O que começou como o atendimento de rotina a uma fatalidade viária em uma pacata estrada provincial na região da Lombardia, no norte da Itália, transformou-se em uma das investigações criminais mais complexas e perturbadoras da história recente do país. O caso, que envolve ganância, múltiplos relacionamentos amorosos e manipulação psicológica, colocou os holofotes do Poder Judiciário europeu sobre a brasileira Adilma Pereira Carneiro. Conhecida pela imprensa local pelos apelidos de “Louva-a-Deus de Parabiago” e “Viúva Negra”, Adilma enfrenta um julgamento decisivo que pode resultar em sua permanência definitiva atrás das grades, após a promotoria pública italiana formalizar o pedido de prisão perpétua.
O estopim para a descoberta da rede de crimes ocorreu ao fim de uma tarde, quando o comerciante italiano Fábio Ravázio, de cinquenta e dois anos, retornava do trabalho pedalando sua bicicleta. O trajeto habitual foi violentamente interrompido quando um automóvel invadiu a pista contrária e o atingiu de forma fatal. O condutor do veículo fugiu do local sem prestar socorro. Inicialmente, as autoridades locais trataram o episódio como um trágico caso de atropelamento com omissão de socorro. No entanto, a perícia e os investigadores da polícia italiana começaram a notar inconsistências que quebravam a narrativa de uma fatalidade. Depoimentos de testemunhas indicavam movimentações atípicas na região momentos antes do impacto, e descobriu-se que o veículo envolvido havia passado por reparos mecânicos suspeitos pouco tempo antes do ocorrido. Ficou evidente que o trajeto e os horários da vítima eram de conhecimento de um grupo coordenado: Fábio não havia sofrido um acidente, mas caído em uma emboscada cirúrgica.

À medida que os agentes aprofundavam as investigações para identificar os responsáveis pelo monitoramento e pela execução do comerciante, o comportamento de Adilma Pereira Carneiro passou a levantar sérias suspeitas. Embora tenha demonstrado profundo sofrimento e chorado publicamente durante as cerimônias de despedida do marido, os laços que a uniam ao crime organizado e a uma complexa rede de amantes começaram a emergir. A reviravolta foi consolidada com a prisão da brasileira, apontada pelo Ministério Público como a mente intelectual por trás do homicídio. A motivação, segundo as autoridades, residia puramente no interesse financeiro: o patrimônio de Fábio Ravázio era avaliado em aproximadamente três milhões de euros, o equivalente a dezoito milhões de reais.
Para garantir o sucesso do plano e a consequente posse dos bens, Adilma estruturou uma verdadeira operação militar que levou semanas para ser desenhada. Com promessas de recompensas financeiras generosas e repasse de imóveis, ela conseguiu arregimentar e coordenar pelo menos sete cúmplices. O aspecto mais impressionante da engrenagem criminosa foi a composição do grupo: Adilma envolveu seus próprios filhos adultos, o namorado de uma de suas filhas e três homens com quem mantinha relacionamentos afetivos simultâneos. Entre eles estava Marcelo Trifone, seu ex-marido no papel e eterno comparsa, e Máximo Ferret, outro amante ativo. Até mesmo o mecânico responsável por ocultar as avarias do veículo utilizado no atropelamento mantinha vínculos amorosos com a acusada.
O promotor responsável pelo caso, Ciro Caramori, descreveu Adilma como uma figura extremamente carismática e manipuladora, que colocava o dinheiro e a ascensão material no centro absoluto de sua existência. Relatórios do jornalismo local apontaram que ela se utilizava inclusive de práticas esotéricas e rituais religiosos para exercer domínio psicológico sobre seus parceiros, convencendo-os a executar suas ordens. Outro detalhe que chamou a atenção dos investigadores foi o fato de os filhos gêmeos que Adilma teve com Fábio terem sido registrados oficialmente pelo comerciante apenas um dia antes de sua morte, uma manobra jurídica que asseguraria o controle dos bens pela mãe na condição de tutora dos menores.
A quebra do sigilo e o avanço dos interrogatórios no Tribunal de Busto Arsízio abriram uma verdadeira caixa de Pandora sobre o passado da brasileira na Europa. Natural do Rio Grande do Norte e com passagens por São Paulo, Adilma já acumulava um histórico criminal na Itália, tendo cumprido pena anteriormente por tráfico internacional de drogas após ser flagrada com doze quilos de cocaína. Foi justamente no ambiente carcerário, durante um programa de ressocialização, que ela conheceu seu antigo cônjuge, Michele Dela Malva, um cidadão italiano que cumpria pena por duplo homicídio e possuía ligações históricas com a máfia.

A análise retroativa da vida de Adilma levou a polícia a reabrir o caso da morte de Dela Malva, ocorrida anos antes. Na época, o falecimento do ex-membro da máfia foi registrado como um mal súbito decorrente de um infarto. Contudo, novos depoimentos e evidências sugerem um cenário muito mais sinistro: ele teria sido dopado e forçado a ingerir uma overdose de cocaína. O executor do crime teria sido Maurízio Mazé, ex-amante de Adilma e, ironicamente, cunhado da própria vítima. A motivação para o primeiro assassinato teria sido a partilha de uma herança familiar e uma valiosa coleção de relógios de luxo. Mazé também figura entre os detidos pela participação no complô contra Fábio Ravázio.
No atual estágio processual, o julgamento caminha para as suas considerações finais. Enquanto a defesa de Adilma sustenta a tese de total inocência e alega que a cliente é alheia aos fatos narrados, a acusação mantém-se firme no pedido de punição exemplar para todo o núcleo familiar e afetivo envolvido. Além da prisão perpétua pleiteada para a brasileira e seus principais comparsas, as penas para os filhos e amantes secundários podem variar de nove a vinte e quatro anos de reclusão. Em paralelo à esfera criminal, os pais de Fábio Ravázio ingressaram com uma ação de indenização por danos morais e materiais que supera a cifra de dois milhões de euros. O veredito do Tribunal de Busto Arsízio representará não apenas o encerramento de um longo processo judicial, mas a resposta do Estado a uma das mais impressionantes sequências de traição e frieza de que se tem notícia na crônica policial europeia.