado pelo calor dos corpos que acabavam de jogar e com a luz fluorescente piscando no canto que havia piscado também antes do jogo, Coutinho passou pelo lado de Pelé, que estava sentado no banco de madeira com a bota direita na mão, e disse apenas em voz baixa, sem parar, a caminhada em direção ao chuveiro.

Está respondido. Pelé não respondeu, mas havia uma expressão no rosto dele que Coutinho reconheceu de outros momentos ao longo de 15 anos, que não era satisfação simples nem alívio. Ten que não era clara a expressão de vitória que aparece nos rostos dos atletas nos momentos imediatamente depois de um resultado bom.

 Era algo mais contido do que satisfação e mais completo do que alívio. Era a expressão específica de alguém que havia feito o que precisava ser feito da única forma que considerava adequada e que agora estava no processo de deixar aquilo para trás, porque havia outras coisas que precisavam de atenção. Três semanas depois de voltar da excursão europeia, alguém dentro da estrutura dos Santos enviou uma comunicação informal à Federação Holandesa, perguntando sobre a possibilidade de um amistoso direto entre Santos e Ajax na temporada seguinte, em 1974.

A carta foi escrita em português e espanhol. as duas línguas que o responsável pela comunicação do clube dominava com confiança suficiente para uma correspondência formal internacional e foi enviada pelo Correio Normal para o endereço administrativo da Federação Holandesa em Amsterdam, que constava nos diretórios internacionais de federações esportivas que o Santos mantinha arquivados desde os anos 60.

Não havia nome de quem havia tomado a iniciativa nos registros internos dos santos. que sobreviveram aquele período. Havia apenas uma cópia da carta no Arquivo Administrativo do Clube, guardada numa pasta junto com outras correspondências de excursões daquele período, sem nota explicativa sobre quem havia decidido enviá-la, nem em qual conversa específica a ideia havia surgido, nem quem havia autorizado formalmente o envio.

 A carta em si era direta, afulada com a linguagem padrão de convite para amistoso internacional que os clubes usavam na época, [limpando a garganta] mencionando a tradição de excursões dos santos à Europa e a possibilidade de uma data em torno de outubro ou novembro de 1974. A resposta veio em janeiro de 1974, com um atraso que indicava que não havia sido tratada com a urgência que uma proposta de amistoso entre dois dos mais clubes conhecidos do futebol mundial daquela época poderia ter gerado em circunstâncias diferentes. era redigida

em português precário, mas compreensível, com erros de concordância verbal que sugeriam tradução feita com dicionário e alguma revisão humana posterior, sem o conforto de alguém que escreve em uma língua que conhece de fato. dizia que a agenda do Ajax para a temporada de 1974 estava comprometida com compromissos previamente estabelecidos e que não havia espaço disponível no calendário para partidas adicionais no período solicitado.

 Eu apreciaria o interesse e desejava sucesso aos Santos nas competições da temporada. A carta foi arquivada sem resposta. Ninguém dentro dos Santos comentou publicamente sobre o episódio. O arquivo seguiu para o lugar onde ficavam os documentos que não se tornaram nada, numa pasta com outras correspondências de excursões que não aconteceram, propostas que não foram aceitas e planejamentos que o calendário ou o orçamento ou simplesmente a falta de interesse da outra parte haviam impedido de se concretizar.

 Era uma pasta grossa essa. Há porque no futebol dos anos 60 e 70 havia muitas propostas que chegavam e saíam sem deixar rastro além do papel arquivado. Benedito Nogueira viu a carta de resposta da Federação Holandesa quando ela chegou ao clube em um dia de janeiro de 1974, entregue pelo carteiro junto com a correspondência normal daquela manhã.

abriu o envelope porque era parte das suas atribuições abrir a correspondência administrativa que não era direcionada especificamente a um líder ou jogador. Leu a carta, guardou na pasta correta, não disse nada sobre ela para ninguém naquele dia, nem nos dias seguintes. A Copa do Mundo da Alemanha Ocidental de 1974 começou em 13 de junho e terminou em 7 de julho com a final em Munique entre a Holanda e a Alemanha ocidental.

 O Brasil foi eliminado na segunda fase, a numa fase onde o torneio usou um formato de grupos duplos que substituía as quartas de final e as semifinais, perdendo para a Holanda e para a Argentina e empatando com o leste alemão. Era uma eliminação que torcedores brasileiros que haviam visto o bicampeonato de 1958 e 1962 e o tricampeonato de 1970 experimentaram com a especificidade dolorosa dos traumas que a memória guardou com mais clareza do que as vitórias, porque as vitórias são esperadas e as derrotas são inesquecíveis quando vem no lugar onde

havia expectativa de vitória. Pelé não estava em campo. Havia se aposentado da seleção brasileira em julho de 1971 em uma cerimônia no Maracanã que teve 75.000 pessoas e que foi transmitida pela televisão com a qualidade de transmissão que a televisão brasileira de 1971 oferecia. A cerimônia havia sido formal e emocionada ao mesmo tempo, com discursos e homenagens, e os 75.

000 cantando o nome dele de uma forma que as gravações da época registraram parcialmente, mas que qualquer pessoa que estava lá descreveu depois como uma experiência que não cabia em nenhum registro técnico disponível. A versão oficial de aposentadoria da seleção era que havia sido uma decisão necessária para o bem da própria seleção, que precisava encontrar o próximo caminho sem depender da sombra do que havia sido.

 Era uma versão que tinha elementos verdadeiros. A seleção de terno precisava construir uma identidade para o período pós-pelé, que não fosse simplesmente esperar pelo próximo Pelé, que raramente chegou quando esperado, e quando chegava, chegava de um lugar diferente do esperado. Pelé, de terno, havia reconhecido esse momento com a honestidade que tinha sobre as próprias limitações físicas que o tempo produzia.

Mas a versão que as pessoas próximas conheciam tinha mais camadas e mais silêncios. Tinha o acúmulo de 15 anos de pressão de seleção, que havia deixado marcas que não eram visíveis nas fotografias de Copa. Tinha a Copa de 1966. e o que havia acontecido em Goodon Park, que era uma história que Pelé nunca contou completamente em público, mas isso havia ficado nele.

 Como ficam as coisas você experimenta com o corpo e isso nenhuma narrativa posterior consegue deslocar de onde elas pousaram. tinha a Copa de 1970, que havia sido o ápice, mas que tinha também dentro dela, uma tensão que os torcedores que assistiram pelos televisores em preto e branco e colorido não sabiam que existia, mas e tinha o cansaço específico de ser o maior por 15 anos em um país que não tem tradição de deixar seus maiores descansarem.

Em julho de 1974, Pelé assistiu aos jogos da Copa pela televisão e pelo rádio no apartamento que havia nos fundos da Casa da Família, no litoral de Santos. A televisão da época transmitia alguns jogos, mas não todos. A qualidade de imagem das transmissões internacionais era o que a tecnologia de satélite disponível na época oferecia, que foi o suficiente para entender o que estava acontecendo no campo, mas isso perdia detalhes de posicionamento e de movimentação que somente as câmeras próximas no nível do campo revelam com clareza.

viu a Holanda jogar o futebol que a imprensa européia havia descrito ao longo dos meses anteriores como a evolução definitiva do esporte. E a imprensa havia descrito com razão a porque havia algo naquele Ajax transformado em seleção holandesa que era de terno novo, que havia empurrado os limites do que se achava possível no futebol coletivo da época.

Vi CR em campo com aquela qualidade de movimento que era genuinamente extraordinária e que ninguém com honestidade intelectual sobre futebol podia minimizar sem perder a credibilidade daqueles que conhecem o esporte de verdade. Você viu a Holanda bater times grandes com uma facilidade que confirmou que havia algo real naquele futebol.

 Não apenas a construção de narrativa que a imprensa européia às vezes produzia quando queria ter seus próprios heróis para uma audiência que preferiria ler sobre heróis próximos ao que sobre heróis distantes. A final foi entre Holanda e Alemanha oeste no Estádio Olímpico de Munique em 7 de julho de 1974. Era um estádio que havia sido construído para as Olimpíadas de 1972, com uma arquitetura que parecia saída de um futuro que ainda não havia chegado completamente, com o teto de acrílico translúcido que cobria parte das arquibancadas, criando uma silhueta no

horizonte de Munique, que ficou associada aos dois eventos que aconteceram dentro dele naqueles dois anos. A Holanda marcou um pênalti no primeiro minuto antes que a Alemanha tivesse tocado na bola. Era um começo que parecia o começo de algo inevitável. O tipo de vantagem precoce que quando acontece para um time que estava jogando como a Holanda havia jogado naquele torneio, parece o anúncio do que vai acontecer nas próximas 90 e um a menos minuto. Não foi.

 A Alemanha reagiu com uma velocidade que surpreendeu a Holanda e que surpreendeu a maior parte dos observadores do jogo. marcou ainda no primeiro tempo, assumiu o controle do jogo no segundo tempo, venceu por 2 a 1. Cruff não marcou nenhum gol na final, saiu de campo ao apito final, sem a medalha que havia sido o objetivo declarado de tudo o que o futebol holandês havia construído nos três anos anteriores.

 Em Santos, naquela noite de 7 de julho, Pelé estava no apartamento nos fundos da casa da família. A noite de Santos, em julho, tem aquela temperatura que a cidade litorânea tem quando o vento vem do mar, nem fria nem quente, com o cheiro de sal que fica na roupas depois de uma tarde perto da praia e isso não sai completamente mesmo depois do banho.

 Havia no apartamento um cunhado, dois amigos de infância que tinham o hábito de aparecer para assistir jogos importantes. e um televisor que transmitia a final com a qualidade que a transmissão de 1974 oferecia. Quando o árbitro apitou o final e os jogadores alemães começaram a comemorar no gramado de Munique, alguém na sala disse alguma coisa sobre Cruff.

 Era a abertura natural do tema que havia ficado desde novembro, desde a coletiva de Amsterdam e as três palavras nas agências e o jornal dobrado no Café da Manhã de Lisboa. Havia se passado 8 meses. O mundo do futebol havia mudado de várias formas naqueles ito meses. E havia uma simetria narrativa específica no fato de que o torneio que Cruff havia prometido que seria a prova definitiva de superioridade havia terminado com a Holanda em segundo lugar e Alemanha com a medalha.

A pessoa que levantou o assunto perguntou se Pelé tinha algo a dizer agora. Pelé ficou em silêncio por alguns segundos. É, não o silêncio de quem está decidindo se vai falar, o silêncio de quem sabe exatamente o que vai dizer e você está apenas deixando o silêncio existir por um momento antes de dizer.

 Depois disse que a Alemanha havia jogado bem, que o futebol era assim, que o campo sempre fala o que precisa ser dito e foi para a cozinha pedir mais café. A conversa mudou de assunto. O jogo havia terminado. Era tarde no sentido de que era tarde naquela noite de julho em Santos, com o vento do mar e o cheiro de sal e a televisão sendo desligada.

 E havia alguma coisa no silêncio que ficou depois que ele saiu da sala, que as pessoas que estavam lá guardaram sem precisar comentar, porque tinha coisas que eram ditas sem precisar de palavras e que perdiam algo quando tentavam ser convertidas em palavras. E aquele silêncio depois daquela resposta era uma dessas coisas.

Passaram-se os meses. A excursão europeia de novembro de 1973 foi arquivada nos registros dos Santos junto com as outras excursões dos anos anteriores. Os resultados entraram nos livros de estatística que alguém eventualmente compilaria. Os jornais europeus que haviam publicado a declaração de Cruff de que eles não haviam publicado quase nada sobre o que havia acontecido no campo de Madri.

 Quatro dias depois, seguiram para as coleções de arquivo que as redações mantinham em porões com prateleiras de metal, o papel amarelando lentamente com os anos. Benedito Nogueira continuou no Santos até o final da temporada de 1974, quando pediu afastamento por motivos de saúde que não eram graves, mas que eram suficientes para justificar a decisão de parar. Ele tinha 52 anos.

 voltou para o interior de São Paulo, a para uma cidade menor, perto de Ribeirão Preto, onde havia nascido um irmão mais velho, que ainda morava lá. Levou consigo o bloco de notas com os registros das chamadas de novembro de 1973 em Lisboa, que estava numa gaveta do escritório que ele havia usado no clube. Ninguém pediu o bloco de volta.

 Ninguém sabia que ele havia levado. Décio Brandão seguiu como técnico do Santos por mais uma temporada. era o tipo de técnico que trabalhava bem dentro de circunstâncias definidas e que precisava de tempo para construir a confiança de jogadores. E o Santos de 1974 era um grupo diferente do Santos de 1973, porque Pelé havia se aposentado do clube em outubro daquele ano em uma cerimônia que foi menor que a da seleção em 1971, mas que também foi na Vila Belmiro, no campo onde ele havia jogado pela primeira vez vez com 16 anos. Mike foi transmitida

pela televisão local com o tipo de cobertura que a televisão paulista dava aos eventos esportivos de Santos. Artur Mendes ficou no Santos por mais trs anos depois disso, trabalhando com os jogadores que vieram depois, aplicando com cada um deles a mesma paciência que havia aplicado com Pelé, que era a única ferramenta que sabia usar com consistência e isso continuou sendo a ferramenta certa.

Independente de quem era o atleta, a pasta de correspondências na gaveta do Arquivo dos Santos com a carta da Federação Holandesa, continuou onde estava. As excursões europeias continuaram acontecendo nos anos seguintes, com elencos diferentes e com objetivos diferentes, porque o Santos sem Pelé era um time diferente que precisava construir sua identidade a partir de outros princípios.

Cartas de convite chegavam e às vezes viravam amistoso e às vezes viravam pasta de arquivo como a carta holandesa. Era a lógica do futebol de clube que não muda muito de uma década para outra. A Copa do Mundo da Alemanha de 1974 ficou na memória dos brasileiros, com a especificidade que as decepções esportivas têm quando chegam no lugar de onde se esperava alegria.

O time que havia ganhado em 1970 no México era o passado e o time de 1974 era o presente. E o presente não havia sido suficiente. Era uma equação simples que produzia uma tristeza específica de quem havia vivido 1970 e que em 1974 havia esperado mais do que o campo entregou. Pelé, que havia assistido a Copa pelo televisor do apartamento em Santos, sem estar em campo, Ari ficou com aquela posição específica de quem assiste de fora algo em que ele poderia ter estado, mas que havia escolhido não estar por razões

que continuavam fazendo sentido, mas que às vezes em certas tardes produziam uma reflexão interna que ninguém via, porque acontecia no lugar onde as reflexões internas de Pelé sempre haviam acontecido, que era um lugar que não tinha janelas para fora. O campo de Madri, em novembro de 1973, existia nos registros do jogo com o placar e os gols e a data e os nomes dos times.

 O resto, o que havia acontecido dentro do vestiário antes e depois? O que havia sido dito na sala pequena do hotel com a janela para o pátio das plantas mal regadas. O que havia sido não dito no ônibus peloado com as ruas estreitas de Lisboa passando pela janela, a continuou naquele lugar onde as histórias que não precisam de publicação ficam guardadas nas memórias das pessoas que estavam lá, que foram desaparecendo uma a uma com o ritmo que o tempo tem que levar com você, aqueles que sabem as coisas que nunca foram escritas. M.

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