Cleber Tampinha: Como o ANÃO que sofria BULLYING se tornou o MAIOR JUSTICEIRO do MARANHÃO nos ano 90

Cleber Tampinha: Como o ANÃO que sofria BULLYING se tornou o MAIOR JUSTICEIRO do MARANHÃO nos ano 90

Cléber Rodrigues de Araújo, mais conhecido por Tampinha, nasceu em 1976 na cidade de Colinas, no interior do Maranhão. Baixo desde criança, com pouco mais de 1,20 m de altura, tornou-se alvo de piadas e humilhações dentro e fora de casa. Foi chamado de boneco, de aberração, de lixo. Na escola apanhava calado.

 Em casa era tratado como peso morto. Na adolescência desapareceu do radar da cidade. Ninguém ligava para onde ele ia. que fazia, nem onde dormia. Trabalhava de bico, vivia como sombra. Mas em 1998, um facto chamou a atenção. Um antigo colega de escola, com antecedentes de abuso e passagem pela polícia foi encontrado morto.

 Três meses depois, outro nome ligado ao passado violento de Cléber apareceu queimado dentro do carro. E aí começou a série: Todos os que humilharam Cléber na infância e que também tinham rabo preso com crimes e abusos, começaram a morrer um a um, sem provas, sem testemunhas. A cidade chamava-se coincidência. A polícia nunca prendeu ninguém, mas o seu nome voltou a circular, agora com respeito e medo, Cléber Tampinha.

 Mas antes de continuarmos com o vídeo, fale-me de onde está a ver e que horas são por aí. E não se esqueça de se subscrever no canal. Quem conheceu o Cléber Menino lembra-se de duas coisas: o tamanho e o silêncio. Pequeno demais pro uniforme da escola, demasiado calado para idade que tinha. Era o tipo de criança que não ocupava espaço, nem na sala de aula, nem na vida dos outros.

 Mas no recreio, ah, no recreio virava-se espetáculo. Chamavam-lhe tampinha, mini crente, pichote anão, boneco do diabo. Havia um miúdo mais velho, o bebé do Zé Batista, que adorava levantar o Cléber pelo colarinho e gritar à frente de todo o mundo. Ó boneco, onde está o teu comando, hein? A miudagem ria. O Kéber não, nunca se ria, nem respondia.

 Só baixava a cabeça, voltava para o canto dele e fingia que não lhe doía. Mas doía. Eu lembro-me disso porque vi vi-o chegar com o olho negro um dia. Vi esconder a mão magoada dentro do bolso. Vi o maneira que olhava para o chão, como se o chão fosse o único que não troçava dele. Naquele tempo, ninguém dava nada por ele, nem a mãe, nem o pai.

 Cléber era o terceiro de cinco filhos, mas parecia o último em tudo. Comia por último, dormia no canto e apanhava primeiro. Aos 10 anos, tentou fugir. Dormiu atrás da igreja matriz, debaixo de uma lona. esteve três dias desaparecido. Quando voltaram com ele, apenas ouviu a frase: “Tomara que tivesse morrido.

 Menino destes nem serve para puxar carroça. A escola era pior. Houve uma vez que o atiraram para dentro de um caixote do lixo, trancaram e deixaram lá até à hora da saída. O diretor fingiu que não viu. A professora mandou-o deixar de ser mole. Mas o que ninguém sabia é que Cléber guardava tudo. Cada nome, cada alcunha, cada empurrão, como quem marca dívida num caderno invisível.

E este caderno ele nunca esqueceu. O o tempo passou e a cidade também se esqueceu dele. Tornou-se apenas mais um adulto magro demasiado para a idade, demasiado baixo para ser levado a sério, demasiado quieto para incomodar. Mas Colinas ia aprender tarde demais, que até o mais pequeno dos homens pode carregar o peso de muitas mortes, porque foi num verão abafado, anos mais tarde, que encontraram bebé do Zé Batista a boiar no rio Itapecuru.

 Disseram que foi acidente, mas eu vi a forma como o Cléber olhou para o corpo que estava a ser resgatado. Não era surpresa, era acerto. O tempo tem uma forma estranha de passar em colinas. Não corre nem pára. Ele simplesmente se arrasta como uma cobra no mato seco. E foi neste arrasto que o O Kéber tornou-se adulto, sem fazer barulho, sem pedir espaço.

 Depois dos 15 anos, já ninguém lhe prestava atenção. Era como se se tivesse dissolvido no calor da cidade. O menino virado sombra, o tampinha agora um homem, se é que chamavam-lhe homem, trabalhava de bico. De manhã carregava caixa no mercado. À tarde ajudava um senhor num açogue. A noite varria a praça por conta própria, só para ganhar uns trocos com os donos de comércio, que não queriam confusões com a câmara municipal.

 Ninguém sabia onde vivia direito. Diziam que vivia nos traseiras de uma casa abandonada perto da beira do mato, um quartinho com telha avariado, colchão sujo e um fogareiro. Mas nunca ninguém foi ver porque ninguém se importava. Cléber era como um poste velho. Estava ali, mas ninguém reparava. Só que eu notava.

 Eu via a forma como ele observava, sempre com o olho meio escondido, cabeça baixa, mas o pescoço virando-se, acompanhando quem passava. Parecia distraído, mas estava atento, como se colecionasse passos, como se escutasse conversas com o ouvido do coração. A cidade começava a mudar. Aquele calor seco deu lugar a um ar pesado.

 Não era só o clima, era o clima das pessoas. Mais droga a circular, mais gajo armado nas quebradas, uns putos novos a querer espaço e alguns daqueles que se riram do Cléber na infância agora estavam metidos até ao pescoço com coisa errada. O Zeca da padaria, por exemplo, dava estaladas na cara do Cléber quando eram pequenos.

 Agora, virado o homem, era dono de uns pontos de jogo do bicho, conhecido por estorquir velhinho e bater na mulher. O Fábio Biloca, outro, tinha amarrado o Cléber num pé de árvore uma vez só para fazer graça. Hoje andava num Golo Vermelho. Vivia exibindo-se com cordão de ouro, mas já tinha sido investigado por desaparecimento de duas meninas.

E o bebé do Zé Batista, bem, esse já tinha sido levado pelo rio. Depois daquilo, começaram os coxichos. Ninguém dizia em voz alta, mas toda a gente pensava: “Será que foi ele o Tampinha? Não é possível.” Cléber reagia, continuava a andar do mesmo jeito. Cabeça baixa, passo curto, roupa gastas, mas algo nele tinha mudado.

 Não no rosto, no ar em redor. Era como se agora quando ele passava, o calor aumentasse um grau. Houve uma noite que eu vi. Varria à praça como sempre. Só que desta vez o Fábio Biloca passou de carro lentamente, olhou para ele, fez que ia gozar, mas não disse nada. Só fechou o vidro e acelerou. O medo tinha mudou de lado e o Kéber seguiu varrendo.

 Uma vez precisei de ir até ao esquadra resolver uma papelada. Quando estava a sair, paneleiro novo discutindo com um polícia. Estavam a falar baixo, mas captei umas palavras. Segundo da lista já. E os dois tinham ligação com aquele baixinho. Coincidência? Coincidência? É uma vez que aquilo me acendeu a pulga atrás da orelha, porque o segundo da lista era o Zeca da padaria.

 morreram ele e a mulher dormindo. Alguém ateou fogo ao quarto, fogo limpo, sem deixar quase nada. A polícia tentou dizer que foi vela acesa, mas a cidade sabia que o Zeca tinha mandado bater em gente errada. E o Cléber, no dia seguinte, apareceu cedo varrendo a rua da igreja. mesma cara, mesmo passo, mas algo nos olhos não era vazio, era cálculo.

 Os mais atentos começaram a afastar-se dele. Até os bêbados da praça evitavam sentar-se perto. Criança não se aproximava mais para brincar com o anãozinho engraçado. O o riso transformou-se em silêncio. O silêncio virou respeito e o respeito passou a ser medo. Só que nem todos estavam ligados. Ainda tinha uns que achavam que o Cléber era apenas um coitado.

 Gente como o Nival do Piauí, esse não tinha limite. Era camionista de fachada, mas vivia envolvido com receptação, droga, coisa pesada. E era do tipo que gostava de humilhar quem julgava mais fraco. Trombou com Kéber uma tarde perto do terminal velho. Disseram que gritou: “Sai da frente, anão, filho da puta, quer morrer pisado?” Cléber não respondeu, só saiu da frente.

 Mas três dias depois, o reboque do Nivaldo apareceu tombada numa curva que todo o mundo da região conhecia de olhos fechados. Morreu de imediato com a cabeça esmagada. O relatório disse que foi sono ao volante, mas alguém jurou ter visto uma pedra no travão de mão. A cidade agora sussurrava, mas ainda sem coragem para apontar, porque não era possível provar nada.

 Cléber não usava arma, não tinha passagem, não era visto com ninguém, não frequentava um boteco, não apanhava mulher, não fazia alarido, apenas varria. Varreu no enterro do Zeca, varreu no dia em que encontraram o corpo do Fábio, varreu depois do acidente do Nivaldo. E cada varrida parecia apagar o nome de um passado que se recusava a deixar vivo. Uma tarde sentei-me perto dele.

Queria ver de perto. Tinha um motivo e um medo escondido. Cléber estava com uma vassoura de piaçava varrendo lentamente. O sol batia forte e mesmo assim usava uma camisa de manga comprida, encardida de suor. Eu disse: “Calor da peste, hã?” Ele não respondeu, apenas olhou de lado, um olhar rápido, mas que atravessava.

 Fiquei calado por uns segundos e soltei. “Lembro-me de ti, pequeno, a escola de São Joaquim, não é?” Ele assentiu com a cabeça. “Nada mais. A gente não foi justo para consigo, Cléber. Desta vez parou, olhou em frente e disse baixinho, como quem fala para o vento, a cidade foi justa com alguém? Aquilo gelou-me, não pela frase, mas pelo tom.

 Não era raiva, não era tristeza, era constatação. Como quem aceita o que virou, como quem entende que agora faz parte do que precisa de ser feito. Levantei-me, deixei-o lá e nunca mais falei com ele. O que eu sei é que depois disso mais dois nomes desapareceram. O Ivanildo, que era ex-polícia e batia em tudo o que se mexia, desapareceu numa estrada de terra batida.

 Até hoje não encontraram o corpo. E o Marquinhos Cabeleira, que aliciava menor para serviço sujo, morreu envenenado. Dizem que foi cachaça batizada. Ninguém foi preso, mas toda a gente sabia ou fingia que não sabia. Na cadeia, os presos falavam dele como se fosse uma entidade. O Tampinha não fala, mas ouve o que ninguém ouve.

 Ele já entrou aqui uma vez, saiu sem deixar sombra. Dizem que mata com a mão, mas eu acho que mata com o pensamento. Lenda ou verdade, não sei. Só sei que nunca mais se ouviu riso quando ele passava e que os nomes iam caindo como folhas secas num sertão sem perdão. Chovia nesse dia, chuva grossa, de lavar a rua e arrastar lixo, coisa rara no meio do calor de montes.

Era como se o céu também tivesse cansado do calor seco, da poeira vermelha colando-se à alma. E juntamente com a chuva veio a notícia. Encontraram o corpo do bebé do Zé Batista a boiar no rio Itapecuru. Foi uma lavadeira que viu primeiro, gritou, as pessoas correram. Chamaram a polícia, mas não tinha muito que fazer.

 O corpo já estava inchado, roxo, os olhos virados num branco leitoso que só quem já viu é que percebe. Neném era conhecido, filho de um político reformado, dono de uma borracharia, metido à valente. Quando era miúdo, batia em quem achava fraco. Quando virou homem, batia por dinheiro. Dizia que era cobrador informal, mas toda a gente sabia que era a Giota e dos brabos.

 E foi ele o primeiro a gozar com o Cléber ainda nos tempos de escola. Ô boneco do inferno, vai brincar às escondidas com os anjos, vai? Era destas frases que grudam no tempo. Eu ouvi, lembro-me e tenho certeza que o Cléber também. A cidade tentou explicar a morte com as palavras de sempre.

 Escorregou, bebeu demais, foi nadar onde não devia, mas ali, olhando para aquela água turva, levando o corpo embora, houvesse algo que não descia redondo. Reparei num detalhe. Quando tiraram o corpo, o braço do bebé estava avariado, do tipo que não acontece só com a queda. Parecia torção. Tinha também marcas nos pulsos, como se tivesse sido preso antes, amarrado.

 Mas o relatório, o relatório dizia: “Afogamento acidental”. E Kéber, nesse mesmo dia, na mesma altura em que retiravam o corpo da água, estava a varrer a calçada da igreja matriz. Varria devagar, como sempre. Camisola de manga comprida, boné desbotado, o rosto queimado do sol. Ninguém falou com ele, mas eu vi.

 Vi o maneira como ele olhou para o carro da polícia passando com o corpo. Não era curiosidade, era silêncio. Silêncio que fala. A morte do bebé causou burburinho. A cidade é pequena e a morte violenta por aqui é como o trovão. Ninguém vê, mas toda a gente escuta. E começa o zum. Parece que estava a dever. Dizem que era mulher de outro. Foi o tráfico.

Só uma ou outra voz mais baixa arriscava o nome. E se foi o Tampinha? As pessoas riam, mas sem rir verdadeiramente. Era aquele riso nervoso de quem não quer acreditar, mas já não consegue ignorar. Cléberia. Seguia a sua rotina. mercado de manhã, praça à tarde, desaparecia à noite, nunca ia aos enterros, nunca falava sobre o passado, mas o que ninguém notava era o padrão.

 Os mortos tinham algo em comum, e não era só a ligação com o Cléber na infância, era sujidade. Cada um deles tinha histórico. O bebé, além de agiotagem, era acusado nos coxichos de abusar da sobrinha. A família abafou, a menina desapareceu da cidade. Diziam que foi para estudar em Teresina. Mentira. Ela fugiu, fugiu do inferno e agora o inferno tinha mandado cobrar.

 Pouco depois, a cidade voltou à sua dormência habitual, mas não por muito tempo. Veio a segunda morte, Zeca da padaria, homem de sorriso fácil e coração de pedra. Em criança, atirou o Cléber dentro de uma caixa de água velha, trancou com uma tampa e foi-se embora. Deixaram lá o menino durante duas horas.

 Quando o encontraram, Cléber tremia como um passarinho. A mãe deu uma chinelada nele. Por inventar uma coisa, o Zeca cresceu e tornou-se comerciante. Vivia devendo ao fornecedor e descontando na mulher. Já foi denunciado três vezes por violência doméstica. A polícia nunca apareceu. Até ao dia em que apareceu fumo, fogo no quarto, fogo alto, morreram ele e a mulher carbonizados.

 falaram em curto-circuito, mas o fio de alimentação estava cortado. Eu sei porque vi o boletim e o portão da casa arrombado. A cidade fingiu acreditar, fingiu com força, porque a verdade começava a bater forte demais. E Kéber, no dia seguinte ao incêndio, passou varrendo a rua da padaria.

 Os pedaços de vidro ainda estavam no chão. Varreu tudo, lento, firme. Quando terminou, colocou o lixo no saco e sentou-se na calçada. Ficou ali 20 minutos a olhar para o nada, talvez lembrando-se do que foi atirado ali para dentro. A cidade estava agora inquieta. Dois mortos, dois conhecidos, duas histórias com o mesmo homem, Cléber Tampinha.

 Mas como provar? Como acusar? O delegado novo, o Vinícius começou a ficar incomodado. Era daqueles gajos certos demais para o lugar errado. Chegou transferido de São Luís, cheio de vontade de fazer justiça. Achava que podia mudar as coisas. Pobre coitado, ele veio procurar-me. Disse o senhor que trabalhou anos no sistema conhece este tal de Cléber? Conheço.

 E o que acha dele? Acho que é um sobrevivente. Ele franziu o sobrolho. Mas o senhor acha que seria ele capaz? Eu interrompi. Capaz de quê? De fazer o que a lei não fez? Ele não gostou, agradeceu e saiu. Nunca mais perguntou-me nada. O terceiro corpo apareceu numa estrada de terra batida entre Colinas e o povoado de Genipo.

 Era o Fábio Biloca. Sabe aquele que trancou o Cléber dentro do caixote do lixo? Pois é, Fábio tornou-se empresário do ramo de segurança, como ele próprio dizia, mas toda a gente sabia. Era atravessador de arma, ligado a políticos locais, metido com desvio de carga, segurança de comício e ameaça por encomenda.

 O carro dele foi encontrado tombado com três perfurações na carroçaria, mas o corpo não estava lá. Dois dias depois, apareceu no beira de um açude, mãos atadas, boca cheio de terra, os olhos abertos, congelados, nunca souberam como ele foi para ali, nem quem o fez, mas o pânico era agora oficial.

 E Cléber, três dias antes da morte, foi visto perto da loja de construção do Fábio. Alguém filmou ele, caminhando pela calçada, olhando para o outro lado da rua. O vídeo circulou por WhatsApp. Título: “Olha quem estava rondando o biloca”, tornou-se viral, mas ninguém teve coragem de ir falar com Cléber, nem o delegado.

 Eu lembro-me do funeral do Fábio. Chuva outra vez, chuva como a primeira vez. gente de guarda-chuva a olhar para o chão. Ninguém falava alto, ninguém queria chamar atenção. E no canto do cemitério, ele Cléber sozinho, encostado a uma árvore, chapéu a tapar o rosto, não chorava, não rezava, só estava ali. Vi quando alguém reparou num parente do morto.

 O cara olhou, hesitou, quase foi ter com ele, mas não foi, porque naquele momento todo o mundo compreendeu o que ali estava não era um anão, não era um coitadinho, não era um doido, era uma sombra. e sombra, a gente respeita. Depois disso, a cidade mudou. Não oficialmente, mas na prática. Os que antes gozavam Cléber agora atravessavam a rua quando o viam vir.

 Dono de bar deixou de cobrar o que devia. Moleque que tentava gozar era puxado pela mãe pelo braço. Fica quieto, menino. Olha que ele ouve. Cléber virou-se fantasma em carne e osso. E as mortes pararam durante algum tempo, mas a tensão ficou como tempestade que não chega, mas faz o ar doer. Comecei a sonhar com ele. Sonhos estranhos, onde andava por ruas desertas com a vassoura na mão e cada varrida apagava o rosto de alguém no chão. Acordava a suar.

 Fui até ao igreja, falei com o padre, perguntei se O Kéber ia às missas. Ele disse: “Nunca entra, só fica à porta, ouve do lado de fora, vai-se embora antes da bênção. Por quê? Talvez ache que não merece perdão. Ou talvez ache que já fez justiça. Não sei. O que eu sei é que ainda hoje quando chove a cidade cala e quando o rio enche ninguém se aproxima.

 Porque naquele reflexo barrento, alguém se lembra sempre do bebé a boiar e de um homem pequeno varrendo a rua como se limpasse o mundo. O cheiro a queimado acordou a cidade antes da sirene e quando o primeiro grito veio, não havia mais nada para apagar. O céu ainda estava escuro, mas a luz do fogo já tingia os telhados da rua de São Benedito, com aquele tom laranja sujo de fim do mundo.

 Era a casa do Zeca da Padaria e o fogo não era acidental. Digo isto com a certeza de quem viu de perto. Vi o portão aberto à força, vi o fechadura arrancada. Vi o colchão queimado até ao ferro e vi os corpos. O Zeca e a mulher lourdinha dormiam no quarto da frente. Nem tiveram tempo de correr. Dizem que foi rápido, que o calor bateu e o pulmão fechou.

 Que morreram antes de acordar. Mentira. Zeca morreu com a mão esticada, tentando alcançar algo. A mulher caiu do lado oposto da cama, como quem tentou fugir. E a posição dos corpos não bate certo com a história do curto-circuito, nem com a da vela. A perícia disse que o fogo começou no colchão, mas esqueceram-se de explicar como é que o colchão pegou fogo sozinho e como é que, mesmo com o ventilador desligado, o incêndio alastrou tão rápido.

 O que ninguém teve coragem de escrever foi o que toda a gente viu. O fogo começou onde a cabeça do Zeca repousava. Foi execução. E execução em colinas. Há sempre história por trás. O Zeca era querido. Querido por quem não sabia, porque quem conhecia mesmo sabia do histórico. Era abusivo, violento. A mulher já apareceu roxa mais do que uma vez.

Dizia que tinha caído. Todo o mundo fingia acreditar. também tinha fama de ameaçar fornecedor, vender produto fora de prazo e explorar funcionário. Teve um caso com uma menina de 14 anos, sobrinha do esposa. A família calou-se, a cidade engoliu, mas o Kéber, o Cléber lembravam-se porque foi o Zeca que o trancou na depósito de água quando eram crianças.

 Uma brincadeira, diziam. Só uma brincadeira. O Cléber saiu de lá a tremer, mijado, quase sufocado e nunca mais esqueceu. Na manhã seguinte ao incêndio, Cléber apareceu varrendo o passeio da igreja, o mesmo de sempre. Camisola de manga comprida, rosto fechado, passo curto. Só que, dessa vez ele estava diferente.

 Não no modo de andar, mas na forma como os outros olhavam para ele. Antes era desprezo, depois a desconfiança, agora era o medo. Medo real, porque a cidade, ainda que em silêncio, começava a montar o quebra-cabeças. Primeiro o Neném, depois o Fábio, agora o Zeca. Todos com passado sujo, todos ligados ao Cléber e todos mortos.

 Três corpos, três histórias, três coincidências a mais. A missa de sétimo dia foi vazia. Ninguém queria estar ali. Parecia que o fogo ainda pairava sobre a igreja. As velas tremiam no altar. O padre falava, mas a voz eava como se ninguém escutasse. Cléber foi, mas alguém jurou tê-lo visto sentado no muro do cemitério à noite depois de tudo acabou, sentado, a olhar para o nada ou para o que restou.

 O delegado Vinícius voltou a procurar-me. Agora menos arrogante, mais perturbado. Três mortos, ninguém preso, nada de provas. Mas tá claro como água barrenta. Claro para quem? Perguntei. Pro povo? Para mim? Pro senhor também? Fiquei calado. Ele continuou. Mas não há como acusar um homem sem evidência. O Cléber não tem arma, não tem ficha, não tem rasto.

 Às vezes, delegado, o que mais mata não deixa a marca. Ele não compreendeu ou fingiu não compreender. Numa cidade como Colinas, o silêncio é uma forma de sobrevivência. As pessoas fingem não ver para não ter de tomar lado. Mas depois do incêndio começou a surgir um novo tipo de silêncio.

 Um silêncio com culpa, com receio, como se cada um olhasse para o passado e se perguntasse: “Fui cruel com ele também?” A resposta para muitos era assim. E foi aí que os sorrisos desapareceram, os valentões desapareceram, os que antes contavam vantagem, agora andavam depressa, olhavam para os lados e se perguntavam se estavam na lista.

 Ninguém sabia se existia uma lista, mas todos os sentiam como se ela existisse, como se Kléber tivesse um caderno guardado num canto escuro, onde cada nome riscado fosse mais um morto. E o mais estranho era que Cléber nunca festejava, nunca sorria, nunca deixava escapar nada. Ele simplesmente varria.

 Houve um dia em que o vi perto da estação rodoviária, sentado num banco. Era fim de tarde. O céu estava cor de ferrugem, o vento quente e ele ali imóvel, como uma estátua torta. Cheguei perto, sentei-me ao lado, ele não olhou. Ficámos calados por uns bons minutos e depois perguntei: “Você acredita no inferno, Cléber?” Ele respondeu sem hesitar.

 “Acho que o o inferno é o que sobra quando a justiça não vem”. Esta frase acompanha-me até hoje, porque no fundo Colinas nunca teve justiça, só esquecimento. Menina abusada, vai para Teresina, mulher espancada, caiu das escadas, rapaz morto em briga, estava metido. E o Kéber? O Kéber era o ajuste de contas que ninguém teve coragem de pedir.

 Só que mesmo assim ninguém dizia isso em voz alta, porque admitir seria o mesmo que concordar. Com o tempo, as conversas sobre as mortes começaram a mudar de tom. Antes era choque, depois medo, agora havia gente que falava com certo alívio. Zeca, merecia mesmo. O Biloca fez demasiada coisa. E o Kéber é maluco, mas está a limpar a cidade.

 Claro, sempre dito em voz baixa, ao fundo do bar, atrás do venda, no corredor da igreja. Mais dito, um dia, um rapaz chamado Ronnie, de uns 15 anos, decidiu gozar, encontrou o Cléber a varrer perto da escola antiga e gritou: “Então, anão do diabo? Vai-me matar também?” A mãe do menino que estava do outro lado da rua correu e deu-lhe um tapa na boca ali mesmo.

 Cala essa boca, menino. Quer sumir? Ronnie ficou branco, nunca mais falou. A cidade agora andava com cuidado e o Kéber com calma. Ele tornou-se uma sombra constante, pairando entre os becos e os dias. Não precisava fazer nada. A sua presença bastava como se ele carregasse nos olhos os fantasmas que ele próprio libertou.

 E mais do que isso, como se soubesse que ainda não tinha acabado, porque o fogo da madrugada foi apenas mais um capítulo, mais um aviso, mais uma página do caderno invisível. E quem cresceu a troçar do Cléber sabia disso. Sabia que a qualquer momento podia ser o próximo. Teve uma época em que toda a gente queria saber qual era o nome seguinte, mas ninguém tinha a coragem de perguntar, porque a pergunta certa não era quem, era por Colinas isso pesava mais.

 Saber que alguém podia estar a mirar-te, não por quem é hoje, mas pelo que fez quando o mundo não te via ou quando tu pensava que ninguém se ia lembrar. Kéber lembrava-se. E é aí que começa esta parte da história. Quando os coxichos viraram certeza, mas ninguém conseguia provar nada. quando o medo deixou de bater só nos culpados e começou a bater em todo o mundo.

 O quarto nome não era tão conhecido como os outros, mas para quem era da antiga, o seu nome batia forte: Ivanildo Brandão, ex-polícia militar. Na juventude andava fardado com peito estufado e dedo nervoso. Gostava de bater primeiro e perguntar nunca. Dizem que já derrubou o rapaz inocente só para mostrar serviço.

 E com o Cléber, foi além. Uma vez apanhou o menino com a camisa rasgada, regressando da escola, pensou que era um miúdo de rua, enquadrou, bateu com o cacetete na perna, depois nas costas. Cléber tentou explicar, mas a voz engasgava-se. Ivanildo não quis saber. Atirou-o para a carroceria da viatura como se fosse um bicho.

 Cléber esteve um dia inteiro preso por atitude suspeita. Saiu sem ficha e sem falar. Depois de ter saído da PM, Ivanildo virou segurança particular. Andava armado, dava uma aula de tiro informal, falava grosso no bar. Era o tipo de homem que chamava cabaça à mulher e ria quando alguém apanhava e desapareceu, tão simples quanto isso.

Um dia foi visto a conduzir rumo ao interiorzão, uma estrada de terra batida que leva para umas quintas afastadas. Disse que ia buscar gado, nunca mais voltou. O carro apareceu atolado, sem ninguém dentro. Porta aberta, chave na ignição, marcas de pneus e de passos a ir para o mato.

 Procuraram durante dias cães farejadores, helicóptero, tudo nada desaparecido. A cidade começou a tratar como um caso isolado, mas não o era porque três dias antes de desaparecer, Ivanildo discutiu com um rapaz na praça. Testemunhas disseram que o rapaz era baixinho, de boné e olhar parado. E quem mais nas Colinas andava assim? Foi aí que a cidade começou a admitir.

 Tinha uma lista. Ninguém sabia onde ela estava. Se escrita num papel, gravada na mente ou rabiscada nas paredes da alma do Cléber, mas ela existia. E toda a gente que algum dia passou do ponto com ele pensava que podia estar nela. Homem feito andava olhando por cima do ombro. Mulher que espalhava boatos evitava sair de noite.

Velho que o mandava apanhar coquinho, agora deixavam trocado no cantinho do muro, do lado da vassoura. Era como se estivessem a tentar apagar a dívida, mas já era tarde. Um amigo meu, antigo sargento reformado, telefonou-me certo dia. Rapaz, o Tampinha veio aqui para quê? Perguntei.

 Disse que estava à procura um nome. Perguntou por um tal de Marquinhos. O meu estômago virou. Marquinhos Cabeleira. Esse era lenda. Nos anos 90, Marquinhos era o homem do recrutamento alternativo. Arrastava miúdo da periferia para serviço ligeiro, levar bilhete, esconder coisa, entregar pacotinho. Até aqui nada de novo. O problema era o extra, o serviço pesado.

Marquinhos Aliciava, miúdo de 12, 13 anos que dizia que dava para o gasto. Houve um caso que vazou. Um miúdo que fugiu contou à avó. A velha foi à esquadra chorando. Dois dias depois, a casa dela foi incendiada. Ela sobreviveu, mas nunca mais falou no assunto. E o Marquinhos continuou solto, com um sorriso frouxo, cabelo pintado de loiro e o mesmo vício por um rapaz novo.

 E agora ele era o nome que o Cléber procurava. Dias depois, Marquinhos apareceu morto dentro da sua própria casa, envenenado. A polícia encontrou uma garrafa de cachaça pela metade e um copo no chão. A perícia encontrou vestígios de veneno de rato misturado, dos fortes, dos que secam o sangue por dentro. Ninguém viu quem entrou, ninguém viu quem saiu, mas o caseiro da casa ao lado disse que na noite anterior ouviu uma conversa voz baixa, mas reconheceu um detalhe.

 Era uma voz calma, quase sem emoção, tipo quem está a ler Bula de remédio. Cléber nunca foi acusado, nunca foi sequer chamado, mas o bar ficou cheio de comentários. Marquinhos fez por merecer. Estava escrito. Só foi mais um da lista. E a lista começou a crescer na cabeça das pessoas. Nessa altura o Kéber já não precisava de falar.

 Bastava aparecer. Houve um dia em que ele parou na porta da escola onde estudou. Ficou olhando durante uns minutos. criança lá no interior, professoras no pátio, pais chegando de moto. Ele não fez nada, só olhou. Mas bastou isso para uma das merendeiras sair a sentir-se mal. Era dona Lurdes, que nos anos 80 meteu a cabeça do Cléber dentro do tanque da cozinha para ele parar de chorar mingar.

 Naquela tarde ela pediu transferência. A cidade estava dividida. Havia quem achasse que O Kéber era apenas um doido com sorte. Tinha quem achava que ele era um instrumento de Deus. Havia quem dissesse que ele fazia parte de uma facção secreta e tinha quem só queria que ele se fosse embora. Mas ele nunca foi.

 Continuava ali pequeno, calado, invisível, mas cada vez mais presente. Certa noite, fui até ao antigo depósito da câmara municipal, onde Kéber às vezes dormia. Levei um cobertor e um pouco de comida. Quando cheguei, ele estava sentado no chão, escrevendo num papel dobrado. Fiquei parado, observando. Ele percebeu, guardou o papel no bolso.

 Trouxe comida?, perguntou. Trouxe. Entreguei o saco. Ele apanhou, mas não comeu logo. Você tá bem? Perguntei. Ele respirou fundo, olhou para o teto. O senhor acredita que há pessoas que só existem para sofrer? Não, acho que há pessoas que sofrem e aprende a existir de outra forma. Ele assentiu, ficou em silêncio.

 Antes de eu sair, perguntei: “Aquele papel é o que Estou a pensar?” Ele sorriu. Um riso triste. É apenas um lembrete. De quê? Do que o mundo esqueceu. Nunca mais vi aquele papel. Mas nessa noite soube, a lista existia. E não era só de nomes, era de dores, de recordações, de coisas que ninguém quis ouvir, mas que alguém teve de guardar.

 E Cléber guardava tudo. Depois disso, os assassinatos pararam por um tempo. Um silêncio estranho caiu sobre montes, mas ninguém relaxou. Era como se toda a cidade segurasse a respiração, esperando que o próximo nome ser riscado, porque a lista não era sobre justiça, era sobre lembrar. E Cléber era a memória viva do que Colinas fingia que nunca tinha acontecido.

Quando a justiça falha por demasiado tempo, o medo transforma-se em religião. E em Colinas, naquela altura, toda a gente rezava, não para Deus, mas para o Cléber não se lembrar. Porque agora já ninguém duvidava da lista. Só não sabiam onde ela começava, nem onde ia terminar. E enquanto os nomes caíam, um a um, o silêncio da cidade ia- se adensando.

 Não o silêncio comum, aquele de fim de tarde, com cigarra e calor, era outro, um silêncio de pedra. Foi num domingo, no final do mês de junho, que o ruído voltou, mas não foi sob a forma de explosão ou tiro. Veio sob a forma de um nome escrito com giz branco na parede do antigo colégio municipal. Ele sabe e está a chegar.

 Ninguém viu quem escreveu, ninguém limpou. O recado ficou ali durante dias, como sombra em parede de igreja. O delegado Vinícius mandou tirar uma foto, disse que era vandalismo, mas quando o empregado de limpeza foi apagar, tremeu a mão. “Eu conheço essa letra”, disse. “Letra de quem?”, perguntaram.

 “De um menino que desapareceu em 1993. Chamava-se Júlio. Era amigo do Cléber, o delegado Rio. Disse que era um disparate, mas anotou no caderno. Nessa altura, Cléber quase não era visto. Desapareceu por uns dias, nem na praça, nem no mercado, nem na igreja. Diziam que estava doente. Outros juravam que tinha ido embora. Mas o que ninguém sabia é que ele estava em silêncio.

 O tipo de silêncio que antecede a quebra, porque o nome seguinte da lista era alguém do sistema. O O procurador aposentado Alfredo Rocha era respeitado, homem de fala mansa, fato claro e olhar que julgava sem levantar a voz. Durante anos foi o rosto da justiça em colinas, mas era também a muralha onde muitos casos batiam e morriam.

 Acusações arquivadas, dossier sumidos. Um não há elementos suficientes. Repetido como mantra. Entre eles, o caso do Júlio, aquele amigo do Cléber, aquele menino que desapareceu sem deixar rasto. Dizem que a mãe implorou no gabinete do procurador, mostrou bilhetes. Tinha medo de um pastor que levava o menino a rezar na roça. Nada foi feito.

 O inquérito foi engavetado e a mulher morreu de AVC do anos depois. O Kéber nunca falou disso, mas no fundo nunca se esqueceu. O corpo do procurador apareceu dentro de casa, sentado na poltrona, de olhos abertos. Morte aparentemente natural, enfarte fulminante”, referiu o relatório. “Mas o que ninguém soube ou fingiu não ver foi o papel dobrado no bolso interior do palitó.

 Quantos arquivou?” Letra tremida, mas legível, sem assinatura. A polícia, claro, não divulgou, mas o recado correu e aí o silêncio virou pânico. Desta vez, Cléber foi chamado para depor, não como suspeito, mas como testemunha informal. O delegado o recebeu na salinha das traseiras. Nada de algema, nada de acusação direta, mas o clima era outro. Conhecia o Dr.

Alfredo? Kéber respondeu. Ele julgou-te alguma vez? Cléber olhou para o teto. Ele julgava sem processo, sem ouvir, sem sair da cadeira. O delegado anotou: “Estiveste em Colinas no fim de semana? Estou sempre. Há alguém que possa confirmar? Ninguém me vê, mas eu vejo todos.” Frase simples, mas carregada, como quem lança uma pedra num lago e sabe que as ondas vão chegar.

Depois desse depoimento, Cléber saiu andando calmamente no portão da esquadra, parou, olhou para os dois lados da rua e foi varrer à frente do açoug, como se nada tivesse acontecido. Mas nesse dia ninguém comprou carne. O cheiro do medo era mais forte do que o da gordura. Na cadeia, os presos falavam baixo.

 O nome de Cléber já não era mais dito, era sussurrado. Ele entrou sem arma, saiu sem algemas. Dizem que ele sabe quem vai morrer uma semana antes. A lista está no peito, não em papel. O carcereiro novo, rapaz vindo de fora, riu-se quando ouviu isso. Vocês acreditam em lenda a mais? Na mesma semana, o pneu do seu carro rebentou numa curva.

 Ele bateu e quase morreu. Coincidência? Ninguém quis saber. A câmara municipal mandou pintar as paredes do colégio. Tinta fresca, nova. Mas na semana seguinte, apareceu outro recado. A memória é o que a tinta não cobre. Desta vez usaram carvão. A cidade vivia agora em estado de atenção constante.

 Barulho de moto alta fazia-nos benzer. Toque na porta de madrugada dava calafrio. Até os pastores pregavam mais baixo, como se tivessem medo de chamar a atenção, porque O Cléber já não era apenas o tampinha. Ele era o peso da recordação. Era a presença daquilo que ninguém queria encarar. Era o castigo que vinha sem farda, sem sirene, sem sentença.

 Houve um dia em que um grupo de empresários quis fazer uma limpeza social, chamar uma firma de fora, pôr fim ao problema. Falaram isso num jantar fechado numa casa de quinta. Dois dias depois, um dos presentes teve o carro queimado. O outro recebeu um envelope com fotos antigas. Ele aos 19 anos a espancar um sem-abrigo com um pedaço de pau.

 Fotos que ninguém sabia que existiam. Depois disso, o grupo tornou-se desfez e Cléber voltou a varrer como se nada. O silêncio era agora mais pesado que qualquer grito. Ninguém tocava no seu nome, ninguém o olhava nos olhos, ninguém se atrevia, só o padre. Num domingo, no fim da missa, desceu do altar, foi até à porta onde Cléber sempre ficava, e disse: “Quer entrar?” Cléber respondeu: “Estou dentro há muito tempo, só que ninguém se apercebeu.

” O padre tentou sorrir. “Aqui é um lugar de perdão”. Cléber encarou. “Aqui é um lugar de memória.” E foi-se embora. O narrador, eu, nessa altura já sabia que não adiantava fugir à verdade. Cléber matava por prazer, nem por loucura. Ele matava por recordação, por cada silêncio que a cidade engoliu. E o mais assustador era que parte de mim compreendia, talvez até concordasse, porque às vezes justiça a mais faz a gente duvidar da sua própria inocência.

 E o Kéber, o Cléber era a dúvida que ninguém conseguia enterrar. O que Colinas não compreendeu no início, compreendeu tarde demais. Cléber nunca quis ser visto. Ele só queria que se lembrassem não dele, mas do que lhe fizeram, do que fizeram com os outros, do que a cidade fingiu não ver. E agora, mesmo sem dizer uma palavra, falava demasiado alto.

 Naquela semana, o calor era irrespirável. Céu branco, vento nenhum, nem os cães latiam. Era o tipo de tempo que deixava o povo irritado, mas ninguém se queixava, como se soubessem que havia coisa pior pairando no ar. E havia. Foi numa terça-feira. Às 15 horas que a cidade avariou, o delegado Vinícius foi atacado não por Cléber, mas por dentro.

 Entrou na esquadra, trancou a porta da própria sala e aí permaneceu até ao fim do expediente. Ligou para São Luís, pediu transferência, disse que já não dava, que aquilo ali não era só um caso de polícia, era espiritual. Sim, ele usou essa palavra. disse que sonhava com o Cléber parado à porta da sua casa, que ouvia passos onde não havia gente, que o nome dele estava na lista, mesmo sem nunca ter feito nada. Foi aí que eu percebi.

 O medo mudou de lado. Antes era Cléber quem tinha medo de tudo, agora era a cidade. Na mesma semana apareceu uma carta deixada no confessionário da igreja, sem assinatura. Um relato longo, detalhado. Alguém confessava que tinha ajudado a encobrir o desaparecimento de um menino nos anos 90.

 disse que era funcionário público, que tinha medo de falar na época e que agora sonhava toda a noite com a voz do miúdo a gritar: “O padre leu, engoliu em seco e queimou a carta. Não entregou à polícia, não comentou com ninguém, só reforçou as trancas da paróquia. Um vídeo começou a circular. Um destes gravados com um telemóvel velho, cheio de assobio, mostrava o Cléber caminhando lentamente pela rua do fio.

 Era noite. Passava pela frente de uma casa. A luz apagava-se, passava por um tasco, o som baixava, passava por uma praça, até os cães se calavam. O vídeo parava com ele, virando a esquina, e alguém por detrás da câmara sussurrava: “Ele é o fim das contas. O medo agora já não vinha das mortes, vinha do silêncio entre elas, do espaço entre um nome e outro, porque ninguém sabia se a lista tinha acabado ou se estava só esperando. Um comerciante tentou reagir.

O Sr. João, proprietário de uma loja de materiais, dirigiu-se à rádio comunitária, pediu para falar, disse: “A cidade está entregue ao medo de um homem só. Isto é um absurdo. Cinco dias depois, a loja dele foi pda. Uma única frase: quem tem medo tem culpa. O Sr. João fechou as portas, vendeu tudo, mudou paraa imperatriz.

 Foi então que alguém tentou o que ninguém tinha usado, enfrentar o Cléber. Foi o filho do Zeca da padaria, rapaz novo, criado em São Luís, metido a corajoso, voltou a enterrar o pai e ficou para resolver pendências. Num sábado à noite, esperou Cléber sair da praça e foi atrás. Parou -lo perto da ponte.

 Testemunhas disseram que estava nervoso. Gritou, apontou o dedo, chamou-lhe A não maldito. Disse que sabia tudo, que ia denunciar, que ia acabar com aquilo. Kéber respondeu, nem olhou, apenas se virou de costas e foi embora. Na segunda-feira, o rapaz foi embora também, mas não de carro, nem de autocarro.

 foi internado numa clínica psiquiátrica em São Luís, diagnóstico, surto de pânico. A mãe dele disse, ele dizia que os olhos do Cléber estavam dentro do quarto, mesmo com a porta trancada. Foi aí que os antigos começaram a falar, gente que se calava há anos começaram a contar histórias do passado, histórias que a cidade engoliu da aquele padre dos anos 80 também desapareceu, né? Houve um vereador que morreu do nada, lembras-te? E a professora que trancava aluno na casa de banho, aquela caiu da escada.

 Começaram a ligar factos soltos. Começaram a olhar para o Cléber como se ele fizesse parte de colinas desde antes, desde sempre, como se não tivesse nascido, como se tivesse sido gerado pela própria injustiça da cidade. Nesse mês, Cléber deixou de varrer. Não apareceu mais no mercado, nem na praça, nem na igreja.

 Não porque desapareceu, mas porque já não precisava. A cidade já estava limpa ou paralisada. Foi aí que o novo delegado chegou, enviado de São Luís, tenente José Lira, homem duro, seco, habituado a facção e política suja. Primeira coisa que fez foi bater à porta da casa abandonada, onde diziam que Cléber vivia. Não encontrou ninguém.

 Segunda coisa, foi procurar o narrador. Eu? O senhor sabe onde ele está? Sei. Não. Acha que ele vai parar? Ele nunca começou. Tui, como assim? Ele não move-se por escolha, move-se por lembrança. A Lira olhou para mim como se eu fosse louco, mas no fundo compreendeu. No final desse mês, três coisas aconteceram. Um ex-vereador foi encontrado morto com um bilhete no bolso.

 Aos olhos de Deus, o seu nome também pesa. O delegado Lira pediu baixa por questões de saúde. Uma senhora de 86 anos procurou o padre e confessou que batia nos filhos com vara de arame. Disse que tinha a certeza de que um deles contou ao Cléber. O padre perguntou: “E porque é que agora a senhora se arrepende-se?” Ela respondeu: “Porque ele passou ontem à minha porta e senti que era a última oportunidade.

 A cidade agora respirava com cuidado, como se o ar fosse emprestado. E o Cléber não era mais só um homem. Tornou-se presença, virou aviso, tornou-se um espelho, porque cada um, ao olhar para ele, via o próprio passado. E não tem maior medo do que lembrar do que se fez quando se pensava que ninguém estava a olhar.

 Uma manhã foi até à praça. O banco onde costumava sentar estava vazio, mas tinha um envelope em cima. No interior só uma folha escrita à mão, sem nomes, sem data. Só uma frase, o silêncio pesa mais quando ele é seu. Dobrei o papel, guardei e entendi. O Kéber não desapareceu. Ele só deu espaço para o medo cumprir o seu papel.

 Não houve sirene, não houve grito, nem alarido. O Kéber simplesmente não apareceu. Foi numa segunda-feira, daquelas mornas, com cheiro a chuva que nunca chega. A praça estava vazia, o mercado abrindo lentamente e a calçada da igreja suja. A vassoura dele estava encostada no mesmo canto de sempre, mas ele não.

 No início ninguém ligou, atrasou, está doente, foi paraa roça visitar um familiar, mas quando chegou a quarta-feira e nada, o burburinho começou. Até o dono da padaria, que antes fazia piadas com ele, comentou: “Nunca esteve dois dias sem varrer”. Na sexta-feira, o delegado mandou bater à porta da casa onde dormia. Nada.

 quarto vazio, uma coberta dobrada, uma lata de sardinha e um caderno velho. O caderno estava em branco. O desaparecimento do Cléber caiu como silêncio em cima do silêncio, porque o que assustava não era a morte, era o vazio. Todo o mundo esperava ele aparecer um dia com o bonto, a camisa de manga comprida, varrendo calado, mas nada, nem boato, nem sombra, era como se nunca tivesse existido, ou como se tivesse cumprido o que veio fazer e partido.

 A cidade tentou reagir. A prefeitura soltou nota. Desaparecimento de cidadão será investigado com rigor. Mentira. Ninguém investigou nada. Ninguém sabia por onde começar, porque o Cléber não deixava rasto, nem parente, nem documento, apenas lembrança. E foi aí que a cidade começou a mostrar quem realmente era, porque nos dias seguintes ao sumisso, o que surgiu não foi alívio, foi desespero.

 Houve gente que entrou em depressão. Houve bêbado que surtou na praça dizendo que estava a ouvir a vassoura à noite. mulher casada que confessou ao marido um aborto que fez nos anos 80 com ajuda de um vereador já morto. Disse que precisava de tirar o peso antes que o Kéber regressasse, mas o Kéber não voltava e o medo continuava.

 Eu tentei procurar. Fui até aos locais onde costumava passar. Pedi informação, ouvi lenda. Houve um velho que disse: “Entrou na mata e não voltou. A mata engole quem acaba o que veio fazer.” Outro disse: “Foi para o sul. Lá há cidade que protege este tipo de pessoas, até ouvir dizer que foi abduzida a mente do povo quando assustada inventa, mas ninguém tinha visto, nem de longe, nem de relance.

 Dias depois, alguém abriu uma denúncia anónima. Dizia que o Cléber tinha sido capturado por polícias corruptos e enterrado num lote vazio. Foram escavar. Só acharam um saco plástico. Lá dentro, um rádio velho e um papel molhado, quase ilegível. Mas dava para ler uma frase: “Vocês cavaram no lugar errado.” A imprensa tentou explorar. Veio gente de fora.

 Blogueiro, youtuber, repórter sensacionalista. Todos saíram com a mesma frase: “A cidade nega”. Mas há aqui qualquer coisa. Um deles tentou entrevistar o padre. O senhor acha que o Kéber era justiceiro? O padre respondeu: “O Keber era consequência, mas matou. Quem matou foi o silêncio. O cemitério começou a receber flores anónimas na sepultura do bebé, do Zeca, do Biloca, até do promotor.

 Flores simples, mas sempre com um papel dobrado por baixo. Mensagens curtas, sem nome. Lembra-se agora? Ainda sente o cheiro da infância? Nem tudo foi esquecido. A cidade começou a deixar de negar e começou a rezar. Não por perdão, mas por esquecimento. Foi quando encontrei um homem na praça, sentado onde o Cléber costumava estar. Estranho, não era da cidade.

 Roupa simples, chapéu de palha, pele queimada do sol. Aproximei-me, ele não me olhou. Está à espera de alguém? Perguntei. Ele respondeu sem virar o rosto. Não, estou à espera do que ele deixou. Quem? Ele me encarou. Olho firme, calmo, e disse: “O que interessa não é onde o Cléber foi, é o que ficou em quem o viu passar.

” E foi embora. Nunca mais vi. Alguns diziam que Cléber nunca existiu, que era um delírio coletivo, uma lenda urbana criada pelo trauma. Mas eu vi, eu vi aquele menino fechado na caixa d’água. Eu vi o adolescente com olho negro a varrer poeira que o vento trazia de novo. Eu vi o homem de olhar vazio, limpando passeios sujos de histórias que ninguém contava.

 E agora via a cidade tentando sobreviver sem ele, mas não tinha mais como porque o Cléber não foi embora. Ele espalhou-se. Uma mulher do bairro de Santo António apareceu no hospital dizendo que ouvia passos à noite, sempre os mesmos, curto, ritmado, arrastado. Fez um exame, nenhum problema, mas ela disse: “Não é doença, é lembrança.

 O novo delegado, mandado de São Luís de novo, tentou reorganizar tudo, chamou reuniões, pediu dossiers, interrogou gente velha, ninguém falou”. No relatório final, escreveu: “Há um padrão na cidade que não é criminal. é espiritual, não se pode punir o que não se pode nomear. Na casa onde Cléber dormia encontraram um item novo.

 Debaixo da cama, uma caixa de madeira. No interior, uma bíblia gasta, um retrato velho de uma criança sorridente, um bilhete com três palavras: “Ainda dói aqui”. Eu sentei-me no mesmo banco da praça num domingo de manhã. Olhei para o canto onde ele varria, o chão sujo, mas ninguém tinha coragem de limpar, porque agora varrer era quase uma provocação.

 Como se dissesse: “Ele já não faz falta”. Mas fazia. fazia mais falta do que tudo o que morreu naquela cidade. Não sei se o Cléber morreu, mas sei que desapareceu no tempo certo. No tempo em que a cidade entendeu que o problema nunca foi ele. Foi tudo que fizeram antes de ele levantar a vassoura. Tudo o que enterraram à espera que nunca mais voltasse, mas voltou na forma dele, no seu silêncio, na sua justiça.

E mesmo sem corpo, sem túmulo, sem foto em jornal, ele ainda está aqui na poeira da praça, no medo do bar, no sono dos culpados e nas recordações que ninguém consegue calar. Faz 3 anos que o Kéber desapareceu e Colinas ainda não voltou ao normal, porque não há forma de voltar quando a cidade conheceu o gosto da memória, e muito menos quando a justiça bateu a porta sem farda, sem toga, sem voz, apenas com passos curtos e uma vassoura.

 Houve gente que tentou esquecer. Reformaram a praça, derrubaram o muro onde apareciam os recados, colocaram câmaras na igreja, fizeram ronda no bairro onde vivia. Mas tudo isto só serviu para recordar, porque era ali que andava, era ali que limpava, era para ali que olhava e mesmo sem estar, parecia estar mais presente do que nunca.

 O que ficou foi um tipo de silêncio diferente. Não o do medo, mas o de aceitação. Cléber uma ameaça, era um reflexo. E o problema nunca foi ele, o problema foi a cidade, que durante décadas deixou tudo apodrecer e depois se espantou quando o cheiro voltou. Um dia, no fim do verão, apareceu uma caixa na porta da igreja.

 Dentro dela, apenas um bilhete escrito à mão. Não se esqueça do nome dos que se riram. Era só isso. Mas o padre entendeu. Levou o papel para o altar, rezou em cima, depois queimou. Ninguém mais foi morto desde o desaparecimento do Cléber, mas o povo mudou. Os que antes troçavam de tudo, agora coxix. As famílias que se diziam honradas, agora fazem questão de tratar bem quem tem menos.

 tem medo de tornar-se lembrança, medo de estar no próximo caderno, mesmo que mais ninguém esteja a escrever. Porque o Cléber não deixou apenas corpos, deixou um novo jeito de medir a culpa. Houve uma noite que Sentei-me na beira do rio Itapecuru, mesmo local onde encontraram o primeiro corpo, o bebé do Zé Batista.

 A água seguia suja, lenta, como sempre. Mas ali eu senti algo. Não era um fantasma, não era arrependimento, era peso. Peso de tudo que a cidade fingiu que não aconteceu, peso de cada nome que ficou sem resposta. Peso do que o Kéber carregou sozinho até desaparecer. Dizem que ele apareceu numa pequena cidade perto de Grajaú.

 Outro disse que o viram no Pará a vender peixe na beira da estrada. Houve quem jurasse ver uma sombra parecida no velório de um político em São Luís, mas nada confirmado, nenhuma foto, nenhuma prova. E talvez seja melhor assim, porque o Cléber nunca quis a fama. Só queria que a dor não passasse batida, que as cicatrizes tivessem nome e que os risos se transformassem em silêncio, como se viraram.

Um dia recebi uma visita. Um menino, uns 20 e poucos anos, dizia ser sobrinho de uma das vítimas. Estava escrevendo um trabalho sobre justiça alternativa. Queria saber do Cléber. Pediu para gravar o meu discurso. Disse que ia fazer podcast, documentário, coisa moderna. Eu disse: “Não, esta história não foi feita para render clique, foi feita para doer.

” Insistiu: “Mas ele era justiceiro.” Fiquei calado um pouco. Depois respondi: “Ele o que a cidade fez com ele, mas o senhor acha que ele foi justo?” Acho que ele foi humano e que nunca é totalmente justo. O rapaz agradeceu e foi-se embora. Nunca mais apareceu. Às vezes à noite penso nele, penso se está vivo, se anda pelas ruas de alguma cidade onde ninguém o conhece, se dorme descansado, se ainda ouve os nomes dentro da cabeça, porque uma coisa eu sei, não matou por prazer, matou por memória. E isso pesa mais.

 A última coisa que recebi foi um envelope. Veio sem remetente, entregue por um estafeta. Lá dentro apenas uma foto, uma parede riscada, graffiti grosseiro, mas a frase, mesmo tremida, era clara: “Nem toda a justiça precisa de ser vista, só sentida. A cidade agora anda noutro ritmo, mais devagar, mais contida.

 Parece que toda a gente espera que o pó volte a mexer, mas ela não mexe, porque o Cléber já varreu o que tinha de varrer e o que sobrou é connosco. Se perguntar se foi herói, digo que não. Se perguntar se foi vilão, também não. Ele foi um espelho, um reflexo deformado de tudo o que Colinas fingiu não ser. Um produto de cada riso cruel, de cada murro não castigado, de cada silêncio cobarde.

 E quando tudo isto se acumulou demais, ele varreu sem fazer barulho, sem pedir permissão. Talvez esteja se perguntando, mas e se ele tivesse escolhido outro caminho? Eu respondo-te com outra questão. E se a cidade tivesse feito diferente com ele? A culpa nunca é só de quem transporta a arma, às vezes é de quem ensinou a apontar.

 E se um dia passar por montes, vai ver que ninguém diz o seu nome em voz alta. Mas se olhar com atenção, vai ver os passeios sempre limpos, vai ver o banco da praça sempre vazio. Vai sentir no ar abafado um certo cuidado na forma como as pessoas olham umas para as outras, porque o Cléber pode ter desaparecido, mas o medo tornou-se respeito e o respeito tornou-se lição daqueles que a escola não ensina, mas a vida cobra, cobra sempre.

 Se em algum momento pensou que não podia ficar impune, então faz o certo, deixa o like, partilha com quem precisa de ouvir e se inscreve, porque aqui contamos o que mais ninguém tem coragem de contar. Yeah.

 

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