A brisa fria que percorre as ruas históricas de Lisboa é, muitas vezes, implacável para aqueles que não têm um teto. Numa manhã banal, um homem de pele marcada pelo tempo e pelo sol caminhava entre os contentores de lixo, recolhendo pacientemente peças de roupa abandonadas. Vestiu um casaco velho ali mesmo, no meio da calçada, tentando aquecer o corpo castigado por anos de vida nas ruas. Para quem passava apressado, ele era apenas mais um rosto invisível na paisagem urbana da capital portuguesa. Contudo, aquele homem escondia um passado glorioso. O seu nome era Perivaldo Lúcio Dantas, e houve um tempo em que os seus pés ágeis levantavam multidões nos maiores estádios do Brasil. Ele não era apenas um ex-jogador; ele era o “Peri da Pituba”, o dono da mítica camisola amarela da Seleção Brasileira, o lateral-direito que desafiou os limites do desporto e conquistou o coração de uma nação.
A história de Perivaldo é um dos mais comoventes e cruéis lembretes da efemeridade da fama. Uma montanha-russa emocional que nos leva das luzes cintilantes dos relvados de futebol de elite até à escuridão solitária da miséria extrema. Para compreender a magnitude da sua queda, é fundamental regressar ao início, ao momento em que a magia começou. Nascido em Itabuna, na Bahia, Perivaldo começou a trilhar o seu caminho no mundo do futebol em 1971, nas camadas jovens do clube da sua cidade. O talento natural, aliado a uma garra inquebrável, fez com que rapidamente chamasse a atenção. Em 1974, foi adquirido pelo Bahia por vinte mil cruzeiros, uma quantia modesta que abriria as portas para uma carreira estelar. Após um breve empréstimo ao Ferroviário, onde o seu brilho se intensificou, regressou ao Bahia para se assumir como titular absoluto. O ano de 1976 marcou a sua consagração definitiva ao receber a cobiçada Bola de Prata pelo seu desempenho magistral no Campeonato Brasileiro.
O estrelato bateu-lhe à porta com força em 1977. O Botafogo, um dos clubes mais tradicionais do Rio de Janeiro, investiu pesado na sua contratação: dois milhões de cruzeiros, uma fortuna para a época. No “Glorioso”, Perivaldo transcendeu a condição de simples atleta e transformou-se num verdadeiro ídolo, uma figura folclórica que a torcida abraçou com paixão. Passou a ser conhecido como o “Lateral das Multidões”. A sua dedicação era descrita como sobre-humana. Conta-se que ele era capaz de disputar um clássico escaldante no Maracanã lotado num domingo e, na manhã seguinte, treinar com a equipa de reservas com a mesma intensidade e ferocidade de uma final de campeonato. A ligação com os adeptos era profunda e recíproca. Cantavam o seu nome nas bancadas, e ele retribuía no campo, não apenas a defender, mas a assumir a responsabilidade de bater grandes penalidades e, incrivelmente, a tornar-se o artilheiro da equipa numa das temporadas.
O ápice técnico e mediático chegou no início da década de oitenta. O futebol brasileiro fervilhava com talentos inigualáveis, e Perivaldo garantiu o seu espaço. A sua chamada à Seleção Brasileira em 1981 é recordada por muitos, especialmente por um lance que entrou para a antologia do futebol: uma bicicleta espetacular em cima da linha de baliza, que salvou o Brasil de uma derrota certa contra a Checoslováquia. Ele disputava a posição taco a taco com lendas como Leandro e Edevaldo. Contudo, o destino por vezes é irónico, e ele acabou por ficar de fora da lendária equipa que viajou para o Campeonato do Mundo de 1982, em Espanha.
A partir desse momento, a trajetória brilhante começou a mostrar fissuras. Em 1983, uma transferência milionária levou-o ao Palmeiras por cem milhões de cruzeiros, mas uma lesão grave durante a pré-temporada cortou-lhe o ímpeto e comprometeu a sua passagem pelo clube paulista. Descontente com a reserva, procurou novos ares no Bangu, um clube carioca na altura gerido pelo folclórico bicheiro Castor de Andrade, de quem exigiu e recebeu um apartamento na cobiçada Zona Sul do Rio de Janeiro. A sua aventura continuou de forma surpreendente na Ásia, vestindo as cores do Yukong Elephants, na Coreia do Sul, antes de decidir tentar a sorte no futebol europeu.
O sonho europeu trouxe-o a Portugal. Esteve muito perto de assinar pelo Sporting Clube de Portugal, um dos gigantes de Lisboa, mas a rígida regra de limite de jogadores estrangeiros acabou por deitar por terra essa oportunidade. Restaram-lhe equipas de menor dimensão, como o Louletano e o Torreense, onde acabou por pendurar definitivamente as chuteiras. Até aqui, a narrativa de Perivaldo assemelha-se à de muitos jogadores profissionais que encerram as suas carreiras longe dos grandes palcos. O que ninguém poderia prever era a tragédia silenciosa que se seguiria.
Após abandonar os relvados, Perivaldo decidiu estabelecer-se em Portugal. Viveu em várias localidades, desde a paradisíaca ilha de Porto Santo, na Madeira, passando por Espinho, até se fixar na vibrante e cosmopolita Lisboa. Numa primeira fase, a vida parecia estável. O ex-craque conseguiu reinventar-se e encontrou trabalho como cozinheiro num luxuoso hotel lisboeta. O salário, a rondar os quatro mil euros mensais à época, garantia-lhe um padrão de vida mais do que confortável. Parecia que o “Peri da Pituba” tinha encontrado a sua paz e a sua nova vocação.
Contudo, a estabilidade é muitas vezes uma ilusão frágil. Segundo relatos e confidências posteriores, um envolvimento amoroso marcou o início de uma espiral destrutiva que consumiria tudo o que havia conquistado. A má gestão do dinheiro, empréstimos sucessivos que nunca foram saldados e investimentos ruinosos ditaram a sua falência absoluta. O homem que em tempos geria contratos milionários viu-se, repentinamente, sem nada. Para tentar sobreviver, mergulhou no mercado de trabalho informal e precário. Fez entregas de sanduíches para operários da construção civil e começou a aceitar pequenos serviços em feiras locais.
Quando os parcos recursos se esgotaram por completo, Perivaldo perdeu a casa. As ruas de Lisboa tornaram-se o seu teto. O ex-ídolo da Seleção Brasileira passava os dias a tentar sobreviver, vendendo roupa usada na tradicional Feira da Ladra. O seu carisma inato era a sua única arma contra o desespero. Brincava com os clientes, cantarolava músicas e, num rasgo de humor defensivo, apelidava-se de “Grifalvo” – uma mistura de grife e Perivaldo. Por baixo desse sorriso amargo e da extroversão contagiante, escondia-se uma dor inimaginável. A vergonha de assumir a derrota perante o mundo impediu-o de pedir ajuda. Durante anos, a Federação Portuguesa de Futebol desconhecia o seu paradeiro; oficialmente, o ex-internacional brasileiro não existia.
O ponto de viragem nesta tragédia ocorreu de forma fortuita. O conhecido humorista português Nilton Rodrigues, a passear pela Feira da Ladra, reconheceu a figura ímpar e decidiu entrevistá-lo para o programa “5 para a meia-noite”, da televisão pública portuguesa (RTP). A história começou a ganhar contornos mediáticos, mas foi em 2013, quando o famoso programa brasileiro “Fantástico”, da Rede Globo, exibiu uma reportagem profunda sobre a sua condição, que o Brasil acordou em choque. As imagens do antigo herói nacional a vasculhar o lixo em Lisboa e a vender farrapos nas calçadas provocaram uma onda de comoção sem precedentes.
A sociedade brasileira não podia permitir que um dos seus filhos ilustres terminasse os seus dias no abandono. Imediatamente, dirigentes do Sindicato de Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (SAFERJ), profundamente sensibilizados com a reportagem, mobilizaram-se. Numa missão de resgate carregada de emoção, o presidente do sindicato viajou até Portugal na companhia de um dos filhos de Perivaldo. O objetivo era simples e urgente: resgatar a dignidade do ser humano por trás do ídolo e trazê-lo de volta a casa.
O regresso ao Brasil marcou a tão desejada redenção. Perivaldo não foi apenas acolhido com abraços; foi-lhe devolvido o propósito de vida. O sindicato ofereceu-lhe um emprego fixo, habitação e um salário estável. Passou a exercer a função de auxiliar técnico, trabalhando diretamente com dezenas de jogadores desempregados que treinavam nas instalações da instituição à espera de uma nova oportunidade nos relvados. Ali, Perivaldo não partilhava apenas o seu vasto conhecimento tático e técnico adquirido em décadas de futebol de alto nível. O seu papel mais importante era o de conselheiro. Tornou-se um exemplo vivo, um espelho das perigosas armadilhas que aguardam os jovens deslumbrados com o glamour e o dinheiro fácil. Ele ensinou-lhes que a glória é efémera, mas as consequências das más escolhas são implacáveis e duradouras.
Os últimos anos de vida do “Lateral das Multidões” foram, finalmente, pacíficos e dignos. Reencontrou o equilíbrio, restabeleceu os laços familiares que se haviam perdido no tempo e recuperou o orgulho de pertencer à grande família do futebol. No entanto, os anos de provações, o frio das madrugadas passadas ao relento e as dificuldades extremas haviam deixado marcas profundas e irreversíveis na sua saúde. Em julho de 2017, o seu corpo, já fragilizado e cansado de tantas batalhas, foi acometido por uma pneumonia severa. Mesmo internado num hospital na Zona Norte do Rio de Janeiro e recebendo todos os cuidados médicos possíveis, a doença evoluiu de forma fatal.
No dia 27 de julho de 2017, aos 64 anos de idade, Perivaldo Lúcio Dantas despediu-se definitivamente da vida. A sua morte cobriu de luto o futebol nacional, mas deixou para trás uma herança imaterial que transcende as quatro linhas do campo. A sua trajetória continua a ser um alerta gritante sobre as vulnerabilidades humanas perante a fama e a ausência de estrutura no desporto profissional. Perivaldo conheceu o cume do mundo, mergulhou no abismo da sociedade e, com uma coragem admirável, conseguiu reerguer-se para contar a sua história. O “Peri da Pituba” não será lembrado apenas pelas arrancadas fenomenais ou pelo épico pontapé de bicicleta, mas pela sua inabalável resiliência. O homem que parou o Maracanã encontrou, na sua derradeira batalha, a vitória mais importante de todas: a recuperação da sua própria humanidade.