Gabriel Ganley: a prática perigosa que ninguém viu a tempo — toda mãe precisa ver
Há pouco mais de uma semana, um rapaz de apenas 22 anos foi encontrado sem vida dentro do próprio apartamento. A família já estava dia sem conseguir falar com ele. Foi um amigo preocupado que entrou e encontrou-o. E o mais assustador veio depois, quando descobriram o que tinha Aconteceu com aquele corpo aparentemente perfeito.
O seu nome era Gabriel Gunley. Tinha milhões de seguidores, um sorriso de menino e parecia o retrato vivo da saúde. Mas existia uma coisa dentro dele que ninguém viu há tempo. Nem ele, nem os médicos, nem a mãe. Fica comigo até ao fim, porque o que tirou a vida a este rapaz pode estar neste momento dentro de alguém que ama.
E quase ninguém sabe disso. Ele era chamado de pequeno bebé, pelo jeito doce, educado, de tratar cada pessoa com carinho. Um rapaz do Rio de Janeiro que largou tudo para correr atrás de um sonho e parecia tão forte, tão saudável. Mas entre o rapaz cheio de vida que aparecia nas ecrãs e o que encontraram naquele apartamento, houve uma falha que o próprio corpo dele escondia em silêncio desde sempre.
Para compreender, a gente precisa de voltar ao início. Antes de ser um corpo, foi um rapaz. E isso é o primeiro pormenor que se perde quando alguém vira manchete, quando vira número, quando vira o culturista de 22 anos encontrado morto. Por trás desta frase fria, estava um rapaz do Rio de Janeiro que crescia como qualquer outro, com uma família que o tratava pelo nome, não pelo apelido que todo o Brasil aprendeu esta semana.
Guarde esse rosto sorridente na cabeça, porque daqui a uns minutos vai descobrir o que estava escondido por trás dele e vai querer voltar e olhar de novo. Quem o conheceu de perto repete sempre a mesma palavra para o descrever. Doce não é a palavra que se espera para um homem coberto de músculos treinado parecer intimidante num palco, mas é a que toda a gente usa.
Um rapaz que respondia a mensagem de desconhecido às 11 da noite, que parava na rua para tirar foto com quem pedisse, que tratava o fã mais tímido, aquele que mal conseguia falar de nervoso com a paciência de quem tem todo o tempo do mundo. Por isso, o apelido pegou e nunca mais saiu. Bebezinho.
Bebezinho, pensa na imagem, um gigante capaz de levantar pesos que a maioria das pessoas não o tira do chão. e toda a gente o chamando com o nome mais fato que existe. Havia uma delicadeza ali que o corpo enorme não conseguia esconder. As pessoas sentiam isso. Era por isso é que gostavam dele. Gabriel chegou a entrar para a faculdade, educação física.
quis estudar o corpo, o movimento, o porquê de um músculo crescer, o limite do esforço humano. Era o caminho seguro, o diploma na parede, o futuro que tranquiliza qualquer mãe. Mas a dada altura o sonho falou mais alto que a sala de aula e ele fez a escolha que aperta o coração de toda a família, abandonou a faculdade para apostar tudo numa só coisa.
ser um dos grandes do fisiculturismo brasileiro. E aqui tem um pormenor que quase ninguém parou para anotar nesta semana toda de notícias. Um pormenor que muda completamente o que provavelmente está a imaginar sobre este rapaz neste momento. Quando se fala no culturismo, a primeira coisa que vem à cabeça de muita gente é a palavra bombado, a suspeito do atalho, da seringa, da substância proibida.
é quase automático. A pessoa vê um corpo enorme e já conclui sozinha de onde é que aquilo veio. Só que com o Gabriel essa conta não fecha, porque ele competia no culturismo natural, a categoria mais dura que existe neste desporto, aquela em que os atletas estão proibidos de usar esteróides anabolizantes e qualquer substância para turbinar a forma física.
a que faz testes, a que não perdoa o atalho. Entre 2023 e 2024, foi exatamente nesta modalidade, a mais limpa e a mais difícil que o Gabriel começou a destacar-se. Pense no que isso significa de verdade. Cada grama de músculo no corpo dele saiu de suor honesto, de comida pesada engolida na hora exacta, mesmo sem fome, de treino feito quando o corpo implorava para parar, de anos, e não de meses, de uma disciplina que muito pouca gente no mundo sustenta.
Ele escolheu o caminho mais longo de propósito, porque queria provar uma coisa que dava para lá chegar sem batota. segure essa informação, porque ela vai pesar muito quando chegarmos ao que o relatório revelou. Muita gente vai querer culpar substâncias por essa morte. E a história do Gabriel complica esta conclusão fácil.
Foi assim que ele juntou mais de 1 milhão e meio de seguidores. E preste atenção a este ponto, porque ele importa. As pessoas não acompanhavam apenas o corpo dele. Corpo bonito existe aos magotes na internet. O que prendia mesmo era a história por trás, a rotina de quem acordava antes do sol, a luta diária, o sorriso de quem tinha todos os motivos para estar exausto e maldisposto.
E mesmo assim aparecia ali todo o santo dia, com alegria de sobra para partilhar com estranhos. Os grandes nomes do desporto o adotaram como um irmão mais novo. Ramond Dino, que é campeão do mundo, um dos maiores que o Brasil já produziu, hoje fala dele com a voz pesada. Lembra-se de um rapaz sempre alegre, sempre brincalhão, sempre arrancando gargalhadas a quem estava por perto.
Um rapaz genuíno, de coração puro, que fazia questão de deixar cada pessoa à vontade. É assim que os amigos pedem que seja recordado pela forma como viveu e não pela forma como o encontraram. Mas o corpo que ele construiu com tanto sacrifício, com tanta honestidade, guardava algo que nenhum espelho jamais mostrou, algo que nenhuma foto revelou, algo que ele mesmo, com toda a disciplina do mundo, não tinha como ver.
E para compreender o que era, precisamos de falar do dia em que tudo parou. O Gabriel estava no melhor momento da vida. Tinha o patrocínio de uma das maiores marcas de suplementos do país. Tinha um público que crescia toda a semana, gente nova chegando todos os dias para acompanhar a jornada dele e tinha marcado no calendário com data, local e hora o objetivo de todo aquele sacrifício.
Uma grande competição há poucas semanas de distância. Ele estava em preparação. Para quem é de dentro do desporto, este palavra carrega um peso que o resto das pessoas nem imagina. Para quem está de fora, deixa-me traduzir, porque é aqui que a história começa a ficar séria. E preste muita atenção ao que vem agora, porque é exatamente neste ponto que mora um perigo que quase nenhuma família conhece.
Uma preparação de o culturismo transforma o atleta em quase um monge obsecado. Não é exagero de quem fala, é o que a ciência descreve. Investigadores que estudaram a rotina destes atletas relatam meses de uma dieta rigorosa com a ingestão de comida medida grama a grama, treinos intensos seis ou s dias por semana e nas semanas finais antes do palco.
Estratégias que levam o organismo a um estado que nada tende de natural na vida comum. Corte de hidratos de carbono. Treino aeróbico em jejum de estômago vazio para queimar a última gota de gordura. E na reta final, muitos atletas chegam a manipular a quantidade de água e de sal que o corpo retém para parecer mais seco, mais definido no dia da apresentação.
Os cardiologistas alertam, com todas as letras sobre o que este conjunto de práticas pode provocar. Dietas com corte brusco dos hidratos de carbono e gordura, combinadas com exercício intenso e longos períodos em jejum, podem causar hipoglicemia, alterações hormonais, problemas de sono, queda da imunidade.
O corpo é levado a uma corda bamba. E mesmo nos atletas que não utilizam nenhuma substância proibida, o esforço em si já é uma carga brutal sobre o organismo. Reparem numa coisa que vai ser importante mais adiante. Existe um estudo publicado num dos jornais de cardiologia mais respeitados do mundo, o European Heart Journal, que acompanhou mais de 20.
000 culturistas ao longo de anos. A conclusão arrepia. Os Os culturistas profissionais têm um risco mais de cinco vezes superior de morte súbita do que os atletas amadores. Cinco vezes. Este desporto que parece o retrato máximo da saúde esconde uma estatística que ninguém coloca no panfleto. Guarde esse número de essa. Cinco vezes mais risco.
Daqui a pouco vai entender por ele é tão assustador no caso do Gabriel. Agora é justo, com a memória dele deixar uma coisa clara. O Gabriel competia no natural. Nada do que a investigação apurou até ao momento confirmou que utilizasse substâncias proibidas. Então, quando falamos destes riscos do desporto, não está apontando-lhe o dedo, está mostrando o terreno em que vivia.
Um terreno onde o corpo é empurrado todos os os dias até ao limite, mesmo quando se faz tudo bem, mesmo quando se escolhe o caminho mais honesto, porque o corpo humano, por mais treinado e disciplinado que seja, tem uma fronteira. E às vezes esta fronteira não está nos músculos que aparecem na foto, nos que rendem aplausos em palco.
Está num lugar escondido, do tamanho de um punho fechado, batendo em silêncio dia e noite, sem que ninguém pare para escutar. Gabriel parecia o retrato vivo da saúde. Era o que o mundo inteiro via quando abria o telemóvel. Um jovem forte, disciplinado, sorridente, no auge absoluto. Ninguém olha para um rapaz assim e pensa na morte.
Pensa no futuro, em palco, em troféu, em mais conquistas, no casamento, nos filhos, numa vida longa pela frente. Mas, em algum momento entre a noite de quinta-feira e a manhã de sábado, todo este futuro foi interrompido dentro de um apartamento no bairro da Moca, na zona oriental de São Paulo.
E a forma como este veio ao de cima, a forma como foi encontrado, é uma das partes mais dolorosas de toda esta história. Lembra-se que eu disse que havia algo dentro dele que ninguém viu há tempo? Agora chegamos muito perto disso. Mas antes, precisa de saber como ele foi encontrado, porque é esse pormenor que torna tudo ainda mais difícil de aceitar.
A última vez que alguém viu o Gabriel com vida foi numa quinta-feira à noite, dia 21. Esteve onde sempre esteve, onde se sentia em casa, num ginásio no bairro da Moca. Um amigo que o conhecia há 4 anos e trabalhava com ele, esteve cerca de meia hora na companhia dele ali. Foi um encontro comum, banal, o tipo de despedida que ninguém regista na memória, porque ninguém imagina que vai ser a última.
Depois dessa noite, o silêncio. A mãe tentou o contacto, a família tentou, os amigos tentaram e nada. As mensagens não eram respondidas, as chamadas não eram atendidas. sexta-feira inteira sem sinal. E aqui há um pormenor que torna tudo ainda mais cruel na sua simplicidade. Ninguém entrou em pânico de imediato, porque já tinha acontecido antes.
O Gabriel às vezes apenas dormia, desligava do mundo, deixava as mensagens acumularem-se e reaparecia depois com aquele sorriso, pedindo desculpa pela demora. Imagine por momentos ser a mãe desta história. Cada hora de silêncio, divide-se entre a preocupação e a vontade de acreditar que é apenas mais uma daquelas vezes em que dormiu demais.
Você quer estar errada de tanto se preocupar. Reza para estar errada, mas o silêncio não quebrou. Não à sexta-feira, não na manhã de sábado. E quando a noite de quinta-feira virou dois dias inteiros sem nenhuma resposta. A vontade de acreditar que estava tudo bem já não conseguia mais segurar o medo.
Foi quando o amigo decidiu ir até ao apartamento. Não dava mais para esperar. Ele chegou ao edifício na manhã de sábado. Os funcionários do condomínio confirmaram. O Gabriel estava em casa, não tinha saído. As luzes do apartamento estavam acesas. Alguém ali dentro ou tinha passado a noite acordado ou nunca chegou a apagar as luzes.
O amigo bateu, chamou. Nada respondeu do outro lado e é nesse instante parado diante de uma porta que não se abre, com a luz a escapar por baixo dela e nenhum som lá dentro. Que esta história deixa de ser sobre um sonho interrompido e passa a ser sobre uma perda que não tem mais volta.
A porta precisou de ser arrombada com a ajuda dos funcionários do prédio. E do outro lado, o amigo encontrou o que nenhum amigo deveria encontrar. Gabriel, de apenas 22 anos já sem vida. Os detalhes exatos daquela cena pertencem à família e à investigação e não a um vídeo. O que importa, o que dói é simples. Um rapaz que dois dias antes ria num ginásio estava ali sozinho e não havia mais nada a fazer.
A polícia foi chamada e o caso entrou nos registos com uma frase fria, técnica daquelas que só a burocracia consegue criar perante uma tragédia: morte suspeita, morte súbita sem causa determinante aparente. O apartamento, segundo a perícia, estava limpo e organizado. Não havia sinal de luta, não havia sinal de violência, nada de invasão, nada de brigas.
O que tinha ali acontecido não veio de fora, veio de dentro. A perícia recolheu materiais do apartamento para análise, parte do procedimento normal em qualquer morte sem causa aparente. E a investigação continua em aberto até hoje. Mas a questão que pairava sobre tudo era uma só, a mesma que talvez esteja na sua cabeça agora.
Como? Como um rapaz de 22 anos, atleta no auge da forma física, simplesmente morre sozinho em casa, sem violência, sem aviso, sem explicação aparente. No dia seguinte, um domingo, o A mãe de Gabriel, Clarice, encontrou forças para falar publicamente pela primeira vez e escolheu uma palavra que diz muito. Chamou à morte do filho de fatalidade.
disse que a partida do O Bibzinho foi uma fatalidade e que a a família, os amigos, os atletas, os Os patrocinadores e os treinadores estavam apoiando-se uns nos outros para encontrar força e conforto, fatalidade. Guarde esta palavra, porque poucos dias depois o relatório iria explicar exatamente por a mãe dele estava certa ao escolhê-la.
E o que este relatório revelou é a parte que toda a família precisa de ouvir até ao fim. Na segunda-feira, enquanto a família se preparava-se para se despedir, saiu o resultado do relatório do Instituto Médico Legal. E a resposta a essa pergunta torturante, como finalmente apareceu. Não era veneno, não fera acidente, não era violência.
A causa estava dentro do O próprio coração de Gabriel e tinha um nome que a maioria das pessoas nunca ouviu na vida. Cardiomeopatia hipertrófica. E aqui é onde preciso a que preste atenção, como se a vida de alguém que ama dependesse disso. Porque pode depender? Vou explicar o que é esta doença com as palavras mais simples possíveis, sem termo de médico, porque é isso que pode proteger a sua família.
O coração é um músculo, um músculo que trabalha toda a vida sem descanso, bombeando sangue de dia e de noite. Na cardiomeopatia hipertrófica, uma parte deste musúsculo cresce para além do normal. A parede do coração fica espessa demasiado, mais rígida, mais dura. E um coração com a parede demasiado espessa tem dificuldade de fazer o trabalho mais básico dele, encher de sangue e bombear direito.
Pior do que isso, esta parede engrossada pode estragar os sinais elétricos que comandam o ritmo dos batimentos. O coração, que deveria bater num compasso certo, pode, de repente disparar a um ritmo descontrolado. E quando isso acontece, em segundos, o coração deixa de bombear sangue para o cérebro. A pessoa cai e, se ninguém socorrer naquele preciso instante, não a volta.
Ora, o pormenor que faz essa doença ser tão cruel e que é o coração de todo este vídeo, na maioria dos vezes, ela é genética. A pessoa já nasce com ela, transporta no corpo desde o primeiro dia de vida e pode passar anos, décadas, sem dar absolutamente qualquer sintoma, sem aviso. A pessoa cresce, treina, vive, parece o retrato da saúde e o tempo todo carrega este admecido dentro do peito.
Releia isso na sua cabeça. A pessoa pode parecer perfeitamente saudável e transportar uma bomba relógio no coração sem nunca saber. E em muitos casos, segundo os médicos, a primeira manifestação da doença é precisamente a morte súbita. A primeira vez que a doença dá sinal de vida, para muitas pessoas é o último dia de vida. Não há dor antes que avise.
Não tem tosse, não tem febre, não tem mal-estar que o mande correr para o hospital. Para muitos, o primeiro sintoma e a morte são a mesma coisa no mesmo instante. É por isso que a mãe de Gabriel usou a palavra exata quando disse que foi uma fatalidade. Porque foi. E agora junte os pontos comigo com cuidado, porque aqui é fácil concluir demasiado rápido.
Lembra-se do número que eu pedi-lhe para guardar lá atrás? O estudo do European Heart Journal, mostrando que os culturistas têm risco muito maior de morte súbita. Os médicos explicam que esta doença do coração costuma manifestar-se justamente nos momentos de esforço físico intenso. E o esforço intenso era o dia a dia da profissão de Gabriel.
Ninguém pode afirmar com certeza o que desencadeou o que lhe aconteceu. Isso, a investigação ainda pura. Mas o encontro entre um coração com uma falha silencioso e uma vida de esforço extremo é para os cardiologistas uma combinação que merece toda a atenção do mundo. Os os médicos explicam ainda um ponto importante e que vale a verdade.
Existem estudos que mostram que algumas substâncias utilizadas no meio do culturismo também podem engrossar o músculo do coração e imitar ou agravar um quadro destes. A investigação sobre Gabriel continua em aberto precisamente para esclarecer todas as circunstâncias. Mas há um facto que não se pode ignorar. A A cardiomiopatia hipertrófica, na forma genética atinge gente que nunca chegou perto de um ginásio.
Atinge cerca de uma pessoa em cada 500 no mundo inteiro. E é aí que esta história deixa de ser sobre um rapaz famoso e passa a ser sobre si, sobre os seus, sobre quem você ama. Porque há uma coisa que dava para fazer, uma coisa simples e quase ninguém faz. Eu disse no fim da parte anterior que havia uma coisa simples que dava para fazer. E é verdade.
Existe um exame, exame esse que na maioria das vezes vê esta doença silenciosa antes que ela tenha sem hipótese de dar o primeiro e último aviso. Ele chama-se ecocardiograma. E para quem nunca ouviu o nome é mais simples do que parece. É basicamente um ultrassom do coração, o mesmo tipo de ecografia que toda a mãe conhece da gravidez, só que apontado pro peito, mostrando o coração a bater na tela. Não dói, não fura, não usa agulha.
A pessoa deita-se, o médico passa o aparelho sobre o peito e no ecrã aparece o coração a trabalhar com a espessura de cada parede medida em tempo real. É neste exame que a parede demasiado espessa aparece. É aí que a doença que não dá sintoma, que não avisa, que se esconde a vida inteira, torna-se finalmente visível aos olhos de um médico.
Pense em quantas pessoas que conhece que já fizeram o ecografia da barriga, do rim, da tiroideia. E agora pense quantas você conhece que já fizeram do coração? Quase ninguém. E é exatamente aí que mora a tragédia que se repete. Os cardiologistas são claros sobre quem deveria estar atento. Existem sinais que o corpo às vezes dá e que costumam ser ignorados ou confundidos com falta de preparação física, falta de ar desproporcional ao esforço daquelas que não correspondem ao tamanho da atividade.
Dor no peito, palpitição, o coração disparo sem motivo, tonturas e o sinal mais grave de todos, desmaio, principalmente durante o esforço físico. Um jovem que desmaia a treinar não está apenas fraco ou sem comer em condições. Pode ser o coração a pedir socorro. E quase sempre esta mensagem é ignorada.
Mas tem um sinal que vale por todos os outros e que é o mais importante desta conversa toda, sobretudo para quem tem filhos e netos. É uma pergunta, uma pergunta que pode salvar uma vida na sua própria família. Alguém da família já morreu de repente, jovem antes dos 40 anos, de causa do coração ou sem explicação? Porque estas doenças é genética.
Ela corre no sangue. Ela passa de pai para filho, de mãe para filho. E os médicos recomendam com todas as letras que quando uma pessoa é diagnosticada, os familiares de primeiro grau, pais, irmãos, filhos, também sejam examinados, porque a doença pode estar escondida, calada em mais do que um membro da mesma família ao mesmo tempo.
Imagine a quantidade de famílias que poderiam descobrir que há tempo. Um único exame num familiar, abre os olhos olhos para uma casa inteira. É esta informação que ninguém espalha e é a que pode espalhar a partir de hoje. A doença não tem cura. É verdade. Quem nasce com ela vive com ela. Mas e este é tudo. Quando descoberta pode ser controlada.
Existem medicamentos que diminuem a força com que o coração se contrai e ajudam a controlar os batimentos. Existe, para os casos de alto risco um pequeno aparelho que pode ser implantado no peito e que funciona como um guarda-costas do coração. Se o ritmo dispara perigosamente, ele dá um choque interno e devolve o coração ao compasso certo.
Salvida no segundo em que ela está por um fio, existem orientações sobre quais os esforços a evitar. Em outras palavras, descoberta a tempo, que sentença deixa de ser sentença. É isso que torna a história de Gabriel tão dolorosa e, ao mesmo tempo, tão importante de ser contada, porque o que faltou não foi força, não foi disciplina, não foi vontade de viver.
Faltou ver a tempo aquilo que nenhum espelho mostra e que só um exame revela. E se está a achar que isso é coisa rara, que acontece apenas com atleta, que nada tem a ver com a sua vida e da sua família, preciso de te mostrar o quadro maior, porque ele é muito mais comum do que se imagina. A morte de Gabriel não foi a primeira e, infelizmente, não vai ser a última.
Ela faz parte de um padrão que tem vindo a crescer e que os médicos observam com preocupação cada vez maior. Lembra-se do estudo do European Heart Journal que eu pedi-lhe para guardar lá no início? Vale agora a pena olhar para ele por inteiro. Os Os investigadores acompanharam mais de 20.000 culturistas ao longo de anos.
identificaram 120 mortes entre eles. E quase quatro em cada 10 destas mortes foram mortes súbitas do coração. Pessoas jovens, fortes, aparentemente saudáveis, que simplesmente caíram. O investigador, que liderou o estudo da Universidade de Pádua, em Itália, disse uma frase que deveria estar em todo o lado.
Ele afirmou que tem vindo a observar um número crescente de mortes prematuras entre as pessoas do mundo do fitness e do culturismo, que estes casos que atingem precisamente os jovens e aparentemente saudáveis mostram que ainda se sabe muito pouco sobre os riscos de saúde a longo prazo deste estilo, de vida levado ao extremo.
Leia de novo. Jovens e aparentemente saudáveis são aqueles que caem, não os doentes que todos vêem, os que parecem o retrato da saúde. É essa a parte mais assustadora de tudo. E aqui é preciso falar de uma coisa com muito cuidado, porque é delicada. Vivemos numa época em que o corpo perfeito se tornou uma religião.
Abra qualquer rede social e vai ver milhões de jovens perseguindo um padrão corporal que muitas vezes só existe à custa de sacrifícios que o público não vê. Treinos extremos, dietas que roçam a punição. E no lado mais negro deste mundo, o uso de substâncias perigosas vendidas como atalho para o corpo dos sonhos.
Os médicos alertam que em quem já tem uma doença escondida no coração, estas substâncias podem ser a gota d’água, podem agravar, podem acelerar, podem transformar um risco numa tragédia. É importante repetir em respeito Gabriel, ele competia no natural e nada foi confirmado contra ele. Mas a conversa maior, a que importa para a sua família é esta: a pressão por um corpo perfeito está a empurrar uma geração inteiro de jovens para um limite que o corpo humano não foi feito para suportar e muitos deles não fazem ideia do que carregam dentro do peito enquanto se
cobram cada vez mais. E aqui que esta história que começou num apartamento em São Paulo chega a sua casa. Talvez tem um filho, um neto, um sobrinho que vive na academia, que mudou o corpo demasiado rápido nos últimos meses, que fala de dieta, de definição, de competição, de suplemento, com uma intensidade que por vezes assusta.
Não se trata de proibir, de brigar, de cortar o sonho de ninguém. Treinar é saudável. Querer cuidar do corpo é bonito. Trata-se de uma só coisa. Garantir que este coração jovem foi olhado por dentro pelo menos uma vez. Que alguém passou aquela ecografia no peito dele e disse: “Pode ir, está tudo bem lá dentro. Porque o que mais dói na história de O Gabriel não é o que fez.
É o que poderia ter sido evitado se a falha silenciosa tivesse sido encontrada a de tempo. E essa possibilidade, a de encontrar a tempo, não morreu com ele. Continua aberta, disponível ao alcance de qualquer família que decida olhar. Na segunda-feira, dia 25, a Fafília reuniu-se para se despedir. Foi como Gabriel queria, uma cerimónia simples, reservada apenas para os mais próximos, seguida de cremação às 11 da manhã.
Mas a mãe dele fez um pedido ao Brasil inteiro que tinha aprendido a amar o filho. Pediu que àquela hora quem pudesse parasse por um instante, fizesse uma oração, um pensamento e enviasse uma vibração de luz para o Gabriel. e milhares de desconhecidos, gente que só conhecia o rapaz através do ecrã do telemóvel, pararam de verdade.
Clarice, a mãe, escreveu um texto que vale a pena ouvir com atenção, porque nele cabe a vida inteiro do filho em poucas linhas. Ela disse que a sua passagem pela terra foi rápida, intensa, indescritível, que ele foi movido pelo amor, ao desporto, aos fãs, aos amigos, à família e, acima de tudo, ao culturismo.
E depois veio a frase que mais dói e mais explica quem era aquele menino. Porque esta frase mostra que tudo o que aconteceu já estava escrito no seu coração muito antes de estar no relatório. Não no sentido trágico, no sentido do sonho. A mãe contou que estava ali a realizar-se o sonho de um miúdo carioca que desde pequeno dizia-lhe que ia ser imenso.
imenso era a palavra que a criança usava e a criança cumpriu. Ele ficou imenso no corpo, imenso no número de pessoas que o amavam, imenso na falta que deixou. O que ninguém imaginava é que esse mesmo corpo imenso construído para realizar a promessa de um menino transportava dentro de si aquilo que ia interromper tudo.
A despedida reuniu mais do que a família. O meio do o fisiculturismo parou. Outros influenciadores, atletas, pessoas que partilhou academia e palco com ele, vieram a público dizer o que ele significava. E a mãe fez questão de referir pelo nome o treinador de Gabriel, Marcelo Cruz, pedindo-lhe que ajudasse a levar adiante o legado do menino.
Não era só luto, era a tentativa de transformar uma perda sem sentido em alguma coisa que continuasse de pé. E é exatamente isso que esta história pode fazer por si. Se deixar, porque o que veio antes do Gabriel mostra que nunca esteve sozinho nesta estatística, mesmo tendo morrido sozinho. Talvez esteja pensando que o que aconteceu ao Gabriel foi um azar único, uma daquelas tragédias raras que apanha uma pessoa entre milhões.
queria que fosse, mas a verdade é que o coração que falhou no O peito dele já tinha falhado exatamente do mesmo modo no peito de outros antes. Gabriel não inaugurou esta história. Ele é o capítulo mais recente de uma que se repete há décadas e que ninguém aprende. A doença que o relatório nele encontrou tem nome e tem histórico.
26 de junho de 2003. Mark Vivin Fo jogador de futebol dos Camarões 28 anos, ruiu sozinho no Relvado durante uma semifinal internacional sem que ninguém lhe tocasse diante das câmaras do mundo. A causa confirmada depois foi a mesma palavra que figuraria no documento de Gabriel mais de 20 anos à frente. Cardiomiopatia hipertrófica, o mesmo coração espesso demais, o mesmo silêncio antes do golpe.
A diferença é que Fué caiu em campo na frente de milhões e Gabriel caiu sozinho numa cozinha sem ninguém para ver. Mas o assassino dentro do peito era idêntico. E se pensa que foram só estes dois, segura, porque a lista é longa e cada nome dela poderia ter sido o Gabriel. Antes de Gabriel, antes de Fo Estados Unidos já enterravam os seus.
HK Gers, Estrela do Basquetebol Universitário, apontado como um dos melhores do país, caiu durante um jogo e morreu aos 23 anos, apenas mais um que o Gabriel. Vermelho Lewis, capitão de uma equipa profissional da NBA, partiu da mesma forma. Pit Maravit, lenda do basquetebol americano, morreu aos 40 numa pelada qualquer e só na autópsia descobriram o defeito que carregou no coração toda a vida sem desconfiar.
Como Gabriel carregou o dele? Flo Heiman, uma das maiores jogadoras de voleibol do planeta, medalhada olímpica, caiu numa partida e não voltou. Olhe para estes nomes e veja o Gabriel em cada um, jovens, fortes, no auge, derrubados por dentro, sem aviso. E o que torna a morte de Gabriel ainda mais revoltante é descobrir o tamanho disso.
Os cardiologistas calculam que a doença que o matou responde por cerca de 1/3 de todas as mortes súbitas em atletas. 1/3. O Gabriel não caiu numa exceção rara. Caiu na causa número um, a mais conhecida, a mais estudada, a que os médicos já sabem fazer o rastreio há anos. Morreu de algo que a medicina entende. É isso que dói. E o mais perturbador é que esta armadilha que apanhou o Gabriel não é nova.
Ela vem praticando o mesmo preço desde antes de existir o ginásio, suplemento ou competição. Recu 2.500 anos até 490 antes de. Cristo. Um soldado grego chamado Fidipides recebe a ordem de correr da planície de maratona até Atenas 42 km para anunciar uma vitória. Corre tudo sem parar, chega à praça, grita a notícia e cai morto em frente a todos.
É um dos primeiros relatos de morte súbita por esforço extremo de que a humanidade tem registo. Pense no que isto significa para a história do Gabriel. Dois milénios e meio separam aquele soldado deste rapaz e o corpo humano continua a encontrar o mesmo limite no mesmo órgão, da mesma forma. Mudou a roupa, mudou o desporto, mudou o século.
O ponto fraco continua a ser o coração. Só que há uma diferença brutal entre Fedipes e Gabriel, e é ela que transforma o luto em revolta. O grego morreu numa época sem medicina, sem diagnóstico, nem pensar. Gabriel morreu em 2026, num tempo em que a sua doença podia ter sido vista. Porque o detalhe mais cruel desta condição é que ela costuma ser silenciosa.
A maioria dos que caíram, como provavelmente o próprio Gabriel, não sentia nada, não tinha o que ignorar, porque não havia sintoma para ignorar. Os médicos descrevem-na como traiçoeira, capaz de se esconder mesmo de parte dos exames de rotina, exigindo o exame certo para comparecer. E é por isso que a recomendação existe há décadas e quase ninguém o segue.
Quem tem esta doença precisa de ser afastado do esforço extremo e toda a família precisa de ser examinada. Gabriel entra nesta lista de nomes não como mais um número frio. Entra como a prova mais recente de que esta conta ignorada desde a Grécia antiga, continua a ser cobrada de gente jovem e entra também como motivo pelo qual está prestes a ouvir a única parte boa desta história.
Tudo o que ouviu até agora foi sobre quem caiu e não se levantou. E O Gabriel está nesse grupo, mas existe uma outro grupo, o de quem caiu da mesma forma como ele voltou. E é olhando para este grupo que nós entendemos com dolorosa claridade o que faltou no sábado de manhã em que Gabriel foi encontrado sozinho.
12 de junho de 2021, Europeu, o dinamarquês Christian Eriksen, de 29 anos, atleta de elite, caiu no relvado sem que ninguém lhe tocasse. O coração dele parou ali igualzinho ao que aconteceria com Gabriel, um jovem forte no auge, derrubado por dentro de repente. A diferença entre os dois não foi o coração, foi tudo o que veio depois do coração parar.
Preste muita atenção nos próximos segundos desta história, porque é aqui que está a resposta à pergunta que talvez te persiga. Dava para salvar o Gabriel? Quando Eriksen caiu, os companheiros formaram um círculo à sua volta e dentro daquele círculo, os médicos agiram em segundos. Massagem cardíaca e um desfibrilhador, o aparelho que dá um choque elétrico capaz de arrancar o coração do ritmo da morte e devolvê-lo ao da vida.
O médico da seleção dinamarquesa disse depois, sem rodeios que Eriksen tinha partido, que estiveram muito perto de o perder, mas não perderam porque o socorro estava ali ao lado e foi imediato. Eriksen se sobreviveu, voltou a jogar no mais alto nível, disputou um Campeonato do Mundo, segue em campo até hoje.
E agora volte para o Gabriel. Lembra-se do que tornou a morte dele tão silenciosa? Ele estava sozinho, dois dias sem que ninguém conseguisse contacto. Quando o seu coração falhou, não houve um círculo de gente em redor, não havia médico ao lado, não havia desfibrilhador, não havia ninguém para chamar socorro nos segundos em que os segundos eram tudo.
Eriksen caiu rodeado de ajuda. Gabriel caiu rodeado de silêncio. A doença era a mesma. O que mudou o destino foi quem estava por perto à hora exata. Para continuar a viver, Eriksen passou a transportar no peito um desfibrilador implantável do tamanho de uma caixa de fósforos que vigia o coração de dia e de noite dá o choque sozinho se o ritmo disparar.
Um guardião instalado mesmo ao lado do coração que um dia falhou é o tipo de proteção que existe, que funciona e que poderia ser oferecida a alguém diagnosticado há tempo, alguém como o Gabriel, se a sua doença tivesse sido encontrada antes. E é aqui que esta história deixa de ser sobre o passado do Gabriel e passa a ser sobre o futuro da quem ama, porque existe um número que muda tudo em países como a Itália.
Há décadas que existe um programa obrigatório de avaliação do coração antes de qualquer atleta competir. Exame clínico, eletrocardiograma, rastreio séria. E os médicos calculam que com uma avaliação bem feita antes da prática, acompanhamento regular e treino orientado, mais de 90% dos eventos inesperados do coração no desporto poderiam ser evitados, 90%.
Pense no Gabriel dentro desta conta. Pense em quantos dos nomes que ouviu hoje poderiam estar vivos. A morte dele não foi um destino impossível de mudar. Foi uma das que entram naquela imensa maioria que tinha como ser evitada. É isso que faz com que a perda de Gabriel arder de uma forma diferente. Não foi falta de força, de disciplina, de vontade de viver.
Disso tinha de sobra. Foi a falta de um olhar a tempo para dentro do peito dele, de um exame que ninguém pediu, de um sinal que ninguém sabia procurar. O corpo que ele esculpiu em frente de milhões era visível para o mundo inteiro. O perigo que o habitava não era visível para ninguém. E essa distância entre o que se vê e o que se esconde foi o que custou tudo.
Gabriel Gunley tinha 22 anos. Tinha uma alcunha de menino, um sorriso que desarmava qualquer um e um sonho que estava há poucas semanas de subir a um palco. Ele fez tudo com a maior das entregas. Treinou no limite, escolheu o caminho mais honesto do desporto, tratou as pessoas com uma doçura que os amigos não vão esquecer e mesmo assim partiu sozinho numa cozinha num sábado de manhã por causa de uma falha que carregava no coração desde o dia em que nasceu e que ninguém teve a oportunidade de ver.
A mãe dele chamou-lhe fatalidade e foi. Mas talvez exista um sentido que possa nascer dessa dor toda. Toda a mãe que está a ouvir isto carrega no peito uma preocupação que nunca dorme, a de que os filhos estejam bem de verdade por dentro e por fora. A gente olha para um filho forte, sorridente, cheio de vida e acredita que está tudo bem.
A história do Gabriel ensina da forma mais difícil que, por vezes, o que ameaça quem amamos não se vê no espelho, não se vê na foto, não se vê no sorriso. Vive escondido, em silêncio, à espera, mas a gente não está sem saída face a isso. Existe o exame, existe a questão sobre o histórico da família, existe a hipótese de olhar para a tempo e existe, principalmente a conversa que pode ter hoje com quem você ama.
Se tem um filho, um neto, alguém querido que vive a treinar, que leva o corpo ao limite, faz uma coisa por essa pessoa ainda hoje. Mande esta história para ela. Peça-lhe que faça um simples exame do coração. Pode ser a conversa mais aborrecida da semana e pode ser também a conversa que lhe salva a vida. Gabriel não teve essa oportunidade.
Quem lhe ama ainda tem.